Orpheu Nº2 Revista Trimestral de Literatura

Chapter 3

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Ah, todo o cais é uma saudade de pedra! E quando o navio larga do cais E se repara de repente que se abriu um espaço Entre o cais e o navio, Vem-me, não sei porquê, uma angústia recente, Uma névoa de sentimentos de tristeza Que brilha ao sol das minhas angústias relvadas Como a primeira janela onde a madrugada bate, E me envolve como uma recordação duma outra pessôa Que fôsse misteriosamente minha.

Ah, quem sabe, quem sabe, Se não parti outrora, antes de mim, Dum cais; se não deixei, navio ao sol Oblíquo da madrugada, Uma outra espécie de porto? Quem sabe se não deixei, antes de a hora Do mundo exterior como eu o vejo Raiar-se para mim, Um grande cais cheio de pouca gente, Duma grande cidade meio-desperta, Duma enorme cidade comercial, crescida, apoplética, Tanto quanto isso pode ser fora do Espaço e do Tempo?

Sim, dum cais, dum cais dalgum modo material, Real, visível como cais, cais realmente, O Cais Absoluto por cujo modêlo inconscientemente imitado, Insensívelmente evocado, Nós os homens construímos Os nossos cais nos nossos portos, Os nossos cais de pedra actual sôbre ágoa verdadeira, Que depois de construídos se anunciam de repente Cousas-Reais, Espíritos-Cousas, Entidades em Pedra-Almas, A certos momentos nossos de sentimento-raiz Quando no mundo-exterior como que se abre uma porta E, sem que nada se altere, Tudo se revela diverso.

Ah o Grande Cais donde partimos em Navios-Nações! O Grande Cais Anterior, eterno e divino! De que porto? Em que ágoas? E porque, penso eu isto? Grande Cais como os outros cais, mas o Único. Cheio como êles de silêncios rumorosos nas antemanhãs, E desabrochando com as manhãs num ruído de guindastes E chegadas de comboios de mercadorias, E sob a nuvem negra e ocasional e leve Do fumo das chaminés das fábricas próximas Que lhe sombreia o chão preto de carvão pequenino que brilha, Como se fôsse a sombra duma nuvem que passasse sôbre água sombria.

Ah, que essencialidade de mistério e sentidos parados Em divino extase revelador Ás horas côr de silêncios e angústias Não é ponte entre qualquer cais e O Cais!

Cais negramente reflectido nas águas paradas, Bulício a bordo dos navios, Ó alma errante e instável da gente que anda embarcada, Da gente simbólica que passa e com quem nada dura, Que quando o navio volta ao porto Ha sempre qualquer alteração a bordo!

Ó fugas contínuas, idas, ebriedade do Diverso! Alma eterna dos navegadores e das navegações! Cascos reflectidos de vagar nas ágoas, Quando o navio larga do porto! Fluctuar como alma da vida, partir como voz, Viver o momento trémulamente sôbre ágoas eternas. Acordar para dias mais directos que os dias da Europa, Vêr portos misteriosos sôbre a solidão do mar, Virar cabos longinqùos para súbitas vastas paisagens Por inumeráveis encostas atónitas...

Ah, as praias longinqùas, os cais vistos de longe, E depois as praias proximas, os cais vistos de perto. O mistério de cada ida e de cada chegada, A dolorosa instabilidade e incompreensibilidade Dêste impossível universo A cada hora marítima mais na própria pele sentido! O soluço absurdo que as nossas almas derramam Sôbre as extensões de mares diferentes com ilhas ao longe, Sôbre as ilhas longinqùas das costas deixadas passar, Sôbre o crescer nítido dos portos, com as suas casas e a sua gente, Para o navio que se aproxima.

Ah, a frescura das manhãs em que se chega, E a palidez das manhãs em que se parte, Quando as nossas entranhas se arrepanham E uma vaga sensação parecida com um mêdo --O mêdo ancestral de se afastar e partir, O misterioso receio ancestral à Chegada e ao Novo-- Encolhe-nos a pele e agonia-nos, E todo o nosso corpo angustiado sente, Como se fôsse a nossa alma, Uma inexplicável vontade de poder sentir isto doutra maneira: Uma saudade a qualquer cousa, Uma perturbação de afeições a que vaga patria? A que costa? a que navio? a que cais? Que se adoece em nós o pensamento, E só fica um grande vácuo dentro de nós, Uma ôca saciedade de minutos marítimos, E uma ansiedade vaga que seria tédio ou dôr Se soubesse como sê-lo...

A manhã de verão está, ainda assim, um pouco fresca. Um leve torpôr de noite anda ainda no ar sacudido. Acelera-se ligeiramente o volante dentro de mim. E o paquete vem entrando, porque deve vir entrando sem dúvida, E não porque eu o veja mover-se na sua distância excessiva.

Na minha imaginação êle está já perto e é visível Em toda a extensão das linhas das suas vigias, E treme em mim tudo, toda a carne e toda a pele, Por causa daquela criatura que nunca chega em nenhum barco E eu vim esperar hoje ao cais, por um mandado obliqùo.

Os navios que entram a barra, Os navios que sáem dos portos, Os navios que passam ao longe (Supônho-me vendo-os duma praia deserta)-- Todos êstes navios abstractos quasi na sua ida, Todos êstes navios assim comóvem-me como se fôssem outra cousa E não apenas navios, navios indo e vindo.

E os navios vistos de perto, mesmo que se não vá embarcar nêles, Vistos de baixo, dos botes, muralhas altas de chapas, Vistos dentro, através das câmaras, das salas, das dispensas, Olhando de perto os mastros, afilando-se lá pró alto, Roçando pelas cordas, descendo as escadas incómodas, Cheirando a untada mistura metálica e marítima de tudo aquilo-- Os navios vistos de perto são outra cousa e a mesma cousa, Dão a mesma saudade e a mesma ânsia doutra maneira.

Toda a vida marítima! tudo na vida marítima! Insinua-se no meu sangue toda essa sedução fina E eu scismo indeterminadamente as viagens. Ah, as linhas das costas distantes, achatadas pelo horizonte! Ah, os cabos, as ilhas, as praias areentas! As solidões marítimas, como certos momentos no Pacífico Em que não sei porque sugestão aprendida na escola Se sente pesar sôbre os nervos o facto de que aquele é o maior dos oceanos E o mundo e o sabôr das cousas tornam-se um deserto dentro de nós! A extensão mais humana, mais salpicada, do Atlântico! O Índico, o mais misterioso dos oceanos todos! O Mediterrâneo, dôce, sem mistério nenhum, clássico, um mar pra bater De encontro a esplanadas olhadas de jardins próximos por estátuas brancas! Todos os mares, todos os estreitos, todas as baïas, todos os gôlfos, Queria apertá-los ao peito, sentí-los bem e morrer!

E vós, ó cousas navais, meus velhos brinquedos de sonho! Componde fora de mim a minha vida interior! Quilhas, mastros e velas, rodas do leme, cordagens, Chaminés de vapores, hélices, gáveas, flâmulas, Galdropes, escotilhas, caldeiras, colectores, válvulas, Caí por mim dentro em montão, em monte, Como o conteúdo confuso de uma gaveta despejada no chão! Sêde vós o tesouro da minha avareza febril, Sêde vós os frutos da árvore da minha imaginação, Têma de cantos meus, sangue nas veias da minha inteligência, Vosso seja o laço que me une ao exterior pela estética, Fornecei-me metáforas, imagens, literatura, Porque em real verdade, a sério, literalmente, Minhas sensações são um barco de quilha pró ar, Minha imaginação uma âncora meio submersa, Minha ânsia um remo partido, E a tessitura dos meus nervos uma rêde a secar na praia!

Sôa no acaso do rio um apito, só um. Treme já todo o chão do meu psiquismo. Acelera-se cada vez mais o volante dentro de mim.

Ah, os paquetes, as viagens, o não-se-saber-o-paradeiro De Fulano-de-tal, marítimo, nosso conhecido! Ah, a glória de se saber que um homem que andava comnosco Morreu afogado ao pé duma ilha do Pacífico! Nós que andámos com êle vamos falar nisso a todos, Com um orgulho legítimo, com uma confiança invisível Em que tudo isso tenha um sentido mais belo e mais vasto Que apenas o ter-se perdido o barco onde êle ia E ele ter ido ao fundo por lhe ter entrado ágoa prós pulmões!

Ah, os paquetes, os navios-carvoeiros, os navios de vela! Vão rareando--ai de mim!--os navios de vela nos mares! E eu, que amo a civilisação moderna, eu que beijo com a alma as máquinas, Eu o engenheiro, eu o civilisado, eu o educado no estrangeiro, Gostaria de ter outra vez ao pé da minha vista só veleiros e barcos de madeira, De não saber doutra vida marítima que a antiga vida dos mares! Porque os mares antigos são a Distância Absoluta, O Puro Longe, liberto do peso do Actual... E ah, como aqui tudo me lembra essa vida melhor, Êsses mares, maiores, porque se navegava mais devagar. Êsses mares, misteriosos, porque se sabia menos dêles.

Todo o vapor ao longe é um barco de vela perto. Todo o navio distante visto agora é um navio no passado visto próximo. Todos os marinheiros invisíveis a bordo dos navios no horisonte São os marinheiros visíveis do tempo dos velhos navios, Da época lenta e veleira das navegações perigosas, Da época de madeira e lona das viagens que duravam mêses.

Toma-me pouco a pouco o delírio das cousas marítimas, Penetram-me físicamente o cais e a sua atmosfera, O marulho do Tejo galga-me por cima dos sentidos, E começo a sonhar, começo a envolver-me do sonho das ágoas, Começam a pegar bem as correias-de-transmissão na minh'alma E a aceleração do volante sacode-me nítidamente.

Chamam por mim as ágoas, Chamam por mim os mares. Chamam por mim, levantando uma voz corpórea, os longes, As épocas marítimas todas sentidas no passado, a chamar.

Tu, marinheiro inglês, Jim Barns meu amigo, fôste tu Que me ensinaste êsse grito antiqùíssimo, inglês, Que tão venenosamente resume Para as almas complexas como a minha O chamamento confuso das ágoas, A voz inédita e implícita de todas as cousas do mar, Dos naufrágios, das viagens longinqùas, das travessias perigosas. Êsse teu grito inglês, tornado universal no meu sangue, Sem feitio de grito, sem forma humana nem voz, Êsse grito tremendo que parece soar De dentro duma caverna cuja abóbada é o céu E parece narrar todas as sinistras cousas Que podem acontecer no Longe, no Mar, pela Noite... (Fingias sempre que era por uma escuna que chamavas, E dizias assim, pondo uma mão de cada lado da bôca, Fazendo porta-voz das grandes mãos cortidas e escuras:

Ahò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò--yyyy... Schooner ahò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò-ò--yyyy...)

Escuto-te de aqui, agora, e desperto a qualquer cousa. Estremece o vento. Sobe a manhã. O calor abre. Sinto corarem-me as faces. Meus olhos conscientes dilatam-se. O extase em mim levanta-se, cresce, avança, E com um ruído cego de arruaça acentua-se O giro vivo do volante.

Ó clamoroso chamamento A cujo calor, a cuja fúria fervem em mim Numa unidade explosiva todas as minhas ânsias, Meus próprios tédios tornados dinâmicos, todos!... Apêlo lançado ao meu sangue Dum amôr passado, não sei onde, que volve E ainda tem fôrça para me atraír e puxar, Que ainda tem fôrça para me fazer odiar esta vida Que passo entre a impenetrabilidade física e psíquica Da gente real com que vivo!

Ah, seja como fôr, seja para onde fôr, partir! Largar por aí fora, pelas ondas, pelo perigo, pelo mar, Ir para Longe, ir para Fóra, para a Distância Abstrata, Indefinidamente, pelas noites misteriosas e fundas, Levado, como a poeira, plos ventos, plos vendavais! Ir, ir, ir, ir de vez! Todo o meu sangue raiva por asas! Todo o meu corpo atira-se prá frente! Galgo pla minha imaginação fora em torrentes! Atropelo-me, rujo, precipito-me!... Estoiram em espuma as minhas ânsias E a minha carne é uma onda dando de encontro a rochêdos!

Pensando nisto--ó raiva! pensando nisto--ó fúria! Pensando nesta estreiteza da minha vida cheia de ânsias, Súbitamente, trémulamente, extraorbitadamente, Com uma oscilação viciosa, vasta, violenta, Do volante vivo da minha imaginação, Rompe, por mim, assobiando, silvando, vertiginando, O cio sombrio e sádico da estrídula vida marítima.

Eh marinheiros, gageiros! eh tripulantes, pilotos! Navegadores, mareantes, marujos, aventureiros! Eh capitães de navios! homens ao leme e em mastros! Homens que dormem em beliches rudes! Homens que dormem co'o Perigo a espreitar plas vigias! Homens que dormem co'a Morte por travesseiro! Homens que teem tombadilhos, que teem pontes donde olhar A imensidade imensa do mar imenso! Eh manipuladores dos guindastes de carga! Eh amainadores de velas, fogueiros, criados de bordo! Homens que metem a carga nos porões! Homens que enrolam cabos no convez! Homens que limpam os metais das escotilhas! Homens do leme! homens das máquinas! homens dos mastros! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! Gente de bonet de pala! Gente de camisola de malha! Gente de âncoras e bandeiras cruzadas bordadas no peito! Gente tatuada! gente de cachimbo! gente de amurada! Gente escura de tanto sol, crestada de tanta chuva, Limpa de olhos de tanta imensidade diante dêles, Audaz de rosto de tantos ventos que lhes bateram a valer!

Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! Homens que vistes a Patagonia! Homens que passastes pela Austrália! Que enchestes o vosso olhar de costas que nunca verei! Que fôstes a terra em terras onde nunca descerei! Que comprastes artigos tôscos em colónias à prôa de sertões! E fizestes tudo isso como se não fôsse nada, Como se isso fôsse natural, Como se a vida fôsse isso, Como nem sequer cumprindo um destino! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! Homens do mar actual! homens do mar passado! Comissários de bordo! escravos das galés! combatentes de Lepanto! Piratas do tempo de Roma! Navegadores da Grécia! Fenícios! Cartaginêses! Portuguêses atirados de Sagres Para a aventura indefinida, para o Mar Absoluto, para realizar o Impossivel! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! Homens que erguestes padrões, que destes nomes a cabos! Homens que negociastes pela primeira vez com pretos! Que primeiro vendestes escravos de novas terras! Que destes o primeiro espasmo europeu às negras atónitas! Que trouxestes ouro, missanga, madeiras cheirosas, setas, De encostas explodindo em verde vegetação! Homens que saqueastes tranqùílas povoações africanas, Que fizestes fugir com o ruído de canhões essas raças, Que matastes, roubastes, torturastes, ganhastes Os prémios de Novidade de quem, de cabeça baixa, Arremete contra o mistério de novos mares! Eh-eh-eh-eh-eh! A vós todos num, a vós todos em vós todos como um, A vós todos misturados, entrecruzados, A vós todos sangrentos, violentos, odiados, temidos, sagrados, Eu vos saúdo, eu vos saúdo, eu vos saúdo! Eh-eh-eh-eh-eh! Eh-eh-eh-eh-eh! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! Eh-lahô-lahô-laHO-lahá-á-á-à-à!

Quero ir comvôsco, quero ir comvôsco, Ao mesmo tempo com vós todos Pra toda a parte pr'onde fôstes! Quero encontrar vossos perigos frente a frente, Sentir na minha cara os ventos que engelharam as vossas, Cuspir dos lábios o sal dos mares que beijaram os vossos, Ter braços na vossa faina, partilhar das vossas tormentas, Chegar como vós, emfim, a extraordinários portos! Fugir comvôsco à civilisação! Perder comvôsco a noção da moral! Sentir mudar-se no longe a minha humanidade! Beber comvôsco em mares do sul Novas selvagerias, novas balbúrdias da alma, Novos fogos centrais no meu vulcânico espírito! Ir comvôsco, despir de mim--ah! põe-te daqui pra fora!-- O meu traje de civilisado, a minha brandura de acções, Meu mêdo inato das cadeias, Minha pacífica vida, A minha vida sentada, estática, regrada e revista!

No mar, no mar, no mar, no mar, Eh! pôr no mar, ao vento, às vagas, A minha vida! Salgar de espuma arremessada pelos ventos Meu paladar das grandes viagens. Fustigar de ágoa chicoteante as carnes da minha aventura, Repassar de frios oceânicos os ossos da minha existência, Flagelar, cortar, engelhar de ventos, de espumas, de soes, Meu ser ciclónico e atlântico, Meus nervos postos como enxárcias, Lira nas mãos dos ventos!

Sim, sim, sim... Crucificai-me nas navegações E as minhas espáduas gosarão a minha cruz! Atai-me às viagens como a postes E a sensação dos postes entrará pela minha espinha E eu passarei a senti-los num vasto espasmo passivo! Fazei o que quizerdes de mim, logo que seja nos mares, Sôbre convezes, ao som de vagas, Que me rasgueis, mateis, firais! O que quero é levar prá Morte Uma alma a transbordar de Mar, Ébria a caír das cousas marítimas, Tanto dos marujos como das âncoras, dos cabos, Tanto das costas longinqùas como do ruído dos ventos, Tanto do Longe como do Cais, tanto dos naufrágios Como dos tranqùílos comércios, Tanto dos mastros como das vagas, Levar prá Morte com dôr, voluptuosamente, Um corpo cheio de sanguesugas, a sugar, a sugar, De estranhas verdes absurdas sanguesugas marítimas!

Façam enxárcias das minhas veias! Amarras dos meus músculos! Arranquem-me a pele, préguem-a às quilhas. E possa eu sentir a dôr dos pregos e nunca deixar de sentir! Façam do meu coração uma flâmula de almirante Na hora de guerra dos velhos navios! Cálquem aos pés nos convezes meus olhos arrancados! Quebrem-me os ossos de encontro às amuradas! Fustíguem-me atado aos mastros, fustíguem-me! A todos os ventos de todas as latitudes e longitudes Derramem meu sangue sôbre as ágoas arremessadas Que atravessam o navio, o tombadilho, de lado a lado, Nas vascas bravas das tormentas!

Ter a audácia ao vento dos panos das velas! Ser, como as gáveas altas, o assobio dos ventos! A velha guitarra do Fado dos mares cheios de perigos, Canção para os navegadores ouvirem e não repetirem!

Os marinheiros que se sublevaram Enforcaram o capitão numa vêrga. Desembarcaram um outro numa ilha deserta. _Marooned!_ O sol dos trópicos poz a febre da pirataria antiga Nas minhas veias intensivas. Os ventos da Patagonia tatuaram a minha imaginação De imagens trágicas e obscenas. Fôgo, fôgo, fôgo, dentro de mim! Sangue! sangue! sangue! sangue! Explode todo o meu cérebro! Parte-se-me o mundo em vermelho! Estoiram-me com o som de amarras as veias! E estala em mim, feroz, voraz, A canção do Grande Pirata, A morte berrada do Grande Pirata a cantar Até meter pavôr plas espinhas dos seus homens abaixo. Lá da ré a morrer, e a berrar, a cantar:

_Fifteen men on the Dead Man's Chest._ _Yo-ho-ho and a bottle of rum!_

E depois a gritar, numa voz já irreal, a estoirar no ar:

_Darby M'Graw-aw-aw-aw-aw!_ _Darby M'Graw-aw-aw-aw-aw-aw-aw-aw!_ _Fetch a-a-aft the ru-u-u-u-u-u-u-u-u-um, Darby!_

Eia, que vida essa! essa era a vida, eia! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! Eh-lahô-lahô-laHO-lahá-á-á-à-à! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!

Quilhas partidas, navios ao fundo, sangue nos mares! Convezes cheios de sangue, fragmentos de corpos! Dedos decepados sôbre amuradas! Cabeças de creanças, aqui, acolá! Gente de olhos fora, a gritar, a uivar! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh! Embrulho-me em tudo isto como numa capa no frio! Roço-me por tudo isto como um gata com cio por um muro! Rujo como um leão faminto para tudo isto! Arremeto como um touro louco sôbre tudo isto! Cravo unhas, parto garras, sangro dos dentes sôbre isto! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!

De repente estala-me sôbre os ouvidos Como um clarim a meu lado, O velho grito, mas agora irado, metálico, Chamando a presa que se avista, A escuna que vai ser tomada:

Ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó--yyyy... Schooner ahó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó-ó--yyyy...

O mundo inteiro não existe para mim! Ardo vermelho! Rujo na fúria da abordagem! Pirata-mór! César-Pirata! Pilho, mato, esfacelo, rasgo! Só sinto o mar, a presa, o saque! Só sinto em mim bater, baterem-me As veias das minhas fontes! Escorre sangue quente a minha sensação dos meus olhos! Eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh-eh!

Ah piratas, piratas, piratas! Piratas, amai-me e odiai-me! Misturai-me comvôsco, piratas!

Vossa fúria, vossa crueldade como falam ao sangue Dum corpo de mulher que foi meu outrora e cujo cio sobrevive!

Eu queria ser um bicho representativo de todos os vossos gestos, Um bicho que cravasse dentes nas amuradas, nas quilhas, Que comesse mastros, bebesse sangue e alcatrão nos convezes, Trincasse velas, remos, cordâme e poleâme, Serpente do mar feminina e monstruosa cevando-se nos crimes!

E ha uma sinfonia de sensações incompatíveis e análogas, Ha uma orquestração no meu sangue de balbúrdias de crimes, De estrépitos espasmados de orgias de sangue nos mares, Furibundamente, como um vendaval de calor pelo espírito, Núvem de poeira quente anuviando a minha lucidez E fazendo-me ver e sonhar isto tudo só com a pele e as veias!

Os piratas, a pirataria, os barcos, a hora, Aquela hora marítima em que as presas são assaltadas, E o terror dos apresados foge prá loucura--essa hora, No seu total de crimes, terror, barcos, gente, mar, céu, núvens, Brisa, latitude, longitude, vozearia, Queria eu que fôsse em seu Todo meu corpo em seu Todo, sofrendo,

Que fôsse meu corpo e meu sangue, compozesse meu ser em vermelho, Florescesse como uma ferida comichando na carne irreal da minha alma!

Ah, ser tudo nos crimes! ser todos os elementos componentes Dos assaltos aos barcos e das chacinas e das violações! Ser quanto foi no lugar dos saques! Ser quanto viveu ou jazeu no local das tragédias de sangue! Ser o pirata-resumo de toda a pirataria no seu auge, E a vítima-síntese, mas de carne e ôsso, de todos os piratas do mundo!

Ser no meu corpo passivo a mulher-todas-as-mulheres Que fôram violadas, mortas, feridas, rasgadas plos piratas! Ser no meu ser subjugado a fêmea que tem de ser dêles! E sentir tudo isso--todas estas cousas duma só vez--pela espinha!

Ó meus peludos e rudes herois da aventura e do crime! Minhas marítimas feras, maridos da minha imaginação! Amantes casuais da obliqùídade das minhas sensações! Queria ser Aquela que vos esperasse nos portos, A vós, odiados amados do seu sangue de pirata nos sonhos! Porque ela teria comvôsco, mas só em espírito, raivado Sôbre os cadáveres nus das vítimas que fazeis no mar! Porque ela teria acompanhado vosso crime, e na orgia oceânica Seu espírito de bruxa dançaria invisível em volta dos gestos Dos vossos corpos, dos vossos cutelos, das vossas mãos estranguladoras! E ela em terra, esperando-vos, quando viésseis, se acaso viésseis, Iria beber nos rugidos do vosso amôr todo o vasto, Todo o nevoento e sinistro perfume das vossas vitórias, E através dos vossos espasmos silvaria um sabbat de vermelho e amarelo!

A carne rasgada, a carne aberta e estripada, o sangue correndo! Agora, no auge conciso de sonhar o que vós fazíeis, Perco-me todo de mim, já não vos pertenço, sou vós, A minha femininidade que vos acompanha é ser as vossas almas! Estar por dentro de toda a vossa ferocidade, quando a praticáveis! Sugar por dentro a vossa consciência das vossas sensações Quando tingíeis de sangue os mares altos, Quando de vez em quando atiráveis aos tubarões Os corpos vivos ainda dos feridos, a carne rosada das creanças E leváveis as mãis às amuradas para vêrem o que lhes acontecia!

Estar comvôsco na carnágem, na pilhágem! Estar orquestrado comvôsco na sinfonia dos saques! Ah, não sei quê, não sei quanto queria eu ser de vós! Não era só sêr-vos a fêmea, sêr-vos as fêmeas, sêr-vos as vítimas, Sêr-vos as vítimas--homens, mulheres, creanças, navios--, Não era só ser a hora e os barcos e as ondas, Não era só ser vossas almas, vossos corpos, vossa fúria, vossa posse, Não era só ser concretamente vosso acto abstrato de orgia, Não era só isto que eu queria ser--era mais que isto, o Deus-isto! Era preciso ser Deus, o Deus dum culto ao contrário, Um Deus monstruoso e satânico, um Deus dum pantheismo de sangue, Para poder encher toda a medida da minha fúria imaginativa, Para poder nunca esgotar os meus desejos de identidade Com o cada, e o tudo, e o mais-que-tudo das vossas vitórias!

Ah, torturai-me para me curardes! Minha carne--fazei dela o ar que os vossos cutelos atravessam Antes de caírem sôbre as cabeças e os ombros! Minhas veias sejam os fatos que as facas trespassam! Minha imaginação o corpo das mulheres que violais! Minha inteligência o convez onde estais de pé matando! Minha vida toda, no seu conjunto nervoso, histérico, absurdo, O grande organismo de que cada acto de pirataria que se cometeu Fôsse uma célula consciente--e todo eu turbilhonasse Como uma imensa podridão ondeando, e fôsse aquilo tudo!

Com tal velocidade desmedida, pavorosa, A máquina de febre das minhas visões transbordantes Gira agora que a minha consciência, volante, É apenas um nevoento círculo assobiando no ar.

_Fifteen men on the Dead Man's Chest._ _Yo-ho-ho and a bottle of rum!_

Eh-lahô-lahô-laHO--lahá-á-ááá--ààà...