Orpheu Nº2 Revista Trimestral de Literatura
Chapter 2
--_Un vermouth cassis_... _Un Pernod à l'eau_... _Un amer-citron_... _une grenadine_...
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Levanto-me... --Derrota! Ao fundo, em maior excesso, ha espelhos que reflectem Tudo quanto oscila pelo Ar: Mais belo através dêles, A mais subtil destaque... --Ó sonho desprendido, ó luar errado, Nunca em meus versos poderei cantar, Como anseara, até ao espasmo e ao Oiro, Toda essa Beleza inatingivel, Essa Beleza pura!
Rólo de mim por uma escada abaixo... Minhas mãos aperreio, Esqueço-me de todo da ideia de que as pintava... E os dentes a ranger, os olhos desviados, Sem chapéu, como um possesso: Decido-me! Corro então para a rua aos pinotes e aos gritos:
--Hilá! Hilá! Hilá-hô! Eh! Eh!...
Tum... tum... tum... tum tum tum tum...
*VLIIIMIIIIM...*
*BRÁ-ÔH... BRÁ-ÔH... BRÁ-ÔH!...*
*FUTSCH! FUTSCH!...*
*ZING-TANG... ZING-TANG...* *TANG... TANG... TANG...*
*PRÁ Á K K!...*
_Lisboa--Maio de 1915._
MARIO DE SÁ-CARNEIRO.
[Nota do Transcritor: Aqui surge a fotogravação de _Hors Texte_ de Santa Rita Pintor.]
*SANTA RITA PINTOR.* PARIS ANNO 1913.
Compenetração estática interior de uma cabeça--complementarismo congénito absoluto.
_(SENSIBILIDADE LITHOGRAPHICA.)_
*POEMAS*
DE
EDUARDO GUIMARAENS
_SOBRE O CYSNE DE STÉPHANE MALLARMÉ_
Um sonho existe em nós como um cysne num lago de agua profunda e clara e em cujo fundo existe um outro cysne branco e ainda mais branco e triste que a sua fórma real de um tom dolente e vago.
Nada: e os gestos que tem, de caricia e de afago, lembram da imagem tenue, onde a tristeza insiste em ser mais alva, a graça inversa que consiste a dolente mudez de um espelho presago.
Um Cysne existe em nós como um sonho de calma, placido, um Cysne branco e triste, longo e lasso e puro, sobre a face occulta de nossa alma.
E a sua imagem lembra a imagem de um destino de pureza e de amôr que segue, passo a passo, este Sonho immortal como um Cysne divino.
_FOLHAS MORTAS_
Dêste relogio belga, enorme, branco e triste, tombam as horas como folhas mortas. Por uma tarde outomnal, triste de spleen e folhas mortas: Em cada vaso negro ha um lirio nobre e triste.
Em cada vaso negro ha um lirio nobre e triste e as horas tombam como folhas mortas. Porque não nasci eu um lirio nobre e triste, pétala sem perfume entre essas folhas mortas?
Um Versalhes fulgura em cada illusão triste, um Versalhes de outomno atapetado de folhas mortas! Em cada vaso negro ha um lirio nobre e triste e as horas tombam como folhas mortas...
_SOB OS TEUS OLHOS SEM LAGRIMAS_
Ah! não dirás por certo que não te amei, que não soffri! --Foi-me a tua alma assim como um salão deserto onde, uma noite, me perdi.
Um ramo de violetas fenecia em cada movel amortalhado pelo pó; a purpura das cortinas, rubra, estremecia presa a cada janella. Eu hesitava, só.
--E era meu coração, por ti quasi ferido, á duvida infantil que o emmudecera já, um velho piano adormecido que ninguem mais acordará.
EDUARDO GUIMARAENS.
*ATELIER*
NOVELA VERTÍGICA
POR
RAUL LEAL
*Atelier*
Em ondas de perfúme estranho as convulsivas exalações do Sonho iluminam vágamente o lár sombrio do artista que outra luz quasi não possue. A poucos pássos duma téla, profunda como a dor que ela evoca, o modelo por entre as vibrações duma alucinação sinistra todo vigorosamente contórce a alma, pelo semblante derramando a tortúra que a alma cava. Compreende a árte, no seu espirito sente a expressão do belo que todo o arrasta e anciósamente procurando ao artista transmitir a sublime inspiração da dôr, fórte, arrebatadora, na própria fisionomia a idialisa torturando o espirito que só assim, no semblante se concretisa... pela dôr! É gigantesca a sua personalidade que ao bélo tudo sacrifica, que só do bélo sábe vivér!...
Envolvido nas trevas convulsivas que o seu espirito concebe, Luar ardentemente transpira o delirio da morte, o espasmo eterno da Existencia que só ele póde sentir, e é nesse ambiente de horror vigorósamente concentrado nele, sintese suprema do Universo, é nesse ambiente, forte e sublime, que Luar, o modelo idial, procura eternamente arrastar a vida!... E o horror em que a sua alma se torna, ele domina e... vigorisa...!
Cresce nesse momento duma arte tragica que a matéria mal toca e em que só o espirito vibra em vibrações transcendentes que mal se concretisam pela sensação, cresce nesses instantes, apagados para a vida vulgar que o intimo das cousas não concebe, que o espiritualismo convulsivo da Existencia totalmente desconhece numa inconsciencia estranha, cresce na alma de Luar a loucura sublime de espirito que a tenebrosa, a imaterial vertigem do Universo, da Vida delirantemente acentua numa tragedia divina, que o transcendentalismo ardente da Ancia todo dolorosamente exprime pelo espasmódico histerismo que a Existencia forma, pelo arrebatamento convulsivo do Sonho Universal!... E nesses instantes tudo nele vibra, tudo que é nele o Espirito... Da sua concepção trágica se alimenta, alimentando-se, assim, da sua alma, da sua alma que se torna a alma da Existencia!
No atelier do pintor Luar vigorosamente assim prepara a alma, preparando assim, a expressão do semblante. E torna-se sublime, atinge a vertigem do Infinito... Através do seu delirio, do sonho convulsivo que todo o arrebata, ele desperta o artista que assim, todo se sublima tambem! É Luar a própria inspiração que o artista eterisa...
Num crescendo impetuoso o sonho em que Luar todo se torna, no génio do pintor se evóla todo e, assim, o artista em que o sonho vágamente se esbáte perdendo-se por fim, na mesma diáfana atmosféra idial se eléva, trágicamente divinisando a alma!... Tudo é etéreo e profundamente convulsivo; uma alucinação vibrante tudo transforma, tudo arrebata no seu turbilhão genial...! Uma poderósa acção mediumnica a levitação total das cousas, assim eterisadas, provoca então... E é Luar o fóco tenebroso da alucinação sinistra que em redór se esbáte, vagificando-se mais!...
No arrebatamento vibrante em que a alma de Luar, em que Luar consigo arrasta tudo, uma paixão crescente fortemente se esboça e ela que a personalidade genial do modelo agita toda, nas convulsões da carne toda se exprimindo, em ondas soluçantes d'ancia se espraia impetuosamente através do éter nebuloso que todo se perde na mansão do artista!... Formidavel se torna a paixão crescente que tudo arrebata e tudo quer arrebatar... Como duendes infernaes que mal se esbocem, a concepção doentia de Luar sombras efémeras vertiginosamente gera e tudo que os sentidos ainda pode ferir, num paroxismo de loucura se debate convulsivamente em estertôr qual caterva turbilhonaria de todas as expressões da dôr que só uma alma vigorosa conceber póde! Sim, tudo na alma de Luar se transforma e tudo ardentemente êle quer transformar...! Ele quer transformar, tudo no seu espirito arrebatando!...
É para o artista que a sua alma trabalha, é pois, o artista que na sua concepção mais se divinisa...! É êle o reflexo vibrante do seu sonho, do sonho que o forma, em que convulsamente todo se eterisa...! Suprema emanação se torna da sua alma!... Só a inspiração o sublima, o personalisa--e a inspiração é Luar!
Esse ser estranho que ele próprio criou e que na tela genialmente lhe derrama a alma, Luar, cheio d'ancia, conservar quer no seu espirito e transformando-se, então, em ondas de volúpia a sua paixão ardente, a paixão da dôr, como laços infernais as lança ao artista que num turbilhão de fôgo, o fogo da sua paixão, todo arrebatar quer para a sua alma!... Uma luta intima, obscura se gera! Impetuosas são as convulsões de espirito que, emanadas de Luar, a personalidade do artista sacodem toda mas, como resplendor diáfano duma luz infinita, no artista surgem esbatidas, perdendo-se através do espaço!... E Luar isto pressente e o seu próprio sonho, na imaginação do pintor rialisado, ele quasi deixa desprender... pelo temor duma vitória alheia! A sua própria fôrça inspiradora o aterrorisa. Se rialmente o artista se não deixasse enlevar no sonho de Luar, acaso na vaga eterisação espiritual encontrar-se-hia?... Não e, assim, qualquer fôrça esmagadora, de Luar mal vinda, abruptamente o não faria despenhar-se na matéria em que já permaneceria e que o hábito tornaria então, quasi insentivel. Luar teme ser incompreendido. Se toda a sua paixão sobre o artista desencadear num deboche supremo, paroxismo da arte, o artista que, simples reflexo do foco inspirador, o não atingiu ainda, e nubelosa instável, simples irradiação do sonho em que vagamente se banha, toda poderá romper, perdendo-se para sempre da alma de Luar numa queda fatal. Mas a ancia é igualmente forte, a ancia em completar a evolução do artista no foco tenebroso da sua alma!... Porém, a fôrça infinita Luar não possue ainda, a sua fôrça esbate-se, a continuidade do Infinito não contém... A arte, em seu luxurioso paroxismo espasmo da dôr, ainda na alma do artista se define, se concretisa em imagens, só a imagem ele concebe, não concebe o Espirito, o Absoluto Indefinido que num deboche de espirito vertiginosamente se desencadearia!... E acaso o vigôr duma luxúria transcendente e a selvática brutalidade material o artista não poderá confundir, despenhando-se do sonho diáfano que, emanado de Luar, nele se esboça, apenas?...
Luar quer o artista arrebatar emfim, por totalmente o interiorisar em si através dum deboche convulsivo--ardentemente anceia mas o temor hesitante o torna, o temor de ser incompreendido, de como simples animal, cheio de cio, ser considerado, emfim, de perder para sempre a alma a que tanto aspira!... Teme a sua fôrça e a sua fraqueza, a sua fôrça que, por uma ilusão cruel, o horror da matéria pode desenrolar perante o artista, erguido acima dela que, assim, desprezivel se mostra, a sua fraqueza que mais não pode elevar o artista, mais, até ao paroxismo da arte que é o paroxismo do deboche e... da dôr!... E o artista admira Luar, não o sente, nas convulsões da sua alma não se quer fundir... Não admiramos o que a nós é estranho, sentindo então, o que já não admiramos?...
E é horrivel a angústia em que Luar se debate, ele jámais sonhou uma dôr assim! Como farrapos de nuvens tenebrosas numa dança macabra, figuras vagas e obscuras da alma de Luar se erguem, dolorosamente se contorcendo todas e todas vertiginosamente se debatendo numa loucura genial, a loucura da Existencia, do Espirito..., e nessa vertigem suprema em que a tortura e a convulsão doidamente se misturam, se confundem, um ponto de luz sinistra, numa expressão vaga de sonho, ao fundo se esboça através da lividez da morte e como que indiferente ao turbilhão lúgubre de dôr que só a alma de Luar soube criar!... É o artista que, espiritualisado na concepção sublime do modêlo, na alucinação tenebrosa da sua alma estranha, ao longe vagueia a alma perdidamente, num cinismo de estéta friamente admirando a dôr que, num debate prodigioso, o espasmo da morte intensifica através dum cáos infinito, duma vertigem convulsiva...! Sôfregos turbilhões a alma de Luar do seu próprio âmago tenebroso arranca mas, quais vagas impetuosas que todas se despedacem, se percam de encontro ao trágico granito, as torrentes tempestuosas dêsse feérico oceano espiritual todas aterrorisadoramente se quebram por entre as rígidas malhas impenetráveis da alma do artista!
Todo êsse convulsionismo gigantêsco que sublima Luar, essa ancia invencivel, ardente de, por um deboche estulto, dominar o artista, o modêlo mais não pode suportar e, caindo, então, numa prostração infinda em que toda a sua alma se dissolve, como que um campo noturno se torna duma batalha passada o qual uma luz pálida, sombria de lua vagamente ilumine, a luz vaga que o artista da sua alma toda, então, exála!... Foi o artista a luz vaga do ultimo quadrante quando, num delirio de morte, numa cavalgada inconsciente, nuvens tenebrosas em convulsões a envolvem sem a arrebatar, e agora, sempre sereno, frio, lúgubre, a sua pálida luz derrama na alma do modêlo através duma vaga neblina silenciosa, da névoa melancólica em que a alma de Luar toda se exála, se esvai...!
Mas uma torrente de fôgo Luar novamente abraza e do seu repouso instantâneo, súbito, se erguendo, numa arrancada formidável sôbre o artista se lança, cravando-o de beijos em que lhe quer arrebatar a alma! Em convulsões que o repouso alimentou, todo o seu espirito se põe, torna-se indomável, gigantêsco, impetuoso qual vaga rancorosa que um vulcão eleve, qual torrente devastadora de Apocalypse Fatal!...
O artista cheio de pasmo o olha, e naquela arrancada impetuosa ambos na terra se despenham, esquecendo o sonho, a alucinação... A paz volta aos espiritos, uma paz lúgubre, cheia de preságios sinistros! O paroxismo da dôr não poude ser atingido, para ambos se perdeu...! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Passaram-se já alguns dias. O artista uma comoção profunda no seu espirito sofre, sob um novo aspecto olha o modelo, já quási lhe sente a alma... Encarna-se na tenebrosa escabrosidade do seu espírito trágico, sente-o mais belo, mais profundo, sublime...! Os transes variados em que bruscamente se lançára Luar naquela tarde tragica, essa variedade de transes que o modelo tão vigorosamente suportára, entontece-lhe a alma, já não o admira apenas, deseja-o e cheio de ardor, de ancia!...
Procura-o em toda a parte e, por fim, encontrando-o, repleto duma luxuria de espirito lhe diz: «Jámais te compreendi, Luar, como agora te compreendo. Talvez te não compreendesse ainda se logo tivesse cedido ao teu desejo. Mas o tempo tive de refletir, de sonhar em ti. A tua nobreza estranha que, após o meu pasmo, subitamente te acalmou os nervos, fundamente me impressionou, os contrastes da tua alma são maravilhosos e só a tua personalidade sublime, genial... a oscilações bruscas de caráter poderia resistir! Quero-te pois, a tua ancia é, hoje, a minha; sem os teus beijos profundos não posso passar, a minha carne na tua se entranhará para que na tua alma se espiritualise toda!...» E procura-lhe a boca. Luar suávemente o afasta, dizendo-lhe, apenas: «Refleti tambem, sonhei... Amanhã conhecerás o meu sonho.»
No dia seguinte, o artista recebe uma carta que os seguintes termos contém:
_Meu querido amigo_
Estranharás talvez que só agora te exponha o meu sonho derradeiro mas preciso de toda a minha alma e, só quando escrevo, aos borbulhões caudalosamente a broto de mim. Sem a pena, mantenho-me numa concentração trágica, mal mostro aos outros o meu espirito. É que o derramamento da alma no papel é ainda quási espiritual, a alma em excesso se não exteriorisa, impuramente se não materialisando.
Diz-me, se num drama, se numa tragédia vigorosa uma tempestade formidavel, num paroxismo fatal, se desencadeasse toda, atingindo, por fim, um limite definido que a banalisasse, acaso admirarias esse drama, essa tragedia?... Pois bem, o indefinido a que na arte nós aspiramos, essa ancia de idial que mais do que o idial para nós vale, essa ancia, esse desejo infinito e jámais satisfeito deve encher a nossa vida que a mais alta expressão se tornará assim, da arte pura!...
É vertiginosa a Existencia e espiritual, transcendente é a vertigem dela! Jámais a extensão conhece, no Espirito Puro que a extensão transcende, a vertigem se personalisa, se consubstancia, se acentua toda, não se espalha numa actividade mecanica, é a actividade espiritual, o dinamismo puro!... Está nisso a sua beleza, a sua propria existencia que, só assim, toda confundida num Todo, no Infinitesimal, na Mónada, que só assim se acentua toda, só assim se dá!... É sublime o convulsionismo espiritual e só ele é sublime! De que deriva a sua sublimidade? Da sua energia que só no Espirito, na Mónada se acentua toda!...
Ha pois, na vertigem convulsiva da Existencia uma expansão tenebrosa. Toda a actividade, a energia toda que a forma, no espaço e no tempo não se expande, mantem-se torturada no Infinitesimal. É infinita, eternamente tudo alcança, infinitesimalisa-se, espiritualisa-se pois...
Só no transcendental existe, só nele eternamente se debate!
Tem uma expansão, uma liberdade infinita que, como infinita, tudo atinge eternamente, como que eternamente se autodestruindo assim!... Se só no Transcendental existe, se é transcendente, se no mesmo ponto infinitesimal, na Mónada, eternamente se debate é que a si própria se contorce toda numa tortura infinita!... E não exprime a dôr e sobretudo a ancia o convulsionismo transcendente, torturado, contorcido da actividade pura, espiritual?... não é ela a expressão sublime da Vertigem?... Na dôr, na ancia devemos viver!
A transcendentalisação suprêma da energia pura, espiritualisando-a, em absoluto a indefine, o Infinitesimal em que a energia eternamente se debate, o indefinismo absoluto contêm. E ela propria, a própria atividade em si não exprime já o Indefinido?... Quando transcendente, é o indefinismo dela absoluto, ela torna-se a Vertigem! E que cousa é a ancia, a ancia em si, senão o limiar privilegiado dessa Vertigem Pura, o seu sintoma magnifico, a sua acentuação humana?... Ao indefinido na arte aspiramos pois, a um indefinido cheio de tortura, «rafiné» como o que o génio de Baudelaire compreendeu e quando essa tortura do Indefinido enche o intimo da nossa alma, então, cheia d'ancia--e, assim, Nietzsche quasi a desejou--ela quasi atinge o paroxismo eterno da Existencia que toda se debate na Vertigem Infinita! E não só na arte deve existir a ancia mas tambem na vida, a ancia dolorosa do Indefinido!...
A ancia não é só a dôr, não é qualquer dôr. Pode esta ser deprimente, humilhante: e sempre o é quando não compreendida, quando em sua beleza suprema sentida não pode ser!... A dôr forte, virilisadora, a dôr profunda e amoral, a dôr em que o eu domine, dôr de espirito... é que é a dôr suprema, a dôr estética! Dominar na dôr, sentir a fôrça de viver nela, prazer infindo...! E a tortura transcendental da Existencia em que a Vertigem toda se acentua, se impõe, se personalisa, a dôr suprema, a dôr personalisadora não exprime toda?...
Afastemos pois, a nossa carne. Se a satisfizéssemos, não, se satisfizéssemos o espirito que, só êle, através da carne atua, banalisar-nos-íamos, ao nosso drama daríamos um final burguez! Ele teria um fim, um limite determinado de que, em breve, as nossas almas se enfartariam decerto. Sejamos estétas, vivamos eternamente do desejo que, só êle, personalisa a alma, para a nossa vista espiritual gigantesca tornando-a!... É estranho o meu pedido mas, acaso, estranha não é a Vertigem da Existencia?...
Adeus!...
_Luar._
_Janeiro de 1913._
RAUL LEAL.
(Do livro inédito _Devaneios e Alucinações_.)
*POEMAS*
DUM ANÓNIMO OU ANÓNIMA QUE DIZ CHAMAR-SE
VIOLANTE DE CYSNEIROS
*N. B.*--Apareceram-nos na Redacção estes belos poemas, que um anónimo engenho doente realisou. Publicamo-los, porque disso são dignos, importando-nos pouco a personalidade vital de que possam emanar. Toda a obra de arte é a justificação de si-propria.
_Orpheu_.
_A ALVARO DE CAMPOS,
O MESTRE._
Na noite negra e antiga Ha só a luz do Pharol: Ora loira, côr do sol, Ora vermelha, inimiga.
No seio negro e profundo Da noite em treva dormindo O Pharol é Outro Mundo, Ora chorando, ora rindo.
Na noite negra, afinal, Tudo a elle se limita: Só o pharol é real!
A treva nunca tem fim, Ó sensação infinita, --Sou já só Pharol de Mim!
_Junho, 1915._
* * * * *
Toda a minh'Alma se prende Naquella forma de graça; Mas não é na forma viva Mas sim na Linha que passa.
Toda a minh'Alma se prende, Bate as Asas--esvoaça... E é como a sombra distante D'aquella Linha que passa.
A vida é só o Espaço Que vai da propria Linha Á sombra d'ella num traço.
Quando a Morte fôr vizinha, Fundidas no mesmo Espaço Será tudo a mesma Linha.
_Junho, 1915._
_A ALVARO DE CAMPOS,
O MESTRE._
I
Para Além d'aquelles montes Não ha aves, nem ha fontes, Nem ribeiros, nem campinas, Nem casaes pelas collinas.
Para Além d'aquelles montes Não ha segredos de fontes, Nem Sombras nas Alamedas, Nem hervas, passos ou sedas.
Para Além d'aquelles montes Já não ha arcos de pontes, Nem mãos finas de donzellas, Nem lagos, barcos ou vellas.
II
Para Além d'aquelles montes Existe apenas Espaço! Espaço e tempo são Pontes Que Deus tem no seu regaço.
Pontes que ligam de Auzente Infinito e Eternidade. Só sensações são Presente, Só nellas vive a Verdade.
Passado nunca passou, Futuro não o terei: Pois sempre Presente sou No que Fui, Sou e Serei.
_Junho, 1915._
_AO SR. MARIO DE SÁ-CARNEIRO._
Ha pouco quando bordava Picou-me a ponta dos dedos A agulha com que bordava...
E a seda toda de branca, Branca da côr dos meus dedos, Essa seda que era branca Ficou com papoulas rubras...
Que o sangue das minhas veias Já creou papoulas rubras...
Mas tão sós e tão alheias!
_Junho, 1915._
_AO SR. FERNANDO PESSOA._
Nada em Mim é necessario Nem mesmo o que foi sonhado, Ó contas do meu rosario D'um sonho nunca acabado.
Tudo tão feito de Mim... Só meu longe de passado É como um sonho sem fim Que o Outro tenha sonhado.
Cruso os meus braços. Não fallo. Ouço uma voz dolorida Dentro de Mim evoca-lo.
Marinheiro! Ilha Perdida! E o meu sentido a sonha-lo É a verdade da vida.
_Junho, 1915._
_AO SR. ALFREDO PEDRO GUISADO._
Sobre misterios já idos Ergui-me em curva e de pé Do meu corpo fiz sentidos Num sonho de Salomé.
Curvos os olhos doridos... Curvas as mãos e os braços... Todo o meu corpo pedaços Dos espelhos dos sentidos...
Dancei... Dancei... E o Ver-Me Toda de curva e de pé Era o sentido de Ser-Me.
Presente no meu olhar, Eu fui Outra Salomé Feita de Mim a dançar.
_Junho, 1915._
_AO SR. CÔRTES-RODRIGUES._
Passo no mundo a vivê-lo, Passo no mundo a senti-lo, E esta côr do meu cabello É o vê-lo e o possuí-lo.
Passo no mundo a sonhá-lo, Numa forma de vivê-lo, E o meu sentido d'olhá-lo É o sentido de vê-lo.
Só em Mim me concretiso, E o Sonho da minha vida Nesse Sonho o realiso.
E sempre de Mim Presente, Todo o Meu Ser se limita Em Eu Me Ser Realmente.
_Junho, 1915._
_A MIM PROPRIA
DE HA DOIS ANNOS_
As minhas mãos são esguias, São fusos brancos d'arminho, Onde fiaste e não fias O Sonho do teu carinho.
As minhas mãos são esguias, Côr de rosa são as unhas, E nellas todos os dias Ponho a pomada que punhas.
Quando Eu as fico polindo Perpassa nellas em ancia A tua boca sorrindo...
Mas os meus dedos em i Dizem a longa distancia Que vae de Mim para Ti.
_Junho, 1915._
VIOLANTE DE CYSNEIROS.
*ODE MARÍTIMA*
POR
ALVARO DE CAMPOS
a Santa Rita Pintor.
*Ode marítima*
Sózinho, no cais deserto, a esta manhã de verão, Ólho pró lado da barra, ólho pró Indefinido, Ólho e contenta-me vêr, Pequeno, negro e claro, um paquete entrando. Vem muito longe, nítido, clássico à sua maneira. Deixa no ar distante atrás de si a orla vã do seu fumo. Vem entrando, e a manhã entra com êle, e no rio, Aqui, acolá, acorda a vida marítima, Erguem-se velas, avançam rebocadores, Surgem barcos pequenos de trás dos navios que estão no porto. Ha uma vaga brisa. Mas a minh'alma está com o que vejo menos, Com o paquete que entra, Porque êle está com a Distância, com a Manhã, Com o sentido marítimo desta Hora, Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea, Como um começar a enjoar, mas no espírito.
Ólho de longe o paquete, com uma grande independência de alma, E dentro de mim um volante começa a girar, lentamente.
Os paquetes que entram de manhã na barra Trazem aos meus olhos comsigo O mistério alegre e triste de quem chega e parte. Trazem memórias de cais afastados e doutros momentos Doutro modo da mesma humanidade noutros portos. Todo o atracar, todo o largar de navio, É--sinto-o em mim como o meu sangue-- Inconscientemente simbólico, terrivelmente Ameaçador de significações metafísicas Que perturbam em mim quem eu fui...