Orpheu Nº1 Revista Trimestral de Literatura
Chapter 4
A estampa do pires é igual.
JOSÉ DE ALMADA-NEGREIROS.
*POEMAS*
DE
CÔRTES-RODRIGUES
_ABERTURA DO "LIVRO DA VIDA"_
Transcendencias nubloticas, metaphysicas raras, Modelei a minha Obra com minhas mãos avaras. Litanias liturgicas de febre de paixão, Crepusculos de fogo ardendo em sentimento, Columnas de Além-Sonho, arcos de commoção, Claustros de Archi-Tristeza aonde o Pensamento Vive longe do mundo, em funda adoração...
Castello esguio Sobre o rio Do Amôr. Armei-me cavalleiro, Quebrou-se minha lança de guerreiro No combate da Dôr.
Architectonicas theorias de Belleza, Transfigurações, resurreições, e a Natureza No fundo longo, sensitivo da emoção, Bysantinos jardins onde a Tarde agonisa, Fluidicos aromas em mystica ascenção, Emanações d'Amor que a alma divinisa Em Alma de outra Alma--eterna communhão...
Praia tão desconhecida Do mar da vida vivida Onde o luar nunca vem, De onde a nau da minha Alma Parte pela noite calma A caminho do Alêm.
E eis a grande rota seguida em Mim sómente, P'ra que parta do mundo e chegue até aos céus, E onde Tu e Eu iremos lentamente Da Vida para Deus.
_Lisboa--1914._
_POENTE_
As minhas sensações--barcos sem velas-- Erram de mim. Occaso rôxo. Scismo. Meus olhos de Não-ver-me são janellas Dando sobre o abysmo.
Abysmo d'Outro Ser. E a Hora chora Nostalgica de Si, mas eu de vê-las Erro de Ser-me, e a noite sem estrellas Apavora.
Delirio rôxo d'agonia. Prece. Poente feito noite. Escuridão. Perturbo-me de mim em sensação E dentro em mim desfallece E anoitece A sombra do meu Ser na solidão Do dia que morreu E se perdeu E jámais amanhece.
_Lisboa--1914._
_AGONIA_
Ergo meus olhos vagos na distancia Da sombra do meu Ser... Pairam de mim Além, e a minha Ansia Cança de me viver.
Meus olhos espectraes de comoção, Olhos de Alma olhando-se a Si, Nimbam de luz a longa escuridão Da Vida que vivi.
Auréola de Dôr que finalisa Na noite do abysmo do meu nada, Silencio, prece, communhão sagrada, Sonho de luz que em Ti me divinisa, Tortura do meu fim, Alma ungida E perdida Na grandeza de Si. E já sem ver-me, Maceração crepuscular de Mim, Agoniso de Ser-me.
_Lisboa--1914._
_SÓ_
O mar da minha vida não tem longes. É tudo água só! E o horisonte Funde-se no céu. Por sobre a ponte Marcha sinistra a procissão dos monges.
Velas accêsas, opas, ladainha, E o rio deslisando para o mar, E e as raparigas veem á tardinha Buscar á fonte a água sem cantar.
Ermida branca sobre o monte. Nossa Senhora da Paz...
Peregrino voltei sem ser ouvido. Rasguei os meus pés pelo caminho ido. Ai, a calma de tudo quanto jaz No frio esquecimento! Sobre a ponte A procissão caminha. Sob o arco Singrou sereno um barco A caminho do mar. Ó perdida visão da minha Ansia! Vejo-me só na lugubre distancia, Cadaver dos meus sonhos a boiar.
_Lisboa--1914._
_OUTRO_
Passo triste no mundo, alheio ao mundo. Passo no mundo alheio, sem o ver, E, mystico, ideal e vagabundo, Sinto erguer-se minh'Alma do profundo Abysmo do meu Ser.
Vivo de Mim em Mim e para Mim E para Deus em Mím resuscitado. Sou Saudade do Longe d'onde vim, E sou Ansia do Longe em que por fim Serei transfigurado.
Vivo de Deus, em Deus e para Deus, E minh'Alma, somnambula esquecida, N'Elle fitando os tristes olhos seus, Passa triste e sósinha olhando os céus No caminho da Vida.
Fui Outro e, Outro sendo, Outro serei, Outro vivendo a mystica belleza Por esta humana fórma que encarnei, Por lagrimas de sangue que chorei Na terra de tristeza.
Espirito na Dôr purificado, Ser que passa no mundo sem o ver, Em esta pobre terra de peccado Amor divino em Deus extasiado, O meu Ser é Não-Ser em Outro-Ser.
_Lisboa--1914._
CÔRTES-RODRIGUES.
*OPIÁRIO*
E
*ODE TRIUNFAL*
DUAS COMPOSIÇÕES DE
ALVARO DE CAMPOS
PUBLICADAS POR
FERNANDO PESSOA
_OPIÁRIO_
AO SENHOR MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO
É antes do ópio que a minh'alma é doente. Sentir a vida convalesce e estióla E eu vou buscar ao ópio que consóla Um Oriente ao oriente do Oriente.
Esta vida de bórdo ha-de matar-me. São dias só de febre na cabêça E, por mais que procure até que adoêça, Já não encontro a móla pra adaptar-me.
Em paradoxo e incompetência astral Eu vivo a vincos d'ouro a minha vida, Onda onde o pundonôr é uma descida E os próprios gosos ganglios do meu mal.
É por um mecanismo de desastres, Uma engrenagem com volantes falsos, Que passo entre visões de cadafalsos Num jardim onde ha flores no ar, sem hastes.
Vou cambaleando através do lavôr Duma vida-interior de renda e láca. Tenho a impressão de ter em casa a fáca Com que foi degolado o Precursôr.
Ando expiando um crime numa mála, Que um avô meu cometeu por requinte. Tenho os nervos na fôrca, vinte a vinte, E caí no ópio como numa vála.
Ao toque adormecido da morfina Perco-me em transparências latejantes E numa noite cheia de brilhantes Ergue-se a lua como a minha Sina.
Eu, que fui sempre um mau estudante, agora Não faço mais que ver o navio ir Pelo canal de Suez a conduzir A minha vida, camfora na aurora.
Perdi os dias que já aproveitara. Trabalhei para ter só o cansaço Que é hoje em mim uma especie de braço Que ao meu pescôço me sufoca e ampara.
E fui criança como toda a gente. Nasci numa provincia portuguêsa E tenho conhecido gente inglêsa Que diz que eu sei inglês perfeitamente.
Gostava de ter poêmas e novélas Publicados por Plon e no _Mercure_, Mas é impossivel que esta vida dure. Se nesta viagem nem houve procélas!
A vida a bórdo é uma coisa triste Embora a gente se divirta ás vezes. Falo com alemães, suecos e inglêses E a minha mágoa de viver persiste.
Eu acho que não vale a pena ter Ido ao Oriente e visto a India e a China. A terra é semelhante e pequenina E ha só uma maneira de viver.
Porisso eu tomo ópio. É um remedio. Sou um convalescente do Momento. Móro no rés-do-chão do pensamento E ver passar a Vida faz-me tedio.
Fumo. Canso. Ah uma terra aonde, emfim, Muito a leste não fosse o oeste já! Pra que fui visitar a India que ha Se não ha India senão a alma em mim?
Sou desgraçado por meu morgadío. Os ciganos roubaram minha Sorte. Talvez nem mesmo encontre ao pé da morte Um lugar que me abrigue do meu frio.
Eu fingi que estudei engenharia. Vivi na Escóssia. Visitei a Irlanda. Meu coração é uma avòzinha que anda Pedindo esmóla ás portas da Alegria.
Não chegues a Port-Said, navio de ferro! Volta á direita, nem eu sei para onde. Passo os dias no smoking-room com o conde-- Um escroc francês, conde de fim de enterro.
Volto á Europa descontente, e em sortes De vir a ser um poeta sonambólico. Eu sou monarquico mas não católico E gostava de ser as coisas fortes.
Gostava de ter crenças e dinheiro, Ser varia gente insipida que vi. Hoje, afinal, não sou senão, aqui, Num navio qualquer um passageiro.
Não tenho personalidade alguma. É mais notado que eu êsse criado De bórdo que tem um belo modo alçado De _laird_ escossez ha dias em jejum.
Não posso estar em parte alguma. A minha Patria é onde não estou. Sou doente e fraco. O comissário de bórdo é velhaco. Viu-me co'a sueca... e o resto êle adivinha.
Um dia faço escândalo cá a bórdo, Só para dar que falar de mim aos mais. Não posso com a vida, e acho fatais As iras com que ás vezes me debórdo.
Levo o dia a fumar, a beber coisas, Drogas americanas que entontecem, E eu já tão bêbado sem nada! Déssem Melhor cérebro aos meus nervos como rosas.
Escrevo estas linhas. Parece impossivel Que mesmo ao ter talento eu mal o sinta! O facto é que esta vida é uma quinta Onde se aborrece uma alma sensivel.
Os inglêses são feitos pra existir. Não ha gente como esta pra estar feita Com a Tranquilidade. A gente deita Um vintém e sai um dêles a sorrir.
Pertenço a um genero de portuguêses Que depois de estar a India descoberta Ficaram sem trabalho. A morte é certa. Tenho pensado nisto muitas vêzes.
Leve o diabo a vida e a gente tê-la! Nem leio o livro á minha cabeceira. Enoja-me o Oriente. É uma esteira Que a gente enróla e deixa de ser béla.
Caio no ópio por força. Lá querer Que eu leve a limpo uma vida destas Não se pode exigír. Almas honestas Com horas pra dormir e pra comer,
Que um raio as parta! E isto afinal é inveja. Porque estes nêrvos são a minha morte. Não haver um navio que me transporte Para onde eu nada queira que o não vêja!
Ora! Eu cansava-me do mesmo modo. Qu'ria outro ópio mais forte pra ir de ali Para sonhos que dessem cabo de mim E pregassem comigo nalgum lôdo.
Febre! Se isto que tenho não é febre, Não sei como é que se tem febre e sente. O facto essencial é que estou doente. Está corrida, amigos, esta lebre.
Veio a noite. Tocou já a primeira Corneta, pra vestir para o jantar. Vida social por cima! Isso! E marchar Até que a gente saia pla coleira!
Porque isto acaba mal e ha-de haver (Olá!) sangue e um revólver lá pró fim Deste desassossego que ha em mim E não ha forma de se resolver.
E quem me olhar, ha-de me achar banal, A mim e á minha vida... Ora! um rapaz... O meu proprio monóculo me faz Pertencer a um tipo universal.
Ah quanta alma haverá, que ande metida Assim como eu na Linha, e como eu mística! Quantos sob a casaca carateristica Não terão como eu o horrôr á vida?
Se ao menos eu por fóra fôsse tão Interessante como sou por dentro! Vou no Maelstrom, cada vês mais pró centro. Não fazer nada é a minha perdição.
Um inutil. Mas é tão justo sê-lo! Pudesse a gente despresar os outros E, ainda que co'os cotovêlos rôtos, Ser heroi, doido, amaldiçoado ou bélo!
Tenho vontade de levar as mãos Á bôca e morder nélas fundo e a mal. Era uma ocupação original E distraía os outros, os tais sãos.
O absurdo como uma flôr da tal India Que não vim encontrar na India, nasce No meu cérebro farto de cansar-se. A minha vida mude-a Deus ou finde-a...
Deixe-me estar aqui, nesta cadeira, Até virem meter-me no caixão. Nasci pra mandarim de condição, Mas faltam-me o sossego, o chá e a esteira.
Ah que bom que era ir daqui de caída Prá cova por um alçapão de estouro! A vida sabe-me a tabaco louro. Nunca fiz mais do que fumar a vida.
E afinal o que quero é fé, é calma, E não ter estas sensações confusas. Deus que acabe com isto! Abra as eclusas-- E basta de comedias na minh'alma!
_1914, Março._
_No canal de Sués, a bordo._
_ODE TRIUNFAL_
Á dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica Tenho febre e escrevo. Escrevo rangendo os dentes, féra para a beleza disto, Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
Ó rodas, ó engrenagens, _r-r-r-r-r-r-r_ eterno! Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria! Em fúria fóra e dentro de mim, Por todos os meus nervos dissecados fóra, Por todas as papilas fóra de tudo com que eu sinto! Tenho os lábios sêcos, ó grandes ruídos modernos, De vos ouvir demasiadamente de perto, E arde-me a cabêça de vos querer cantar com um excesso De expressão de todas as minhas sensações, Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
Em febre e olhando os motores como a uma Naturesa tropical-- Grandes trópicos humanos de ferro e fôgo e fôrça-- Canto, e canto o presente, e tambem o passado e o futuro, Porque o presente é todo o passado e todo o futuro E ha Platão e Vergilio dentro das máquinas e das luzes eléctricas Só porque houve outróra e fôram humanos Vergilio e Platão, E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cincoenta, Átomos que hão de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem, Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes, Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando, Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.
Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! Ser completo como uma máquina! Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modêlo! Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto, Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento A todos os perfumes de ólios e calores e carvões Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!
Fraternidade com todas as dinâmicas! Promíscua fúria de ser parte-agente Do rodar férreo e cosmopolita Dos comboios estrénuos, Da faina transportadora-de-cargas dos navios, Do giro lúbrico e lento dos guindastes, Do tumulto disciplinado das fábricas, E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!
Horas europeias, produtoras, entaladas Entre maquinismos e afazêres úteis! Grandes cidades paradas nos cafés, Nos cafés--oásis de inutilidades ruìdosas Onde se cristalisam e se precipitam Os rumores e os gestos do Útil E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo! Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares! Novos entusiasmos de estatura do Momento! Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas às docas, Ou a sêco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos! Actividade internacional, transatlantica, _Canadian-Pacific_! Luzes e febrís pêrdas de tempo nos bares, nos hoteis, Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots, E Piccadillies e Avenues de l'Opéra que entram Pela minh'alma dentro!
Hé-la as ruas, hé-lá as praças, hé-lá-hô _la foule_! Tudo o que passa, tudo o que pára às montras! Comerciantes; vadios; escrocs exageradamente bem-vestidos; Membros evidentes de clubs aristocráticos; Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colête De algibeira a algibeira! Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa! Presença demasiadamente acentuada das cocottes; Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?) Das burguezinhas, mãe e filha geralmente, Que andam na rua com um fim qualquer; A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos; E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra E afinal tem alma lá dentro!
(Ah, como eu desejaria ser o _souteneur_ disto tudo!)
A maravilhosa belesa das corrupções políticas, Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos, Agressões políticas nas ruas, E de vez em quando o comêta dum regicídio Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus Usuais e lúcidos da Civilisação quotidiana!
Notícias desmentidas dos jornais, Artigos políticos insinceramente sinceros, Notícias _passez à-la-caisse_, grandes crimes-- Duas colunas dêles passando para a segunda página! O cheiro frêsco a tinta de tipografia! Os cartazes postos ha pouco, molhados! _Vients-de-paraître_ amarelos com uma cinta branca! Como eu vos amo a todos, a todos, a todos, Como eu vos amo de todas as maneiras, Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!) E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar! Ah, como todos os meus sentidos teem cio de vós!
Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura! Química agrícola, e o comércio quase uma sciência! Ó mostruários dos caixeiros-viajantes, Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria, Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!
Ó fazendas nas montras! ó manequins! ó últimos figurinos! Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar! Olá grandes armazens com várias secções! Olá anúncios eléctricos que veem e estão e desaparecem! Olá tudo com que hoje se constroi, com que hoje se é diferente de ontem! Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos! Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos! Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aéroplanos!
Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera. Amo-vos carnivoramente, Pervertidamente e enroscando a minha vista Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis, Ó coisas todas modernas, Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima Do sistema imediato do Universo! Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!
Ó fábricas, ó laboratórios, ó _music-halls_, ó Luna-Parks, Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes-- Na minha mente turbulenta e encandescida Possúo-vos como a uma mulher bela, Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama, Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.
Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas! Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios! Eh-lá-hô recomposições ministeriais! Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos, Orçamentos falsificados! (Um orçamento é tão natural como uma árvore E um parlamento tão belo como uma borboleta).
Eh lá o interesse por tudo na vida, Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras Até á noite ponte misteriosa entre os astros E o mar antigo e solene, lavando as costas E sendo misericordiosamente o mesmo Que era quando Platão era realmente Platão Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro, E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dêle.
Eu podia morrer triturado por um motor Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída. Atirem-me para dentro das fornalhas! Metam-me debaixo dos comboios! Espanquem-me a bordo de navios! Masóquismo através de maquinismos! Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho!
Up-lá hô jockey que ganhaste o Derby, Morder entre dentes o teu _cap_ de duas côres!
(Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta! Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!)
Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais! Deixai-me partir a cabêça de encontro às vossas esquinas, E ser levantado da rua cheio de sangue Sem ninguem saber quem eu sou!
Ó tramways, funiculares, metropolitanos, Roçai-vos por mim até ao espasmo! Hilla! hilla! hilla-hô! Dai-me gargalhadas em plena cara, Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas, Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas, Rio multicolôr anónimo e onde eu não me posso banhar como quereria! Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto! Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro, As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam, Os pensamentos que cada um tem a sós comsigo no seu quarto E os gestos que faz quando ninguem o pode ver! Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva, Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome Me põe a magro o rôsto e me agita às vezes as mãos Em crispações absurdas em pleno meio das turbas Nas ruas cheias de encontrões!
Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma, Que emprega palavrões como palavras usuais, Cujos filhos roubam às portas das mercearias E cujas filhas aos oito anos--e eu acho isto belo e amo-o!-- Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada. A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa Por vielas quase irreais de estreitesa e podridão. Maravilhosa gente humana que vive como os cães, Que está abaixo de todos os sistemas morais, Para quem nenhuma religião foi feita, Nenhuma arte criada, Nenhuma política destinada para êles! Como eu vos amo a todos, porque sois assim, Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus, Inatingíveis por todos os progressos, Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!
(Na nora do quintal da minha casa O burro anda à roda, anda à roda, É o mistério do mundo é do tamânho disto. Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente. A luz do sol abafa o silêncio das esferas E havemos todos de morrer, Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo, Pinheirais onde a minha infância era outra coisa Do que eu sou hoje...)
Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante! Outra vez a obsessão movimentada dos ómnibus. E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios De todas as partes do mundo, De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios, Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas. Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado! Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!
Eh-lá grandes desastres de comboios! Eh-lá desabamentos de galerias de minas! Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos! Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá, Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões, Ruìdo, injustiças, violências, e talvês para breve o fim, A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa, E outro Sol no novo Horizonte!
Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo, Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje? Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento, O Momento de tronco nú e quente como um fogueiro, O momento estridentemente ruìdoso e mecânico, O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.
Eia comboios, eia pontes, eia hoteis à hora do jantar, Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos, Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar, Engenhos, brocas, máquinas rotativas! Eia! eia! eia! Eia electricidade, nervos doentes da Matéria! Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente! Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez! Eia todo o passado dentro do presente! Eia todo o futuro já dentro de nós! eia! Eia! eia! eia! Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita! Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô! Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me. Engatam-me em todos os comboios. Içam-me em todos os cais. Giro dentro das hélices de todos os navios. Eia! eia-hô! eia! Eia! sou o calor-mecânico e a eletricidade!
Eia! e os _rails_ e as casas de máquinas e a Europa! Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!
Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!
Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá! Hé-há! Hé-hô! Ho-o-o-o-o! Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!
Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!
_Londres, 1914--Junho._
ALVARO DE CAMPOS.
Dum livro chamado _Arco de Triunfo_, a publicar.