Orpheu Nº1 Revista Trimestral de Literatura
Chapter 3
*Primeira*.--Para quê tentar apavorar-me?... Não cabe mais terror dentro de mim... Peso excessivamente ao collo de me sentir. Afundei-me toda no lodo morno do que supponho que sinto. Entra-me por todos os sentidos qualquer cousa que m'os pega e m'os vela. Pesam as palpebras a todas as minhas sensações. Prende-se a lingua a todos os meus sentimentos. Um somno fundo colla uma ás outras as idéas de todos os meus gestos... Porque foi que olhastes assim?...
*Terceira* _(numa voz muito lenta e apagada)_.--Ah, é agora, é agora... Sim, acordou alguem... Ha gente que acorda... Quando entrar alguem tudo isto acabará... Até lá façamos por crêr que todo este horror foi um longo somno que fomos dormindo... É dia já... Vae acabar tudo... E de tudo isto fica, minha irmã, que só vós sois feliz, porque acreditaes no sonho...
*Segunda*.--Porque é que m'o perguntaes? Porque eu o disse? Não, não acredito...
Um gallo canta. A luz, como que subitamente, augmenta. As trez veladoras quedam-se silenciosas e sem olharem umas para as outras.
Não muito longe, por uma estrada, um vago carro geme e chia.
_11/12 Outubro, 1913._
FERNANDO PESSÔA.
*TREZE SONETOS*
DE
ALFREDO PEDRO GUISADO
_ADORMECIDA_
As tuas mãos dormiam na lagôa incenso. E pelas alamedas destruídas, loucas, Desceu-se em mim minha alma a procurar as bocas Que me rezaram Ser sôbre o teu manto extenso.
Vagamente desceu sôbre o silêncio, a arfar, Combatendo de luz, a esvoaçar no ataque... E de noite caiu Egipto em meu olhar, Nos teus braços em cruz, sepulcros em Karnak.
Bocas de Faraós rezam múmias cansadas... Tebas em mim fenece em bronze de toadas, Apagando-se em cinza em lâmpadas sombrias.
E tu adormecida há tanto tempo, em pranto. Os cisnes na lagôa embranqueceram tanto, Que se esqueceram Côr nas tuas mãos esguías.
_SONHO EGÍPCIO_
No palácio, os pavões são apenas dizê-los... As asas côr do longe erguidas sôbre mim. Existem os pavões... O meu sentir-me é vê-los... E o meu sonhar-te, alêm, são lagos no jardim.
Quando passei no parque, eu encontrei Nitokris. Vi-a. Fitei-lhe as mãos para poder senti-las... Meus olhos foram naus em águas intranquilas, Meus sentidos, aneis nos dedos de Nitokris.
Labirinto de sons. Adormeço-me oiro. Ansia apagada. Deus desce minha alma em oiro. Meus olhos p'ra te ver, arcadas nos espelhos.
Rezas que nunca ouvi. Hálitos de saudades. E as tuas mãos, ao largo, ungindo divindades Scismam Ibis, pagãos, sôbre tapetes velhos.
_PAGÃO_
... Lembro-me então de mim. Rezo-me longe. Scismo. E o lembrar-me de mim são os meus passos idos. Arqueia-se em azul meu próprio misticismo E eu fico apenas Côr sôbre vitrais vencidos.
O teu hálito é luz em candelabros velhos Aos cantos dos salões onde me vejo a orar, E os teus passos de Dôr são um quebrar de espelhos. Quando te quero ver, morres no meu olhar.
Abraço-me chorando. O teu morrer é vêr-me, Oiro de asas em Tule, ardendo antiguidade-- E o ter-te visto morta, o mêdo de perder-me.
Procuro-me em silêncio e oiço-me em teus passos. Sôbre altares pagãos ergo-me divindade E Isis dorme meu Ser em cortinados lassos!
_VER-TE_
Estendi os meus braços p'ra abraçar-te E entre nós uma porta se cerrou. Um sôpro de rubins em mim voou, Sôpro que permitiu poder sonhar-te.
Saía a tua sombra p'las janelas E perdia-se, ao largo, em arvoredos... Os meus dedos scismando caravelas, Eram prolongamentos dos teus dedos.
Num parque de oliveiras te sonhei Erguendo-te do oiro que queimei Nas ânforas do templo do meu Ser.
Parece que te vejo e tu estás longe... Afastei-me de mim para ser monge... Meus olhos são a sombra de te ver!
_PRINCESA LOUCA_
Vejo passar na curva da alameda Uma princesa há muitos anos louca, Princesa cujo Corpo é uma roca Em principados de faisões de seda.
A sua sombra, uma lagôa azul. As suas mãos tecendo pinheirais, Lembram-me naus sempre chegando ao cais, Águias sem asas num palácio, em Tule.
Seus dedos, pregos que pregaram Cristo. Olha-me longe. Em seu olhar existo... Passo nas rezas duma antiga boca...
Arqueio-me a sonhar sôbre marfim. Sou arco com que brinca no jardim Essa princesa há tantos anos louca.
_MÃOS DE CEGA_
I
Sinto que as tuas mãos são teus olhos vencidos, Teus olhos que esquecendo as orações da luz São claustros apagando os passos esquecidos De Deus ao regressar de amortalhar Jesus.
Sinto-as tanger ainda os violinos velhos, Onde os dedos saltando em cordas de oiro, à tarde, Te cegaram de som. E em candelabros arde O teu antigo olhar emoldurando espelhos.
Teus dedos ao bater nas tuas mãos são remos. Inda vejo nas salas do palácio, arfando, As tuas mãos de Dôr entreabrindo as portas.
Buscamo-nos em Côr e quando nos perdemos Passam as tuas mãos em meus dedos, scismando Estátuas de marfim sôbre as arcadas, mortas...
II
Morreram os leões que guardavam perdidos A branca escadaria. Velhos leões sombrios... Dêles apenas resta o eco dos rugidos Que os arcos dos salões tornaram mais esguios.
As rendas que fiaste adormeciam bocas E as rugas no teu rosto iam caindo, fundas... No fim do parque, à noite, as águias moribundas Guardavam em silêncio as destroçadas rocas.
Fiavas noutro tempo os teus olhos dormentes. Deixaste de os fiar e os teus olhos arderam Na côr das tuas mãos, na cruz de outros poentes...
Cega de mim, partiste. E quando regressaste Manchada de Distância, os meus sentidos eram Palmeiras ladeando a estrada onde passaste!
_ESQUECENDO_
Os lagos dormem cisnes na alameda E as portas do palácio estão fechadas. As folhas a caír, rezando seda, Sonham paisagens mortas, afastadas...
Essas paisagens foram tuas aias. Flautas ao longe foram teus sentidos. E as tuas mãos ao desfiar vestidos Dormiram franjas em doiradas saias.
A tua Sombra o seu olhar perdeu... Não sei se não serás um gesto meu, Um gesto de meus dedos longos, frios...
Não sei quem és... Meus olhos esquecidos Sentem-te em mim, dormir nos meus sentidos... Meus sentidos, arcadas sôbre rios...
_SALOMÉ_
I
Dançava Salomé sôbre mistérios idos. --Tarde bronze a morrer. Poente em véus vermelhos-- Os seus sentidos, longe, eram bailados velhos, E o seu Corpo, a bailar, é que era os seus sentidos.
Dançava Salomé nas suas mãos morenas Que eram salões de seda, a descerrar o hábito. E Ela quando se via era o seu próprio hálito, E o Corpo no bailado era uma curva apenas.
Dançava Salomé.--E os seus olhos ao vê-la, Cerravam-se leões com mêdo de perdê-la, Leões bebendo luz na luz dos olhos seus...
Não vejo Salomé.--Talvez adormecida... Talvez no meu olhar Ausência dolorida... Talvez boca pagã beijando as mãos de Deus...
II
Deus, longo cais em mim, donde outras naus singrando Conduzem para o Longe o meu não existir. Morena, Salomé, entre vitrais bailando. Arcadas-sensações transpondo o seu Sentir.
Fita paisagens-Ansia em suas mãos cansadas, Paisagens a sonhar castelos nunca erguidos. E os lábios percorrendo em lume os seus sentidos, Scismam príncipes-Côr descendo das arcadas.
Há entre Ela e Deus o corpo de João. E em seu olhar, dormindo um bronze de oração, É sombra do bailado um inclinar de palma.
Baila seu Corpo ainda. E Deus nos seus bailados. Bailados-asas, longe, em capiteis bordados, Gestos de Deus caindo entre molduras-Alma!
_MORTE DE SALOMÉ_
Apagaram-se bronze os círios que sonhara. Erguidos no seu Ser, sentidos-mausoléus. O palácio, no parque, era um olhar de Deus E as salas do palácio, os bailes que bailara.
Ela, taça caída em uma orgia infinda, Taça vencida de Alma em pálios afastados. Seu Corpo tinha sido algum dos seus bailados, E a sua própria Morte era um bailado ainda.
Eram as suas mãos rainhas em impérios Onde passavam reis com séquitos mistérios, Adagas de marfim erguidas noutras mãos.
Seu Corpo, cinto de oiro ao seu redor, dormindo, Um hálito de Deus sôbre missais caindo, Cinza de Alma rezando outros Jesus, pagãos.
_RECORDANDO_
Sinto as cores, de noite, terem mêdo E acolherem-se à sombra do teu luto. Eu fui um rei dos godos, que em Toledo O Tejo adormeceu e ainda escuto.
Cercam-se de oiro as salas que habitei, Oiro-cinza esquecido, oiro dormente. E em minha Alma, na qual inda sou rei Scismo tronos caindo lentamente.
Buscam-me pagens tristes nos caminhos. E a minha lenda em sonhos pergaminhos Vai escrevendo em silêncio o meu scismar.
São outros os domínios que vivi Todas as coisas que eu outrora vi Regressaram mistério ao meu olhar.
_ANTE DEUS_
Quando te vi eu fui o teu voar E desci Deus p'ra me encontrar em mim. Voei-me sôbre pontes de marfim-- E uma das pontes, Deus, em meu olhar!
Aureolei-me de oiro em sombra fria E meus vôos cairam destruídos. Foram dedos de Deus os meus sentidos. Meu Corpo andou ao colo de Maria.
Agora durmo Cristo em véus pagãos. São tapetes de Deus as minhas mãos. Regresso Ansia p'ra alcançar os céus.
Ergo-me mais. Sou o perfil da Dôr. Sôbre os ombros de Deus olho em redor E Deus não sabe qual de nós é Deus!
ALFREDO PEDRO GUISADO.
*FRIZOS*
DO DESENHADOR
JOSÉ DE ALMADA-NEGREIROS
*CIUMES*
Pierrot dorme sobre a relva junto ao lago. Os cisnes junto d'elle passam sêde, não n'o acordem ao beber.
Uma andorinha travêssa, linda como todas, avôa brincando rente á relva e beija ao passar o nariz de Pierrot. Elle accorda e a andorinha, fugindo a muito, olha de medo atraz, não venha o Pierrot de zangado persegui-la pelos campos. E a andorinha perdia-se nos montes, mas, porque elle se queda, de nôvo volta em zig-zags travêssos e chilreios de troça. E chilreia de troça, muito alto, por cima d'elle. Pierrot já se adormecia, e a andorinha em descida que faz calafrios pousou-lhe no peito duas ginjas bicadas, e fugiu de nôvo.
De contente, ergueu-se sorrindo e de joelhos, braços erguidos, seus olhos foram tão longe, tão longe como a andorinha fugida nos montes.
De repente viu-se cego--os dedos finissimos da Colombina brincavam com elle. Desceu-lhe os dedos aos labios e trocou com beijos o arôma das palmas perfumadas. Depois dependurou-lhe de cada orelha uma ginja, á laia de brincos com joias de carmim. Rolaram-se na relva e uniram as boccas, e já se esqueciam de que as tinham juntas...
--Sabes? Uma andorinha...
E foram de enfiada as graças da ave toda paixão. Pierrot contava enthusiasmado, olhando os montes ainda em busca da andorinha, e Colombina torceu o corpo numa dôr calada e tomou-lhe as mãos.
Havia na relva uma máscara branca de dôr, e a lua tinha nos olhos claros um olhar triste que dizia: Morreu Colombina!
*O ECHO*
Tão tarde. Adão não vem? Aonde iria Adão?!
Talvez que fosse á caça; quer fazer surprezas com alguma côrça branca lá da floresta.
Era p'lo entardecer, e Eva já sentia cuidados por tantas demoras.
Foi chamar ao cimo dos rochedos, e uma voz de mulher tambem, tambem chamou Adão.
Teve mêdo: Mas julgando fantazia chamou de nôvo: Adão? E uma voz de mulher tambem, tambem chamou Adão.
Foi-se triste para a tenda.
Adão já tinha vindo e trouxera as settas todas, e a cáça era nenhuma!
E elle a saudá-la ameaçou-lhe um beijo e ella fugiu-lhe.
--Outra que não Ella chamára tambem por Elle.
*SÈVRES PARTIDO*
A amazona negra era bella como o sol e triste como o luar, e ninguem acredita mas era pastora de galgas. Figura negra muito esguia, cypreste procurando vaga na margem do caminho.
Nas manhãs de Outomno, frias como os degraus do tanque, era Ella quem largava ás galgas a lebre cinzenta, e a que a filásse já sabia com quem dormia a sésta. E as galgas já nem dormiam bem noutra almofada.
Sobre a relva, na sombra arrendilhada das folhas amarellecidas dos plátanos onde os repuxos do tanque cuspiam lagryrnas de vidro, a Amazona negra sonhava o seu Principe encantado e a galga do dia dormia quieta, estendido o focinho no ventre d'Ella.
Uma manhã mais turva as galgas todas voltaram tristes, de focinhos pendidos--e nenhuma para dormir a sésta!
Uma flauta triste vinha de viagem pelo caminho; chorava de seguida imensas canções de choros e tinha acompanhamentos funéreos de guisalhádas surdas.
Callou-se a flauta, um cypreste distante gemia baixinho as dôres da tatuagem que lhe iam abrindo no peito. O pastor lembrava ali o nome do seu Bem. Pendia-lhe da cinta uma lebre cinzenta e a funda torcida.
As galgas como settas deixaram nú o caminho. E as guisalhadas...
*MIMA FATAXA*
Ella marcára-lhe na vespera aquelle rendez-vous no muro do cemiterio. De feito Elle tornara escrava de uma cigana a sua alma apaixonada de uma rainha loira senhora de todas as ciganas. Fôra d'Ella desde o dia em que, seguindo o ritmo acanalhado das ancas desconjuntadas, ficou enfeitiçado por aquelles dentes brancos ferindo lume no colar de pederneiras. Sentiu desejos de morder aquelles labios ardendo vermêlhos incendios de beijos e as faces fumadas do lume d'aquella bocca. E estranhava o seu coração vencido pela monotonia dos berros das cantorias com acompanhamentos de urros de pandeiro. Enfeitiçara-o aquella vagabunda de olhos ardidos compondo as tranças nos fundos dos caldeirões de cobre onde durante o sol um tisnado cigano consumia as horas em maçadôras marteladas. Encantára-o aquella feiticeira afiando as tranças nos labios molhados da saliva. E nas danças o tic-tac metalico das sandálias, matrácas tagarélas a cantar nas lágens, tinha um telintar jovial; e os pulsos cingidos de guizos eram um concerto de amarellos canarios contentes da gaiola.
E mais bella do que nunca no chafariz real, de saias arregaçadas, a lavar as pernas da poeira das estradas e bellamente descomposta a enfiar as meias muito grossas, vermêlhas da côr das papoulas, e a dár um nó-cego num retorcido nastro branco muito negro á laia de liga muito acima do joelho... E tem graça que a sua morenez não era por via do sol, pois toda ella era queimada. Quem a visse trepar nas amoreiras e despi-las das amóras que lhe ensanguentavam os labios e as faces e os dedos sem cuidar no vento que lhe levanta as saias, teria tido como Elle um sorriso de desejos, iria como Elle fingir a sésta por debaixo da linda amoreira.
E na descida, co'a saia erguida á laia de cabaz, meio tonta, meio embriagada p'las amóras em demasia, vê-la-hia tão bella como em sonhos se desenha uma mulher para nós. E escarranchada no tronco deixava-se escorregar lentamente, mas teve subida forçada por via da haste que ficava em riba. Depois dependurou-se de um galho rijo, abriu as mãos e foi de vez chapar-se na relva. E de bruços, como uma cabra a espojar-se, começou de juntar os fructos espalhados. E os seus olhos de gata, de gata que brinca nos telhados vermêlhos com a lua branca, mais do que amóras colhiam.
*A SOMBRA*
(TRADUCÇÃO DE UM POEMA DE UMA LINGUA DESCONHECIDA)
Foi ali que um dia sentiu desejos de partir tambem. Que ficava fazendo sósinha? Quem leva uma lança, leva a mulher tambem.
O seu châle negro tem um segredo, e o seu mal de morte vem do mesmo dia.
Os annos correram sem nóvas algumas, e as môças finaram-se velhas, velhas de tanto esperar.
E todas as noites, na margem sombria, uma silhueta franzina de tragica sonambula vae seguindo, como um braço murcho de cypreste a boiar ao de cima da corrente que o vae levando-mansamente.
*A SÉSTA*
Pierrot escondido por entre o amarello dos gyrassois espreita em cautela o somno d'ella dormindo na sombra da tangerineira. E ella não dorme, espreita tambem de olhos descidos, mentindo o sôno, as vestes brancas do Pierrot gatinhando silencios por entre o amarelo dos gyrassois. E porque Elle se vem chegando perto, Ella mente ainda mais o sôno a mal-resonar.
Junto d'Ella, não teve mão em si e foi descer-lhe um beijo mudo na negra meia aberta arejando o pé pequenino. Depois os joelhos redondos e lizos, e já se debruçava por sobre os joelhos, a beijar-lhe o ventre descomposto, quando Ella acordou cançada de tanto sôno fingir.
E Elle ameaça fugida, e Ella furta-lhe a fuga nos braços nús estendidos.
E Ella, magoada dos remorsos de Pierrot, acaricia-lhe a fronte num grande perdão. E, feitas as pazes, ficou combinado que Ella dormisse outra vez.
*CANÇÃO DA SAUDADE*
Se eu fosse cego amava toda a gente.
Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor. Eu amo a minha irmã gemea que nasceu sem vida, e amo-a a fantazia-la viva na minha edade.
Tu, meu amor, que nome é o teu? Dize onde vives, dize onde móras, dize se vives ou se já nasceste.
Eu amo aquella mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longissimos.
Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por entre as gentes apressadas.
Eu amo aquellas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas.
Eu amo os cemiterios--as lágens são espessas vidraças transparentes, e eu vejo deitadas em leitos florídos virgens núas, mulheres bellas rindo-se para mim.
Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos. Eu amo a lua do lado que eu nunca vi.
Se eu fosse cego amava toda a gente.
*RUINAS*
Pandeiros rôtos e côxas táças de crystal aos pés da muralha.
Heras como Romeus, Julietas as ameias. E o vento toca, em bandolins distantes, surdinas finas de princezas mortas.
Poeiras adormecidas, netas fidalgas de minuetes de mãos esguias e de cabelleiras embranquecidas.
Aquellas ameias cingiram uma noite peccados sem fim; e ainda guardam os segredos dos mudos beijos de muitas noites. E a lua velhinha todas as noites réza a chorar: Era uma vez em tempo antigo um castello de nobres naquelle lugar... E a lua, a contar, pára um instante--tem mêdo do frio dos subterraneos.
Ouvem-se na sala que já nem existe, compassos de danças e rizinhos de sêdas.
Aquellas ruinas são o tumulo sagrado de um beijo adormecido-- cartas lacradas com ligas azues de fechos de oiro e armas reais e lizes.
Pobres velhinhas da côr do luar, sem terço nem nada, e sempre a rezar...
Noites de insonia com as galés no mar e a alma nas galés.
Archeiros amordaçados na noite em que o côche era de volta ao palacio pela tapada d'El-rei. Grande caçada na floresta--galgos brancos e Amazonas negras. Cavalleiros vermêlhos e trombêtas de oiro no cimo dos outeiros em busca de dois que faltam.
Uma gondola, ao largo, e um pagem nas areias de lanterna erguida dizendo pela briza o aviso da noite.
O sapato d'Ella desatou-se nas areias, e fôram calça-lo nas furnas onde ninguem vê. Nas areias ficaram as pègadas de um par que se beija.
Noticias da guerra--choros lá dentro, e crépes no brazão. Ardem cirios, serpentinas. Ha mãos postas entre as flôres.
E a torre morêna canta, molenga, dôze vezes a mesma dôr.
*PRIMAVERA*
O sol vae esmolando os campos com bôdos de oiro.
A pastorinha aquecida vae de corrida a mendigar a sombra do chorão corcunda, poeta romantico que tem paixão p'la fonte.
Espreita os campos, e os campos despovoados dão-lhe licença para ficar núa. Que leves arrepios ao refrescar-se nas aguas! Depois foi de vez, meteu-se no tanque e foi espojar-se na relva, a seccar-se ao sol. Mas o vento que vinha de lá das Azenhas-do-Mar, trazia peccados comsigo. Sentiu desejos de dar um beijo no filho do Senhor Morgado. E lembrou-se logo do beijo da horta no dia da feira. Fechou os olhos a cegar-se do mau pensamento, mas foi lembrar-se do proprio Senhor Morgado á meia noite ao entrar na adega. Abanou a fronte para lhe fugir o peccado, mas foi dar comsigo na sachristia a deixar o Senhor Prior beijar-lhe a mão, e depois a testa... porque Deus é bom e perdôa tudo... e depois as faces e depois a bocca e depois... fugiu... Não devia ter fugido... E agora o moleiro, lá no arraial, bailando com ella e sem querer, coitado, foi ter ao moinho ainda a bailar com ella. E lembra-se ainda--sentada na grande arca, e mãos alheias a desapertarem-lhe as ligas e o corpête, emquanto ouve a historia triste do moinho com cincoenta malfeitores... Quer lembrar-se mais, que seja peccado! quer mais recordações do moinho, mas não encontra mais.
Ah! e o boieiro quando, a guiar a junta, topou com ella e lhe perguntou se vira por acaso uma borboleta branca a voar a muito, uma borboleta muito bonita! Que não, que não tinha visto; mas o boieiro desconfiado foi procurando sempre, e até mesmo por debaixo dos vestidos.
Como desejava poder ir com todos!
Não sabe o que sente dentro de si que a importuna de bem estar.
Teria a borbolêta branca fugido para dentro d'ella?
*TREVAS*
De dia não se via nada, mas p'la tardinha já se apercebia gente que vinha de punhaes na mão, devagar, silenciosamente, nascendo dos pinheiros e morrendo nelles. E os punhaes não brilhavam: eram luzes distantes, eram guias de lençoes de linho escorridos de hombros franzinos. E a briza que vinha dava gestos de azas vencidas aos lençoes de linho, azas brancas de garças caídas por faunos caçadores. E o vento segredava por entre os pinheiros os mêdos que nasciam.
E vinha vindo a Noite por entre os pinheiros, e vinha descalça com pés de surdina por môr do barulho, de braços estendidos p'ra não topar com os troncos; e vinha vindo a noite céguinha como a lanterna que lhe pendia da cinta. E vinha a sonhar. As sombras ao vê-la esconderam os punhaes nos peitos vazios.
A lua é uma laranja d'oiro num prato azul do Egypto com perolas desirmanadas. E as silhuetas negras dos pinheiros embaloiçados na briza eram um bailado de estatuas de sonho em vitraes azues. Mãos ladras de sombra leváram a laranja, e o prato enlutou-se.
Por entre os pinheiros esgalgados, por entre os pinheiros entristecidos, havia gemidos da briza dos tumulos, havia surdinas de gritos distantes--e distantes os ouviam os pinheiros esgalgados, os pinheiros gigantes.
A briza fez-se gritos de pavões perseguidos. E as sombras em danças macabras fugiam fumo dos pinheiraes p'lo meu respirar.
Escondidas todas por detraz de todos os pinheiros, chocam-se nos ares os punhaes acêsos. Faz-se a fogueira e as bruxas em roda rezam a gritar ladainhas da Morte. Veem mais bruxas, trazem alfanges e um caixão. Doem-me os cabellos, fecham-se-me os olhos e quatro anjos levam-me a alma... Mas a cigarra em algazarra de alêm do monte vem dizer-me que tudo dorme em silencio na escuridão.
Veiu a manha e foi como de dia: não se via nada.
*CANÇÃO*
A pastorinha morreu, todos estão a chorar. Ninguem a conhecia e todos estão a chorar.
A pastorinha morreu, morreu de seus amôres. Á beira do rio nasceu uma arvore e os braços da arvore abriram-se em cruz.
As suas mãos compridas já não acenam de alêm. Morreu a pastorinha e levou as mãos compridas.
Os seus olhos a rirem já não troçam de ninguem. Morreu a pastorinha e os seus olhos a rirem.
Morreu a pastorinha, está sem guia o rebanho. E o rebanho sem guia é o enterro da pastorinha.
Onde estão os seus amôres? Ha prendas para Lhe dar. Ninguem sabe se é Elle e ha prendas para Lhe dar.
Na outra margem do rio deu á praia uma santa que vinha das bandas do mar. Vestida de pastora p'ra se não fazer notar. De dia era uma santa, á noite era o luar.
A pastorinha em vida era uma linda pastorinha; a pastorinha mórta é a Senhora dos Milagres.
*A TAÇA DE CHÁ*
O luar desmaiava mais ainda uma máscara caida nas esteiras bordadas. E os bambús ao vento e os crysanthemos nos jardins e as garças no tanque, gemiam com elle a advinharem-lhe o fim. Em róda tombávam-se adormecidos os idolos coloridos e os dragões alados. E a gueisha, procelana transparente como a casca de um ovo da Ibis, enrodilhou-se num labyrinto que nem os dragões dos deuses em dias de lagrymas. E os seus olhos rasgados, perolas de Nankim a desmaiar-se em agua, confundiam-se scintillantes no luzidio das procelanas.
Elle, num gesto ultimo, fechou-lhe os labios co'as pontas dos dedos, e disse a finar-se:--Chorar não é remedio; só te peço que não me atraiçoes emquanto o meu corpo fôr quente. Deitou a cabeça nas esteiras e ficou. E Ella, num grito de garça, ergueu alto os braços a pedir o Ceu para Elle, e a saltitar foi pelos jardíns a sacudir as mãos, que todos os que passavam olharam para Ella.
Pela manhã vinham os visinhos em bicos dos pés espreitar por entre os bambús, e todos viram acocorada a gueisha abanando o morto com um leque de marfim.