Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 09
Part 14
Estas reflexões occorreram-me ao abrir o primeiro volume das obras da senhora marqueza de Alorna, condessa de Oeinhausen e Assumar, D. Leonor d'Almeida, que actualmente se publicam e de que já dois volumes se acham nitidamente impressos. E foi para mim um prazer verdadeiro escrever estas cogitações d'um momento. Aquella mulher extraordinária, a quem só faltou outra patria, que não fosse esta pobre e esquecida terra de Portugal, para ser uma das mais brilhantes provas contra as vãs pretensões de superioridade excessiva do nosso sexo, é que eu devi incitamento e protecção litteraria, quando ainda no verdor dos annos dava os primeiros passos na estrada das letras. Apraz-me confessá-lo aqui, como outros muitos o fariam se a occasião se lhes offerecesse; porque o menor vislumbre d'engenho, a menor tentativa d'arte ou de sciencia achavam nella tal favor, que ainda os mais apoucados e timidos se alentavam; e d'isso eu proprio sou bem claro argumento. A critica da senhora marqueza de Alorna não affectava jamais o tom pedagogico e quasi insolente de certos litteratos que ás vezes nem sequer entendem o que condemnam, e que tomam a brancura das proprias cãs por titulo de sciencia, de gosto, e de tudo. A sua critica era modesta e tinha não sei o que de natural e affectuoso que se recebia com tão bom animo como os louvores, de que não se mostrava escaça quando merecidos. Uma virtude rara nos homens de letras, mais rara talvez entre as mulheres que se teem distinguido pelo seu talento e saber, é a de não alardearem escusadamente erudição, e essa virtude tinha-a a senhora marqueza em grau eminente. A sua conversação variada e instructiva era ao mesmo tempo facil e amena. E todavia dos seus contemporaneos quem conheceu tão bem, não dizemos a litteratura grega e romana, em que egualava os melhores, mas a moderna de quasi todas as nações da Europa, no que nenhum dos nossos portugueses por ventura a egualou? Como madame de Stael ella fazia voltar a attenção da mocidade para a arte de Alemanha, a qual veio dar nova seiva á arte meridional que vegetava na imitação servil das chamadas letras classicas, e ainda estas estudadas no transumpto infiel da litteratura francesa da epocha de Luís XIV. Foi por isso, e pelo seu profundo engenho, que, com sobeja razão, se lhe attribuiu o nome de Stael portuguesa.
A vida d'esta nossa celebre compatricia acha-se á frente da edição das suas obras: para lá remetto o leitor. Ahi verá como em todas as phases da sua larga e não pouco tempestuosa carreira, ella soube dar perenne testemunho do seu nobre caracter de independencia e generosidade: verá que emquanto na terra natal primeiro a tyrannia e depois a ignorancia e a inveja a perseguiam, ella ia encontrar entre estranhos a justa estimação de principes e de illustres personagens da republica das letras. Ahi verá como nascida no seculo do materialismo, vivendo largos annos no foco das idéas anti-religiosas, acostumada a ouvir todos os dias repetir essas idéas por homens de incontestavel talento, ella soube conservar pura a crença da sua infancia, e expirar no seio do christianismo. Ahi finalmente verá como as ausencias, por vezes involuntarias, da sua terra natal, não puderam fazer-lhe esquecer o amor que devemos a esta, ainda no meio das injustiças e violencias de todo o genero.
O primeiro volume das obras poeticas da senhora marqueza de Alorna contém, afóra a vida da auctora, e uma noticia biographica do conde de Oeynhausen seu marido, as poesias compostas na mocidade. Boa parte d'estas foram escriptas no mosteiro de Chellas, para onde entrou de oito annos de idade com sua mãi, occorrendo a prisão do marquez de Alorna D. João. Encerrada naquelle mosteiro passou D. Leonor d'Almeida os annos mais viçosos da juventude, tendo para alegrar as tristezas de tão longo captiveiro que excedeu desoito annos, unicamente o linitivo do estudo, e os conselhos e affagos maternos. Quisera alguem que tivesse havido mais severidade na escolha das composições d'aquella epocha, algumas das quaes desdizem do primor que noutras posteriores se encontra. Eu lamento só que senão pudesse ajunctar a cada uma a sua data. Assim, bem longe de ter sido um inconveniente essa desigualdade innegavel, houvera ella sido um meio para se avaliarem bem os rapidos progressos da joven auctora, que nas obras de tão verdes annos annunciava já o seu brilhante futuro nos rasgos frequentes de um engenho ao mesmo tempo solido, delicado e vivo.
O resto do primeiro volume e o segundo contém as poesias da senhora marqueza posteriores á sua saída do mosteiro. Na disposição d'ellas tambem não se guarda o methodo chronologico: a natureza dos poemas determina a ordem d'elles. Julgar essa grande variedade de composições não cabia nos estreitos limites d'este jornal. Os que as teem lido, e que sabem entendê-las appreciam-nas devidamente. Ellas são um illustre monumento para a historia da poesia portuguesa, um nobre testemunho da piedade filial que as trouxe á luz publica, e para em tudo esta publicação ser apreciada, a sua nitidez typographica é uma prova dos progressos que a arte de imprimir tem feito entre nós[25].
FIM DO TOMO
Índice
Advertência Qual é o estado da nossa litteratura? Qual é o trilho que ella hoje tem a seguir? Poesia: Imitação--Bello--Unidade Origens do theatro moderno--Theatro português até aos fins do seculo XVI Novellas de cavallaria portuguesas Historia do theatro moderno--Theatro hespanhol Crenças populares portuguesas ou superstições populares _A Casa de Gonsalo_, comedia em cinco actos:--Parecer Elogio historico de Sebastião Xavier Botelho _D. Maria Telles_, drama em cinco actos:--Parecer D. Leonor d'Almeida, Marqueza d'Alorna
Notas:
[1] Diz Mercier em uma annotação, que segundo nossa lembrança vem no 1.^o tomo de suas obras dramaticas, que a divisão de cinco actos é fundada em ser preciso atiçar cinco vezes as luzes do theatro em quanto dura uma recita.
[2] Epist. 9--v. 43.
[3] Art. poet. C. 3--v. 48.
[4] Talvez alguns dos nossos leitores extranhem o modo por que tractamos um escriptor accreditado e ainda vivo. Nós sabemos que a urbanidade é o principal dever de quem impugna qualquer opinião: mas confessamos que não pudemos resistir á tentação. Mr. Laurentie é um defensor do absolutismo, e muito mal tractou a causa da nossa patria no seu exame da Carta portuguesa. É uma pequena vingança litteraria que se nos deve perdoar.
[5] Major mihi rerum nascitur ordo: Majus opus moveo--7, 4 4.
[6] Iliad, 5.^o.
[7] O nosso socio o Sr. Castilho teve tambem o seu _quinhom_ de critica na referida moxinifada romantica. Cremos piamente que elle riu tanto como teria rido o bom do Homero se fosse nosso contemporaneo.
[8] Alludimos ás Messenianas de Barthelemy e ás de Mr. Delavigne, de que talvez as primeiras deram a idéa. Das ultimas lembrámo-nos principalmente da de Waterloo.
[9] Em um curso de litteratura como nós o concebemos daria materia esta idea, aqui apenas ennunciada, a dois capitulos interessantíssimos, o da theoria do agradavel e o da poesia nacional, ou dos objectos da poesia moderna.
[10] É curioso ver as observações de Galileo acêrca da Jerusalem libertada, as quaes jaziam ineditas e foram publicadas em 1793, assim como o é ler a dissertação de Dureau Delamalle comparando as duas Jerusalens, a qual vem no fim do 1.^o tomo da Historia das Cruzadas de Mr. Michaud.
[11] Livro 1.^o, capitulo 1.^o.
[12] Publicados no vol. de 1838, e o terceiro no vol. de 1840.
[13] Opusculos, tomo V, pag. 10.
[14] Herzog-Geschichte der deutschen Nat-Litt.--pg. 99 (Jen. 1831.)
[15] Sismondi. De la litteratura du Midi--tomo I, pg. 289.
[16] Os que sobre esta materia desejarem mais ampla instrucção consultem as dissertações de Mr. Fauriel ácerca da origem da Epopeia Cavalleirosa, no 8.^o vol. da _Revue des Deux-Mondes_ (anno se bem nos lembra, de 1832). A opinião de Mr. Fauriel, contraria á de Sismondi, põe o berço da maior e melhor parte das novellas de cavallaria na Provença; mas antes de abraçar essa opinião cumpre lêr e pesar maduramente as reflexões de Sismondi, que o põe na Normandia, a pag. 273 e seg. do 1.^o vol. da sua Historia Litteraria do Meio-dia da Europa.
[17] Não appareceu este novo artigo quer nos seguintes numeros do vol. 4.^o quer nos demais volumes, emquanto A. Herculano foi collaborador permanente do Panorama. De outros mui variados assumptos litterarios o auctor se occupou nesses volumes. A melhor conjectura sobre tal interrupção não é a de um simples esquecimento, mas a de que o auctor, certo de haver esclarecido a materia especial d'estes artigos onde mais interessava, tencionasse porventura ligar o porseguimento d'ella a certos pontos da nossa historia litteraria que demandavam vagarosa meditação.
[18] Sem exceptuar a dos espectadores, que, bem como tudo o mais, permitta-se-nos a expressão, é preciso crear de novo.
Sobre isso publicaremos brevemente um artigo que, dizendo respeito a um objecto realtivo á civilização e moral publicas, entra naturalmente no plano d'este jornal.
[19] E impressas em Napoles em 1517. Esta rara edição existe na bibliotheca publica do Porto, e pertencia segundo nossa lembrança, á livraria do Visconde Balsemão.
[20] O mesmo succedeu aos dramas portugueses contemporaneos: d'ahi provém, principalmente, a extrema raridade das primeiras edições de alguns d'elles, como de Jorge Ferreira, que só são conhecidos nas edições mutiladas.
[21] Como hoje tanta gente faz criticas dramaticas--as mais difficeis de todas--bom será que reparem nesta observação de Schlegel acêrca do gracioso, personagem especial do drama peninsular. E ainda o grande critico alemão não apontou o motivo principal d'este elemento dramatico: o gracioso faz com que o drama seja em verdade a representação da vida, onde sempre o terrivel e o lepido se cruzam e misturam inextricavelmente. Não ser o gracioso elemento necessario do enredo tem por motivo a natureza d'esse papel: o burlesco póde deixar de ser necessidade da acção; mas nunca de ser essencivel á _fórma_ da acção: no quadro dramatico o gracioso não é _desenho_, é _côr_; é a sombra do clarão do bello e sublime. A tragedia classica, e a tragedia de Racine morreu, porque não havia ahi o contraste: a comedia de Moliere vive, e viverá para sempre, porque nella as lagrymas tolhem ás vezes o riso: na comedia antiga apparecia o drama; na tragedia apenas havia poesia.
[22] Julgamos dever notar aqui que os nossos modernos actores ainda não chamam geralmente qualquer drama, senão _comedia_, embora elle seja tragico. Porventura é isto uma _tradição de bastidores_, conservada desde o seculo XVII, em que entre nós eram tão vulgares as representações dos dramas de Lope e Calderon, como na propria Hespanha.
[23] Para prova de quanto se podem aproveitar as leis como fontes da historia, não dos reis ou dos soldados, mas do _progresso das nações_, deixando as leis civis de que poderiamos apontar circumstancias de extraordinaria curiosidade, limitar-nos-hemos a dizer que d'estas mesmas constituições d'Evora se deprehende o uso antiquissimo das representações nas igrejas, e de outras indecencias semelhantes que o povo julgava então ou licitas ou piedosas. «Deffendemos, diz a constituição 10 do titulo 15, a todas as pessoas ecclesiasticas e seculares, de qualquer estado e condição que sejam, que não _comam nas egrejas, nem bebam, em mezas_, nem sem mezas; nem cantem, nem bailem, em ellas, nem em seus adros: nem os leigos façam ajuntamentos dentro dellas sobre cousas profanas; nem se façam nas ditas igrejas, ou adros dellas, jogos alguns, posto que seja em vigilia de sanctos ou d'alguma festa; nem _representações, ainda que sejam da paixão de nosso Senhor J. C., ou da sita resurreição ou nascença; de dia, nem de noite_, sem nossa especial licença; porque _dos taes autos_ se seguem muitos inconvenientes que muitas vezes trazem escandalo nos corações d'aquelles que não estão muito firmes na nossa sancta fé catholica, _vendo as desordens e excessos que nisto se fazem_.» D'esta passagem se póde concluir que o uso de fazer autos nas igrejas data pelo menos do decimo sexto seculo, sendo, além d'isso, provavel, que semelhante usança remonte a epocha muito mais remota; porque os costumes populares levam muitos annos, tanto a estabelecer-se como a destruir-se; e com effeito, ainda no fim do seculo XVII o bispo do Porto, D. Fernando Corrêa de Lacerda, fulminava censuras contra taes comedias, como se vê de uma sua ordenança que lemos, ainda mais curiosa que a antecedente constituição; mas que por brevidade não apontaremos aqui.
[24] Nasceu em 31 de Outubro de 1750. Falleceu em 11 de Outubro de 1839.
[25] Na capa d'este artigo se omittiram por esquecimento em seguida ao titulo as palavras _Panorama_--1844.