Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 09
Part 13
Não tardam muito a encontrá-lo. É apenas o tempo necessario para a mutação da scena, cair e levantar-se o panno; não para mudança de acto, mas de quadro. O solitario está na caverna falando a sós comsigo. De seu dizer consta que havendo amado D. Maria Telles, e não podendo obtê-la por ser já casada com Alvaro Dias de Sousa, casara com sua irmã D. Leonor, que o deixou para subir ao throno. É, portanto, o eremita--João Lourenço da Cunha, que lida com suas maguas, e que depois de invocar a morte e sonhar vinganças, o que não é a mais approvada disposição moral para esse transe tremendo, cai desfallecido sobre um rochedo. É neste ponto que chegam Lopo Dias e sua mãi. lista apenas entra, diz-lhe que vem trazer-lhe consolações. Impertinencia de mulher! Quem lhe disse a ella que o anachoreta de cuja caverna ninguem ousa approximar-se, entrou na vida eremitica por desventuras e não pelo arrependimento de seus peccados? Quem lhe dá a certeza de que poderá consolá-lo, ella que não o conhece, e que não sabe provavelmente o que lhe ha de dizer? Dar-lhe consolações?! De que genero e de que modo? Que affirmou ella ao sair de casa? Que vinha pedir e não offerecer consolo. Disse uma coisa sem sentido, sem verdade, e agora diz outra. O solitario offende-se da offerta e com razão. Affirmando-se porém na recem chegada, reconhece-a, e ella reconhece-o a elle.--Explicações mutuas. João Lourenço refere então como foi elle o cavalleiro d'armas negras que lhe appareceu na capella, e explica-lhe o proceder do Infante. Este occultou na côrte o seu casamento, e a mão da Infante D. Beatriz acaba de lhe ser offerecida. Cheia d'angustia, neste logar, justa e bem fundada, D. Maria Telles pergunta: e _acceitou-a_?--Uma voz que sôa na bocca da caverna responde--_Acceitou_!--É o Commendador d'Elvas que assoma involto numa capa, já se sabe, negra. D. Maria desmaia e cai o panno.
Este desfeixo do acto é natural e dramatico, e a melhor coisa de todo elle. O Commendador vendo-a sair seguia-lhe os passos; escutou a conversação, e em seus pensamentos de vingança não consentiu que outrem desse a punhalada mortal nessa mulher de quem queria vingar-se. Aqui o efleito dramatico vem naturalmente da situação e caracter dos personagens. Quanto ás scenas anteriores parece-nos que estão abaixo de toda a critica.
Acto terceiro.--D. Leonor está só debatendo-se com os remordimentos de sua consciencia; entra o Commendador d'Elvas. Vem trazer-lhe a noticia de que fez ao Infante a proposta do casamento com D. Beatriz, e que achando-o mau de resolver lhe dera suspeitas de que sua mulher o trahira. D. Leonor relucta contra esta nova calumnia: martyrizam-na os remorsos porque viu em sonhos os castigos que lhes estavam reservados no outro mundo a elle Commendador e a ella Rainha; nesses tormentos, conforme o direito, e em vista da nossa moderna jurisprudencia dramatica, ha pontas de rochedos em braza para arrastar o miseravel Commendador. O triplicado da punição; as pontas, os rochedos e as brazas, aterram-no, mas finge-se resoluto. Não assim a rainha a quem os sonhos pavorosos não podem esquecer. Segue-se uma lucta moral em que os insultos refervem entre os dois. O Commendador sai ameaçando a rainha. Apenas esta se acha só, entra João Lourenço da Cunha: scena violenta entre os dois em que a rainha successivamente treme, humilha-se, amaldiçoa e ameaça, e em que elle fala constantemente a linguagem do odio profundo. No meio da altercação sobrevem o Infante que tendo João Lourenço por morto, crê que é a sua alma em pena. Este o ameaça tambem por querer dissolver o matrimonio contrahido com D. Maria Telles. A rainha nega o casamento: João Lourenço injuria-a de novo, e o Infante arranca da espada. A ponto já de brigarem acode el-rei aos brados de D. Leonor. João Lourenço que enfiou a ladainha dos doestos affronta tambem D. Fernando que chega a levar a mão á espada, mas que lembrando-se de quem é, manda-o como era de razão, metter na cadêa. Partindo, o antigo marido da rainha, pergunta a si mesmo, quem, preso elle, defenderá D. Maria Telles. D. Lopo Dias apparecendo no fundo responde-lhe;--_Seu filho_!--E cai o panno.
Este acto, tem entre todos como é evidente, a primazia no desalinhavado e absurdo do desenho, posto que não lhe falta merito ás vezes na execução das scenas. Primeiramente como é crivel que tendo Garcia Affonso sido encarregado pela Rainha de propôr ao Infante o novo casamento, e estando este na côrte, o Commendador antes de dar parte a D. Leonor do desempenho da commissão, fosse a Coimbra levar a celebre carta do acto 2.^o, o que podia fazer qualquer pagem ou correio? Em segundo logar, não estaria doido João Lourenço, tendo tomado a peito defender D. Maria Telles, em vir metter-se nas garras da rainha, só para a injuriar e aos outros seus inimigos, porque não consta do drama que viesse fazer outra coisa? Que esperava elle lhe succedesse, entrando no paço, onde todos o conheciam, para practicar aquellas gentilezas, senão ir jazer na cadêa? Depois como entrou elle sem licença até o quarto de D. Leonor? É a mesma inverosimilhança do primeiro acto. O paço real no seculo XIV era menos vedado que hoje: permittia-o a differença dos tempos; mas nem por isso era uma taberna, onde qualquer entrasse quando e como lhe approuvesse; e todavia é sobre estes argumentos que assentam os dois ultimos actos. Quanto a este abster-nos-hemos de dizer mais nada contentando-nos com observar que termina por um effeito dramatico perfeitamente analogo ao desfeixo do segundo, isto é pelo apparecimento de um personagem inesperado.
Acto quarto.--João Lourenço está na masmorra em que a propria imprudencia o lançou. Ahi se dóe e queixa de Deus, em vez de se queixar de si. No meio de suas lástimas passa uma barca pelo Téjo, e ouve-se nella uma voz que se approxima da prisão. A unica prisão em que podia estar João Lourenço era a dos paços do Castello e como de lá se ouvia uma voz no rio e esta se approximava da masmorra não será facil dizer: todavia deixemos bagatellas. Provavelmente quem cantava era D. Lopo que d'ahi a pouco entra no calaboiço, aliás, não intendemos que pudesse trazer-se a proposito tal cantiga que nada tem com o drama. D. Lopo vem livrá-lo, acompanhado do carcereiro que provavelmente para isso peitou. Isto de carcereiros comprados como meio dramatico, é coisa quasi tão velha e gasta quanto o estão os confidentes classicos. O prêso recusa a liberdade porque quer morrer. Aqui fica evidente a doidice de João Lourenço. Não podem ter passado cinco minutos desde que elle dizia: _Oh Senhor Deus deixar-me-heis morrer sem ter salvado a innocente Maria?... Oh, nem uma esperança me dais_?--e agora que o querem soltar responde com vehemencia; _deixai-me morrer; deixai-me morrer_!?--Pois se quer morrer para que estava apoquentando os céus com seus queixumes? Isto era capaz d'impacientar até o sancto dos sanctos. Em fim depois de varias ponderações do poeta phtysico o homem resolve-se a sair. D. Lopo diz-lhe que espere que vai arranjar os meios da fuga, e parte com o carcereiro. Fica só o prêso, porém não tarda companhia. Uma porta secreta se abre e D. Leonor entra, tira a chave e encaminha-se para seu primeiro marido. Vem dizer-lhe que elle ha de morrer alli mesmo: vem saciar o seu odio: João Lourenço depois de ameaças mutuas tira-lhe repentinamente a chave da porta secreta, e diz-lhe que vai salvar D. Maria Telles; a isto acode a Rainha que não lhe achará senão o cadaver. Desesperação de João Lourenço da Cunha, que supplica de joelhos, e que achando D. Leonor inabalavel, ergue-se furioso e quer matá-la com um punhal que traz escondido: é então que ella supplica; é então que elle se torna inexoravel. Aponto de a apunhalar chega D. Lopo; a esperança amortece a cholera no coração do marido da Rainha; o punhal cai-lhe das mãos. D. Leonor continua todavia a ficar de joelhos, a pedir não que lhe deixem a vida, porque esta já ella sabe que está salva; mas que a soltem: que lhe permitiam sair d'aquelle logar d'horror. Sublime hypocrisia que encubriu o animo damnado com a mascara do susto. Recusam-lho: então a cholera trasborda do peito d'essa mulher que é um abysmo de maldade. Nem a demora d'uma hora a que elles a condemnam saindo, soffre a rainha. Apenas se acha só a régia hyena corre, e lança raivosa as garras ás grades da masmorra; depois ajoelha e quer orar, mas alevanta-se logo, e sorri. Pensa um momento, e com gesto ameaçador exclama: _D'aqui a uma hora serei outra vez rainha_. Um pensamento atroz e medonho reluziu por certo á luz sanguinea que bruxulea nessa alma? Qual foi elle? Sabe-lo-hemos no sexto e derradeiro quadro.
Nas tres ultimas scenas d'este curtissimo acto, tão curto que talvez a representação d'elle não occupe quinze minutos a scena, revela-se um poeta. Não mencionaremos defeitos porque o que tem excellente no-los varreu da memoria: o auctor comprehendeu perfeitamente o caracter de D. Leonor: ha aqui o talento profundo de um verdadeiro escriptor dramatico. Oxalá poderamos dar de tudo e de todo o drama os mesmos testemunhos de louvor e admiração! Com magua temos feito o contrario, porque é o nosso penoso dever distribuir recta e severa justiça, e corresponder á confiança que em nós depositou esta assemblêa.
Quinto acto.--Estamos em Coimbra nos paços do Infante. Ao correr do panno D. Leonor e Garcia Affonso falam a sós. A rainha, segundo parece, saíu da prisão e chegou a Coimbra antes que João Lourenço e D. Lopo. Não 6 isto provavel mas é possivel; porque o odio entranhavel costuma ser ás vezes mais diligente que todas as affeições. A scena da prisão, uma vingança falha, uma humilhação necessaria mas cruel, espertaram toda a violencia do caracter da rainha: os remorsos desappareceram, e ella precisa de sangue. Incita por isso o Commendador para que positivamente accuse sua irmã~ de adultera: conhecera pelo terror de João Lourenço que este a amava, e é de bom-grado fratricida para começar pela vingança que mais deve doer a seu antigo marido. É este o verdadeiro retrato de D. Leonor, mas o que é falso, o que não condiz com o caracter profundamente dissimulado que lhe attribue a historia, e o auctor tão bem pintou no fim do 4.^o acto, é o injuriar gratuitamente o mesmo homem que está incitando para que seja instrumento da sua vingança. Embora ambos se conhecessem bem mutuamente: embora estas duas almas negrissimas estivessem sem máscara; mas ainda os maiores malvados não ouzam recordar uns aos outros os seus crimes, e injuriarem-se com elles senão nos extremos de cholera. Vemos que do aspecto que toma esta scena e do seu desfeixo, depende a existencia de duas ou tres scenas seguintes: a inverosimilhança porém da origem diminue-lhes grande parte do merito que possam ter. As affrontas da rainha são correspondidas por Garcia Affonso, que acceitando a infame commissão, e um bracellete que deve servir de prova á calumnia, sai praguejando e ameaçando D. Leonor, e ameaçado e praguejado por ella. Esta scena é evidentemente desarrazoada, ou antes impossivel. D. Leonor fica só, e num monologo resolve a morte do Commendador: foi para isto que se delineou a scena antecedente. Por assim dizer, o auctor fez num drama o que se diz fazia Boileau nos seus alexandrinos, sugeitou a rima do primeiro verso á do segundo. Resolvido o assassinio do seu antigo cumplice, a rainha dá um signal e apparece Vasco seu pagem. D. Leonor diz-lhe que um homem a ultrajava: responde o pagem que lhe diga seu nome e elle morrerá: esta scena está felizmente imaginada e o caracter de um official d'assassino dado ao pagem é rapida e profundamente traçado. Vasco sai e a rainha esconde-se em uma camara para d'alli ver morrer Garcia Affonso. Apenas ella se retira o Infante entra com o Commendador d'Elvas que pretende persuadi-lo da infidelidade de D. Maria Telles e que por fim o convence com a prova do bracellete, o qual, diz elle, João Lourenço perdera. Fraquissima é a prova, mas acceitemo-la, visto que o Infante a acceita. Este arranca a adaga, arromba a porta da camara de Maria Telles e arroja-se para lá furioso. Garcia Affonso fica só e tirando um frasco de veneno, declara em um monologo que envenenará o Infante logo que tenha assassinado sua mulher. Vasco entra então, e gracejando com Garcia Affonso, diz-lhe que precisa de lhe communicar um segredo, mas que antes d'isso beberá com elle um trago de vinho. O aspecto de Vasco assustou o Commendador lembrado do que passou com a rainha, e de que este pagem é o executor das suas vinganças secretas. Emquanto Vasco vai buscar o vinho, elle lança á cautella veneno em uma das taças que alli estão, e quando o pagem volta enche-a e offerece-lh'a, tomando para si outra. Ambos levam as taças á bocca, mas nenhum bebe. Garcia Affonso põe a sua sobre a mesa e pergunta ao pagem qual é o segredo; rindo atrozmente este lhe pergunta se quer sabê-lo; Garcia Affonso responde que sim, e que o diga depressa porque lhe resta pouco tempo para o revelar por estar envenenado: o pagem continua a rir e replica que é elle que o está, e que esse era o segredo. Garcia Affonso despejando a taça mostra que lhe não tocara: o pagem faz o mesmo. O Commendador então lhe diz: _Pois bem! nem um nem outro morreremos_.--_Enganaes-vos_!--torna Vasco soltando uma risada terrivel e dando-lhe uma punhalada. Garcia Affonso, amaldiçoa-se a si e ao pagem, procurando tambem feri-lo. Neste momento ouve-se dentro a voz de D. Maria Telles que implora piedade. O horror appossa-se do Commendador agonizante, os gritos de D. Maria redobram, e o Infante sai da camara com a adaga na mão tinta em sangue. Os remorsos fazem que o Commendador moribundo confesse a innocencia de D. Maria Telles. O infante furioso quer cravar-lhe a adaga, mas antes d'isso cai morto. Garcia Affonso João Lourenço chega já tarde seguido de cavalleiros e povo: o Infante desesperado pede que o matem, e João Lourenço quer cumprir-lhe os desejos, quando D. Maria Telles saindo da camara o retem e vai cair nos braços do Infante a quem perdoa morrendo. Apparece então D. Leonor, e apontando para os cadaveres da irmã e de Commendador diz para o marido--que veja como se vingou uma rainha. D. Lopo apparecendo subitamente com a espada na mão, abre uma janella e mostrando a praça atulhada de povo armado, diz-lhe:--_Senhora rainha, o filho vingará tambem a morte de sua mãi, e o povo as injurias recebidas_. Assim se conclue o drama.
Este acto é incontestavelmente o melhor, e o seu effeito scenico deve ser grande. Apesar das imperfeições que n'elle se pódem e com razão reprehender, o auctor procurou resgatar aqui os defeitos que pullulam nos antecedentes, como successivamente notamos em cada um d'elles.
Restam algumas observações sobre estylo e linguagem: assim completaremos o exame d'este drama visto a todas as luzes a que se deve considerar.
O estylo para dizer tudo em poucas palavras é o da moda: isto é, a maior parte das vezes falso: comparações frequentes, que a situação moral dos personagens que as fazem não comporta: certa poesia na dicção impropria do dialogo: fartura d'essas exaggerações com que embasbacam os parvos da platéa, e que os homens de juizo não podem soffrer. Ás mãos cheias estão por ahi derramadas as maldições, os anjos de azas brancas, os rochedos em braza, os infernos, os demonios, e toda a mais ferramenta dramatica, usada hoje no theatro, e que não sabemos d'onde veio, porque sendo evidente que os nossos escriptores principiantes buscam imitar os grandes dramaturgos franceses, é certo que raramente acharão lá essa linguagem ôca e falsa, que só póde servir para disfarçar a falta de affectos e pensamentos: Victor Hugo e Dumas não precisam nem usam de taes meios, e para citarmos de casa, já que temos cá o exemplo, que esses noveis vejam se nos dramas do nosso primeiro escriptor dramatico, se no _Aucto de Gil Vicente_ ou no _Alfageme_ ha essa linguagem de cortiça e ouropel, ha essas expressões turgidas e descommunaes que fazem arripiar o senso commum, e que offendem a verdade e a natureza. O estylo é tudo, dizia Voltaire. Não somos da sua opinião absolutamente, mas é incontestavel que uma obra litteraria excellente em todas as demais partes, se lhe falecer a propriedade do estylo nunca poderá obter para seu auctor uma reputação duradoira. Não faltam na historia litteraria de todas as nações exemplos d'esta exactissima observação.
Quanto aos erros de lingua e construcção, faceis são elles de emendar: assim o fossem os de estylo, e ainda mais os de contextura! Intoleraveis, mais que nenhuns, nos parecem o vicio constante do introduzir um _i_ nas segundas pessoas do plural dos preteritos como _fizesteis_, _tivesteis_, etc.--por fizestes, tivestes; _soffrer_ por _padecer_, sendo a significação portuguesa de _soffrer_ a de _padecer com paciencia ou constancia_: o uso demasiado dos possessivos que tanto afrancezam o nosso mui illiptico idioma: a substituição escusada de preteritos simples pelos compostos do participio e dos auxiliares: tautologias indisculpaveis, como--_abysmo immenso e sem fim_; _caverna que parece zombar e escarnecer, etc._;--gradações ás avessas, como: _cheio de desesperação e pesar_. A estes e outros defeitos poderia o auctor dar remedio revendo attentamente o manuscripto, que talvez o limite de tempo para o concurso lhe não deixou aperfeiçoar e pulir, e por isso intendemos dever nessa parte ser indulgente a censura do Conservatorio.
Temos feito longa e severamente a critica do drama--_D. Maria Telles_.--Fizemo-lo assim por muitas e mui urgentes razões. Tem soado queixas contra a fórma demasiado simples com que se costumam exarar os pareceres sobre os dramas que annualmente concorrem a premios: conselhos sinceramente dados tem-se tomado pela expressão do orgulho; imaginou-se uma aristocracia litteraria, contraria a todos os ingenhos que surgem de novo. É preciso confessar que pelo que toca ao não motivado, e á brevidade dos pareceres, sobre tudo d'aquelles que condemnam, é justa a queixa. Todas as mais são infundadas. Os factos de quatro annos ahi estão provando o contrario. Se alguma culpa se pode lançar ao Conservatorio é a nimia indulgencia; já algumas das suas sentenças favoraveis tem sido reformadas pelo supremo tribunal do publico, ao passo que ainda nenhum drama condemnado por elle toi levado por appellação ao grande jury da opinião da platea: todavia se os auctores d'esses dramas tinham a consciencia da injustiça no julgamento, para lá deviam aggravar-se. Esta é a nossa defensão completa contra as vãs accusações de parcialidade; contra os sonhos de uma imaginaria aristocracia litteraria com que a mediocridade pretende passar aos olhos de parvos e ignorantes, pelo ingenho perseguido ou menoscabado.
A Secção da Litteratura pensa por tanto, que importa ao bom nome do Conservatorio o fazer sempre miuda e inexoravelmente o exame dos dramas que concorrem aos premios, e motivar largamente as suas sentenças. Tanto os concorrentes como a nação teem direito de assim o exigirem. O tempo da censura inquisitorial, que muitas vezes só serve de capa á incapacidade, passou. É nossa obrigação restricta fundamentar as opiniões que assentamos: julgadores aqui, seremos lá fóra réos, e o commum juiz que é o publico não está adstricto a julgar por nossas palavras. Por outra parte esta miudeza e severidade de critica servirá de correcção aos auctores, para cuja emenda é inutil um parecer superficial e vazio de doutrina, ao passo que lhes habilita o amor proprio para crer que não foram elles, mas fomos nós os que errámos.
Além d'isso, a Secção da Litteratura intende que é necessario ser finalmente severa a censura do Conservatorio, para o verdadeiro progresso dramatico. Durante quatro annos este progresso tem sido unicamente em extensão: falta a profundidade. O numero dos dramas augmenta, mas o merito d'elles é o mesmo, senão é menor. A principio convinha affagar todas as tentativas: hoje é preciso afastar as não vocações dramaticas que a facilidade das recompensas tem tornado em demasia ousadas, e é preciso constranger aquelles que podem e sabem produzir fructos de verdadeiro ingenho a darem ao theatro obras que os honrem e honrem a patria.
Pelo que respeita em especial ao drama--_D. Maria Telles_--a Secção de Litteratura ainda pede para elle a indulgencia do Conservatorio. A leitura d'esta composição revéla a verdura d'annos e inexperiencia do seu auctor. O desconnexo e inverosimil da contextura, a ignorancia quasi absoluta dos costumes e instituições da epoca escolhida, e ainda mais a falta de conhecimento da logica das paixões e affectos, e por isso da consistencia dos caracteres estão dizendo que o mundo e a sociedade é em grande parte um mysterio para elle, mysterio que ainda mal as tempestades politicas e a vida demasiado energica do nosso seculo lhe revelarão em breve. Se o auctor quiser acceitar os conselhos prudentes que para melhorar o seu escripto lhe não recusarão, por certo, os membros d'este Conservatorio, o drama--_D. Maria Telles_--poderá subir á scena, não com a certeza de obter a approvação de summo juiz o--publico--mas de apparecer ante elle sem deshonra sua, e sem que nós sejamos accusados de desleixo no cumprimento dos nossos deveres. O parecer da Secção da Litteratura é portanto, que a Mesa convide o auctor do drama a dirigir-se a ella para o fim apontado. O Conservatorio resolverá o que fôr mais justo e conveniente.--_Alexandre Herculano_.
*D. Leonor d'Almeida, Marqueza d'Alorna*
*D. Leonor d'Almeida, Marqueza d'Alorna*[24]
Por grande que deva ser a gratidão que se associa ás recordações d'aquelles que nos geraram, por funda que vá a saudade inseparavel da memoria paterna, no coração do bom filho ha um affecto não menos puro, e não menos indestructivel para o homem cujo espirito allumiado pela cultura intellectual tem a consciencia de que o seu logar e os seus destinos no mundo são mais elevados e nobres que os d'esses tantos que nasceram para viverem uma vida toda material e externa, e depois morrerem sem deixar vestigio. Este affecto é uma especie de amor filial para com aquelles que nos revelaram os thesouros da sciencia; que nos regeneraram pelo baptismo das letras; que nos disseram: «caminha!» e nos apontaram para a senda do estudo e da illustração, caminho tão povoado de espinhos como de flores, e em cujo primeiro marco milliario muitos se teem assentado, não para repousarem e seguirem ávante, mas para retrocederem desalentados, quando sózinhos não sentem mão amiga apertar a sua e conduzi-los após si. Tirai á paternidade os exemplos de um proceder honesto, as inspirações da dignidade humana, a severidade para com os erros dos filhos, os cuidados da sua educação, e dizei-nos o que fica? Fica um certo instincto, ficam os laços do habito, e para impedir que tão frageis prisões se partam, fica o preceito de cima que nos ordena acatemos e amemos os que nos geraram, ainda que a elles não nos prenda senão a dadiva da existencia, esse tão contestavel beneficio. Pelo contrario aquelles que foram nossos mestres; que nos attrahiram com a persuação e com o proprio exemplo para o bom e para o bello; que nos abriram as portas da vida interior; que nos iniciaram nos contentamentos supremos que ella encerra; para esses não é preciso que a lei de agradecimentos e de amor esteja escripta por Deus: a razão e a consciencia estamparam-na no coração: cada gozo intellectual do poeta, do erudito, do sabio, lh'a recorda, e quando elles se comparam com o vulgo das intelligencias, reconhecem plenamente a justiça do sentimento de gratidão que os domina.