Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 06
Chapter 8
J· dissemos que os agentes ostensivos de Philippe II em Portugal, durante o curto periodo do reinado do cardeal D. Henrique e da regencia dos governadores, foram D. Christov„o de Moura e o duque de Ossuna, a que se haviam ajunctado, tambem com um caracter official, tres jurisconsultos--Rodrigo Vasques, Molina, e Guardiola. Todas estas demonstraÁıes publicas da pretens„o do rei castelhano, e muitas das negociaÁıes secretas, corriam por intervenÁ„o dos cinco; outros individuos, porÈm, que se correspondiam directamente com a cÙrte de Madrid trabalhavam em silencio, mas porventura ainda mais efficazmente, em mover os animos, e em aplanar as difficuldades materiaes que embaraÁavam o bom exito da empreza. Uma parte d'esta correspondencia existe ainda, se n„o no original, ao menos n'uma especie de resumos, feitos talvez pelos secretarios de estado, a quem era dirigida, para serem apresentados a Philippe II, cujas resoluÁıes est„o postas · margem pela sua propria letra, ora seguidamente, ora ao lado do extracto respectivo de cada um dos paragraphos. S„o estes extractos e outros os que ora seguem. O primeiro È de uma carta de um certo Pedro Rol de Lacerda datada de 15 de julho de 1579. Diz assim:
´Recebeu a 9 d'este a de S. M. em que lhe mandava que fosse para Valencia[35].--Que logo o cumprira.ª
´Que tivesse boa correspondencia com os portuguezes para os persuadir na fÛrma que se lhe ordena.--Que alguns e atÈ muitos _conhecem o que se lhes diz; mas n„o ousam declarar-se atÈ que seja tempo_.ª
´Lembra _a carta de crenÁa_ de S. M. para poder encaminhar melhor este negocio, e da qual far· uso para com aquelles que lhe parecer, _fazendo-lhes oferecimentos da parte de S. M._; e affirma que isto seria de _muito effeito_:ª
´Os que entendem o que se lhes ponderou ·cerca do que arriscam e podem perder, temem que S. M. os metta em apertos. Elle tem procurado desenganal-os, dizendo-lhes que podem tractar dos meios (?) offerecendo-se-lhes para medianeiro; mas respondem que _n„o se atrevem por ora_.ª
O resto do extracto n„o offerece cousa de importancia; por isso o omittimos. A nota de Philippe II, escripta no verso do papel, diz:
´Que prosiga. Sabei do.... se lhe foi enviada carta de crenÁa, e se n„o que se lhe envie como aos outros: que lhes assegure que n„o se apertar· com elles, nem haver· novidade a seu respeito. Avisai o conde.... que, se n„o responderam, respondam; digo a dom.... para que se envie.ª
O extracto immediato È de uma carta datada de Almeirim a 27 de janeiro de 1580, e escripta por AndrÈ Gaspar, corso, agente secreto, segundo parece, de Castella. Contem o seguinte:
´Que S. A.[36] esteve tres dias mui doente, e que pensavam n„o escapasse, e que n'aquelle dia melhor·ra e comia um pouco mais:ª
´Que apesar da gravidade da doenÁa vieram no dia 24 os cinco primeiros bancos[37] dos procuradores de cÙrtes, e se lhes mostrou o que o braÁo ecclesiastico e militar (nobreza) tinham resolvido. Pedindo-lhes que fizessem o mesmo, replicaram que se ajunctariam e responderiam:ª
´Que depois de se haverem junctado resolveram que lhes tocava a eleiÁ„o, e que declarasse S. A. por sentenÁa de letrados este ponto, pois lhes havia acceitado a demanda, accrescentando que Deus dÈsse larga vida a S. A.: que depois dos seus dias elles elegeriam rei; porÈm que, se agora lhes declarasse successor portuguez, o acceitariam; mas sendo S. M. (Philippe II), em tal n„o queriam ouvir falar, _e antes soffreriam a morte_:ª
´Que posto S. A. estivesse t„o infermo lhes ouviu _pacientemente_ esta resposta no dia 25, e lhes respondeu que dentro de dois dias sentenciaria sobre o ponto da eleiÁ„o, e assim os despediu:ª
´Que depois mandou chamar os do seu conselho e letrados, que assentaram n„o tocar aos procuradores a eleiÁ„o, e que se esperava a sentenÁa sobre este artigo no dia seguinte:ª
´Que n'aquelle mesmo dia enviara S. A. o bispo Pinheiro com um recado aos procuradores, aspero, segundo dizem, o que saberia quando o bispo voltasse:ª
´Que, vivendo S. A. oito dias, espera que amansem; e quando n„o queiram, como diz _aquelle amigo_, tem S. A. determinado levar o negocio ao cabo:ª
´Que o _amigo_ faz mui bons officios com S. A., e elle solicita esses officios, apertando-o com os inconvenientes que poderiam sobrevir:ª
´_Que os fidalgos e prelados est„o mui conformes_ com a vontade de S. A., e que tudo depende da sua vida:ª
´Que D. Antonio È que traz alterados os procuradores por intervenÁ„o de frades, fazendo todos os maus officios que podem contra S. M.:ª
´Que com aquelle seu amigo francez, que est· por parte do seu rei solicitando os procuradores e D. Antonio, procurou falar, e responder-lhe que D. Antonio lhe tinha dicto que se a sentenÁa se dÈsse a favor de S. M. _elle seria o primeiro a vir beijar-lhe a m„o como a seu rei_, e quando n„o, nada queria fazer:ª
´Que soube do francez que o seu rei se via muito embaraÁado com os lutheranos, e que n„o queria que os portuguezes confiassem muito no soccorro d'elle:ª
´Que S. A. manda hoje o meirinho-mÛr[38] a Lisboa para socegar a gente do povo e ter conta na cidade, e vai com mui bom animo e vontade.ª
(´N„o ia a isso, segundo me escrevem, mas sim a prevenir a armada que ha de ir para a India, como vedor da fazenda, que È agora, o que vem a ser como contador-mÛr. E teem n'isto das armadas melhor fÛrma que c·.ª--_Nota de Philippe II, · margem_.)
´Que, despedindo-se de S. A. (o meirinho-mÛr), lhe disse que sentenceasse por S. M., _visto haver-lhe dicto que o direito era seu_, e que se apressasse em dar o seu a seu dono, e n„o deixasse o reino em perdiÁ„o:ª
´Que S. A. lhe respondeu que em breve sentenciaria.ª
´Que a isto lhe replicou o meirinho-mÛr que dÈsse a sentenÁa e n„o curasse de tractar de concertos com os procuradores, os quaes depois se poderiam fazer com S. M.; ao que lhe tornou que d'um modo ou d'outro n„o tardaria a dar a sentenÁa.ª
´Que o meirinho-mÛr faz novas instancias sobre a conveniencia de S. M. se approximar das fronteiras d'aquelle reino.ª
´Que S. A. n„o est· bem com o duque de BraganÁa, _nem o pÛde ver, depois que n„o quiz fazer o que lhe mandou propÙr por Paulo Affonso, e ainda mais depois que lhe disseram que anda em ajustes com D. Antonio_.ª
´Louva o bom proceder e officios de D. Christov„o de Moura, e diz que elle por sua parte n„o descanÁar·.
´Espera que ainda que os procuradores bravateem n„o se poder„o defender, porque n„o tÍem dinheiro, nem muniÁıes, nem armas, nem gente de vulto; nem pensam que S. M. haja de se mover d'aqui.ª[39]
´Entende que em l· sabendo que S. M. se encaminha para aquelle reino se aplacar„o.ª
Os extractos immediatos aos que anteriormente public·mos s„o de uma carta, datada de Almeirim a 22 de marÁo de 1580 e escripta pelo licenciado Medellin, que d'esta carta e d'outra sua se vÍ ter sido um dos mais activos agentes da usurpaÁ„o castelhana. … um dos documentos importantes, pelas materias de que tracta e notas que o acompanham. O seu conteudo È o seguinte:
´Recebeu as cartas que se lhe escreveram.ª
´Representa haver feito l· todos os bons officios que pÙde, e que aos ministros de S. M. parece que elles tÍem aproveitado.ª
´Que Miguel Telles, alcaide de Marv„o, ainda n„o partiu, e que o acha duro de condiÁ„o, ainda que o escutou placidamente, e que espera reduzil-o, posto que lhe affirmasse que a qualquer outro n„o soffreria o que lhe elle disse.ª
´Que Manuel Alvarez, homem nobre e rico, que È feitor do irm„o do alcaide, e todo d'elles, e que vive n'aquella praÁa, levou elle Medellin a casa de Rodrigo Vasquez; que este se offereceu para servir devÈras a S. M. tractando em Marv„o com todas as cautelas com Miguel Telles para o pÙr em bom caminho.ª
´Que as cartas que S. M. mandou escrever aos Tres-Estados foram bem recebidas, e fizeram muito effeito, junctamente com o discurso que Rodrigo Vasquez lhes fez.ª
´Diz que houve descuido em n„o falar aos procuradores antes, e principalmente quando el-rei morreu: que isto fÙra de grande importancia, como o advertiram Antonio Carrilho, procurador por Marv„o, e outros. Que elle o lembrou e assim se resolveu, mas que atÈ agora se n„o fez.ª
´Tambem diz que foi de parecer que os procuradores estivessem em Almeirim, para que todos os dias se podesse tractar com elles, e n„o ficassem entregues a D. Antonio; que os dictos procuradores se mostram sentidos do pouco caso que se fazia d'elles.ª
´Que os que tinhamos por nossa parte se ausentaram ha dias, logo que se lhes declarou que as cÙrtes estavam acabadas com a morte d'el-rei; e n„o havendo quem os entretivesse se foram os mais d'elles; ficando os parciaes de D. Antonio e do duque de BraganÁa, que por certo buscavam meios de os reter.ª
´Demonstra como este inconveniente se deu na realidade, porque j· se experimentou com os outros dois BraÁos que tÍem estado em Almeirim, os quaes se mostram mais partidarios de S. M. por os seus ministros os haverem tractado; e os procuradores, por n„o os haverem conversado, se tÍem portado mal causando alvorotos.ª
´Que os procuradores que estavam de bom animo lhe diziam que n„o ousavam falar, porque em falando iam · noite a suas casas queixar-se (os outros?) que n„o os deixavam em liberdade.ª
¡ margem dos paragraphos antecedentes acham-se tres notas, duas pela letra de Philippe II, e uma pela de D. Jo„o da Silva.
Primeira, de Philippe II:--´Veja o conde tambem esta, que ha ahi cousas de consideraÁ„o.ª
Segunda, de D. Jo„o da Silva:--´Esta È mui boa carta. O bispo de Portalegre que torne logo depois de Paschoa em todo o caso, e seja um dos que fiquem, se fÙr possivel. Aquelle Melchior do Amaral de que fala È homem de muito juizo e honra; e entendo que entre a gente de letras e nos tribunaes tem S. M. grande parcialidade. Depois vi e sube com gosto que o bairro de Portalegre n„o se movia.ª[40]
Terceira, de Philippe II:--´Diz mui bem o conde, e assim escrevi em conformidade d'isso, e notai se ha alguns pontos de importancia a que convenha responder em particular, e um d'elles È este.ª
Segue o extracto:
´Diz que falando-se individualmente aos portuguezes entendem a raz„o, e quanto lhes importa serem de S. M. Dilata-se em representar isto.ª
´Que n„o sabem dar outra resposta sen„o que se julgue a causa.ª
´Que Rodrigo Vasquez tem desempenhado bem a sua obrigaÁ„o no particular e nas junctas.ª
´Que o bispo de Portalegre quer ir na semana sancta · sua egreja, que est· d'alli 18 leguas; que lhe disse n„o fosse, e que lhe respondeu voltaria; e que elle tambem vai para Valencia, que fica a 4 leguas de Portalegre; que se lhe pÛde escrever para l·, se S. M. fÙr servido que faÁa tornar o bispo depois de Paschoa para onde estiver a cÙrte. Assegura a boa vontade do bispo, e estar ligado com elle. Que o licenciado Rodrigo Vasquez foi de parecer que se fosse por emquanto, e que elle partia para Lisboa.ª
´Que n„o deixa de aperceber-se aquella gente enviando armas aos povos.ª
´Adverte de parecer commum que qualquer dilaÁ„o que S. M. faÁa ser· muito damnosa, e que o ter j· antes entrado fÙra de grande importancia.ª
¡ margem, e acompanhando todos estes paragraphos, lÍ-se a seguinte nota de Philippe II:
´E assim dae noticia ao conde para que o resolva na juncta; e que convir· escrever aos fronteiros de l· que negocÍem com os logares visinhos que tÍem voto em cÙrtes, e procurem tÍl-os de sua parte, a elles e aos procuradores. Se o bispo se foi, convem que torne logo, e o Medellin tambem, e assim se lhes escreva, e que nos avise sempre do que houver, e que eu me approximarei de l· com brevidade e forÁas (?).ª
Continuam os extractos:
´A este proposito diz que Melchior do Amaral, membro do conselho d'estado n'aquelle reino, que veio agora resgatado e que È um dos de maior qualidade, lhe disse que n„o sabia porque S. M. n„o entrava no reino.ª
´Que o dicto Melchior do Amaral È de parecer que Portugal ganha muito n'isso, e que, se porventura S. M. n„o remedeia a pobreza d'elle, n„o sabe quem ha de remedial-a.ª
´Que diz tambem que o reino deve tres milhıes, e que faltam trezentos mil cruzados para chegar a receita · despeza, o que elle sabe pelos livros da fazenda real.ª
Aqui pÙz Philippe II esta nota:
´Mau È isso, visto como estamos por c·.ª
Prosegue o extracto:
´Que as cÙrtes se reduzem a menor numero: os procuradores do povo a 30, os prelados a 3, e os fidalgos a 9.ª
´Que o bispo de Portalegre lhe disse que seria um d'elles, e que os mais da cÙrte se governam por elle.ª
Extracto da carta que vem inclusa:
´Que o bispo lhe disse, depois de estar escripta a carta antecedente, que n„o escrevia a v. m.^{cÍ} por n„o saber da partida do correio; que o faria no outro, e que breve esperava vÍr-se com v. m.^{cÍ}ª
´Que ainda n„o era certa a sua ida a Portalegre, porque os governadores o n„o deixavam, e que o tinham emprazado para no dia seguinte se vÍr com elles ·s duas horas.ª
´Que na segunda-feira da juncta que se fez de todos os tres braÁos em Almeirim, quando D. Christov„o de Moura entrou para dar a carta de S. M. houve algum alvoroto, e o bispo de Portalegre se travou com Phebo Moniz, procurador por Lisboa, dizendo-lhe muitas palavras asperas, de modo que o Phebo se poz de joelhos diante d'elle, e chegaram muitos procuradores ao bispo dizendo-lhe se queria alguma cousa, e que o mesmo lhe foram depois dizer a sua casa.ª
´Que lhe disse que dÈsse parte d'isto, e que lhe parecia que se ajunctariam, como de novo, a cÙrtes os que faltavam de todos os tres braÁos. Que em todos os tres se propÙz que se dÈsse dinheiro para a defeza do reino, e que no dos bispos e nobreza se votou que tal se n„o fizesse, e que no do povo ha agora differenÁas sobre isto.ª
´Que tambem lhe disse que avisasse para que S. M. dÈsse ordem a escrever-se de c· para se diligenciar que _Martim GonÁalves da Camara n„o assistisse com os governadores_, visto n„o ter cargo que exercer; _porque era prejudicial_.ª
´Que tudo isto advertiu a Rodrigo Vasquez.ª
Segue-se a copia de uma carta dirigida a Philippe II e datada d'Almeirim a 25 de marÁo de 1580, a qual, pela resposta d'el-rei, que se acha algumas folhas mais adiante, no seu original, se vÍ ser do duque de Ossuna. Transcrevel-a-hemos com a dicta resposta.
´Sacra Catholica Real Majestade.--Ainda que os tres despachos de V. M. com que de presente me acho, de 13, 14, e 20 do corrente, s„o em resposta de outros meus, contÍem alguns particulares a que responderei no primeiro correio que fÙr apoz este, o qual leva sÛ a relaÁ„o, que V. M. ordenou se lhe enviasse, do que nos pareceu se devia responder aos mensageiros que l· est„o, se bem que È necessario pÙl-o em melhor fÛrma, porque a occupaÁ„o das diligencias feitas esta semana n„o deram logar a emendar-se c·; e parecendo-me que esse inconveniente È pequeno, ao mesmo passo que seria mui grande o n„o chegar a tempo, tenho por melhor que v· como fica dicto, para que V. M. despache brevemente os mensageiros, os quaes bom ser· despedir na incerteza de tudo o que lhes foi incumbido, para acabarem de crer que n„o pÛde haver n'este negocio meio termo entre o caminho das graÁas (que V. M. lhes tem aberto) e o da forÁa, que de necessidade se deve seguir faltando est'outro.ª
´As cartas de V. M. para os Governadores e para os BraÁos d'este reino se entregaram com os memoriaes das graÁas e mercÍs que se lhes far„o se jurarem a V. M.. Tudo foi bem recebido, e do mesmo modo as dirigidas aos pretensores.
Espero em Deus que havemos de tirar bom resultado, ainda que n„o bastam as demonstraÁıes presentes para o ter por certo; nem posso dar a V. M. conta miuda de tudo o que ·cerca d'isto se passou pela raz„o que j· disse.ª
´Grande contentamento mostram os bem intencionados da vinda da rainha N. Sr.^a a essa sancta casa, porque d'isso deduzem que V. M. melhor se poder· deter onde for preciso, do que se V. M. houvera ficado em Madrid. Guarde N. S., etc.ª
Philippe II respondeu:
´Duque primo.--A rainha e eu cheg·mos aqui vespera de N. Sr.^a bons, graÁas a Deus. E porque desejava cartas vossas mais recentes que as de 12 do passado, folguei muito com as de 25, por saber o que teria resultado dos despachos que l· estavam, e saber o vosso voto e dos outros meus ministros pelo que toca ao acolhimento que se devia fazer aos mensageiros que d'ahi vem, e a resposta que se lhes poderia dar; e chegou a bom tempo, porque se achavam j· a quatro leguas d'aqui. Resolvi tractal-os do modo que vereis pelo memorial que vai incluso, parecendo-me que devia tomar aquelle caminho para que n„o nos fique por experimentar nenhuma das cousas que podem servir para chamar · raz„o os d'esse reino, e obrigal-os a que por sua parte faÁam o que devem, tirando-lhes todo o genero de achaque ou escusa, como parece teriam se n„o se lhes dÈsse n'isso satisfaÁ„o. E quando a sua dureza fosse tanta que nada bastasse, servir· ao menos para inteira justificaÁ„o do damno que lhes vier da guerra; cujos meios se v„o apromptando sem perda de tempo, antes se aproveita por tal modo que, se for mister, em poucos dias se poder· pÙr na fronteira o numero de gente que vereis da relaÁ„o que vos ha de mostrar D. Christov„o de Moura. Tenho tenÁ„o de ir mui breve para Merida ou Badajoz, motivo porque j· mandei arranjar aposentos n'aquellas duas cidades. Praza a Deus que as diligencias que l· se fizeram com os BraÁos, Governadores, e cidades do primeiro banco, tenham aproveitado tanto que de l· possa passar logo a esse reino, facil e pacificamente, o que muito desejaria assim acontecesse pelo que a elles proprios lhes convem. Do successo e da resoluÁ„o que tomarem espero j· desejoso a noticia.ª
´Tendo visto a carta do marquez de Villa Real, e a satisfaÁ„o que mostraes ter d'elle e dos de sua casa, lhe mandei escrever a que vai com esta para que lh'a deis ou envieis, assegurando-lhes que os hei de honrar e favorecer a todos; e n'esta substancia podereis dar o recado que vos parecer a D. Jorge de Noronha seu primo, porque, ainda que recebi a sua carta, pareceu que n„o era preciso responder-lhe eu, mas que fizesseis vÛs este officio, por ter elle o genio que descreveis, e c· se ficou entendendo.ª
´O mesmo, ou o que vos parecer, fareis com o bispo capell„o-mÛr[41] pelo que diz no bilhete que vos escreveu; que justo È agradecer-lhe a sua boa inclinaÁ„o.ª
´Conformando-me com o que advertis, tenho por mui necessario que com grande brevidade se ordene uma boa, breve, e substancial relaÁ„o de como me pertence justamente a success„o, e assim mandei que se pozesse no memorial; e a vÛs encarrego muito que tenhaes particular cuidado em que se faÁa e se me envie sem perda de tempo. De mais proveito fÙra ter sahido antes, porÈm mais vale tarde que nunca.ª
´Se (o que Deus nunca permitta) se houver de usar de forÁa, tambem ent„o se publicar· outro escripto que justifique a guerra; e j· c· mandei que se v· considerando o que deve conter, e bom ser· que l· se faÁa o mesmo para aproveitar o tempo, conferindo-se depois um com outro para se tomar a resoluÁ„o que parecer mais a proposito.ª
Esta resposta È datada de Guadalupe no 1.^o de abril, assignada por Philippe II e referendada pelo secretario «ayas. Vem apoz ella por copia uma outra carta datada de Almeirim a 6 de abril, que pelo ironico e violento attribuiriamos de boa vontade a D. Christov„o de Moura, cuja ancia pelo dominio extrangeiro excedeu a de todos os homens corrompidos d'aquella triste epocha. O que parece evidente È n„o ser do duque d'Ossuna, porque n'ella se allude · carta que na mesma occasi„o _escrevia ao embaixador_.
´S. C. R. M.--Ainda que os embaixadores d'este reino parecem pessoas humildes[42], devem estar t„o longe de sel-o, como todos os mais portuguezes! Digo isto pela diligencia que mostraram em avisar os governadores do tractamento que julgaram V. M. lhes havia de dar, parecendo-lhes falta de cortezia n„o lhes tirar o barrete como È costume. Toma-se t„o mal c· tudo o que È de Castella que, apenas chegou o aviso de tamanha sem-raz„o, ajunctaram-se em conselho para responderem, e depois de Martim GonÁalves ter esbravejado, e de se haver aproveitado da occasi„o para encarecer quanto lhes importa dilatar o negocio, e outras cousas a seu proposito[43], resolveram escrever aos embaixadores que n„o se apresentassem a V. M. segunda vez, se da primeira os n„o tractasse conforme o estylo. Pareceu-nos conveniente, a troco de um correio, advertir d'isto a V. M.; e, ainda que eu tenho por bom que V. M. executasse o que d'antes estava assentado, pois a embaixada era tal, que n„o importava nada ouvil-a, ou que elles voltassem sem a dar, visto V. M. ter feito o mais, segundo me escreve que l· resolveram, e esses homens lhe beijaram a m„o, parece-me que, havendo passado por tanta cousa, n„o se deveria tropeÁar em dois dedos mais ou menos de barrete, muito mais havendo de dar isso occasi„o ao que de c· lhes escrevem, posto que esses offereÁam em tudo motivos para tractal-os de outra maneira. Bastante custar· j· a V. M. o que tarda em comeÁar a fazel-o assim, e a encurtar o fio da brandura de que esta gente se aproveita para o mal; e assim tÍem por chanÁa quanto se lhes diz fÛra d'isto, parecendo-lhes impossivel que chegue o tempo do rigor de vÈras, que cada dia merecem por novas culpas e desconcertos, parecendo-lhes que tudo est· nas m„os d'elles; e atÈ que vejam signaes para sahir d'este engano sempre ficar„o n'elle, se nosso Senhor n„o faz algum milagre, de que bem precisa a obstinaÁ„o d'este paiz. E porque o embaixador deve escrever mais extensamente, e ·manhan parte outro correio, n„o tenho mais que dizer sen„o que nosso Senhor guarde, etc.ª
Entre esta carta, digna de um intrigante feroz, e as antecedentes est„o os extractos de duas cartas de um agente portuguez que de novo vem entrar em scena. Este, que escreve ambas ellas de Almeirim no mesmo dia 24 de marÁo, È D. Jorge de Noronha, neto do segundo marquez de Villa-Real e primo do primeiro duque d'este titulo. O caracter de vileza, que reina na linguagem d'estes dois documentos, È verdadeiramente curioso.
Eis oqui o primeiro:
´Recebeu a que S. M. lhe mandou escrever a 17 do corrente, da Aceca:ª
´Approva a vinda da rainha n.s. com S. M. pelo especial prazer e honra que com isso se faz ·quelles reinos:ª
´Louva tambem a vinda de S. M. pelo amor e tenÁıes christans com que procede em tudo:ª
´Mostra grande sentimento das cartas que dizem escreveu Manuel de Mello para aquelle reino:ª
´Que o bispo de Portalegre diz que o arcebispo d'Evora, tio de Manuel de Mello, lhe contou que seu sobrinho lhe escrevera que n„o havia a gente nem os apercebimentos de guerra que l· soavam; que acham o duque d'Alva sÛ; e que estivesse seguro de que _se houvesse uni„o no reino n„o havia c· poderio bastante contra elle_.ª
´Julga que n„o se deve fazer caso do que diz Manuel de Mello, porque est· cego; que o reino de Portugal È de S. M.; e que pÛde ir quando quizer, porque atÈ as creanÁas cantam que todo o seu remedio est· em S. M.ª
´Que, afÛra isso, n„o ha l· forÁas para se defenderem sÛ do duque d'Alva, ainda que viesse mais sÛ do que affirma Manuel de Mello; nem se fala em defeza, nem ha nenhuns fronteiros; e que elle logo que alli chegou dissera que largava o direito que tinha · frontaria que estava a seu cargo, para mais claramente mostrar sua intenÁ„o.ª
´Que muitas outras cousas que passou as deixa por serem largas, remettendo-se ao duque de Ossuna e mais embaixadores a quem as contou.ª
´Que se deram as cartas e recados de S. M. aos governadores e BraÁos, e que se fizeram mui boas diligencias com todos, cujo proveito vai apparecendo, _porque j· os mais d'elles est„o rendidos, convertidos, e feitos christ„os, e que se baptizaram na agua das listas de mercÍs que S. M. fez a todos_, as quaes s„o mal merecidas, porque ainda n„o est„o os caminhos de Portugal e Guadalupe cobertos de portuguezes. Pede licenÁa para ser elle o primeiro que o faÁa, pois talvez muitos o sigam, sendo t„o natural nos portuguezes a enveja.ª
´Que o marquez n„o escreve por se n„o achar alli; mas que vir· passada a paschoa, o que ser· conveniente para a boa conclus„o dos negocios.ª