Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 06

Chapter 6

Chapter 63,974 wordsPublic domain

´As ruas, bem que largas, s„o muito incommodas, por subidas e descidas continuas a que obriga a desegualdade do terreno..... Por isso usam os moradores andar a cavallo, do que procede verem-se n'aquella cidade bellissimos ginetes, que os portuguezes compram por todo o dinheiro, attendendo · grande estimaÁ„o em que os tÍem. N„o usam de coches, e quatro ou seis que ahi havia eram de castelhanos que seguiam a cÙrte. Quanto as ruas, em geral, s„o m·s e incommodas para andar assim a pÈ como em coche, tanto È f·cil, deleitosa, e bella a Rua-nova pelo seu comprimento e largueza, mas sobre tudo por ser ornada de uma infinidade de lojas cheias de diversas mercadorias para o uso de nobre e real povoaÁ„o.--Entre ellas ha quatro ou seis que vendem objectos trazidos da India, como porcellanas finissimas de varios feitios, conchas, cÙcos lavrados de diversos modos, caixinhas guarnecidas de madreperola, e outras obras similhantes, que d'antes se compravam por moderado preÁo, mas que ultimamente eram carissimas por tres respeitos: o da peste que havia assolado a cidade; o do sacco dado pelos castelhanos quando entraram em Lisboa, bem que el-rei houvesse ordenado ao duque d'Alva tal n„o consentisse aos soldados; e ultimamente pela raz„o de n„o terem vindo armadas da India durante dois annos. Na mesma Rua-nova ha muitas lojas de livros, com infinito numero d'elles em portuguez, castelhano, latim, e italiano. Todos s„o mui caros; e por isso os estudantes, por serem pobres, costumam mais _alugal-os_ (como ahi dizem) a tanto por dia, do que compral-os. N„o deve esquecer aqui que na praÁa chamada do Pelourinho-velho est„o de continuo assentados muitos homens com mesas ante si[20], os quaes se podem chamar notarios ou copistas sem caracter de officiaes publicos, e que n'este exercicio ganham a sua subsistencia. Sabida que È a idÈa de qualquer freguez que se chega a elles, immediatamente redigem o que se pretende, de modo que ora compıem cartas d'amores, de que se faz grande gasto, ora elogios, oraÁıes, versos, sermıes, epicedios, requerimentos, ou outro qualquer papel, em estylo ch„o ou pomposo. Juncto da Rua-nova ha muitas outras ruas, cada uma das quaes tem suas lojas de uma sÛ especie de mercadorias. Na dos ourives do ouro havia muitas mal abastecidas de pedras preciosas, de perolas, d'ambar, e d'almiscar, em consequencia da tardanÁa da frota. A prata de Lisboa È lavrada com delicadeza e variedade, por ser costume, assim entre nobres como entre plebeus, usarem de pratos e bacias de prata. Ha egualmente ahi lojas cheias de doces e fructas seccas, e cobertas, primorosamente preparadas, de que se faz grande trafico, mandando-as para diversas partes do mundo. Vende-se tambem, em uma unica rua, grande quantidade de tÈlas de toda a sorte, portuguezas, flamengas, e italianas: das primeiras s„o na verdade bellas algumas que chamam _casiquino_ (?), mui finas e alvas, e alguns lenÁos · mourisca, que s„o baratos e lindos. N'outra parte, em certa viella, trabalham delicadamente ao torno, em que fazem guarda-soes de barba de baleia, obra acabada, e cÙcos lavrados a modo de taÁas, com embutidos de madeira do Brazil. Vasos de estanho e mais objectos d'este metal se fabricam abundantemente n'outra rua, e se carregam para a India, onde d„o grande lucro.ª

´O commercio da praÁa de Lisboa È muito consideravel pela correspondencia que tem ordinariamente com todas as outras da Europa e do Novo-Mundo, de modo que as permutaÁıes s„o importantissimas, e os negociantes possuem grossos cabedaes; porque sÛ nas especiarias e drogas, que vÍm a Lisboa, depois que expirou, pelos annos de 1504, o commercio da Syria e d'Alexandria, ganham rios de dinheiro, que perdem os nossos venezianos, pois eram elles quem, fazendo trazer estas preciosas mercadorias pelo Mar-rÙxo a Beyruth e a Alexandria, d'alli as transportavam a Veneza nas galÈs d'alto bordo. Bem como costumam partir de Sevilha todos os annos armadas para irem ·s indias occidentaes pertencentes · corÙa de Castella, assim costumava el-rei D. Sebasti„o mandar ordinariamente uma frota de Lisboa ·s Indias orientaes. No anno em que este rei morreu, partiu no mez de marÁo para Malaca, segundo me contaram, uma nau de mil e quatrocentas toneladas, e um mez depois mais cinco do mesmo porte para GÙa. Era este o numero de vasos que ia annualmente, e aquella a monÁ„o da partida. Essas naus levavam carga d'el-rei e dos particulares. Por conta d'estes ia vinho, azeite, pannos finos de varias cÙres, d'Inglaterra, Flandres, e Castella, barretes finos e ordinarios de Toledo, escarlatas de Veneza e de Valencia, rasos de FlorenÁa, sarjas de lan de Flandres, marlotas de Constantinopla, acolchoados e calÁas de seda de Napoles, velludos de Genova, damascos de Lucca, taffet·s e calÁas de seda de Toledo, sarjas de seda e luvas de Valencia. Por conta d'el-rei carregavam-se cor·es em bruto e lapidados, azougue, cinabrio, arame, espelhos e diversos vidros de Veneza, mercadorias que ninguem podia enviar sem expressa licenÁa d'elle. O que, porÈm, principalmente se exportava era uma grandissima porÁ„o de prata em reales castelhanos, negocio em que se ganhavam trinta por cento; e affirmaram-me que os contractadores das especiarias e varios outros negociantes mandaram nas cinco ultimas n·us para GÙa um milh„o e trezentos mil ducados. Este tracto havia crescido a tal ponto que era de maior lucro a ida que a volta......ª

´A carga para Lisboa consistia principalmente em pimenta a granel, que devia subir, por contracto, pelo menos a trinta mil quintaes, e que se dividia, metade para el-rei, que n„o entrava n'este negocio com somma alguma, e a outra metade para os contractadores que tinham o exclusivo da pimenta: o quinh„o d'el-rei compravam-no ordinariamente os mesmos contractadores a trinta e dois ducados o quintal. Aos particulares era licito mercadejar em qualquer outra especiaria, pagando os direitos........ª

´Do reino de Soffala vinham todos os annos a Lisboa cento e setenta barras d'ouro, e uma barra vale para cima de trezentos ducados: tambem de Soffala e de toda a GuinÈ vinha grande quantidade de marfim...... Traziam-se egualmente a Lisboa sedas da China, pannos finissimos e ordinarios de algod„o do Brazil, bellos tapetes da Persia, Èbano, aguila, p·u brazil, dixes e louÁa transparente de porcellana, borax, camphora, laca, aloes-hepatico, tamarindos, cÍra, almiscar, ambar, algalia, beijoÌm, perolas, rubins, diamantes, e mais pedras preciosas em abundancia, e outras varias mercadorias que iam do Egypto para Alexandria, as quaes, todavia, n„o eram a millesima parte das que vinham a Lisboa nas sobredictas frotas.........ª

´Os homens da cidade de Lisboa e de todo o Portugal s„o de mediana estatura, mais baixos que altos, magros, de cÙr ferrenha, cabellos e barba pretos, olhos negrissimos, e mui similhantes no exterior aos gregos. O seu trajo, antes da morte do cardeal rei, era mui mesquinho, em consequencia da pragmatica, que n„o consentia usassem vestidos de seda; pelo que trajavam um saio de baÍta preta, calÁıes de panno escocez, borzeguins de marroquim, chapeu de feltro e capa comprida da mesma baÍta. Com a chegada d'el-rei catholico alteraram o seu antigo trajo, porque, posto que conservaram a capa de baÍta, comeÁaram a usar do gib„o de raso, bragas e calÁıes de velludo, e meias de seda, cousa que nunca tinham calÁado, bem como escarpins, dos quaes n„o era possivel achar um sÛ par antes da entrada d'el-rei, porque todos, sem excepÁ„o, calÁavam borzeguins. S„o os portuguezes mais ambiciosos de louvores que outra qualquer naÁ„o do mundo, affirmando que as suas faÁanhas s„o milagrosas. Celebram Lisboa com tal copia de palavras, que a fazem egual ·s principaes cidades do mundo, e por isso costumam dizer:--´Quem n„o vÍ Lisboa, n„o vÍ cousa boa--ª. A gente miuda gosta que lhe dÍem o tractamento de _senhor_, manha esta commum a toda a Hespanha. Vivem parcamente, porque a plebe pela maior parte È pobre, e os cavalleiros que se teem em conta de ricos fundam a opini„o da sua riqueza em possuirem uma ou duas aldÍas, com trinta ou quarenta visinhos cada uma, no meio de campinas estereis com vinte ou trinta folhas cultivadas, e tudo o mais inculto, aspero, e coberto de pedras, com alguns cazebres mesquinhos e mal concertados, como eu o experimentei durante muitas semanas d'aquella viagem.ª

´Poucas pessoas se d„o ahi ·s letras; mas applicam-se muitos ao commercio, genero de vida aborrecida dos nobres, que n„o podem ouvir falar em tal, tendo por gente villissima os mercadores. Exercitam-se apparentemente nas armas, e algum tanto em cavalgar, contentando-se com ter leves principios d'estas duas profissıes, sem quererem supportar mui diuturno ensino.ª

´As mulheres portuguezas s„o singulares na formosura e proporcionadas no corpo: a cÙr natural dos seus cabellos È a preta; mas algumas tingem-nos de cÙr loura: o seu gesto È delicado, os lineamentos graciosos, os olhos negros e scintillantes, o que lhes accrescenta a belleza; e podemos affirmar com verdade que em toda a viagem da peninsula as mulheres que nos pareceram mais formosas foram as de Lisboa; posto que as castelhanas e outras hespanholas arrebiquem o rosto de branco e encarnado, para tornarem a pelle, que È algum tanto, ou antes muito trigueira, mais alva e rosada, persuadidas de que todas as trigueiras s„o feias. O trajo feminino em Lisboa È o commum de toda a Hespanha; isto È, o manto grande de lan ou de seda, segundo a qualidade da pessoa. Com elle cobrem o rosto e o corpo inteiro, e v„o aonde querem, t„o disfarÁadas que nem os proprios maridos as conhecem: vantagem esta que lhes d· maior liberdade do que convem a mulheres bem nascidas e bem morigeradas. As damas nobres costumam ser acompanhadas, pela cidade, de creados bem vestidos, que lhes precedem com passos lentos e socegados, e de donas que as seguem com grandissima gravidade, n„o tendo por signal de boa reputaÁ„o o serem acompanhadas de donzellas.ª

´O povo miudo vive pobremente, sendo a sua comida diaria sardinhas cosidas, salpicadas[21], que se vendem com grande abundancia por toda a cidade. Raras vezes compram carnes, porque o alimento mais barato È esta casta de peixe, que se pesca em notavel cÛpia fÛra da barra, como se pesca muito outro de todas as qualidades e muito grande; mas em geral menos gostoso do que o das aguas de Veneza, e t„o caro, que faz espanto aos extrangeiros e custa muito aos naturaes, que passam mal pelo preÁo excessivo de tudo o que serve para o sustento. Comem os pobres uma especie de p„o nada bom, que todavia È barato, feito de trigo do paiz, todo cheio de terra, porque n„o costumam joeiral-o, mas mandal-o moer nos seus moÌnhos de vento, t„o sujo como o levantam da eira. O p„o bom e alvo faz-se de trigo de fÛra, que trazem de FranÁa, Flandres e Allemanha os navios d'estas naÁıes quando vÍm a Lisboa buscar sal e especiarias. Este, na verdade, tambem n„o È joeirado; mas as mulheres pobres o escolhem gr„o a gr„o, assentadas · porta da rua, com paciencia fleugmatica mais propria d'allemans que de portuguezas. Estas mulheres tÍem licenÁa para fabricar o p„o e vendel-o pela cidade onde e como lhes apraz, o que sempre È por alto preÁo. O trigo vale a duzentos e oitenta rÈis o alqueire. Nutre-se tambem a gente pobre de fructa, que abunda muito e È baratissima.ª

´O vinho commum È pouco bom, por n„o dizer mau; porque n„o sabem, ou n„o querem ter o incommodo de o fazer bom. Vale geralmente a vinte e quatro rÈis a canada. Os vinhos finos s„o excessivamente caros: os senhores embaixadores tiveram de pagar o branco para o consumo ordinario da sua mesa a sessenta escudos a pipa..............ª

´Quanto ·s vitualhas n„o È em Lisboa que se h„o de buscar cousas muito exquisitas. AtÈ a vitella È rara; porque n„o costumam matar estes animaes, guardando-os para crescerem e servirem nos trabalhos do campo ou de abastecimento da cidade, sendo, alÈm d'isso, ahi a comida ordinaria o capado, que È excellente.ª

......................................................................

´No tempo de el-rei D. Sebasti„o as rendas reaes consistiam nos direitos das alfandegas de Lisboa e de todo o reino, assim sÍccas como molhadas. D'umas cousas pagava-se o quinto, d'outras a decima; e do peixe, em muitas partes, mais de metade. Havia tambem rendas em cereaes, vinho, e outros generos; as rendas dos mestrados a que pertenciam as ilhas de S. ThomÈ, Terceiras, Cabo-Verde, Madeira, e Principe; as da Mina que pertenciam · Ordem de Christo. As especiarias e outras fazendas que vinham annualmente da India e do Brasil produziam tambem um avultado rendimento. Apesar, porÈm, d'este ser tamanho, nada vinha a entrar no thesouro; porque tudo se dispendia em armadas e mais cousas necessarias para a conservaÁ„o d'aquelles estados, e afÛra isso se distribuia em salarios d'officiaes e ministros da justiÁa no continente; em mercÍs vitalicias, que chamam tenÁas, aos benemeritos da corÙa, aos fidalgos, e mais pessoas, que serviam assim no reino como na Africa e India; em juros perpetuos, que os reis vendiam, estabelecidos nos direitos reaes; em despezas com a gente e petrechos necessarios para a defens„o das praÁas d'Africa; em cinco galÈs constantemente armadas, e no armar dos navios redondos, que todos os annos sahiam junctos, assim para comboiar as frotas que iam e vinham dos portos com que Portugal commerciava, como para mandar ao Brasil, a GuinÈ, · Mina, a S. ThomÈ; e finalmente em moradias, gastos da cÙrte e casa real, paga de creados, esmolas, presentes, embaixadas, dotes ·s filhas dos creados, e conservaÁ„o das fortalezas de Lisboa e do reino.ª

As noticias do viajante relativamente a Portugal versam desde este ponto sobre a organisaÁ„o judicial e administrativa, ·cerca da qual nada se accrescenta que n„o se ache na nossa antiga legislaÁ„o. Conclue o narrador com uma historia succinta do reinado de D. Sebasti„o e das causas do desastre de Alcacer-quibir, da acclamac„o de Philippe II em Thomar, etc.--Abstemo'-nos de extractar essa parte relativa · historia politica, n„o porque seja pouco interessante e curiosa; mas porque È demasiado extensa.

POUCA LUZ EM MUITAS TREVAS

1844

POUCA LUZ EM MUITAS TREVAS

1579--1580

Se ha alguma epocha da nossa historia que nos offereÁa uma alta liÁ„o; se ha algum successo que nos possa fazer energicamente sentir quaes sejam as consequencias fataes da pervers„o moral de qualquer paiz, e como aos povos corrompidos n„o tarda o dia da servid„o, ou de serem riscados da lista das naÁıes, os fins do seculo XVI e a conquista feita por Philippe II s„o essa epocha e esse facto. As virtudes politicas de nossos maiores, o seu amor de independencia, grosseiro, feroz atÈ, se quizerem, tinham esmorecido gradualmente com as pompas dos reinados de D. Manuel e de D. Jo„o III; com o v„o luxo, e com as desgraÁadas riquezas adquiridas na Asia, quasi sempre por preÁo de immoralidades e crimes. As resistencias e luctas da edade-media, que alimentaram o sentimento da propria dignidade, n„o sÛ nas classes sociaes, mas tambem nos individuos, haviam cedido o passo a um servir mais ou menos abjecto para obter como mercÍ ou privilegio o gÙzo de vantagens e direitos, que a fraqueza dos municipios e a decadencia da nobreza tinham deixado perder. O homem do concelho, o burguez, em logar de se unir aos seus eguaes para repellir nos parlamentos os vexames dos poderosos, achava mais facil para a timidez, que substituira na sua alma a antiga ousadia, receber como recompensa de serviÁos humildes ou como esmola de charidade uma parte dos tributos oppressivos e rigorosamente illegaes que se lhe extorquiam, e as classes elevadas entendiam que era menos arriscado, e sem comparaÁ„o mais commodo, obterem de joelhos e por carta de graÁa ante os chancelleres, privados, e desembargadores, alguns fragmentos das suas legitimas ou illegitimas prerogativas, do que imitarem o duque de BraganÁa pondo a cabeÁa n'um cadafalso por amor d'ellas. Como a moeda antiga, cujos cunhos o roÁar de muitos annos apag·ra, o caracter portuguez estava poÌdo e quasi de todo gasto quando chegou, pela desgraÁa d'Alcacer-quibir, o curto reinado do velho cardeal D. Henrique.

¡ morte d'este principe, a cuja completa degeneraÁ„o moral sÛ pÛde servir de desculpa o ter sido apenas um agonisante coroado, seguiu-se a conquista castelhana e o dominio dos tres Philippes durante sessenta annos. Por todo esse largo periodo, quasi n„o passou um dia sem affrontas ou oppressıes para o povo subjugado. Portugal, amarrado ao poste da tyrannia extrangeira, assistiu como se fosse uma cousa morta e inerte · desmembraÁ„o do proprio corpo. Os ministros de Castella, que pouco melhor tractavam o seu paiz natal, a cada porÁ„o das nossas colonias de que hollandezes, inglezes, ou francezes nos expulsavam, a cada nau ou comboi que nos saqueavam ou mettiam a pique, accrescentavam um novo tributo, um novo vexame, uma nova quebra de nossos direitos; e foi sÛ nessa especie de estufa ardente que pÙde semear-se, nascer, e vecejar a planta de odio vivaz, que nos restituiu ao menos um symulachro da extincta energia, e nos temperou de novo para reconquistarmos n'uma lucta de quasi meio seculo a antiga independencia como naÁ„o, sen„o a antiga vida politica e os antigos fÛros de liberdade.

A tradiÁ„o conservou na memoria do povo a lembranÁa dos largos e variados males que nos trouxe o senhorio extranho: contra elle nos tem guardado e guarda ainda, pelo temor, essa recordaÁ„o; mas as causas que os geraram, essas, como mais remotas e mais difficultosas de avaliar, È que pouco a pouco nos v„o esquecendo, e este esquecimento È ajudado pelos escriptores menos reflexivos, a quem deslumbram as tristes glorias dos descobrimentos e conquistas, e os elogios que por ellas nos d„o com admiravel magnanimidade aquelles para cujo proveito tantas gentilezas d'armas, tanta ousadia, e tantos crimes practic·mos, e que esperaram tranquillamente nos suicidassemos moralmente para recolherem a heranÁa que lhes ajunctaramos. As paginas laudatorias que ainda hoje ahi se lÍem ·cerca das eras manuelina e joannina, e que nos fazem lembrar dos _panegyrici veteres_, em que os rhetoricos romanos ridiculamente antepunham a fastosa decadencia do imperio aos tempos asperos, mas viris e robustos, do crescimento da republica, s„o a maneira mais segura de inutilisar as proveitosas admoestaÁıes da historia, cujo estudo encerra, por via de regra, a explicaÁ„o do presente e a prophecia do futuro. Diz-se, na verdade, que um grande numero de fidalgos e pessoas principaes se venderam a Philippe II no reinado do cardeal D. Henrique: cita-se o nome de D. Jo„o Mascarenhas, o heroe de Diu, com uma certa indignaÁ„o pelo contraste da sua vida passada; o de D. Christov„o de Moura, como o de um franco renegado da patria; o do bispo Pinheiro como o de um insigne hypocrita; emfim, os nomes de muitos outros, e especialmente os dos quarenta mercadores politicos que receberam dos castelhanos os celebres _cartazes_ ou cedulas para as recompensas futuras. Mas a que nos conduz isto? A imaginarmos que os corrompidos eram alguns homens, ou quando muito alguma classe. Todavia a verdade È que estendemos covardemente o collo ao jugo extranho, porque a naÁ„o estava degenerada. Onde quer que Philippe II encontrava uma resistencia, acudia ahi com ouro ou com promessas, e quasi que tinha a certeza de superar a difficuldade: a quest„o estava, n„o na compra e venda, mas sÛ no quanto do preÁo. A tenacidade e o amor da independencia nacional dos Phebos-Moniz foram excepÁıes monstruosas. O proprio D. Antonio, que era chamado pelas circumstancias a representar o papel de D. Jo„o I, e que, bem como elle, tinha por si o amor popular, foi um miseravel, que sÛ se collocou · frente das resistencias, as quaes dirigiu sem ordem, sem juizo, e sem energia, porque n„o lhe chegaram os castelhanos ao preÁo por que lhes queria vender alma e corpo. Dizem que Philippe II se queixava de ter feito uma cara mercancia em comprar Portugal: esta irris„o insolente da tyrannia, cuspida com legitima causa nas faces de uma naÁ„o, foi · sua parte um castigo mais severo da immoralidade publica do que todas as oppressıes de sessenta annos de jugo extrangeiro.

Quando se compara a epocha de 1580 com a de 1385 È que se conhece qu„o largos passos tinha dado Portugal no caminho da corrupÁ„o durante o _brilhante_ e _glorioso_ seculo dos descobrimentos e conquistas: È n'essa comparaÁ„o que est· a prova de que o antigo caracter portuguez se pervertÍra completamente n„o sÛ nas classes privilegiadas, mas no proprio povo; n'esses que nos apraz considerar unicamente como victimas das traiÁıes da nobreza. O povo n„o resistiu · invas„o extrangeira, porque lhe faltava esforÁo, crenÁa e patriotismo: isso tudo jazia no sepulchro da edade-media. As situaÁıes eram rigorosamente analogas.--O poder de Castella no tempo de Philippe II tem servido de desculpa · geraÁ„o apoucada que estendeu os pulsos ·s algemas. Mas para saber se ella podia ou n„o resistir era necessario tental-o. N„o o fez, salvo se se quizer chamar resistencia aos tumultos de um vulgacho desordenado, em duas ou tres povoaÁıes do reino e na capital. Tem-se exaggerado o poder de Philippe II, e imagina-se que entre as forÁas das monarchias castelhana e portugueza, na epocha do filho de Carlos V, havia uma superioridade a favor d'aquella muito maior que no tempo do rival do mestre d'Aviz, de D. Jo„o I de Castella; mas qual È o facto?--… que Philippe II mandou o duque d'Alva com vinte mil homens tomar conta de Portugal, o que esse general fez quasi sem combate; e que D. Jo„o I veiu pessoalmente · frente de trinta e cinco mil homens enterral-os em Aljubarrota.--Portugal teria acaso menos recursos materiaes ou menos populaÁ„o em 1580 que em 1385?--Duas mil lanÁas, as melhores de FranÁa, ajudavam D. Jo„o de Castella contra nÛs. Quem ajudava Philippe II? Haviamos perdido em Africa dez ou doze mil soldados com D. Sebasti„o. … verdade. E quaes n„o tinham sido as nossas perdas durante as longas e desastradas guerras de D. Fernando, em que Lisboa chegou a ser cercada, e destruida na sua melhor parte? A aristocracia seguia o bando do rei extrangeiro em 1580. Em 1385 a quem se inclinava decididamente a principal fidalguia? Tambem ao rei extrangeiro. E todavia a naÁ„o venceu ent„o, e foi vencida depois sem peleja. Os successos do fim do seculo XVI n„o se explicam por accidentes e circumstancias, que est„o longe de terem o valor que lhes tÍm dado: explicam-se por um facto gravissimo da ordem moral--a morte da nacionalidade.

A epocha em que se preparou o dominio castelhano È, na t„o mal estudada historia portugueza, uma das mais imperfeitamente conhecidas. E todavia ella offerece uma altissima liÁ„o aos povos. Se a narraÁ„o dos successos acontecidos nos tempos em que tinhamos virtudes, e a energia e amor de patria que nos distinguiram antes do reinado de D. Jo„o II, nos pÛde excitar uma honrada emulaÁ„o, o espectaculo dos ultimos paroxismos da nossa lastimosa decadencia, ainda, porventura, considerada nas suas causas, nos ser· mais proveitoso pelo nojo e horror que deve causar nos animos essa especie de prostituiÁ„o politica a que nos chegou a soltura de costumes, e de que foram manancial perenne os habitos de desenfreio, cubiÁa, e egoismo, que em cada monÁ„o carreavamos do oriente para a Europa. A historia da segunda metade do seculo XVI pÛde fazer ante as geraÁıes presentes o papel do ilota embriagado, que os lacedemonios expunham aos olhos dos mancebos nas horas da refeiÁ„o, para pelo tedio e despreso os premunirem contra o vicio da embriaguez.