Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 06
Chapter 5
´… infinito querer contar do apparelho das cousas de guerra, que el-rei mandou embarcar: de artilharia muita e muito grossa, uma de campo e outra de bater, e outra para o mar, toda de bronze, infinitos corpos d'armas, piques, arcabuzes, pelouros, ceirıes, carretas, enxadas, alviıes, barras, polvora, marrıes, e murrıes; e para isto levava muitos gastadores, que diziam que eram quatro mil: levava muitas azemulas, bois, carros, e todo o mais d'estas cousas: levava mais para os gastadores um gale„o cheio de Áapatos de malhÛo.ª
´Chegou a Lisboa o duque de BraganÁa no fim de maio com sua gente escolhida, vestida de amarello, e guarnecida de vermelho: outra alguma de seu serviÁo vinha de vermelho fino, com calÁas e gibıes da mesma cÙr. Leva muita gente, e a mais d'ella mandou embarcar em Setubal, onde tinha para isto, e para sua matolotagem e cavallos, vinte e sete urcas apenadas por mandado d'el-rei. O duque veiu pela posta, e ao outro dia adoeceu e esteve muito mal; e quando viu que n„o podia ir por sua indisposiÁ„o, mandou vir de Villa-viÁosa o filho mais velho, para em seu logar ir com el-rei. N„o lh'o quiz a duqueza mandar, e mandou-lhe o filho segundo, que lhe elle logo tornou a mandar, e que em todas as maneiras lhe mandasse o filho mais velho, o qual veiu, e partiu de Lisboa apoz el-rei em uma n·u veneziana, t„o grande como uma da India, muito bem concertada com muita artilharia grossa, com muitos estandartes e padezes; e foi por Setubal para levar comsigo a sua gente que l· estava embarcada.ª
´Ao primeiro de junho mandou el-rei lanÁar bando que todas as companhias fossem receber soldo, e que todo homem assi natural como extrangeiro que recebesse ou tivesse recebido soldo, e n„o passasse · Africa, que morresse.ª
´Foi el-rei por vezes ao campo vÍr os esquadrıes e os capit„es como o faziam, e elle mesmo andava nas resenhas e entre o pÛ e fumo da arcabuzaria, muito alegre e contente. E È de notar o fervor com que negociou estas cousas: e depois que se isto comeÁou a apparelhar lhe era pesada toda a practica, que n„o tractava de guerra ou do apparelho d'ella.ª
´N'este meio tempo houve algumas brigas, mui travadas, e algumas de bandos, como foi uma dos portuguezes e tudescos na praia da Boa-vista, sendo mais de duzentos tudescos e outros tantos portuguezes, que durou por muitas horas, sem os poderem apartar nem apasiguar: e n„o morreu mais de um tudesco, e houve muitos feridos de uma parte e outra: e nasceu esta briga de dois portuguezes quererem obrigar a dois tudescos que pagassem a uma taberneira o que lhe comeram, que lh'o n„o queriam pagar. Outra briga houve de portuguezes contra castelhanos, porque tres portuguezes inconsideradamente arrancaram contra um esquadr„o de castelhanos, e succedeu-lhes bem, que em pouco se junctaram quarenta ou cincoenta portuguezes que brigaram valorosamente, onde mataram quatro castelhanos e feriram mais de vinte: dos portuguezes n„o mataram nenhum, mas ficaram alguns feridos. Esta briga se fez no rocio, · porta do hospital d'el-rei, e armou-se de estes tres portuguezes chamarem ladrıes a seis ou sete castelhanos dos d'aquella companhia, porque estando um mouro de Cide MuÁa com tres moedas d'ouro de quinhentos rÈis na m„o, lhe disseram estes sete castelhanos se as queria trocar, que lhe dariam de ganho quarenta rÈis por cada uma: acceitou o mouro, e pediram-lhe os castelhanos as moedas para vÍr se eram de peso, e mostrando-lhes as tres, as passaram de m„o em m„o uns pelos outros de maneira que desappareceram; e o mouro pediu ajuda a estes tres portuguezes e emenda da zombaria que lhe fizeram, e que lhe tornassem o seu dinheiro. Vendo el-rei que estes negocios iam para mal e que cada dia havia brigas, mandou lanÁar bando que todo homem assim natural como extrangeiro, que na cÙrte arrancasse espada, morresse por isso, e assim se atalharam as brigas.ª
´Mas depois que el-rei se partiu houve uma sÛ, que foi a gente do duque de BraganÁa com uma companhia de castelhanos que ficou em Lisboa para receber soldo; e tanto que a briga se comeÁou, o capit„o dos castelhanos recolheu sua gente o melhor que pÙde nas varandas dos paÁos da ribeira, e a briga comeÁou-se · Porta do-mar juncto ·s casas de Affonso d'Albuquerque. Ajunctaram-se da gente do duque mais de duzentos homens, e o fizeram como muito soberbos e pouco esforÁados; porque, sahindo o capit„o dos castelhanos com uma bandeira de paz, e pondo-se de joelhos diante d'elles dizendo que por amor de Deus o matassem a elle e deixassem os seus soldados; que olhassem que eram irm„os dos portuguezes, e vinham a servir el-rei de Portugal; elles sem deferirem a isto iam seguindo sua furia, e vendo algum castelhano ·s janellas ou varandas lhe tiravam ·s arcabuzadas, e ao mesmo capit„o que lhes pedia paz lhe tiraram muitos golpes e pedradas, que foi milagre n„o o matarem ou ferirem. Fez este capit„o maravilhas, e deu mostras de muito esforÁado; e porque j· alguns do duque haviam tido os dias atraz brigas com alguns da sua companhia, e era em rixa velha, foi este capit„o ao duque pedir-lhe amqestasse a sua gente n„o lhe quizesse matar seus soldados, e como j· o duque estava informado das finezas que este capit„o fizera, lhe agradeceu muito e lhe mandou dar um cavallo e duzentos cruzados, e um chapeu seu, que tinha, para levar, porque o capit„o ia sem elle, que o perdera na briga.ª
´E pela cidade se comeÁou a alevantar um rumor que seria bom prenderem ao mesmo duque; que n„o era possivel que elle n„o mandasse · sua gente fizessem bandos e as taes brigas, sendo el-rei ausente; e que sempre a casa de BraganÁa fÙra avessa ·s cousas do rei. N„o faltou quem avisasse o duque d'isto, o qual mandou chamar toda a justiÁa, e lhes pediu com muita instancia que todo seu criado prendessem e julgassem no mesmo instante, e que, se conheciam alguns dos outros da briga passada, os prendessem logo e se julgassem como a el-rei e a suas justiÁas parecesse. Conheceram doze dos que comeÁaram a briga; prenderam-nos: todos os mais fez logo o duque embarcar, e partiram com o duque novo. AfÛra estas brigas todas, amanheciam muitos homens mortos das brigas de noite.ª
´Aos oito dias de junho mandou el-rei lanÁar bando que todos se aviassem, porque elle se embarcava a quatorze do mesmo mez, que foi um sabbado; e t„o firmemente que, perguntando-lhe Christov„o de Tavora se havia de passar alguns dias depois dos quatorze, lhe respondeu:--que bem se podia o cÈu ajunctar com a terra, sem haver falta no que tinha mandado apregoar.ª
´N'este sabbado quatorze de junho foi el-rei, dos paÁos da ribeira · sÈ, a buscar a bandeira real. Tanto que amanheceu comeÁaram a correr os fidalgos para o acompanharem: e parece que · porfia trabalharam para ir cada um mais galante e custoso: cousa que espantou muito as gentes, vÍr como todos iam ricamente vestidos; porque, se a materia dos vestidos era rica, a obra, feitios e invenÁıes de mais rica sobejava; porque tudo era brocado, tela d'ouro e prata, tecidos d'ouro e prata, tecidos de seda mui custosos. Os velludos, damascos, e todas as mais sedas perderam sua valia; e se alguma tinham era pelos muitos passamanes, rendilhas, espiguilhas, torchados e alamares d'ouro que lhe punham. Mas tudo isto era de pouco gasto em comparaÁ„o dos feitios, que estes destruiram os homens.ª
´AlÈm d'isto, foi espanto vÍr a muita pedraria que n'este dia sahiu: os botıes d'ouro, as tranÁas dos chapÈus cheias de rubins, diamantes, e esmeraldas de preÁo infinito, entresachadas a compasso umas com as outras; os camafeus, medalhas e estampas de feitio singular; as cadeias d'ouro grossissimas aos pescoÁos, de dez e doze voltas; as couras borladas d'ouro com botıes d'ouro, cristal, perolas e demais pedraria; os gibıes e coletes sobre telilha (d'ouro com invenÁ„o de cÛrte, pique, presponte maravilhoso; os capotes de damasco, setim, chamalote de seda, bandados com barras de velludo e torÁaes d'ouro.ª
´Os arreios dos cavallos eram cousa de admiraÁ„o; porque todos os fidalgos levavam em seus cavallos cabeÁadas e esporas de prata, esmaltadas d'ouro e azul; as estribeiras com mil figuras e maneiras de bichos abertos n'ellas, obrados por singular arte; as nominas, peitoraes, cigolas e cordıes com muitas borlas d'ouro e torÁaes; as muchillas com os jaezes e cobertas quando menos eram de velludo com mil franjas d'ouro e prata, e os mandis de velludo.ª
´Nem era menos vÍr como os fidalgos vestiram todos a sua gente, uns de gran, outros de raxa de mÈscla e tamate, isto assim a escudeiros e pagens como a lacaios e escravos, cada um de sua librÈa de suas cÙres, e alguns os vestiram de calÁas e gibıes de seda da cÙr de sua librÈa, com meias de agulha de seda.ª
´Emfim foram os fidalgos esperar a el-rei · sala, e d'ahi desceram com elle atÈ cavalgar. Estava a este tempo o terreiro do paÁo, que È um espaÁo grande, muito cheio de gente, que n„o havia poder andar; e alÈm d'isso era para vÍr estar as librÈas de dez em dez homens, pegados nos cavallos de seus senhores, de cÙres differentes todos, com muitas plumas de diversas cÙres nos chapÈus, com cendaes aos pescoÁos com borlas d'ouro e seda, que faziam um campo esmaltado de diversas boninas.ª
´Finalmente passando el-rei pela varanda, juncto da escada por onde havia de descer a cavalgar, olhou para todo o espaÁo da gente, e conhecidamente se lhe enxergou no rosto o contentamento de vÍr tanta gente, t„o lustrosa e t„o alvoroÁada; e cavalgando foi passando pelos fidalgos, pondo os olhos em cada um com uma alegria e benignidade desacostumada. D'esta maneira foi acompanhado atÈ a sÈ, onde, depois de ouvir missa, se benzeu com muita solemnidade a bandeira, na qual estavam de uma parte postas as armas reaes, e da outra um crucifixo, com el-rei D. Sebasti„o tirado pelo natural.ª
´J· que tudo era acabado, el-rei com os joelhos no ch„o e os olhos arrazados d'agua esteve um pedaÁo diante do Sanctissimo Sacramento rezando. Acabando a oraÁ„o entregou a bandeira a D. Luiz de Menezes, alferes-mÛr, que coberto a levou diante; e assim acompanhado atÈ o caes da rainha, se embarcou na galÈ real, cuja obra È estranha, porque sÛ na pÙpa, onde el-rei vai, se affirma que se gastaram mais de oito mil cruzados, porque È da mais estranha e singular invenÁ„o que se viu. Toda era cozida em ouro, com muitas historias abertas no mesmo p·u, com outros muitos vultos formosissimos, e outras personagens de temerosos aspeitos, tudo obrado com maravilhoso artificio; e o farol real era conforme a dicta obra de maravilhosa invenÁ„o.ª
´E porque n„o haja quem diga que n„o tractaram os homens mais que de se enfeitarem, nem lhes lembr·ra mais que suas louÁainhas e vaidade, sei dizer que o gasto que fizeram nos vestidos foi pouco em comparaÁ„o das armas e apparelhos para pelejarem.ª
´N„o houve homem fidalgo que n„o comprasse muitos corpos d'armas muito lustrosos, e n„o mandasse pintar n'ellas suas armas em campos de diversas cÙres: mil peitos de prÛva de muito preÁo, muitas couras e coletes de anta, couraÁas de laminas cobertas de velludo e setim de todas as cÙres com tachas d'ouro e prata, muitas saias de malha, e gibanetes, tudo muito galante e de muito gosto, e muitas rodelas d'aÁo tauxiadas de lavor d'ouro com suas armas pintadas n'ellas, muitas adargas muito fortes, muitas lanÁas dourados os contos e engastes, espadas largas e cortadoras, muitos montantes, leques, terÁados, e todo outro genero d'armas muito fortes e galantes.ª
´Levam muitos homens fidalgos um cavallo acobertado de cobertas d'anta muito fortes e louÁans, pintadas n'ellas suas armas de tintas finissimas. Houve cobertas d'estas que passaram de mil cruzados. N„o houve genero d'armas, assim offensivas como defensivas, que os homens n„o comprassem com muito gasto e custo, e com mais gasto ainda que nos vestidos.ª
´Levam tambem muitas tendas muito ricas, e muitas d'ellas de seda, com suas grimpas douradas e bandeiras de seda, e tendilhıes para a gente e cavallos; e el-rei leva muita somma de tendas que mandou trazer de Allemanha; e se affirma que as d'el-rei e dos fidalgos e extrangeiros ser„o mais de quatro mil com os tendilhıes.ª
´… de notar como os homens v„o alfaiados, e o muito provimento de todas as cousas que levam, que parece que levam casa mudada, como se l· houvessem de estar vinte annos. Foi de maravilhar em todo este tempo, com tanta confluencia de forasteiros e gente de todo este reino, n„o faltarem nunca os mantimentos n'esta terra, nem alevantar o preÁo d'elles, antes que nenhum outro tempo houve mais, nem mais baratos. Esta foi uma das cousas em que Lisboa mostrou bem sua grandeza.ª
´Comquanto el-rei mandou lanÁar bando com penas grandes que ninguem vendesse as cousas por mores preÁos do que d'antes valiam, e com ao principio prenderem alguns por isso, n„o deixaram as sedas, pannos, e armas, e todas as cousas necessarias para esta jornada de custar cinco e seis vezes mais do costumado. Isto destruiu os homens; e na rua-nova, onde todas estas cousas se vendem, apreÁando um fidalgo algumas cousas de seda para se vestir, pelas quaes lhe pediram tanto mais do que valiam, que fazia medo, disse com assaz dÙr de coraÁ„o:--que mais arreceavam os homens a guerra que se lhes fazia na rua-nova, que a que se esperava em Africa. D'estes havia muitos, e os mais d'elles negociavam em pessoa, que assim era necessario para se melhor negociarem, e, pelo muito gasto que fizeram, ficaram todos destruidos, e uns venderam as herdades e casas e casaes e quintans por dois seitis, e outros empenharam as commendas e morgados por muitos annos por d'ante m„o, para se aviarem, por muito pouco preÁo valendo muito, e haviam provisıes d'el-rei para o poderem fazer sem embargo de serem morgados: e outros vendiam a prata e ouro, e tudo o mais de que se podia fazer dinheiro se punha em leil„o.ª
´N„o houve nenhum officio que n„o estivesse com obra, e todos elles alevantaram sem consciencia. Ao menos os officiaes de vestidos, pintores, douradores, armeiros, sirgueiros, e officiaes de tendas, ficaram ricos para sempre, e os mais n„o ficaram pobres.ª
´Deu o arcebispo licenÁa, pelo principio de maio, que d'ahi atÈ se partir el-rei trabalhassem todos os officiaes de todos os officios dias e sanctos de guarda, nas cousas que pertenciam · guerra ou seu apparelho; e assim se fez, que todos trabalharam; e com tudo isso n„o se poderam acabar de aviar todos os fidalgos, que ainda c· ficaram alguns que apoz el-rei se partiram.ª
´Foi recommendado a Jeronimo Corte-Real e a D. Jo„o de Mafra e a outro fidalgo, que n„o soube o nome, que inventassem o que poria el-rei no timbre de suas armas novas, com que n'esta jornada havia de sahir. Accordaram que pozesse abaixo das armas reaes dois piramides ao modo de columnas, e de um d'estes ao outro pozessem umas letras que dissessem:--Amor, fÈ, amor.ª
´Depois de el-rei assim estar embarcado, este sabbado que disse, ao domingo seguinte, que foram 15 dias do mez de junho, sahiu a ouvir missa na igreja de Sanctos velho, e d'ahi se tornou outra vez a jantar · sua galÈ, e n'ella andou toda a tarde vendo a frota e dando pressa que se aviassem, e da mesma maneira todos os dias d'aquella semana andou visitando as n·us e vÈlas grandes, dando-lhes pressa que se aviassem; e na segunda feira pela manhan mandou el-rei lanÁar bando com trombetas que todos se embarcassem, porque elle botava na quarta feira seguinte de foz em fÛra, e o mesmo fez na segunda feira · noite, e · terÁa feira pela manhan e · noite.ª
´Na quarta feira se mudou o tempo do mar, e esteve assim atÈ segunda feira vespera de S. Jo„o tÈ o meio-dia.ª
´[19]N'este meio tempo aconteceu uma desgraÁa grande ao senhor D. Antonio, prior do Grato, com el-rei e com Christov„o de Tavora; e foi que tinha o senhor D. Antonio fallado a um criado da infanta D. Maria, grande reposteiro, e mantieiro maravilhoso e mui destro n'esta cousa de banquetes: e estava concertado leval-o comsigo n'esta jornada, e a esta conta esteve, comeu e pousou alguns dias em casa do senhor D. Antonio. Teve Christov„o de Tavora noticia d'este homem: mandou-o chamar, e lhe rogou ou lhe mandou que o acompanhasse n'esta jornada; que cumpria assim. Como Christov„o de Tavora È do bafo d'el-rei e tanto seu privado, e quer, pÛde e manda, acceitou este homem de boa vontade ir com elle, sem embargo da palavra que tinha j· dado ao senhor D. Antonio, o qual na vespera da partida o mandou chamar a sua casa e lhe disse que se acabasse de aviar. Respondeu-lhe elle sem pejo que ia com Christov„o de Tavora; que n„o podia ir com S. Ex.^a. Faltou a paciencia ao senhor D. Antonio, e por sua m„o lhe deu com um p·u umas poucas de pancadas e o tractou mal. Tomado Christov„o de Tavora d'isto fez queixume a el-rei que o senhor D. Antonio lhe espancara um homem seu, porque n„o quizera ir com elle. Estando isto d'esta maneira acertou de ir o senhor D. Antonio · galÈ d'el-rei, e antes que chegasse a elle fallou a cinco ou seis fidalgos que estavam afastados da pÙpa, entre os quaes estava Christov„o de Tavora, e todos salvaram e tiraram o chapÈu ao senhor D. Antonio sen„o elle, que virou o rosto para outra parte. Disse-lhe o senhor D. Antonio:--´Sois mal ensinado, Christov„o de Tavoraª: a que elle respondeu:--´Nunca o eu sube ser, sen„o quando me sobejou raz„o para isso.ª Anojado o senhor D. Antonio se foi fazer queixume a el-rei, parecendo-lhe que emendasse a descortezia: elle lhe respondeu de m· graÁa e por cima do hombro:--´VÛs lh'o tereis merecido.ª Sahiu-se o senhor D. Antonio da galÈ aggravado. Informado depois el-rei do que passava, e sabendo que tractava de se ir para Castella, o mandou chamar e apaziguou o caso.ª
´Em todo este tempo que el-rei esteve embarcado, o estiveram os fidalgos principaes, porque tinham por m· fidalguia estar el-rei embarcado, e elles em suas casas; ainda que de noite iam a furto dormir a ellas, e de dia estavam em suas embarcaÁıes. ¡ segunda feira, vespera de S. Jo„o, mandou el-rei lanÁar bando que toda a pessoa, que estivesse apontada nos roes, estivesse embarcada dia de S. Jo„o pela manhan, sob pena de serem presos · mercÍ de S. A.: e ao dia de S. Jo„o pela manhan mandou el-rei levar ancora defronte da igreja de Santos, onde costumava a mandal-a botar todas as noites, e d'ahi se botou defronte de toda a armada de largo, e mandou disparar uma peÁa, que È signal de recolher, e se despediu de todo; e deixando os que ficavam muito saudosos se foi caminho de Oeiras, tres leguas de Lisboa, onde fez embarcar os seiscentos romanos, e mandou que o mesmo fizessem os tudescos. Ahi esteve atÈ o outro dia ao jantar, e toda a manhan andou o patr„o-mÛr em um bergantim da ribeira de Lisboa, a bordo de todos os navios, dizendo da parte d'el-rei que se partissem logo, que esperava por elles em Oeiras.ª
´N'este mesmo dia · tarde, elle com a frota que estava juncta em Oeiras, se partiu com um tempo bem assombrado como el-rei desejava para sua jornada; e comquanto todos determinaram de se aviar depressa, ainda ficaram na ribeira de Lisboa cento e sessenta vÈlas, entre caravellas de fidalgos e outros navios d'alto-bordo que muitos fidalgos tinham fretados. Todos estes navios que ficaram se negociaram com a mÛr brevidade que pÙde ser para se irem apoz el-rei; e para isto mandou que ficasse em Cascaes o gale„o S. Martinho, um navio formosissimo e mui forte, o qual ficou para dar guarda e seguro ·s vÈlas que ficaram em Lisboa, para as acompanhar atÈ Africa.ª
´Foi cousa mui formosa de vÍr a multid„o de vÈlas que foram com el-rei; porque as vÈlas que estavam no rio de Lisboa para ir com el-rei eram novecentas e quarenta, entre as quaes eram mais de quinhentas d'alto-bordo mui bem artilhadas, e entre estas algumas guerreiras e inexpugnaveis, como eram os galeıes d'el-rei, e as n·us venezianas, e urcas, e outras muitas portuguezas, todas com artilharia de bronze, com muitas bombas de fogo, e outros artificios e petrechos d'esta qualidade. Iam estas vÈlas todas junctas e embandeiradas com seus estandartes de seda nas gaveas, que chegavam com as pontas · agua empavezadas, com varandas pintadas e cortinas de seda, e as caravellas com seus toldos e bandeiras de quadra; e vÍr andar el-rei por entre as n·us mandando-lhes que se aviassem depressa, e disparar toda a artilheria, e cobrir-se tudo de fumo.ª
´Quando el-rei partiu de Oeiras, que desamarrou e levou ancora, desamarraram com elle pouco menos de oitocentas vÈlas, com as vÈlas todas mettidas, que faziam uma vista formosissima; e quando chegar a Africa deve de ir com mais de mil e quinhentas vÈlas, porque tem mandado que se ajunctem no Algarve as da cidade do Porto, de Vianna, d'Aveiro, Villa do Conde, Buarcos, Setubal, em o qual est„o esperando mais de duzentas vÈlas, e outras muitas que est„o em Cezimbra, Sagres, Lagos, Tavira, e em todos os portos do Algarve, onde se havia de embarcar a gente do terÁo de Francisco de Tavora.ª
´A ordem do soldo È que d· el-rei a cada soldado quatro cruzados cada mez, e os mantimentos h„o-se de vender por elle, e para isto mandou ir muitos taboleiros de todas as partes para venderem no campo os mesmos mantimentos d'el-rei pela taixa, e d'esta maneira n„o se pÛde alevantar o preÁo d'elles.ª
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VIAGEM A PORTUGAL DOS CAVALLEIROS TRON E LIPPOMANI
1580
Quando offerecemos aos leitores varios extractos da viagem do cardeal Alexandrino tendentes a fazer conhecer, melhor do que se conhecem, as nossas antigas cousas, promettemos ahi extrahir algumas passagens de outro livro inedito, que nos pareciam dar no alvo em que tinhamos posto mira. Este livro È uma narraÁ„o da viagem dos dois embaixadores mandados pela republica de Veneza cumprimentar Philippe II pela conquista de Portugal. A epocha da viagem È quasi a mesma da que j· extract·mos; mas o auctor anonymo d'esta toca outros pontos mui diversos dos que em grande parte haviam dado materia ·s observaÁıes do antecedente escriptor. No presente manuscripto, a relaÁ„o do caminho que os embaixadores fizeram pelas provincias nada contÈm que n„o se ache em obras portuguezas impressas. Na descripÁ„o, porÈm, particular de Lisboa apontam-se tantas particularidades sobre os usos, habitos e grau de civilisaÁ„o do paiz, e tantas noticias economicas ignoradas, por certo, dos leitores, que julg·mos conveniente lanÁar aqui a memoria d'essas cousas, que porventura importam mais · historia do que commummente se cuida.
Na descripÁ„o geral de Lisboa e particular das egrejas, paÁos reaes, hospital, etc., nada ha notavel n'esta viagem, sen„o os muitos erros ·cerca de quasi tudo o que È historico, em que o auctor sÛ parece ter consultado pessoas menos instruidas em taes materias. N'essas descripÁıes o bom do venezeano, auctor do livro, segue o estylo commum do seu tempo: as egrejas s„o grandes, aceadas, ricas; os paÁos vastos, sumptuosos, nobres; e com isto se contenta. N„o assim no que vamos extractar, comeÁando pela noticia da _fonte dos cavallos d'arame_, j· t„o celebre no tempo de D. Fernando.
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´Para o lado da porta que chamam da Cruz ha outra fonte, ou antes lago, que denominam dos cavallos; porque da boca d'alguns cavallos de metal s·e tanta agua, que fÛrma uma corrente a modo de ribeiro.ª
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´Posto que Lisboa seja tamanha e t„o nobre povoaÁ„o, n„o tem palacio algum de burguez ou de fidalgo, que mereÁa consideraÁ„o quanto · materia; e quanto · architectura apenas s„o edificios muito grandes. Ornam-os, porÈm, de tal modo que na verdade ficam magnificos. Costumam forrar os aposentos de rasos, de damascos, e de finissimos razes no inverno, e no ver„o de couros dourados mui ricos, que se fabricam n'aquella cidade.ª