Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 06
Chapter 4
´No outro dia · tarde...... cresceu a marÈ e podÈmos embarcar. Appareceram de repente muitos barcos de pesca e varios outros, afÛra cinco bateis. Embarcaram os cavallos por uma ponte de madeira que ha aqui, n„o sem a difficuldade e o perigo de se estropiarem, e pela passagem pagou-se meio escudo de cada um. Os familiares passaram em seis barcas toldadas de velludo ou tapetes finos, com muitas bandeirolas variadas, e o Legado e demais prelados em outra que era pintada de vermelho e toldada de damasco da mesma cÙr, com uma quantidade ainda maior de similhantes bandeirolas; e n'outra, toldada de velludo encarnado e verde, D. Constantino de BraganÁa com varios fidalgos portuguezes. Teriamos andado obra de uma legua quando aferrou comnosco uma barca grande do feitio do Buccentauro de Veneza, pintada e toldada do mesmo modo, na qual entrou o Legado com todos os seus, e D. Constantino com todos os fidalgos de sua companhia. ¡ pÙpa havia um docel de tÈla d'ouro, e debaixo d'elle uma cadeira de brocado d'ouro para o Legado, estando tudo defronte forrado de finos pannos de Flandres, e cobertos de tapetes os escabellos em que se assentavam os prelados, bem como o pavimento da pÙpa, e atÈ o da proa. Pelo que parecia que n„o estavamos em uma barca, mas sim em magnifica e bem ornada sala. Os bordos d'ella estavam cheios de ramos de louro, e por cima esvoaÁavam bandeiras de damasco verde e amarello. A galeota, para que por extrema velocidade n„o corresse algum risco, posto que o vento fosse de feiÁ„o, n„o trazia vÈla; mas vogava com remos a compasso e rebocada por dez bergantins pintados de vermelho. A marinhagem estava vestida de.....[16] e barretes vermelhos. Chegavam a nÛs dez barcas variamente pintadas e ornadas, nas quaes ouvimos pifanos, trombetas, adufes, tÌmbales e outros instrumentos, com cantores e bailarinos vestidos · mourisca, os quaes bailavam com garbo, mas o canto parecia-se com o que cantam os judeus nas suas sinagogas. Esta gente rodeando a galeota e fazendo seus cumprimentos deleitavam-nos muito. Depois disto ainda se approximaram muitas mais barcas, talvez trinta, que salvaram a galeota cada uma com dois tiros d'artilheria. N'uma d'ellas veio o arcebispo de Lisboa, com muito clero, e beijando a m„o ao Legado se despediu para o receber depois em terra com ceremonial. Partindo o arcebispo vieram ainda mais bergantins toldados e vestida a marinhagem, uns de verde, outros d'amarello, outros de vermelho, outros emfim de cÙres misturadas, com muitos estandartes similhantes, nos quaes vinham pintados, n'este um mundo, n'aquelle um jardim, n'aquell'outro um cÈu estrellado: em alguns as armas e brazıes de seus donos, ou outras divizas, e atÈ as havia com motes e tenÁıes que n„o se podiam bem discernir no meio d'aquella confus„o. Varios d'estes bergantins eram dos magistrados da cidade, outros das ordens militares de Portugal. Alguns fidalgos e todos os officios mechanicos mandaram seu bergantim. Muitos indiaticos que residem em Lisboa enviaram dois cheios de varias plantas, flÙres e fructos da India, feitos de cÍra, que representavam uma primavera, n„o faltando ahi rosas, violas e hervas odoriferas, naturaes e verdadeiras, colhidas em Lisboa. Eram tantos os barcos vindos de toda a parte que se computaram em mais de quinhentos....... Distariamos um terÁo de legua da cidade quando chegaram dez galÈs pequenas, seguidas por uma grande, que chamavam o gale„o, as quaes saudaram o Legado com cem tiros d'artilheria, e o gale„o com vinte e quatro, deitando ao mesmo tempo muitos foguetes e outros fogos de vistas.ª
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´Com esta bella e alegre companhia cheg·mos finalmente · cidade, em cuja praia havia tanta gente que se calculava em cincoenta mil pessoas. Deitou-se uma ponte de madeira, e por ella desembarc·mos para outra ponte fixa, no meio da qual dÈmos de rosto com o serenissimo cardeal D. Henrique que nos esperava com muitos cavalleiros.ª
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´Deram principio · entrada muitos cavalleiros portuguezes, caminhando aos dois, aos tres, e aos quatro, e misturados com elles os familiares do Legado, a cuja esquerda ia o cardeal infante. Tendo andado vinte passos vieram cumprimental-o todos os magistrados e officiaes publicos de Lisboa, que seriam noventa, uns vestidos de vestiduras compridas atÈ o ch„o, outros de saios atÈ o joelho feitos de diversas fazendas, com as varas nas m„os, e trazendo muitos alabardeiros e creados apoz si, uns mais, outros menos, segundo as suas graduaÁıes. Veio ent„o, encontrar-se com o Legado, D. Sebasti„o, rei de Portugal, mancebo de vinte e oito annos, de boa cÙr e muito parecido com D. Joanna, princeza de Portugal, sua m„e, e irman d'el-rei catholico. … de estatura mediocre, de olhar e sobrecenho algum tanto carregado e altivo. Trazia uma capa de panno preto, e o capuz com botıes de diamantes, rubins, e perolas, saio com abotoadura tambem de diamantes e as faldas atÈ o joelho, calÁas vermelhas com poucos tufos e quasi lizas, barrete chato de velludo, carregado para a testa quasi atÈ o sobrolho, e adornado com um cord„o d'ouro, diamantes e perolas: trazia botas largas nas pernas, de cordov„o preto, que lhe subiam atÈ os joelhos. A espada, cinto, estribos e esporas eram dourados, e a sella do cavallo de velludo preto recamada de ouro e perolas: na cabeÁa trazia o cavallo pendentes de pedras preciosas e ouro. Adiante d'el-rei dois escravos pretos conduziam dois ginetes, um claro, outro baio claro, com xaireis de brocado d'ouro e jaezes d'ouro. Ao redor vinham cincoenta alabardeiros vestidos de panno preto, com capas compridas atÈ meia perna, saios com faldas pelo joelho, e botas de cordov„o preto largas. Seguiam-se o infante D. Duarte e muitos outros cavalleiros, que seriam mil, quasi todos montados em formosos ginetes bem arreados, fazendo aquelle todo maravilhosa vista, principalmente os cavalleiros, que eram de bella presenÁa e ricamente vestidos. El-rei parou · direita do Legado e, descobrindo a cabeÁa ao mesmo tempo que este, fez uma leve inclinaÁ„o, tornando immediatamente a pÙr o barrete. Feitos os cumprimentos e correspondida a cortezia que fizera, caminhou ao lado do Legado, e sempre · direita, seguindo-se depois o cardeal infante e D. Duarte, e depois D. Constantino, D. Francisco, e D. Henrique: apoz estes o duque d'Aveiro e seu irm„o D. Pedro, aos quaes se seguiam os marquezes, condes e outros fidalgos titulares, e depois os magistrados da cidade com os seus alabardeiros e os cavalleiros das quatro ordens militares, alÈm de outras pessoas distinctas, cada qual segundo a sua graduaÁ„o. Caminh·mos obra de uma boa milha por bellas ruas, direitas e largas (principalmente a que chamam _rua nova_, a qual È bellissima e povoada de nobres edificios) atÈ que cheg·mos ao paÁo real, situado no sitio mais alto da cidade, que d'alli se descobre quasi toda, fazendo uma vista soberba com o braÁo de mar que a cÈrca, cheio de grande multid„o de navios. Por todas estas ruas era t„o basto o povo que se calculou haver ahi mais de cento e cincoenta mil pessoas. Estavam as dictas ruas adornadas todas de finos pannos de Flandres e d'outras qualidades, n„o havendo columna ou parede que d'elles n„o estivesse coberta. Dobrado era o adorno das janellas, porque n„o sÛ estavam a ellas damas t„o louÁans, que n„o sei a que comparal-as, mas tambem estavam colgadas de riquissimos tapetes e colchas, o que era tanto mais esplendido, quanto as casas teem muitas janellas e muito junctas, e cada morada tres ou quatro andares, que se alugam facilmente pela grande frequencia d'extrangeiros. Era por este motivo que d'um e d'outro lado se n„o via v„o do tamanho d'um dedo, que n„o estivesse coberto de tapetes e pannos, divididos por quadros de figuras em vulto, ou bordadas, de vistosa apparencia. Quando cheg·mos · egreja de Sancta Maria[17], perto dos paÁos reaes, el-rei, fazendo leve menÁ„o de descobrir a cabeÁa, partiu para os dictos paÁos acompanhado de cincoenta tochas, e o Legado entrou na egreja.ª
O paÁo de D. Sebasti„o--A cÙrte
´Partindo da sÈ o Legado com o cardeal infante e muitas outras pessoas, foi apear-se ao dicto palacio, chamado do castello, era sol posto. Acompanhado de cincoenta tochas, conduziram-no a um aposento no andar nobre, por cima do quarto d'el-rei, onde ceou sÛ, e os prelados e gentis-homens de seu serviÁo em publico, n'uma sala, e em outra maior os gentis-homens dos prelados. Assim os mais criados cada um segundo a sua jerarchia e classe.ª
´As mesas n„o eram t„o bem ordenadas, lautas, e abundantes como em Madrid, porque os portuguezes n„o teem habito de banquetear-se. Conhecia-se-lhes a boa vontade com que davam tudo, e que eram abastados de peÁas de ouro e de prata, e servidos por muitos criados; mas as comidas eram mais grosseiras que delicadas; os vinhos fortes; a fructa pouco singular. Quanto ao p„o e carne, eram optimos.ª
´O palacio do castello, todo por fÛra de cantaria, assim como n„o tem fÛrma alguma d'architectura, por ter sido feito aos poucos em diversas epochas, tambem por dentro È mais commodo que vistoso. Sobe-se por uma grande escada a um atrio que gira em volta, e que d· entrada para diversas quadras, ficando · m„o esquerda da entrada uma porta que d· para outra escada ingreme e estreita, pela qual se sobe a alguns quartos bem ornados, nos quaes se alojaram varios prelados. Tomando por outra escada subimos a uma varanda que d· passagem para as camaras d'el-rei, por cima das quaes fica uma grande sala, que tem quarenta e oito passos de comprido e dezoito de largo, dividida em naves com um tecto pintado de brutescos, e forrada toda de bellas razes de Flandres e de lhama d'ouro. Seguia-se um quarto feito a modo d'escada, por ser em degr·us, onde os gentis-homens dos prelados comiam. O tecto d'este quarto era feito · maneira de pinha e de muito mau gosto. D'aqui subia outra escadinha de madeira para um aposento, ao lado do qual ficava outro onde estavam os aparadores com a copa, assaz copiosa de peÁas d'ouro e prata, mas n„o tanto como a do duque de BraganÁa. D'esta casa se passava para uma sala forrada dos mesmos pannos de Flandres, na qual os prelados comiam. No fundo d'esta sala se descia para uma varanda feita de novo, em cujo topo havia um bellissimo panno de Flandres com uma imagem da virtude que segura pelo collo e pelos cabellos uma fortuna com seu letreiro latino que significa: _n„o sabe escapar, nem pÛde fugir a fortuna, quando a virtude com sua forÁa a retem_. Do meio d'esta varanda se desce para uma sala forrada de lhama d'ouro, com seu docel de brocado, debaixo do qual est· um estrado com tres degraus, coberto de panno verde. D'aqui se entra em uma camara, ornada do mesmo modo, onde est· um grande leito de brocado d'ouro, com travesseiro e duas almofadinhas de razo[18] carmezim ricamente bordados d'ouro. Fica immediata outra, onde estava um leito para dormir o Legado, cuja armaÁ„o era de finissimos razes de seda e d'ouro, com bem lavradas figuras poeticas, e franjas subtilissimas. Havia tambem ahi uma mesa pequena de couro preto da India mais bello que o ebano, todo lavrado ao redor de folhagens d'ouro. Ao pÈ d'esta camara estava um oratorio, armado de razes similhantes aos da camara, com a differenÁa de serem as figuras ao devoto........... D'estas camaras sahe-se por uma porta secreta para um terrado donde se descobre uma extensa vista, tanto de mar como de terra.ª
´Os quartos d'el-rei ficam por baixo d'estes e em tudo lhes s„o similhantes, salvo em alguma pequena diversidade nos estrados e doceis, e em serem bordados os pannos de raz com historias do Testamento Velho, e ao mesmo tempo com quantas ficÁıes teem inventado os poetas. Havia ahi alguns que valiam bem dois mil escudos.ª
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´Na quarta feira seguinte foi o Legado visitar el-rei, o qual veiu encontrar-se com elle ao meio da sala grande, acompanhado de muitos cavalleiros, e vestido singelamente, todo de panno preto. Tirou o Legado o barrete primeiramente, e depois tirou el-rei o seu, mas tornou-o a pÙr logo, tendo-o o Legado ainda na m„o; e sem dizer palavra, tomando a direita ao Legado, se encaminhou para o seu quarto, sem fazer a menor ceremonia ao passar as portas, entrando primeiro que elle na camara, onde sÛ havia uma cadeira. Ordenou ent„o el-rei que viesse outra, mas antes que ella chegasse, ou por inadvertencia ou por altiveza, assentou-se debaixo do docel, e o Legado defronte d'elle na que trouxeram, que era de velludo. Tendo fallado obra de uma hora, o Legado tornou a descobrir-se, fazendo el-rei apenas signal d'isso, e acompanhando-o sÛ atÈ · porta do aposento, onde parou, com o barrete na cabeÁa, em quanto os prelados lhe faziam suas cortezias, pondo o joelho em terra, e retirou-se depois.ª
´O Legado jantou n'esse dia em publico, mas sÛ · mesa, na sala do docel, n'um estrado de cinco degraus, assentado em uma cadeira de velludo carmezim, franjada d'ouro, assistindo-lhe os prelados e grande numero de fidalgos portuguezes. Ao mesmo tempo jantava el-rei tambem em publico e sÛ · mesa, na sua sala principal debaixo do docel, em estrado levantado, e assentado em cadeira de brocado d'ouro. Quatro padres jesuitas benzeram a mesa e depois deram graÁas. O serviÁo era d'ouro: dez os criados que serviam, n„o mais! As comidas poucas, mal temperadas e grosseiras. Sobre a mesa estava sempre um grande vaso de prata cheio d'agua, do qual se deitava em um jarro, chamado na lingua portugueza _pucaro_, do feitio de uma urna antiga, d'altura d'um palmo, e feito de certo barro vermelho, subtilissimo e luzidio, que chamam _barro d'Estremoz_, pelo qual el-rei bebeu seis vezes. Ahi estava tambem sempre uma salva de prata cheia de guardanapos, que se renovavam cada vez que el-rei bebia ou mudava de prato. Comia depressa, e com a cabeÁa baixa, com pouca delicadeza. Um pagem posto atraz da cadeira lhe tinha entre tanto a espada. Dez estavam de joelhos. Apesar de lhe assistirem muitos fidalgos, nunca disse palavra, nem olhou para nenhum, e levantando-se da mesa, retirou-se para a sua camara com passos velozes.ª
´Depois de jantar, o Legado cavalgou em uma mulla, acompanhado dos prelados e de quinhentos cavalleiros portuguezes, e seguindo quasi uma milha ao longo da margem do rio, foi apear-se · porta de um convento de freiras franciscanas, donde passou ao palacio da rainha D. Catharina, viuva de D. Jo„o III e irman de Carlos V, avÛ do rei actual. Ter· d'edade sessenta annos ou mais, mas est· bem conservada: È d'alta estatura e de gentil aspecto. Estava vestida como a duqueza de BraganÁa viuva, de que j· falei. Ach·mol-a em pÈ n'um aposento desadornado, como o era todo o palacio. Deu sÛ dois passos a receber o Legado, com uma leve cortezia. Juncto d'ella estavam quatro matronas e seis donzellas formosas e ricamente vestidas. Despedidos os prelados e mais pessoas, comeÁou a conversar com o Legado em lingua hespanhola e em voz alta, por espaÁo de hora e meia, tendo-se ella assentado no ch„o e o Legado defronte, em uma cadeira de couro, ambos sem docel, estando entretanto os prelados n'outro aposento, onde, por orgulho ou por descuido, n„o havia cadeiras. ¡ partida do Legado foram estes chamados dentro para cortejarem a rainha, o que fizeram pondo o joelho em terra, sem ella se mover; e quando o Legado se despediu pÙz-se em pÈ, mas n„o sahiu do seu logar, e apenas fez uma leve inclinaÁ„o de cabeÁa.ª
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´Tendo anoitecido, acompanhados com vinte tochas adeante fomos ao palacio da infanta D. Maria, irman de D. Jo„o III, a qual, tendo ficado orphan em tenra edade, n„o quiz j·mais casar, posto que fosse robusta, formosa, e procurada. Era alta, e teria d'edade cincoenta annos, posto que n„o pareÁa · primeira vista. Dizem que È a princeza mais rica da christandade, possuindo innumeraveis joias e milh„o e meio de bens patrimoniaes, que gasta com os pobres.ª
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´Estava vestida a princeza com um vestido afogado de velludo preto com orla d'ouro e botıes d'ouro no colarinho, coifa de rÍde d'ouro na cabeÁa, e uma corÙa no braÁo, de rubins e diamantes, que avali·mos em trezentos mil escudos. Esperava em pÈ pelo Legado, n'um aposento forrado de pannos de Flandres de sÍda e ouro, debaixo de um docel de brocado. Ajoelhou ao entrar de s. exm.^a, e levantando-se veio recebel-o · porta do quarto. Depois assentou-se no ch„o debaixo do docel, e o Legado defronte d'ella em uma cadeira de velludo carmezim franjada d'ouro. Estavam presentes quatro matronas, quatro damas, e tres donzellas n„o menos honestas que formosas, e similhantes ·s tres GraÁas, duas vestidas de velludo preto, e a do meio de damasco branco, e todas cobertas de joias tanto no pescoÁo como nas mangas, com coifas de fio d'ouro que lhe chegavam sÛ a meia cabeÁa, e os cabellos bem assentados na frente, algum tanto crespos mas n„o entranÁados. Depois de uma curta conversaÁ„o, o Legado voltou ao palacio.ª
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´Esta capella (a dos paÁos d'AlcaÁova) È de bom tamanho. Tem um S. Miguel expulsando Lucifer que È obra de mestre: est· forrada de tapeÁarias, uma das quaes representa ao natural el-rei D. Manuel, rodeado do conselho dos grandes, quando resolveu mandar conquistar as Indias que hoje chamam de Portugal. … de grande preÁo.ª
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´Quando o Legado voltou para a sua camara (depois da segunda visita de ceremonia a el-rei na qual nada ha notavel) os administradores do thesouro real lhe levaram para vÍr uma sella de diversas peÁas, com os demais arreios, feita na India. O corpo d'ella, ou assento, È de ouro e as orlas lavradas subtilissimamente. Est· toda semeada de rubins, diamantes, perolas, e outras joias similhantes. Dizem que vale novecentos mil escudos, e È peÁa sÛ digna de um rei.ª
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´Na segunda feira seguinte fomos ver o arsenal ou armaria d'el-rei, pegado com a praÁa principal, · beira do Tejo. Na verdade È cousa digna d'espanto! Compıe-se de tres grandes salas todas cheias. Os cossoletes que ahi ha s„o para cincoenta mil homens. N'outra que fica por cima est„o lanÁas para outros; e n'outra morriıes e arcabuzes para egual numero de soldados (os portuguezes dizem que s„o para oitenta mil), alÈm de trinta mil armaduras inteiras para cavallaria. Em baixo est„o cem peÁas d'artilheria grossa, e cento e cincoenta de artilheria miuda, bem que muitas d'estas se podiam contar entre as de grande calibre. As muniÁıes s„o abundantissimas, assim como os materiaes para a fabricaÁ„o; nem n'esta parte ha mais que desejar.ª
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´Fomos tambem vÍr as cavallariÁas reaes que est„o juncto a S. Domingos. Havia n'ellas duzentos ginetes todos excellentes e tractados com grande estimaÁ„o.ª
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O cardeal tinha-se despedido d'el-rei D. Sebasti„o. Segue-se a descripÁ„o da partida e da viagem para Castella atravez do Alemtejo, na qual nada ha novo ou notavel, digno de ser transcripto para estudo dos costumes d'aquella epocha.
ASPECTO DE LISBOA
AO AJUNCTAR-SE E PARTIR A ARMADA PARA A JORNADA D'ALCACER-QUIBIR
1578
Apesar de os historiadores do infeliz D. Sebasti„o haverem aproveitado muitas memorias coetaneas para tecerem as suas narrativas, esta de que hoje damos um extracto lhes foi desconhecida. E todavia ella apresenta o quadro mais miudo e talvez mais completo da grandeza e importancia d'aquella desgraÁada expediÁ„o, em que as riquezas, os sacrificios de todo o genero, e as violencias inauditas, de que todo o paiz foi theatro, n„o poderam remediar a decadencia do antigo esforÁo portuguez, nem restaurar a energia indomavel dos seculos anteriores, corrompida pela morte da liberdade municipal e da independencia aristocratica, annulladas por D. Jo„o II e por D. Manuel.--Do estylo, do modo por que a relaÁ„o dos successos se apresenta, do ponto em que ella termina, e dos signaes paleographicos do manuscripto se deduz que esta memoria, pertencente · Bibliotheca Real, foi escripta por um contemporaneo e testemunha ocular dos aprestos da armada.
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´Estava a cidade de Lisboa em todas as cousas mui differente do que era, porque a gente que n'ella havia n„o se lhe dava numero, nem havia homem que passeasse nem andasse de vagar, assim naturaes como extrangeiros, porque todos se negociavam para a jornada de Africa, onde el-rei queria passar, e mostrava-se em todos tanto alvoroÁo que parecia que iam a folgar ou a ver umas grandes festas.ª
´Havia muita gente estrangeira a fÛra os tudescos, que el-rei mandara vir e que estavam em Cascaes alojados, afÛra seiscentos soldados, os quaes, indo para a Rochella por mandado do papa em soccorro dos catholicos contra os herejes, vieram a Lisboa tomar refresco, e pedir embarcaÁ„o a Sua Alteza, a qual lhes n„o pÙde dar, por ter necessidade de todos os navios para esta viagem, antes disse ao capit„o d'esta gente, que era o duque de Lenister de Irlanda, que o quizesse acompanhar n'esta jornada, e que para isso mandaria pedir licenÁa a Sua Sanctidade, para o qual o duque lhe deu de prazo quarenta dias para dentro d'elles vir a resposta, a qual n„o veiu atÈ · partida d'el-rei; mas emfim os fez embarcar e levou comsigo. Era gente muito lustrosa, e soldados velhos exercitados.ª
´Havia em Lisboa muita gente extrangeira, assim castelhanos como de outras naÁıes, que vieram para irem n'esta jornada por aventureiros, gente honrada e muito lustrosa, que vieram servir el-rei · sua custa e sem partido. E assim acudiram muitos officiaes de instrumentos militares; porque mandou el-rei declarar por Italia, Castella, e Allemanha, que todo homem que em sua terra tivesse officio de guerra e quizesse acompanhar n'esta jornada lhe faria partidos avantajados.ª
´El-rei Filippe em Castella mandou apregoar que todo o homem que passasse com seu sobrinho n'esta jornada lhe levaria em conta todo o tempo que servisse, como se acompanh·ra sua propria pessoa.ª
´Fez el-rei quatro coroneis, a saber: Diogo Lopes de Sequeira do terÁo de Lisboa e seu termo; D. Miguel de Noronha do de Santarem; Vasco da Silveira do de Alemtejo; Francisco de Tavora do terÁo do Algarve. N„o fez coronel d'Entre Douro e Minho, nem da Beira, porque a gente que de l· vier se ha de repartir por estes coroneis.ª
´Estes despediu el-rei a vinte dias de maio, para que cada um fosse fazer sua gente e pagasse logo a todos, e comeÁasse a paga a correr desde o dia que cada um partisse da sua terra. A gente de Lisboa e a dos terÁos de Santarem e do Alemtejo veiu embarcar aqui em Lisboa; a outra se embarcou em os portos mais chegados: e para esta gente se embarcar mandou el-rei vir aqui de Setubal sessenta urcas que estavam · carga do sal. Todas estas entraram em Lisboa em um dia, e ficaram l· em Setubal outras setenta urcas, que el-rei mandou hi carregar de cousas necessarias. Vai por general de toda a armada D. Diogo de Sousa, governador que foi do reino do Algarve.ª
´Era el-rei t„o cioso ou curioso da negociaÁ„o d'esta jornada, que de ninguem a fiava nas cousas necessarias sen„o de si mesmo. E foi por vezes visto em pessoa mandar carregar e negociar os seus galeıes; e t„o occupado que pela sÈsta se viu um dia no caes, sem chapÈu, mandar arrumar em um gale„o umas poucas d'armas: e era a sÈsta ardentissima.ª