Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 06
Chapter 2
Fraco, pequeno, e pobre na origem, Portugal teve de luctar desde o berÁo com a sua fraqueza original. Apertado entre o vulto gigante da naÁ„o de que se desmembrara e as solidıes do mar, o instincto da vida politica o ensinou a constituir-se fortemente. Quando se lanÁam os olhos para uma carta da Europa e se vÍ esta estreita faixa de terra lanÁada ao occidente da Peninsula e se considera que ahi habita uma naÁ„o independente ha sete seculos, necessariamente occorre a curiosidade de indagar o segredo d'essa existencia improvavel. A anatomia e physiologia d'este corpo, que apparentemente debil resistiu assim · morte e · dissoluÁ„o, deve ter sido admiravel.
Que È feito das republicas da Italia t„o brilhantes e poderosas durante a edade-media? Onde existem Genova, Pisa, Veneza? Na historia: unicamente na historia. … l· onde sÛmente vivem o imperio germanico e o do Oriente, a Escossia, a Noruega, a Hungria, a Polonia, e na nossa propria Hespanha a Navarra e o Arag„o. Fundidas n'outros Estados mais poderosos ou retalhadas pelas conveniencias politicas, estas nacionalidades exteriormente fortes e energicas dissolveram-se e annullaram-se, e Portugal, nascido apenas quando essas sociedades j· eram robustas, vive ainda, posto que em velhice abhorrida e decrepita. Ha n'isto sem duvida, se n„o um mysterio, ao menos um phenomeno apparentemente inexplicavel.
Estar· a raz„o da nossa individualidade tenaz na configuraÁ„o physica do solo? Somos nÛs como os suissos um povo montanhez? Separam-nos serranias intransitaveis do resto da Peninsula? Nada d'isso. As nossas fronteiras indicam-nas commummente no meio de planicies alguns marcos de pedra, ou designam-nas alguns rios sÛ no inverno invadiaveis. Quem impediu a Hespanha, esse enorme colosso, de devorar-nos?
Poder-se-ha dizer que desde o seculo XVII È a rivalidade das grandes naÁıes da Europa que nos tem salvado. Talvez. Mas antes d'isso era por certo uma forÁa interior que nos alimentava, e que ainda actuou em nÛs no meio da decadencia a que cheg·mos no seculo XVI, decadencia que virtualmente nos veio a subjeitar ao dominio castelhano.
Mas durante esse mesmo dominio o instincto da vida politica, o aferro · individualidade, existia se n„o nas classes elevadas ao menos entre a plebe, porque a plebe È a ultima que perde as tradiÁıes antigas, e o amor da sua aldeia e do seu campanario.
A lucta do vulgacho--exclusivamente do vulgacho--a favor de D. Antonio prior do Crato contra a corrupÁ„o de tudo quanto havia nobre e rico em Portugal, e contra o poder de Philippe II, È um reflexo pallido e impotente da epocha de D. Jo„o I; mas È um facto de grande significaÁ„o historica. Completam-n'o as diligencias feitas nas cÙrtes de Thomar para que a linguagem official do paiz se n„o trocasse pela dos conquistadores. Este facto comparado com ess'outro obriga a meditar.
Philippe II foi um grande homem--astuto, activo, dotado de um character ferreo; foi o representante mais notavel da unidade politica absoluta, e n„o pÙde ou n„o soube delir e incorporar este pequeno povo na vasta sociedade hespanhola, sobre a qual seu pae e elle haviam passado uma terrivel rasoira que lhe destruira todas as asperezas e desegualdades. E todavia Philippe II tinha geralmente por alliados entre os vencidos os homens mais eminentes por illustraÁ„o, por linhagem, por faculdades pecuniarias.
… que as multidıes obscuras eram ainda portuguezas no amago, posto que corrompidas no exterior pela corrupÁ„o das classes privilegiadas. Todas as outras explicaÁıes s„o insufficientes ou falsas.
II
Tambem os tempos que precederam immediatamente o dominio hespanhol offerecem um complexo de factos que fazem pensar.
Na segunda metade do seculo XV resolveu-se Affonso V a conquistar Arzilla. Aprestou trinta mil combatentes e uma frota de perto de quinhentas velas. Os esforÁos de Portugal para supprir uma t„o poderosa expediÁ„o parece n„o terem sido excessivos. Aquelles de quem o principe estava descontente eram ameaÁados por todo castigo de n„o se lhes consentir o participarem dos riscos da empreza. Para emenda de muitos bastava o incentivo de se lhes recusar o affrontarem os combates e a morte.
Na segunda metade do seculo XVI tractava-se de ajunctar doze mil homens para a infeliz jornada de Alcacer-quibir. As violencias que se practicaram para arrancar do paiz as victimas d'aquelle grande holocausto foram inauditas, e esgotaram-se os recursos da naÁ„o para satisfazer o custo de uma tentativa, de cujo resultado a consciencia da propria fraqueza e degeneraÁ„o fazia com que o povo augurasse mal.
Entre estas duas epochas È necessario suppÙr um periodo de decadencia profunda, moral e material, e esse periodo deve ser longo. Uma naÁ„o n„o decahe de um dia para outro dia. A virtude e os recursos de Portugal deviam ter-se consumido lentamente.
Mas o que È esse periodo intermedio? … o do estabelecimento da monarchia absoluta sobre as ruinas da monarchia liberal da edade-media. … a epocha dos descobrimentos e conquistas.
Entre as idÈas de engrandecimento e poderio da epocha anterior a D. Jo„o II, e as da epocha posterior a elle, ha um abysmo que nunca deixar· confundil-as.
A politica da edade-media era em tudo religiosamente historica: a do renascimento era em tudo hypocritamente revolucionaria.
Expliquemo'-nos.
Portugal surgira no meio de uma reacÁ„o de crenÁa e de raÁa. A Africa e o islamismo tinham subjugado a Hispanha e o christianismo. A raÁa goda e christan repellia a conquista. Durante o progresso da reacÁ„o, Portugal nascÍra e d'ella se tinha alimentado como os outros Estados da Peninsula. Era este o grande facto da sua existencia: o mais era accessorio e secundario.
A conquista mussulmana fÙra uma vaga dos grandes Èstos humanos que, galgando por cima do Estreito, viera tombar e espraiar-se sobre o solo que habitava a familia romano-gothica.
Para obedecer · natureza das cousas, para a reacÁ„o ser verdadeira e completa, a vaga romano-gothica tambem devia transpor o Estreito e, estourando sobre a Mauritania, dar-lhe a provar o amargor do dominio extrangeiro. O futuro pertencia a Deus; mas as probabilidades do final triumpho cabiam ·quelle dos dous contendores que viesse a ter por si a superioridade da civilisaÁ„o, e o decurso dos tempos mostrou que esta superioridade recahiu, n„o na Africa, mas sim na Peninsula.
Assim as tentativas dos nossos antigos reis para se apoderarem dos territorios africanos eram logicas historicamente, e alÈm d'isso eram justas. O islamismo fÙra quem lanÁ·ra a luva · raÁa christan: n„o podia queixar-se da prorogaÁ„o do combate.
E, descendo da idÈa essencial da politica da edade-media ·s circumstancias secundarias que podiam servir como meios de a realizar, vÍ-se entre ellas e essa idÈa m„e uma admiravel harmonia. As conquistas d'Africa deviam sorrir ao povo: estribavam-se nas tradiÁıes e nos odios de uma guerra de seculos, guerra ao mesmo tempo de religi„o e de liberdade; no habito da victoria, que desde a batalha das Navas de Tolosa os proprios mussulmanos consideravam como devendo, mais tarde ou mais cedo, pertencer definitivamente aos christ„os. Accrescia a vizinhanÁa das costas da Berberia e, portanto, a facilidade de conduzir d'aquem mar tropas, viveres, muniÁıes; o serem os sarracenos adversarios antigos, e por isso avaliados com exacÁ„o os seus recursos, o seu valor, os seus ardiz e usanÁas militares; o existirem necessariamente ligaÁıes entre os mouros, livres em Portugal debaixo do dominio christ„o, e os sarracenos africanos, o que por muitos modos facilitava a conquista. Tudo isto conspirava em tornar nacional e plausivel o systema d'engrandecimento da nossa edade-media; systema claro, consequente, legitimo, e do qual j· se devisavam os symptomas, como era natural, pouco depois da conquista do Algarve por Affonso III, isto È, no reinado de seu neto Affonso IV.
Esta politica mudou na conjunctura em que a monarchia primitiva se caracterisava definitivamente em monarchia absoluta.
A causa final de todas as tentativas de engrandecimento colloca-se desde essa epocha na pessoa do rei, e n„o no paiz: a tradiÁ„o historica perde-se. As expediÁıes maritimas abandonam o rumo da Africa septentrional e v„o correndo ao longo das costas meridionaes. Os descobrimentos alÈm do Bojador, que atÈ ahi eram accessorios da intentada conquista do Maghreb, convertem-se em objecto principal das ambiÁıes de poderio. Affonso V tom·ra o titulo de _rei_ de Portugal e dos Algarves, d'aquem e _d'alem mar_: fÙra esta a derradeira express„o do pensamento antigo. D. Jo„o II accrescentou a esse titulo o de _senhor_ de GuinÈ: era a primeira palavra do symbolo moderno. As conquistas de Affonso V representavam um accrescimo de territorio ao reino; pertenciam ao paiz[2]: os descobrimentos de D. Jo„o II tendiam a achar ouro e escravos para o rei. Assim, em quanto os seus antecessores costumavam congratular-se francamente com o orbe christ„o pelas victorias obtidas na Mauritania, este principe escondia por todos os meios de terror e mysterio o _seu senhorio_ de GuinÈ, como o velho avaro procura occultar o cofre que encerra o seu thesouro.
Desde ent„o a vida energica de Portugal, distrahida do caminho historico e justo, do alvo solido e dos resultados permanentes a que a dirigira a anterior politica, foi empregada no proseguimento da nova idÈa de pessoalidade, da substituiÁ„o do rei ao Estado. A gloria adquirida n'essa epocha foi das maiores que o mundo tem visto; mas compr·mol-a com a desgraÁa futura, com a morte de toda a esperanÁa, com o tragar golo a golo, por seculos, um calix immundo de males e affrontas.--Adquirimos um largo patrimonio para dividir com as outras naÁıes: reserv·mos para nÛs a fraqueza interior, consequencia de esforÁos mui superiores aos nossos recursos para remotas conquistas: reserv·mos para nÛs a corrupÁ„o moral e a decadencia material. Que significa, pois, qual È o valor real d'essa gloria? Puramente negativo.
A seiva da arvore social esgotou-se no bracejar descomposto. A Asia e a America perderam-nos. O antigo aferro · terra natal, o odio do jugo extranho, o nobre e altivo character de homens livres, o esforÁo indomavel, deix·mos tudo isso pelos palmares da India, pelas minas auriferas da terra de Sancta-Cruz, pelos emporios do nosso illimitado commercio. Puzemos hypocritamente a cubiÁa de mercadores e as correrias de corsarios · sombra veneranda da Cruz. Pens·mos que atraz d'ella n„o nos veria a historia. Engan·mo'-nos. Quando a febre que nos alimentava se trocou em consumpÁ„o lenta, os povos, que vieram recolher o fructo do nosso esforÁo ou dos nossos crimes, levaram alguns annos a verificar a partilha, e quando acabaram olharam para nÛs e riram-se.
As naÁıes maritimas da Europa representaram n'este horrivel drama o papel de espectadores romanos assentados nos degraus de um circo; nÛs o de gladiadores. No fim do espectaculo ellas voltaram o pollegar para a terra em signal de desapprovac„o. A pateada era justa: tinhamos cahido mal.
E ainda ha quem acceite com vangloria os elogios insolentes dos extrangeiros que, insultando a nossa decadencia presente, exaltam os feitos admiraveis com que lhes abrimos laboriosamente atravez do oceano o caminho da prosperidade? … um singular genero de surdez, ouvir o elogio sem sabor e n„o ouvir a gargalhada que o segue e que o converte n'um escarneo.
III
Quem quizer saber o que a monarchia absoluta tinha feito do Portugal antigo leia a segunda carta de S· de Miranda, dirigida ao senhor de Basto.
Este S· de Miranda n„o seria um grande poeta; mas era mais do que isso: era um homem de fino tacto, que n„o tomava a febre do paiz por forÁa normal de vitalidade, e que via a decadencia e ruina nas riquezas e pompas de Lisboa; n'aquillo em que uma cubiÁa miope via engrandecimento e progresso.
Desde que o rei deixou de ser rei para ser senhor, o paiz annullou-se diante da capital. Quando o principe È o Estado, que importam as provincias? A cÙrte È tudo; È o manto real. Cubra-se de ouro e pedrarias, est· obtido o esplendor do _Estado_.
Se D. Sebasti„o fosse um S· de Miranda, n„o teria ido morrer a Alcacer-quibir. O pobre rapaz era uma alma nobre e teve uma inspiraÁ„o da politica da edade-media; quiz ser descendente dos reis cavalleiros, dos reis municipaes, dos reis chefes da reacÁ„o christ„, no meio de uma naÁ„o de bufarinheiros, de sobrecargas, de judeus-agiotas, de cortez„os, e de tartufos. Pagou-o.
Malaventurado mancebo! Nunca viu passar por entre seus sonhos dourados e puros os phantasmas melancholicos de D. Jo„o II, de D. Manuel, e do inquisidor-mÛr D. Jo„o III: n„o soube que para resuscitar o pensamento destruido nos fins do seculo XV era preciso primeiro reconstruir uma sociedade que perecera com elle. D'aqui o seu mal.
Puzemos agora o dedo sobre a chaga que corroeu e corroe Portugal. O que atÈ este momento apont·mos È uma serie de phenomenos, de factos externos, posto que de alta importancia por nos conduzirem · avaliaÁ„o das causas intimas da ruina do paiz.--Estas causas est„o unicamente nas circumstancias que se deram na transformaÁ„o da indole politica da sociedade portugueza. … essa a chaga em que toc·mos.
ARCHEOLOGIA PORTUGUEZA
1841--1843
Hoje que a arte comeÁa a deixar de ser entre nÛs imitadora, pagan, e falsa; hoje que a poesia se torna nacional; hoje que o drama renascendo no theatro vai buscar a sua tela e as suas personagens na historia patria; hoje, emfim, que comeÁam a apparecer nos jornaes populares tentativas e esboÁos da novella historica, È uma necessidade litteraria o desenterrar das chronicas, dos diplomas, e de toda a especie de monumentos a archeologia portugueza na mais vasta significaÁ„o d'esta palavra. Os que se tÍem applicado a escrever n'estes diversos generos da arte, chamados poema, drama, romance, generos despresados por certos sabios que nada escrevem, ou que sÛ copiam _profundamente_ o que os outros disseram; aquelles que, dizemos nÛs, trabalham n'estas varias especies de litteratura, para as quaes se requerem em subido grau duas cousas que raras vezes se encontram junctas--imaginaÁ„o para inventar, logica para deduzir e ligar factos e pensamentos; esses conhecem por experiencia custosa qu„o duro È ter de accrescentar ao seu trabalho de artistas as tediosas e mirradoras investigaÁıes de antiquarios e eruditos. Depois d'uma larga exploraÁ„o pelos campos aridos e empoeirados das velhas chronicas civis e monasticas, dos pergaminhos esquecidos nas gavetas dos archivos, das obras confusas e por vezes contradictorias dos eruditos, se n„o È difficultoso salvar a propria logica, È quasi impossivel n„o sentir amortecida a imaginaÁ„o, sem a qual n„o existe arte. … esta a maior difficuldade que hoje ha para entre nÛs apparecerem obras de artistas: os estudos aridos das antigualhas matam os engenhos, ao passo que sem a verdade dos costumes as producÁıes artisticas s„o falsas, e n'esse caso tanto ou mais valÍra fazer poemas epicos, tragedias com cÛros, pastoraes virgilianas, e romances como o _Theagenes e Chariclea_, do bispo Heliodoro d'Emesa.
Mas qual È o meio de evitar gradualmente esta difficuldade? … trazer cada qual · praÁa o seu peculio n'esta materia: assim os artistas se ajudar„o mutuamente, poupando uns aos outros largas horas de indagaÁıes impertinentes e aborridas. A minima circumstancia dos antigos costumes n„o È indifferente: muitas vezes ella vai dar cÙr e vida a um verso, a uma scena, a um capitulo: por pobre que cada um se julgue venha com sua mercadoria que alguem lhe achar· o preÁo: para a arte de hoje n„o ha terra de sepulchro que nas m„os d'ella n„o possa converter-se em ouro; porque a vestidura de pedra que d· agasalho aos cadaveres encerra toda a vida antiga.
Um jornal popular È por todas as razıes o repositorio mais accommodado para enthesourar essas riquezas historicas. Um livro requer grande copia de materiaes nas m„os do obreiro que commette essa obra; requer certa disposiÁ„o e methodo para o qual poetas nem sempre s„o mui proprios, por isso raros poderiam fazer sobre isso um livro com intuito artistico, que ao mesmo tempo fosse uma boa obra archeologica. Por outra parte, o commum dos leitores--os mesmos que h„o de ler o poema ou o romance, e assistir · representaÁ„o do drama--se habituar„o ao tracto e frequencia dos costumes e idÈas que essas composiÁıes resuscitam: as crenÁas, as opiniıes, a vida material dos tempos passados deixar„o pouco e pouco de ser para elles como estranhas, e as obras d'arte ser„o intelligiveis e populares, o que ali·s difficultosamente aconteceria.
NÛs, pois, convidamos todos aquelles que comprehendem a importancia e necessidade de similhantes materias para que venham inserir algumas paginas avulsas, alguns capitulos soltos dos seus estudos historicos n'esta serie que hoje abrimos: para nÛs e para os outros o requeremos; mas sobre tudo o pedimos em nome das esperanÁas que despontam de uma arte nacional.
N„o nos adstringindo nem · divis„o das materias, nem · ordem chronologica, n'este caso absolutamente indifferente, comeÁaremos pelo extracto de duas obras[3] ineditas e inteiramente desconhecidas entre nÛs, mas preciosissimas por uma multid„o d'observaÁıes sobre os costumes portuguezes dos fins do seculo XVI. Estas obras escriptas por extrangeiros, que n„o tinham motivos de affeiÁ„o nem de odio contra os portuguezes, parecem-nos de summa curiosidade por descreverem o character de nossos avÛs n'uma epocha em que a severidade dos antigos costumes se comeÁ·ra a corromper grandemente, e as riquezas e o luxo, que nos perderam, tinham feito desapparecer a primitiva singeleza de mais remotas eras.
VIAGEM DO CARDEAL ALEXANDRINO
1571
Enviando o papa Pio V seu sobrinho Miguel Bonello, mais conhecido pelo titulo de Cardeal Alexandrino, como legado aos reis de FranÁa, Hespanha, e Portugal, no anno de 1571, entre as pessoas que formaram a sua numerosa comitiva vinha um certo Jo„o Baptista Venturino, que tomou a seu cargo descrever em italiano o processo da viagem, acompanhando a sua relaÁ„o de notas e observaÁıes sobre as terras por onde passavam e sobre os individuos com quem tractavam. Depois de atravessarem FranÁa e Hespanha entraram em Portugal pelo lado do Alemtejo, e È d'aqui ·vante que a viagem do legado se torna extremamente importante para a historia da sociedade portugueza n'aquella epocha: È pois sÛ n'esta parte que extrahiremos as mais curiosas passagens da copia que temos diante de nÛs, tirada do codice 1.607 da Bibliotheca do Vaticano[4].
Entrada em Elvas
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´Avistando · m„o esquerda uma torre dos portuguezes[5], que estava como para defesa da fronteira, appareceu D. Manuel...... senhor de Monsaraz (?), villa proxima, de cem fogos. Vinha com cincoenta cavalleiros bem montados e vestidos, e logo apoz elle D. Constantino de BraganÁa, tio do duque d'este titulo, e do sangue real de Portugal, junctamente com o conde de Tentugal, seu cunhado, com vinte pagens vestidos das suas cÙres, preta e amarella, com trezentos cavalleiros, montados em formosos ginetes e cavalgando · gineta, que vem a ser com a perna curva e com os pÈs mettidos em grandes estribos, que cobrem quasi todo o pÈ: e montam assim t„o bem e est„o a isso t„o costumados, que fazem, pondo-se em pÈ nos estribos, toda a casta de forÁas. Usam de esporas sem rozeta, e sÛ com um bico agudo similhante ao de uma lanceta. Traziam botins vermelhos de carneira, uns lisos outros lavrados, ou prateados e dourados, e guiavam · dÈstra dez ginetes sellados e cobertos de brocados e veludos extremamente bellos.ª
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´D'ahi a pouco veiu o bispo d'Elvas, primeira cidade e povoaÁ„o de Portugal por esta banda, homem j· muito velho. Acompanhava-o o corregedor do civel (?), isto È, o prefeito de justiÁa, e o seu juiz ou ouvidor, os alcaides e meirinhos, isto È, alguazis, e outros magistrados e officiaes com vestiduras talares e varas nas m„os. Os cavalleiros que vinham com elles seriam trezentos.ª
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´Ao entrar da dicta porta (d'Elvas) appareceram muitos homens e mulheres vestidos do modo em que j· tinhamos visto em Castella estando com o cardeal Spinosa. Formavam estes tres corpos de danÁarinos. A primeira danÁa, chamada a _Follia_, compunha-se de oito homens vestidos · portugueza, com gaitas e pandeiros acordes e com guizos nos artelhos: pulavam · roda de um tambor, cantando na sua lingua cantigas de folgar, de que obtive copia, mas que n„o ponho aqui por me n„o parecerem adaptadas · gravidade do assumpto. Bem merecia a tal danÁa o nome de _follia_[6], porque volteavam como loucos, fazendo ademanes uns para os outros, como quem se congratulava da vinda do Legado, para o qual constantemente se voltavam. A segunda danÁa, chamada a _Captiva_, era de oito mouros agrilhoados, que, danÁando · moda mourisca, se declaravam escravos do Legado. A terceira, chamada a _Gitana_, era composta de ciganas vestidas e bailando como as que j· descrevi do cardeal Spinosa[7]. Vinham entre ellas duas mouras, trazendo cada uma em pÈ sobre os hombros uma rapariga[8] vestida de pannos cozidos em ouro e talhados de galantes e variados modos. Com aquelle peso bailavam levemente, ao som de um tambor, enfunando-se com o vento os vestidos das raparigas, que faziam esvoaÁar um lenÁo por varios modos, ora com a m„o direita ora com a esquerda; ora segurando-o debaixo do braÁo ora nas costas: momos estes que depois repetiram com facas por diversas maneiras.ª
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´Elvas est· assentada em sitio mui similhante ao de Badajoz. E cingida de muros e forte: tem falta d'agua pela altura em que est·: o seu territorio È bom, e bello o seu aspecto: a povoaÁ„o ter· obra de quatro mil fogos. As casas s„o caiadas por fÛra · maneira de Portugal. As mulheres s„o gentis e desembaraÁadas: usam trajos similhantes aos das castelhanas, mas n„o andam t„o embuÁadas, nem t„o arrebicadas e brunidas.ª
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Encontro do duque de BraganÁa
´¡ segunda feira seguinte, tendo saido d'Elvas, vimos um aqueducto de oitocentos arcos murados, que d'um monte, distante legua e meia, conduzia a agua atÈ ao pÈ da cidade. Rebentaram depois os canos, n„o podendo subir a agua · altura que se pretendia para a fazer entrar dentro em beneficio dos moradores, mas sempre corre perto da cidade. E caminhando por bellos e ferteis campos de planuras e outeiros apraziveis, encontr·mos a distancia de duas leguas D. Jo„o, duque de BraganÁa, mancebo de vinte e nove annos[9], de mediocre estatura, trigueiro, e de boa cÙr, vista curta, e de pouco robusta compleiÁ„o, o que lhe serve de desconto · muita grandeza e fortuna de que gosa, como depois se dir·. … do sangue real de Portugal, tendo por armas as mesmas do reino. Vinha vestido com uma capa de panno razo, abotoado o capuz com diamantes e fechos d'ouro, e as bandas compridas aprezilhadas com rubins e ouro: o barrete era de veludo com fios de rubins, diamantes, perolas e ouro: as calÁas eram de veludo turqui (azul escuro) agaloadas d'ouro. Montava em um cavallo rodado, cavalgando · gineta, e precedido por dois ginetes, que, sobre as sellas cobertas d'escarlata com franjas d'ouro, traziam duas malas similhantes ·s que os cardeaes levam adiante de si quando v„o para o consistorio. Eram tambem escarlates com as armas de S. Ex.^a bordadas em brocado d'ouro com florıes e franjas de prata, na verdade bellissimas.ª
´Vinham quatro alcaides, e quatro meirinhos ou alguazis com varas vermelhas, ao contrario das de Castella e ainda d'Elvas, que eram brancas. Seguia-se a pessoa de S. Ex.^a e apoz elle duzentos cavalleiros gentis-homens montados · gineta em bellissimos cavallos.ª
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