Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 06
Chapter 1
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*Nota de editor:* Devido ‡ quantidade de erros tipogr·ficos existentes neste texto, foram tomadas v·rias decisıes quanto ‡ vers„o final. Em caso de d˙vida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final deste livro encontrar· a lista de erros corrigidos.
Rita Farinha (Dez. 2009)
OPUSCULOS
OPUSCULOS
POR
A. HERCULANO
SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA SOCIO CORRESPONDENTE DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID DO INSTITUTO DE FRAN«A (ACADEMIA DAS INSCRIP«’ES) DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE TURIM DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA YORK, ETC.
TOMO VI
CONTROVERSIAS E ESTUDOS HISTORICOS
TOMO III
LISBOA VIUVA BERTRAND & C.^a SUCCESSORES CARVALHO & C.^a 73, Chiado, 75
M DCCC LXXXIV
COIMBRA--IMPRENSA DA UNIVERSIDADE
UMA VILLA-NOVA ANTIGA
1843
Se passardes pelos olhos uma carta topographica de Portugal, em cada provincia, em cada comarca, talvez em cada pequeno districto, achareis escripto, ao lado de alguns d'esses signaes que marcam as povoaÁıes, a palavra _Villa-nova_: Villa-nova de Rei, de S. Cruz, de Gaya, de Cerveira;... que sei eu?--Villas-novas de todos os sobrenomes, e atÈ villas-novas de ninguem e de nada; villas-novas espurias.
Villa-nova È o _dom_ municipal, o dom vill„o; porque, por extravagante antiphrase, villa-nova quasi sempre indica um antigo burgo com suas rugas de velhice, com seu castello desmoronado, com seus vestigios de templo ou de palacio da meia-edade. Villa-nova moderna, sem pedras amarellas, tombadas, ogivaes, È cousa descommunal, milagrosa, e ao rÈz do impossivel. … que o passado, remoto, remotissimo, como o imaginardes, j· foi presente, e ent„o a villa que se alevantava ou no desvio, atÈ ahi inculto e intractavel, ou sobre os vestigios de povoaÁ„o deshabitada e destruida, era realmente _nova_; mas os seus edificadores esqueciam-se, ao dar o nome · obra das proprias m„os, que elles passariam bem depressa e com elles a mocidade da sua filha querida; esqueciam-se de que o correr dos annos brevemente havia de converter em palavra sem sentido essa denominaÁ„o que lhes parecÍra t„o clara e precisa. Aos primeiros respiros de paz e seguranÁa, depois das guerras barbaras de religi„o e de raÁa que devastaram outr'ora este solo portuguez, o espirito municipal ia semeando os concelhos ao passo que debaixo dos marcos das fronteiras christ„s se embebia o territorio mussulmano, e ent„o acontecia que o burgo, recentemente plantado em terra atÈ ahi erma e s·fara, ou sobre as ruinas carcomidas de municipio romano ou godo, sentindo-se cheio de vida e de esperanÁas, folgava de contar ao mundo no proprio nome a sua juventude, e tomava para si o titulo t„o querido, t„o popular, t„o casquilho--de Villa-nova.
E ·s vezes as villas-novas vinham encostar-se aos muros carrancudos e robustos das cidades reaes ou episcopaes. Eram como uma crianÁa rosada, risonha, travessa, que se atira ao collo da velha rebarbativa, e se lhe pendura ao pescoÁo, e desata a rir--a bom rir. Acontecia tambem que uma ou outra ia assentar-se · beira de um rio, defronte de povoaÁ„o orgulhosa, e similhante a trasgo inquieto zumbia-lhe insolentemente aos ouvidos, e desangrava-a roubando-lhe o seu commercio: mettia-se atÈ em bandos politicos para lhe fazer perraria; e inimiga d'ao pÈ da porta n„o havia casta de incommodo que lhe n„o causasse. Que outra cousa fez Villa-nova de Gaya ao burgo episcopal do Porto, burgo t„o grave, t„o serio, t„o devotamente enroscado em volta da sua cathedral, aos pÈs dos seus sanctos bispos? Quem, sen„o Villa-nova de Gaya, assoprou provavelmente entre os honrados burguezes da cidade do Douro aquelle espirito de irmandade e revolta que tanto veio depois a incommodar os successores do veneravel D. Hugo?
Lisboa--guerreira e depois mercadora--tambem teve, n„o uma, mas duas villas-novas abraÁadas · sua cinta de muralhas: a primeira ao sul, a segunda ao poente. Chamava-se aquella Villa-nova de Gibraltar: esta Villa-nova d'Andrade. A segunda, nascida no seculo XV, viveu dois dias apenas, porque Lisboa, essa _villa_[1] limitada nos fins do seculo XII a 15:000 habitantes, em quanto a mourisca Silves contava 25:000, cresceu com tal rapidez na epocha dos descobrimentos que, rompendo ou, antes, galgando por cima dos lanÁos occidentaes dos seus muros, a devorou ainda no berÁo, ou para melhor dizer partiu-a em fragmentos, e aos seus membros despedaÁados chamou Bairro-alto, Chagas, Sancta Catharina. Villa nova d'Andrade foi uma cousa fugitiva, sem gloria, sem individualidade. D'ella poderia dizer-se o que o psalmista dizia do impio--´vi-a exaltada como o cedro do Libano: passei, e n„o existia; busquei-a, n„o lhe achei rasto.ª Deixemol-a, pois, na paz do esquecimento e do nada.
N„o assim Villa-nova de Gibraltar. Fallae-me de Villa-nova de Gibraltar! Esta sim, que viveu. A sua origem perde-se nas trevas dos tempos chamados barbaros, entronca-se no berÁo da monarchia. Assentada · beira do Tejo, fÛra do lanÁo de sul e sueste da muralha arabe, ou talvez goda (quem poder· hoje dizel-o?!), que cercava Lisboa antes do seculo XIV, saudavam-na os primeiros raios do sol oriental, aqueciam-na todos os do alto dia, douravam-na os derradeiros que vinham do poente roÁando pela superficie das aguas. A cidade l· estava sombria entre as torres e altos muros da sua cerca; agachada nas faldas do seu castello soberb„o e malcreado; prostrada em volta da sua cathedral ampla e triste. Mas que importava isso a Villa-nova de Gibraltar? Ahi n„o havia nem muros, nem torres, nem castellos, nem campanarios. Ella mirava-se no rio, e achava-se bella; bella por si e pelo luxo dos seus atavios; porque Villa-nova de Gibraltar era a atravessadora de quasi toda a mercancia; a patria dos rendeiros e _sacadores_ das rendas e direitos reaes: era rica e potente; e ao sobrecenho altivo da velha Lisboa, confiada na sua epiderme de marmore, respondia ella mostrando a sua armadura d'ouro, e depois punha-se a rir, porque bem sabia j·, como nÛs hoje sabemos, que o ouro È mais forte que o marmore.
D. Fernando I, que foi para com Lisboa como um amante selvagem, ora querendo aniquilal-a porque lhe preferia em amores o alfaiate Fern„o Vasques, ora lanÁando-lhe no regaÁo riquezas, privilegios, tudo, quiz n'um accesso de ciume escondel-a aos olhos d'estranhos. J· ella, a namoradeira, sahindo da Porta do Ferro, pelo terreiro da cathedral, corrÍra para o valle de Valverde e se reclin·ra por ahi abaixo indo espreitar a barra c· da margem do rio; j· comeÁava atÈ a galgar pela encosta fronteira para o lado do gothico mosteiro de S. Francisco e para a ermida dos Martyres, e pela Pedreira do Almirante para o convento dos sanctos frades da RedempÁ„o. ´Alto l·!ª disse o bom do rei D. Fernando, e, chamando os villıes sujeitos · ad˙a por todas as villas e logares d'arredor, lanÁou · cintura da doudinha uma nova faixa de muros, para que n„o passasse alem. Ficou-se, È verdade, espairecendo Lisboa pelo valle e pela encosta, mas ao menos, atraz das novas torres e quadrellas, j· n„o podia fazer gatimanhos de presumida aos que vinham visitar em som de paz ou de guerra os campos das suas cercanias, ou as aguas da sua enseada.
E que era nesse tempo feito de Villa-nova de Gibraltar? L· estava senhoril e desdenhosa, · beira do Tejo, indifferente aos arrufos de Lisboa e aos ciumes de D. Fernando. Pacifica e fiel n„o se entremettia em negocios alheios, n„o tumultuava, n„o se namorava d'estranhos. Assim a muralha real que bojava para poente, passou pÈ ante pÈ por entre ella e a cathedral para n„o a affligir: encorporou-se ahi com os antigos muros para a deixar, como atÈ ent„o, exposta · sua t„o querida restea de sol. Novas portas, todavia, a uniram com a antiga cidade, que t„o rapidamente crescÍra e se fizera garrida. Foi por ahi que lenta e traiÁoeiramente Lisboa pÙde chegar a submettel-a e devoral-a.
E quereis saber por qual raz„o, e como? Dir-vol-o-hei. Era que na fronte de Villa-nova de Gibraltar, abaixo do seu diadema rutilante de princeza, estava escripta uma lenda fatal e maldicta; uma lenda que por muito tempo foi apenas ignominiosa; mas que nos fins do seculo XV se converteu em sentenÁa de morte, em signal estampado pela m„o do archanjo do exterminio. Esta lenda encerrava apenas duas palavras, mas palavras blasphemas, que sÛ podiam ser apagadas destruindo-se a existencia individual da povoaÁ„o que se atrevia a apresental-as deante da luz do cÈu.
Villa-nova de Gibraltar era a _Communa dos Judeus_!
A edade-media, essa epocha altamente poetica, porque tinha crenÁas, e profundamente symbolica, porque era poetica, havia feito de Lisboa um symbolo da historia religiosa e politica. O municipio christ„o, partindo do alto alcaÁar ou castello, dilatava-se atÈ ·s raizes do monte, em cujo topo campeava, a cavalleiro de todos os cabeÁos dos arredores, a torre de menagem--a guarida do alcaide-mÛr--como representante do senhorio real e da aristocracia: · sombra do alcaÁar, e a mais de meia encosta, a cathedral alÁava os seus dois campanarios altivos, quadrangulares, massiÁos: entre essas duas expressıes materiaes da monarchia, da nobreza, e da egreja, a casa da camara--os paÁos plebeus do concelho, proximos do campanario septentrional da sÈ, ch„os e humildes--representava o povo que em silencio se preparava para ir estender os braÁos endurecidos pelo trabalho, e subjugar algum dia, · direita o alcaÁar, · esquerda a egreja. Na configuraÁ„o da cidade resumia-se a historia social do passado e a prophecia do futuro. Como tantas cousas da edade-media, Lisboa era um verdadeiro symbolo.
N„o o era sÛ, todavia, do pensamento politico: tambem o era da idÍa religiosa. No amago da povoaÁ„o, no logar eminente, estava o christianismo; ao norte, em profundo valle e apinhado em volta de mesquita apenas tolerada, ficava o bairro dos mouros, a _Mouraria_; e ao sueste, quasi ao oriente, lanÁada ao pÈ da _Esnoga_, a _Judearia_:--uma crenÁa verdadeira, mas temporaria, do lado donde o sol surgia na sua ascens„o para as alturas; a religi„o do Christo, complemento divino d'aquella, assoberbando-a do monte sobranceiro; o islamismo, transformaÁ„o impia e tenebrosa d'ambas, como escondido ao norte na penumbra da cruz triumphante; e ao longe as vastas solidıes do oceano, atravez das quaes os filhos do evangelho o deviam levar algum dia ·s regiıes ainda incognitas de novos mundos. O velho Portugal tinha feito da cidade do Tejo um symbolo e uma prophecia sublimes!
A monarchia, vencedora da edade-media, esqueceu a poesia d'ella; porque nos seus velhos habitos de organisar, de legislar, de livellar, perdÍra inteiramente o senso esthetico. A poesia estava principalmente nas idÍas, no sentir, nas formulas das classes aristocraticas: o povo era infeliz e selvagem, e a monarchia positiva, calculadora, e egoista. Com a victoria final d'esta desappareceu tudo o que representava o ideal. Belem È a agonia da arte; È o estrebuchar descomposto da architectura christan que morria; e o cancioneiro de Resende o ultimo concerto dos trovadores em que j· se misturam os sons discordes da poesia romana.
Neste crepusculo da vida nacional, nesta passagem da originalidade para a copia, as ruinas tombavam sobre outras ruinas: a nova sociedade sobrepunha as suas obras incertas, frias, ou estupidas, aos restos ainda palpitantes do cadaver do passado; cirzia-as ridiculamente com remendos e fragmentos das obras e factos que destruira; fazia, emfim, por um pensamento de ordem e de organisaÁ„o exaggerado, o que nÛs muitas vezes fazemos hoje por um amor de liberdade indiscreto e excessivo.
… curioso o vÍr como a edificaÁ„o do celebre mosteiro Jeronimitano de Belem se liga com a destruiÁ„o da communa judaica de Villa-nova de Gibraltar; como esse monumento de transiÁ„o da architectura, esse cahos de todos os systemas que luctavam no principio do XVI seculo, reunidos, e por assim dizer petrificados de subito n'um edificio sÛ, traz forÁosamente · lembranÁa a ruina d'um facto da ordem moral que existira inconcusso entre nÛs por quatrocentos annos--a tolerancia da edade-media. De feito a tolerancia religiosa expirava ao passo que a architectura christan morria, e as bullas da inquisiÁ„o vinham-nos talvez pelo mesmo correio que trazia aos nossos architectos os desenhos puros e materialmente formosos, mas pag„os e peregrinos, de Bramante ou de Raphael.
Um phenomeno por certo singular nos apresenta a historia antiga de Portugal. Na larga serie de leis, de artigos de cÙrtes, de factos publicos atÈ os fins do seculo XV, a crenÁa viva de nossos avÛs se limita sempre dentro dos termos d'aquella intolerancia legitima que a verdade n„o pÛde deixar de ter para com o erro. O christianismo proclama-se ahi franca e energicamente a unica religi„o verdadeira: o christ„o julga-se um homem de condiÁ„o superior ao judeu. O povo vigia, atÈ, com ciume que o israelita conserve sempre no trajo um distinctivo da sua raÁa reproba, das suas doutrinas erradas. Mas a intolerancia acaba neste ponto: n„o se imagina ainda que o desterro, os tractos do potro, e o cheiro de carne humana queimada subindo da fogueira expiatoria, sejam sacrificios agradaveis a Deus. Na gente judaica havia mais, por assim dizer, um caracter de triste fatalidade pesando sobre uma raÁa condemnada pelo seu peccado original do Deicidio, que o de uma raÁa maldicta por crimes proprios. ´Os judeus, como testemunhas da morte de Jesu-Christo, devem ser defendidos sÛ porque s„o homensª: estas palavras de D. Affonso II resumem o pensamento da edade-media ·cerca d'elles. … o pensamento de que Lisboa com Villa-nova de Gibraltar foram a imagem sensivel. No alto da sÈ a cruz, abrigada · sombra do castello christ„o, via a seus pÈs a synagoga--a humilhada _Esnoga_--que testemunhava alli a morte do Christo, a victoria do Evangelho, e a redempÁ„o dos homens: e o que orava na cathedral sentia sÛ desprezo, e por ventura compaix„o, por aquelle que orava na synagoga. Se o odio se misturava ·s vezes com esses sentimentos, motivos n„o religiosos, mas puramente materiaes o geravam: geravam-no as riquezas dolosamente accumuladas pela gente hebrea, os vexames que practicavam como exactores da fazenda publica, as suas usuras como possuidores de capitaes, e mil outros motivos humanos em que nada tinha que vÍr a opposiÁ„o das crenÁas.
E o seculo XVI, que era erudito; que traduzia Cicero e Ovidio, e imitava Horacio: o seculo da civilisaÁ„o, das conquistas, de todas as grandezas, cuspia nas faces da edade-media, que jazia morta a seus pÈs, o epitheto de barbara! E D. Manuel, o culto e venturoso monarcha do oceano, esquecia-se do que n„o esquecera a seu rude e obscuro avÙ D. Affonso II: esquecia-se de que os isralitas estavam condemnados pelo Rei da Eternidade a vaguearem perpetuamente na terra _como testemunhas da morte de Jesu-Christo_. Portugal devia ser exceptuado d'esse decreto de cima, e a convers„o violenta dos judeus foi um dos factos mais estrondosos d'aquelle t„o estrondoso reinado.
Da communa hebraica, da risonha e opulenta Villa-nova de Gibraltar, apenas nos resta a sua synagoga--melhor diriamos o sitio d'ella--convertido em templo christ„o. … uma collegiada da ordem de Christo: È a ConceiÁ„o Velha; velha porque j· as cousas d'essa epocha manuelina, t„o fastosa, t„o transformadora, t„o destructiva de tudo o que quer que fosse, bom ou mau, das eras poeticas, j· hoje È caruncho e podrid„o: os seus monumentos j· se confundem com os que ella desprezava como barbaros. Fallae no portal rendilhado da ConceiÁ„o Velha a um vereador, a um politico, a um pascasio de melenas, emfim a qualquer inimigo nato das cousas mais poeticas e sanctas da patria--os monumentos--e responder-vos-ha torcendo o nariz e com um ademan parvo de superioridade: ´Poh diabo! isso È gothico!ª Gothico! Ouves, seculo dezeseis, seculo romanista, seculo brilhante, seculo peralvilho? Ouves l· debaixo da tua campa, pesada como todos os crimes que commetteste no oriente, confundirem-te hoje com os seculos rudes e pobres da nobreza d'alma na fidalguia e da energia popular? Mudaste a indole da naÁ„o; tornaste-a de guerreira em mercadora; de municipal em cortezan; de austera em voluptuaria. Acceita de m„os como aquellas a paga da tua boa obra.
A historia da esnoga e do mosteiro de Restello È simples: tÍl-a-heis lido em dez livros copiados uns dos outros com grande augmento e gloria das lettras patrias. Onde hoje este edificio, amplo como o poderio de D. Manuel, simula aos olhos do vulgo, na vermelhid„o dourada das suas pedras, uma edade mais provecta que a verdadeira, existia um conventinho de freires de Christo. D. Manuel vasou-os na synagoga de Villa-nova, desentulhou o ch„o da ermida de Sancta Maria de Belem, que assim se chamava ella, alevantou a machina que ahi vÍdes, chantou-lhe dentro n„o sei quantas duzias de frades jeronimos de Penhalonga, e morreu deixando a sua obra imperfeita. Tractou de continual-a D. Jo„o III nos intervallos em que lh'o consentiam as suas incansaveis diligencias para obter a sancta inquisiÁ„o, contra a qual reluctou muito tempo a curia romana, que nem sempre È t„o boa como alguns a fazem, nem t„o m· como outros o affirmam. Na regencia de D. Catharina parece ter-se acabado a igreja como actualmente existe.
E a esnoga de Villa-nova? A esnoga estava reformada, rendilhada, baptisada, christan e contrita como.... como os judeus allumiados subitamente pelo Espirito-Sancto no mesmo dia e · mesma hora, por um decreto real, redigido provavelmente pelo secretario Antonio Carneiro. ApÛsto que n„o sabeis quem era Antonio Carneiro? Era para D. Manuel o que fÙra Ant„o de Faria, que tambem provavelmente n„o conheceis, para D. Jo„o II: um substituto da cadeira monarchica, um marquez de Pombal de ha trezentos e quarenta annos, de que ninguem se lembra hoje, como d'aqui a outros trezentos annos ninguem se lembrar· do marquez de Pombal. _Sic transit gloria mundi._
Pois n„o o merecia Antonio Carneiro!--Foi ministro de peso e volume. Os papeis da sua secretaria, ou antes do Estado, eram em portuguez! Quem me dera um Antonio Carneiro! Antonio Carneiro foi atÈ homem agudo e engraÁado: prova d'isso È o preambulo do regimento dado · collegiada da convertida synagoga, em 29 de janeiro de 1504. Evidentemente o ritual rabinico j· n„o tinha applicaÁ„o. N'esse preambulo conta o bom do secretario a historia da transformaÁ„o. Eis as suas palavras: ´Como entendemos (È el-rei quem fala segundo estylo e direito) na conuers„o dos judeus de nosos reynos pera · nosa santa fee serem ajuntados, he no conhecimento he obras della se saluarem, com muyta deuaÁ„o nos oferecemos he deliberamos da casa da esnoga dos judeos que estavam na judiaria grande desta cidade, asi como ella era a mays principal em que o nome de noso senhor era blasfemado, he as coussas de nosa santa fee catolica reprovadas e emmingoadas, fazermos huma solene igreja e casa da enuocaÁ„o de nosa senhora da conseiÁ„o, na qual com muy grande solenidade e deuaÁ„o os officios deuinos fossem celebrados, he ali, onde a noso senhor por tanto espaÁo de annos e tempos fora feyto tanto deseruiÁo, he o seu nome he as suas coussas blasfemadas, perpetuamente he em toda a perfeyÁ„o seus louuores se fizessem, he o culto deuino fosse continuamente he com grande solenidade exalÁado.ª--Basta. N„o me digaes nada do estylo d'Antonio Carneiro: era o do seu tempo. Confessai antes que n„o esperaveis que a transformaÁ„o da synagoga em igreja fosse uma antithese religiosa, um trocadilho ao divino. Essa perseguiÁ„o similhante · dos tyrannos de Roma contra os primeiros martyres do christianismo, alevantada contra os judeus portuguezes, nos fins do seculo XV, foi apenas uma figura de rhetorica feita por D. Manuel. ” elegante, Û immortal Antonio Carneiro! Tu ajudavas teu senhor a acabar a obra de D. Jo„o II, a anniquilar toda a poesia da edade-media; mas tu eras mais poeta do que ella. CreanÁas despedaÁadas por seus pais para n„o serem entregues aos beleguins missionados; homens, havia pouco opulentos, reduzidos · miseria e ao desterro, ou obrigados a acceitarem um baptismo sacrilego, porque era recebido por violencia: tudo quanto ha negro e infame n'aquelle procedimento, em que atÈ n„o faltou a covardia de se respeitar o direito das gentes para com os mouros (tambem expulsos n'essa occasi„o) porque _tinham quem podesse vingal-os_: tudo isto, Û excellente Antonio Carneiro, n„o passou de uma fÛrmula de Quintiliano, applicada · theoria do culto! Quem poder· duvidar de que os admiradores do _grande seculo_, do seculo XVI, teem prodigiosamente desenvolvidas as proeminencias do bom e do bello?
Da esnoga, reconstruida em templo por Antonio Carneiro e por D. Manuel, apenas resta a portada. Tambem era a cousa unica formosa e alegre em toda essa negra e maldicta historia. Se quereis estudar como artistas os seus delicados lavores, ide contemplal-a · rua da Ribeira Velha, antes que o progresso passe por l· e a derribe. O progresso È gordo e ancho: n„o cabe onde quer que esteja um monumento.
COGITA«’ES SOLTAS
DE
UM HOMEM OBSCURO
1846
O modo como os fragmentos que vamos publicar nos vieram ·s m„os È cousa que n„o importa aos leitores: o que lhe pode importar È se haver· n'elles idÈas que os levem a reflectir sobre o estado da sociedade no meio das questıes de organizaÁ„o que se agitam entre nÛs. S„o estas folhas avulsas como uma serie de apontamentos para um livro que talvez fosse de algum valor se chegasse a escrever-se. Incapazes litterariamente de preencher as lacunas e de coordenar as idÈas, que as mais das vezes apenas est„o indicadas n'estas notas, imprimimol-as como nos foram transmittidas pela derradeira vontade de um homem que j· n„o existe, e que tinha mais habito de pensar que de escrever, o que, seja dicto sem offensa de ninguem, n„o È demasiado vulgar. Cremos que todos os partidos reconhecer„o que estes pensamentos se movem n'uma esphera differente d'aquella em que giram as opiniıes ou as paixıes por cuja causa combatem uns com outros e mutuamente se detestam, e que por isso nenhum d'elles os considerar· como adversos ou favoraveis aos seus interesses momentaneos, e, digamol-o, ·s vezes bem pouco graves. Da altura dos systemas os publicistas olhar„o para estas cogitaÁıes como para um sonho de homem acordado, n„o raro em flagrante contradicÁ„o com as doutrinas das escholas. … provavel que tenham raz„o. Mas como elles ainda n„o poderam intender-se entre si, nem sequer ·cerca dos principios fundamentaes da sciencia politica, deixem passar o pobre sonhador, e perdÙem-lhe a ignorancia em attenÁ„o ao seu amor de patria e · nova luz a que nos parece ter visto um certo numero de factos sociaes importantes. Notas, cujo destino era o serem conservadas na pasta do auctor, atÈ se completarem e receberem a conveniente ordem, estas ponderaÁıes n„o teem ainda as fÛrmas modestas com que deveram apresentar-se; nÛs, porÈm, n„o nos atrevemos a revestil-as d'essas fÛrmas com receio de diminuir-lhes a energia. Mais como duvidas sobre as causas e remedios da febre que agita as sociedades modernas, que como pretenÁıes de fundar uma eschola politica, esperamos sejam consideradas as _CogitaÁıes de um homem obscuro_ por aquelles que se applicam a reformar as instituiÁıes dos povos. S„o idÍas informes, incompletas, e rudes: mas bem grosseira È a silex, e È d'ella que sahe a fa˙la com que accendemos o facho que nos guia nas trevas de noite profunda.
Possam os devaneios d'aquelle que passou desconhecido ao mundo n„o serem inteiramente inuteis para o progresso humano, e sobre tudo para a liberdade e bem-estar futuro da terra sacrosancta da Patria!
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