Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 03
Chapter 5
«A critica é portanto, necessaria. Sem deixar de respeitar as tradições, deve averiguar-se quaes são dignas de credito; devemos fazê-lo, até, se não queremos desacatar as verdadeiras, confundindo-as com as falsas. Sem que duvidemos da omnipotencia de Deus, podemos e devemos examinar se os milagres estão bem provados, para lhe não levantarmos falso testemunho, attribuindo-lhe os que elle não fez.»
Eis como pensava o grande historiador ecclesiastico ácerca dos milagres, estribado nos livros que Deus inspirou. Quem será, pois, o impio, o incredulo? O que seguiu os conselhos dos apostolos e as doutrinas dos homens mais piedosos e sabios do gremio catholico, ou aquelles que esquecidos dos deveres, não digo do sacerdocio (porque neste caracter, o seu procedimento não tem nome), mas do simples christão, ousam perguntar ao historiador sincero: «_Se é necessario, se é util que o historiador se constitua campeão acerrimo contra essas tradições que deturpam a historia?_ e que respondem:--_É um arrojo mui imprudente e reprehensivel no historiador semelhante intento. Que precisão, que vantagem ha em destruir as crenças theocraticas[24], que uma tradição de seculos fora radicando no coração do povo? Nenhuma ha:_» e depois accrescentam esta maxima impia de Laharpe--«_a politica sabia e devia tirar partido do poderoso movel da geral crença, cujos effeitos são geralmente bons em todo o governo, mesmo quando a crença é erronea!_» Não peço a v.. tão cavalheiro e tão indulgente para comigo; peço ao homem que mais me odiar, mas que conserve um resto de pudor, que seja juiz entre mim e os desgraçados que não se envergonham, christãos e sacerdotes, de invocar contra a Historia de Portugal taes principios e taes maximas, e que insultam, não a mim, nem o meu livro, mas os apostolos, mas a biblia, mas os escriptores mais sabios, mais respeitados do catholicismo.
Mancebos, cujos corações generosos a indignação póde desvairar! No meio destas saturnaes hediondas que vedes passar; no meio dos gritos descompostos da hypocrisia, que, embriagada de colera, deixa tombar dos hombros seu velho e já tão roto manto, e nua e vinolenta pragueja a verdade, atira com a fé aos pés da politica, rasga as sacras paginas, maldiz as cinzas dos sanctos, dos martyres, e dos sabios, não volteis, cheios de horror e de tedio, as costas ao Calvario. Não! A philosophia, a honesta liberdade do pensamento, bem vedes que estão sanctificadas no livro dos livros, O Christo foi o Deus da verdade. Se ao entrardes no templo ouvirdes dizer que a mentira é sancta, que o povo só póde ser virtuoso se crer em falsos milagres, saí, porque o templo está polluido pela blasphemia e pela calumnia; mas não renegueis da cruz. A cruz está pura; a cruz será eterna. Se esta gangrena que corroe o sacerdocio chegasse, o que não creio, a corrompê-lo inteiramente; se não achassemos uma ara, juncto da qual orassemos _em espirito e verdade_, a cruz lá está hasteada nos cemiterios, sobre os ossos de nossos paes, para nos irmos abraçar com ella: os mortos não tem ouro, os mortos não são festeiros, que paguem para se lhes falar a sabor: ahi não se tem blasphemado.
Mas, reprimindo a amargura que deve causar a todo o christão sincero o ver sacerdotes sacrificarem assim a conveniencias mundanas o verbo de Deus, e semelhantes ao apostolo desleal contarem e recontarem o preço por que o venderam, acolhamo-nos ás placidas discussões da sciencia, e vejamos, como já disse, as mais importantes dessas regras que o pio e douto Fleury punha a si proprio para evitar os erros da nimia credulidade.
«Não tenho em conta de provas, senão o testemunho dos auctores originaes, isto é, daquelles que escreveram _contemporaneamente, ou pouco depois_. Porque a memoria dos successos não póde subsistir por muito tempo sem ser escripta. _Bastante será se durar um seculo._ O filho póde lembrar-se passados cincoenta annos do que o pae ou avô lhe referiram cincoenta annos depois de o haverem presenciado. Os successos que tem passado por varias gerações não obtem a mesma certeza: cada qual lhes vai accrescentando alguma cousa de sua lavra, talvez sem o pensar. _É por isso que as tradições vagas de factos muito antigos, que tarde ou nunca se escreveram, nenhum credito merecem_, principalmente repugnando a factos provados. _Nem se diga que as historias pódem ter-se perdido; porque, dizendo-se isso sem provas, posso tambem eu affirmar que ellas nunca existiram._ O mesmo direi dos escriptores que escreveram successos anteriores a elles muitos seculos; _se não citam os auctores d'onde os tiraram, temos o direito de desconfiar de que acreditaram de leve os rumores vulgares_.....»
«Os proprios auctores contemporaneos não devem adoptar-se sem exame... deve averiguar-se bem se o escriptor é digno de fé, quasi como quem inquire testemunhas n'um processo... _O que se encontra em cartas, ou em outros diplomas da epocha, deve ser preferido ás narrativas dos historiadores._»
Até aqui Fleury. Para estas largas citações preferi dous homens de indubitavel sciencia e de catholicismo insuspeito. V.. sabe que eu poderia tambem citar escriptores da primeira ordem, pagãos ou protestantes, mas cuja auctoridade nem por isso seria menor n'uma questão que evidentemente não interessa os dogmas da nossa fé. Poderia invocar a bella sentença de Cicero: _«Quem ignora que a primeira lei da historia é não ousar dizer a menor falsidade, e a segunda não nos faltar jámais valor para dizermos a verdade?_» É certo que uma parte do clero português do seculo XIX se ergueria para lhe responder:--«_Ignoramo-lo nós._»--Eu poderia tambem repetir as palavras do luminar da critica no seculo XVII, as palavras de João Leclerc:--«Quando se escreve a historia, _sobretudo de tempos antigos_, não é licito dissimular a minima cousa; porque a verdade, sem ser nociva aos mortos, aproveita muito aos vivos; e pelo contrario a dissimulação, inutil para aquelles, é profundamente damnosa a estes.»--Não me quiz aproveitar dessas auctoridades summas, porque um não era christão, outro não era catholico. Parece-me que é levar longe o escrupulo. E todavia, o protestante Leclerc estribava-se na opinião de S. Isidoro Pelusiota--«Aquelles--diz o sancto--que com artificiosas palavras encobrem a verdade, muito mais desgraçados me parecem de que os que não a comprehenderam. Porquanto, os que por curteza de engenho não a alcançaram, estes não são talvez indignos de desculpa; mas os que, sendo dotados de agudeza, investigaram a verdade e criminosamente a occultam, commettem mais grave e imperdoavel peccado.»
Mas, apesar de catholicos e pios, Mabillon e Fleury eram sobretudo eruditos. Haveria nelles menos luzes theologicas? Serão os theologos de profissão mais indulgentes para com as lendas e tradições não provadas? Exigirão, ao menos em referencia á historia da igreja, maior credulidade nos que a estudam ou escrevem? Ouçamos o celebre Melchior Cano, o qual ninguem accusará de excessivo amor pelos fóros e liberdades do raciocinio: eis algumas das suas observações ácerca do credito que deve dar-se ás tradições infundadas.
«A principal regra (para distinguir as narrativas falsas das verdadeiras) deduz-se da probidade e inteireza humanas; regra perfeitamente applicavel quando os historiadores _testificam terem presenciado os successos que narram, ou terem-nos sabido daquelles que os presenciaram_...»
«É cousa averiguada que esses que escrevem fingida e enganosamente a historia ecclesiastica não podem ser gente boa e sincera, e que toda a sua narrativa é tecida _para d'ahi tirarem lucro_, ou para persuadirem o erro; _torpes no primeiro caso_, perniciosos no segundo. Justissimas são as queixas de Luiz Vives ácerca das historias inventadas no seio da igreja; _prudentes e graves as arguições que dirige áquelles que julgam obra pia fazerem de mentiras religião_, cousa altamente perigosa e profundamente inutil. Do mentiroso nem a propria verdade ousamos acreditar. Por isso _os que pretendem concitar os animos ao culto dos bemaventurados com falsos e mentirosos escriptos, nenhum outro resultado tirarão, talvez, se não negar-se fé ás cousas verdadeiras por causa das falsas, e tornar-se duvidoso aquillo mesmo que referem com severa consciencia auctores de inteira veracidade_.»
Preciso de implorar toda a indulgencia de v.. para transcrever em seguimento a esta passagem, admiravel de cordura e de legitima piedade, outro bem diverso extracto. Juro que não o faço com o intento de humilhar os homens sinceros e honestos, a quem, a meu vêr, cega um erro deploravel. É para vingar a religião injuriada; é para dar ao paiz um desses espectaculos repugnantes, mas salutares, a que os lacedemonios recorriam para evitar um vicio hediondo, mandando assistir um escravo em completa embriaguez ao jantar commum da mocidade d'Esparta. Só advirto que a passagem é concepção de um sacerdote, que celebra por certo tranquillamente o tremendo sacrificio do altar, sem que em todas as paginas do missal[25] leia, escriptas em letras de fogo, estas palavras que Jesus, o inimigo da mentira, dizia aos escribas e phariseus de outro tempo:
«Hypocritas! Bem prophetisou ácerca de vós Isaias, quando disse:
«Esta gente honra-me com os labios; mas o seu coração está affastado de mim.»
Eis a inqualificavel passagem, que, ainda uma vez, peço venia de lançar, depois das doutrinas de Melchior Cano, n'um papel que é dirigido a um homem tão delicado como v..
«Os historiadores têm advertido que os factos maravilhosos, os prodigios singulares, que registavam em seus escriptos _não eram fundados senão em rumores populares_; outras muitas vezes tem-nos tambem referido sem esta precaução, já porque _elles mesmos fossem povo a tal respeito_... já porque elles não julgassem dever abalar a crença vulgar; bem convencidos que á sombra de um prejuizo repousava ás vezes uma verdade util, a que talvez tivessem vergonha de prejudicar.»
«Eis aqui os _dictames prudenciaes_, adoptados pelos mais distinctos historiadores, ácerca dos successos de caracter maravilhoso, que devem dirigir todo o escriptor sensato. _O contrario é querer campar por uma anomalia extravagante e ridicula..._»
«Se, porém, gravemente offende o melindre patriotico de uma nação aquelle que simplesmente contradiz os pontos _theocraticos_ das suas tradições historicas constantemente recebidos e venerados; quanto não se torna mais altamente _réu d'este attentado_ aquelle escriptor, que não só os nega, mas tem a _asquerosa villania_ de á cara descuberta os vir insultar? Se alguem ha no orbe litterario que mais demonstrativamente tenha commettido _tão reprehensivel e extranho excesso_, é por certo o auctor da carta aviltante, a respeito da Apparição de Christo a D. Affonso Henriques. _É uma das ulceras mais pustulentas que conspurcam e aviltam esse escripto sandeu_, que rancorosamente a impropéra...»
«Como é crivel que uma fabula... fosse sustentada como facto verdadeiro por seculos...? _Quando, porventura, o tivesse sido, teria, não receio dizê-lo_, por effeito dessa universal crença dos sabios, _perdido a sua natureza e deixado de o ser!!!_...»
Basta! Refujamos deste hediondo espectaculo, para continuarmos a averiguar tranquillamente se os theologos de profissão concordam com os eruditos de reconhecida piedade nas bases da critica historica. Ainda algumas palavras de Melchior Cano.
«Achareis outros, não tão ineptos, mas quasi tão imprudentes, que não buscam a verdade das cousas onde a deviam buscar, mas naquelle logar onde é raro encontrá-la, _em aereos e vagos rumores_. Acontece isto frequentemente aos inconstantes e leves de cabeça; _porque os homens graves e severos não costumam andar á caça dos dictos vãos do vulgo_.»
Desçamos já aos fins do seculo XVIII, quando a incredulidade corria como lava ardente pela face da Europa, e devorava as crenças mais sanctas e legitimas em milhares de corações. Vacillou, acaso, por isso a critica dos homens probos e pios nos seus principios de severidade? No meio de tantas ruinas, quizeram elles salvar com os restos do edificio a sua falsa miragem? V.. o julgará pelas doutrinas de muitos varões religiosos dos ultimos tempos, inteiramente accordes com as dos que os haviam precedido. Por exemplo, o theologo piemontês Denina, diz-nos:
«Acontecem algumas cousas fóra da ordem natural, que, de per si só, são incriveis... a esta categoria pertencem, na igreja de Deus, os milagres, os quaes, _nem é licito rejeitar na sua totalidade, nem se devem acceitar todos sem selecção_...»
«Pertence á prudencia do historiador _nada escrever, que não saiba por si proprio, ou não se estribe na auctoridade de pessoas fidedignas_, cumprindo-lhe, não menos, ser pouco credulo. Mas _ninguem póde ter conhecimento do que narra, se não viveu no tempo em que os factos aconteceram; nem sabê-los de pessoas fidedignas, se estas não os presenciaram_; nem escapa de credulo, se não explicar e expender as razões, causas e circumstancias do que relata. Auctores que assim o fazem _nenhum credito merecem_...»
«Nem tudo quanto o historiador relata do seu tempo se ha-de acreditar; salvo constando que fôra curioso em indagar e explorar...»
«Se o historiador referir cousas, não do seu tempo, mas succedidas muitissimo antes, dar-se-lhe-ha credito, _se individuar os auctores d'onde as tirou_, sendo _aliàs daquelles que as podiam saber_...»
«Não duvido de chamar _máu historiador_ a todo aquelle que devendo ter por norma o não ousar dizer a menor falsidade, _nem faltar-lhe animo para dizer qualquer verdade_, encubrir esta aos leitores, _seja por que motivo for_...»
Assim pensavam os theologos d'Italia nos fins do seculo passado: assim pensavam tambem os theologos catholicos da Allemanha, ou antes do paiz mais religioso d'ella, a Austria. Citarei dous, um dos quaes, ou ambos, a nossa universidade honrou, escolhendo as suas instituições de historia ecclesiastica para compendios nas faculdades de theologia e de direito canonico. Falo de Gmeiner e Dannenmayr. As secções desses compendios relativas ao _criterium_ da verdade historica nada mais são do que o desenvolvimento das doutrinas de Cicero, de Mabillon, de Fleury, de Melchior Cano, de Riegger, de Leclerc, de Muratori, de Baumeister; em summa de todos os criticos, historiadores, e philosophos, que falaram ex-professo ou accidentalmente da crítica historica. Andam esses livros nas mãos de todos, menos nas do clero ignorante e corrupto, porque este, coitado, não sabe ler. Não serei, por isso, demasiado extenso em citá-los, escolhendo apenas as passagens mais frisantes, e que fazem sobretudo ao intento.
«Como os narradores--diz Gmeiner--por falta de _habilidade_ sufficiente, ou de sciencia, nos _possam_ enganar, ou por falta de _sinceridade_, ou por vontade nos _queiram_ illudir, só podêmos acquiescer ao seu testemunho, se não houver razões sufficientes para duvidar da sua habilidade ou sinceridade.»
«A auctoridade das testemunhas não é uma e a mesma, e portanto deve attender-se a esta diversidade. Observa-se ella 1.^o em relação aos sentidos, 2.^o em relação ao entendimento, 3.^o em relação á vontade. Em relação aos sentidos, essas testemunhas ou são de vista ou de ouvida. _As de ouvida ou são coevas, ou não coevas mas que ouviram aos coevos o que narram_...»
«D'aqui se segue, _que pouca fé deve dar-se áquillo que os escriptores ou absolutamente contemporaneos, ou quasi contemporaneos deixaram de mencionar_...»
«A verdade dos conhecimentos historicos não depende de modo nenhum da abundancia dos historiadores, visto que _não provém maior certeza a um facto historico de ser relatado em livros de muitos auctores mais modernos, cada um dos quaes foi copiando o que outro tinha dicto. Todos elles junctos não valem mais do que o primeiro que o referiu_...»
«A consideração do paiz em que o escriptor viveu, e do tempo em que escreveu importa muito em relação ao seu intuito de falar verdade. N'alguns paizes a liberdade de escrever é franca; n'outros opprimida; n'outros, emfim, ha premios para a lisonja, odio e castigo para a verdade... Ensina-nos a historia que os escriptores lisonjeiros da curia romana receberam ás vezes em premio _de suas fadigas_ o barrete cardinalicio ou a dignidade do episcopado. _Naquellas provincias onde vigorou o terrivel tribunal da inquisição, a fogueira estava prompta para a verdade._»
«Não faltaram impostores e falsarios, que trabalharam em alterar varias passagens nos antigos monumentos, e que tiraram a uns e accrescentaram a outros.»
Consinta-me v.. que ainda transcreva poucas linhas do theologo Dannenmayr:
«Para tirarmos proveito... da historia ecclesiastica--diz elle--devemos principalmente ter em mira, _que nem se nos inculquem fabulas sobcolor de verdades, nem consideremos como duvidosos factos absolutamente certos e largamente provados._»
Tenho talvez sido prolixo. Mas era necessario estabelecer uma doutrina, uma norma, por onde os animos imparciaes, e ainda os prevenidos, mas sinceros nas suas prevenções, houvessem de julgar-me, não tanto no foro da sciencia, que era o meu foro, que era aquelle para onde eu tinha direito de trazer o litigio, mas nó da mais restricta piedade. Em these, a contenda dos que blasphemam contra a verdade, que fazem a apologia (e que apologia, meu Deus!) das tradições fabulosas, não é comigo; é com os apostolos, com os sanctos, com os historiadores do catholicismo, com os theologos, com todos aquelles e com tudo aquillo a que mais importava á hypocrisia mentir acatamento nesta comedia beata. A tonta e imprudente não se lembrou de que lhe caía a mascara, e de que alguem poderia levantá-la para a entregar ao povo, que nos seus grandes instinctos de justiça lhe fustigaria as faces com ella. Na hypothese, no que me diz respeito, o meu dever é provar aos homens sinceramente pios que, rejeitando falsas lendas, não ultrapassei os limites de uma crítica irreprehensivel. Será esse o objecto da carta immediata, que em breve espero dirigir a v.. Nas seguintes darei razão das minhas opiniões ácerca da maioria do nosso clero, e ácerca da curia romana. Compelliram-me a isso; fá-lo-hei gemendo. Quizeram que o paiz os conhecesse: hão-de ser satisfeitos.
Emquanto os ecclesiasticos virtuosos e instruidos choram em silencio a vergonha da sua classe, e emquanto os prelados dormem tranquillos nas suas cadeiras episcopaes, Deus salve a igreja portuguesa dos tristes dias de tempestade!
IV
SOLEMNIA VERBA
SEGUNDA CARTA
AO SR. A.L. MAGESSI TAVARES
(_Novembro, 1850_)
Na minha antecedente carta deixei eu, ou para me exprimir com mais exacção, deixaram muitos e mui piedosos escriptores catholicos apontadas as principaes regras da critica, em relação ás fontes historicas. Dessas regras resulta o que a boa razão está por si indicando; que é necessario premunir-nos contra a credulidade, não só por honra da sciencia e pela consideração do proprio credito litterario, mas tambem, o que é mais grave, para não deslizarmos da doutrina dos apostolos, inculcada nos livros sanctos. O mais necessario canon, em que de certo modo todos os outros se consubstanciam, é o atermo-nos unicamente aos testemunhos synchronos ou quasi synchronos, aos testemunhos daquelles que presenciaram os factos, ou, pelo menos, que os ouviram narrar aos contemporaneos, quer esses factos sejam naturaes e criveis, quer sobrenaturaes e incriveis para a razão humana; quer elles nos sejam transmittidos por narrativas coevas ou quasi coevas, quer por documentos do tempo, embora descubertos por escriptores modernos. Quando, porém, se tractar de milagres, a critica deve ser tanto mais severa, quanto é certo que a isso nos constrange o dever religioso, que nos impõe as palavras de S. Paulo, o dever de não levantarmos falsos testemunhos a Deus.
Que podia eu fazer em relação ao supposto milagre de Ourique, escrevendo a historia do reinado de Affonso I? Faltavam-me absolutamente chronicas, historias, documentos coevos ou quasi coevos, que o narrassem. O exame attento de quanto modernamente se escrevera para supprir a falta de provas daquella celebre tradição, só tinha servido de convencer-me das aberrações em que se podem transviar ainda os espiritos mais elevados, quando, em vez de buscarem simplesmente a verdade, buscam accommodar os caracteres desta a um preconceito. Não me era possivel omittir a batalha de Ourique. Que podia eu fazer, repito, ácerca do milagre da apparição? Ou mentir á minha consciencia, alevantar um testemunho a Deus, pospôr as doutrinas dos homens mais pios e eruditos do orbe catholico, que falaram de critica historica, calcar aos pés a maxima do mais illustre escriptor romano, ou então manifestar sem hesitação as proprias convicções, que julgava e julgo legitimas, isto é, proceder de um modo que v.. mesmo crê nobre e honroso[26]; affirmativa, que, seja dicto em boa paz, não sei se está em perfeita harmonia com a idéa geral que predomina nas considerações que v.. tem tido a bondade de dirigir-me sobre os inconvenientes que resultam, no entender de v.. para a nossa patria commum, da manifestação das minhas doutrinas.