Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 03
Chapter 3
Diz v.. que me era licito collocar-me em antagonismo com um ou outro clerigo, porém não com o clero em geral, por honra e credito meu, que nada podia ganhar em lucta tão desigual, e que, a existir, seria a minha condemnação. Antes de tudo é necessario observar duas cousas: 1.^a, que o antagonismo não o creei eu: resultou de factos practicados pelo clero, que tolerei com paciencia durante annos, e que toleraria talvez sempre em silencio, se não receiasse que no progresso da aggressão chegassem a levantar-me um pulpito diante da porta, para d'ahi me fazerem um sermão sobre a sanctidade dos papas da idade média, ou sobre os milagres referidos por S. Bernardo: 2.^a, que é pelo opusculo e não pelo seu titulo, que se há de avaliar até onde esse antagonismo vai, e se elle é legitimo. Não apparece uma unica passagem da minha carta em que eu me refira com phrases hostis a _todo_ o clero português. Os homens que ha no meio delle illustrados e virtuosos, respeito-os; respeito-os duplicadamente pela sua illustração e pelas suas virtudes; pelo seu caracter litterario, e pelo seu caracter sacerdotal. Esses não sobem aos pulpitos a dizer despropositos; não me querem mal, nem a mim nem aos meus pobres escriptos. Ao que eu me contrapús foi ás turbas tonsuradas; foi á maioria material e numerica; minoria nos dominios da intellectualidade, das idéas, e dos puros e nobres affectos. Faria uma offensa gratuita; practicaria uma brutalidade indesculpavel, estaria em contradicção comigo mesmo, com as minhas opiniões, se assim, sem motivo, sem provocação, tivesse o proposito de maltractar aquell'outra parte do clero.
É esta a idéa que ha de resultar da leitura da minha carta para todos os animos desprevenidos; para v.. mesmo, se tiver bastante paciencia para a reler. Quanto a esses de quem me queixo, não sou eu homem que esconda as proprias convicções. Na minha vida litteraria tenho dado mais de um documento de que costumo ser sincero. Estou persuadido de que a maioria do nosso clero é tal como eu a qualifiquei, e se não fosse a natural repugnancia a despedaçar um cadaver, daria aqui as razões da minha persuasão. Em todo o caso, acceito inteira a responsabilidade della: não tergiverso, não me arrependo. Tenho dicto e escripto muitas verdades, senão mais deploraveis, por certo mais perigosas para mim, sem que o meu somno deixasse de ser profundo, como o é habitualmente.
Postas as cousas nestes termos, que são os exactos, não me é possivel comprehender a affirmativa de v.. de que o meu credito e honra padeceriam pelo antagonismo com a maioria do clero, _nessa lucta desigual, que envolveria a minha condemnação_. Se v.. viu naquella fatal antithese um peccado de orgulho, talvez o seja; mas eu vi nella apenas um acto de humildade. Pois, em consciencia, eu não valerei mais, litteraria e moralmente, do que um clerigo mau ou insipiente? Mas cem, mas mil, mas dez mil clerigos máus ou insipientes, ainda que os fundam e os acrisolem, chegarão, acaso, a produzir o equivalente de um homem de alguma intelligencia e de alguma honestidade? Não. O resultado de todas essas operações será sempre, a meu ver, um _substratum_ de parvoice ou de corrupção. Peccado de soberba não creio, portanto, tê-lo commettido. Por este lado mal posso ser condemnado. Referir-se-hia, porém, v.. ao perigo litterario? Tambem não póde ser. É v.. assaz instruido para sentir que por esse lado a lucta me dá tanto cuidado como daria a v.. se estivesse no meu logar. É o perigo religioso? A idéa da condemnação antes de contestada a lide, e envolvida na proposição da causa, torna talvez plausivel esta interpretação. Nessa hypothese, v.. não teria advertido n'um facto indubitavel. A maioria do clero português não é a maioria do clero catholico: a maioria do clero catholico não constitue por si a igreja de Deus. Bem infeliz seria eu se me visse em opposição com esta; mas confio em que a Providencia me livrará de cair nesse abysmo, não só agora, mas sempre.
Todavia a minha linguagem severa, embora justa e legitima, será condemnavel, senão pela substancia, ao menos pelos accidentes? Será condemnavel porque vai ferir duramente um grande numero de sacerdotes, de homens, infelizmente, ungidos do Senhor? Que v.. me consinta invocar em meu auxilio um exemplo acima de toda a excepção. É de um padre da igreja, a cujas obras o nosso clero foi tão affeiçoado, que até lh'as quiz augmentar, com grande gloria do sancto e proveito destes reinos. Alludo a S. Bernardo. As phrases da minha carta são de suprema doçura comparadas com as que o celebre cluniacence empregava para qualificar a corrupção, não do clero de um paiz, não da maioria desse clero, mas em geral do sacerdocio do seu tempo. «_Manou a iniquidade_--dizia S. Bernardo--_dos anciãos, dos juizes, dos teus vigarios, oh Deus; daquelles que parecem governar o teu povo! Já não é licito dizer_--_tal o povo, tal o sacerdocio; porque este é peior. Oh meu Deus, meu Deus! Os teus maiores perseguidores são os que mais ambicionam a primazia, e exercem na igreja o mando supremo_[1]». E, como se estas acres expressões não bastassem, o terrivel benedictino desfecha, n'uma carta dirigida, não a algum prelado metropolitano, mas ao proprio Innocencio II, na seguinte diatribe: _A insolencia do clero_, a qual nasce da indulgencia dos bispos, _turba o mundo e afflige a igreja. Entregam os bispos as cousas sanctas_ a cães, _e as pedras preciosas_ a porcos, _e elles em paga mettem-nas debaixo dos pés. Assim o quizeram, assim o tenham_[2]». Se eu me servisse de semelhante linguagem, imagine v.. que matinada se alevantaria contra mim!
Dir-me-ha v.. que S. Bernardo foi um sancto padre da igreja, e eu não passo de um peccador e obscuro christão? Assim é. Por isso o segui de longe, _non passibus æquis_. Comtudo, v.. não deixará de advertir em que, quando elle escrevia essas phrases violentas, era um pobre monge, humilde, simples, sem pretensões orgulhosas, sem presciencia de que tinha de ser um sancto e um luminar da igreja. E que lhe importava? O espectaculo do procedimento do clero arrancou da sua bôca esses brados d'indignação, como loucas provocações arrancaram da minha penna palavras muito menos violentas.
Já agora consinta-me v.. que cite ainda um veneravel prelado português quasi do nosso tempo, a quem tambem tive occasião de alludir na minha carta; que recorde as palavras geraes de D. Fr. Caetano Brandão ácerca do clero português no principio deste seculo. O metropolita explicava n'uma carta a certo ministro d'estado quem era que fazia recair a desconsideração sobre o poder pontificio: «_São aquelles_--dizia o arcebispo de Braga--_que á força de supplicas importunas, de respeitos humanos, e outros motivos_ ainda mais vergonhosos, _costumam extorquir da curia romana provisões beneficiaes_, que mais parecem titulos de contractos de predios rusticos, do que de beneficios ecclesiasticos; _provisões a favor das quaes tem infestado as parochias e córos_ (collegiadas e cabidos) de todo o reino _uma tropa confusa de_ sujeitos indignos, etc.[3]». Que se leia inteira a passagem impressa daquella carta, e ver-se-ha se foi o arcebispo, se eu, quem usou de mais desabrida linguagem.
Apesar disso, suas reverencias hão de tolerar-me a crença de que não estão no inferno nem a alma de D. Fr. Caetano Brandão, nem a de S. Bernardo.
Ainda algumas palavras sobre o antagonismo, em que de nenhum modo v.. me quer ver collocado, em relação á maioria do clero. Foram apenas alguns que me provocaram do pulpito, e eu chamo á autoria o grande numero. É verdade. Não sei com certeza senão de alguns factos de aggressão, mas a noticia de parte d'esses factos obtive-a casualmente: alguns constaram-me apenas, porque um jornal a elles alludiu de passagem, dizendo que se practicavam por diversos logares de Entre-Douro e Minho. É acaso provavel que se não repetissem por outras dioceses? Em Lisboa, onde eu resido, onde os sacerdotes podem ter mais illustração, onde, até, o fanatismo deve ser mais raro, porque a propria fé é mais tibia, onde, emfim, os prégadores mais devem receiar que o seu auditorio se ria delles, houve dous exemplos. Não me será licito inferir que, não tendo eu uma policia ás minhas ordens, ignoro muitos successos analogos? Depois, houve, á vista desses factos repetidos, não digo punição de semelhante abuso do ministerio sagrado, o que não peço, o que até me contristaria, porque me lembro das palavras de Christo «_Perdoa-lhes Pae, que não sabem o que fazem_, mas a minima providencia para impedir a renovação de taes escandalos? Para que servem os vigarios da vara, os arcediagos, os representantes ou delegados do poder episcopal? Como informam os respectivos prelados do que se passa entre o clero diocesano? Não tenho eu direito de suppôr que elles tambem entendem que a sanctidade dos papas da idade média ou o apparecimento de Ourique são partes integrantes da crença catholica, e que se trepassem ao pulpito, e lhes viesse a talho, me chamariam do mesmo modo impio ou herege? Se não estão de accordo com os prégadores, como se esquecem de que os padres de Trento prohibiram aos bispos que consentissem aos oradores sagrados _divulgar ou tractar factos incertos, ou que tenham caracteres de falsidades_[4], e de que os do concilio 1.^o de Colonia ordenam aos mesmos oradores que _não falem imprudentemente de milagres, limitando-se aos que refere a Biblia, ou aos que forem narrados por escriptores de peso, estribados em solidos fundamentos historicos_[5]? Como quer pois v.. que eu não increpe o maior numero e que não o supponha alistado contra mim nesta vergonhosa cruzada d'ignorancia?
Passando ao segundo capitulo de accusação, sinto verdadeira magoa em ser constrangido a dizer que v.. leu menos attentamente o que escrevi ácerca dos papas na minha carta ao eminentissimo senhor Cardeal Patriarcha. Qualifiquei ahi de intelligencias vastas, energicas, mas corruptas, violentas e cubiçosas, alguns delles que se chamaram Gregorio, Innocencio ou Honorio, e v.. reprehende-me por classificar como taes Gregorio VII e Innocencio III!? Onde me refiro eu a estes dous papas no meu opusculo? Na epocha abrangida pelo que se acha publicado da Historia Portugal houve diversos pontifices desses nomes. A cada um delles fiz, creio eu, justiça, e Gregorio VII foi aquelle em que menos falei, porque viveu antes de nascer a monarchia. É singular como v.. pôde perceber que, entre tantos, alludi a esses dous em particular! Não teria eu direito de dizer, que uma voz da propria consciencia trahiu e tornou van a benevolencia para com elles manifestada nas palavras de v..? O que me parece indubitavel é que alguma convicção historica preoccupava o espirito de v.. quando nas minhas expressões vagas e geraes viu um ataque directo e especial á memoria daquelles homens extraordinarios, cujos meritos não neguei, nem tenho empenho em negar.
Entretanto não pense v.. que com isto pretendo lançar fóra de mim a responsabilidade de julgar severamente Hildebrando ou Innocencio III. Não tenho a minima dúvida em lhes applicar as designações de intelligencias violentas e cubiçosas, como não a tenho em chamar corruptos a outros papas, como, por exemplo, a Innocencio IV. É verdade que v.. cobre Hildebrando com a egide da canonisação, e Innocencio III com a da sua sciencia e litteratura. Mas nem vejo que a sciencia e litteratura sejam synonimos de virtude, nem creio que uma canonisação constitua dogma de fé, e obste á liberdade do historiador para avaliar como entender os caracteres historicos. V.. sabe perfeitamente que, fundando-se as canonisações em provas humanas, e não em factos revelados, as decisões pontificias a tal respeito são sempre falliveis, o que bem se manifesta da oração que ainda no seculo XIV os papas faziam na solemnidade das canonisações, pedindo a Deus permittisse que não se houvessem enganado. Esta doutrina é corrente, e v.. não a ignora, nem poderia ignorá-la[6].
Recorda-me v.. que os escriptores protestantes fazem a estes dous pontifices a justiça que merecem. Tambem eu a fiz, ao menos como a entendi, a elles e aos seus successores, e sobretudo ao papado, em mais de um logar do meu livro. Ninguem admira mais do que eu os progressos que a civilisação lhes deve. Dos historiadores protestantes modernos não conheço nenhum mais celebre, dos que exaltam Gregorio VII, do que o professor Leo. Mas, para isso, elle proprio sentiu a necessidade de se valer exclusivamente da idéa em que se resume a historia do progresso humano. Esta idéa é a _lucta do espirito com a sua manifestação, com a fórma, com a materia; o desenvolvimento do raciocinio predominando no meio da força do acaso_[7]. Elle vê-a representada, incarnada, digamos assim, em Gregorio VII e nos seus immediatos successores, na indole e tendencias desses individuos; eu vejo-a no papado, na indole da instituição. É inquestionavel que nenhuns pontifices levaram mais longe a manifestação da idéa, e em philosophia historica os defeitos desses papas desapparecem, quando se considera a maneira _vasta e energica_ por que elles desempenharam a missão providencial do papado n'aquella epocha. Todavia, na apreciação _moral_ dos seus actos como individuos, é por outros principios que devemos regular-nos. Tanto o professor Leo conhecia que Gregorio VII ficava mal collocado a essa luz, que a excluiu da historia «_No mundo dos phenomenos_--diz elle--_a luz da verdade não se derrama sobre uma face unica, mas reparte-se por todas. Não são os phenomenos individualmente que constituem a verdade, mas sim o complexo delles_.» Para avaliar o pontifice como representante e typo da instituição, a regra é exacta; para o avaliar como homem, não; porque a _intenção_, a causa moral dos actos, é necessaria para a apreciação abstracta de um caracter. A suberba, a ambição e até a cubiça de Gregorio VII estão pintadas nos factos a que accidentalmente me referi n'um logar do meu livro[8]. Destruam, se é possivel, documentos irrefragaveis.
Queremos, porém, saber, por testemunho insuspeito, qual era essa intenção moral, qual o caracter de Hildebrando? Ouçamos um seu contemporaneo, um sancto padre. Tenho gosto especial em citar nestas cousas os sanctos padres. São respeitaveis auctoridades! «_De resto_--diz um delles--_rogo humildemente ao meu S. Satanaz que não se enfureça tanto comigo, e que a sua veneranda suberba não me fustigue com tão longa flagellação_[9]».
De quem se escrevia isto? Do cardeal Hildebrando. Quem o escrevia? Um pobre velho: S. Pedro Damião n'uma carta dirigida a Alexandre II e ao proprio cardeal. Verdade é que não sabía quão grande sancto havia de vir a ser o seu _S. Satanaz_. Nessas palavras amargas do veneravel monge está explicada a actividade irresistivel com que Gregorio VII proseguiu na lucta gigante entre o espirito e a materia. Superior intellectualmente aos outros homens, a ambição de os dominar a todos fê-lo até negar a realeza, não só como facto, mas tambem como principio. Houve, ha hoje um democrata mais virulento do que Hildebrando? Não o creio. V.. conhece por certo uma passagem singular das suas cartas. «Que!--diz elle--uma dignidade inventada pelos homens do seculo (a dos principes) não estará sujeita á que Deus estabeleceu para gloria propria? Quem não sabe que os reis, que os chefes procedem dos principes pagãos, os quaes por instigações do diabo, _que é o verdadeiro principe do mundo_, movidos por cega paixão e levados por intoleravel presumpção, _usurparam o poder supremo sobre os seus iguaes_, pondo por obra, com esse intuito, a rapina, a perfidia, o homicidio, em summa quasi todos os crimes?[10]» Não lhe parece a v.. que se hoje Hildebrando resuscitasse, o tinhamos presidente da republica democratica e social? Veja v.. o caso que o sancto varão fazia do famoso texto biblico: _Per me reges regnant._ Dir-se-hia que tinha lido: _Per diabolum reges regnant._ Podemos nós os monarchistas (embora o sejamos por differente feitio) acceitar as idéas do celebre S. Satanaz? Não ha nessas idéas um orgulho, uma intolerancia para com os poderes da terra, que não comprehenderiamos, talvez, hoje, se não tivesse vivido no nosso seculo uma intelligencia igualmente _vasta e energica_, chamada Napoleão Bonaparte?
Vamos ás ultimas censuras de v.. em que me parece não ter mais razão do que nas primeiras. Diz v.. que Roma, _significando o poder pontificio_, não póde jurar o exterminio do catholicismo. Que!?--Pela palavra Roma não se póde entender senão o poder pontificio, não se póde significar senão o papa? V.. ha de permittir-me que eu recorra ainda uma vez a S. Bernardo para me salvar da condemnação eminente. Nesta contenda, não sei porque, o meu espirito recorda-se a cada momento daquelle illustre padre da igreja. Falando das horriveis desordens que produziam as appellações para o papa, e alludindo a dous bispos allemães carregados de crimes, que, tendo appellado para Roma e levando comsigo bastante dinheiro, haviam sido repellidos nas suas pretensões e offertas, S. Bernardo exclama: «_Grande novidade! Quando até o dia de hoje rejeitou Roma dinheiro?_[11]» Note-se que o sancto vivia no seculo immediato ao governo de Hildebrando e que S. Bernardo dirigia o discurso ao papa Eugenio III, que frequentemente louva, e a quem, por certo, não pretendia affrontar. Que significa pois a palavra _Roma_ na bôca do grande abbade de Claraval? A curia romana; essa curia, onde, segundo a opinião do severo cluniacense, «_era mais facil entrar honesto, do que tornar-se lá homem de bem_[12]»; essa curia que me obrigaria a encher paginas e paginas de citações se quizesse colligir as passagens relativas ao seu desprezo por todas as leis divinas e humanas, quando se tractava de receber ouro, passagens que se encontram ás dezenas nos escriptores mais respeitaveis, e onde se memoram, até, versos das cantigas populares contra a cubiça da curia, o que prova ter-se tornado proverbial a corrupção de Roma[13].
Mas concedamos que, ultrapassando além da curia romana, eu tivesse em mente o pontifice. Como homem, como principe temporal, os seus actos publicos são do dominio da imprensa; se esses actos pelos seus effeitos moraes e politicos poderem trazer graves turbações, dias de amargura á igreja, não é licito a todo e qualquer christão deplorar essas consequencias, reprehender esses actos? Quando eu digo que Roma _parece_ ter jurado o exterminio do catholicismo, accuso o papa, a curia, alguem de ter a intenção directa de o destruir? Ou eu não sei português, ou empreguei uma phrase trivial, cujo alcance todos comprehendem. Que se diz do valetudinario que despreza os conselhos dos medicos? _Parece que se quer matar!_ E quando dizemos isto passa-nos acaso pelo espirito a idéa de attribuir a esse individuo a intenção directa do suicidio? Ou será que as expressões simples, as phrases innocentes dos outros homens se convertem em peste e veneno, quando saem da bôca do feroz herege que ousou duvidar do testemunho posthumo, e bem posthumo, de S. Bernardo ácerca do milagre de Ourique?
Em que tempos estamos nós? Para onde caminha a reacção religiosa? Que!? Eu não poderia apreciar como entendesse o procedimento politico de um papa, em relação aos futuros destinos da igreja, e S. Thomás de Cantuaria poderia sem ser um reprobo lançar em rosto a Alexandre III as gravissimas accusações de o trahir, e de querer conduzi-lo á morte[14]? Poderia S. Thomás de Aquino, o mais profundo philosopho do seculo XIII, ao observar-lhe Innocencio IV que tinha passado o tempo em que S. Pedro dizia «_não possuo nem ouro nem prata_»--responder-lhe «_que tambem era passado o tempo em que S. Pedro dizia ao paralitico--levanta-te e anda_[15]» epigramma pungente atirado ás faces de um papa, cuja cubiça não conheceu limites; poderia, digo, S. Thomás ser um doutor da igreja, depois deste attentado? Podia sequer ser papa o successor do mesmo Innocencio, Alexandre IV, que lhe chamava o _vendilhão de igrejas_[16]? Riscae do catalogo dos bemaventurados S. Antonino de Florença, que não duvidou de pintar com as mais negras côres os vicios hediondos de Clemente V[17]. Não chameis o ultimo padre da igreja a Bossuet, porque taxou de velhaco o papa Eugenio IV[18]. Rejeitae do gremio catholico o erudito e pio Fleury, porque escreveu o 4.^o discurso sobre a historia Ecclesiastica. Para serdes logicos despovoae a igreja de sanctos, de doutores, de homens illustres, se credes que, dentro della, eu, que não sou nenhuma dessas cousas, não tenho direito de aferir pelos principios eternos da moral, da justiça e da caridade evangelica as acções dos papas sem renegar da igreja.
Não disputarei com v.. sobre os successos de Roma nos ultimos tempos. Cada qual póde vê-los á luz que julgar verdadeira. Ao que, porém, eu tenho jus é a averiguar se é exacta a proposição absoluta de v.., de que o futuro da igreja é muito sabido, claro e indisputavel _para os catholicos_. Por este modo v.. parece excluir-me do gremio do catholicismo, porque hesito sobre o seu futuro. Advertiu acaso v.. em que a proposição assim absolutamente enunciada, conduziria ao impossivel? O que é certo, sabido e claro para a igreja, e para cada um dos seus membros, é que ella será perpetua, indestructivel. Mas por quaes phases tem de passar; se a esperam dias serenos, se dias de tribulação; se acres resentimentos, imprudentemente preparados, virão ou não como a procella despir a folhagem, lascar os troncos da arvore eterna do christianismo, eis o que nem a igreja, nem eu, nem v.. sabemos. Está acaso v.., que eu creio profundamente catholico, habilitado para me dizer de um modo _certo e claro_, se a idea revolucionaria da Italia apodreceu para sempre encharcada no sangue que as balas e bayonetas francesas e austriacas derramaram á voz da curia romana? Se a politica das masmorras, dos desterros, da compressão inexoravel, preferida á politica evangelica da tolerancia, do perdão das injurias, da caridade sem limites, poderá varrer para sempre dos animos italianos o odio do dominio estrangeiro (quer directo quer indirecto) e o amor da liberdade politica? Esse odio e esse amor póde v.. julgá-los legitimos ou illegitimos: não disputarei sobre isso. Mas que elles não existam; que elles não possam triumphar algum dia, eis o que v.., por certo, não affirmará com a mão na consciencia. E nessa hypothese, quem saberá dizer até onde chegarão os excessos da colera e da vingança, azedadas pelo padecer, e até certo ponto legitimadas por elle, se legitimidade se póde dar em taes sentimentos? Parece-me que ao homem catholico é licito imaginar, sem que por isso vacille a sua fé ácerca da perpetuidade do catholicismo, que a igreja se entristece, ou deve entristecer, aterrada pelo porvir; é licito suppôr que as lagrymas dos seus futuros martyres vem já de antemão cair-lhe ardentes sobre o seio materno. Se attribuir ao gremio dos fiéis, composto de homens, os affectos de dor e amargura desdiz de alguma cousa, não é, de certo, das tradições evangelicas, nem das tradições dos antigos padres. Já no seculo IV S. Hilario de Poitiers observava quão frequente era pintar-nos o evangelho como triste e afflicto o Filho de Deus[19]; e S. Gregorio Magno não duvidava de dizer: «_A sancta igreja, emquanto vive esta vida de corrupção, não cessa de chorar os damnos das vicissitudes por que passa_»: e n'outra parte: «_A dor esmaga a igreja quando vê os perversos prosperarem na propria maldade_»[20]. É dessas vicissitudes a que allude o sancto pontifice que eu falo; é a essas vicissitudes, demasiado provaveis, que os erros dos homens, as paixões anti-christans do sacerdocio triumphante ajunctam, nas minhas previsões, um caracter de terribilidade.