Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 03

Chapter 2

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Antes de tudo, observará vossa eminencia que eu digo _disputas escusadas_. Digo-o, porque esses testemunhos contemporaneos não bastam, como vossa eminencia sabe, para acreditarmos nos milagres da idade média. Á excessiva devassidão e bruteza aquelles tempos de trevas uniam uma crença fervorosa, confundida com superstição extrema. A idéa religiosa formulava-se em tudo, na guerra, na vida civil, nos affectos do coração, nas artes, na litteratura, na sciencia; e quando uma idéa domina assim a sociedade, converte-se em prisma através do qual as cousas se illuminam com as côres que elle lhes transmitte. O maravilhoso introduzia-se em todos os factos em que as imaginações, possuidas de uma especie de febre moral, achavam pretextos mais ou menos plausiveis para lh'o attribuir. Accrescia a tendencia innata dos homens para indagar as causas dos diversos phenomenos. Comprimida n'um ambiente de ignorancia e rudeza (ambiente em que vive boa parte do nosso clero), essa tendencia dilatava-se, respirava pelo unico resfolgadouro possivel, pela facil theoria do maravilhoso, do sobreintelligivel. Nas chronicas d'então quasi que o miraculoso é o regular, e o natural a excepção. Dos chronistas dos seculos barbaros o mais despreoccupado é o benedictino inglês Matheus Paris. Todavia centenares, que não dezenas, de milagres absurdos são gravemente narrados na _Historia Major_. Permitte-me vossa eminencia que lhe recorde um exemplo do modo de vêr daquellas eras? Sem sairmos do reino, nem do seculo XII, e até limitando-nos á vida do personagem a quem se attribue o singular favor de Ourique, temos á mão um exercito de milagres, postoque em sentido inverso ao da apparição. Alludo aos desgostos de S. Rosendo com o nosso primeiro rei. A vida do sancto, _escripta no seculo XII_, foi, como vossa eminencia sabe, publicada por Florez, e uma copia, talvez coeva, ou quando muito do seculo XIII, existe ainda entre os manuscriptos de Alcobaça (codice 133). Ahi lemos que o rei português fora obrigado a levantar o sitio do castello Sandino, nas margens do Arnoia, por uma tempestade de raios que o sancto desfechou contra elle. Se acreditarmos o pio agiographo, o seu implacavel heroe nunca perdoou a Affonso I, apparecendo por tres vezes a diversas pessoas para protestar vingança contra o principe, que nas suas correrias na Galliza não respeitara as terras do mosteiro de Cellanova. Nesta lucta atroz entre o grande da terra e o grande do ceu, S. Rosendo não poupava maravilhas. Debalde; porque, como observa o monge historiador, o coração do rei, que elle compara caritativamente a Simão Mago, estava obdurado, qual o de Pharaó, _para maior cumulo da sua condemnação_. A malevolencia milagreira do sancto não abandonou Affonso Henriques senão no tumulo. Os contratempos dos ultimos annos do reinado do fundador da monarchia, incluindo o desbarato de Badajoz, a fractura da perna, o aleijão com que ficou até a morte, tudo foi obra de S. Rosendo, e havia mesmo quem affirmasse ter visto o sancto revestido do corpo humano e muito atarefado, na occasião em que o rei de Portugal caíu prisioneiro do genro. São pelo menos vinte milagres attestados por um escriptor desses tempos. Penso que não me accusarão de avaro ou de desagradecido os que querem enriquecer á força o thesouro das minhas crenças com a apparição de Ourique. Vinte por um. Indisputavelmente eu sou muito mais rico do que elles em provisão de milagres.

De todas essas maravilhas, porém, apesar de subministrarem á credulidade melhores fundamentos que a de Ourique, faço eu tanto caso como desta ultima, pelas considerações que indiquei, aliàs bem escusadas para a comprehensão e litteratura de vossa eminencia. Mas nem foi unicamente o preceito que a mim proprio impusera de não malbaratar o tempo em questões desta ordem, nem essas considerações, que obstaram a que eu respondesse a um escripto, em que o erro, e talvez o despeito, vinham envoltos em fórmas tão corteses, que tocavam a raia de lisonjeiras, e em que a argumentação tomava emfim o aspecto de uma cousa séria. Não, eminentissimo senhor! A refutação sería na verdade facil, decisiva, fulminante; mas ella lançaria uma torpe mancha sobre nomes illustres e caros á igreja portuguesa. Repugnava-me sobretudo esta idéa. Por maiores precauções de que eu me rodeasse, a logica implacavel do publico tiraria as legitimas illações das minhas palavras, e convertê-las-hia em desdouro commum de uma classe que nenhum mal me havia feito. Se hoje a necessidade de repellir a insolencia covarde, como a insolencia o é sempre, me obriga a expôr actos vergonhosos e inqualificaveis, a culpa não m'a lancem. Dous annos de paciencia provam que o faço constrangido por aggressões demasiado graves, não por si, nem por seus auctores, cousas profundamente insignificantes, mas pelo logar onde se commettem, por serem feitas com a intenção de excitar contra mim animadversões immerecidas, por se tentar, emfim, converter atraiçoadamente uma questão, que nem chega a ser historica, em questão religiosa. A gloria do escandalo deixo-a inteira aos que o provocaram. Se vou bater sobre campas, que cobrem cinzas envoltas em vestes sacerdotaes; se perturbo a paz dos mortos para lhes bradar--«_Falsarios!_»--esta mão que se estende para indicar os criminosos, esta voz que se ergue para os condemnar, são minhas, mas protesto a vossa eminencia, que quem as suscitou não foi o meu coração, nem a minha vontade. Ha no soffrimento um ponto que sem deshonra não é licito ultrapassar. Consta-me que o mais recente dos meus reverendos accusadores clamara no excesso do seu _sincero_ zelo pela historieta da apparição, que _melhor fora que eu não houvera falado em tal_. Melhor ainda do que isso me parece teria sido que elle não houvesse feito trasbordar o calix, já demasiado cheio, de uma justa indignação.

A affirmativa de que no volume 51 da _Symmitica Lusitana_ se encontra trasladada uma còpia do instrumento da apparição, coeva de Affonso I, É MENTIRA.

O texto de S. Bernardo, relativo á mesma apparição, que se encontra inserido no Breviario, no officio das Chagas, É FALSO.

Se algum dos reverendos cirzidores sabe latim (é licito duvidar disso com a igreja, que manifestou a sua hesitação a este respeito mandando accentuar as palavras dos livros rituaes com temor das syllabadas) que venha á Bibliotheca Real, e ahi, no volume 51 da Symmitica a paginas 128, lerá ou soletrará as seguintes palavras, escriptas na lingua latina, por baixo do traslado do instrumento da apparição, nota escripta pela mesma letra do copista==_Brandão, Monarchia Lusitana, Parte 3.^a pagina 127. Extrahido de um codice que o auctor viu em Lisboa._==Eis em que consiste o traslado da copia _coeva_. Cenaculo, citando o documento pelo indice, quando podia citá-lo pelo logar competente da collecção, o que lhe era igualmente facil, commetteu uma daquellas levezas que não raro occorrem nos seus escriptos, ou practicou uma _pia fraude_? O bello e nobre caracter do bispo de Béja me faria adoptar sem hesitação o primeiro supposto, se o empenho em que elle entrara de provar a farça de Ourique, cuja vaidade o seu elevado espirito necessariamente havia de sentir, não podesse perturbá-lo a ponto de practicar um acto indigno de quem, como elle, era um homem de letras, um prelado virtuoso, e a todos os respeitos um varão singular.

A historia da passagem falsamente attribuida a S. Bernardo, é, porém, materia mais grave, porque nessa vergonhosa historia se acha compromettida a honra e a dignidade moral e litteraria do alto clero português no meiado do seculo passado. Não direi da curia romana, porque nesse ponto não ha já para ella compromettimento possivel: vossa eminencia conhece tão bem e melhor do que eu os seus annaes. A narrativa desse escandalo é em resumo a seguinte:

O patriarcha D. Thomás d'Almeida requereu a Bento XIV que concedesse ao clero de Portugal o officio proprio e missa das cinco Chagas, que, por decreto de 4 de julho de 1733, fora concedido a certas freiras de Florença. Accrescentava-se na supplica dirigida ao pontifice que na sexta lição se houvessem de addicionar as seguintes palavras==_Quas lusitanum imperium etc._==que constituem o texto allegado contra mim. Consistindo, porém, a sexta lição daquelle officio n'uma passagem de S. Bernardo, uma vez que não houvesse a devida distincção entre essa passagem e o novo additamento, este se converteria n'um testemunho importante a favor da lenda da apparição, de que provavelmente os homens instruidos começavam a rir-se depois do impulso que aos estudos historicos dera o governo no reinado de D. João V.

Accedeu Bento XIV á supplica do prelado português. O decreto de concessão, o officio e a missa expediram-se para Portugal impressos na typographia da camara apostolica. Segundo parece, a impressão foi feita no estio, e o compositor romano, no acto de compor a fatal sexta licção, estava perturbado pela febre da _malaria_. O additamento ficou enxertado nas phrases solemnes do grande abbade de Claraval com tão subtil sutura, que faria honra a um operador de rhinoplastica. Atacado tambem pelos miasmas putridos das lagoas pontinas o revedor da camara apostolica _esqueceu-se_ de emendar o erro. Aquelle _innocente_ engano partiu, emfim, para Portugal.

Aqui, n'uma epocha em que ainda os estudos do clero não tinham chegado á decadencia em que hoje os vemos e de certo vossa eminencia lamenta como eu, e em que as cadeiras episcopaes do reino estavam occupadas por muitos homens notaveis por sciencia e virtudes, o antecessor de vossa eminencia que então presidia á metropole de Lisboa _esqueceu-se_ de que essa passagem perfilhada a S. Bernardo tinha um auctor bem moderno, e entre os bispos, entre os theologos do clero secular não houve um só que _advertisse_ no falso testemunho que na sexta licção do novo officio se alevantava ao fundador dos cistercienses. Os seus filhos, os seus proprios monges, calaram-se. Os prelos têm gemido durante um seculo com as reimpressões do breviario, e neste longo periodo nem uma voz, que eu saiba, se ergueu para dizer que em nenhuma edição, em nenhuma codice manuscripto das obras de S. Bernardo se encontra a supposta passagem.

«E que admiração?--respondeu-me um malicioso, a quem manifestava em certa occasião o meu espanto á vista deste phenomeno singular.--O clero não lê os padres da igreja: deixou essa tarefa aos seculares. E para que os havia de ler, se lhes é de sobra o Larraga?»

Dou a minha palavra a vossa eminencia de que repelli com todas as minhas forças este rude epigramma. Eu sei que ha, conheço, até, sacerdotes cuja instrucção é tão solida como vasta. O tracto de vossa eminencia, durante a epocha em que fomos collegas no parlamento, me fez conhecer um dos mais distinctos entre elles. Infelizmente, esse epigramma, injusto na sua fórma absoluta, não deixa de ser merecido em muitos, talvez no maior numero de casos.

Sabe vossa eminencia quem protestou contra essa falsificação audaz, contra essa fingida ignorancia, contra esse torpor inexplicavel ou explicavel de mais? Foi aquella ordem ácerca da qual então se repetiam, e hoje se repetem diariamente graves accusações de immoralidade. Foram os jesuitas, que n'uma edição do novo officio, feita para o proprio uso, separaram com um asterisco o texto de S. Bernardo da invenção moderna. Acaso este procedimento deu origem a um livro, _os Novos Testemunhos_, do celebre e implacavel inimigo dos jesuitas, o padre Pereira, livro que se o não tomarmos como uma longa ironia, deshonra a memoria de uma das mais fortes intelligencias que Portugal tem gerado.

Agora fica vossa eminencia habilitado para avaliar se eu procedi com circumspecção guardando silencio ante as refutações que se me dirigiam pela imprensa; se não houve no meu proceder uma dessas abnegações que não são vulgares, em desprezar um triumpho tão facil como decisivo, preferindo ficar como vencido e humilhado aos olhos dos menos instruidos a salvar o meu nome de uma nodoa litteraria e até certo ponto moral. Se, emfim, é justo, se é decente, que membros do clero aggridam de um modo illicito, e profanando a sanctidade dos templos e a sanctidade do seu ministerio, um homem que sacrificou o proprio orgulho para não rasgar o véu de uma fraude dessas, que os hypocritas qualificam de pias, e que eu qualificarei de immoraes.

Como Sem e Japhet queria encubrir a falta de pudor de Noé: o sacerdocio obrigou-me emfim a ser como Cham. Fizeram-me voltar a face: contrangeram-me a descerrar os olhos. Practicaram uma boa obra: devem della gloriar-se.

E quem é o homem que os prégadores de Portugal offerecem á execração publica, porque não quiz vender a sua alma ao demonio da mentira; porque não quiz deshonrar-se e deshonrar com embustes o seu livro? Que vossa eminencia me consinta fazer aqui esta dolorosa pergunta á minha consciencia; interrogar severamente o meu passado. Tem o clero a combater em mim um inveterado e perigoso inimigo? É o seu tão insolito proceder um impeto de vingança, que o excita a repellir um perseguidor implacavel? Ha quinze annos que trabalho na imprensa, e senão por merito proprio, ao menos por circumstancias, que não importa aqui recordar, muitas das paginas avulsas que tenho deixado após mim na carreira da vida se derramaram por todos os angulos do paiz, penetraram aonde livros e jornaes de mais alto pensar nunca haviam chegado, e talvez nunca depois chegaram. Haverá nessas pobres paginas alguma cousa que possa incitar a colera sacerdotal? Como procedi eu sempre ácerca da igreja e do clero? As idéas do seculo, recalcadas por uma compressão violenta, a que, força é confessá-lo, a maioria do sacerdocio se havia associado, tinham reagido violentamente, e assentavam-se triumphantes sobre as ruinas do passado quando eu entrei no campo da imprensa, no campo das batalhas do espirito. De roda de mim jaziam os fragmentos da sociedade que fora, e no meio delles o clero, disperso, empobrecido, cuberto de affrontas, experimentava as consequencias do predominio de um partido adverso e irritado. A situação da igreja portuguesa nessa epocha, e sobretudo a situação dos regulares, sabemos todos qual era. Foram feridas de que, porventura, ainda mais de uma goteja sangue. Os homens das velhas opiniões politicas, no meio do terror, vergados pelo desalento de uma quéda tremenda, duplicadamente dolorosa pela desesperança, calavam. Nem uma voz amiga se alevantava nesta terra de Portugal a favor da igreja batida pela tempestade. Ainda então esse grupo de mancebos cheios de talento, de inspirações grandiosas e de crença fervente na liberdade humana, e pela liberdade na eterna justiça; essa phalange, no meio da qual todos os dias apparecem novos soldados, e que não se envergonha de Deus nem do seu Christo, não tinha ainda começado a surgir para ser generosa, amplamente generosa, com os adversarios das suas idéas, quando a desventura os sanctifica. Na imprensa liberal, revolucionaria, impia, como quizerem chamar-lhe, eu, só eu, tive por muito tempo palavras de affeição e consolo para a desgraça; só eu tive animo para accusar os homens do meu partido d'espoliadores e d'insensatos; para tentar revocá-los á poesia do christianismo, do eterno alliado da liberdade. A voz que do campo do progresso saudava o templo enlutado e deserto era debil, mas sincera: a mão que se estendia para amparar o sacerdote curvado sob o peso da agonia era bem pouco robusta, mas era leal! Como Yorick guardava a caixa do pobre franciscano entre os symbolos da sua religião de affectos, eu guardo para mim, e só para mim, mais de um papel escripto por mãos trémulas de velho monge, e talvez regado por lagrymas, em que se reconhecia a possibilidade de haver um homem das novas idéas que não fosse absolutamente um malvado. É sobre estas reliquias que eu quero encostar a cabeça para dormir tranquillo o ultimo e longo somno em que todos devemos repousar. Não receiem pois os que me chamam hoje impio e herege, que eu os envergonhe com o testemunho dos que valiam mais do que elles, dos verdadeiros martyres do passado. São cousas queridas e sanctas para mim. Estejam certos de que não as prostituirei jámais.

Depois, pouco a pouco, foi-se estabelecendo nos animos uma reacção salutar: começou-se a sentir que o templo e o sacerdote eram importantes elementos de paz, e que podiam ser instrumentos de liberdade. Vieram outros pelejadores, todos mais fortes e déstros, combater na arena onde por tanto tempo eu me tinha achado só. Não foi de certo a minha influencia litteraria que trouxe este resultado. Trouxe-o o progresso da razão humana, a força irresistivel da verdade. Entretanto, parece que, retirando-me do posto que defendera com os limitados recursos que Deus repartira comigo, merecia do clero, por si e pela igreja, um _vale_ de paz.

Em logar disso tenho a guerra, acerba, covarde, atraiçoada. Porque? Porque trouxe para o campo da historia o mesmo amor da verdade singela, que tinha mostrado n'uma das mais graves questões sociaes.

Não me arrependo do que fiz. Cumpri um dever que me impunham Deos e a minha consciencia. Não espero arrepender-me do que faço. Cumpro uma obrigação litteraria, e estou certo de que bem mereço da terra em que nasci escrevendo a verdade.

Sabe vossa eminencia sobre que eu hesito? É sobre a legitimidade absoluta das minhas queixas; é sobre se, no que supponho um dever d'honra, não haverá um pouco da obcecação da vaidade.

Quando Roma, que parece ter jurado nas aras de Jupiter Stator o exterminio do catholicismo, crucifica no seu _Index_ nomes como os de Chateaubriand e Lamartine; nomes como os de Gioberti e Ventura, terei eu, verme que passo á sombra do meu nada, direito de offender-me porque de pulpitos obscuros, n'um canto obscuro da Europa, alguns clerigos maus ou ignorantes lançam sobre mim o vilipendio das suas palavras?

Quando a igreja, envolvendo a fronte no véu da sua immensa tristeza, e sentindo humedecer-lhe os pés o sangue humano vertido pelo ferro sacerdotal, contempla atterrada o futuro, ha dor de individuos a que seja licito um brado?

Cerrarei aqui o discurso, porque temo ir mais longe do que eu quizera. Permitta-me vossa eminencia que conclua fazendo um voto, ao qual sei que vossa eminencia se associa, bem como os outros prelados de Portugal:--Oxalá venha em breve o dia em que o clero d'este paiz possa receber uma educação digna do seu elevado destino, e conhecer, por estudos severos e bem dirigidos, que o ser christão não é ser nem hypocrita nem fanatico.

II

CONSIDERAÇÕES PACIFICAS

SOBRE O OPÚSCULO EU E O CLERO

AO REDACTOR DA NAÇÃO

(_Julho, 1850_)

A necessidade de reprimir o abuso do ministerio do pulpito que contra mim se estava practicando obrigou-me a dirigir a sua eminencia o Patriarcha de Lisboa uma carta, na qual, sem faltar á consideração devida ao prelado da diocese, nem aos outros bispos do reino, entendi que cumpria usar de uma linguagem severa, mas justa, para com a maioria do clero. Habituado a patentear livre e singelamente as minha opiniões ácerca dos homens e das cousas, não soube nem quiz buscar rodeios, ou adoçar as phrases para me exprimir de modo menos aspero n'uma questão que me respeitava pessoalmente, e em que até certo ponto estava compromettido, não só o meu caracter litterario, mas tambem, o que mais importa, o meu caracter moral. Toda a imprensa periodica, politica e não politica, sem distincção de partidos, foi unanime em condemnar actos que me obrigavam a dar um passo a que bem desejaria me houvessem poupado. Como os outros jornaes, a _Nação_ reprovou as aggressões inauditas perpetradas por uma parte do clero, e toleradas por outra. O procedimento de v.. para comigo foi nessa conjunctura tanto mais nobre, quanto é certo que a indole do seu jornal deveria talvez levá-lo a rebater a opinião de diversas publicações periodicas, se o sentimento da justiça não fosse mais forte no animo de v.. do que outras quaesquer considerações. É assim que o sacerdocio da imprensa cumpre a sua grave missão, e remedeia do modo possivel a decadencia do sacerdocio religioso. Continuando, porém, a tractar de uma questão, que, embora interessasse um simples e quasi obscuro individuo, era demasiado importante pelo alcance e significação dos factos que a haviam suscitado, v.. teve a bondade de dirigir-me algumas observações, que me pareceu exigirem de mim explicações como christão e como homem de letras. Não as dei logo, porque não tardou a annunciar-se publicamente uma refutação da minha carta, em desaggravo do clero. Falava-se n'um milagre de sciencia e de raciocinio, diante do qual eu teria de fugir desalentado como os sarracenos de Ourique diante do da apparição. Citavam-se, até, nomes: falava-se em summidades da igreja e da eschola. Como entendo que não é bom fugir sem ver de que, esperei que rebentasse o temporal. Se fosse por elle submergido, de que aproveitariam as explicações dadas a v..? Se, porém, podesse salvar o meu fragil baixel, pediria misericordia aos vencedores, e daria ao mesmo tempo a v.. razão de mim. Fiquei, portanto, como o sentenciado no oratorio, com o ouvido attento ao som que devia annunciar a hora do supplicio. Esta hora, todavia, segundo creio, passou. A dizer a verdade, eu alimentava esperanças de salvação com um argumento que fazia a mim mesmo. Não é provavel, dizia comigo, que um membro do clero illustrado e honesto queira vir combater-me no terreno desigual e escorregadio em que a imprudencia collocou o sacerdocio, e o vulgo clerical tem impedimento dirimente para entrar neste empenho. Para escrever é preciso saber ler e ter lido; saber reflectir, e ter reflectido muito. Por este lado podia eu estar tranquillo.

É certo que o annuncio feito nos jornaes não foi materialmente vão. Appareceu um folheto, que parece ter por objecto refutar-me. Dizem-me que é de um mancebo principiante. Revela, sem dúvida, algum talento no auctor. Com o tempo, e estudando, este póde vir a ser um escriptor soffrivel, e habilitar-se emfim, para tractar d'estas ou d'outras questões com honra sua e proveito do paiz.

Non ragioniam di lui, ma guarda, e passa.

É pois tempo de me explicar com v.. e fa-lo-hei do modo mais breve que me for possivel. Se alguma phrase menos comedida me fugir da penna, declaro desde já que a retiro. Dirigindo-me a um escriptor como v.., tão urbano nas proprias censuras que me faz, embora sobre tão melindrosa materia como o são as cousas da fé, espero que v.. não veja por caso algum nas minhas palavras a menor intenção offensiva.

Tres censuras irroga v.. ao conteúdo da minha carta; a primeira contra a antithese contida no titulo do opusculo _Eu e o clero_: a segunda contra as expressões de _intelligencias vastas e energicas, mas corruptas, violentas e cubiçosas_, de que me servi para qualificar alguns papas: a terceira contra a phrase, _Roma que parece ter jurado nas aras de Jupiter Stator o exterminio do catholicismo_, e contra os terrores que attribuo á igreja ácerca do futuro. Considerarei em especial cada uma dessas tres censuras.