Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 03
Chapter 11
Depois d'estas façanhas, o auctor do opusculo prosegue com accusações curiosissimas. Fora extenso de mais citá-las todas. Uma d'ellas é que chamo á serie dos imperadores almoravides _dynastia lamtunense_ para explicar o apparecimento das mulheres no recontro de Ourique, e para taxar de covardes os mesmos almoravides. O auctor faz a mercê de dizer-me que o vocabulo _lamtunense, ou antes almolatamenense_, não serve para indicar covardia. Devéras? E eu que não caía em nada! Isto é incrivel, amigo redactor da _Semana_. Digo mais: era impossivel haver quem fizesse d'estas, se não houvesse academias. Chamei aos principes almoravides _dynastia lamtunense_, ou _lamtunita_, porque todos os historiadores arabes, Ibn-Khaldun, Abdel-halim, Al-Makkari, Al-Khatib, Al-Keiruani, lh'o chamam, e chamam-lh'o para indicar valentia ou covardia tanto como eu. Chamam-lh'o porque, entre as raças bereberes que serviram de nucleo ao imperio almoravide, a de Lamtuna ou Lamta[63] era a principal, e porque Iussuf, o primeiro imperador almoravide, era da tribu de Masufah pertencente a essa raça. Aquella phrase do opusculo «_ou antes almolatamenense_», é deliciosa. Como o nosso arabista precisava de mostrar a sua pobre erudição, fez pouco mais ou menos este raciocinio: «o auctor da Historia de Portugal denomina os principes almoravides _lamtunenses_; eu digo-lhe, _ex auctoritate qua fungor_ que era melhor chamar-lhes _almolatamenenses_»: ora como esta denominação provinha de terem os almoravides cuberto o rosto com veus de mulheres n'uma batalha, e possa crer-se um epigramma contra o seu esforço, embora elle não usasse de tal vocabulo, devia usar, para eu poder reprehendê-lo por isso; porque é uma violencia negar a um pobre escholar arabico a occasião de mostrar erudições _reconditas_. Sabe o meu amigo o que isto faz lembrar? Faz lembrar o prégador que punha o barrete na borda do pulpito, encarregava-o do papel do diabo, e depois convencia-o á sua vontade. Vamos a outro exemplo. No opusculo mourisco affirma-se contra mim:
Que os principes almoravides usaram do titulo de _amir-el-muminin_[64].
A prova disto é curiosa, como tudo o mais. Os almoravides usaram-no, segundo o opusculo sarraceno, porque Abdel-halim diz que foi usado duzentos annos antes pelos Benu-Umeyyah (ommiadas) soberanos arabes de Cordova. Não o diz Abdel-halim; di-lo toda a gente; mas que tem o que fizeram os ommiadas com o que fizeram os almoravides? Isto, meu amigo, é incrivel! Acima transcrevi uma passagem de Abu-l-Feda, pela qual se vê que o titulo dos soberanos lamtunenses era _amir-al-moslémin_ (principe dos mussulmanos). Ouçamos agora o sr. Gayangos: «Não consta da historia--diz elle--que Iussuf-Ibn-Tachfin ou algum dos seus successores tomasse nunca o titulo de _Amiru-l-muminin_, que era reservado para o khalifa, ou vigario do propheta no oriente. Contentaram-se pelo contrario, ao que parece, com o titulo mais modesto de _Amiru-l-muslemin_, ou _principe dos moslems_ (de Africa e de Hespanha). Os proprios sultões de Cordova, postoque descendentes do tronco dos Benu-Umeyyah, e tão intimamente ligados com a familia do propheta, não se atreveram a tomar este titulo honorifico emquanto a familia de Abbás não chegou a ser quasi extincta na Asia pelos turcos; e ainda assim, o uso desse titulo foi reputado sacrilego por alguns theologos de Cordova e d'outras cidades da Peninsula[65]». Effectivamente Abu-l-Feda nos certifica que Abderrahman III «foi o primeiro entre os principes ommiadicos do Andalus que se arrogou o titulo de _amir-al-muminin proprio do Khalifa_[66].»
Isto não são citações falsas. Por ellas póde ver o meu amigo com quanta exacção eu escrevi ácerca dos almoravides, embora não fosse esse o objecto essencial do meu trabalho, e com quanta leveza foi escripto o opusculo sarraceno destinado a refutar-me. Não fica, porém, aqui o negocio. O academico auctor do opusculo accusa-me de ignorancia da lingua arabe e de historia por dizer que os principes da dynastia almohade adoptaram o titulo de khalifa ou de _amir-al-muminin_, porque, diz elle, o de khalifa só se deu aos imperadores do oriente, e estas palavras khalifa e amir-al-muminin significam diversas cousas. Agradeço a ultima novidade; mas eu não escrevia grammatica; escrevia historia, e, politicamente, as duas expressões eram synonimas. Que se pensaria de quem accusasse d'ignorancia de grammatica e de historia aquelle que, falando do imperador da Russia, dissesse «_o czar ou autocrata_?» Por outra parte para o academico auctor do opusculo affirmar que o titulo de khalifa se deu ou não se deu aos principes mussulmanos do occidente, ainda tem que estudar muito a historia moslemica d'Africa e de Hespanha, cujos rudimentos parece ignorar. Se ler o capitulo 5 do livro 6 d'Al-Makkari, ahi achará que o imperador ommiada de Cordova Abderrahmam III «foi o primeiro soberano da sua familia que assumiu _os titulos de khalifa e de amiru-l-muminin_». Se tambem quizer saber se os principes almohades tomaram ou não o titulo de khalifas, leia Al-Keiruani, e lá achará este periodo: «El-Mohdi _elevou o khalifado_ para os que lhe succederam[67]», e mais adiante, onde se conta certa anecdota do primeiro imperador almohade, Abd-el-mumen, lerá que um poeta da côrte dizia a outro: «Até quando importunarás tu _o khalifa_?»; porque é de advertir que naquelle tempo havia poetas impertinentes, como hoje ha criticos academicamente originaes.
Mas, em consciencia, meu amigo, eu ás vezes merecia ser feito socio effectivo da classe de sciencias moraes e bellas-letras! Pois ha simpleza maior do que citar ao auctor do opusculo sarraceno tanta mourisma, quando o proprio Abdel-halim, que, segundo parece, constitue toda a matalotagem arabica do _digno_ academico, se lhe rebella e tumultua dentro do bornal litterario em que o traz mettido? E senão, ouçamo-lo. As palavras mandadas ensinar ao leão e ao papagaio, de que Abdel-mumen se serviu para os almohades o acclamarem imperador, traduzidas por Moura na sua versão de Abdel-halim, são «_as victorias e o poder competem ao califa Abdelmumen_[68]». É verdade que o auctor do folheto, que repete a historia do leão e do papagaio, não sei para me provar o que, traduz, em logar de _califa_, _successor_. Mas aqui para nós, meu amigo, postoque eu não saiba arabe, apostava que isso foi uma esperteza, e que naquella expressão _algalifatu_ (ou, como Moura lê, _el-califa_) anda o que quer que seja de _khalifa_.
Estou com pressa de chegar ao fim, porque temo fazer uma carta tamanha como o opusculo, o que seria para o publico, em vez de uma desgraça, duas. Mas faltou-me o animo quando fui a saltar por cima do precioso paragrapho 8, que o auctor destinou para me provar que Ourique não é nome proprio de logar, como eu disse, mas sim appellativo, que significa _adversidade_ ou _infortunio_.
Sou, porém, nesta parte absolvido do peccado, porque quem me deitou a perder foi o padre Moura, conforme resa o folheto. Ao menos, valha-nos isso! A consequencia, todavia, immediata deste importante descubrimento, que o digno academico fez, é exactamente a contraria da que elle desejava. Se assim é, torna-se impossivel achar jámais uma passagem de auctor arabe que se refira com certeza ao conflicto de Ourique. Embora até aqui não tenha apparecido essa passagem, podia ainda apparecer; mas desde que a palavra ourique (tirei-lhe o _O_ maiusculo, não pensem que teimo em fazê-la nome proprio) significa só _adversidade_ ou _infortunio_, o caso muda de figura. O combate que Affonso I teve, no fossado de julho de 1139, com os mouros do Alemtéjo é um facto provado pelos testimunhos que eu colligi; o que não está provado, nem se ha de provar nunca, é que elle fosse um successo importante. N'algum escriptor arabe, ainda inedito, que particularisasse muito os acontecimentos de Hespanha naquella epocha podia vir mencionado o recontro do _campo de Ourique_; mas como o auctor do opusculo não consente que esse pobre _o_ tome as dimensões de letra maiuscula, qualquer passagem que appareça ha de ser traduzida pelos arabistas da seguinte maneira: «Houve em 1139 um combate entre os moslems e os infieis _no campo da adversidade ou do infortunio_». Ora como nesse anno, do mesmo modo que nos antecedentes e consequentes, houve muitos recontros entre os christãos e os mussulmanos, segue-se que não saberemos a que conflicto allude o auctor arabe; porque todos os campos de combate são de adversidade ou infortunio para um dos contendores, e talvez para ambos. Realmente este modo de defender a importancia da batalha de Ourique é galantissimo.
O que, porém, é verdadeiramente academico e digno do pincel de Molière é o que pondera o auctor do folheto sobre o erro de Moura ácerca da etymologia de Ourique. «É bem clara--diz elle--_ainda para os que não sabem arabe_, a nenhuma analogia que se nota _com o ouvido_ entre _orique_ e _arique_». Agora, quer o meu amigo saber com que palavra arabe _orique_ se parece muito? É com _araka_. Isto não precisa de commentario. Nas contendas dos nossos rapazes ácerca da Stoltz e da Novello, quem devia dar a sentença definitiva era o illustre arabista. Proponham a questão á Academia.
Mas a cousa mais sublime, talvez, de todo o folheto vem neste mesmo paragrapho. É uma novidade que escapou a todos os etymologistas e ethnographos. Na translação das palavras de umas linguas para as outras, ellas se transfiguram com a irregularidade que necessariamente resulta da ignorancia das multidões, que são quem ordinariamente faz essas adopções de termos peregrinos. As proprias transformações das linguas são assim, e assim foi que a latina se transformou nos modernos idiomas da Europa occidental. Nestas mudanças e adopções não ha letra que não possa alterar-se; e basta ter uns rudimentos de linguistica para não o ignorar. Agora ouça o meu amigo um mysterio da lingua arabe: «Moura--diz o opusculo--foi buscar a raiz de tal vocabulo no verbo _araka_, cuja primeira letra radical, que é um _alif, não soffre a conversão_ para a letra _o_ nas linguas europeas». Isto quer dizer que aos rudes portugueses do seculo XII, que escorchavam sem piedade quantas letras, quantas palavras celticas, phenicias, gregas, romanas, germanicas lhes caíam nas unhas, era prohibido tocar no _alif_, especie de _noli-me-tangere_ arabico. Certamente, meu amigo, no alcorão ha uma sura intitulada «_Dos escorchamentos etymologicos_» onde o propheta diz: «Todo o infiel nazareno que bulir na sancta letra _alif_ para della engenhar um dos seus maldictos _ós_, vai preso». Foram peccados meus que me impediram d'aprender arabe: teria com isso evitado deixar-me embair por aquelle herege do padre Moura, que pelo que vejo, era um pessimo sarraceno.
Depois vem uma longa chicana (perdoe, meu amigo, o gallicismo, mas como isto ha de ser lido pelo digno academico arabista membro da classe de sciencias moraes e bellas-letras, elle entenderá assim melhor a phrase); vem uma longa chicana sobre as palavras _fossado_, _correria_, _entrada_, e não sei que mais, em que o auctor desenvolve uma erudição pasmosa em diccionario de Moraes. Chamei fossado á expedição de Affonso I em 1139, porque todas as etymologias do mundo não podem fazer com que uma cousa deixe de ser o que é. O fossado era uma expedição que se fazia em regra todos os annos no começo do verão ás terras inimigas: questionar sobre isto não sería mais do que mostrar-se profundamente ignorante das nossas cousas antigas. _Correria_ é um nome que cabe ao fossado tão bem como _expedição_; porque correria é uma especie do genero expedição, mais nada. Quem faz uma expedição, fossado, ou correria no territorio inimigo, entra nelle (emquanto o alcorão ou a Academia não mandarem o contrario) e por consequencia faz uma _entrada_. Não é uma miseria, além disso, affirmar-se n'um papel que tem a pretensão de ser cousa séria, que eu me contradigo, porque, chamando correria ao fossado de 1139, exprimo ao mesmo tempo a idéa de que os mussulmanos hespanhoes buscaram em si proprios recursos para atalhar o passo aos invasores na falta das tropas almoravides, visto que (diz-se ahi), sendo a correria um acto repentino, os mussulmanos não podiam precaver-se? Que resposta séria se póde dar a isto? Fique-se entendendo que quando um paiz é invadido rapidamente, os habitantes deixam-se matar como carneiros e não se unem para se defenderem, ou que os soldados que fazem correrias, não andam, mas voam, ou vão em aerostatos descer aonde e quando querem sem que ninguem os veja passar. Dizer que no fossado de Ourique não houve audacia, a ser como eu o narrei, embora as tropas almoravides, ou a melhoria dellas, faltassem, é cousa tão absurda, quanto é certo que essa expedição importava uma longa marcha de cincoenta leguas (que tantas irão de Coimbra ao campo de Ourique) quasi toda por paiz inimigo, porque, como bem observa a chronica dos godos, Ourique ficava _no coração das terras mussulmanas_. Qualquer cabo de esquadra sabe que difficuldades se offerecem á marcha de tropas, embora disciplinadas (como de certo não eram as de Affonso I) atravez de um paiz excitado contra essas tropas pelo fanatismo politico e religioso. O principe português deixava, além disso, na sua retaguarda, por um e por outro lado, logares importantes fortificados, e bem ou mal guarnecidos, taes como Santarem, Lisboa, Alcacer, Elvas, Evora, etc.; o que tornava a volta de Affonso I aos proprios estados duplicadamente arriscada. Emfim, meu amigo, eu deixo nesta parte aos homens intelligentes avaliar se o fossado de Ourique, com as poucas circumstancias que delle sabemos, embora não tivesse as dimensões que lhe attribuiram depois, foi ou não foi um acto de bastante ousadia.
De passagem, meu amigo, deixe-me protestar contra um falso testimunho que me levanta o auctor do opusculo, quando, citando textualmente as minhas palavras, me attribue o uso do vocabulo _derrota_ por _destroço_ ou _desbarato_ (dos sarracenos em Ourique). Não escrevi o meu livro para se inserir nas actas da Academia: escrevi-o para o publico português, e por isso na sua lingua, ao menos até onde eu a sabía.
Vamos á questão principal. Para a tractar não me parece que fosse necessario accumular previamente tanta inexacção e tanto desproposito. Eu tinha affirmado que os diversos escriptores arabes que nos transmittiram a historia daquella epocha guardaram silencio ácerca da batalha de Ourique. O auctor do opusculo sarraceno firma a proposição _contraria_, isto é, que nesses diversos escriptores arabes se encontram, não só vestigios della, mas tambem a sua _descripção_, e as suas _consequencias terriveis_.
Algum de nós, pois, engana o publico; algum de nós commette uma acção indigna de homens de letras affirmando uma cousa opposta á verdade. Eu consultei os historiadores arabes que escreveram a historia do dominio mussulmano na Peninsula, e que estão traduzidos. Era essa unicamente a minha obrigação, porque não sei arabe. O auctor do opusculo _devia_ tê-los visto antes de escrever, e _podia_ ter lido outros, porque diz que sabe arabe. Se a minha narrativa fosse conforme com os primeiros comparados com os monumentos christãos, e o auctor achasse que esses não-traduzidos os desmentiam, devia provar que o seu testimunho era preferivel ao delles e ao dos monumentos christãos, sendo accordes uns com outros. Sem isso nada tinha feito. Ora eu estribei-me na narrativa de Abdel-halim, como a haviam vertido Moura e Conde, e esta narrativa concorda em geral com a chronica latina de Affonso VII, escripta ainda no seculo XII ou nos começos do XIII. Das tres fontes historicas resulta ou não resulta o que eu disse? Resulta ou não resulta, que antes de julho de 1139 Tachfin-Ibn-Aly tinha partido para Africa, levando comsigo as tropas que pôde, sem exceptuar os mosarabes e os captivos christãos? É verdade que o cerco de Aurelia ou Cazorla durou _de abril a setembro ou outubro_[69]? É verdade que os seus defensores pediram debalde soccorro a Tachfin, _que se achava então em Africa_? São, portanto, bem deduzidas as minhas inferencias de que é absurdo imaginar que havia trezentos ou quatrocentos mil mouros para saltarem por cima do exercito do imperador Affonso VII, e virem dar uma batalha campal a Affonso Henriques, e não os havia para descercarem uma praça daquella importancia? É para responder negativamente a estas perguntas de um modo tão categorico como eu as faço, que desafio o auctor do opusculo sarraceno.
Ao que se colhe dos monumentos christãos e mussulmanos coevos ou quasi coevos[70] que textos exquisitos e reconditos vem, porém, oppôr o _digno_ academico? Vejamos:
Um mouro chamado Hamed-el-Nabil, _que viveu no principio do seculo_ XVII, vindo a Hespanha, escreveu um itinerario. Nelle diz, falando da epocha em que succedeu o caso d'Ourique, as palavras seguintes, que vou transcrever, porque gósto de apresentar o corpo de delicto:
«E dizem alguns dos sabios precedentes _sobre_ o governo da Andaluzia (_sic_) que ella muito se engrandeceu: _e na verdade conquistou com boa posse_ (_sic_) muitos dos logares _os_ (_sic_) mais notaveis: e foi isto depois que l'Enrick _derrotou_ os mussulmanos; (_sic_) não persistiram estes depois disso no paiz senão quando obravam pacificamente; e _por isso_ (_sic_) ficaram os christãos neste paiz senhores de suas terras e de suas riquezas (_sic_), (_sic_), (_sic_).»
O meu amigo ha de ficar espantado quando souber que nesta salsada, que até certo ponto simula lingua portuguesa, ha, _não só claros vestigios_ da batalha de Ourique, mas tambem a _descripção della e das suas consequencias_. Pois saiba que ha. Saiba tambem que, um ou dous mezes antes de se imprimir o opusculo sarraceno, se dizia pelos cantos, que na Academia se lera uma cousa mourisca, que excitara o enthusiasmo d'alguns daquelles padres-conscriptos, porque ahi se me provava com textos arabes que eu não soubera o que tinha dicto quando falei com tanta irreverencia e falta de patriotismo nesse facto d'Ourique. Rogia-se de um papel achado n'uma tenda de Marrocos, que desmanchava todas as minhas opiniões aereas. No fim de contas era o sr. Hamed, que no principio do seculo XVII tinha escripto em mouro o que o meu amigo ahi vê em meio-mouro. Realmente a cousa é séria, sobretudo exornada com as erudições e commentarios do traductor, a quem Deus dê alguma inclinação mais proveitosa do que esta de traduzir para lingua franca os itinerarios dos viajantes marroquinos.
Pretende-se nesses commentarios que o mouro Hamed, na phrase relativa a l'Enrik (que é possivel seja Affonso Henriques) se refira aos mesmos escriptores a quem, sob o nome de sabios precedentes, allude no principio do periodo, e que por sabios precedentes se devem entender antigos escriptores sarracenos, porque os arabes servem-se da palavra _ulmá-i_ para significarem os _seus_ historiadores. Vamos por partes. Se o sr. Hamed escreveu _sabios precedentes_, é porque já tinha dicto quem elles eram: nesse caso, em vez de uma dissertação ácerca da palavra _ulmá-i_, não seria mais simples e mais a proposito dizer-nos o traductor os nomes delles? Teriamos a Bibliotheca de Haji-Khalfah traduzida por Fluegel; teriamos a Bibliotheca de Casiri; teriamos as notas de sr. Gayangos á versão de Al-Makkari, notas preciosas como fonte de erudição arabica; teriamos, emfim, estes ou outros recursos para sabermos que importancia deveriamos dar aos _sabios precedentes_ como auctoridades para os successos do seculo XII, que era o que importava. Hamed ou trinta Hameds, que vivessem em tempos modernos ou houvessem vindo a Hespanha e repetissem o que por cá tivessem ouvido ácerca do recontro d'Ourique ou de outra qualquer cousa succedida 400 ou 500 annos antes, provariam tanto a favor della como a _precedente_ traducção prova que o auctor do opusculo sabe grammatica e conhece a indole da nossa lingua. Suppondo, porém, que Hamed se refira no principio do periodo a historiadores arabes, e que esses historiadores sejam assaz antigos, o que é certo é que a phrase relativa a l'Enrik não é dos taes _sabios precedentes_, mas do proprio Hamed-el-Nabil. Creio que o meu amigo sabe bastante da lingua franca para ver que desde as palavras «_e na verdade_» não são os _sabios precedentes_, mas sim o proprio Hamed, em corpo e alma, quem fala; quem parece querer confirmar com o seu testimunho o dicto delles, se é possivel perceber aquelle _imbroglio_ que o traductor alli arranjou. Mas a curiosidade maior é que o proprio texto está provando que Hamed, longe de alludir ao facto d'Ourique ou a facto algum especial, se refere em geral ás victorias e conquistas de Affonso I, (se é que se refere a isto) as quaes ninguem contesta, e que eu particularisei com a miudeza e exacção, a que os _sabios precedentes_, os _ulmá-i_ da nossa terra, não tinham chegado. Se Hamed se referisse a Ourique falando do desbarato dos mussulmanos por l'Enrik, tudo o mais que vem na passagem seria um rol de mentiras; porque as consequencias materiaes desse recontro foram nenhumas. Como já disse, Affonso Henriques voltou aos seus estados sem conquistar um palmo de terra, e foi annos depois que submetteu a Estremadura e o Alemtéjo, ficando no paiz os mussulmanos que curvaram a cabeça ao jugo christão.
Aqui tem o bom redactor da _Semana_ o que é e o que vale o papel da tenda de Marrocos, que devia vir pulverisar o que eu escrevi firmado nos monumentos coevos, e em argumentos de congruencia irresistiveis. É o dicto vago e obscuro de um viajante moderno, dicto que se torce para se fazer com que o pobre mouro diga aquillo em que nem sequer pensou. Que terra esta nossa, meu amigo, em que o auctor de um livro serio é ás vezes obrigado a acceitar o triste encargo de refutar taes miserias!
O famoso texto do viajante marroquino é reforçado com um contraforte tirado do Abdel-halim do uso particular do auctor do opusculo; digo do uso particular, porque nem em Conde, nem em Moura se encontra semelhante passagem, nem no logar indicado, nem em outro qualquer. Vamos ver o texto _inedito_ de Assaleh ou de Ibn-Abi-Zara, que o meu critico trouxe á luz do dia:
«E neste anno 533 (8 de septembro de 1138 a 27 d'agosto de 1139) desbaratou o general Taxefin as multidões dos christãos _nos campos de Attibbat_; e fez perecer delles um numero extraordinario; e levou de seus prisioneiros _seis mil captivos: em consequencia do que_ partiu para Marrocos, e á sua chegada _lhe saiu ao encontro seu pae_, o imperador dos mussulmanos, _que ficou em profundo desgosto e cheio de grande susto_.»
No capitulo 33 do Karttás traduzido pelo padre Moura não vem esta passagem. Entretanto não devo crer que o auctor do opusculo a inventásse. Cumpre suppôr que elle se serviu de algum exemplar mutilado, viciado, ou extremamente incorrecto da obra de Abdel-halim. Na versão de Moura é no capitulo 40 que se contém as ultimas acções do Tachfin na Hespanha, antes de partir para a Africa. Eis o que ella nos diz:
«No anno 532 (19 de septembro de 1137 a 7 de septembro de 1138) passou o principe Taxefin de Hespanha para a Mauritania, depois do ter combatido e tomado de assalto _a cidade de Segovia_, levando comsigo _seis mil captivos_; e tendo chegado a Marrocos _veio seu pae encontrá-lo_ com grande pompa e _se alegrou com elle_, etc.[71]»
As duas passagens são, se não identicas, por certo parallelas. Tracta-se em ambas da partida de Tachfin para a Africa, depois de obtido um triumpho em que captivou seis mil homens. A differença está nas circumstancias, e _na data_. Qual dessas se deve preferir? Vejamos.
Conde refere a partida de Tachfin menos precisamente: mas põe-na como immediata á reducção de Cuenca, a qual fixa em 531 (29 de septembro de 1136 a 18 de septembro de 1137) e assim concorda com Assaleh quanto ao anno da partida, visto que, se Cuenca fosse reduzida nos fins de 531, a saída do principe almoradive para a Africa devia verificar-se já em 532, isto é, nos fins de 1137 ou nos principios de 1138.