Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 02

Part 17

Chapter 17 1,909 words Public domain Markdown

E diz-se-nos que eduquemos por educar, e instruamos por instruir; que instituamos cidadãos aptos para todas as fórmas de governo; que ensinemos a ler e escrever e a doutrina christã, e não curemos de mais nada. Todos esses conselhos não chegam a ser absurdos: ficam aquém; na demencia. Educar por educar! Instruir por instruir! Só ha uma cousa nas obras humanas que tenha em si mesma a sua causa final; é a arte. Tudo o mais tem por objecto a sociedade ou o indivíduo. A educação não é nenhum poema, nenhum quadro, nenhuma partitura: a educação e a instrucção são o acto pelo qual uma geração transmitte a outra os thesouros de progresso moral e intellectual que herdou e augmentou; são uma grande questão social, e é por isso que o estado exerce nellas intervenção tão ampla. Se não fosse assim, a lei que, em todos os paizes cultos, fórça os individuos a receberem na eschola esse baptismo da civilisação, fora tyrannia; fora tyrannia a inspecção do estado na educação livre. Crear cidadãos aptos para todas as fórmas de governo! Mas ha fórmas de governo que vos pedem vassalos, que vos pedem servos, que vos pedem escravos, mas que não vos acceitam cidadãos. Se quereis subministrar-lhes o que elles pedem, fazei-o: nós não queremos. Nós forcejamos para que a geração que vier após nós seja uma nobre raça de homens livres; que odeie, não o reaccionario, que póde estar involutariamente no erro, mas o despotismo e a servidão; queremos affeiçoar uma geração nova rancorosa, mais rancorosa do que nós. Que ensinemos a ler, a escrever, a contar, e a doutrina christã sómente. Ensinae-o, se podeis, a uma creança sem lhe imprimir no espirito, cincoenta, cem, mil vezes mais idéas do que as necessarias para possuir esses elementos de cultura. Metade do que conhece do mundo material e moral a mais vasta intelligencia adquiriu-o na infancia. É nessa épocha da vida que a torrente das idéas, boas ou más, exactas ou inexactas, accumuladas pela tradição humana, se precipita com mais força no nosso espirito. O ensino voluntario e previsto é, sem comparação, menor do que o involuntario e desapercebido, que do educador ou do mestre recebe o educando ou o discipulo. As preoccupações e os erros de facto ou de apreciação passam, com a mesma facilidade que as idéas sans, de um para outro espirito, e passam, a cada hora, a cada momento, com uma auctoridade, com um prestigio, que não tem as transmittidas pelos outros individuos que revelam ao homem na infancia o mundo em que vai viver. Estas verdades triviaes, elementares, só as ignora quem as quer ignorar. A reacção póde fazer com que as affoguem em phrases oucas e em paradoxos; mas próva de sobejo, pelos seus actos, que sabe o que ellas valem. Tambem nós o sabemos; e nessas phrases e nesses paradoxos não vemos senão uma injuria á recta razão do paiz.

No meio das puerilidades, das affrontas, das calumnias, das maldicções, nós proseguiremos ávante nesta cruzada sancta da civilisação e da liberdade. Chamamos a ella todos os homens sinceramente liberaes, que não estão resolvidos a transigir com genero algum de absolutismo, nem no estado, nem na igreja. Esses homens são os que querem as consequencias da restauração de 1833, restauração que foi ao mesmo tempo uma grande revolução, ou antes a unica revolução verdadeiramente importante deste paiz. A guerra da reacção é dirigida ainda mais contra as conquistas sociaes que então fizemos do que contra o governo parlamentar, embora tambem este seja aggredido. Querem-se os dizimos, os bens da corôa, os direitos de foral, os privilegios de casta ou de classe, os officios hereditarios, as rendosas capitanias-móres, as mitras opulentas, as ricas abbadias, os beneficios patriarchaes, a magestade do throno calumniada pela rapacidade cortezã, a suppressão da imprensa, methodo facil de moralisar, que consiste em fazer silencio ao redor da corrupção. A liberdade tornou-se incommoda, não só para os que perderam com os successos de 1833, mas tambem para muitos daquelles que mais ganharam com elles. Os que esgotaram o que a nova situação tinha para dar, vêem agora que o absolutismo dispunha de instrumentos mais efficazes para sugar da riqueza publica, do fructo do trabalho honesto, a quota do luxo e da devassidão dos escolhidos. Todas essas deplorações sobre a decadencia da moral e da religião; todos esses esforços para restaurar instituições derrocadas, são calculos de cubiça. O fanatismo é raro: o que está sendo vulgar é a hypocrisia. As comparações que se fazem do presente com o passado são falsas. Sem desconhecer que os costumes estão corrompidos, protestamos, com a historia nas mãos, que a decadencia moral dos seculos de absolutismo era muito maior do que a nossa. O remedio do mal presente não está em approximarmo-nos delles, está em affastarmo-nos. Os que pensam o contrario illudem-se; os que fingem pensá-lo são os que querem lucrar com as especulações ao divino.

Deploramos que, semelhantes ás facções religiosas do Baixo-Imperio, anathematisando-se mutuamente dentro dos muros de Constantinopola assediada pelos mussulmanos, as parcialidades liberaes não ouçam, no meio das suas discordias, o estrepito da reacção que marcha de victoria em victoria. Extranha a essas parcialidades, sem compromissõs anteriores, esta Associação a nenhuma tem de servir, nem de combater. Não busca para si um logar no meio dos grupos que pleiteiam na urna, no parlamento, e na imprensa um poder ephemero. Não tem ninguem a quem o offerecer. Que o partido liberal não abdique; ficará satisfeita. Todos os governos devem estar tranquillos ácerca da influencia maior ou menor que ella possa exercitar, porque não ha de empregá-la senão contra os homens que se mostrarem deliberadamente favoraveis ás tentativas reaccionarias. Esses, se um dia se acharem no poder, contem com uma hostilidade implacavel da parte della. Persigam-na, que é do seu interesse fazê-lo. Hoje constitue-se para fundar escholas e asylos; póde amanhã alargar a esphera da sua acção, ou transformar-se. As phases da lucta determinarão o seu proceder. Se por emquanto só tracta de atalhar o perigo presente, porque é gravissimo, não se infira d'ahi que cruzará os braços quando qualquer outro perigo igualmente grave ameaçar a sociedade nova, e a aggredir nas suas tendencias, na sua indole, ou nas suas tradições. Se a aggressão é ainda mais social que politica, a defesa hade ter os mesmos caractéres.

Como os antigos templarios, cujas preceptorias se collocavam nos confins dos paizes remidos para o christianismo e na frontaria dos sarracenos, nós vamos plantar as nossas tendar de guerra juncto aos marcos que dividem os dominios da reacção dos dominios da liberdade. Vigiaremos emquanto outros dormem: combateremos emquanto outros disputam. Quando algum de nós cahir, os seus companheiros perguntarão quem rege os arraiaes da liberdade; perguntá-lo-hão para pedir sete palmos de terra livre que dê asylo ao que cahiu. Se os houver para no-los darem, não indagaremos como se chamam os que no-los concederam. Sabemos que esses sete palmos não podem estar encravados em terra de servos. Eis o facto importante, e o fim supremo desta Associação. É o titulo da melhor herança que temos de legar a nossos filhos.

Notas

[1] Die Person hat das Recht in iede _Sache_ ibren Willen zu legen, welche dadurch die Meinige ist, zu ihrem substantiellen Zwecke, da sie eine solchen nicht in sich selbst hat, etc. _Sache_, em contraste com _Person_, exprime a cousa physica e que é capaz de ser possuida, e contrapõe-se a _Idee, Gedanken_.

[2] _Etude sur la propriété littéraire_, par F. de Azevedo.

[3] Ihrer Bestimmung und Seele meinen Willen erhält.

[4] Studj critici, tom. II, pag. 444 (Delle ristampe).

[5] O artigo 48.^o da lei de 15 de março de 1850, que hoje rege a instrucção publica em França, prescreve que nas escholas primarias do sexo feminino se ensinem os trabalhos de agulha. Segundo o commentador Rendu, esta disposição da lei é uma _feliz innovação_. Saibam as mestras portuguesas que os legisladores franceses descobriram em 1850, que as meninas devem aprender a coser, a bordar, etc. As irmãs de caridade introduzidas em Portugal em 1858 foram de certo educadas antes de 1850. Saberão ellas fazer uma camisa? Cremos que é licito perguntá-lo.

[6] _Memoires_, tom. 1.^o, pag. 272 (1858).

[7] A maravilha da serva de Deus, que fazia milagres de dysuria, adornados pelas cores do prisma, incommodou a policia de Lisboa. Recolhida ao hospital a sancta mulher, os facultativos descubriram com facilidade a origem da maravilha. O negocio supitou-se para evitar o escandalo. Entretanto a auctoridade do districto de Coimbra applicava a um sancto vivo, que começava a disparar milagres naquelle districto, o celebre distico.

_De par le roi, défense à Dieu De faire miracles dans ce lieu_.

[8] A quota dos membros da associação da propagação da fé não excede a 480 réis annuaes, e o producto destas quotas remettidas para França tem subido alguns annos a 8:000$000 réis.

[9] No relatorio feito ás cortes pelo ministro dos negocios estrangeiros em 1849 vem o texto mutilado do convenio de 21 de outubro de 1848, donde foi transcripto para a _Collecção de Tractados_ do sr. Borges de Castro (tom. 7, pag. 221). O texto por integra appareceu no jornal _O Paiz_, em agosto de 1851.

[10] Nas especulações de exportação da bulla da cruzada o nimio zelo dos corretores trahiu-se imprudentemente no confessionario, annos depois, o que obrigou o sr. Seabra, sendo ministro dos negocios ecclesiasticos e de justiça, a tomar severas providencia para reduzir aquelle commercio aos seus limites naturaes.

[11] Veja-se a circular da congregação _De Propaganda Fide_ de 4 de junho de 1858 a p. 75 do _Additamento ás Reflexões sobre o padroado portuguez no Oriente_.

[12] Constitutiones Communes Congreg. Miss. cap. 5.^o, § 1.^o, e cap. 11.^o, §§ 4.^o e 5.^o.

[13] Cùm igressi fuerint loca ea, in quibus Ordinarii resident, eos quam primùm adeant, suamque operam illis submissè offerant, et facultatem ad exercenda societatis ministeria modestè ac religiosè petant. _Institutum societ_. _Jesu_, vol. I, pag. 376.

[14] Non solum quoad ejus voluntatem nobis notificatam, sed etiam quoad ejus intentionem. _Const. Com. Congreg. Mission._, cap. 5.^o, § 2.^o,--tenebit pro certo voluntatem Dei sibi significari per voluntatem superioris. Ibid, § 4.^o.

[15] Vide decreto de 9 de agosto de 1833.

[16] O instituto das irmãs de caridade foi auctorisado em França em 1658.

[17] Nestes asylos, de que o commissario dos estudos se queixava em 1856, os logares de magisterio eram providos por concurso na fórma dos respectivos estatutos approvados pelo governo. Em 1858, porém, as mestras já haviam sido substituidas por irmãs de caridade francesas por mero arbitrio das pessoas que os dirigiam.

[18] De Lavergne, _L'Agriculture et la Population_, pag. 399. (Note F.)

[19] Legoyt, _Journal des Economistes_, mars de 1857; De Lavergne, ibid., pag. 337.

[20] Les lazaristes ont plus de vingt millions placés en rentes sur differents états, de manière qu'à tout événement leurs ressources et leurs moyens d'action ne leur manquent jamais. Génin, _Ou l'Église ou l'État_, pag. 213.

Tous les journaux, et notamment _l'Univers_, ont été remplis d'annonces et de prospectus de la caisse militaire et des distilleries du Nord, et parmi les noms des administrateurs destinés à faire arriver l'actionnaire, le public lisait avec édification: Mr. l'abbé _Étienne_, procureur générale des prêtres de S. Lazare... Mr. J. B. Nozo, supérieur général des lazaristes. Les lazaristes marchands d'hommes et fabricants d'eau de vie! Id. _Ibid._

[21] Excepté l'infortunée Pologne, l'Espagne, le Portugal, toutes les provinces de l'ordre y sont représentées. _L'Univers_ cit. por Génin, pag. 211.

[22] Ord., liv. 5.^o tit. 38.

INDICE

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