Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 02
Part 16
No meio de tantos delirios, uma das cousas que repugnam mais á razão, á consciencia e á verdadeira piedade, é a blasphemia que se encobre debaixo do diluvio de phrases com que se exaltam, sobre as ruinas da jerarchia ecclesiastica e da divina missão dos pastores, essas congregações religiosas de ambos os sexos nascidas ha dous dias, jesuitas, lazaristas, irmãs de caridade, e não sabemos que mais invenções modernas do ultramontanismo, desconhecidas durante quinze seculos da igreja. O bispo, o parocho, aquelles que o Salvador instituiu para ensinarem a lei e a salvação; aquelles que o Divino Mestre julgou sufficientes para manterem a pureza da fé, para serem o sal da terra e a luz do mundo, são declarados inhabeis ou insuficientes para exercerem as funcções que exclusivamente lhes foram commettidas, e muitos delles não hesitam em subscrever ao pensamento impio, escondido como o aspide nos morraçaes da algaravia devota. A congregação tende irresistivelmente a supprimir o episcopado e a ordem inferior dos pastores, como uma inutilidade. Do mesmo modo que dimitte a historia, a reacção dimitte a igreja. Se escapa aquelle que nós todos reconhecemos como o primeiro entre os seus irmãos, como o metropolita dos metropolitas, como o chefe espiritual do catholicismo, é para o converterem n'um despota; para precipitarem o reino Deus das alturas do céu no abysmo da terra; para collocarem a thiara, nas relações temporaes, acima do poder civil; para, emfim, resolverem de modo definitivo o tremendo problema proposto por Gregorio VII á sociedade christã.
A estes intuitos a existencia ou, pelo menos, a auctoridade da ordem superior e da ordem inferior do clero legitimo há-de ser sempre um obstaculo, senão insuperavel, ao menos altamente incommodo. Sempre ha-de haver uma parte delle que saiba a sua origem, que creia na sua missão divina, e que ouse protestar contra o despotismo da curia romana. Se a influencia dos chefes das congregações sobrepujar a dos prelados, não resta a estes senão uma energica e legitima resistencia, a não quererem a desauctoração do proprio caracter e a dissolução da igreja. Aquelles chefes, porém, cujos subditos devem ser diante delles como o cadaver, como o baculo na mão do cego, como a lima na mão do obreiro, e cujo despotismo, não podendo estribar-se no céu, foi buscar sanctificação em Roma; esses, de certo, nunca hão-de protestar contra a applicação á sociedade christã e á sociedade civil de um principio que é a essencia do proprio poder.
O antigo monachato, na singeleza da sua origem, nem era um perigo para as instituições sociaes, nem seria uma ameaça para a liberdade. O monachato, como elle nos apparece nos primeiros seculos christãos, representava os profundos desenganos, o cansaço e o tedio do viver civil. O monge desposando a solidão firmava um acto de divorcio com a sociedade. Esta não seria nem tolerante nem justa se perguntasse ao que se collocava além della, que nada lhe pedia, nem impunha, nem offerecia, nem acceitava, qual era a norma da sua existencia. O mosteiro nos desvios selvaticos devia ser uma sanctuario talvez ainda mais immune que a familia. Nesses tempos, nem sequer existia nexo entre cenobio e cenobio, embora ente elles houvesse uma regra commum. Para adquirir o alimento pelo trabalho e o céu pelo sacrificio não era preciso transportar para o deserto o mechanismo de uma organisação complicada, nem vestir a cogulla ao despotismo. Um chefe electivo mantinha em cada gremio a disciplina indispensavel para a quietação de todos. Nas relações puramente espirituaes, esses homens pios nem sequer imaginavam que o sacerdocio devesse associar-se como o ermo, e se abandonavam a sociedade civil, não deixavam por isso de acceitar e reconhecer a igreja. Nunca se persuadiram de que a instituição divina dos pastores fosse insufficiente para apascentar o rebanho. Na sinceridade do seu coração não suspeitavam, sequer, que viriam tempos, em que os homens achassem incompleto o christianismo, e quizessem aperfeiçoar a jerarchia e o governo da igreja, immutaveis na essencia, como a sua doutrina.
Os institutos monasticos dilataram-se, prosperaram, degeneraram regressando ao mundo social, decahiram e pereceram, ou vejetam apenas n'um triste crepusculo. O liberalismo olha-os com suspeitas que os factos justificam. Entretanto a sua condemnação completa não se escreveu ainda. Talvez um dia, quando a liberdade for por toda a parte uma condição impreterivel da civilisação e da existencia das nações christãs, o monachato resurja na sua primitiva pureza. Ha dores para as quaes a vida civil não tem balsamo, desalentos para que não tem conforto, desesperanças para que não tem illusões, amarguras que não cabem nella. Além das suas fronteiras, dos seus asylos para os infortunios vulgares, porque se não deixará construir um refugio de preces e de lagrymas para as miserias moraes incuraveis, e para as situações insoluveis e extremas?
Mas que ha commum entre isto e as congregações modernas, que se organisam pelo ideal do despotismo, e que, regidas por esse principio, tão odioso e brutal como energico, penetram no amago da sociedade como o ferro do machado no cerne do roble? Quando ellas pedirem ao povo o coração da mulher para o dirigir, e a debil intelligencia da infancia para a affeiçoar, o povo, se não for insensato, há-de forçosamente replicar-lhes:--«Para que pedis isso? Vindes do despotismo: não podeis senão arrastá-los para o despotismo; para o despotismo na igreja, e para o despotismo no estado.»
A introducção das irmãs de caridade francesas não é senão o prodromo do restabelecimento das congregações, que, longe de buscarem os ermos, só tem em mira apoderar-se da sociedade. A reacção sabe que ás vezes é melhor ir de roda para chegar mais depressa.
N'um documento official allegaram-se os serviços das irmãs de caridade francesas no Oriente, principalmente nos arraiaes da Criméa, para legitimar a admissão daquelle instituto no reino, quando o principal fim ostensivo dessa admissão era o gravissimo negocio de educação da infancia. Vinha a ser a melhor allegação, sendo pessima. Naquelle documento dimittia-se a logica; e convertia-se a enfermaria em eschola normal. A reacção, tão astuta de ordinario, tem suas puerilidades. A capacidade das irmãs de caridade francesas para o magisterio talvez ainda venha a inserir-se como dogma no catecismo. Por emquanto está sujeito á discussão. A regra de S. Vicente de Paulo não encerra em si a demonstração de tal capacidade, e os factos ainda tambem não a demonstraram. Ensinar não é synonimo de ensinar bem. Permittam-nos, pois, que entretanto duvidemos da virtude pedagogica dessa regra, virtude que seria mais um milagre dos officiaes deste genero de producto, porque não resulta de nenhuma das sua disposições positivas. A caridade poderá, talvez, só por si fazer uma boa enfermeira; o que de certo não faz é uma boa mestra.
O instituto das irmãs de caridade cerca-se de uma auréola facticia, porque é um instrumento de reacção. Admitti que a dedicação, aliás louvavel, dessas mulheres seja um titulo que suppra a sciencia, que inutilise a intervenção do estado na educação, e diante do qual devam ceder os principios, as leis, os regulamentos, e achar-vos-heis em breve nas regiões do jesuitismo. Que vale a historia, mais ou menos exaggerada, dos sacrificios, do zelo, da constancia das irmãs de caridade ao lado dos sacrificios, do zelo, da constancia dos jesuitas, não neste ou naquelle paiz da Europa, mas no mundo conhecido? Depois, o jesuitismo tem titulos de sciencia bem diversos do que podem invocar as irmãs de caridade e a ordem que as dirige. Entregae, portanto, a educação e a instrucção, não só da puericia, mas tambem da mocidade, á companhia de Jesus.
Lá chegaremos, se não estivermos precavidos contra os sophistas.
O furor dimissorio da reacção não pára, nem na historia, nem na jerarchia christã, nem nos canones da logica: vai até a Providencia e até o Evangelho. Que ha particular e exclusivo na regra de S. Vicente de Paulo para produzir os resultados beneficos daquella associação como está constituida em França? A força impulsiva da vontade absoluta de um só homem é na verdade um elemento efficaz, postoque vulgar. O despotismo produz ás vezes o bem, aindaque em regra só produza males. Mas os effeitos dessa organisação, innegavelmente poderosa, acabam ahi. O resto operam-no a indole da mulher e a luz immortal do Evangelho. Quem ha que não visse, ao menos alguma vez, na obscuridade da vida domestica, uma irmã de caridade assentada á beira do leito da dor ou da ultima agonia? Onde está a mulher está a irmã de caridade. O seu espirito adeja em volta do padecer humano, para se precipitar nelle, como a mariposa á roda da luz. É o seu instincto, a sua indole, o seu destino. O amor, a amizade, a affeição filial ou fraterna, a maternidade escondem aos olhos dos outros e a seus proprios olhos as tendencias irresistiveis que a arrastam para levar um affecto aonde quer que sôa um gemido. Acima de todos os votos que se lhe podem ou pedir ou impor em nome do céu, ella tem dous, escriptos lá dentro, que a seguem do berço ao tumulo, a piedade e a paixão do sacrificio. Impellidas pelo sentimento religioso, essas tendencias vão até o sublime da abnegação: vão mais longe do que a irmã de caridade; vão até a mulher que se precipita na fogueira dos funeraes do Indostão. Essa mulher, como a irmã de caridade na Europa, representa a suprema devoção pelo sacrificio. A differença, porém, não está na regra de S. Vicente de Paulo: está em que na Europa a mulher educa-se á luz esplendida do Evangelho; no Indostão ao crepusculo triste dos Védas.
Sem a sujeição aos lazaristas, o que a regra de S. Vicente de Paulo póde fazer é dar unidade e ordem aos admiraveis instinctos da mulher sanctificados pela religião; é estender o que ha mais bello no mundo, as consolações do affecto domestico juncto de um leito de dores, aos que não tem familia que lhas possa dar, ou aos que a miseria e a doença entregaram á caridade official. Mas attribuir á virtude do instituto o que principalmente provém da natureza e da religião, é depôr a Providencia e o Christianismo para enthronisar um homem: é suppor que a sua obra vale mais que a obra de Deus: é a blasphemia da superstição.
Com o predominio, porém, do lazarismo; com uma obediencia cega a individuos que abnegam, diante de um chefe supremo, a vontade, a razão e a consciencia, as irmãs de caridade não são senão mais um perigo para a sociedade debaixo de apparencias illusorias. O bem que ainda assim fazem nem remotamente compensa os males que podem produzir. Instrumentos, provavelmente inscientes, do ultramontanismo, são como os maus actores, que se limitam a estudar o respectivo papel, sem conhecerem nem o enredo, nem os effeitos do drama.
Os serviços feitos á humanidade na guerra do Oriente pelas irmãs de caridade francesas, texto fecundo das pareneses da imprensa reaccionaria, e que tão pouco a proposito figuram em documentos que deveriam ser graves, tem acaso o valor e a significação que se lhes attribue? A guerra do Oriente foi emprehendida por duas das mais poderosas nações, uma d'ellas a mais opulenta e illustrada da Europa. As miserias e desgraças ordinarias da guerra são faceis de prever, e os governos dessas nações tinham-nas previsto: tínham-se preparado para ellas. Facultativos, hospitaes, enfermeiros, remedios, os confortos, em summa, que são compativeis com a dura e aventurada vida do soldado, não tinham sido predispostos com mão avara. Aquelles para quem esses immensos soccorros se destinavam eram homens no vigor da existencia, educados para affrontar virilmente as privações, a dor e a morte. As calamidades imprevistas não foram, nem podiam ser combatidas com menor energia. As inspirações da simples humanidade eram avivadas pelo interesse de manter a força material e moral dos exercitos, n'uma campanha onde se decidia o duello entre as sociedades do Occidente e os netos de Attila. Quanto a sciencia, a industria, a riqueza e a actividade administrativa podiam suggerir e applicar para allivio dos males inseparaveis da guerra, tudo se achava ao lado do homem robusto que padecia nos arraiaes da Criméa. Imaginar que cincoenta ou cem mulheres distribuidas pela vastidão dos hospitaes militares, suppriam, modificavam sequer as privações e os incommodos nascidos da falta accidental de recursos, ou das desordens imprevistas da natureza, é um paradoxo, que pedimos licença para não acreditar, embora tenha a seu favor o testemunho _insuspeito_ de generaes que haviam metralhado a liberdade por conta da reacção, e que se ufanavam com a intimidade dos chefes do jesuitismo; embora se estribe nos elogios gratuitos de funccionarios collocados n'uma situação elevada, mas dependente desses pios generaes, e que nada perdiam em exaggerar, á vontade delles, os serviços dos jesuitas, dos lazaristas, das irmãs de caridade, ou de outras quaesquer corporações, que elles pretendessem exaltar.
Os pomposos relatorios das maravilhas practicadas pelas irmãs de caridade no Oriente o que provam de modo peremptorio é que a reacção é hábil. Sabeis o que se passava então no paiz que ellas abandonavam para supprir as insufficiencias dos governos da Inglaterra, da França, da Sardenha e da Turquia? Dir-vo-lo-hemos. Em França, dos doze milhões de desgraçados cuja alimentação consiste apenas em centeio, batatas e agua, e que em grande parte vivem em casebres infectos[18], morriam de fome e de miseria oitenta mil pessoas, só no decurso de 1855! É uma auctoridade insuspeita, o chefe actual da repartição de estatistica em França, que no-lo assegura[19]. Onde era o posto da irmã de caridade francesa no meio de tantos infortunios? Era na patria, ou nos acampamentos do Oriente? Era ao pé do soldado, ferido ou doente, mas de constituição robusta e de animo féro, vigiado, acariciado pela previdencia sollicita dos poderes publicos, ou na aldeia, no casal solitario, na agua furtada do operario fabril, ao pé da enxerga do velho, da mulher, do infante, nús, esfaimados, esquecidos do mundo, abandonados pela caridade publica, e enviando, talvez, no ultimo alento um grito de maldicção á sociedade? Se, educadas antes de se descobrir em França, que toda a mulher deve aprender nos primeiros annos a executar os artefactos proprios do seu sexo, não podiam trabalhar de noite e dia para ministrar aos extenuados e quasi moribundos, não confortos, não carinhos, não suavidades, mas simplesmente um bocado de pão negro que devorassem assentados no atrio da morte, podiam ao menos forcejar para que o ultimo suspiro delles não fosse um grito de desespero, mas um murmurio de resignação; podiam ir pelas portas do palacios sumptuosos implorar a piedade dos ricos; pelas moradas da devoção opulenta pedir-lhe que fechasse por minutos o _Mez de Maria_, para ler algumas paginas d'um livro plebeu chamado o Evangelho, que bastou para inspirar todas as virtudes, todos os heroismos do mais ardente amor do proximo nos seculos primitivos do christianismo. Os preceitos do livro plebeu podiam cumprir-se em França. Não sabemos se foram cumpridos no Oriente.
O que sabemos é que a piedade com o infortunio, exercida obscuramente, no casebre, na mansarda, nos recèssos onde se occultam as grandes miserias, vê-a sómente Deus. A Criméa, Athenas, Varna, Gallipoli eram proscenios diante quaes se assentava espectadora a Europa, e a reacção sabe o que valem as artes scenicas. O theatro tentava! Se não servia excessivamente a humanidade enviando as irmãs de caridade ao Oriente, o lazarismo escrevia um magnifico thema para as pareneses dos seus missionarios, quando tractasse de as introduzir e de se introduzir, á sombra dellas, em qualquer paiz, onde a reacção carecesse do seu auxilio.
Aggredida, não só desde o primeiro dia da sua existencia, mas, até, ainda antes de se constituir, a Associação Popular Promotora da Educação do Sexo Feminino precisava de mostrar a sua opportunidade, a sua indole e os seus fins. Para isto cumpria traçar rapidamente a historia da reacção nos ultimos dez annos. Essa historia revela o progresso constante da idéa reaccionaria, a sua pertinacia e as suas victorias. Os factos provam que o partido liberal necessita, emfim, de acordar do seu longo torpor, e essa necessidade justifica a existencia desta Associação. Os anteriores triumphos dos sectarios de toda a especie de despotismo tem sido daquelles que um governo firme e esclarecido póde facilmente inutilisar em qualquer tempo. A perversão, porém, das gerações novas, sobretudo a perversão do espirito das mulheres, produz consequencias fataes, duradouras, e difficeis de extirpar. No homem, a instrucção superior e a experiencia do mundo corrigem às vezes as idéas falsas, as más tendencias da primeira educação. Á mulher faltam de ordinario esses dous auxilios. Vehiculo seguro da peçonha que lhe instilou no entendimento a maldade, vai, sem o saber nem o querer, propiná-la no seio da familia aos que entranhavelmente ama. Persuadida uma vez de que as abusões e os actos mais contrarios à indole grave e servera do christianismo são condições da vida religiosa, não ha superstição, nem crendice que não imprima, com a quasi indestructibilidade das primeiras impressões, em animos innocentes, que ella, na sinceridade do seu coração, crê guiar pelo caminho do céu. Corrompe, logo a dous passos de berço, o infante regenerado pelo baptismo; torna moralmente rachitico o que, como christão e como homem social, deve ser moralmente forte. Da juventude até a velhice vai semeando na terra o mal e o erro, e morre tranquilla. Morre tranquilla com razão; porque foi apenas o baculo na mão do cego, a lima na mão do obreiro, o punhal na mão do assassino.
É da educação que póde dar e receber a mulher que a reacção tende a apoderar-se introduzindo em Portugal as irmãs de caridade francesas. Nos asylos da primeira infancia a mestra substitue a mãe; na eschola do sexo feminino educam-se as que hão de ser mães. Entregae esse asylo e essa eschola á influencia de congregações fortemente constituidas, e hoje arregimentadas para combater o liberalismo, e calculae como pensarão daqui a vinte annos as gerações novas, e o que será feito, d'ahi a outros vinte, da liberdade politica e do verdadeiro christianismo.
A Associação Popular Promotora da Educação do Sexo Feminino deplora a fraqueza dos poderes publicos diante dessa tentativa audaz; lamenta que não haja nesta terra quem fale em nome do direito natural, da constituição, das leis e da sociedade; que os Thomés Pinheiro da Veiga, os Josés de Seabra, os Pereira Ramos não tivessem successores; que não se alevante uma voz auctorisada pelo seu cargo para revocar os governos e os funccionarios ao sentimento do proprio dever. Pessoa moral particular, composta de simples cidadãos, esta Associação não póde nem quer substitui-los; limita-se a repellir o empenho ultramontano na esphera de acção que as instituições lhe concedem. Busca oppor o asylo liberal, a eschola liberal, ao asylo ultramontano, á eschola ultramontana. A lucta não é nem facil, nem ingloria. Independente das suas allianças, publicas e secretas, e do pensamento politico que servem, os humildes missionarios de S. Vicente de Paulo não são adversarios de desprezar. Se não brilham, como nunca brilharam, pela sciencia, tem outra força que a vale. Rotschilds das congregações religiosas, dispõem de milhões, prudentemente empregados nos fundos publicos de diversas nações da Europa, e adquiridos nas pias especulações do commercio e da industria[20]. Não é inglória a lucta para manter o _escandalo_ de não ser representada nas assembléas geraes da congregação lazarista a _provincia_ de Portugal[21].
Dizem-nos que viemos tarde; que outras associações nos precederam no empenho da educação. Cremos, apesar disso, que viemos a ponto. Não temos a pretensão de havermos inventado a eschola; não temos mais enthusiasmo pelas escholas do que por outro qualquer meio de civilisação moral ou material. Não nos associámos até aqui para as fundar, pela mesma razão porque não nos associámos para construir estradas, ou caminhos de ferro, ou caixas economicas, ou bancos ruraes, ou presepes da infancia no berço. A lei do paiz impõe a todos os cidadãos o dever de mandar seus filhos á eschola, e obriga, portanto, o estado a subministrar-lha. Pagamos os tributos, e nunca prohibimos aos nossos mandatarios que votassem amplamente os recursos pedidos para quaesquer institutos de educação publica que reputassem necessarios ou uteis. Fiámo-nos nas leis, nos governos, nos parlamentos. Podiamos instituir escholas como especulação: não quizemos especular no genero. Se intentamos fundá-las hoje, é como instrumento politico; é porque a reacção caminha ha dez annos de conquista em conquista, e aggride agora a liberdade por um lado perigosissimo. O procedimento dos poderes publicos durante dez annos e as suas tristes hesitações na actual conjunctura legitimam, sanctificam a nossa resolução; porque se tracta do envenenamento moral da sociedade pelo envenenamento moral da familia. Uma lei desta terra, uma lei de sete seculos, uma lei cuja duração representa um profundo sentimento de honra, diz que se póde ser homicida sem crime quando a prostituição do adulterio vai ennodoar o seio da familia[22]. É que a familia é a molecula social, e gangrenada ella, a sociedade esphacela-se n'um monte de podridão. Vamos muito menos longe que a lei. E todavia o perigo é maior; porque nos seminarios da reacção não se hostilisa só a liberdade: ensina-se tambem a revelar á donzella e á mãe de familia delictos mais monstruosos que o adulterio. Defendemos nossas mulheres, nossas irmãs nossas filhas: defendemos as mulheres, as irmãs e as filhas dos que hão de vir depois de nós. Onde estará aqui o crime, a violencia, o erro, o motivo sequer de suspeição? Não dissimulamos, não tergiversamos; a nossa linguagem é simples e explicita como as nossas intenções.