Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 01
Part 6
Mas que é este crime, comparado ao daquelle que vende a patria? Esse, não vende o progenitor sómente: vende a familia, os ossos de avós, a fonte do baptismo, a cruz do cemiterio; vende as saudades, os affectos e as esperanças de todos os seus irmãos.
E todavia, nos conciliabulos dos tribunos proclama-se que no anniquilamento está o segredo da nossa futura grandeza. Rebeldes de sete seculos, seremos applaudidos e respeitados no mundo, quando, de joelhos perante os nossos orgulhosos senhores, fizermos penitencia do glorioso delicto de mais de vinte gerações de antepassados!
São homens destes que as turbas insensatas victoreiam!
Cegou Deus a intelligencia do povo, porque o quer perder; porque o afastou de sob as azas da sua Providencia amorosa.
E por isso a visão do sepulchro me foi mandada, e vi cerrar-se a campa da eternidade em cima da derradeira epocha da monarchia de Valdevez, de Aljubarrota, e de Montes-Claros.
XVIII
Povo desvairado, doe-te de ti proprio. Sabes, acaso, a quem os homens das trevas pretendem submetter-te e a teus filhos e netos?
Dir-to-hei, oh povo, para que nos futuros momentos de afflicção não digas ao Eterno:--Senhor, salva-me, porque eu não soube o que fiz!
Odio de sete seculos te separa desses futuros senhores: vinte batalhas, em que os teus cavalleiros venceram os seus, jazem não vingadas nas suas recordações.
Houve tempo em que elles poseram o pé no collo de nossos maiores, e a vida destes foi durante esse periodo tecida de amargura e de infamia.
Então, além do oceano, nos campos de tua gloria, sentia-se um ruido incessante. Eram as tuas fortalezas que desabavam; eram as tuas naus que se affundiam; era o teu poder que expirava.
Nas veigas, o arado ficava esquecido no meio do sulco, e no prado e no monte os novilhos mugiam debalde pelo seu guardador:
Porque os mancebos eram levados a combater em paizes remotos, para sustentar a tyrannia de seus senhores, e, novo genero de ludibrio, tambem oppressos, quinhoavam as maldicções lançadas sobre os oppressores da sua patria.
Á viuva e ao orphão era arrebatado o obolo do tributo, e este ia accumular-se nos cofres dos extranhos e servir, depois, ao luxo e á devassidão.
O soldado hespanhol estava em pé, encostado á lança, juncto ás ameias de nossos castellos, e o escravo português que passava ao sopé dos muros pregava os olhos no chão, e a dor acabrunhava-lhe o espirito.
As cidades foram saqueiadas, os patibulos ergueram-se, os homens de valor e virtude derramaram-se pela face da terra.
Mas os portugueses lembraram-se um dia de que o eram, e levantando os braços para o céu, com os grilhões que lh'os roxeiavam esmagaram os craneos dos oppressores estrangeiros.
E breve os campos da Hespanha talados, as suas aldeias arrasadas, os seus valentes postos á espada, pagaram injurias de sessenta annos.
E na terra adubada com cinzas e sangue se lançaram sementes de malevolencia perpetua entre as duas nações.
Ai de nós, ai da patria, se o leão da Iberia podesse rugir solto pelas nossas montanhas, e vir acoutar-se debaixo de nossos tectos!
E isto é o que pretendem os destruidores da liberdade, os suscitadores da anarchia.
Saúde pois o povo os tribunos e obedeça-lhes, emquanto elles não consumam a sua abominavel obra; emquanto o não entregam, como um rebanho de ovelhas, nas mãos dos seus futuros algozes.
Nós, os que não nascemos para a servidão, ergueremos as campas de nossos paes, e ricos com estes restos queridos, iremos depositá-los debaixo do cypreste do desterro.
Não, o hespanhol orgulhoso não calcará as cinzas dos nossos valentes, embora possua esta terra corrupta e serva; embora venha riscar da face della todos os monumentos dos seculos da nossa gloria.
XIX
Tal é, oh povo, o futuro que para ti guardam os teus tribunos no thesouro de maldade de que são ricos os seus corações.
Tu gemerás captivo e não ousarás queixar-te; e as orações e as lagrymas das tuas noites de tribulação e vigilia não romperão os céus, tornados para ti de bronze.
Eis porque os filhos da perdição suscitaram no teu seio o grito da guerra civil: foi para que a espada da fratricidio devorasse os teus fortes, e se fartasse e embriagasse com o sangue delles.
Para que, inerme e enfraquecido, estendesses os braços ás cadeias e curvasses o joelho ante aquelles de quem receberam o preço da tua liberdade.
Acaso poderão negá-lo?--Não: porque o mysterio da iniquidade foi revelado, e a voz que o patenteiou era bem alta, e resoava desde o Tejo até as alturas dos Pyrenéus.
Crê, agora, plebe illudida, crê que os homens que te vendem a extranhos, melhor te venderiam a um tyranno domestico.
Crê que se homens taes fossem a unica barreira alevantada entre ti e aquelle que nós expulsámos e tu maldisseste em teus hymnos populares, semelhante dique fora facilmente transposto pela torrente das vinganças do despotismo.
Que um pouco de ouro se espalhasse, e as comportas que rebatem o oceano de sua cólera seriam por elles abertas de par em par, para te mergulharem em um pélago de agonias.
Tu os verias até combater por soldar o sceptro de ferro que quebrámos, se nessas almas mesquinhas houvesse valor para escutar o silvo do pelouro, para ver o lampejar da espada erguida.
Ouvi-los-hia protestar que as suas mãos estavam puras do sangue vertido nas luctas da liberdade, nas luctas de um contra dez; que entre si e esse cantinho de Portugal revolvido durante um anno pelas bombas e granadas, varrido pela metralha, fustigado pelo granizo das ballas, visitado longamente pela fome e pela peste, tinham mantido com esmero a moderada distancia que medem as solidões do oceano.
E falariam verdade; e sería porventura o unico dia da sua vida hypocrita em que assim o fizessem.
XX
N'uma visão ajuncta Deus o passado e o futuro; porque para elle não existem nem espaço nem tempo. Visão, pois, do Senhor foi a que se me representou.
Parecia-me ver uma grande cidade: rodeiavam-na antigos muros e baluartes, cruzavam-se ruas estreitas e tortuosas dentro do seu ambito, semelhantes á rede do pescador, e, por entre uma selva de edificios humildes, surgiam, aqui e acolá, torres ponteagudas subtilmente lavradas, e templos alumiados por frestas esguias ornadas de vidros corados, que reflectiam o sol occidental em espectros de luz variadissima.
Grande numero de cavalleiros corriam pelas praças, e iam armados de elmos e saios de malha e grevas de aço, que scintillavam, e nos seus olhos e faces assomavam espíritos valorosos.
E os campos circumstantes estavam cultivados, e a cruz plantada em todos os termos dos caminhos e em todas as encruzilhadas.
E conhecia-se nos rostos dos homens que passavam pela cidade e pelos campos que em seus corações havia virtude e contentamento.
E proxima desta povoação estava outra muito mais aprazivel no primeiro aspecto: as suas ruas eram espaçosas: aformoseiavam-na os jardins e hortos, e surgiam no meio della nobres e opulentos edificios.
Viam-se ainda ahi alguns templos, mas arruinados e solitarios, e como que monumentos da queda de toda a crença.
E os campos que se dilatavam ao redor della estavam áridos e ermos. Nem uma só cruz lá se descobria.
E os homens passavam silenciosos uns por outros. Das almas, turbadas por paixões tempestuosas e por crimes, subiam-lhes ás frontes annuviadas, em ondas de sombras, os escuros pensamentos.
E estas duas cidades eram a imagem dos tempos que foram e dos tempos que hão de ser.
XXI
E na cidade do passado os coruchéus e eirados dos seus apinhados edificios eram para os meus olhos, que divisavam tudo quanto se passava no interior dos aposentos, como o crystal translucidos.
Em uma das quadras de um desses edificios estava um velho, e derredor delle suas filhas, que o cercavam de amor.
E ao canto via-se um arnez, por muitas partes falsado e roto, e um elmo abolado e com as enlaçaduras quebradas. Só ahi faltava uma espada.
E quando eu considerava este velho guerreiro rodeiado dos seus e as alfaias e os adornos desta habitação tranquilla; quando bebia o halito de paz que tudo ahi espirava, um mancebo armado entrou na sala: na cincta trazia mettido um estoque largo e curto, espada do homem valente, cujo punho em cruz lhe assentava sobre o coração.
E dos labios das donzellas partiu um grito: este grito dizia que o mancebo era seu irmão. Abraçando-o, os olhos se lhes arrasavam de lagrymas.
O velho ergueu a cabeça e olhou com aspecto severo para o soldado, que se aproximou de seu pae, como se estivera perante o seu juiz.
Fronteiro d'Africa!--disse o ancião--posso acaso abençoar-te como filho, ou cubriste de infamia o meu nome e a minha espada? Quaes foram teus feitos no serviço da patria, da religião e do rei?
E o moço, calado, desenlaçou a couraça e, afastando as roupas que lhe cubriam o peito, mostrou as cicatrizes de golpes da lança do arabe e do alfange mourisco.
E o velho, alevantando-se tremulo, contava-as, e as lagrymas também lhe banhavam o rosto, e depois apertou o filho entre os braços por largo tempo.
D'ahi a pouco, armas ainda não ferrugentas estavam encostadas ás do ancião no angulo da sala, e afóra ellas, via-se lá uma espada.
E esta familia era feliz; porque havia ahi virtude, honra e amor filial e fraterno.
Mas esta parte da visão passou, como um sonho formoso; como os homens virtuosos dessas epochas, sobre os quaes dorme o silencio dos tempos que já não são.
XXII
E o espirito de Deus collocou-me sobre a moderna cidade.
E aos meus olhos estavam patentes os segredos domesticos e a vida intima da sociedade, e observando-os, o coração me desfallecia á vista de tantas abominações.
Via a corrupção em quasi todas as familias; crimes em grande numero dellas; temor de Deus quasi em nenhuma.
E clamei ao Senhor na minha afflicção, e disse-lhe:--Oh meu Deus, porque abandonaste este povo?
E dos céus me foi respondido:--O povo é que abandonou os caminhos da salvação e se afastou de sob as azas da piedade divina.
O perjurio foi sanctificado pelos que se chamaram eleitos do povo, e este os victoriava quando elles assim quebravam o mais forte vinculo social, e preparavam a quéda da republica.
A religião avíta apresentou-se ás portas do senado, pedindo a esses homens soberbos a deixassem subsistir neste paiz desgraçado, para enxugar lagrymas de desditosos e ser a ultima esperança daquelles que perderam todas as outras.
Porém, como prostituta vil, a religião de nossos paes foi coberta de motejos, e, entre risadas, lançada fóra do sanctuario das leis.
E houve ahi quem dissesse:--Que temos nós com Deus?--E as turbas approvaram o dicto.
E o Dominador dos orbes respondeu:--Nada terei comvosco!
E o universo tremeu a estas palavras, que logo foram escriptas no livro da morte.
Ai daquelles que romperam o pacto do Creador com a creatura: ai daquelles por cuja bôca falou o espirito das trevas. A blasphemia cahirá sobre a cabeça dos blasphemadores; e o sepulchro lhes dirá onde é a patria dos que motejam de Deus!
E esta voz de cima acabrunhou-me o coração; porque não sabia como desculpasse perante a Providencia os peccados do povo. O anáthema estava lançado, e a consciencia me dizia que o céu tinha sido justo: nem ousei implorar outra vez a misericordia divina.
Então olhei para a cidade que me ficava debaixo dos pés, onde sussurrava um ruido de vida, mas ruido semelhante ao de mar procelloso e ameaçador de naufragios.
E só descobri rixas e bandos civis, e assassinios atraiçoados e dissoluções, e o roubo e a embriaguez.
O filho passava por juncto do feretro materno, que homens pagos levavam com escarneos ao campo do esquecimento, e perguntava o nome desse cadaver.
Juncto ao leito de pae moribundo, as filhas entregavam-se á prostituição, e ao velho, morrendo, era ultimo sentimento o do opprobrio.
Longa era esta scena de crimes, e parecia-me que fechava os olhos para não ver tão horrivel espectaculo. Neste momento a visão desvaneceu-se, e achei-me banhado em suor frio e repassado de amargura.
E por impossivel tinha que tão negro futuro houvesse nunca de verificar-se: mas subito ouvi muitas vozes que diziam:--Guerra á religião do Christo!
Então cri na visão que o Senhor me enviara, e apagou-se-me na alma o ultimo clarão de esperança.
THEATRO-MORAL-CENSURA
*1841*
Quando, vencidas difficuldades que pareciam insuperaveis, o theatro parece renascer entre nós na sua parte litteraria; quando, até, se affiguram grandes probabilidades de vermos alevantar um edifício consagrado á arte dramatica, onde este genero de litteratura possa ficar a salvo daquella especie de ergastulo hediondo e triste a que poseram por irrisão a alcunha do Theatro Normal; Gerião, cuja ossada se esphacela debaixo da sua triplice face de taberna, de emunctorio das ruas, e de prostibulo; quando todos os homens de letras e todos os que as amam forcejam para que nesta formosa arte vamos algum dia emparelhar com as outras nações, nenhuma questão que venha a suscitar-se acerca do assumpto será insignificante ou indifferente, porque nella interessam a vida intellectual do paiz, a sua civilisação e o seu bom nome litterario. Mas se essa questão, além de importar á arte dramatica, envolver o interesse da moral publica, considerá-la e dar opinião sobre ella é obrigação daquelles a quem Deus deu intelligencia para a comprehender e razão para a avaliar. Ora, enquanto se forceja para elevar e restaurar litteraria e até materialmente o theatro nacional, vemos o drama decahir, prostituir-se moralmente cada vez mais. Cresce todos os dias a indignação da gente honrada contra os espectaculos que sobem á scena, orgias da arte, se arte se pode chamar a quadros onde ha, não o sublime de paixões mais ou menos perversas, o sublime do horrível, mas o torpe, o asqueroso dos vicios mais vis. Cumpre que a imprensa seja orgam desta indignação; que busque a origem e o remedio do mal. A sua mais alta missão é contribuir para que a sociedade se melhore e civilise, e o theatro pode ser um poderoso instrumento de civilisação.
Mas como desempenhará a imprensa este grave dever? Como se opporá a que o theatro seja uma eschola de corrupção, devendo ser um logar de puro e innocente deleite? Como fará rasgar por uma vez esses cartazes, que, affixados nos logares públicos, só trazem á memoria, pelos titulos dos dramas que annunciam, as taboletas dos alcouces romanos desenterrados em Pompeia? Fulminará os desgraçados histriões, machinas de aleijar as verdadeiras obras d'arte, e de peiorar semsaborias; títeres de carne e osso, incapazes de comprehenderem a sua nobre arte, e de resistirem ao estragado gosto de quem os dirige, e não sei se diga, ao mais estragado da plateia? Não: deixae-os; porque são existencias inertes, impalpaveis para a imprensa, traça do drama, da linguagem, do senso commum; pagos para roer as concepções da intelligencia sobre quatro taboas velhas, ao passo que o caruncho os vai imitando na substancia destas. Deixae-os, pelo amor de Deus! Punirá com o açoute do epigramma os empresarios e directores dos theatros? Ainda menos. Um empresario é um individuo inexplicavel e inclassificavel: é uma abstracção de todas as idéas, de todas as crenças, de todos os affectos: a sua éthica é o _livro de razão_, o seu evangelho o da _caixa_; o seu culto o da _cruz_, mas da cruz dos cruzados novos; o seu destino, além do sepulchro, o _limbo_. Não acrediteis na possibilidade de os constranger a despregarem os olhos destes tres objectos, que, junctos aos farrapos dos bastidores e ao oleo fétido das lanternas do proscenio, constituem o seu universo. Deixae-os tambem; que para elles, que não querem, nem sabem, nem podem ler, a imprensa é como se não existisse, e as suas reprehensões mais amargas, as suas ironias mais pungentes não os distrahirão um momento da contemplação beatifica das moedas que rende em cada noite um estabelecimento industrial de prostituição para familias honestas. Seja quem for o empresario de qualquer theatro, não se abalance a imprensa ao louco empenho de convertê-lo. Que pessoa tentou jamais educar e instruir um surdo-mudo-cego de nascimento?
Contra quem pois alevantará a imprensa a sua voz solemne? Contra as auctoridades propostas aos espectaculos dramaticos? Não; porque posto que revestidas de um poder arbitrario, acima dellas ha tambem o arbitrio, que lhes inutilisa a energia moral, quando tentam usar della a bem da decencia publica; e porque, impossibilitadas de julgar por si essa alluvião de asquerosidades que diariamente sobem á scena, e além disso obrigadas por lei a ouvir sobre cada uma dellas o parecer de tres censores, que podem julgar bem ou mal, não se lhes ha de lançar em conta uma culpa que não é sua. Nenhum homem de alguma gravidade se quizera submetter a passar dias, mezes e annos inteiros quasi asphyxiado n'uma atmosphera de sandices, pelos mais avultados proveitos do mundo, e muito menos gratuitamente, como servem os inspectores do theatro.
Quem resta por tanto para accusar? Os censores?--Parece-me ouvir a muitos daquelles que acham mais commodo invectivar individuos do que avaliar instituições, dizerem que sim. Eu todavia respondo:--Não; mil vezes não! Brevemente se verão os fundamentos da minha negativa.
Não sendo, porém, culpados nem os histriões, nem os bufarinheiros de rosalgar moral chamados empresarios, nem os inspectores, nem os censores, onde estará a causa de um mal de que todos se queixam, e a que ninguem busca o remedio nos thesouros inexgotaveis da reflexão e do raciocinio?
Essa causa está n'uma instituição anachronica, absurda, insensata, attentatoria da liberdade intellectual do engenho humano, e além disso, perfeitissimamente inutil.
O mal não vem dos homens: vem das cousas: vem de uma parvoice legal: vem da _censura prévia_.
O remedio só lh'o póde dar um parlamento que queira pensar cinco minutos nesta materia.
Á luz politica, a censura prévia applicada ao theatro é um attentado tão flagrante como applicada á imprensa. Todas as constituições existentes e possiveis consagram a liberdade do pensamento e a livre communicação das idéas. O theatro é, como a imprensa, como as artes plásticas, um meio de communicação. Uma representação scenica é um livro impresso em tantos exemplares quantos são os espectadores, com a unica differença de que estes exemplares se apagam acabada a sua leitura. O principio da liberdade do espirito é tanto ou mais sancto que o da liberdade da terra: não soffre excepções, porque, se as soffresse, desceria da categoria de principio para a classe das regras transitorias da vida civil. Onde quer que appareça a censura, onde quer que se aninhe esta irmã gémea da inquisição, ha uma quebra nos foros da independencia do homem, ha uma insolencia do passado contra a dignidade social da geração presente. Seja para o que for, a censura é um impossivel politico.
Contra o impossivel não ha razões de utilidade. As mais evidentes considerações de conveniencia deveriam cahir diante da immutabilidade dos principios; porque não ha meio termo entre o renegar do progresso humano, e o respeitar sempre e em toda a parte os elementos fundamentaes das sociedades modernas.
Mas existem, porventura, taes conveniencias? A censura do theatro--dizem os defensores dessa cópula sacrilega e bestial de uma instituição cadaver com as instituições vivas e actuaes--é uma necessidade: melhor é prevenir que castigar: o castigo dos que abusarem deste modo de publicação não impedirá que elle tenha já produzido a corrupção: sem censura póde, até, attentar-se contra a segurança do Estado: no anno de tal em Paris, em Bruxellas, na Haya, emfim não sei onde, um drama recheiado de maximas subversivas produziu tal assuada, tal motim, tal revolta.--Eis as excellentes razões, pouco mais ou menos, com que se defende a existencia de um absurdo.
Estes argumentos são a apologia, não da censura do theatro, mas de toda a censura; da censura do drama, como do livro ou do jornal; e ainda mais destes; porque o exemplar da publicação scenica deixa de existir apenas cahe o panno; mas do livro ou do jornal impressos, embora sequestreis os volumes ou os numeros não vendidos, os exemplares derramados do primeiro golpe lá ficam no dominio publico; milhares de individuos os lerão, e com tanto maior avidez quanto mais severa houver sido contra elles a condemnação dos tribunaes.
A desculpa da prevenção nos attentados legaes contra os principios vai mais longe: vai até a inquisição, se quizermos ser logicos. Um homem é conhecido por suas opiniões anti-religiosas: este homem é imprudente, voluntarioso, ousado: nada mais facil, mais provavel que o vermo-lo cahir na culpa de não respeitar a crença do Estado, de a insultar publicamente. Á cautella, creae-me uma inquisiçãosinha illustrada; uma inquisição progressiva, arejada, sem polés, nem potros, mas preventiva e paternal, onde o incredulo, entre sermões, pão negro arraçoado e agua benta, seja inhibido de commetter um crime, previsto na lei politica do mesmo modo que o abuso da liberdade de escrever e de falar. Apostolos da censura prévia, em nome da logica, dae-me a sancta inquisição.
Deixemos, todavia, as duas bagatellas dos principios e da logica. Venhamos ao campo da experiencia. A censura ahi está. Que tem ella feito, não digo já entre nós, que palpamos todos os dias os bellos effeitos da instituição; mas na França, na Belgica, na Hespanha? Onde tem impedido a prevaricação do theatro? Respondei-me.
É um dos argumentos mais triviaes e mais lastimosos que se fazem a favor desta monstruosidade inutilissima o exemplo da França. D'antes, em Portugal, para fazer uma lei, o que se indagava era se ella convinha ao paiz. Ha annos a esta parte entendemos que era mais judicioso ver se convinha aos outros povos. Esta abnegação completa da intelligencia nacional poderá conduzir-nos ao céu pelo caminho da humildade; mas tem-nos arrastado cá na terra a muita vergonha legal.
A verdade é que em França os homens independentes e illustrados clamam tambem contra a censura prévia do theatro, porque é attentatoria e inutil. Quereis a prova da sua inutilidade no vosso paiz modelo?--Ahi a tendes á mão. D'onde nos vieram as _Torres de Nesle_, as _Proesas de Richelieu_, e todas as mais prostituições litterarias da nossa pocilga dramatica, chamada theatro normal? Vieram-nos dos repertorios dos theatros de Paris: atravessaram pela censura de Mr. Taylor ou dos seus delegados, como em Portugal passaram sans e escorreitas pela censura do Conservatorio. Lá, como cá, a censura é um phantasma de que todos se riem, e que só serve para descarregar os hombros dos empresarios, auctores, e traductores dramaticos da responsabilidade moral e legal dos seus envenenamentos litterarios.
É realmente uma das pequices mais desmarcadas falarem-nos das commoções populares excitadas n'uma plateia. Quando a revolução vai assentar-se nos bancos do theatro, não busqueis a sua origem nas palavras energicas do poeta: buscae-a na frouxidão ou na maldade do poder. Sob um governo forte e justo, uma revolução no theatro não passaria de comedia representada áquem do proscenio. Mas, além disso, onde achaes os exemplos de semelhantes factos? Justamente em alguns dos paizes onde existe censura prévia. Como o capitão de Luiz de Camões, que não cabia em nada, sancta gente, vós não cahis em que esse argumento é uma punhalada na vossa querida censura?