Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 01
Part 5
E ao longe scintillavam os ferros das lanças e o bronze dos elmos e dos cossoletes, e ouvia-se o nitrir dos cavallos.
Surgira o dia extremo para a cidade das maravilhas, para a reproba Solima. E d'alli a um anno, sobre as ruinas della estava assentado um velho.
Era o propheta de Anathot, que, em cima da ossada dos palacios e do templo, entoava uma elegia tremenda, a elegia da sua nação.
IV
Tambem o dia em que, entre os vestigios da cidade maldicta, algum vate levante um grito de agonia, um grito de desesperança, não tardará a chegar.
Porque Deus ergueu-se no seu furor, e mandou descer sobre este paiz o anjo do exterminio.
Mais cruel será o teu castigo, oh terra do meu berço, do que o de Jerusalém: porque ella pereceu a mãos de extranhos, e seus filhos morreram defendendo os lares paternos.
Mas a ti é um matricidio popular, é a febre ardente das sedições que te vae arremessar ao sepulchro.
Os teus muros converter-se-hão em circo: pelas praças e ruas pelejar-se-hão pelejas como de gladiadores, combates como de mastins e feras.
Porque o temor de Deus saiu do coração do povo, e entraram nelle todas as raivas do inferno.
Aspero é para o que morre assassinado não poder clamar ao céu justiça contra o seu matador.
E neste mau caso cahirá o povo; porque serão as suas proprias mãos que lhe rasgarão as entranhas: será elle quem lavre a sua sentença de morte.
Elle se amaldicçoará a si, e o remorso e a desesperação de toda a humana piedade lhe dobrarão as agonias do passamento.
V
Os que pelejaram contra os tyrannos purpurados mal sabiam que lhes quebravam o sceptro de ferro, para metter a espada da assolação na dextra de tyrannos cobertos de vermes e farrapos.
Mal pensavam que uma raça corrupta não conhece outra estrada senão a da servidão ou a da licenciosidade.
A nação, esmagada pelos reis, tinha muito tempo gemido debaixo da propria miseria.
Mas surgiu um principe que deu a liberdade ao povo e que veio morrer para lh'a restituir, quando elle vilmente a deixou baqueiar por terra.
E estes homens, que pouco antes haviam dobrado o joelho perante o despotismo, mostraram-se tão orgulhosos e insolentes, quanto, até então haviam sido abjectos e timidos.
E n'uma orgia popular fizeram resoar gritos insultuosos nos ouvidos daquelle que duas vezes os libertara, e invocaram-lhe a morte. Nesse momento longe estavam os seus soldados, e muitos delles arquejavam moribundos no campo onde se pelejou a ultima batalha da patria.
Em verdade vos digo que tal crime é dos que Deus não perdoa; porque a ingratidão é a mais horrenda de todas as perversões humanas.
Elles apressaram o repouso do tumulo para o salvador da republica: mas o nome de parricidas será o que sobre a jazida lhes escreverá a historia.
VI
O sonho da liberdade, o sonho da minha juventude, esta fonte da poesia e de acções generosas, converteu-se para mim n'um pesadello cansado.
Digno era o povo de compaixão quando estava em ferros, e por bom feito se tinha entre as almas puras o affrontar-se o homem com a morte pela salvação dos seus semelhantes:
Porque, subindo ao patibulo ou expirando entre o estrondo das armas, a voz da consciencia assegurava ao que fenecia as lagrymas e as bençãos dos vindouros, e que algum dia cyprestes se plantariam na terra que lhe bebesse o sangue.
Mas isto era crer na virtude popular: era apenas um sonho, e a consciencia mentia.
A corrupção estava no amago das existencias. A arvore da vida social carcomiu-a a servidão. Cumpria que as tempestades politicas a derribassem; que os vermes da sociedade lhe roessem e desfizessem os troncos.
E estes vermes são as turmas de uma plebe invejosa, que incessantemente trabalham na grande obra da publica destruição.
Almas virtuosas, que nos paizes ainda escravos preparaes no silencio a queda dos tyrannos, não apresseis o grande dia da emancipação popular.
Porque nesse mesmo momento sereis amaldicçoados pelos que salvastes, e cubertos de escarneos e de injurias, sabereis que a plebe lança em poucos mezes mais crimes na balança da eterna justiça do que os tyrannos ahi hão lançado por seculos.
VII
Certo dia, o conde de Avranches entrava nos paços de Affonso quinto, e os cortesãos calumniavam sem pudor o bom duque de Coimbra, o salvador da republica.
E o conde disse-lhes:--mentis, como desleaes; e aos melhores tres de vós prova-lo-hei á lança e á espada: innocente e justo é o mui nobre filho de meu senhor e rei, Dom João de excellente memoria.
E ninguem ousou responder ao velho cavalleiro da Garrotéa; porque bem sabiam que a sua consciencia era pura e o seu montante pesado.
D'ahi a alguns dias elle provou o dicto. Na batalha de Alfarrobeira, sobre um montão de cadaveres, cahiu defendendo a innocencia e bom nome do seu desventurado amigo.
Onde estavam os do valente capitão da nova Diu, do rei soldado da patria, quando o vulgacho no meio da praça publica, assentado no seu lodaçal mandava derrocar as leis, as recordações e a gloria d'uma nação inteira?
Onde estavam os amigos de D. Pedro, quando a memoria do grande homem era amaldicçoada na condemnação da sua obra; quando sobre as suas cinzas a dissolução cuspia escarneos; quando a liberdade morria ás mãos da licença popular?
Quem se ergueu, seguro em boa consciencia, para lançar a luva em defesa da justiça, e dizer ás turbas:--sois desleaes e mentis?
Ninguem! Todas as espadas ficaram embainhadas. Em Portugal já não ha um cavalleiro. Na batalha de Alfarrobeira morreu o conde de Avranches, e a sua espada foi sepultada com elle.
VIII
Quando os reis se assentavam em thronos de ferro; quando a lisonja os rodeiava de prestigios, e o terror estava assentado ás portas dos seus palacios, era bello e generoso affrontar-se o homem com a tyrannia e menoscabar as dores dos supplicios.
Então era ousado o propheta, quando, nos paços de Balthasar, lia nos muros, escriptas pela mão de Deus, palavras de condemnação.
Eram sublimes os martyres, quando perante os cesares davam testemunho do evangelho, e escarnecendo dos apparelhos de morte, se deitavam tranquillamente sobre a cruz da agonia.
Era bello ouvir o poeta de Florença trovejar contra a prostituta Roma, denunciar ao mundo a corrupção e os crimes dos pontifices do Tibre, e comer no desterro um pão eivado de lagrymas e esmolado por estranhos.
Era bello, quando nós, assentados sobre os gelos do Norte, saudavamos do desterro a terra que nos deu o berço, e vinhamos, fracos pelo numero, mas fortes de coração, lançar as nossas baionetas na balança da Providencia, onde a tyrannia tinha tambem lançado as suas.
Tudo isto era bello e generoso; porque então os pequenos gemiam oppressos debaixo dos pés dos grandes, e ao homem justo incumbia fazer resoar na terra a voz da eterna justiça, o grito da liberdade.
Mas hoje que a plebe reina e, como ampla voragem, ameaça tragar a virtude, a liberdade, a justiça e todas as recordações sanctas do passado, para o homem de boa consciencia sê-lo-ha, tambem, o morrer.
Sê-lo-ha o bradar no meio das turbas, e derramar sobre ellas a condemnação, que Deus confiou em todos os seculos aos labios do innocente e virtuoso.
Sê-lo-ha chegar aos tribunos populares, apontar-lhes para o céu, e apresentar a cabeça ao cutello dos lictores.
IX
Povo, hoje és tu quem impera, e absoluto é o teu poder; porque te dizes unica fonte delle.
Toma, pois, em tuas mãos a vara do magistrado, e assenta-te uma vez mais no teu throno, amassado com sangue e pó.
Vem assentar-te, e julga-nos, a nós, que tu maldizes, e aos tribunos, aos instigadores de tumultos, que cobres de amor e de bençãos.
Porque isto diz o Senhor Deus: se a plebe julgar com justiça, a plebe ainda será salva.
Desça o terror da tua vingança sobre o coração do que te houver offendido; volvam-se no pó as frontes onde tu achares estampado o ferrete do crime.
Recorre as acções da nossa vida, recorre as obras passadas das vidas dos teus tribunos, e por preço do perdão de Deus, julga-nos com justiça.
Quando tu jazias na servidão, e os grilhões, encarnando-se-te nos pés e nos pulsos, te roçavam pelos ossos, peleijavamos nós por te salvar; derramavamos o nosso sangue por ti.
Por ti viamos o irmão e o amigo morder o pó dos campos de batalha, e calavamos; sentiamo-nos descahir de fome, e não soltavamos um queixume.
Porque guardavamos os ais para o silencio das trevas. Soldados da patria, ousariamos acaso queixar-nos diante da luz do sol?
E elles, que faziam, emquanto as nossas noites eram veladas debaixo de um céu de ferro e de fogo, emquanto os nossos dias se consumiam entre o sibilar dos pelouros?
Elles? Nos lupanares e tabernas de paizes extranhos, folgavam nos banquetes da embriaguez; reclinavam-se no leito da prostituição.
Elles? Cubriam-nos de insultos, chamavam loucura e vaidade á nossa nobre ousadia, e riam-se do juramento que faziamos de morrer ou dar a liberdade a nossos irmãos.
Elles? Buscavam por todas as vias semeiar a zizania e os odios, damnar a nossa causa sancta, e fazer-nos perecer debaixo das ruinas de uma cidade illustre.
Eis o que elles fizeram em proveito da patria. No meio do foro, diante de teu tribunal terrivel, descubra quem o ousar o peito, e mostre e conte as cicatrizes das feridas que recebeu pela salvação da republica.
Um só delles as mostrará; porque esse foi valente e amigo da virtude. Anjo de luz, porque te despenhaste no abysmo?
A historia escrevia o teu nome na pagina das bênçãos: tu mesmo o riscaste e o foste escrever na pagina das maldicções................... ....................................................................... .......................................................................
X
Porém, debalde invocariamos justiça perante o tribunal popular; porque o povo é abastado de injustiça e ingratidão.
Os que estão cubertos de cicatrizes, os que foram longamente saciados de angustias por salvá-lo seriam condemnados, e os tribunos, os concitadores da anarchia, cujas obras unicas tem sido conduzir a patria ao abysmo da perdição, seriam absolvidos, seriam abençoados.
Embora: a nossa consciencia está tranquilla, e no grande dia é Deus quem a todos nos julgará.
Houve um propheta outrora em Israel, e chamava-se o Filho do Homem.
E este propheta amava os humildes e os pobres, e reprehendia os poderosos.
E condemnava os hypocritas da religião, e por isso era abominado pelos grandes e pelos sacerdotes.
Mas respeitava as leis, e ensinava a obediencia: mandava que se pagasse o tributo das duas drachmas do templo, e o tributo de Cesar.
E affeiava aos populares os seus vicios e abominações; e por isso era tambem malquisto da gentalha.
E, condemnado á morte pelos poderosos, o povo, a quem tinha trazido a luz e a vida eterna, o povo, que elle tanto amava, cubria-o de opprobrios.
E podendo salvá-lo do supplicio, antepunha-lhe um grande criminoso, e clamava aos algozes:--Pregae-o na cruz, e cáia o seu sangue sobre a nossa cabeça e sobre a cabeça de nossos filhos.
E este propheta era o Messias, era o redemptor do genero humano, era o filho de Deus.
Consolem-se, pois, aquelles que sobre os hombros tomaram o odio dos tyrannos por amor do povo, e a quem o povo paga com injurias e pragas.
Como Jesu-Christo, os hypocritas e os oppressores das nações abominam-nos: como a Jesu-Christo, o vulgacho cobre-nos de affrontas, e pede para nós aos seus tribunos a condemnação e o supplicio.
E que nos cumpre fazer para seguirmos em tudo o exemplo do Justo assassinado, do Deus que nos deixou na terra o consolo e a esperança?
Pedir morrendo ao Eterno Pae o perdão de nossos perseguidores e, como o divino Mestre, lançar á conta da ignorancia as culpas de corações corruptos.
Imitando o Salvador na cruz, seja um pensamento de benção o nosso pensamento extremo; porque o derradeiro suspiro do christão deve ser um murmurio de affecto grande para os que o amaram, mas ainda maior para os que o odeiaram e perseguiram.
XI
E ainda uma vez, filhos da perdição, ainda uma vez vos falarei em nome do Senhor nosso Deus.
Que foi o que fizestes assassinando as esperanças da salvação publica, derribando a sancta tradição da patria?
Até no crime fostes apoucados. Porque não se ergue um de vós, perverso, mas sublime, como o archanjo das trevas, e diz:--fui eu o concitador do motim popular, fui eu o primeiro que clamei «quebrem-se as taboas da lei?»
Louvaes a sedição, chamaes-lhe obra illustre, e nenhum de vós acceita a gloria de ser o bem-feitor do seu paiz?
Quando combatiamos pela liberdade gravavamos os proprios nomes em nossas armas, e o inimigo que ousasse vê-las de perto, ahi os lería inteiros.
Não combatiamos nas trevas; e os nossos capitães diziam ao mundo:--Vede:--e mostravam a face diante da luz do sol.
Hypocritas, que enganaes o povo, credes porventura que tambem enganareis o Senhor e que, semelhantes á prostituta que engeita o fructo de seu crime, engeitareis diante delle a obra da vossa iniquidade?
Não! Lá se levantarão os nossos e os vossos filhos, para quem preparaes berço de miseria, vida de amargura e morte de desesperação.
E elles testemunharão contra vós na presença do Altissimo: e haverá ahi choro e ranger de dentes.
XII
Ambiciosos, que desvairaes o povo, o Senhor leu no fundo dos vossos corações e revelou-me o que ahi está escripto!
A cubiça do mando e do ouro é o vosso amor de patria; a vossa ancia de liberdade a sêde de tyrannia.
Merecedores de jazer perpetuamente na escuridade, e ermos de virtude e de sabedoria, não podendo fulgir com luz celestial, tentastes romper as trevas de vossos caminhos com o clarão torvo do inferno.
E a serpente vos emprestou a sua vã sciencia, as suas corruptoras palavras, e alumiados por fulgor de morte, alguns vos creram illustrados pela luz que mana do throno de Deus.
Mas os que foram enganados vos amaldicçoarão no dia em que patenteardes a hediondez das vossas intenções, e o Pae de misericordia lhes perdoará um erro de intelligencia.
Eis o que diz o Senhor:--Vós sois os assassinos da republica, mas debaixo das suas ruinas ficarão tambem esmagadas as vossas frontes, e os vossos membros quebrantados e sumidos.
Tambem vós tereis quem maldizer na hora do passamento: os dias futuros justificarão o Verbo de Deus.
XIII
Os soldados que arrastavam o Justo ao Golgotha, quando o povo de Jerusalém pedia o sangue innocente, poseram sobre a cabeça do Filho do Homem a inscripção--Este é Jesus rei dos Judeus.
Porque o povo não sabe commetter um crime, sem, afora o crime, blasphemar e escarnecer da virtude.
Assim os tribunos da plebe, depois de rasgarem o pacto social, disseram por irrisão:--Reuna-se o conselho dos anciãos, dos sabios e dos prudentes, e façam-se leis para o regimento da republica.
Como se não houvesse ahi lei; como se os eleitos do povo não tivessem sido expulsos pela relé e separados uns dos outros.
Então os malfeitores rodeiaram a urna onde d'antes os cidadãos podiam livres lançar o voto da sua consciencia.
E todos os bons se afastaram dessa urna; porque a mão do crime a tinha collocado no templo, e á roda della sómente sussurravam ameaças de morte.
E por isso os nomes que d'alli sairam foram nomes opprobriosos ou desconhecidos, e como extranhos no meio de nós.
Um erro trouxe outro erro, e o punhal passou da praça para o templo, e houve ahi mysterios das trevas, mysterios de perversidade.
E homens imberbes, ignorantes e ignobeis ir-se-hão assentar no conselho dos legisladores, no logar destinado para os velhos, para os sabios e para os homens virtuosos.
Mas a plebe ahi estará também, com seu gesto hediondo, como um espectro de terror, como a imagem do supplicio nos ultimos dias de um criminoso depois da sua condemnação.
Ella ahi estará; e o seu grito será mais alto que o das consciencias, se é que podem consciencias falar no conselho de homens corruptos.
Ella ahi estará; e as leis serão feitas por ella; porque errados vão os que pensam que o povo larga jámais o poder que a imprudencia ou a maldade lhe depositaram nas mãos.
Homens a quem a dissolução social vestiu a toga de senadores, para debaixo da campa levareis nas frontes duplicado o ferrete da infamia e do aviltamento.
Nellas vo-lo escreveu uma eleição fraudulenta, em que votou o punhal do assassinio e o obulo da embriaguez, preço porque a plebe vendeu aos tribunos o exercicio de um direito que não era seu e que ella tinha roubado por noites de sedição.
E nellas vo-lo estampará tambem o grito insultuoso do vulgacho que vos ergueu do pó para sanctificardes a sua rebellião, para serdes cumplices nos seus decretos de morte, e para depois vos quebrar em pedaços, como um vaso fragil quando se torna inutil.
XIV
De fel e de trabalho me cercou o Senhor. Esta é uma das suas visões, que elle me enviou em espirito.
N'um campo extensissimo estava eu, e cerrava-se-me o coração, como traspassado do frio do terror. Era ao cahir das trevas.
Havia por ahi sepulchros, mas sepulchros semelhantes a dorsos de montanhas: havia por ahi cyprestes, mas cyprestes seculares como o universo, e cujos cimos avultavam como a espessura de um bosque primitivo.
O sitio em que eu estava era o cemiterio das nações e dos seculos.
Sobre muitos desses tumulos espantosos já tinha cahido a campa; já o musgo e as sarças lhes dissimulavam as juncturas, e o estellio e o áspide passavam por cima, rangendo como as folhas seccas.
Outros havia lá que ainda estavam abertos, e tinham as lousas erguidas sobre uma das bordas, juncto da qual um anjo derramava lagrymas. Jaziam nestes muitos seculos de nações modernas.
Algumas sepulturas ahi estavam inteiramente descubertas e ainda alvejantes, como collocadas de pouco em meio do campo sancto: nem lousas estavam ao pé dellas.
Mas ao longe ouvia-se como o gemido de eixos que vergavam e de homens que altercavam e que pareciam trabalhar em uma obra de Deus.
E este gemido era semelhante ao do oceano revolto, e o borborinho soava como o clamor de milhões de vozes.
Na frente de cada um dos jazigos estava escripta a historia do povo ou do seculo que lá repousava ou que lá devia cahir.
E algumas destas inscripções eram antigas e meio gastadas, e de roda tinham esculpidos symbolos de gentilidade.
Apenas sobre uma dellas estava gravado o nome de Jehovah; mas fechavam a campa sete sellos, cuja lenda era:--até a consummação dos seculos.
E mais alguns monumentos ahi se erguiam, já cubertos com a lousa final: e em cima delles estava plantada a cruz, e a inscripção acabada.
Juncto destes ajoelhei e derramei lagrymas: eram sepulchros das raças que educara o evangelho: dormiam lá irmãos meus.
E os reinos e as republicas da idade media eram os que nesse logar estavam sepultados: áquelles tinham-nos anniquilado loucuras e tyranias de reis; a estas a licença e a corrupção popular.
XV
Lá estava tambem o monumento da nossa patria.
E nelle repousavam os cadaveres de muitos seculos.
E a historia de cada um destes lia-se na face da pedra, escripta pela mão do archanjo que velava o sepulchro e que forcejava por suster a campa, que já pendia, como para os encubrir á luz.
E esta era a lenda sepulchral:
Deus escolheu para si a nação do extremo occidente, e a benção do Altissimo desceu sobre o berço della.
E passou glorioso o primeiro seculo da sua existência, rico de combates e victorias: elle herdou ao seguinte a cruz plantada nos coruchéus dos alcorões, e uma raça valente e virtuosa, que defendesse a terra conquistada.
«De incremento e prosperidade foi o segundo seculo; e posto que ahi houvesse dias de turbação, o povo cresceu; porque o Senhor o abençoava.
E na terceira era soou em paiz extranho uma voz que falava de servidão. O povo português lançou mão da espada e da lança, e em vinte combates provou a sua independencia, e que o Deus dos exercitos fora o Deus de seus paes.
E na quarta era chegou a idade viril da republica: a sua estatura assemelhava-se á de um gigante, os seus braços aos de um athleta.
E na quinta ella estendeu a mão para o oriente, e aferrando centenares de povos, metteu-os debaixo dos pés.
Então commetteram-se crimes, a corrupção estendeu-se, e a face do Senhor turbou-se.
Aqui na inscripção seguia apenas um nome de poeta, o depois uma longa beta negra. Esta significava que de infamia e servidão fora a sexta idade da republica.
E a lenda tumular proseguia:
Surgiu um dia o povo, e quebrando os grilhões que tyrannos estranhos lhe haviam lançado, açacalou de novo a sua espada esquecida, e combateu quasi um seculo.
E recobrou a independencia, senão a liberdade.
D'aqui ávante, falava o letreiro de existencias e de largos annos; mas de existencias sem gloria, e de annos semelhantes apenas á decrepitude de homem que foi robusto.
E havia ahi guerras e victorias e leis: mas as victorias coroavam o general e não o soldado, porque o soldado era servo: as leis eram talvez justas, mas desciam do throno dos reis sem a sancção popular, e o povo dobrava o joelho.
E isto era impio. O servo que acceita sê-lo é só meio-christão. Do evangelho deriva a liberdade, como condição impreterivel do homem, responsavel por seus actos perante Deus. A liberdade póde rasgar-se do evangelho; não separar-se delle.
Depois lia-se o nome de um rei; e este nome era grande e honrado, como os dos antigos reis portugueses, e a sua historia estava escripta no monumento da eternidade. Após esta, seguiam-se algumas palavras de esperança.
E d'alli por diante a pedra estava em branco; porque a oitava era da republica ainda não tinha adormecido juncto do umbral do passado.
XVI
E eu meditava em silencio, e o meditar era amargo para o meu coração.
Subito senti um ruido remoto, semelhante ao ruido de bosque sacudido pelo vento e granizo.
E divisei por entre os cyprestes um vulto, que se approximava da clareira onde estava a sepultura, e as suas passadas, posto que apressadas, soavam como se fossem de pés de bronze.
E chegou. Fitando os olhos no vulto, descortinei uma figura humana de desmesurada altura.
A sua cabeça tinha muitas faces e muitos olhos: do tronco saía-lhe uma grande multidão de braços.
E com todas as suas linguas proferia palavras immundas e blasphemas, e maldizia a religião e a justiça.
E vinha salpicado de sangue.
E parou diante do monumento.
Ficou immovel por algum tempo; depois, como excitado por um accesso de raiva infernal, procurava aluir o sepulchro.
Mas a immutabilidade do passado era a immutabilidade delle. Tinha-o posto alli a mão de Deus.
Então o vulto começou a raspar a inscripção, mas as letras cada vez mais se avivavam. Lá do intimo soou um longo gemido.
E o vulto soltou uma praga tremenda, e transpoz a borda do sepulchro; e estava em pé dentro delle.
E começou a afundar-se nas trevas; e estendendo os braços, os braços lhe ficavam hirtos.
E nos olhos, que até alli chammejavam furor, já fluctuavam lagrymas de homem que morre.
E descia, e descia!
E quando a fronte lhe topetava com a borda, a campa escapou das mãos do anjo, que trabalhava por sustê-la, e cahiu dando um som profundo.
E a face do sepulchro, abaixo da inscripção, tingiu-se de negro até o rez da terra.
E as ultimas palavras, palavras de esperança, converteram-se em outras tão horríveis, que a minha lingua não ousa proferi-las.
E a visão desappareceu.
XVII
Reprobo sería aquelle que, vendendo seu pae por preço de opprobrio, o entregasse á servidão de extranhos.
Reprobo, mil vezes réprobo, sería tal homem; porque este crime fôra mil vezes mais negro do que o parricidio.
Quem, por noite tempestuosa, o acolheria debaixo de tecto hospitaleiro? Quem, vendo-o mirrado de sêde, lhe offereceria um pucaro de agua?
Ninguem: porque o seu hálito inficionaria o ar que respirasse: os seus labios empestariam o vaso por onde bebesse.
No seu leito de morte, que sacerdote ousaria dizer-lhe:--Eu te absolvo em nome do Deus que perdoa? Nenhum: e o que o dissesse mentir-lhe-hia; porque nos thesouros da piedade divina não ha resgate para semelhante divida.