Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 01
Part 3
PRIMEIRA SERIE
Et irruet populus, vir ad virum, et unusquisque ad proximum suum: tumultuabitur puer contra senem et ignobilis contra nobilem.
ISAIAS, III-5.
I
O Espirito de Deus passou pelo meu espirito, e disse-me: vai, e faze resoar nos ouvidos das turbas palavras de terror e de verdade.
E eu obedecerei ao meu Deus no meio dos punhaes de assassinos.
Povo!... breve soará a tua hora extrema: tu mesmo a assignalaste no decorrer dos tempos.
O anjo exterminador vibra sobre ti a espada da assolação, e tu danças e folgas ebrio das tuas esperanças.
Essa terra que pisas crês que é um solo remido por tuas mãos: repara porém; olha que é um sepulchro.
Amplo é o sepulchro de um povo: dentro em breve tu ahi calarás para sempre.
Creste-te forte, porque sabes rugir como a panthera: mas somente Deus é grande.
Encheste o vaso das tuas iniquidades; elle trasbordou, e a terra ficou polluida.
Maldictos os nomes dos que accenderam o volcão popular; nomes abominaveis perante o céu e a terra.
Portugal foi pesado na balança da eterna justiça, e a Providencia retirou a mão de cima delle.
Derribem-se os altares, cerrem-se as portas dos templos: Deus já não acceita os sacrificios, nem ouve as preces deste povo, senão como uma expressão de escarneo.
E como o aquilão varre a folha secca do outono, o sopro do Senhor varrerá da face da terra esta raça corrompida e immoral.
II
O que tem ouvidos para ouvir ouça: o que tem olhos para ver veja: o que tem coração para se contristar, contriste-se.
O povo tinha a liberdade e quiz a licença; tinha a justiça e quiz a iniquidade: o povo perecerá.
Desgraçado daquelle que anda fóra dos caminhos do Senhor: correndo despelado por despenhadeiros, sentir-se-ha por fim baqueiar no fundo de um precipicio.
Porque a lei e a virtude foram postas no mundo para proveito do homem, não para proveito de Deus.
Quando uma nação quebra todos os laços sociaes, della será todo o damno.
Para as turbas o cheiro do sangue é perfume suave; o roubo gloriosa conquista.
E ellas se fartarão de sangue e de rapinas com a voluptuosidade atroz do anthropophago que se banqueteia com os membros semivivos do seu semelhante.
Porque a plebe desenfreiada é como o phantasma do crime, como o espectro da morte, como o grito do exterminio.
Horrível é o aspecto do empestado, que, entreabrindo o lençol que lhe servirá de mortalha, descobre as pustulas, donde mana a podridão e o cheiro da sanie, e que por entre os labios amarellos e os dentes cerrados deixa fugir o som rouco do estertor.
Mas para o homem honesto, que contemplar uma scena das raivas da plebe e ouvir as suas blasphemias e vir as faces hediondas dos homens dissolutos, será como allivio a asquerosidade das chagas, o halito podre e o rouco estertor do empestado.
III
E o povo continúa a dançar em roda do seu mesmo sepulchro.
E as outras nações meneiam a cabeça em signal de compaixão.
Os tyrannos sorriem e dizem por escarneo aos homens virtuosos: ide, e dae a liberdade ás turbas: erguei á dignidade de homens livres servos devassos e educados no lodo: elles vos pagarão com a unica moeda que guardam em seus thesouros.
A relé popular é chamada as fezes da sociedade, não porque é humilde, não porque é pobre, mas porque é vil e malvada.
O sabio e o virtuoso indigentes são mais nobres do que os grandes da republica, do que os dominadores da terra.
O ferrete da abjecção e da infamia estampa-se em qualquer fronte sem excepção de berço, e aos que trazem este signal de reprovação é que a philosophia chama escoria da sociedade.
A medida por que Deus conta os graus dos meritos da vida é a da pureza de coração; é a do aperfeiçoamento da intelligencia.
Os typos das diversas alturas a que sobe o espirito humano na carreira indefinita da perfeição formam como uma pyramide, cuja base assenta no fundo de um tremedal, cujo ápice se esconde no interior dos céus.
Muitos nasceram no infimo da pyramide e subiram a grande altura: outros de grande altura desceram a mergulhar-se no lodo.
E tanto a uns como a outros julgará a immutavel justiça de Deus.
IV
Os soldados da liberdade morreram nos combates da patria e misturaram o seu sangue com o sangue dos satellites da tyrannia: os seus ossos alvejam nas serras e nos valles, como alvejam as ossadas dos servos com quem combateram.
Foi sasão essa de abundante messe de almas puras para o céu. Consolem as lagrymas dos justos as cinzas desses valentes.
Eram apenas um punhado; a morte ceifou os mais delles; o resto já não tem força senão para pranteiar sobre as ruinas da patria.
E o vidente pranteiará com elles, porque o Senhor lhe amostrou o futuro.
Se os homens do desterro e das tempestades podessem levantar-se da sua jazida, a terra de antigas glorias ainda seria salva: mas elles dormem o perpetuo somno do repouso.
E foi o ultimo leito honrado em que portugueses se reclinaram no seu dia extremo.
Felizes os que então se despediram do sol e misturaram com a terra o pó que lhes emprestara a terra.
Os dias dos que restamos não eram ainda contados; porque nossos erros pediam a punição do opprobrio.
O Senhor nosso Deus é justo; curvemos a cabeça diante da sua Providencia.
V
Formosos eram os tempos em que pelejavamos pela liberdade do povo; tão formosos, quão negros estes em que a plebe peleja pela licença.
As nossas armas vomitavam a morte: semeiava-a tambem o inimigo pelas nossas fileiras: e nós estavamos firmes nos pincaros das montanhas, ou, descendo, faziamo-las resoar debaixo de nossos pés.
E arrojando-nos aos contrarios, as bayonetas reluziam á luz do sol; e o tinido dos ferros encontrados, e o clamor dos feridos, e o estampido dos tiros reboavam pelas quebradas dos valles.
Quando a victoria, embora sanguinolenta, nos coroava a fronte, o triumpho era para nós um delirio; porque o combate fora de homens valentes.
Na historia do soffrimento humano a mais bella pagina é a historia do nosso soffrimento. Nem a peste, nem a fome, nem a desesperação de todo o humano soccorro dobraram a robustez de corações ousados.
Porque pelejavamos por uma causa justa, e Deus estava comnosco.
Por serranias agrestes e aridas combatemos debaixo de sóes ardentes, e as entranhas mirravamse-nos de sede: tinhamos os labios resequidos como a urze já morta, e humedeciamo-los com as lagrymas da dor, e supportavamos a sede.
Encostados a mal construídos vallos e cercados por quarenta mil soldados, vigiavamos pelas noites longas e tenebrosas do inverno. A chuva cahia-nos em torrentes da atmosphera densa sobre os membros mal-vestidos, e o oeste sibillava em nossas armas.
Ou se as cataractas do céu se vedavam, o frio leste trazia-nos o seu sopro envolvido nas geadas dos montes penhascosos.
Cruelissimas eram estas entre as noites crueis desse tempo; porque ao redor de nós tudo estava devastado, e não havia um unico tronco para alimentar a fogueira do arraial.
E o frio recalcava a vida toda no coração do soldado; e elle sem um lamento soffria o rigor de noite dilatadissima.
A fome apresentou-se diante de nós: medonho era o seu aspecto: os membros desfalleciam-nos e as armas por vezes nos cahiam das mãos.
Mas o amor da patria estava vivo em todos os corações. A Providencia infundia-nos valor, e soffremos sem murmurar a fome.
Gloria a Deus!--Os ultimos portugueses saíram illesos da prova. Os antigos cavalleiros os receberam como irmãos lá onde são com o Senhor.
Bemaventurados os que deixaram esta terra de lagrymas, porque não viram que o seu sangue fôra derramado em vão.
VI
E depois dos combates íamos sepultar os mortos.
No campo da batalha abria-se uma grande cova, e simultaneante se lançavam nella os cadaveres de amigos e de inimigos.
Porque além do limiar do outro mundo calam todos os humanos odios.
E o tecto de terra estendia-se sobre os muitos que ahi dormiam no mesmo jazigo.
E algum pranto derramado sobre o pó revolto, e as preces da igreja proferidas pelo sacerdote consolavam os extinctos.
Plantava-se a cruz sobre a gleba para consagrar a memoria dos mortos; para pedir a esmola da oração ao que passasse, e para lhe annunciar que todos os que alli repousavam eram irmãos por Jesu Christo; eram irmãos pelo sepulchro.
Perdoavamos para sermos perdoados: perdoavamos porque eramos fortes.
VII
Alevantou-se a plebe, e logo commetteu um crime.
Agitava-se e ondeiava pelas ruas com clamor inintelligivel; arrastava-a o espirito das turbulencias civis.
Um homem inerme passou por entre os amotinados: era um dos votados ao exterminio: muitos tiros e golpes partiram do meio da turba, e o homem cahiu exangue e sem vida.
E arrastaram até o cemiterio publico, ao som de injurias e risadas, esses restos que a morte sanctificara. As maldicções do odio mais profundo param á beira do tumulo. A maldicção popular, essa é que não parou ahi.
Soterraram por meio corpo o cadaver e cuspiram naquellas faces lividas aonde já não podia subir do coração o rubor, e que os olhos cerrados não podiam já mundificar com lagrymas.
E esse homem assassinado e arrastado e cuberto da escuma fetida da gentalha, fora um dos que salvaram o povo do cutello dos tyrannos.
Plebe: commetteste um assassinio, e serás julgada. A ferro morrerá o que ferir com ferro: disse-o o Propheta do Golgotha.
Deixaste acaso a face da tua victima descuberta para monumento do crime?
Quizeste porventura desafiar a eterna justiça, e convocar a combate o Regedor dos mundos?
Se na tua maldade e soberba assim o pensaste, sabe que baldada foi a profanação da sepultura.
Se nos confins da terra sumisses o morto; se o escondesses nos abysmos do oceano; se o arrojasses na cratera de um volcão encendido, lá Deus o havia de divisar.
Porque todo o gemido do moribundo resoa até o throno do Eterno.
Preparae-vos, vermes, se tanto ousaes: porque o Senhor se erguerá sobre os orbes, e o estridor da setta exterminadora sibillará atravez do Universo: ella se cravará na terra que pisaes e passareis como o fumo.
Ai daquelle que, impenitente, acordar ao som da ultima trombeta tincto no sangue injustamente derramado de algum de seus irmãos!
Em verdade vos digo que para esse já não ha perdão, mas só o ranger de dentes e o bramir sempiterno.
VIII
Povo! Onde estão os teus sabios, os teus generaes, os teus nobres, os teus abastados, os teus homens virtuosos!
Os timidos escondem-se diante da tua sanha: os valentes, não podendo combater com as turbas, erram no oceano á mercê das tempestades.
E é a segunda vez que se affrontam com ellas por amor da liberdade e da lei.
Deus proverá os foragidos, como provê de sustento os animaes que vagueiam na terra e as aves que cruzam os ares.
E os timidos que, ouvindo o rugido da plebe, se embrenham por antros de serranias, por profundezas de bosques, confiem tambem no Senhor.
Porque delle vem a salvação para os bons no dia da cólera e do castigo.
Que os perseguidos se consolem lembrando-se dos proprios erros, porque ninguem se isenta da culpa, e antes remi-la neste valle do desterro, do que além da sepultura.
O que padece não deve queixar-se, nem rebellar-se contra a Providencia: porque essa queixa inspira-a a soberba.
Que é um homem em comparação de uma cidade; uma cidade em comparação de um povo: um povo em comparação do genero humano; o genero humano em comparação do Universo?
E que intelligencia é capaz de medir a distancia que vai do primeiro ao ultimo?
Milhões de milhões de vezes menos importa a existencia de um individuo na somma das existencias, do que na pyramide de Cheops o mais miudo grão de argamassa importa á solidez do monumento.
Emquanto vive na terra, o homem é um atomo na immensidade: grande será depois da morte no reino do céu; grande ainda entre os bramidos do inferno.
Porque para elle existe a eternidade só então: só então comprehende a omnipotencia de Deus.
IX
Cinco annos em nome do Evangelho uma parte do povo perseguiu seus irmãos, e cobriu-os de opprobrio.
Em nome do Evangelho pregoou-se o odio, a vingança, e o perjurio: em nome do Crucificado pregoou-se o incendio, o roubo, o sangue e o exterminio.
Mas o dia da punição chegou, porque as lagrymas da innocencia orvalharam o seio de Deus.
Elle estendeu o seu braço, suscitou os ousados, e conduziu-os de milagre em milagre. Então os impios dobraram a cerviz altiva.
As nossas victorias foram de homens fortes; mas a robustez de animo vinha-nos daquelle que é fonte e origem de toda a humana virtude.
Vestia-se então a maldade dos trajos puros da religião para perpetrar impunemente crimes: hoje abriga-se á sombra da arvore sancta da liberdade para assolar a terra da nossa infancia.
Ai dos maus, porque os olhos do Todo-poderoso lhes vêem nus os corações em toda a hediondez da sua perversidade!
A justiça celeste nunca dorme, como na alma do criminoso nunca se cala o remorso.
E a hora da tribulação e das angustias chegará para os malvados; e elles amaldicçoarão o ventre materno e os peitos que os amamentaram.
X
Povo! os que hoje saudas como numes, ámanhã fa-los-has em pedaços, e arrastarás pelas ruas os seus cadaveres cobertos de feridas e pisaduras.
Porque, bem que tarde, conhecerás que elles te hão enganado.
Prometteram-te abundancia, e achar-te-has faminto; prometteram-te liberdade, e achar-te-has servo.
A licença mata a liberdade; porque se livremente opprimes, livremente podes ser oppresso; se o assassinio é teu direito, direito será para os outros assassinar-te.
Se a força, e não a moral, é a lei popular, quando os tyrannos tiverem mais força, legitimamente podem pôr no collo do povo um jugo de ferro.
Ministros da tyrannia são os que suscitaram a lucta das facções, os que deram o primeiro grito da revolta, os que accenderam a guerra civil;
Porque a nação se dilacerará, e enfraquecida passará das mãos da plebe para as mãos d'algum despota que a devore.
Lembrae-vos da Serpente, que enganou nossos primeiros paes: foi com palavras sonoras, com promessas de gloria e de ventura que ella perdeu a ambos.
Dado que para vós não houvesse liberdade e elles vo-la offerecessem á custa de perpetuo damno, devieis tê-los por vossos destruidores.
Porque a liberdade não é tanto um fim como um meio: quer-se a liberdade não tanto para as nações serem livres, como para serem felizes.
Que importa o respeito de propriedade ao que nada possue? Que vale a liberdade da palavra para o que só tem de proferir maldicções e queixumes? Que monta que os vossos pares vos julguem, se o odio das facções nos fez inimigos uns dos outros?
Sem concordia, inevitavel é que o edifício social desabe: e porventura nascerá a concordia do meio das sedições?
XI
Se no coração de algum dos concitadores da anarchia existe vislumbre de virtude, ai delle! Ai delle, se a sua alma é inteiramente negra!
Porque de qualquer dos modos um abysmo está cavado debaixo de seus pés: na estrada do arrependimento o da vingança popular, no seguimento do crime o da justiça de Deus.
Elles revelaram á multidão o segredo da sua força, e as turbas os levarão diante de si.
O leão ruge livre na arena, e o conductor que o desatrellou cumpre que mais ligeiro lhe preceda na carreira, aliás será o primeiro que elle desfaça entre as garras.
Aquelles que hoje são o amor das turbas serão chamados por ellas para presidirem a conselhos de sangue, a longos dramas de destruição e de angustias.
E se a consciencia lhes clamar com a voz do remorso, e se tremulos quizerem retroceder, a plebe lhes dirá--ávante!
E se ousarem implorar piedade para com as victimas do desenfreiamento e da barbaridade, rir-se-ha a plebe, e gritar-lhes-ha--ávante!
E se, aterrados da altura do precipicio, voltarem atrás um passo, este passo será o extremo: a plebe os anniquilará.
Elles encheram o calice das amarguras publicas: os justos o beberão aos tragos; mas as fezes serão para os escanções do banquete popular.
A salvação unica do instigador de revoltas e uniões está em admittir todas as consequencias dellas.
E então forçoso lhe é tornar-se conspicuo no crime e revolver-se no sangue.
Mas qual será a eternidade de tal homem?
Deus não deu palavras ás línguas da terra para o dizerem. É esse um dos mysterios do inferno.
XII
Temo as horas caladas da noite, e o coração aperta-se quando o somno me pesa sobre as palpebras amortecidas:
Porque para mim o somno não é repouso, e os phantasmas das sombras são mais crueis do que as crueis realidades do dia.
Deus converteu a sua voz no meu pensamento e collocou nos meus labios o grito da sua colera.
O seu verbo desfará a minha alma, como o ar aquecido dilatando-se dentro do vaso o desfaz em fragmentos.
O espanto cerca-me no meio das trevas, e o futuro está parado diante de mim como um pesadello eterno.
Em um momento reune o Senhor na minha alma as dores com que por largos dias gemerá esta desventurada patria.
E, em sonhos, oro ao Deus de nossos paes; mas na sua ira o Altissimo repelle as minhas preces; e acordo debulhado em lagrymas.
Este acordar arremessa-me á vida actual, a esta atmosphera de depravação, ao meio do deshonesto tumultuar de um povo corrompido.
E a oração, que em sonhos ousara levantar a Deus, cahe gelada na terra ao som das pragas e blasphemias da turba desenfreiada.
XIII
Eu vi uma visão do futuro, e o Senhor me disse: vai e revela-a na terra.
Como em panorama immenso, um reino inteiro estava diante dos meus olhos.
E nas duas cidades mais populosas delle homens de má catadura começavam de agglomerar-se nas praças e a trasbordar pelas ruas.
E nos campos e nas aldeias outros homens com aspecto de reprobos começavam tambem a apinhar-se nos passos das serras, nas assomadas das montanhas e nas clareiras das florestas.
E tanto nas faces dos filhos dos campos, como nas dos habitadores das cidades adivinhava-se o grito de exterminio que bramia no fundo dos corações.
Os magotes de serranos fundiram-se n'uma só turma; e o mesmo succedeu aos das cidades.
E cada uma das turmas se converteu em uma besta-féra, que se assemelhava ao tigre.
Agigantada era a sua estatura, e na fronte de uma lia-se--Fanatismo--e na da outra--Desenfreiamento.--
Com os olhos tinctos em fel e sangue, correram então os dous monstros um para o outro, ergueram-se em pé e estenderam as garras.
No mesmo instante abriram-se os céus: dous grandes cutelos afiados e dous fachos encendidos cahiram juncto das alimarias ferozes.
E nas laminas dos cutelos estavam escriptas com letras de fogo as palavras seguintes--Maldicção de Deus.
E cada uma das alimarias segurou com a esquerda um dos fachos, e com a direita um dos cutelos.
A das cidades arrojou o seu facho sobre os campos, e os campos ficaram em um momento áridos e ermos.
E a outra sacudiu o seu sobre as duas cidades, e subito no logar onde ellas foram estavam dous montões de ruínas.
Depois, combatendo por largo tempo e atassalhadas de golpes, cahiram e renderam os espiritos.
Então as lagrymas me offuscaram os olhos; porque bem entendia o que significava a visão.
Mas enxugando-os, tornei a lançá-los para o logar da peleja.
E vi uma solidão safara e negra, sobre a qual a perder de vista para todos os lados alvejavam milhares de ossadas.
E em cima dellas estavam assentados dous espectros gigantes. Chamavam-se Assolação e Silencio.
XIV
Era uma noite serena, e, ao clarão da lua, a sombra de templo antigo estirava-se no terreiro contiguo.
Os sinos dormiam nos campanarios das torres erguidas, e tudo estava calado no ambito do monumento religioso, herdado aos homens impios deste seculo pelos homens crentes dos tempos que foram.
Atravez das esguias e ponte-agudas janellas da igreja transverberava na praça a luz amortecida das alampadas penduradas ante as capellas desertas.
Era a hora em que se passam cousas mysteriosas por adros e cemiterios, e em que vagueiam pela terra os mortos condemnados a assim cumprirem com sua justiça.
N'um angulo do terreiro estava eu. Não sabía que mão me tinha para alli arrastado; mas era a mão de Deus.
Ao longo de uma rua que naquelle logar desembocava vinha ondeiando um turbilhão negro, cujo rugido era semelhante ao rugido do pinhal da montanha em noite tempestuosa.
E parecia aquelle grande vulto um fragmento do cahos, a quem, de todos os elementos de harmonia e de ordem, só o Creador concedera o movimento.
E chegou o tumulto diante da igreja e espraiou-se por toda a praça, e houve profundo silencio.
E um homem alevantou a voz no meio do tropel, que pendia de seus labios, e disse:
«Vós sacudistes o jugo dos poderosos, e o nome de rei e o titulo de nobre são palavras sem significação na linguagem de nação regenerada.
O povo que jazia no lodaçal alevantou-se como gigante de prodigiosa altura, e estendendo os braços, estreitou os palacios dos abastados e dos potentados: os pannos dos muros vacillaram nos seus fundamentos de marmore e de granito, e começaram de desmoronar-se e baqueiaram por terra.
E o gigante popular riu-se e assentou-se em cima de montões de ruinas. Foi este dia dia de sempiterna gloria.
Mas os monumentos da credulidade e do fanatismo de nossos paes ainda assoberbam a cidade dos homens livres. A hypocrisia abriga-se á sombra dos altares e invoca, talvez contra nós, um Deus que não existe.
O unico Deus de corações generosos é a liberdade. Quando cumpre, o altar della é o cadafalso: o seu sacerdote o algoz: o seu culto verter o sangue dos tyrannos.
A religião que tem por fundamento a humildade e a abnegação de si é a religião dos servos.
É por isso que nossos paes foram servos.
Amaldicçoemos, pois, o nome dos que nos geraram e derribemos a obra da superstição.
E cada um daquelles precítos amaldicçoou seu pae. Os cabellos erriçaram-se-me de horror.
Então a turba arrojou-se ao portal do templo, e os largos ferros dos machados scintillavam erguidos e faziam estourar as portas. Pelas naves da igreja retumbava um gemido longo e sonoro.
E o terreiro ficou esgotado dessas ondas de povo, vertidas pelo ádito da velha cathedral dentro de seu amplo recincto.
Como os vermes se arrastam vagueiando pelos membros do cadaver, assim os homens do sacrilegio se espalharam, arremessando-se aos altares e a todos os logares onde reluzia a prata ou o ouro.
E cuspindo sobre a hostia do Cordeiro, pisavam-na aos pés e motejavam do Crucificado.
E despido o templo das riquezas alli depositadas em testemunho da piedade de seculos, os impios saíram delle carregados de despojos.
Depois, accendendo fachos, lançaram-lhe fogo por todos os angulos, e breve as chammas se ergueram ao céu com espantoso ruido.
O estalido das pedras que se desconjunctavam, e o fragor das abobadas desabando, e o estridor do incendio, que trepava em espiraes pelas columnas e se estendia em lençoes vermelhos, lambendo a face dos muros, e o ultimo gemido dos orgãos era a orchestra deste sarau popular.
E a plebe folgava de roda, e embriagava-se, passando de mão em mão as taças do vinho espumoso, e tecendo danças com as mais vis prostitutas.
Tal foi o sonho do futuro que o Senhor me enviou n'uma noite de agonia.
XV
O anjo das predicções mudou então na minha alma a scena do porvir.
Á mesma hora, á mesma luz da lua, estava eu no logar onde vira o povo quebrar as portas do sanctuario; onde vira os homens dissolutos transpor a ultima barreira que os separava dos tigres, e lançar de si o ultimo signal que os distinguia dos espiritos das trevas.
Dos fustes truncados das columnas do templo pendiam hervas bravias, e nos muros semi-rotos enlaçava-se a héra.
Nos campanarios afumados pelo incendio haviam as aves nocturnas construído os seus ninhos: ao cahir das trevas, em vez dos sons religiosos dos sinos, despenhavam-se lá dos cimos das torres os pios melancholicos da poupa solitaria.
E no meio do terreiro surgia o que quer que era negro e que não se assemelhava a nenhuma obra da natureza, a nenhuma obra das mãos do homem feita para o uso da vida.
Approximei-me. Era o patibulo.
Um vulto humano pendia do alto delle e volteiava para um e outro lado á mercê da brisa da noite.