Oliveira Martins O critico litterario, o economista, o historiador, o publicista, o politico

Part 4

Chapter 4714 wordsPublic domain

Mando-te esses numeros da _Provincia_ para veres o caracter imponente, que teve a manifestação do Porto e o tom a que o O. Martins tem sabido levantar o Progressismo, que tão desafinado andava. Verás tambem que elle não renegou, nem se desdiz. A bandeira que desfralda é a do Socialismo, como até aqui. Convencido como está, e estão todos os que sabem observar os factos, da incapacidade actual, (e que o será ainda por muito tempo), do partido republicano para fundar seja o que fôr e vendo ao mesmo tempo a imminencia de uma crise pavorosa, o O. Martins fez acto verdadeiro de patriotismo, procurando aquelles elementos, que bem dirigidos e transformados, poderão por ventura fornecer ainda um ponto de apoio no meio do naufragio. Um homem como O. Martins, não dá um passo destes, nem toma posição de tamanha responsabilidade, sem ter visto bem as cousas e estudado o melhor caminho. Tem sido approvado por muita da melhor gente. O O. Martins é o unico homem politico superior que temos, pois reune a um elevado caracter um saber vasto e não só theorico mas technico e um poder de trabalho incomparavel. Quando um tal homem dá um passo, como elle deu, o dever da gente seria, ainda quando o não approve, é não o estorvar na sua tentativa, reconhecendo a pureza das suas intenções. Os republicanos, porém, cobriram-n'o de insultos e imputações as mais baixas--e no dia seguinte o que fizeram? foram alliar-se com os regeneradores, para combater o movimento por elle iniciado, movimento que pode falhar, mas que é sem duvida sério e exprime o sentir nacional, pelo menos neste ponto de querer acabar com essa alliança da burocracia com a finança, que é a fatalidade do partido regenerador, origem da corrupção politica e de um systematico desgoverno. Destruir essa oligarchia burocratico-financeira, que nos domina e desmoralisa, ha tantos annos, e impedir por meio de leis convenientes que ella possa de futuro tornar a formar-se, parece-me coisa muito mais importante do que uma simples alteração no caracter do poder executivo, cousa que deve ficar para depois, pois só as reformas economicas e financeiras tornarão aquella outra puramente politica, não só possivel, mas fecunda e duradoura. Isto tanto mais, quanto está imminente a bancarrota e uma tremenda crise social; a proclamação da Republica, não só não remediaria esses grandes males, (pois que influencia póde ter uma reforma só politica nos elementos financeiros e economicos?) mas traria mais uma complicação e elemento de desordem, como ainda em 1873 se viu em Hespanha. Convém, pelo contrario, addiar essa questão, visto que não é urgente, e não complicar com ella a outra, urgentissima. É de boa politica, como é de boa logica, dividir as questões para as resolver, e começar por aquellas, que resolvidas, podem facilitar a resolução das outras. Impedir que tudo venha a baixo parece ser a cousa mais urgente. Depois reformar a constituição economica, de modo a impedir que um tal estado de cousas possa vir a repetir-se. E só depois organisar a constituição politica, tanto no que toca ao legislativo, como ao executivo, de modo a dar estabilidade e duração aos progressos realisados. Pódes crêr que estas são hoje, como sempre foram, as aspirações do O. Martins, que continúa sendo tão bom socialista e republicano como era dantes. Eu, por mim, approvo-o inteiramente na marcha que vae seguindo, e desejava que toda a gente séria lhe désse o apoio indispensavel, ainda aos maiores politicos, para fazerem qualquer cousa. Se todos começarem a hostilisal-o, é claro que nada poderá fazer. Virá a terra, e com elle a ultima esperança deste pobre Portugal. Então teremos o diluvio.

Adeus, meu Sebastião. Do teu de c.

_A. de Q._

INDICE

Os Lusiadas, ensaio sobre Camões e a sua obra, em relação á sociedade portugueza e ao movimento da Renascença, por J. P. de Oliveira Martins. Porto, 1872 (Folhetim do _Primeiro de Janeiro_) ... 5

Theoria do socialismo, evolução politica e economica das Sociedades da Europa, por J. P. de Oliveira Martins. Lisboa, 1872 (Artigos do _Diario Popular_) ... 18

Le Portugal contemporain--Oliveira Martins (Estudo publicado na _Revue Universelle et Internationale_). Paris, 1884 ... 39

Oliveira Martins e o partido progressista, carta a Sebastião de Arruda da Costa Botelho, testamenteiro do grande poeta-philosopho ... 50

NOTA

O presente opusculo constitue a mais respeitosa homenagem dos testamenteiros de Anthero de Quental á memoria do glorioso escriptor Oliveira Martins.

PREÇO 300 réis