Oliveira Martins: Estudo de Psychologia

Chapter 5

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Junte-se ainda a difficuldade que resulta de se considerar uma sociedade não num momento dado, mas na sua evolução atravez de muitos seculos. Seguir um aggregado tão multiplo nas suas continuas e imperceptiveis transformações de momento para momento, determinar as causas variadissimas e occultas d'essas transformações, marcar as forças superiores cuja permanencia determina a identidade de um povo atravez de todas as suas metamorphoses, produzindo essa consciencia social bem mais difficil de se estabelecer e bem mais facil de se destruir do que a individual, é uma empresa comparada á qual, qualquer trabalho scientifico é relativamente facil.

Considere-se finalmente que a Historia é uma sciencia concreta, isto e, descriptiva e narrativa. Este derradeiro traço é origem de grandes difficuldades na indagação e sobretudo na exposição das verdades historicas. Mesmo nas sciencias inferiores essas difficuldades são grandes. Por exemplo, em Astronomia é relativamente facil indicar as forças que determinam a harmonia do nosso systema solar; mas mostrar a evolução, pela qual elle se veiu transformando até se constituir como existe actualmente, é uma tarefa d'outra ordem que não comporta o mesmo grau de precisão; a hypothese da nebulosa está privada da certeza de que se acha investida a theoria da gravitação, e a hypothese das agglomerações meteoricas inventada por Julio-Roberto Meyer, prova a necessidade de tornar a doutrina de Laplace mais adequada á realidade completando-a com principios subsidiarios. Semelhantemente nas sciencias inorganicas, o methodo experimental permitte demonstrar com efficacia uma lei de barologia ou thermologia; mas a applicação d'essas leis para a explicação da historia passada e constituição actual do globo, não tem a mesma segurança; a Geologia está longe de attingir o estado de adeantamento da Physica e da Chimica, sciencias em que ella se baseia; a doutrina das geleiras não se acha constituida com a mesma perfeição que a theoria da irradiação do calor. Em Biologia verifica-se o mesmo. Em quanto se tratam de indagar as leis abstractas da morphologia e da physiologia vegetal e animal, as difficuldades são grandes mas superaveis graças ao emprego da observação, da experimentação e da comparação; mas quando se trata de explicar a existencia das plantas e animaes taes como realmente são, as difficuldades crescem de ponto e inversamente diminue a precisão e certeza das doutrinas enunciadas; a hypothese de Darwin sobre a evolução dos organismos não póde aspirar á mesma convicta adhesão que o principio de Milne Edwards sobre a divisão do trabalho physiologico. Semelhantemente as difficuldades de investigação inherentes á natureza e complicação dos phenomenos sociaes, com serem enormes, são pequenas, comparadas com as que apresenta o estudo da Historia propriamente dicta. E abaixo dos philosophos nenhuma classe de espiritos arca com tamanhas difficuldades, incorre em tão graves responsabilidades, nem se reveste de uma tão alta dignidade scientifica como os historiadores.

Para vencer tão grandes difficuldades, o historiador deve fecundar por uma vasta preparação geral e technica um espirito extremamente complexo e profundo. Qual seja essa preparação geral deriva da indicação acima feita dos estudos subsidiarios que condicionam o conhecimento da Sciencia social. A preparação technica resulta semelhantemente da propria natureza da Sciencia social. Elle suppõe o conhecimento exacto dos factos adduzidos e a sua classificação methodica em grupos naturaes. Quanto aos dotes de espirito o historiador deve conter um sabio e um artista. A capacidade de observação exacta dos factos particulares deve estar ligada á faculdade das idéias geraes; e além d'isso a imaginação pittoresca que permitte a representação nitida e colorida das paysagens que constituem o palco da Historia, ha de ser completada pela imaginação psychologica que faz a alma dos individuos e povos que são os protogonistas da Historia. Finalmente o grande historiador deve ser um grande escriptor e empregar um estylo que reuna á precisão propria do trabalho scientifico, o colorido proprio das descripções, e o movimento proprio das narrações.

Comparemos este modelo do historiador ideal com o retrato já traçado do Sr. Oliveira Martins e veremos o que elle tem e o que lhe falta.

O seu saber é vasto inda que incompleto. Os volumes publicados da sua _Bibliotheca das Sciencias sociaes_ e os annunciados no programma, revelam que o Sr. Oliveira Martins tem consciencia da importancia e largueza de estudos com que se deve preparar para o trabalho historico. Comtudo seria para desejar que o auctor conservasse ineditos os livros em que a sua originalidade e competencia são contestaveis, e estudando convenientemente os assumptos sobre que elles versam, se abstivesse de tratar publicamente sciencias de que só se podem occupar com auctoridade os especialistas.

No que toca á exactidão dos factos enunciados nos seus tratados de historia nacional, constituidos pela _Historia da Civilisação Iberica_, a _Historia de Portugal_, e o _Portugal Contemporaneo_, o Sr. Oliveira Martins não tem o habito de enumerar os documentos compulsados e discutir as fontes exploradas. As notas, que nas grandes historias classicas acompanham e comprovam as affirmações feitas no texto, não apparecem na sua obra. É verdade que historiadores como Mommsen e Curtius supprimiram nos seus livros monumentaes a bagagem das demonstrações; mas esses historiadores já tinham assignalado a sua actividade de investigadores em numerosas dissertações especiaes, e accumulado materiaes que serviam de base ao auctor e de garantia ao leitor. Considere-se ainda que escreviam sobre assumptos largamente explorados. O Sr. Oliveira Martins occupando-se da historia de Portugal, deveria redobrar de precauções no que toca ás provas. Mas acceitando-a tal como está escripta, e lastimando que ella não seja mais extensa, observaremos que a conhecida assiduidade ao trabalho e a sinceridade certa do Sr. Oliveira Martins, são consideraveis garantias da veracidade das suas asserções.

Quanto as aptidões cujo conjuncto constitue o seu espirito, já vimos que o Sr. Oliveira Martins possue a imaginação dos movimentos, das massas, das forças e que as suas paysagens representam as expressões moraes dos aspectos physicos; e que além d'isso possue a capacidade e o habito de explicar os aspectos physicos como mechanismos naturaes. Se reflectirmos que estas duas aptidões exgottam a noção do scenario historico, considerado como um conjuncto de causas efficazes actuando sobre espiritos, veremos que o Sr. Oliveira Martins está apto pela imaginação pittoresca e pela razão abstracta a descrever e explicar o _meio_ dos successos que narra. Semelhantemente e ainda melhor a sua admiravel imaginação psychologica habilita-o a ver o interior das almas individuaes e collectivas que põe em scena. Essa imaginação, integral e intensa, prima na representação das emoções, e como a maioria das acções é determinada por emoções, resulta d'ahi que o Sr. Oliveira Martins está apto para representar o _agente_ da _Historia_, como representara o seu _meio_. E o mesmo poder de abstracção que lhe permittira comprehender as relações geraes entre os factos physicos, lhe faz ver o nexo logico que determina as coexistencias e as sequencias dos factos moraes.

Vimos que o seu estylo era destituido de ordem, precisão e clareza, e que abundava em movimento, força e vida. A ausencia das primeiras qualidades prejudica a sua Historia considerada como obra de sciencia, e impede que ella se possa considerar como obra de vulgarisação. A presença dos outros dotes dá-lhe um valor raro como obra de arte. O seu vocabulario trivial, technico, fornecido em todos os recantos da vida, permittir-lhe-á fazer descripções coloridas e supprir pela abundancia de pormenores concretos a nitidez ausente que lhe daria a ordem que não possue. A syntaxe rapida e tortuosa permittir-lhe-á fazer narrações dramaticas e vivas e acompanhar pela marcha offegante e irregular dos periodos a successão precipitada e sempre nova dos acontecimentos. Finalmente todos os outros expedientes de composição revelando o sentimento do real e a paixão intensa convergem no mesmo sentido; e a mesma solidariedade que prende a sua obra á sua imaginação e á sua sensibilidade, liga a ella o seu estylo.

VII

O POLITICO

Tendo escripto a Historia de Portugal, o Sr. Oliveira Martins resolveu continual-a e naturalmente o pensamento conduziu-o á acção.

Não entra no programma d'este estudo occupar-me de assumptos de politica contemporanea, sobretudo quando trato de um homem cuja carreira publica apenas começa. Mas fazendo um trabalho de psychologia e não de simples critica litteraria, não me é licito calar uma das manifestações mais importantes do espirito que analyso. Porém indicarei apenas o valor dos seus recursos e a tendencia geral das suas idéias como homem d'Estado.

As faculdades que fazem o homem de acção em cada esphera da actividade humana, são essas mesmas que fazem o homem de sciencia, mais o tino das circumstancias particulares. As do estadista são as do historiador; digo as do historiador e não as do sociologista, porque o conhecimento das leis abstractas que regem o equilibrio e o movimento das sociedades, não é sufficiente para dirigir a acção conservadora ou modificadora dos governantes; é preciso reunir-lhe o vivo sentimento do concreto, a visão plena dos innumeraveis factos particulares que dão a um povo um caracter individual e fazem que nenhuma deducção abstracta o possa adivinhar. Pense-se na immensa complexidade do organismo collectivo, no caracter profundamente individual que uma sociedade reveste em virtude das circumstancias de raça, meio e momento, na obrigação de conhecer plenamente a força e a direcção das vontades, a energia e a profundidade dos instinctos, a vitalidade e a duração dos preconceitos, as necessitades materiaes ou moraes, reaes ou ficticias dos seus membros, reflicta-se na obrigação de conhecer essas forças na sua quantidade exacta e na sua direcção certa, nas proporções variadas em que ellas se combinam e nos systemas complicados que d'ellas resultam, medite-se que cada um dos factos presentes tem profundas raizes no passado e consequencias inevitaveis no futuro ainda o mais remoto, e ver-se-á que essa improvisação maravilhosa e certeira que se chama a arte de governar, consiste na visão adequada e perpetua, retrospectiva e prophetica das almas sobre que ella se exerce, e que a politica é psychologia activa e em ponto grande. Note-se emfim que o habito da representação concreta degenera facilmente no empirismo e que a habilidade technica descamba no especialismo estreito, para se admirar ainda mais a plasticidade mental dos que conservam intacto sob a acção das questões quotidianas o sentimento dos interesses geraes e caminham atravez dos expedientes com olhos fitos nas idéias.

Estas qualidades parecem reunir-se no Sr. Oliveira Martins. Essa visão poderosa e plena, essa representação veridica e intensa dos caracteres, esse golpe de vista sagaz e profundo mergulhado no intimo dos corações, que faz o encanto e a força dos seus livros, podem guial-o nos seus actos; as mãos acostumadas a fazer a autopsia das almas no amphitheatro da Historia, não são improprias para jogar os lances da politica. O habito de ver as cousas de alto, proprio do historiador, arrancão aos trilhos mesquinhos em que se perde o espirito da rotina e do expediente. Artista pela visão colorida e palpavel da realidade, é-o tambem pela intuição magnifica do ideal. A imaginação constructiva anda n'elle ligada ao sentimento do real e do exequivel. E tendo aquelle exacto bom-senso e aquella efficaz percepção do possivel, que resulta da pratica dos homens e da vida, possue comtudo aquella largueza de vistas e aquelle desejo do melhor, que provém da convivencia das ideias e do trato dos livros.

Será esse ideal realisavel e esse tino pratico sufficiente? Os successos dil-o-ão. Não é porém difficil apontar desde já no sentimento da força propria e no generoso instincto do dever civico as causas que o fizeram passar do pensamento á acção, e mostrar a clara coherencia que liga as suas opiniões de hontem aos seus actos de hoje, e os seus vinte annos de historia aos seus dois annos de politica.

Tal é essa figura interessante e rara. Homem interior, isto é, dotado de imaginação psychologica, admiravel na representação dos accidentes do apparelho mental e dos sobresaltos da machina sensivel, toda a sua obra se resente e vive d'esta aptidão primordial, que constella os seus livros de retratos veridicos e profundos, de paizagens vivas de narrações dramaticas. Capaz de operações abstractas, a razão scientifica completa n'elle a imaginação poetica, e a analyse explicativa anda ligada ao colorido intenso. Sujeito ás emoções vehementes e frequentes, sobre tudo ás de ordem moral, isto é, a compaixão, a admiração, a indignação, e o desprezo, a sua obra, dramatica pela logica e pela vida, sel-o-á tambem pela paixão; mas a intuição do psychologo e a reflexão do philosopho hão de envolvel-o n'um nimbo de indulgencia, de ironia e de tristeza. Empregando um estylo em que parecem reviver e encarnar todas as qualidades da sua alma, successivamente energico e suave, enthusiasta e sarcastico, e cujo tecido fluctuante e agil acompanha como uma purpura amarrotada e resplandecente os movimentos bruscos do seu espirito. Lançado na politica pela energia do sentimento moral e importando para a Acção a elevação do philosopho e a perspicacia do homem pratico, e pondo ao serviço das aspirações do moralista a habilidade do psychologo. Uma relação intima liga entre si todas as partes do seu talento e faz derivar d'elle todos os aspectos da sua obra.

Lisboa, Abril de 1887.

INDICE

I. OS CARACTERES--Que a sua imaginação é psychologica--Que ella é realista--Comparação com a de Eça de Queiroz--O caracter portuguez e o hespanhol--Retrato de D. Affonso Henriquez--Retrato de D. Pedro I--Retrato de Herculano--Que essa imaginação é completa.

II. AS PAIZAGENS--A imaginação physica: exemplo, Ramalho Ortigão--Caracter das paizagens em Oliveira Martins--Que ellas são transcrições moraes dos aspectos physicos--Que ellas são a explicação de um mecanismo.--Descripção do littoral alemtejano--Descripção da paizagem minhota--O terremoto.

III. AS THEORIAS--A theoria do Acaso--Concepção do Universo e da sciencia--Ausencia de razão oratoria--Falta da amplificação e da prova--Caracter artistico da sua intelligencia--Comparação com as intelligencias simplistas: os primeiros escriptos de T. Braga--A inspiração e a intuição.

IV. OS SENTIMENTOS--Abundancia e energia das suas emoções--Que ellas são de ordem moral--Sua concepção do Amor--Sua concepção da Vida e da Ventura--Acção mutua entre o seu caracter e a sua intelligencia.

V. O ESCRIPTOR--Valor do estylo como documento--O estylo oratorio: o sñr. Latino Coelho--O estylo de Oliveira Martins--O vocabulario, a syntaxe, as figuras, a composição dos livros, os indices.

VI. O HISTORIADOR--Vastidão complexidade difficuldade dos estudos historicos--Qualidades e lacunas da sua Historia.

VII. O POLITICO--Retrato ideal do Politico--Oliveira Martins como politico.

Composição do seu espirito e deducção da sua obra.

Paris.--GUILLARD, AILLAUD E Cª.