Oliveira Martins: Estudo de Psychologia
Chapter 3
«Mas vinha o clarão das chammas com a sua luz sinistra; vinha a labareda fustigar com o lume a pobre gente semi-nua, tiritando sob o açoute de um nordeste frigido; gelava-se e ardia-se a um tempo; suffocava-se em fumo e pó! E as labaredas cresciam, e o incendio lavrava, e aos gritos desvairados dos infelizes ajuntava-se o crepitar das madeiras o estalar das cantarias, a cascalhada dos espelhos, dos crystaes e dos charões, que o fogo devorava. A densa nuvem de pó que escurecia tudo, illuminava-se com os clarões vermelhos que rebentavam por toda a parte, porque Lisboa inteira derrocada era um brazeiro. As linguas orgulhosas das chammas subiam emproadas para o ceo, juntando ás preces lacrimosas dos habitantes como um protesto satanico dos elementos. Outros protestos, mais positivos e egualmente horriveis, atroavam agora os ares: os escravos vingavam-se da sua escravidão, os mendigos da sua pobreza, os maus da sua maldade. O assassinato, o estupro, o roubo, como n'uma terra posta a saque, rolavam de envolta com as ruinas e o fogo: e por entre os destroços ainda apagados, viam-se os perfis negros dos escravos, rindo infernalmente, com os olhos injectados, os dentes brancos, a atiçar tições ardentes para cima das ruinas, augmentando o incendio, acclamando a chamma vingadora!... Misericordia! Misericordia!»
Estas paginas tem o encanto da desordem e a majestade da força. O que seria defeito na descripção de scenas calmas e de objectos regulares é virtude na pintura de paysagens revoltas e de figuras desmedidas e informes. A violencia extrema da imaginação é adequada ao caracter terrivel do quadro. O sentimento vivo da energia que abunda nos trabalhos do Sr. Oliveira Martins, não podia ter melhor emprego do que na representação dos estragos produzidos pelo desencadeamento da energia. Ajunte-se a estas paginas que transcrevo, outras que calo. Leiam-se as suas descripções de incendios, batalhas, execuções, matanças, sedições populares, tumultos parlamentares. Observe-se que a poesia é a arte que tem por instrumento a palavra, e que a palavra, pela sua origem provavel e pela sua ligação certa com a paixão, é uma expressão natural dos movimentos da alma, que a obra litteraria tem antes um alcance moral do que um valor plastico, e ver-se-á que tive razão quando disse que o Sr. Oliveira Martins procedia na composição das suas paizagens não como um pintor mas como um poeta.
Como um poeta e como um geographo. Não só as suas paizagens são sentidas, mas ainda pensadas. Ellas são para elle não só fontes de emoção, mas resultados de forças, constituidas em systemas naturaes pela communidade das causas que as determinam, e pela identidade de effeitos que provocam nos espiritos sobre que actuam. São poemas que se leem, effeitos que resultam, e meios em que se vive. Assim, depois, de ter descripto a largos traços a paizagem italiana, resume: «Ao sul da Italia reinam os vulcões, ao norte imperam os rios; além o constructor da terra é o fogo, aqui a agua.» Leia-se na _Historia de Portugal_ esta descripção do littoral alemtejano.
«As aguas estagnam ou escasseiam nos baixos, as populações definham. Ou torradas pelo arido suão que os areaes ardentes não podem suavisar, e sem montanhas que obriguem os vapores do mar a condensarem-se, ou envenenadas pelos miasmas dos paúes que o sol de fogo põe numa fermentação permanente, as populações amarellidas e magras definham, curvadas pelo mortifero trabalho das marinhas de sal, ou da cultura do arroz. São o contraste das baixas do norte do paiz, estas baixas do sul. Além, copiosas chuvas e uma humidade criadora; aqui, o ar secco (500 a 700 mill. annuaes, 30 a 50 no estio; humidade 30 a 80%), duro e carregado de emanações mephiticas. Além uma temperatura branda, aqui um calor excessivo (med. 17°). Além uma população exuberante; aqui as solidões e os areaes nus, matisados pela traiçoeira cevadilha, e pelo aloés orgulhoso, levantando com imperio o seu pennacho de carmim. Além homens laboriosos e familias; aqui esfarrapadas tribus em choupanas, tiritando com o frio das sezões n'uma atmosphera de fogo, mulheres esqualidas, crianças verde-negras, homens na indifferença da desolação, ou na vertigem do crime!» Eil-o que penetra na paizagem fazendo reflexões de geographia e meteorologia, munido de um udometro e de um hygrometro. A imaginação não fica abafada sob os dados numericos e technicos, e o quadro com ser instructivo não deixa de ser artistico.
Dos dois caracteres que notamos nas paizagens do Sr. Oliveira Martins, o ser uma transcripção de emoções e o ser a explicação de um mechanismo o ultimo predomina no trecho que acabamos de citar, o primeiro no que antes citaramos; ambas apparecem n'um justo equilibrio no que passamos a citar.
«Aquem Tamega o scenario muda. A humidade cria em toda a parte vegetações abundantes; não ha um palmo de terra d'onde não brote um enxame de plantas; mas como o solo é breve, como a rocha afflora em toda a parte, e os campos nascem do terreno vegetal formados nas anfractuosidades do granito pelas folhas e ramos decompostos e nos estuarios dos rios pelos sedimentos das cheias, a vegetação é rasteira e humilde, o pinho maritimo de uma constituição debil, o carvalho um pygmeu, enleado ainda pelas varas das vides suspensas. A densidade da população completa a obra da natureza, numa região onde o vinho não amadurece: o acido picante dá-lhe uma semelhança das bebidas fermentadas do norte, cidra ou cerveja, e com ella, ao genio do povo caracteres tambem semelhantes aos dos bretões e flamengos. A vegetação de si mesquinha, é amesquinhada ainda pela mão dos homens; as necessidades implacaveis da população abundante, produzem uma cultura que é mais horticola do que agricola: pequeninos campos circumdados por pequeninos valles, orlados de carvalhos pygmeus decotados, onde se penduram os cachos das uvas verdes. No meio d'isto formiga a familia: o pae, a mãe, os filhos, immundos atraz d'uns boisinhos anões que lavram uma amostra de campo, ou puxam a miniatura de um carro. Sob um ceu ennevoado quasi sempre, pisando um chão quasi sempre alagado, encerrado n'um valle abafado em milhos, dominado em torno por florestas de pinheiros sombrios, sem ar vivificante, nem abundante luz, nem largos horizontes, o formigueiro dos minhotos não podendo despegar-se da terra como que se confunde com ella; e com os seus bois, os seus arados e enxadas forma um todo, donde se não ergue uma voz de independencia moral, embora a miude se levante o grito da resistencia utilitaria. A paizagem é rural não é agricola; a poesia dos campos é naturalista, não é idealmente pantheista. Quem uma vez subiu a qualquer das montanhas do Minho e dominou d'ahi as lombadas espessas d'arvoredo, sem contornos definidos, e os valles quadriculados de muros e renques de carvalhos recortados, sentiu de certo a ausencia de um largo folgo de ideal, de uma viva inspiração de luz: apenas aqui e acolá, no meio da monotonia da côr dos milhos, um canto do alegre verde do linho, vem lembrar que tambem no coração do minhoto ha um logar para o idyllio infantil do amor.»
Se eu quizesse resumir o que penso das paizagens do Sr. Oliveira Martins, diria que ellas revelam uma percepção mediocre da linha, e uma percepção maior da côr, um sentimento vivo dos movimentos, uma visivel tendencia para traduzir os aspectos physicos em impressões moraes, e uma aptidão activa para explicar os aspectos physicos como mechanismos naturaes; traços estes que dão ás suas paizagens o valor de um elemento da Historia. Ellas são productos da imaginação psychologica e da razão abstracta do auctor, e depois de termos largamente examinado a primeira estudando os seus retratos, vamos analysar a segunda, estudando as suas theorias.
III
AS THEORIAS
Qual é a sua concepção do mundo? qual o seu processo de invenção? qual o seu methodo de prova? qual a quantidade a qualidade e a ligação das suas idéias geraes? Eis as perguntas que um critico deve fazer sempre que queira ter uma percepção clara da razão do escriptor que analysa.
Á portada do seu livro _O Hellenismo e a Civilisação christã_ ha uma theoria digna de attenção, menos pelo seu valor intrinseco de verdade ou novidade do que pela sua importancia como indicio do espirito que a formulou. É a theoria do Acaso. Em presença da realidade historica, como em presença da realidade natural, o Sr. Oliveira Martins é ferido pelo caracter eminentemente _concreto_ que ella apresenta. A infinita complexidade propria das cousas e que imprime a cada uma um caracter de individualidade, não escapa á sua observação. Na sciencia, pensa elle, o necessario e o fortuito tem uma funcção igualmente inevitavel. É certo que o Sr. Oliveira Martins não confunde o fortuito com o milagroso, que justamente regeita como irracional. Mas admittindo ser impossivel explicar um caso qualquer na sua totalidade, elle introduz um elemento d'ignorancia mesmo n'aquella porção da Realidade que é confessadamente do dominio da sciencia positiva. É isto que a sua notavel theoria do Acaso enuncia com a lucidez propria das operações abstractas. Os factos apparecem-lhe certamente formando series e ligados entre si pelo nexo da causalidade. Mas o encontro d'essas series determina nos pontos de intersecção a apparição de novas formas de realidade, cuja existencia a sciencia não póde explicar, visto o encontro das series não ser necessario, e cujos aspectos o investigador se deve limitar a descrever, abandonando aqui a razão abstracta, instrumento adequado á descoberta das leis geraes, pela imaginação poetica, visão sufficiente da existencia concreta.
Sem entrar na discussão desenvolvida d'esta theoria, a meu ver inexacta, não posso deixar de me demorar um instante com ella. A introducção da noção de Acaso como elemento constitutivo da Realidade, quer se considere o Acaso como ausencia de leis, quer seja apenas synonymo de contingencia no encontro das series naturaes expressas por essas leis, significa sempre uma abdicação confessada ou tacita da Razão. A previsão dos casos futuros, aferidora da solidez das verdades adquiridas, torna-se tão impossivel n'um universo em que a ausencia de causalidade implica uma constitucional e incuravel anarchia, como n'um mundo em que os factos apparecem, sim, ligados por um nexo abstracto de causalidade, mas em que as cousas são aggregados contingentes, resultantes da intercorrencia de series independentes. A coherencia parcial representada pela existencia d'essas series é inutilisada pela ausencia de uma connexão natural que ligue as series n'um systema, resultando d'ahi uma incoherencia effectiva como a que torna um cahos o mundo concebido pela philosophia de Stuart Mill. Os resultados de uma tal doutrina fazem-se sentir logo; e não é difficil dizer porque occorrem ás vezes á penna do Sr. Oliveira Martins expressões singulares, que levariam a suspeital-o de scepticismo intellectual, se o corpo das suas opiniões não desmentisse uma tal hypothese, e se o proprio auctor não corrigisse o que as suas expressões possam conter de excessivo. Copiarei do prefacio do _Portugal contemporaneo_ estas linhas para exemplo: «O profundo e inabalavel reconhecimento das causas que fazem dos homens os instrumentos do acaso ou do destino!...» N'este trecho está como que visivel toda a theoria. A affirmação das causas não exclue a admissão do Acaso e uma extranha reserva coexiste com um dogmatismo energico.
A theoria acima exposta contém certamente alguma cousa de verdadeiro; para que fosse absolutamente exacta seria preciso completal-a pela affirmação de uma solidariedade estructural entre as partes e de uma unidade systematica no todo universal. Affirmação esta que tem o seu fundamento quer na doutrina da communidade d'origem e identidade latente dos elementos da Realidade, quer na philosophia que vê na idéia de Systema como no conceito de Causa formas condicionaes do pensamento. Admittindo qualquer d'estas hypotheses, o Sr. Oliveira Martins não se privava do direito de se conservar n'uma prudente reserva em frente da esmagadora complexidade das cousas concretas, antes lhe seria facil motivar a sua abstenção com a impossibilidade em que se acha o espirito de exgottar por analyses successivas a quantidade infinita de elementos que entram na formação do mais insignificante phenomeno. De maneira que esta impossibilidade de explicação completa proviria não de uma falta de coherencia entre as series causaes, mas de um excesso d'ella. Fundada nestas duas idéias, o Universo e o Individuo, é possivel proceder á construcção da sciencia positiva. Para conseguil-o deve-se ainda recorrer a principios subsidiarios. Não entra no programma d'este estudo enuncial-os. Diga-se porém que a noção de jerarchia de causas e a comparação entre grandezas de forças são instrumentos adequados á resolução do problema.
Seja porém qual for o valor doutrinal d'esta theoria, ella nos interessa como documento do espirito que analysamos. Vê-se que o Sr. Oliveira Martins encontra na realidade dois principios, um necessario, outro fortuito. Quanto ao primeiro o nosso auctor exprime-se categoricamente; e investe-o de certeza absoluta; e no fim do seu livro a _Anthropologia_ escreve o seguinte: «A logica dipensa os prolegomenos da physiologia; e todos os progressos passados ou vindouros da anatomia do cerebro não alteraram, nem alterarão uma linha só do systema das suas leis. Podemos affirmar com afouteza que o que torna certa para nós uma proposição, a tornaria egualmente certa para intelligencias tão bem munidas de conhecimentos como a nossa: embora com a indispensavel capacidade organica, tivessem uma constituição physiologica differente. Com algumas circumvoluções mais ou menos no cerebro talvez se não seja capaz de comprehender a geometria; mas, sendo-se, a geometria não poderá ser diversa da que nos ensinaram Euclides ou Archimedes.» Esta peremptoria affirmativa nos revela uma intelligencia que por natureza ou por systema, se não deixa immergir nas nevoas da duvida. Quanto á admissão de um elemento fortuito na realidade, é conveniente observar que o Sr. Oliveira Martins não só o confessa mas ainda o pratica. Com effeito nas suas narrações e deducções elle foge ás explicações que se contentam com uma só causa; as suas previsões são cheias de restricções. Pegar n'um trecho da realidade, despil-o de tudo quanto for accessorio, decompol-o n'um pequeno numero de elementos constitucionaes, referil-os a um pequeno numero de causas simples, subordinar todas estas causas a um só principio explicativo que é razão sufficiente de todo o grupo estudado, partir do trabalho feito para formular previsões imperiosas semelhantes a ordens dadas ao futuro, são actos proprios das intelligencias simplistas e centralistas, de que offerecem um excellente exemplo entre nós os primeiros escriptos do Sr. Theophilo Braga. O Sr. Oliveira Martins procede de um modo bem diverso. Elle multiplica os pontos de vista, não poupa principios novos para explicar novas formas de existencia, foge de theorias demasiado simples, e quando formula uma lei só admitte a sua futura realisação sob certas condições, abstendo-se de uma excessiva confiança na sciencia como explicação do presente ou previsão do porvir. Sem tomar as interminaveis precauções, nem ter a delicadeza infinita de um Ernesto Renan, por que lh'o não permitte o temperamento nimiamente apaixonado da raça, a sua prudencia é grande e seria efficaz, se a não prejudicasse o seu exaggerado e contumaz espirito de improvisação. Assim como é, não se torna porém difficil mostrar a relação que prende os seus habitos d'intelligencia á sua concepção da realidade.
Nem é menos facil apontar o nexo logico que liga a concepção exposta e as tendencias indicadas ao seu habitual e confessado processo de indagação. «Não bastam á historia, diz elle, a observação e o systema classificador, assim como á sua lingua, não bastam a precisão e a clareza; é mister sentir e adivinhar e por no estylo a vida e o calor proprios das cousas moraes». E accrescenta: «O historiador não reproduzirá a sociedade, se não poder combinar no seu espirito o raciocinio que descreve, a intuição que vê a alma que sente.» É mister sentir e adivinhar diz o Sr. Oliveira Martins e é o que elle faz de preferencia. Alguns verão n'estas palavras um paradoxo ou uma ironia. Mas as pessoas versadas no assumpto sabem que ha duas maneiras de inventar: Ou se parte da observação das causas e por um laborioso processo de raciocinio se sobe aos principios mais geraes que as explicam, ou por uma immediata e impetuosa improvisação se descobrem estes mesmos principios sem passar por todas as intermediarias logicas que são os seus antecedentes naturaes. D'estas duas classes de intelligencias, uma fadada para a grande descoberta inconsciente, outra predestinada para a perfeita prova efficaz, e que mutuamente se completam, porque se uma é a invenção, a outra é a demonstração, o Sr. Oliveira Martins pertence á primeira, isto é, apparece-nos antes como um poeta, do que como um orador. Certamente elle estuda os assumptos de que trata, mas vê-se que as suas theorias derivam menos da erudição que da intuição. Póde-se dizer que elle adivinha, se entendermos por adivinhação, não uma milagrosa apprehensão de principios impossiveis de descobrir por meios naturaes, mas uma veloz e certeira descoberta de verdades que seria lento e penoso investigar pelo raciocinio ordinario. O nosso auctor pertence, salvo as differenças de grandeza, a essa classe d'espiritos, de que são excellentes exemplares Michelet na França, Carlyle na Inglaterra, e na Allemanha tantos Allemães. É antes um poeta, do que um orador. Porque os attributos proprios da razão oratoria, o instincto da ordem, o habito da symetria, o emprego das verdades claras e equidistantes, a contextura equilibrada e a velocidade uniforme do discurso, a abundancia de argumentos e a efficacia de provas, não são visiveis nos seus livros. Pelo contrario, os dons propriamente poeticos, a veracidade e a intensidade da visão concreta, a energia da imaginação instantanea e intermittente, o vôo desigual e tortuoso do raciocinio, o emprego da inspiração, e da paixão como processos de descoberta e exposição, saltam aos olhos de quem o estuda. Este genero de espirito é fadado, pela sua estructura, ás verdades importantes e aos erros frequentes, e nem umas, nem os outros faltam nos trabalhos do Sr. Oliveira Martins.
D'entre os dotes oratorios acima indicados, e cuja falta notei no Sr. Oliveira Martins, um dos mais importantes é certamente o talento e o gosto da prova; qualidade esta cuja importancia sobe de ponto, se observarmos que a prova é não sómente um instrumento da eloquencia, mas ainda um elemento da sciencia. Quem o leu, observou de certo, que elle se contenta com expor as idéias, muitas vezes novas, sempre interessantes, que lhe occorrem nas suas explorações atravez da Historia, sem procurar fundamentar as suas theorias, e tornar evidente aquillo que considera como verdadeiro. E não só esta ausencia de provas é visivel em questões theoricas, mas ainda em materia de factos. Certamente as narrações do Sr. Oliveira Martins tem um cunho d'extrema verosimilhança. Artista pela visão das massas e pelo sentimento dos conjunctos, elle sabe adequar os pequenos factos que escolhe ao effeito final que deseja, e nos seus livros a harmonia do todo garante a veracidade das partes. Mas salvo esta garantia que é commum ao romance que se imagina, como á historia que se narra, nada merece nas suas obras o nome de demonstrado. Nem a immensa accumulação dos factos averiguados, nem a enumeração completa dos documentos compulsados, nem a discussão e a critica das fontes exploradas, vem dar á sua narração o cunho da certeza. Entrando num assumpto vai direito ao amago d'elle, e depois de traduzir a viva impressão recebida, com uma abundancia extrema de pormenores sensiveis, n'um quadro que se grava na memoria, passa a atacar outro assumpto e a pintar outro quadro, sem procurar convencer o leitor da efficacia da analyse e da fidelidade da pintura. No seu desdem de artista e no seu orgulho de inventor, parece crer que a evidencia é a atmosphera da intelligencia e repelle a prova como um pleonasmo. Nenhum dos nossos escriptores merece mais ser lido, nem carece mais de ser lido com cautela.
IV
OS SENTIMENTOS
Estudada a sua intelligencia passemos a estudar a sua sensibilidade; esta não é menos interessante do que aquella.
Qual é o numero, a força, a especie das suas emoções? Certamente ellas são numerosas. A emoção é um estado habitual da sua alma. Qualquer que seja o assumpto de que se occupa, a paixão abunda. Isto é visivel sobretudo pelo tom do seu estylo. Historia ou critica, jornal ou theoria, tudo quanto escreve é animado por um sopro quente de commoção sincera. Nenhuma idéia lhe apparece como um simples objecto de comprehensão, mas como uma verdadeira fonte de impulsões.
Frequentes e intensas. Basta percorrermos os seus livros, mesmo de relance, para nos convencermos que a força das suas emoções é tão grande como a sua constancia é perfeita. Vehementes sempre, violentas muitas vezes, ellas constituem pela sua multiplicidade e continuidade um estado habitual de exaltação da sensibilidade. Dotes estes, que ligados á sua capacidade de visão, concreta e ao seu vivo sentimento dos totaes, dão a este historiador um alcance de artista e fazem d'este publicista um verdadeiro poeta.
Ardentes e frequentes. Até aqui não vimos das suas emoções senão a quantidade, e isso mesmo dentro d'aquelles limites de imperfeita approximação que não é dado á Psychologia transpor. Vejamos agora a sua qualidade, isto é a especie dos sentimentos, e ordem dos agrupamentos.
Sem duvida essas emoções são tristes. O bem estar em frente da realidade, a alegria de viver, não são sentimentos proprios do seu espirito. A gravidade e a tristeza que elle considera como qualidades da alma portugueza, são-no tambem da sua mesma alma. Se a dor é um maximum de sensação, a extrema sensibilidade é um principio de soffrimento.
Capaz de emoções frequentes e vehementes, e propenso a emoções graves e tristes, vejamos que sentimentos são despertados n'elle ao contacto dos objectos, como elles se combinam com as ideias, quaes d'entre elles se transformam em paixões, e são capazes pela sua persistencia e efficacia de lhe governarem a actividade.
Certamente não é a belleza physica que se impõe á sua admiração. Escriptor de imaginação psychologica, a harmonia das linhas e o esplendor das côres deixa-o insensivel. Nós só nos commovemos com aquillo que percebemos, e a nossa sensibilidade é solidaria com a nossa intelligencia. Por isso no espirito que analyso, o enthusiasmo franco em frente da magnificencia da materia, a sympathia ardente pelo livre jogo das forças naturaes, não são visiveis. Se o Paganismo significa o amor da vida corporal e o predominio da actividade instinctiva, em contraposição com o Christianismo, considerado como uma reacção espiritualista, e uma repressão systematica das paixões organicas, não se lhe poderia chamar pagão. Mas a solidez da sua razão prática e a energia das suas tendencias moraes prohibe que o consideremos christão. Não é christão porque é mais largamente humano.