Oliveira Martins: Estudo de Psychologia
Chapter 2
Mas a aptidão superior que o leva a marcar n'um espirito o facto capital é acompanhada pelo tino da realidade que lhe impede de fazer derivar tudo d'este unico facto; ao lado d'esta causa primordial o Sr. Oliveira Martins restabelece os principios subsidiarios que a modificam, limitando-a, e combinando-se com ella originam uma alma real, capaz de viver entre cousas reaes e de produzir obras reaes. Por este sentimento intenso do concreto o Sr. Oliveira Martins nos apparece como um verdadeiro artista, e não como um simples combinador de abstracções.
«.... Não basta o principio individualista para explicar a physionomia intellectual de Herculano. Varias causas concorriam para o temperar ou desviar das suas logicas conclusões. O saber é uma d'essas, mas a principal é o seu temperamento estoico. Para Herculano, e em geral para o estoicismo, uma doutrina não é um producto da intelligencia pura, que póde ser ou não amado e _vivido_. O estoico vive com o que pensa; o seu pensamento está no seu coração: é a carne da sua carne, o sangue do seu sangue; é uma fé, não é apenas uma opinião. Eminentemente forte, é por isso mesmo positivo e pratico. As doutrinas são para elle realidades, não são abstracções; e nada valem quando nada representam na esphera da consciencia e da moral, quando nada valham na do direito e da economia. Por isso as extremas conclusões do individualismo, irrealisaveis, praticamente absurdas, immoraes até, repugnantes para o proprio instincto, contradictadas pelo saber mais mesquinho, essas conclusões, delicia d'espiritos seccos, de philosophos abstrusos, de ingenuos ignorantes,--não podia Herculano, sabio e estoico, abraçal-as. Parava, pois, afim de conciliar a sua opinião com o seu sentimento; e se em resultado sahiam inconsequencias, ellas não fazem senão demonstrar a verdadeira nobreza da sua alma e a tempera rija da sua intelligencia.
«Lado algum das suas idéias mostra isso mais do que o economico. Tão livre-cambista como individualista: ou ainda mais, porque o socialismo, cujo crescer sentia e temia, vendo ahi um positivo e declarado inimigo, e o vivo problema do futuro, ou ainda mais, dizemos, porque não parava, nem limitava as conclusões ultimas, Herculano era radical no _free-trade_, pois firmemente acreditava n'elle como numa panacia. Estoico sempre, a doutrina da concorrencia apparecia-lhe principalmente por um lado,--secundario para os economistas. O livre-cambio, proclamado como a melhor receita para crear a riqueza, era para Herculano sobre tudo a melhor fórma de a distribuir. Queria que as leis pulverisassem o solo, no qual não reconhecia outro valor senão o que o trabalho consolidava n'elle, e esperava que a concorrencia, desembaraçada de todas as peias, creasse uma sociedade proudhoniana, em que todos fossem capitalistas e proprietarios. Como estoico, era um socialista; mas o seu socialismo realisar-se-ia pela liberdade, pela concorrencia. E quando se lhe contavam os casos repetidos, actuaes, do sem numero de monopolios de facto, nascidos, não das leis, mas sim da guerra natural economica,--elle parava, scismava e não respondia.
«Via-se que lá dentro luctavam a doutrina e a lucidez; em se convencer, sem mudar, apparecia o moralista invectivando os vencedores d'essa lucta donde elle esperava a justiça e donde apenas sahia o dolo. Ninguem o excedia então; e ao ouvil-o, dir-se-ia algum fugido de Paris, dos tempos da Communa,--porque nos referimos agora aos seus ultimos annos, ás vesperas da sua morte, quando a agiotagem _livre_ de Lisboa e Porto provocou uma crise bancaria. Quiz então o governo cohibir a liberdade de emissão, mas não o pôde.»
E transcriptos uns trechos de carta em que o individualista defende a sua doutrina, mesmo contra argumentos tirados d'um campo, em que as consequencias d'ella são promptas e fulminantes, o critico prosegue.
«Mas se essa liberdade, expressa na concorrencia economica,--e na franca emissão de notas, no caso especial tomado para exemplo; mas se essa liberdade conduz a taes resultados, sendo em si excellente, força é que haja um vicio no mechanismo das instituições. E ha, sem duvida, diz Herculano,--é o anonymato.
«Na essencia, a _bank-note_ é a expressão do credito que o individuo attribue a si. Que se reunam 7, 70 ou 700 individuos para sommarem essas avaliações; que se chame banco e que exprimam collectivamente o total, isso não muda a essencia da cousa. Supprimia todas as responsabilidades _limitadas_. A responsabilidade é de sua natureza _illimitada_ até onde chegam os recursos e pessoa do responsavel. _Non habet in posse, dicat in corpore_, é maxima que se não devia desprezar n'esta questão do abuso do credito. Note-se que eu desejaria supprimidas todas as responsabilidades limitadas, tacitas ou expressas, manifestas ou disfarçadas.»
«Nós vimos antes como o espirito do erudito historiador corrigia em certo ponto a doutrina individualista; vemos aqui o jurista a corrigir o livre-cambio; vamos ver o canonista a corrigir para a direita o ultramontanismo, para a esquerda o atheismo. A educação do homem temperava os principios do philosopho; e essas correcções eram-lhe indispensaveis para que os seus pensamentos se mantivessem de accordo com os seus rectos instinctos, com as suas bellas aspirações,--eram-lhe indispensaveis, porque o estoico não admitte divergencias entre a intelligencia e a moral, entre o mundo das idéias e o das realidades.
«Com fundado motivo dizia Herculano que perante os principios,--liberal e socialista, ou individualista e collectivista,--era indifferente a questão das fórmas do governo: «pouco me incommoda que outrem se sente n'um throno, n'uma poltrona, ou n'uma tripeça». Mas essa questão da republica ou da monarchia, é para elle um problema não só historico, mas tambem religioso.
«Pondo de parte a questão de opportunidade no momento d'uma crise, a republica não parecia a Herculano adequada «á velha Europa, sobretudo a estas sociedades meio-germanicas na indole e celto-romanas na raça que estanceiam ao occidente educadas pelo catholicismo que na pureza da sua indole é o typo da monarchia representativa.»
«A tradição religiosa--ou antes aquella tradição religiosa d'um catholicismo liberal inventada pelo romantismo,--servia, pois, ao philosopho para temperar o seu individualismo, para o conciliar com um resto de auctoridade social consagrada nas prerogativas do throno representativo. De tal modo se combinava o racionalismo, e este traço é o que dá a Herculano, ou antes á sua doutrina um caracter d'individualidade original, depois do ensino, apenas racionalista de Mousinho da Silveira.
«Tambem entrava ao lado da educação, o temperamento para acabar de afeiçoar a physionomia religiosa de Herculano. O mechanismo do frio Deus kantista não bastava á sua indole peninsular. A imaginação pedia-lhe a antiga historia tradicional; o sentimento reclamava que quer que é d'affectuoso e meigo,--a doce caridade catholica; e o bom-senso exigia o culto e a pompa que impressionam as massas. O protestantismo, alvo das suas acerbas satyras, não satisfazia a sua alma, nem as suas exigencias de canonista. Nada propenso ao mysticismo, e até rebelde a comprehendel-o fóra da caridade pratica, não via na religião mais do que uma Egreja,--instituição e disciplina....
«A Liberdade, supposto principio que para elle resumia a essencia d'um espirito racional e absolutamente consciente, era afinal o seu verdadeiro e intimo deus. É essa a religião do estoico; e o Deus da _Harpa do Crente_ é um ser eminentemente livre que por um acto de vontade absoluta creou tudo o que existe: o deus do estoico é a divinisação do estoicismo. E como todos sabem por quanto esta antiga philosophia entrou na formação do christianismo, é desnecessario mostrar desenvolvidamente como e até que ponto Deus era para Herculano o Deus christão.
«Obras de tres naturezas diversas nos revelam pelo estylo tres phisionomias. A primeira, official e grave, são os seus trabalhos historicos, onde o periodo redondo e classico, mas sem affectação quinhentista, se desenvolve alimentado pelos _caldos de Vieira_ que nos receitava a nós os moços, para educar a mão; a segunda são os seus romances e escriptos humoristicos, onde mal ataviado o periodo jesuitico, ás vezes combinado com fórmas e _tours_ estrangeirados, transparece sempre o _goût du terroir_, o cunho do portuguezismo duro e pesado, mais aggressivo do que de comedia. Na terceira, finalmente, em nossa opinião a mais bella, nos escriptos de polemista a phrase rotunda é quente, a aggressão é viva, as palavras tem calor, e a dureza do genio lusitano acha nos sentimentos expressos em orações duras, uma convicção, uma independencia que a ennobrecem. Ouve-se a voz do estoico, e ha uma harmonia perfeita entre o pensamento profundo, grave e forte, e o estylo redondo, sobrio e nobre. A rethorica classica é o molde proprio do classico pensamento estoico. Mas entre estas obras ha uma, uma unica (_Carta á Academia das Sciencias_), onde apparece o homem intimo, sensivel, caridoso e simples, esse homem que nós esboçamos fugitivamente, porque a vida, a educação, o temperamento, de mãos dadas concorriam para o subalternisar ao homem estoico; ha uma dizemos, em que as palavras não falam apenas, choram e vociferam, tem lagrimas e imprecações e ironias. Ferido no vivo coração da sua existencia, o homem poz no papel o melhor do seu sangue. O que o genio do artista obtem com a intuição, consegue-o o poeta com a emoção. A _Carta á Academia_ é tão bella como as melhores das poesias intimas de Herculano.
«Para elle que, como lusitano, nada tinha de artista (prova, os seus romances), a litteratura era uma missão e não um dilletantismo. O universo, a historia, a sociedade, não se lhe apresentavam como assumpto de estudos subtis e curiosos, de observações finas ou profundas, de quadros brilhantes, vivos ou commoventes; mas como objecto de affirmações ou negações inspiradas pela convicção estoica. Nos seus livros póde seguir-se ao mesmo tempo o desenvolvimento do seu pensamento e a historia da sua consciencia. São o retrato da alma do auctor, ora apaixonada, ora melancholica, quasi sempre triste, raras vezes contente, mas sempre convicta, energica e franca.
«As _Poesias_ e o _Eurico_ revelam-nos o crente na providente liberdade d'um poderoso e justo Deus; a alma rijamente temperada contra o funesto acaso; o coração aberto ás emoções da natureza que se lhe manifesta com o caracter d'uma fatalidade cruel e d'um cego desabrimento. Deus, a Natureza, o Homem, são, n'essas obras, personnagens d'uma tragedia biblica, com a tempestade rouca por musicas e por fundos de scena bulcões de opacas nuvens cobrindo o azul do ceo.
«Vem depois as obras polemicas, vasta e riquissima collecção que patenteia a omnimoda actividade do pensamento de Herculano, e lhe dá o caracter d'um philosopho, cujo pensamento em vez de se manifestar em tratados, se exprime em controversias. Profissionalmente, era historiador. A _Historia de Portugal_ e os trabalhos que com ella formam o corpo dos estudos do erudito são a obra mais importante do escriptor e solido fundamento do seu immorredouro nome na historia litteraria portugueza. Reunindo a um vasto e forte saber geral a paciencia do erudito e o escrupulo do critico, esses trabalhos não respiram a pedante seccura do especialismo, e se não constituem, nem podem constituir uma historia nacional, fizeram com que os problemas das origens sociaes e politicas da nação portugueza fossem por uma vez resolvidos. A historiographia peninsular tem em Herculano o seu mais illustre nome: um nome que se conservará ao lado do de Guizot, de quem tinha os golpes de vista comprehensivos, e do de Thierry, a quem acompanhava na faculdade de representar vivas, nos seus habitos, costumes e leis (senão em sua alma como um Michelet) as passadas gerações,--avantajando-se a ambos na coragem com que arcou com o trabalho improbo de colligir, coordenar, traduzir, interpretar os monumentos historicos d'um povo que não tivera benidictinos eruditos. Robinson de nova especie, Herculano achou-se como n'um paiz deserto e teve de descobrir os materiaes antes que pudesse pôr mãos á obra.
«Prodigio de trabalho, de saber, de paciencia, de talento, a _Historia de Portugal_, é um monumento; entretanto,--devemos dizel-o, se quizermos ser inteiramente justos.--mais de uma cousa lhe falta, para poder ser considerada um typo, e o seu auctor um grande historiador como Ranke. Falta-lhe ar na contextura sobrecarregada de eruditas discussões; falta-lhe, sobre tudo, aquella alta e serena imparcialidade, aquelle ponto de vista rigorosamente objectivo, aquella isenção critica, impassivel perante as escholas, os systemas, os partidos; e sem a qual a historia deixa de o ser.
«Além d'isto, ha uma falta de nexo na _Historia de Portugal_, resultado do modo como primeiro foi concebido.... as duas faces do livro se não ligam,... os factos e os homens nos apparecem como um appendice, subalterno, indifferente, dando a impressão de que se tivessem sido outros e diversos, nem por isso a vida anonyma das sociedades poderia ter seguido rumo differente. E se nem a acção dos elementos voluntario-individuaes e dos fortuitos, sobre os elementos sociaes, nem a inversa, nos apparece, tirando assim á historia o seu caracter eminente de realidade; juxtapondo artificialmente a uma chronica, veridica, desinçada dos erros e das invenções fradescas, uma dissertação erudita sobre o desenvolvimento das instituições: tambem a apreciação dos elementos moraes,--crenças individuaes, phenomenos de psychologica collectiva,--é feita á luz de doutrinas quasi voltaireanas; e no avaliar das lendas religiosas, da acção do clero, o historiador prescinde de profundar os motivos moraes, ou cede a palavra ao sectario que nos bispos e em Roma não vê outra cousa mais do que sacerdotes da astucia e uma Babylonia de perversão.».
N'este magnifico retrato se vê em alto relevo todos os recursos do auctor. No arcar com uma empresa difficil se mede toda a força disponivel. Tendo de estudar uma natureza complexa e eminente, o psychologo desenvolveu n'esse trabalho todos os recursos do seu eminente e complexo espirito. Eminente e differente, o espirito estudado vê-se que quem o estuda, nem philosopho por officio, nem stoico por temperamento, é capaz de, pela imaginação psychologica, perceber as idéias geraes e as paixões moraes. Quiz transcrever quasi na integra, estas paginas numerosas, mas que se lêem d'um fôlego, porque um bom exemplo se não é um ramo legitimo de prova, é um instrumento optimo de exposição, e convem expor com a lucidez maxima, aquella que reputo a faculdade matriz do espirito que analyso, e que nenhum escriptor portuguez contemporaneo possue em tão alto grau como o Sr. Oliveira Martins.
II
AS PAIZAGENS
Com a imaginação psychologica, possue elle a imaginação physica? O exame das suas paizagens o dirá. Um escriptor como o Sr. Ramalho Ortigão, por exemplo, em quem o dom da representação visual, apparece completo e permanece intacto, procederá nas suas descripções pela transcripção minuciosa, exacta e methodica das impressões taes como foram recebidas, ou antes taes como foram enviadas dos objectos. Se elle descreve um trecho qualquer da realidade, supponhamos uma rua de Amsterdam, começará por calcular-lhe a largura, 3 metros; verá os predios de tres e quatro andares, em tijolo; notará em seguida a côr do tijolo, preto, e a nuance particular, preto côr de sombra ou vermelho tostado; falará das varas pintadas de verde dos enxugadouros, onde pendem riscados brancos, azues e vermelhos; observará as pranchas com vasos, as taboletas sobre as portas, vinte objectos miudos ou dispersos, um gallo branco de crista encarnada, o pão de assucar da tenda, uma chave de broca para o ar, tres queijos sobrepostos, um branco, um dourado, um preto; uma lanterna, um barril, um tamanco; nas janellas, os espelhos quadrados de caixilho de ferro; no chão comprido e varrido da rua, arrumados á parede uma vassoura, baldes, gigas, celhas, o pincel das lavagens, uma roda desembuchada do eixo, uma lança de corvo, uma gaiola de frangos, e n'uma casota, um sapateiro velho, de oculos, sobre a tripeça, curvado a trabalhar, com o tecto em cima do seu _bonnet_ de lontra. E os objectos virão descriptos com uma tão vehemente fidelidade, que enumerando-os parecerá, não que elle redige um rol mas que estampa uma visão. E as manchas da côr, a direcção das linhas, a obtusidade ou a agudeza dos angulos, a disposição e o recuo dos planos visuaes, o systema das apparições corporaes dadas na adaptação dos seus elementos intestinos, e nas combinações ou contrastes com as apparições adjacentes, o peso, a forma, a proveniencia e a utilidade das cousas vistas, serão dictas n'uma prosa de tal sorte adequada pela sua provada firmeza e estructural precisão ao genero de trabalho a que a submettem, que o leitor se lá esteve, sem querer, exclama: S. Nicolas Straat! repetindo o nome que leu e a rua por que passou.
São assim as descripções do Sr. Oliveira Martins? Não são. Na sua Historia Romana, no livro das guerras punicas, encontram-se descripções admiraveis que rivalisam em colorido e nitidez com as melhores do Sr. Ramalho Ortigão; mas a influencia litteraria é visivel n'ellas, são reminiscencias intelligentes da _Salammbo_ de Flaubert. Ha porém nos seus livros paizagens vistas cuja originalidade é incontestavel. N'essas o processo descriptivo é bem diverso. O Sr. Oliveira Martins não nos diz o que observou, mas o que sentiu. Os aspectos physicos não lhe apparecem senão como signaes de forças e fontes de emoções. E a emoção que elle procura e acha na visão. Se elle observa uma arvore não lhe vê a côr das folhas nem os contornos dos troncos, e se o faz é com intenção e esforço; nota-lhe a expressão moral: «Os campos sobem em terraços viçosos, assombrados pela oliveira _doce e pallida_, dando com a sua folhagem minuscula, _um tom aereo, um tom grego_ á paizagem.....» Ou ainda «o aloés orgulhoso levantando _com imperio_ o seu pennacho de carmim». Falando com precisão elle não reproduz o aspecto das cousas, mas a sua physionomia. As suas paizagens são retratos. Um pedaço qualquer da realidade corporea não é para elle mais que um afloramento de energias latentes e uma causa de sentimentos presentes. O pensamento de Amiel, que uma paizagem é um estado da alma, inexacto para os escriptores de imaginação physica, é absolutamente verdadeiro para os escriptores de imaginação psychologica, como o Sr. Oliveira Martins. Elle encara a natureza não como um pintor mas como um poeta.
Precisemos ainda mais esta analyse. Uma paizagem é um conjuncto de elementos materiaes coordenados de um certo modo no espaço e reflectido de um certo modo no espirito. Dos diversos factos em que ella póde ser resolvida, uns são propriamente objectivos como a grandeza e a figura, outros uma pura sensação individual, como a côr, ou uma fonte directa de emoção como o movimento. D'aqui nascem duas ordens de paizagens, uma a que chamarei descriptiva, outra a que cabe o nome de expressiva. As do Sr. Oliveira Martins são expressivas, como convem a um escriptor de imaginação psychologica. Isto explica tambem porque elle prima na pintura de certas scenas e claudica na descripção de outras. Descreve muito melhor uma batalha do que um assedio, e um naufragio do que uma viagem. As tumultuosas descripções, motins, cavalhadas, procissões, triumphos, combates e festas abundam nos seus livros e são excellentes. Não assim as scenas tranquillas que demandam a lucidez de memoria e segurança de traço e que não provocam senão uma emoção pacifica e duravel. Uma viva preoccupação da força é visivel nas suas grandes descripções e em nenhuma ella se manifesta tão energica como nas magnificas paginas sobre o terremoto.
«Na manhã do 1º de novembro a cidade estremeceu, abalada profundamente e começou a desabar. Eram nove horas, dia de Todos-os-Santos: nas casas ardiam as velas nos oratorios, e as egrejas regorgitavam povo a ouvir missas. Toda a gente, n'uma onda, correu ás praias; mas, rolando em massa, estacou perante a onda que vinha do rio, galgando a inundar as ruas, invadindo as casas. Por sobre este encontro ruidoso, uma nuvem de pó que toldava os ares e escurecia o sol, pairava, formada já pelos detritos das construcções e das mobilias, que o abalo interno da terra vasculhava, e os desabamentos enviavam, em estilhas, para o ar. A onda do povo afflicto, retrocedendo, a fugir do mar, tropeçava nas ruinas; e as quedas, e a metralha dos muros que tombavam, abriam na floresta viva, agitada pelo vento da desgraça, clareiras de morte, montões de cadaveres e poças de sangue dos membros decepados com manchas brancas dos cerebros derramados contra as esquinas. E as casas erguiam se com as paredes desabadas, os tectos abertos sobre o esqueleto dos tabiques, mostrando a nú todos os interiores funestos, n'este dia em que, para muitos, Deus julgara e condemnara Lisboa, como outr'ora fizera a Sodoma. Por isso o rouco trovão dos desabamentos se ouvia cortado pelos ais dos moribundos, e pelos gritos dos homens e das mulheres, abraçadas ás cruzes, aos santos, ás reliquias, soluçando ladainhas, ungindo moribundos, parando esgazeados a cada novo abalo da terra que não cessava de tremer, arrastando-se pelo chão, de joelhos, com as mãos postas a face em lagrimas, a clamar: Misericordia! Misericordia!
«Casas, palacios, conventos, mosteiros, hospitaes, egrejas, campanarios, theatros, fortalezas, porticos, tudo, tudo cahia. «Se visses sómente o palacio real, diz uma testemunha, que singular espectaculo, meu irmão!» Os varões de ferro torcidos como vimes, as cantarias estaladas como vidro! A onda do rio sorvia n'um momento o caes do Terreiro-do-Paço, com os barcos atracados coalhados de gente. Dos andares altos precipitavam-se sobre as lages das ruas. O medo crescia, vinha a loucura; viam-se mortos arrastados pelos vivos, viam-se mutilados coxeando, gente correndo desgrenhada, semi-nua, homens e mulheres, velhos e crianças, dilacerados, sangrentos, arrastando uma perna fracturada, esvahindo-se em sangue por algum membro decepado. Gritos, choros, clamores, imprecações, ais, preces, um borborinho de vozes desvairadas acompanhava os gemidos comprimidos dos soterrados nos escombros. No turbilhão das ruas havia quedas e mortos, abraços e agonias. A mesma loucura dos homens era o desvairamento dos brutos: os machos, desbocados, arrastavam os cavalleiros e as caleças, precipitando-se nos despenhadeiros da cidade montuosa; e as massas de gente viva, moribunda e morta, de envolta com os entulhos, rolavam nas ruas ladeadas pelos esqueletos das casas como uma imagem desolada do que seria o cahos. Quando a terra se subvertia, quando o mar vinha subindo afogar a terra, quando no ar faiscavam as linguas flammiferas rutilantes, que lembrança podia haver das invenções humanas? Abraçados, confundidos, na communidade do pranto, fidalgas e freiras, meretrizes e mães, mendigos e senhores, villões e cavalheiros, traçavam-se na communidade da fome, do frio, da nudez, do terror. De rastos a cidade inteira, sacudida pelo abalo formidando, reunia toda a sua eloquencia numa palavra unica--Misericordia! Misericordia!