Octavia: Tragedia em 5 Actos

Part 1

Chapter 1 3,965 words Public domain Markdown

Produced by Pedro Saborano. Para comentários à transcrição visite http://pt-scriba.blogspot.com/ (This book was produced from scanned images of public domain material from the Google Print project.)

*OCTAVIA*

TRAGEDIA EM 5 ACTOS

DE

VITTORIO ALFIERI

representada no theatro Lyrico Fluminense na noute de 2 de Agosto de 1869

PELA SENHORA

ADELAIDE RISTORI

E SUA COMPANHIA

EM BENEFICIO DA

SOCIEDADE PORTUGUEZA DE BENEFICENCIA

RIO DE JANEIRO

TYPOGRAPHIA IMP. E CONST. DE J. VILLENEUVE & C.

RUA DO OUVIDOR N. 65.

1869.

NOTICIA HISTORICA

Octavia era filha do Imperador Claudio e da mais que famosa Messalina. Apenas chegada á puberdade foi promettida em casamento a Lucio Silanno; mas a ambição politica e os ardis de Agrippina, mãi de Néro, fizèrão abortar este projecto, tornando-a a tão desgraçada esposa desse monstro, que de tal mãi foi digno filho. Pouco tempo depois este repudiou-a pretextando que era ella esteril, mas realmente por causa do amor que consagrava a Poppéa, que effectivamente substituio-a no leito nupcial e no throno de Néro. Poppéa, entretanto, não se julgava segura emquanto Octavia vivia. Querendo descartar-se della, accusou-a, ou mandou que alguem a accusasse de entreter relações criminosas com um de seus escravos. As servas da accusada forão sujeitas a tormentos, porque recusavão confirmar essas falsas imputações; mas entre as torturas proclamarão a sua virtude e innocencia, a ponto tal que, não sendo possivel condemna-la á morte, mandárão-a em degredo para a Campania. Tão injusta condemnação provocou tal indignação e murmurio no povo, que Néro, politico medroso, julgou dever chama-la a Roma. Com a volta de Octavia, a quem o povo accolheu entre ruidosas manifestações, renascerão, e mais vivamente os terrores de Poppéa. Atirou-se ella aos pés do Imperador seu esposo, e alcançou delle, por fim, que, sob diversos pretextos, Octavia fosse de novo affastada de Roma e em seguida assassinada. Mandárão, pois, a infeliz princeza degradada para uma ilha, onde viu-se obrigada, contando apenas vinte annos de idade, a deixar que lhe abrissem as veias. Apenas a virão morta, cortarão-lhe a cabeça innocente que foi enviada á sua indigna rival.

PERSONAGENS

Octavia Sra. A. Ristori.

Poppéa Sra. Matilde Pompili Trivelli.

Néro Sr. Jacomo Glech.

Seneca Sr. Alessandro Grisanti.

Tigellino Sr. Ludovico Mancini.

Soldados e povo romano.

A acção passa-se no palacio de Néro em Roma.

*OCTAVIA*

* * * * *

ACTO PRIMEIRO

* * * * *

SCENA I.

NÉRO, SENECA.

SENECA.

Senhor do mundo inteiro, o que te falta?

NÉRO.

Tranquillidade.

SENECA.

Te-la-hias, se aos outros não a tirasses.

NÉRO.

Doce e calma seria a minha vida, se odiosos laços não me prendessem a Octavia.

SENECA.

E terias por ventura de Julio Cesar sido successor, terias augmentado a gloria e o poder herdado, se Octavia te não desse a mão de esposo? Ella foi quem te abrio caminho para o throno; e entretanto hoje morre á mingoa, em cruel e injusto degredo, essa mesma Octavia, que longe de ti, sabendo que abres os braços á sua orgulhosa rival, misera, ainda te ama!

NÉRO.

A principio talvez fosse ella instrumento de minha grandeza; mais tarde, porém, tornou-se a causa de todas as minhas desgraças, e ainda o é hoje, posto que repudiada. E este povo, a quem desprezo, ousa murmurar! atreve-se a queixar-se de seu senhor nos mesmos lugares onde reino e domino? De hoje em diante não se dirá mais em voz alta o nome de Octavia, nem se quer o murmuraráõ baixinho labios tremulos, que o não quero eu, Néro!

SENECA.

Senhor, nem sempre julgaste indignos de ti os meus conselhos. Bem sabes como, com a arma poderosa da razão, moderei o ardor de tua impetuosa mocidade. Eu predisse que, repudiando Octavia e, mais que tudo, condemnando-a a cruel desterro, chamarias sobre ti a censura, as accusações e as injurias. O coração do povo, dizia, eu, inclina-se para Octavia; Roma inteira manifestou sua dôr ao saber que havias marcado para sua residencia os campos de Plauto e a habitação de Burrho, eu dizia...

NÉRO.

Basta. Disseste tudo isso, é certo; e entretanto fizeste o que eu quiz! Durante algum tempo, talvez, me ensinasses a governar, mas, a não errar, jámais o fizeste; nem o pódes tu ensinar, nem póde o homem adquirir esta sciencia. Já basta que Roma me tenha ensinado a ser prudente por algum tempo. Enganei-me, julgando que devia desterrar esta mulher, que, pelo contrario, eu não devera affastar de mim.

SENECA.

Estás por ventura, arrependido? É verdade o que acabo de ouvir? Volta á Roma Octavia?

NÉRO.

Sim.

SENECA.

Finalmente tiveste della compaixão?...

NÉRO.

Compaixão?... É verdade, tive.

SENECA.

E virá ella de novo partilhar com vosco o leito e o throno?...

NÉRO.

Dentro em pouco voltará ella ao meu palacio; e então saberás para que volta. Oh! Seneca, tu, sabio entre os sabios; tu, que já foste meu ministro e meu guia em circumstancias mais criticas e mais melindrosas; não te mostrarás hoje contrario ao que foste outr'ora.

SENECA.

Tens por costume pedir inutilmente conselhos quando já tomaste crueis resoluções. Não conheço quaes sejão teus pensamentos; mas tremo por Octavia ouvindo as tuas palavras.

NÉRO.

Dize-me: tremeste por ventura naquelle dia em que meu irmão cahia morto, victima de um crime necessario? E no dia em que proferiste a sentença de minha orgulhosa mãi, tua cruel inimiga, tremeste por ventura?

SENECA.

Que escuto?... Como ousas recordar estas scenas infames, e execrandas? Não, eu não tingi minhas mãos nesse sangue que era tambem teu, tu, sim; o bebeste! Calei-me, é certo; calei-me obrigado. Foi criminoso meu silencio, nem poderei jámais expiar um tal crime. Louco! Acreditei que Néro ficasse farto de sangue depois de ter derramado o de sua propria mãi! Hoje conheço que alli apenas começavão as atrocidades. Quando commettes um novo crime, não sei porque, cobres-me de dadivas odiosas, de favores que me pezão na consciencia. Tu me obrigas a aceital-as e o povo, que isto presencêa, diz que essas dadivas são o preço do sangue derramado. Ah! Eu t'os entrego, toma-os e deixa-me que conserve a estima de mim proprio.

NÉRO.

Eu t'a deixo; conserva-a, se é que ainda possues. Prégas moral e virtude como homem de experiencia, mas bem sabes que não convem sempre seguir seus dictames. Se querias conservar intacta a reputação, se querias conservar o coração immaculado, porque trocaste o obscuro lar paterno pelo esplendor da côrte? Bem o vês; eu, que não sou stoico, ensino te as regras do stoicismo, e entretanto tudo quanto sei a ti o devo. Se, pois, demorando-te por tua propria vontade nesta côrte, arriscaste a primitiva candura, se perdeste o nome de homem honrado, nome este que nunca mais se recupera, auxilia-me agora; sei que o pódes. Já desculpaste meus erros passados, continua. Dá mais branda côr aos meus actos, louva-os. A tua opinião é aqui respeitada, o povo te julga menos culpado do que os outros; acredita que tens sobre mim grande influencia. Estás, emfim, tão intimamente ligado á minha côrte, que partilhas das censuras que me são dirigidas.

SENECA.

Agrada-te, bem o sei, que outrem pareça mais culpado do que tu; o crime repartido pesa-te menos na consciencia. E eu innocente, como o sabes, carrego com o castigo dos teus crimes; sobre mim recahem as consequencias do modo porque reinas; sou, emfim, odiado por todos. Qual será a nova infamia cuja execução me reservas, para augmentar ainda...

NÉRO.

Cumpre que destruas no coração do povo o amor que elle consagra a Octavia.

SENECA.

Não se destróem facilmente as affeições de um povo, não são como as tuas, senhor; o povo não sabe fingir.

NÉRO.

Quando é preciso, o sabio muda de parecer e de linguagem; e tu és sabio. Vai, aproveitar-me-hei de teus conselhos no dia em que possa dizer que o imperio é só meu. Por emquanto sou eu senhor; o teu dever é executar as minhas ordens; agora sou eu o mestre e tu o discipulo; mostra-te, pois, docil. Não te ameaço com a morte, bem sei que ella não te assusta; mas o nome de que ainda gozas, a consideração que te rodêa, tudo isso depende de mim. Posso destruir tudo. Cala-te, pois, e faze o que mando; vai.

SENECA.

Acabo de ouvir as tuas ordens tyrannicas, odiosas e sanguinarias; mas esperarei os acontecimentos quaesquer que elles possão ser: Todo o auxilio de minha parte seria inutil para os teus projectos, e eu ainda mais criminoso. Pois que! Néro ja não basta para derramar sangue? Quem o crêra?!

SCENA II.

NÉRO

Vai, soberbo stoico, de uma vez porei termo á tua vida e a esta virtude que alardêas. Até hoje tenho te punido cobrindo-te de dons, mas no dia em que te houver rebaixado e reduzido á condição dos mais vis e despreziveis d'entre os homens, então te darei a morte. Que vale este meu poder soberano, immenso, absoluto, quando tantas difficuldades me contrarião? Odeio Octavia, amo Poppéa mais do que posso dizê-lo; e terei de occultar este amor e este odio? O que não prohibem as leis ao mais vil de meus escravos, prohibir-me-hão a mim, Néro, as murmurações do povo?

SCENA III.

NÉRO E POPPÉA.

POPPÉA.

Poderoso senhor, por cujo amor só vivo! Porque sempre pensativo foges para longe de mim, e me deixas entregue a crueis angustias? Pois que, não será possivel que esta minha affeição te dê alguns momentos de alegria?

NÉRO.

É justamente o teu amor que me affasta de ti algumas vezes, Poppéa, nada mais. Soffri longo tempo, venci muitas difficuldades antes de conquistar teu coração; agora devo esforçar-me por conserva-lo; bem sabes que ate á custa do proprio throno quero que sejas sempre minha.

POPPÉA.

E quem poderá tirar-me de teu poder se não tu mesmo? A tua vontade, um gesto teu dão a lei em Roma. Em troca do meu amor deste-me o teu; podes tirar-m'o, é certo, mas eu não sobrevivirei a tamanha perda.

NÉRO.

Quem poderá separar-me de ti? Nem o proprio céo! Entretanto appareceu entre o povo criminosa agitação, ainda não acalmada: ousão censurar as minhas affeições, e vejo-me obrigado a prevenir...

POPPÉA.

E que te importa a grita do povo?

NÉRO.

Espero mostrar em breve o caso que della faço; mas não quero deixar erguida uma só cabeça dessa hydra furiosa; rolará, pelo chão a ultima em que Roma basêa sua esperança, e ao mesmo tempo cahirá abatida, muda, despedaçada, esta plebe orgulhosa. Roma ainda não me conhece, arrancar-lhe-hei do coração seus antigos e loucos prejuizos de liberdade. Octavia é a ultima descendente dos Claudios, seu nome está na boca de todos, chorão a sua sorte porque me odeião, não porque a amem: no coração do povo não ha lugar para o amor; mas a plebe insolente recorda-se saudosa da fraqueza do reinado de Claudio, inepto, e suspira pela licença de que hoje não póde gozar.

POPPÉA.

É certo; Roma não sabe conservar-se calada; mas o que poderão fazer hoje os Romanos mais do que murmurar; porventura os temes?

NÉRO.

Escolhi mal o lugar para exilio de Octavia; é ameno de mais, e pouco prudente seria conserva-la alli. Está nas vizinhanças da Campania o exercito, onde ainda se conserva memoria de Aggripina. No coração dos soldados agita-se ainda o espirito de revolta; perfidos, fingem-se doidos pela sorte da filha de Claudio; criminosa esperança ainda está enraizada em seus peitos. Fiz mal em escolher para seu degredo tal lugar, e maior imprudencia seria conserva-la alli.

POPPÉA.

Porque motivo esta mulher merece tanta solicitude? Porque não a envias para os confins do teu vasto imperio? Qual será o degredo mais seguro? Qual a praia deserta e remota que mais longe de ti conservará esta mulher que ousa gabar-se de te têr dado o throno?

NÉRO.

Para que eu possa tirar-lhe a força e o poder de ser-me nociva nenhum lugar é mais proprio do que Roma, e em Roma o meu palacio.

POPPÉA.

Que ouço? Octavia volta para Roma?

NÉRO.

Deixa-me explicar-te o motivo...

POPPÉA.

O que será de mim?... Ella...

NÉRO.

Escuta-me!...

POPPÉA.

Entendo... adevinho tudo... serei em breve repellida, expulsa...

NÉRO.

Escuta-me!... Não é para teu mal que Octavia volta a Roma; será antes em seu damno esse regresso.

POPPÉA.

Talvez o seja para o teu. No emtanto ouve: Octavia e eu não pudemos viver juntas, nem um só momento, nem no mesmo palacio, nem na mesma cidade. Volte pois, a Roma a mulher que elevou Néro ao throno do mundo; volte para d'ahi expelli-lo. É por tua causa que me afflijo e não por mim; eu estou prompta a voltar para junto do meu fiel Othon; amou-me tanto!... deve amar-me ainda; e podesse eu recompensar tão constante affeição! Mas, não, no coração de Poppéa não cabem dois amores, nem quer ella um coração partido, não quer partilhar com uma odiada rival o teu amor. Não me seduzio o esplendor do throno, mas tu sómente. Ah! ainda me seduz; o amor que tanta ventura me dava, não era o do poderoso senhor do mundo, mais sim o do meu querido Néro; se me tirares agora uma parte dessa affeição, se eu não reinar como unica soberana, então nada quererei, cederei tudo. Ah! misera, que não possa eu arrancar de meu coração a tua imagem tão facilmente como o fazes commigo!

NÉRO.

Eu te amo, Poppéa, bem o sabes; prova-o tudo quanto por ti tenho feito e o que ainda tenciono fazer; mas tu...

POPPÉA.

O que queres que eu faça? Poderei viver vendo a teu lado essa mulher que odeio? Poderei deixar de pensar em ti? Oh! indigna! que não póde, não sabe, não quer amar a Néro e ousa fingir que o ama!

NÉRO.

Tranquillisa-te, põe de parte os receios e os zelos; mas respeita por algum tempo ainda a minha vontade. É necessario que Octavia volte agora a Roma; já moveu os primeiros passos; amanhã aqui deve chegar. Assim o exigem o teu socego e o meu; tal é a minha vontade e não estou habituado a que se oponhão aos meos designios. Nem me satisfaz, senhora, esse amor que me offereces, calmo e sem receios. Quem mais me teme e melhor me obedece, sabe-o, é quem mais me ama.

POPPÉA.

O receio de perder-te tornou-me por demais ousada. Mas, que maior mal me poderás fazer do que privar-me do teu amor? Ah! tira-me antes a vida; menor será meu soffrimento.

NÉRO.

Basta, Poppéa, confia em meu amor, nem receies que se abale a minha constancia; mas nunca te opponhas á minha vontade. Odeio, mais que tu mesma, essa mulher a quem chamas de rival. Apenas eu conseguir separa-la de seus turbulentos amigos, ve-la-has cercada pelos meus guardas; não terás nella uma rival, mas antes uma vil escrava, e dentro em pouco, ou eu nada sei da arte de reinar, ou ella propria te dará a corôa.

ACTO SEGUNDO

* * * * *

SCENA I.

POPPÉA, TIGELLINO.

POPPÉA.

Corremos hoje o mesmo perigo, Tigellino; devemos pois procurar um mesmo asylo.

TIGELLINO.

O que podes receiar da parte de Octavia?

POPPÉA.

Quanto á belleza nada temo; a rainha sempre prevalecerá aos olhos de Néro; temo, sim, o seu fingido amor, a sua dissimulada meiguice; temo os ardis e a eloquencia de Seneca, a grita da plebe e o remorso do proprio Néro.

TIGELLINO.

Ama-te elle ha tanto tempo e ainda não o conheces? Elle só sente remorsos de não ter feito maiores males. Fica certa de que, se chama Octavia a Roma, é só com o fim de tirar della completa vingança. Deixa-me despertar-lhe o odio innato e profundo que em seu coração se une ao rancor que vota á esposa. É este o asylo que devemos buscar ante o perigo que corremos.

POPPÉA.

Estás tranquillo, eu, porém, não me julgo segura, mas a franqueza com que fallas convida-me á franqueza. Bem conheço Néro, bem sei que nelle o remorso nada póde; mas o medo, dize, não tem grande influencia sobre seu espirito? Quem não o vio tremulo junto da mãi que odiava? Amava-me elle já então loucamente e no entanto ousou porventura dar-me a mão de esposo emquanto ella foi viva? Não bastava a presença silenciosa de Burrho para o fazer tremer! Enfim o proprio Seneca, sem poder e sem influencia, não o intimida ás vezes com suas palavras vãs? São estes os unicos remorsos de que o julgo capaz. Ajunta a isso as murmurações e as ameaças dos romanos...

TIGELLINO.

Tudo isto só servirá para arrastar Octavia ao laço onde já cahirão, Agrippina, Burrho e tantos outros. Se desejas a morte de tua rival, deixa que novo terror augmente no corarão de Néro o medo antigo. Elle ainda não manifestou todo o sou pensamento, mas eu sei que nada ha que tanto o domine como a sua pusilanimidade. Roma, pedindo o regresso de Octavia, pronunciou a sentença de morte da propria Octavia.

POPPÉA.

É certo; mas, se ella conseguir reconquistar por um momento só a antiga influencia...

TIGELLINO.

Não, não o receies; Octavia não conhece o caminho que vai ter ao coração de Néro; sua virtude austera irrita o espirito do esposo; sua obediencia, seu amor, sua timidez desagradão-lhe igualmente; Néro detesta em Octavia todos estes meios de seducção que a nós tanto approveitão. Falla, o que deverei fazer?

POPPÉA.

Emprega toda a tua perspicacia em saber o que se passa e todo o zelo em dizer-m'o; cumpre prever tudo; tornar Octavia ainda mais desprezivel; descobrir mil meios de perdê-la e lembra-los a Néro; inventar crimes de que ella nem sequer tenha idéa; desinvolver toda a astucia de que és capaz; ir, vir, occupar o espirito do imperador, engana-lo, cega-lo e estar sempre alerta. Eis aqui o que te cumpre fazer.

TIGELLINO.

Assim o farei, mas creio que os projectos de Néro já estão assentados. Fica certa de que elle não precisa de lições para exercer vinganças e bem sabes que lhe exacerba a colera quem quer mostrar que sabe tanto como elle.

POPPÉA.

Tudo o irrita, bem o sei; ainda ha pouco o excesso de meu amor excitou-lhe o furor; já não era o amante quem fallava, mas sim o feroz senhor que ordenava do alto do throno.

TIGELLINO.

Não o provoques jámais. Tens grande influencia sobre seu coração; mas a colera impetuosa, a embriaguez do poder e a sede feroz de vingança dominão no mais facilmente do que o faz o amor. Afasta-te daqui, é esta a hora em que elle tem por costume vir fallar-me; confia em mim.

POPPÉA.

Juro-te, que, se me servires agora, ninguem terá, mais do que tu, poder e influencia junto de Néro.

SCENA II.

TIGELLINO

É verdade que se Octavia triumphasse, a nossa desgraça seria certa; mas eu gozo da confiança de Néro. Seu odio é tão feroz e a innocencia de Octavia tão completa, que ella não póde evitar sua triste sorte. Cumpre-me, entretanto, mostrar-me habil; disfarçar seus terrores com o nome de prudencia e dizer-lhe que a justiça é mais criminosa que a vingança. Senhor do mundo, tens em mim teu senhor, unico, absoluto: eu só posso despertar-te n'alma o terror ou dissipa-lo. Desgraçado de mim, se o medo não tivesse influencia sobre a tua alma! É este o unico meio que me resta para impellir-te ao mal; e quem poderia deter teus passos e dirigir-te para o bem?

SCENA III.

NÉRO, TIGELLINO.

TIGELLINO.

Ah! senhor, porque não chegaste mais cedo? Ouvirias ainda os soluços de uma mulher que te ama loucamente. A duvida, o receio, o amor trávão luta medonha no coração sensivel e fiel de Poppéa. Porque assim affliges quem te adora?

NÉRO.

Allucinada por injustos ciumes, Poppéa desconhece a verdade; a ella só amo.

TIGELLINO.

Isto mesmo acabo de dizer-lhe; mas quem poderá melhor abrandar as angustias de um coração repleto de zelos do que o amante adorado? Occulta junto della a terrivel magestade que brilha em teu semblante. Um gesto, um sorriso, um olhar teu podem acalmar a tormenta que agita aquelle coração. Ousei jurar-lhe em teu nome que nunca tiveste tenção de abandona-la; que fôra para altos fins, de mim desconhecidos, que chamaste Octavia a Roma, mas que o seu regresso não seria um mal para Poppéa.

NÉRO.

Fiel interprete de meus sentimentos, disseste-lhe a verdade. Já eu lhe fizera igual juramento, mais ella foi surda a meus protestos. O dia, que agora começa, não se acabará sem que o destino de Octavia esteja decedido e desta vez para sempre.

TIGELLINO.

E eu espero que haverá tranquillidade, se quizeres patentear ao povo quanto Octavia é criminosa.

NÉRO.

Incorreu ella no meu odio; queres maior crime? Mas, é porventura preciso que eu motive a minha vontade?

TIGELLINO.

Demais! Ainda não podeste reduzir este povo impio á degradação que elle tanto merece. Conservou-se silencioso, é certo, em face das fogueiras de Agrippina e de Claudio; calou-se ainda ao ver a de Britannico; entretanto hoje deplora a sorte de Octavia e atreve-se a murmurar. Patentêa-lhe os crimes de Octavia e a plebe emmudecerá.

NÉRO.

Nunca amei esta mulher; pelo contrario, aborreci-a sempre; ella teve a audacia de chorar por seu irmão; vi-a obedecer cegamente á cruel Agrippina; mais de uma vez tem repetido o nome de seus antepassados que empunhárão o sceptro; cada um destes actos é um crime e tanto me basta para julga-la digna de castigo. Sua sentença está lavrada! Chegue ella, e minha vontade será feita. Roma saberá que Octavia deixou de viver; são estas as contas que de minhas acções devo aos Romanos.

TIGELLINO.

Senhor, tremo por ti. Não é prudente affrontar a plebe enfurecida. Se podes inflingir a essa mulher justo castigo, porque queres que ella pareça victima de tua vontade absoluta? Não fôra melhor desvendar os seus maiores delictos, mostra-la ao povo criminosa como ella é, emquanto a julgão innocente?

NÉRO.

Commetteu ella porventura outros crimes... e maiores?

TIGELLINO.

Ninguem ousou ainda revelar-t'os; mas deverei calar-me por mais tempo, agora que, repudiada por ti, e com razão, ella não é mais tua esposa? Essa mulher indigna estava ainda em teu palacio, partilhava comtigo o leito e o throno, usurpava as homenagens devidas á imperatriz, e já se rebaixára mais do que o faria a mulher mais víl e criminosa; já resolvêra esquecer seu illustre sangue, sua honra, a dignidade propria e a de seus avós, junto de um miseravel citharista, para quem voltava olhares amorosos.

NÉRO.

Que infamia! que audacia!

TIGELLINO.

O escravo Eucéro tocára-lhe o coração; dahi a calma com que supportou o repudio, o desterro, tudo! Eucéro compensava-lhe amplamente a perda de Néro: companheiro inseparavel, fazia-lhe esquecer o desterro... Desterro? digo mal. Ameno refugio os seus criminosos amores encontrárão na tranquilla Campania. Alli, reclinada na relva, entre flôres, á margem de um brando regato, ella escutava os sons suaves que a dextra imbelle de seu amante tirava da cithara e aos quaes se casava o seu canto: alli não invejava ella as perdidas honras nem a anterior posição.

NÉRO.

Filha de Messalina, ella não podia desmentir o sangue de que nasceu. Mas, dize, será possivel provar o que acabas do contar-me?

TIGELLINO.

Muitas de suas creadas sabem os pormenores deste caso; e os contaráõ quando forem interrogadas. Eu não te revelaria este segredo, se Octavia tivesse em algum tempo possuido o teu amor. Mas que digo? louco! se elle merecesse a tua affeição, ter-te-hia jámais ultrajado assim? nem se quer lhe occorreria tal pensamento. Razões politicas, contra a tua vontade, derão-te Octavia por esposa: ella conheceu que não era digna de ti e rebaixou seu coração vil em vis amores.

NÉRO.

Receio expór a luz infamante tão obscuro crime!...

TIGELLINO.

A infamia é só de quem commetteu o delicto.

NÉRO.

É certo.

TIGELLINO.

Tenha cada um a paga merecida; ella a de ré, tu a de justiceiro, e o podes ser sem perigo.

NÉRO.

Tens razão no que dizes; faze, pois, o que resolveste e sem demora.

SCENA IV.

NÉRO, TIGELLINO E SENECA.

SENECA.

Senhor, já Octavia transpôz os umbraes de teu palacio; se é infausta ou grata a noticia que te trago, não sei. Ninguem quiz disputar-me a preferencia em dar-te esta nova; o que me parece triste presagio.

NÉRO.

Vai, Tigellino, executa as minhas ordens, e tu volta pelo mesmo caminho por onde vieste; vai ao encontro de Octavia e dize-lhe que aqui estou só e que a espero tambem só.

SCENA V.

NÉRO.