Part 3
Rís da baixa adulação, Mal que os teus ouvidos toca A contrafeita expressão: Conheces na falsa boca O enganoso coração.
Ver sobre molle tapete, Curvando as pernas, e os braços, Peralta de alto topete, Com destros miudos passos, Dançar Francez minuete;
Vê-lo nutrindo esperanças Entre agradaveis parceiras, Fazer rapidas mudanças, Torcendo as mãos nas ligeiras Buliçosas contradanças;
Fervente rebeca ouvir, Que infunde vivos prazeres, Jámais te faz distrahir; Pois antes dos Sabios queres Sabios conceitos ouvir.
Só te vejo attenta em quanto Ouves palavras discretas; As Musas estimas tanto, Que até dos tristes Poetas Te commove o triste pranto.
Conheces seu duro mal; Que sempre tributão fé A coração desleal: Que por isso em todos he A tristeza natural.
Que ás Nynfas endurecidas Lhes não causão terno effeito; Que triunfão das fingidas, Guardando dentro do peito Inda frescas as feridas.
Porém já que ouzei fallar De Amor nas sanguineas reixas, Vou a lyra pendurar: Não quero com minhas queixas Teus louvores misturar.
Tu dirás que não tens parte No meu mal cruento, e fero; Que vou tristezas lembrar-te; Dirás que affligir-te quero, Quando desejo louvar-te.
Não te deves admirar: Sei que em vão me estou queixando; Mas quem sente o seu pezar, Se principia cantando, Sempre acaba a suspirar.
QUIXOTADA.
Espicaça esse animal, Companheiro Sancho Pança, Entremos em Portugal, E vamos molhar a lança A pró do triste Pombal.
Poetas principiantes, Já estou em circo raso: Tambem Apollo he Cervantes, Tambem cria no Parnaso Seus cavalleiros andantes.
Não vos chamo, ó sujo rancho, Que até os versos errais; Em tal sangue as mãos não mancho: Para vós, e outros que taes Sobeja a espada do Sancho.
Sobre vós carrego a mão, Sobre vós, ó folhas velhas, Que dais n'hum homem no chão, Sem vos lembrar, que entre ovelhas He fraqueza ser leão.
Essa boca enganadora, Que he hoje da maldição, Mil vezes se poz outra hora Sobre a praguejada mão, E lhe chamou bemfeitora.
Pois já que vós sois assim, Povo revoltoso, e ingrato, Hoje castigar-vos vim: Ireis pelo pó do gato, Nem esp'reis quartel em mim.
Santo Téjo, o curso enfreia, E montando rochas duras Torna atraz a clara veia: Conta novas aventuras Á formosa Dulcineia.
Nova guerra o mundo veja, Guerra em que pouco se arrisca: Serão armas na peleja, Provado fuzil, e isca, Secca, espinhosa carqueja.
Irmão Sancho, põe-te a pé, Põe essas Rimas a prumo, Principio á obra se dê, Tolde o ar o negro fumo Deste novo Auto da Fé.
Queima essas Satyras frias, Faltas de sizo, e conselho: Queima prosas, e poesias: Acabe o cansado velho Em paz os seus tristes dias.
Porém poupa sempre alguma Das raras que tem sabor: Das outras nem deixes huma, Dessas que tudo he rancor, E poesia nenhuma.
Em tanto as armas pendura: Mas se houver desassizados, Que queirão guerra mais dura, Da minha lança cortados Descerão á sepultura.
Já nuvens de fumo vejo: Já chamma brilhante o arreda: Já se farta o meu desejo; Já da viva lavareda Dá o clarão sobre o Tejo.
Essas cinzas denegridas, Que ao velho poupão mil magoas, Leve-as o Téjo envolvidas, Fiquem no fundo das aguas Para sempre submergidas.
Vês, Sancho, do nome meu Como vôa a clara fama? Nem viva alma appareceo A apagar a voraz chamma, Ninguem, ninguem se atreveo!
Vês como ajuda o destino. A hum bom cavalleiro andante? Não precizei de aço fino, Nem de pés de Rocinante, Nem de elmo de Mambrino.
Ó tu que alçaste a viseira Forcejando os nervos velhos, E para ver a fogueira Limpaste os olhos vermelhos Na felpuda cabelleira:
Abaixa a proa huma vez, Chega a Dulcinea bella, E dize posto a seus pés: «Formosissima Donzella, Eu sou hum triste Marquez,
«Que fugindo a hum povo inteiro, A quem mettêra em furor Minha privança, e dinheiro, Vim achar mantenedor Em teu nobre cavalleiro.
«Disse este povo malvado, Que eu tinha o reino extorquido; Que era gatuno afamado, E que em jogos de partido Tinha com todos levado;
«Que no Tabaco levava Hum quinhão avantajado; Que o Sabão não me escapava; E que sem ser Deputado Nas Companhias entrava.
«Das minhas Leis murmuravão: E os seus pequenos juizos Tão pouco o ponto tocavão, Que sempre me erão precisos Assentos que as declaravão.
«Té na lingoa sem motivo Dérão criticos revezes: Fiz nella estudo excessivo, Bebi nos bons Portuguezes _Monopolio_, e _respectivo_.
«Disse mais o povo insano, Que perdi de Roma o trilho; Que fui Sultão soberano; Que andei cazando meu filho Segundo o rito Othomano.
«Mas toda a maldade he sua: Vêm riquezas, e palacio, Comem-se de inveja crua: São huns novos cães de Horacio Ladrando debalde á lua.
«Já se me dá pouco, ou nada Da sua guerra pequena: Tenho gente em campo armada, Tenho Mendoça co'a penna, E Dom Quixote co'a espada.»
Esta falla, ou outra igual Acabada, meu Marquez, Faze rev'rencia formal, E arrastra os gotozos pés Para a villa do Pombal.
Nella vive descansado, Porque as aguas vão serenas; Sempre Ministro de Estado, Mandando cousas pequenas No teu Lopes encostado.
Junto á Estatua vil canalha Desprende as lingoas tyrannas: E se esta rude gentalha Arrancar com mãos profanas A carrancuda medalha:
Armas em ouro gravadas Ser-te-hão por mim erigidas, E por ti mesmo traçadas, Em sangue humano tingidas, E com mil leis penduradas.
ODE
_Offerecida a SS. MAGESTADES, no dia da Acclamação da Rainha N. Senhora._
A vida escura em que a natureza, e a fortuna me lançárão tão longe dos Reaes pés de VV. MAGESTADES; o medo justo de mandar huma voz fraca, e desconhecida aos ouvidos de Reis, prenderião hoje a minha lingoa temerosa, se o amor da Patria, e o gosto de a ver feliz, dando-me novo espirito, me não puzessem na boca esta lingoagem, de huma alma singela, estes versos sem arte dictados pelo amor respeitoso, e que em lugar de enganosa, e enfeitada poesia, descobrem unicamente os sentimentos de hum coração fiel, onde VV. MAGESTADES reinão Soberanamente.
Neste Throno, a que poucos Monarcas sobem, tem a Nação Portugueza collocado a VV. MAGESTADES por aquelle talento de agradar, dom do Ceo, precioso, e raro na Sagrada Pessoa dos Reis, que querem (como VV. MAGESTADES conseguírão) ser acclamados pela alegria publica, e pela torrente de lagrimas, com que hum povo inteiro, transportado de gosto, levantava ás estrellas os Augustos Nomes de seus novos Reis. Eu vi, Senhores, este grande espectaculo; foi huma scena de ternura, que arrancaria lagrimas ainda a hum coração que não fosse Portuguez. Vi soldados velhos, que endurecidos ao frio, e á calma, queimados com o fogo da polvora, annunciavão hum coração de ferro, banharem pela primeira vez de lagrimas ternissimas aquelles honrados rostos, aquellas cerradas feridas, que recebêrão pela Patria, e que tornarião a abrir com gosto, se o felicissimo Reinado de VV. MAGESTADES não estivesse destinado á paz, e á felicidade dos seus povos; era preciso ser insensivel para que no meio de hum povo entregue á doce, e tumultuosa desordem, que cansa a alegria excessiva, se conservasse a minha alma na sua situação ordinaria; prendeo nella huma faisca do fogo sublime, que eu vi atear nos corações Portuguezes: a alta idéa das Virtudes de VV. MAGESTADES, a multidão de beneficios com que vemos dourados os dias do seu faustissimo Reinado, huma longa serie de felicidades aberta no futuro diante dos meus olhos, me levarião a través do povo, e das armas ao Throno dos Reis, onde á face do Ceo, e dos homens me desentranhasse em gritos de alegria, e mostrasse nesta especie de delirio, que o coração de VV. MAGESTADES não trabalha para ingratos; mas o profundo, e sagrado respeito, que pôde suffocar em mim este impeto de ternura, não pôde fazer callar-me; levado da invencivel força do amor, e do reconhecimento, me atrevo a pôr na Real presença de VV. MAGESTADES grandes cousas em máos versos; ponho a simples verdade, ponho os votos da Nação, e algumas das muitas acções de piedade com que VV. MAGESTADES tem mandado contentes os que levão por valia a razão, ou as desgraças. Se VV. MAGESTADES do alto do Throno se dignarem lançar os olhos sobre estes humildes versos, reconheceráõ nelles não o Estro que faz Poetas, mas o que faz vassallos amantes de seus Soberanos. Estro sublime, e que deve tocar mais no coração dos Monarcas, do que o das Odes famosas de Pindaro, e de Horacio, cheias da mais bella poesia; mas filhas da arte, e da lisonja, e onde não fuzila aquella luz de verdade, que dará logo nos Reaes olhos de VV. MAGESTADES, se eu tiver a incomparavel honra de que este papel seja apresentado diante do Augusto, e Respeitavel Throno dos Pais da Patria, dos Amigos, dos Bemfeitores, dos Reis adorados da felicissima, e sempre fiel Nação Portugueza.
ODE.
Das virtudes guiados Subí ao alto Throno, oh Reis Augustos; Nem sempre esquivos fados Se nos hão de mostrar surdos, e injustos: Abrem vasto thesouro, E nos mandão por Vós a Idade de Ouro.
Do Rei aos Ceos erguido O Reino, e o coração tendes herdado, Benigno, enternecido, De mil virtudes solidas dotado; Por genio piedoso, E digno em fim de tempo mais ditoso.
Da Eterna Providencia Os beneficos raios fuzilárão; Já se estima a innocencia, Já os tempos de Ferro se abrandárão, Já vem o ar talhando A Piedade, e a Justiça os braços dando.
Com subita alegria Tornai a ver os conhecidos lares, Tornai a ver o dia, Vós que habitastes horridos lugares, Lugares deshumanos Onde passastes dez, e outros dez annos.
Do chão desentranhados Vinde jurar os novos Reis felizes: Nos pulsos descarnados Mostrai ao Povo as roxas cicatrizes, E os grilhões inda quentes Na praça triunfal deixai pendentes.
Que lagrimas levaste, Patrio Téjo, na tua escura veia Quando turvo passaste! E as ondas, que quebravas sobre a areia, Que cinzas que regárão! Que triste sangue para o mar levárão!
Mas torna, oh manso Téjo, Torna a volver corrente prateada: Já taes males não vejo: E até já foge a nuvem carregada, Que á triste Lusa terra Promettia fatal, e pronta guerra.
De pelouro violento Não vê cahir o exangue companheiro; E dorme ao som do vento Em campo aberto o molle pegureiro; O lavrador cantando Em paz herdados campos vai cortando.
Da sorte das batalhas Livrai, Piedosos Reis, os Portuguezes; Pendurem duras malhas, E os temperados lucidos arnezes Os ardidos soldados Das lagrimosas Mãis em vão chamados.
Que dias florecentes Ao vosso fiel povo preparastes! Quando com mãos prudentes O pezo dos negocios espalhastes Sobre os hombros robustos De Ministros inteiros, sabios, justos.
Gemêo maniatado Longo tempo o infeliz merecimento; Mas já, o collo alçado, Sacode o negro pó do esquecimento, E a virtude innocente De illustres palmas lhe coroa a frente.
Já vingadas seráõ Do vil tutor as timidas donzellas; Já não erguem em vão As mãos, e os tristes olhos ás estrellas; Nua de falsidade Aos ouvidos dos Reis chega a verdade.
Mil louvores lhe cantão, O limpo coração pondo no rosto: E n'alma lhe levantão Novo Throno, sobre ella melhor posto, Que entre espessas falanges, Que sobre ouro, ou perolas do Ganges.
Novos Reis Soberanos, Que hoje as rédeas tomais do Reino vosso, Os Fastos Lusitanos Dirão de Vós o que eu dizer não posso: Vossa Augusta Memoria Abrirá largo campo á longa Historia.
Sem trabalho podeis Fazer feliz a gente Portugueza, Seguindo as santas leis, Que n'alma vos gravou a Natureza, A rara humanidade A incorrupta Justiça, a sã Verdade.
_No dia dos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Angeja._
ODE
A rouca Lyra, Musa, temperemos, Cordas de ouro lhe ponho: O triste Boticario em paz deixemos, E o Gamaõ enfadonho; Inspira-me huma vez sonoros hinos, Que Apollo julgue deste dia dinos.
Ensina-me a louvar do Illustre Angeja Talentos sup'riores; Que soffreo os assaltos d'alta inveja, Como soffre os louvores; Cuja alma não conhece vís mudanças, Ou corrão tempestades, ou bonanças.
Sem temor estalar o raio ouvia, Que ao perto fuzilava; O recto coração tendo por guia, Seguro caminhava; Em vão medonha tempestade freme, Seu grande coração só crimes teme.
Ao pé do Throno Augusto em fim chamado Venceo a crua inveja; Quem no Conselho o poz dos Reis ao lado Não foi sangue de Angeja, Não foi de Hespanha antigo Filhamento, Foi sã justiça, foi merecimento.
Não revolvo a Real Genealogia De Henrique, e de Fernando; Os sãos louvores deste grande dia De ti mesmo tirando, Só louvarei com paternaes façanhas Quem seu nome dever a mãos estranhas.
Vias correr teus dias socegados Nutrindo esse alto esp'rito No que ficou dos seculos dourados Em prosa, ou verso escrito; Recolhendo na próvida memoria De estranhos Reis, e de teus Reis a historia.
Outras vezes rasgando á vasta terra Seu peito cavernoso, Ou descobrindo quanto o mar encerra De raro, e precioso, Profundavas com seria madureza Os segredos da occulta natureza.
De tão doces estudos arrancado Por mais altos destinos, Da Lusa gente, e de seus Reis chamado A empregos de ti dinos, Sacrificas aos novos Soberanos De maduro saber teus cheios annos.
Permitta o Ceo que em taes trabalhos vivas Claro nome estendendo; E que as douradas horas fugitivas, As azas encolhendo, Fação que o tempo demorando o passo Sinta a fouce cahir do frouxo braço.
Que cem vezes raiando este bom dia O Oriente esclareça; Que imperturbavel solida alegria Com elle te amanheça; Que em naturaes ternissimos affetos A mão te beijem Netos de teus Netos.
Mas deixa, ó Musa, a frouxa poesia Para assumptos menores; Não profanem de Angeja a gloria, e o dia Importunos louvores; Pois inda que soubesses dirigi-los, Quer merece-los; mas não quer ouvi-los.
Engana-te o dezejo, que te inspira, Reconhece o teu erro; Se vês, que só ajustão nesta lyra Negras cordas de ferro, Não torças, não, teu misero fadario: Torna ao Gamão, e ao triste Boticario.
ODE
_Ao Senhor D. Domingos de Assís Mascarenhas._
Clio huma setta tira Da aljava de ouro, que pelo ar vazio Longe correndo fira Junto ao Mondego saudoso rio: Alli em torno ás suas margens vôe, E por feliz tres vezes o apregôe.
As claras aguas regão Plantas bellas, fecundas, generosas: Com desvelo se empregão Em cultiva-las mãos industriosas: Quão doces fructos, quão cheirosas flores De taes aguas, taes plantas, taes cultores:
Ergue, illustre Mondego, Ergue tua cabeça sobre as agoas: Assás no fundo pégo Choraste hum tempo tuas tristes magoas. Olha teus campos como esmalta agora Em formosa união Pomona, e Flora.
Ó seio de candura, Mascarenhas, Tu és o alvo, a méta, Que anciosa procura Da minha Clio a empennada setta. Tu na alma paz, na sanguinosa guerra Pódes ornar a tua, e alheia terra.
Mas boa sorte mude Meu dito, e a outra parte te não chame E onde tanta virtude Tem a raiz, os fructos seus derrame; Nem menos tempo o Sol illustre, e aquente A quem o vio desde o seu claro oriente.
Porém, se he ordenado Da Providencia sabia, santa, eterna, Christão peito humilhado Adora o Summo Ser que assim governa: Antes se goza, e dentro n'alma estima Que Astro tão bello alegre mais d'hum clima.
Entre tanto diffunde Na Patria tua luz copiosa, e clara; Que, se logo confunde Os fracos olhos, depois guia, e aclara. Arda ante incertos pés (e gritem vicios) Alta tocha, que mostre os precipicios.
Constancia! que guardado Está o galardão a teus suores, Onde em cume estrellado Vibra o Templo da Gloria resplandores. Dalli olhos não tires; que ao trabalho He doce viração, he fresco orvalho.
Tu, e esse Coro illustre De mancebos Heróes, que se obrigárão A dar ao mundo lustre, Quando o alto sangue dos Avós herdárão; Concebei novo fogo, e novo brio Ouvindo onde vos chama a minha Clio.
Oh, se alguem me puzesse Nas margens do Mondego claro, e frio: Certo me não vencesse Cysne de Dirce sobre o patrio rio. Alli tão docemente vos cantára, Que a ouvir-me feras, montes abalára.
Mas engenho ir recusa Onde ir Amor, e Gratidão me incita: Nescia, se o esperas, Musa! Não corre lasso pé 'strada infinita. Almas illustres, havereis sómente O dom sincero de hum dezejo ardente.
Só mal sonora rima, Que sem veia forjou saudade, e zelo, Leráõ o amavel Lima, O sabio Castro, e o profundo Mello, Pedras, que tu mal soffres, ó Lisboa, Faltarem tanto tempo á tua c'roa.
_Em louvor da Saude._
ODE.
Não procura palacios sumptuozos A brilhante Saude; O seu rosto agradavel, e rizonho, Até aos Reis se esconde: Ella faz com que seja venturozo O roto Peregrino, Se entre a negra gadelha, lhe apparece Hum semblante sádio. O Captivo Remeiro fatigado, Do ardente Sol não fuja: Em ferros envolvido o duro corpo, Trabalhe o dia inteiro: O queimado semblante ande banhando De violento suor: Apressado mastigue, e poucas vezes, O corrupto biscoito: Mas tenha o rosto alegre, e socegado Entre as duras prizões, Se á pallida doença não tem visto O macilento aspeito; Se com braço membrudo, e vigorozo Força o remo pezado. Inda sinto inflammar-me em teus louvores, Oh Saude aprazivel! Tu és Filha do Ceo, Mãi da alegria, Dom de Deus Piedoso. Se os miseros mortaes expõem a vida Por danozas riquezas; Por ellas que farião, se servissem De te fazer propicia? Filha do Ceo benigno, se te déras Por ouro, ou fina prata, Eu não temêra as tempestuosas ondas Do fervido oceano: Nos occultos sertões iria entrando Co'a mesma côr no rosto; Não me assustára o dente venenozo Da enroscada serpente; Do fertil oriente nos outeiros Cavaria anciozo, Por ver se das entranhas te trazia Abundantes thesouros. Mas a bella Saude, he dom celeste; Com ouro não se compra: Ella foge dos impios, que se assentão A saborozas mezas; Que adormecem em leitos guarnecidos De preciosas sedas; E vai guardar, com próvido cuidado, O simples Pescador, Que sobre ásperas rochas, sem abrigo Aos rigorozos tempos, Vai nutrindo no corpo mal vestido Hum coração sincero; Que humilde sabe erguer ao Ceo piedozo As innocentes mãos.
FIM.
INDICE.
SONETOS.
_A Sua Alteza_ Pag. 3. 4. 31.
_Sahindo Conselheiro da Fazenda o Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor D. Diogo de Noronha_ 5.
_Aos leques mui pequenos, chamados Marotinhos_ 6.
_O cruel Disfarce_ 7.
_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Visconde de Ponte de Lima, Secretario de Estado_ 8.
_Fazendo annos a Illustrissima, e Excellentissima Senhora Marqueza de Angeja_ 9.
_Aos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Avintes_ 10.
_Estando nas Caldas_ 11.
_A huns Annos_ 12.
_Ao Disfarce das Mulheres_ 13.
_A huma Camponeza_ 14.
_A huma Dama interesseira_ 15.
_Ao faustissimo dia da Inauguração da Estatua Equestre d'El-Rei Fidelissimo o Senhor D. José I._ 16.
_Descripção de Badajoz_ 17.
_Á Serenissima Princeza entrando no banho_ 18.
_Levantando-se o Author da meza de hum Grande por serem horas de ir para a Aula_ 19.
_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Penalva, chegando o Author á Quinta das Lapas_ 20.
_Descripção de hum Peralta amaltezado_ 21.
_Aos Annos do Serenissimo Principe N. Senhor_ 22.
_A hum Leigo Arrabido vesgo_ 23.
_Aos Toucados altos_ 24.
_Mettendo a ridiculo humas Contradanças_ 25.
_Por occasião de estranharem ao Author hum sonho que a ninguem offendia_ 26.
_Á moda dos Chapéos maiores da marca_ 27.
_Ás Fivelas chamadas_ à la Chartre 28.
_A huma Velha presumida_ 29.
_Aos Annos de huma formosa Dama_ 30.
_A hum Padre Guardião_ 32.
_Em louvor de Caporalini, Actor do Theatro de S. Carlos_ 33.
_Achando-se o Author prezo dos bellos olhos de Marcia_ 34.
_Sobre a Ingratidão de huma Dama_ 35.
CANTIGAS _feitas nas Caldas_ 36.
ENDECHAS 39.
DECIMAS
_Em dia dos annos do Illustrissimo Principal Almeida_ 45.
Mote: _Olhos de Lize, olhos bellos, &c._ 47.
Mote: _Tu teimas em desprezar-me, &c._ 50.
Mote: _Não sei que quer a desgraçada, &c._ 53.
Mote: _Os meus olhos a chorar_ 56.
Mote: _Já disse tudo a Cupido_ 57.
Mote: _Distancias, e saudades_ 58.
Mote: _Cantarei alegres penas, &c._ 59.
Mote: _Nada no mundo figura, &c._ 60.
Mote: _Amor para me prender, &c._ 61.
Mote: _A minha felicidade_ 62.
Mote: _Quem adora occultamente &c._ 63.
Mote: _Nos olhos o amor explico, &c._ 66.
Mote: _Por passos sem esperança, &c._ 69.
Mote: _Eu já tenho exp'rimentado &c._ 70. 71.
Mote: _Ouvi, ó Senhora, ouvi, &c._ 72.
Mote: _Hei de amar-te até á morte, &c._ 75.
Mote: _Toda a Mulher he perjura_ 78.
Mote: _De mil suspiros que eu dou_ 80.
_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Penalva_ 79. 81.
_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde_ 82. 84. 87. 94.
_Vagando hum Officio que o A. pertendia_ 88.
_Ao Doutor Joaquim Ignacio Seixas, Medico das Caldas_ 89.
_A hum Pregador celebre_ 90.
_Carta a Lourenço da Mota, Official da Secretaria_ 91.
QUADRAS.
_Ao Juiz do Crime de Andaluz_ 95.
_Memorial a Suas Altezas_ 98.
QUINTILHAS.
_No dia dos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde_ 103.
_Em louvor de huma Senhora_ 106.
_Quixotada._ 114.
ODES.
_A SS. MAGESTADES, no dia da Acclamação da Rainha N. Senhora_ 122.
_No dia dos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Angeja_ 132.
_Ao Senhor D. Domingos de Assís Mascarenhas_ 137.
_Em louvor da Saude_ 142.
Notas:
[1] _Duvidoso._
[2] _O Marquez de Pombal._
[3] _Tem allusão ao Soneto VI._
[4] _Duvidoso._
[5] _Duvidoso._
[6] _Os Márques comprárão em Lisboa humas casas a certo homem da mesma por preço exorbitante: feita a escritura, e passado o dinheiro em cartuxos, voltou brevemente o vendedor dizendo que indo em casa a contar os cartuxos achára cobre, e não ouro. Quem compra por preço tal, parece que não faz tenção de pagar: Quem vende por tal preço, parece ter demasiada cubiça. Todos estavão em boa reputação._
[7] _Estas Decimas fez o A. em agradecimento de ser provido pelo Principal, então Director dos Estudos, na Cadeira de Rhetorica, de que depois se queixou tanto._
[8] _Outro Pregador tendo bebido demasiado, chegou ao pulpito, e só pronunciou estas palavras:_ Sempre me deito.
End of Project Gutenberg's Obras posthumas, by Nicolau Tolentino de Almeida