Obras posthumas

Part 2

Chapter 24,115 wordsPublic domain

Quando desses claros lumes Sahem as chammas brilhantes; De mil rendidos amantes Ouço saudosos queixumes. Não chameis loucos ciumes, Ó Lize, os que em mim causaes: Do poder de huns olhos taes Quem ha que livrar-se possa, Se a menor perfeição vossa Me faz temer mil rivaes?

MOTE.

_Tu teimas em desprezar-me, Eu teimo em te idolatrar, Juntarei teima com teima, Teimando te hei de abrandar._

GLOZA.

De ser comigo piedosa Não dás, Marilia, esperanças: Inda, cruel, não te cansas De ser esquiva, e teimosa! Que importa, ó Ninfa formosa, Vir neste pégo arriscar-me, De mergulho ao mar lançar-me, E os livres peixes colher-te; Se quanto eu teimo em querer-te, Tu teimas em desprezar-me?

C'os olhos ao Ceo erguidos, Ou postos nos longos mares, Por ti encho os vagos ares De mil saudosos gemidos: Nos rochedos desabridos, Que em vão bate o rouco mar, Devorando o meu pezar, Já que de ouvi­-lo te cansas, Sem premio, sem esperanças Eu teimo em te idolatrar.

Teimando, se mal não penso, Hei de abrandar teus rigores; Porque assim como em amores, Tambem em teimas te venço. Juro pelo Sol intenso, Que a prumo estas rochas queima, Que mais do que eu ninguem teima. São as causas desiguais: Mas por vêr quem teima mais, Juntarei teima com teima.

Se alva fonte murmurando Gasta em torno os duros seixos, E vai dos annosos freixos As raizes escarnando: Se duras rochas quebrando Vai c'o tempo o bravo mar: Se bronzes póde cortar Mordente lima teimosa: Tambem eu, Ninfa formosa, Teimando te hei de abrandar.

MOTE.

_Não sei que quer a desgraça, Que atraz de mim corre tanto: Hei de parar, e mostrar-lhe Que de ve-la não me espanto._

GLOZA.

Não sei que outro mal profundo Inda a desgraça me guarda, Se me tirou em Anarda O que tem de bom o mundo! Foi este golpe tão fundo, Que outro não tem que me faça: Se em levar-me o gesto, e a graça De huns olhos, por quem vivia, Me fez quanto mal podia, Não sei que quer a desgraça!

Debalde outros gostos pintas, Amor, para cativar-me: Já não tornas a enganar-me, Por mais, e mais que me mintas. Inda tens as settas tintas, Inda enxugo inutil pranto: Ao teu venenoso encanto Novas victimas procura; E dá-lhe dessa ventura, Que atraz de mim corre tanto.

Fizeste, ó desgraça, hum erro Em vires do Amor valer-te: Como ha de elle socorrer-te, Se eu já conheço o seu ferro?­ Á sua voz o ouvido cerro: Custou-me sangue o escapar-lhe: E para melhor provar-lhe, Que eu já sou dos seus cortados, Sinaes inda mal fechados Hei de parar, e mostrar-lhe.

Tu só me déste hum desgosto, Outro já não pódes dar-me: Já agora sempre has de achar-me A mesma alma, e o mesmo rosto, Se em ferros por ti for posto, Verás que ao som delles canto; Se envolta em sanguineo manto Me pões a morte diante, Notarás no meu semblante, Que de ve-la não me espanto.

MOTE.

_Os meus olhos a chorar._

GLOZA.

Pranto inutil são os meios Das pessoas desgraçadas: Pagai, lagrimas cansadas, Pagai delictos alheios. Já que de ouro cofres cheios Nunca pude a Nize dar, Já que devo em fim pagar Culpa, que só tem meus fados, Fiquem sempre condemnados Os meus olhos a chorar.

MOTE.

_Já disse tudo a Cupido._

GLOZA.

Na vossa ­gentil figura Mil dões natureza pôz: Todos cuidão que sois vós A Deosa da Formosura. Venus mil vinganças jura, Vendo o seu culto esquecido: Vai de settas o ar ferido. Senhora, andai cuidadosa, Que a louca Deosa invejosa Já disse tudo a Cupido.

MOTE.

_Distancias, e saudades._

GLOZA.

As nodosas carvalheiras, Que assombrão hermas estradas; Altas rochas, penduradas Sobre medonhas ribeiras; Duras, íngremes ladeiras, Escuras concavidades; São as tristes soledades, A quem meu cansado peito Conta o mal, que lhe tem feito Distancias, e saudades.

MOTE.

_Cantarei alegres penas, Que cercão meu coração._

GLOZA.

Que eu cante alegre me ordenas? Que cruel, que dura Lei! Porém obedecerei, Cantarei alegres penas: Por todo o modo envenenas A minha infeliz paixão; Tu déras valor á acção De eu affectar alegrias, Se visses as agonias Que cercão meu coração.

MOTE.

_Nada no mundo figura, Quem não chega a ter amor._

GLOZA.

Deos de Amor, sempre a ventura De tuas mãos pendente vi: Tu pódes tudo; sem ti Nada no mundo figura. Recolhe da terra dura Fructo immenso o Lavrador; Mas occulto dissabor No fundo da alma lhe diz, Que não chega a ser feliz Quem não chega a ter amor.

MOTE.

_Amor para me prender Os teus olhos me mostrou._

GLOZA.

Mil bellezas me fez vêr, Porque alguma me rendesse, Não sabia o que fizesse Amor, para me prender. Mil laços me foi tecer, Laços vãos, que em vão me armou; Provadas settas tirou, Que hia em veneno ensopando; Porém só me rendi quando Os teus olhos me mostrou.

MOTE.

_A minha felicidade._

GLOZA.

Cesse, ó Nize, o teu rigor: Esse odio injusto reprime: Perdem o nome de crime Os crimes que faz amor. Torne ao seu antigo ardor A nossa antiga amizade: Adoça a rigoridade Do penoso estado meu, E faze c'hum riso teu A minha felicidade.

MOTE.

_Quem adora occultamente Sem declarar seu amor Sente mil ancias no peito, Vive cercado de dôr._

GLOZA.

Por que barbara razão Hum justo amor se reprime, E ha de julgar-se por crime Pôr na boca o coração? Claros olhos ferir vão Hum coração innocente; Nem ao triste se consente Dar sinaes de seu cuidado! Deoses! quanto he desgraçado Quem adora occultamente!

No peito a chamma accendida As entranhas lhe abrazou; Mas da ingrata, que a ateou, He crime ser percebida. Se deita sangue a ferida Á vista do matador, Vejão de que nova dôr Sente o triste a alma cortada, Fallando co'a sua Amada Sem declarar seu amor!

Arde em hum fogo escondido: Pois­ se conta o seu cuidado, Além de ser desgraçado, Chamão-lhe em cima atrevido. Até quasi tem perdido De olhar o livre direito; Vive sempre contrafeito; E entre mil contrarios posto, Mostra alegria no rosto, Sente mil ancias no peito.

Busca alegres companhias, Por curar o mal que sente: Entra a ingrata de repente, Despertão-se as­ cinzas frias. Ternas Arias, Synfonias, Tudo aviva o seu amor; Mas dos fados o rigor Tem sobre elle taes poderes, Que no meio dos prazeres Vive cercado de dôr.

MOTE.

_Nos olhos o amor explico Que trago no coração; Que não se póde occultar No peito a doce paixão._

GLOZA.

Mandas-me, ó Anarda, em vão Os olhos meus reprimir; Que elles sempre hão de seguir O impulso do coração. Sem querer sinaes daráõ Do affecto, que não publíco: Co'a boca, que mortifico, Que importa que o não revele, Se eu, por mais que me acautele, Nos olhos o amor explico?

Amor os faz descuidados: Em vão, Anarda, os abaxo;­ Pois dahi a pouco os acho Outra vez nos teus pregados. Trazellos mais castigados Não está­ na minha mão: Esta continua omissão, Este erro, como tu dizes, He hum fructo das raizes, Que trago no coração.

De que serve olhar a medo, E fallar acautelado, Se hum suspiro descuidado Vem descobrir o segredo? Este artificio, este enredo Pouco poderá durar: Meus olhos me hão de entregar; Que hum amor na alma arraigado He como hum fogo ateado, Que se não póde occultar.

Tempo, e arte tenho posto Para disfarçar-me em tudo: Mas sae-me perdido o estudo, Em vendo o teu lindo rosto. Disfarça-se mal hum gosto, Que nasce do coração: Tambem tu dessa lição Talvez­ que bem não sahiras, Se assim como eu sentiras No peito a doce paixão:

MOTE.

_Por passos sem esperança, Onde me leva o dezejo?_

GLOZA.

Vão pensamento, descança, Reconhece as forças minhas: Tu não sabes, que caminhas Por passos sem esperança? Junto da corrente mansa Me pões do dourado Tejo: Cá de longe o si­tio vejo: Mas não devo hum passo dar, Que eu não mereço chegar Onde me leva o dezejo.

MOTE.

_Eu já tenho exp'rimentado As minhas inclinações._

GLOZA.

Que nunca teu doce agrado De amizade simples passa, Por minha grande desgraça Eu já tenho exp'rimentado. Antes odio declarado, Que estas equivocações! Quero as ternas espressões De que as almas se alimentão: Com menos não se contentão As minhas inclinações.

_Ao mesmo Mote outra_

GLOZA.

Senhora, eu tenho encontrado No teu amor mil intrigas: Não preciso que mo digas, Eu já tenho exp'rimentado. São premios do meu cuidado Enganos, e ingratidões; E por occultas razões São, inda que mo não dizes, Tão justas, como infelizes, As­ minhas inclinações.

MOTE.

_Ouvi, ó Senhora, ouvi Os suspiros de huma voz, Que quando por vós suspira, Aspira sómente a vós._

GLOZA.

Chegou finalmente a hora De saberdes quem vos ama: Rebente esta antiga chama, Que ardeo occulta atégora. Amar callando, Senhora, Assaz o fiz atéqui: As ancias, que padeci, Sejão finalmente expostas... Ah! não me volteis as costas: Ouví­, ó Senhora, ouví.

Perdei huma vez o horror A ouvir ternos gemidos; Nunca ferírão ouvidos Brandas palavras de Amor. Que hora, e que sitio melhor, Do que este em que estamos sós? Que culpa, que crime atroz Temeis que ante vós farão As queixas de hum coração, Os suspiros de huma voz?­

Meu coração vos adora; Sem saber o conquistais: Estas ancias, estes ais São obra vossa, ó Senhora. Em segredo amou até­gora; De amor vive; amor respira; E se vós, depondo a ira, Lhe prometteis compaixão, Que melhor occasião, Que quando por vós suspira?

Nelle, Senhora, não posso Nutrir estranha paixão: Em fim este coração Foi feito para ser vosso: Para encher-se de alvoroço Basta ouvir a vossa voz: Passa indiff'rente, e veloz Por mil bellezas, que admira, Nada o enche, a nada aspira­, Aspira sómente a vós.

MOTE.

_Hei de amar-te até á morte, Quer tu me queiras, quer não: Serei no amor desgraçado; Mas com discreta eleição._

GLOZA.

Não fujo, pódes rasgar Este peito desgraçado; Que o teu gesto retratado Has de, cruel, nelle achar. Posto que veja roubar Á Parca a tesoura forte, E dar-me na vida córte, Inda ouvirás, que te digo: «Ingrata, não me desdigo, Hei de amar-te até á morte.»

Vem, Amor, auctorizar O sagrado juramento De até ao final alento Firmemente te adorar. De joelhos, no Altar Co'a devida submissão Resoluto ponho a mão; Juro nas settas tremendas De te amar, quer tu me offendas, Quer tu me queiras, quer não.

Amor co'as mãos apressadas Ergue dos olhos a venda, E pasma da jura horrenda, Que assusta as aras sagradas. «Eis as correntes pezadas, Que te esperão,» diz irado. Eu as acceito humilhado, «Não, ó Deos, não esmoreço C'os ferros, posto conheço Serei no amor desgraçado.»

A Liberdade ultrajada Lança-me a revez a vista; Risca-me da honrada lista, E chama-me escravo irada. Não crimines indignada Esta nobre sujeição. Arrastro o ferreo grilhão; Mas por quem? Por Nize bella. Ah! sim te deixo por ella; Mas com discreta eleição.

MOTE.

_Toda a Mulher he perjura._

GLOZA.

Triste solitario freixo, Mais triste do que eras d'antes, Conta, conta aos caminhantes A razão com que eu me queixo. Em teu tronco escrita deixo Minha funesta aventura: Reconta esta historia dura, Por que veja quem a ler, Que depois de Armida o ser Toda a Mulher he perjura.

_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Penalva._

Illustrissimo Penalva, Já que me dais protecção, Sentido na occasião, Porque bem sabeis que he calva. Se o vosso braço me salva Das­ criança­s pertinazes, Se a poder das vossas frazes Meu duro grilhão se corta, Por triunfo á vossa porta Pendurarei dous rapazes.

MOTE.

_De mil suspiros que eu dou._

GLOZA.

Parto em fim desesperado, E sem que o motivo conte Vou a estranho horizonte Chorar o meu triste fado. Já vejo o laço quebrado Que a ventura me forjou; E como Nize o quebrou, Conservando os olhos seccos, Ao menos não ouça os éccos De mil suspiros que eu dou.

_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Penalva._

Hontem soube o que podia Estilo suave, e brando: E quanto podeis fallando Eu o vi na Academia. Nas almas fogo accendia Vossa discreta Oração. Sobre a minha pertensão Vos peço que assim oreis, E que ao Principe falleis Como fallais á Nação.

_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde._

Mandais-me que os versos traga Que na almofada fallárão; Porque os outros vos ficárão Nas mãos da Illustre Arriaga. Essa honra he huma paga, Que elles nunca merecêrão: Se os seus olhos se puzerão Sobre tão baixa escritura, Devo essa grande ventura Ás illustres mãos que os dérão.

Mas he do meu triste fado Tão teimosa a crueldade, Que até na felicidade Vejo que sou desgraçado: Pois devi­eis cautelado Segurar a occasião: Fingindo que errava a mão, Entre mil papeis diversos Podieis em vez dos Versos Dar-lhe a minha petição.

_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde._

Assisti á Sagração, Acto, Senhor, dos mais serios, Que envolve augustos Mysterios Da nossa Religião. Lembrou-me crismar-me então Por ser acto Episcopal; Por permittir acção tal Que outro appellido se tome; Lembrou-me trocar o nome De Mestre em Official.

Busquei as horas melhores, E encommendei-me á fortuna; Cheguei, e para a Tribuna Tinhão já ido os Senhores. Pelos frios corredores O bom Lima me encaminha;­ Foi-me pôr na tal portinha Onde os pertendentes vão Pôr os joelhos no chão, E os olhos na Rainha.

Co'a cabeça estopetada, Como quem dorme sem cama, Roto fumo, e alguma lama Sobre a casaca encarnada, Vi o tal que grita, e brada, Quer na Sala, quer na rua. Por mais que trabalha, e sua, Guarda-roupa he louca idéa: Como ha de guardar a alhêa Quem trata tão mal da sua?

Ao pé a figura rara Do pardo Cardeal astuto, Que para cumprir o luto Lhe basta mostrar a cara. Dos dous na justiça clara Grandes fundamentos acho; Mas fujo mais para baixo, E dispenso amigos taes, Por não ficarmos iguaes Na justiça, e no despacho.

_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde, quando morreo o Pai do Author._

Peito de tanta bondade De bom Pai o nome preza; Levou-me hum a Natureza; Mas deixou-me outro a piedade. Amparai minha orfandade, Porque a vossos pés me humilho: Se não me abrís outro trilho, Tal a minha estrada vai­, Que irão co'a vida do Pai As esperanças do Filho.

_Vagando hum Officio que o A. pertendia._

Jaz o defunto enterrado: E agora saber intento, Se a caso no testamento Me ficou algum legado. A vossos pés ajoelhado Ponho em vós minha esperança: Tenho Parte, e não descansa; E nesta causa infeliz­, Se não fordes o juiz, Perderei de certo a herança.

_Ao Doutor Joaquim Ignacio Seixas, Medico das Caldas._

Meu Doutor, bem sei que quer Que eu venha ás Ave-Marias; Mas olhe: ha huns certos dias Em que isto não póde ser. Dona Antonia Xavier (Que o Ceo por seculos guarde) Faz annos, e eu esta tarde Perco á Medicina o medo: N'outros dias virei cedo; Mas neste, ha de ser bem tarde.

DECIMA.

_A hum Prégador celebre (Fr. João Jacintho) estando jantando com o A._

Se deste potente vinho Não cerceias as rações, Temo que nos teus Sermões Allegues só São Martinho. Se lhe dás largo caminho Pelo teu fecundo peito Seu fatal magico effeito Deixando-te a tres de fundo, Te fará ser o segundo Que diga: _sempre me deito_.[8]

_Carta a Lourenço da Mota, Official da Secretaria._

Amigo Lourenço: Se tu não sabes o que he não ter dinheiro, eu to explico: Abaixo de Estupores he o maior mal do mundo, principalmente para quem herdou Irmãas sem nenhum rendimento, e com muito bom estomago.

Por vêr se aligeirava esta carga, empenhei-me em hum milhão para lhes comprar tenças, e em outro para lhas assentar; mas como as não cobrão, morrem de fome, e depois que são ricas, tornão-se a mim, e dellas aprendo o que são lucros cessantes, e damnos emergentes. Cuidei que tinha mettido huma lança em Africa, e vejo que a metti em mim mesmo; e arde agora a vela pelas duas pontas.

Tu que tens bom coração, e que estás ao pé do Senhor Marquez, que o tem melhor, pede-lhe por caridade o despacho dessa petição.

Não te assustem os tres annos; porque ainda mal que ouço que no de 93 não tiverão cabimento. Pede-lhe que já que me livrou de crianças, me livre tambem de velhas, gado ainda mais impertinente, e que se não contenta com figuras de Rhetorica. Interessa-te pelo teu Nicoláo, Amigo, e Collega, e sabe que, se lhe não mandas as Portarias, terás a vergonha de o vêr andar pelas outras. Recomenda-se á tua efficacia.

O teu fiel Amigo

_N. T._

Peço que mates a fome A este meu povo immenso, E peço-te, meu Lourenço, Pelo Santo do teu Nome. Por hum bom serviço tome A paga das taes tencinhas. Pois teve as carnes mesquinhas Em vivas brazas vermelhas, Em louvor das suas grelhas Peço me livres das minhas.

Com esta tenho enviado Tres cartas, segundo penso, Ao meu amigo Lourenço: Nem reposta, nem mandado. A dôr de que estou tomado Sim desejo allivialla: Mas a tua mais me aballa, E parece mais intensa: Pois eu sim fico sem Tença; Porém tu estás sem falla.

_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde, andando o A. na pertenção de ser Official da Secretaria de Estado._

DECIMA.

Senhor, venho perguntar Quando ides ficar no Paço: Para que á força de braço Lanceis esta náo ao mar. Sabe montes aplanar Vossa discreta portia: E pinta-me a fantasia, A qual nem sempre me engana, Que só na Vossa semana Me ha de chegar o meu dia.

_Ao Juiz do Crime de Andaluz, dando-lhe este parte que estava para casar, e mostrando-lhe versos, que fizera á Noiva. He o de que trata o soneto 33, Tom. I. pag. 35._

M­anoel, muda o cuidado, Abafa essa chamma ardente: Não falla hum são a hum doente; Falla-te outro exp'ri­mentado.

Já servi ao Deos do engano, Fórte com forças alheias. Passei nas suas cadeias Apoz hum anno outro anno.

Prometteo-me alto favor; Mas sabe, pois que começas, Que o que tive das promessas Forão lagrimas, e dôr.

Não te deixes enganar Do rosto brando, e sereno: Tempéra em riso o veneno; Afaga para matar.

Com mil modos attractivos Chama a cega, e incauta gente: Lança-lhe dura corrente, E escarnece dos cativos.

Como trata os infelizes, Que andou outr'ora amimando, Meu peito to está mostrando Nesta frescas cicatrizes.

Até em cousas de peta Quer mostrar o seu rigor: Faz entrar n'hum prosador A mania de poeta.

Mas esses laços que trazes, Dom desse Deos inimigo, Talvez que sejão castigo D'outras prizões, que tu fazes.

Fere a muitos tua mão, Inda que tanto a reprimes, E vens a pagar teus crimes Com pena de Talião.

MEMORIAL

_A Suas Altezas._

Se os Principes nos são dados Para geral beneficio, E se o seu mais digno officio He ouvir os desgraçados:

Ouví minha desventura, E consentí que esta vez Se lastime a vossos pés Hum queixoso da ventura.

Sahirem humildes ais De hum peito singelo, e aberto, He o direito mais certo, Quando os Juizes são tais.

Fundadas sobre a verdade As minhas supplicas vão: Não peço por ambição, Peço por necessidade.

Em mim o cuidado cae De Irmãs postas em pobreza: A piedade, e a natureza Me fazem Irmão, e Pae.

Olhos em pranto banhados, Que eu sem dôr não posso ver, Vos fazem agora ler Estes versos mal limados.

São tristes Orfãs donzellas, E merecem suas dôres Que vós, Augustos Senhores, Hajais piedade dellas.

Por mais esforços que eu faça Como hei de dar-lhe favor, Se o seu triste bemfeitor Vive na mesma desgraça?

Da miseria as tirareis, Se eu da miseria sahir: Sobre muitos vai cahir O favor que me fazeis.

Vós, ó Augusta Princeza, Em quem o Ceo quiz juntar O melhor que pódem dar A fortuna, a natureza,

Tende dó de seu lamento; E dai a mão favoravel A hum sexo respeitavel, De que vós sois ornamento.

A petição que vos faço Não he de facil indulto; Para pouco, fora insulto Valer-me do Vosso braço.

Não he facil, mas he justa: E será bem despachada, Se huma vez apresentada For por Vós á Irmã Augusta.

Principes, tende piedade: Ponde a meus queixumes pausa: Protegei na minha causa A causa da humanidade.

O que de Tito se diz, Hum Rei Vosso Avô dizia; Chamava perdido o dia, Se não fez alguem feliz.

Motivo de tristes ais Quaesquer mãos o pódem dar; Más venturas emendar Só pertence a mãos Reais.

Dos homens, inda que ingratos, Ouve Deos os rogos justos: Vós, ó Pri­ncipes Augustos, Sois na terra os seus retratos.

Mas já o tempo opportuno Apressa as azas escassas, E não devo ás mais desgraças Ajuntar a de importuno.

Acabe a triste escriptura, Digna por tal de piedade: Eu dei-lhe pranto, e verdade, Vós podeis dar-lhe ventura.

_No dia dos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde._

Não venho dourar enganos; A vida não he louvor; Pois tambem vivem Tyrannos: Eu venho, illustre Senhor Louvar obras, e não annos.

De homem commum não se exime Quem não tem virtudes claras: He pouco fugir do crime: Consagrão-se as almas raras A trabalho mais sublime;

A trabalho heroico: e creio Pelo provado aforismo, Que em sãos Filosofos leio, Que o verdadeiro heroismo He fazer o bem alheio.

Taes trabalhos honra dão Á digna mão que os procura: Não amo Heróes da ambição: Buscão a sua ventura; Vós buscais a da Nação.

Serem por vós levantados Os talentos esquecidos; Do triste os ais desprezados Serem aos Reaes Ouvidos Pelas vossas mãos levados;

De quem a vós se a­colheo, Remediar o queixume; Ter como proprio o mal seu; He este o vosso costume, E o genio que o Ceo vos deo.

E o Throno aos Povos propicio, Que vigia em seu favor, Fez-lhe o geral beneficio De mandar, que em vós, Senhor, O que he genio fosse Officio.

Parti­o Offi­cios pezados Com quem os servisse bem: São projectos acertados: Quem do Throno o sangue tem, Tenha tambem os cuidados.

Dai aos gratos Lusitanos Longo tempo Mão segura Contra injustiças, e enganos; E seja a sua ventura O louvor dos vossos Annos.

Mas, Senhor, moços Poetas Vinguem meus esforços vãos: Musas zombão de Jarretas: Pedem-me as tremulas mãos, Mais do que Lyra, muletas.

Fogosos Vates emprehendão Altos vôos neste dia: Musas com Musas contendão: Sáião Odes á porfia; E queira Deos que se entendão.

QUINTILHAS

_Em louvor de hu­ma Senhora._

Lyra minha, rouca lyra, Hoje afinada consente, Que a tremula mão te fira: Cante huma só vez contente Quem por costume suspira.

Louvemos Anarda bella; Eu vejo aos astros subir Meus versos em honra della, E possa quem os ouvir Adora-la antes de vê-la.

Já lédo as vozes desato: Ouve, ó Nynfa, os teus louvores: Não pertendo ser-te grato Traçando com vivas cores Teu angelico retrato.

Permitte, Anarda piedosa, Que se farte o meu desejo N'outra empreza mais gloriosa; Que o menor dom que em ti vejo, He o dom de ser formosa.

Rubra boca, os olhos bel­los, Que brandamente movidos, São de Amor agudos zelos; Sobre alvo collo es­parzídos Louros ondados cabellos;

Braço airoso, a mão de neve; Proporcionada cintura; Eis a tua copia breve: Porém vôa a formosura Nas azas do tempo leve.

Outros bens mais duradouros Não são á tua alma esquivos, Bens que nos annos vindouros Valem mais que huns olhos vivos, Que huns soltos cabellos louros.

A destruir a belleza A curva velhice corre: Nada conserva firmeza; Só a virtude não morre: Vence as leis da Natureza.

Tu, que prezas a verdade; Que tratas falsos sujeitos Só com a côr de amizade, E para os sinceros peitos Mostras ter sinceridade;

Tu, que os enganos deslizas; Que sabes vencer desgostos; Que a lisonja ufana pizas; Que não vês sómente os rostos; Que até corações divizas;

Tu, que da seria prudencia Segues os dictames puros; Que tens amado a innocencia, E nos conselhos maduros Mostras de idade experiencia;

Teu nome eterno ha de ser Estampado entre as estrellas; Has de as mais Nynfas vencer, Que sómente em serem bellas Fundão todo o seu poder.

Amão a fofa vaidade; Dos homens a seu sabor Prendem a solta vontade: Trazem nos olhos amor, No coração falsidade.

Muitas fingem desprezar Finezas de amante rude; Fingem os sabios amar: Não o fazem por virtude, Querem talentos mostrar.

De que serve huma alma pura, Se os pezados membros cobre Rota humilde vestidura? Nada val hum peito nobre N'huma grosseira figura.

Corpo esbelto, onde ajustado Brilha, cheio de ouro immenso, Curto fraque afrancezado; Cheiroso, candido lenço; O cabello apolvilhado;

Jocosas palavras ôcas; Estes os dons relevantes, Que deixão de vencer poucas Das que fingem ser amantes, E não passão de ser loucas.

Tu tens outro entendimento: És sempre igual: não te vales Das côres do fingimento: Quer séria, quer rindo falles, Não fundas torres no vento.