Obras posthumas

Part 1

Chapter 13,809 wordsPublic domain

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OBRAS

POSTHUMAS

DE

NICOLÁO TOLENTINO

DE ALMEIDA.

LISBOA, 1828.

NA TYPOGRAPHIA ROLLANDIANA.

_Com Licença da Meza do Desembargo do Paço._

_A Sua Alteza._

SONETO I.

Tornai, tornai, Senhor, ao Tejo undoso, Vinde honrar-lhe outra vez a clara enchente, E deixai que ajoelhe entre a mais gente Hum protegido humilde, e respeitoso.

Não leva a vossos pés rogo teimoso De importuno cansado pertendente; Vem beijar-vos a mão humildemente, A mão augusta que o fará ditoso.

Pois foi por Vós benignamente ouvido, Não vai fazer em pertenções estudo, Vai só mostrar-vos que he agradecido.

Ante Vós ajoelha humilde, e mudo: Mostrai-lhe que inda he Vosso protegido; Que se isto lhe ficou, ficou-lhe tudo.

_A Sua Alteza.­_

SONETO II.

Qual naufrago, Senhor, que foi alçado Por mão piedosa d'entre as ondas frias, Tal eu de antigas duras agonias Por vossas Reaes mãos fui resgatado:

Pois vencestes as teimas do meu fado, E já vejo raiar dourados dias, Deixai que possa em minhas poesias O vosso Augusto Nome ser cantado.

Não he digna de vós minha escriptura, Nem harmonia, nem estilo a adoça; Mas valha-lhe, Senhor, vontade pura.

Principe excelso, consentí que eu possa Fazer inda maior minha ventura, Contando ao mundo que foi obra Vossa.

_Sahindo Conselheiro da Fazenda o Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor D. Diogo de Noronha_.

SONETO III.

Nem sempre em verdes annos a imprudencia Produz irregular procedimento: N­em sempre encontra o humano entendimento Só perto do sepulcro a sã prudencia.

Em Vós não esperou a Providencia Que longas cans vos dêm merecimento: Em Vós mostrou que estudos, e talento Valem mais do que a larga experiencia.

Os eruditos velhos Conselheiros, Depois que o vosso voto alli for dado, Serão de Vós eternos pregoeiros:

E dirão que deveis ser escutado Onde os Ministros vossos companheiros Não sejão da Fazenda, mas do Estado.

_Aos leques mui pequenos, chamados Marotinhos._

SONETO IV.[1]

Fofo colchão, as plumas bem erguidas, E sobre os hombros nas jucundas frentes De enrolado cabello anneis pendentes, Longos chorões, bellezas estendidas,

Era esta das­ matronas presumidas A moda, que trazião bem contentes; Rião-se dellas as modestas gentes Vendo pequenas poupas esquecidas.

Nisto a gentil Madama aperaltada, Grande auctora de trastes exquisitos, Nova moda lhe inventa abandalhada.

Reprova-lhe aureos leques com mil ditos. Eis senão quando (oh moda endiabrada!) Abanão-se com azas de mosquitos.

_O cruel disfarce._

SONETO V.

Sem murmurar padecerei callado Cumprindo o teu preceito violento: Faltava a envenenar o meu tormento Dever ser por mim mesmo disfarçado.

De trazer o semblante socegado Farei o inculpavel fingimento: Nos olhos mostrarei contentamento, Tendo hum punhal no coração cravado.

Este peito onde nunca engano viste, Que não sabe a vil arte de affectar-se, Onde a verdade, e a intacta fé­ existe,

Martyr do amor, e do infiel disfarce, Nas tuas adoraveis mãos desiste Té dos tristes direitos de quei­xar-se!

_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Visconde de Ponte de Lima, Secretario de Estado_.

SONETO VI.

A longa cabelleira branquejando, Encostado no braço de hum Tenente, Cercado de infeliz chorosa gente Hia passando o velho venerando.[2]

Geraes repostas para o lado dando: «Sim Senhor; Bem me lembra; Brevemente;» Na praguejada mão omnipotente Nunca lidos papeis hia aceitando.

Mas eu que já esperava altas mudanças, Melhor tempo aguardei, e na algibeira Metti a Petiçã­o, e as esperanças.

Chegou, Senhor Visconde, a _viradeira_: Soltai-me a mim tambem destas crianças, Onde tenho o meu Forte da Junqueira.

_Fazendo Annos a Illustrissima, e Excellentissima Senhora Marqueza de Angeja._

SONETO VII.

Senhora, ha muito tempo pertendia Ser do vosso favor patrocinado: Mil vezes vos quiz dar este recado; Porém sempre o respeito me impedia.

Chegou em fim o venturoso dia A fazer beneficios destinado: Vou neste privilegio confiado; Que a não ser isso não me atreveria:

Vou pedir que descendo da Cadeira, Onde explico os crueis Quintilianos, Me ensineis a tomar melhor carreira.

Que em mim ponhais os olhos soberanos, E que me chegue em fim a _viradeira_[3] No faustissimo dia destes annos.

_Aos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde d­e Avintes._

SONETO VIII.

A varonil idade florecente Vos tece, illustre Heróe, annos dourados­ Para serem á Patria consagrados; Pois sois de Almeidas claro descendente.

Sobre as terras, e mares do Oriente Inda vejo os trofeos alevantados: Vejo beber mil corpos aboiados Do turvo Gange a fervida corrente.

No difficil caminho d'honra, e gloria Por ferro, e fogo a seus bons Reis servindo, Vos deixão por doutrina a sua historia.

Forão diante o duro passo abrindo: Entrai, Senhor, no Templo da Memoria, Os­ bons Avós, e o illustre Pai seguindo.

_Estando nas Caldas_.

SONETO IX.

Por mais que vos alongue olhos cansados, Olhos ha tanto tempo descontentes, Não vedes mais que pallidos doentes Por mãos estranhas n'agoa sustentados.

Quantas vezes ficastes magoados Por ver ir entre as fervidas correntes Envolvidas mil lagrimas ardentes Do que em vão quer alçar braços mirrados!

Vistas são estas de bem pouco gosto; Poré­m bem pagos ficareis hum dia Quando virdes de Arminda o lindo rosto.

E o pranto, que atégora vos cahia De lastima, d'auzencia, e de desgosto, Ella o fará correr; mas de alegria.

_A huns Annos._

SONETO X.

Foi este o dia em que a teus pés baixárão Venus, e as lindas Graças innocentes, E em torno do aureo berço reverentes Ao som de alegres hymnos te embalárão.

Aos teus olhos gentís communicárão Cruel poder de conquistar as gentes: Mil suspiros, mil lagrimas ardentes A muitos corações prognosticárão.

Dérão-te huma alma heroica, hum nobre peito: Dérão-te discrição, e formosura, Dons a que o mundo está mui pouco afeito.

Mas, oh humana sorte, triste, escura! Para na terra nada haver perfeito, Dérão-te hum coração de pedra dura.

_Ao disfarce das Mulheres._

SONETO XI.

Vens debalde, oh bellissima perjura, C'o lindo rosto em lagrimas banhado: Já fui por ti mil vezes enganado, E sempre me affectaste essa ternura.

Esse alvo peito, que he de neve pura, Mas de aço, e fino bronze temperado, Encobre hum coração refalseado, Hum coração de viva rocha dura.

Em vão trabalhas, se enganar-me queres, Vejo correr com animo sereno Esse pranto em que fundas teus poderes:

Mal inventado ardil: ardil pequeno: Tu mesma me ensinaste, que as mulheres Misturão com as lagrimas veneno.

_A huma Camponeza._

SONETO XII.

Não morão em palacios estucados Almas singelas, almas extremosas: Nutrem da Corte as damas enganosas Em tenros peitos corações dobrados.

Venhão por longos mares conquistados As Indianas sedas preciosas: Cubrão-lhe as carnes alvas, e mimosas Ricos vestidos em Paris bordados.

São isto effeitos da arte, e da ventura: Estimo mais que toda a vã grandeza Hum limpo coração, huma alma pura.

Não na Corte; das serras na aspereza Fui achar innocencia, e formosura, Sagrados dons da simples Natureza.

_A huma Dama interesseira._

SONETO XIII.

Podião ser felices meus amores Quando por ouro o amor se não vendia: Já de palavras Nize desconfia, Só crê ou em dinheiro, ou em penhores.

Vio-me assaltado d'ancias, e temores Quando na porta irada mão batia: Por costume infeliz ella sabia Que era algum dos cansados acredores.

Forão-se os dias bemaventurados, Em que só almas grandes, peitos nobres, Erão do Deus de amor agazalhados:

Negro destino hoje preside aos pobres: Poz termo a bella Nize aos seus agrados, Vendo esta bolça condemnada a cobres.

_Ao faustissimo dia da Inauguração da Estatua Equestre­ d'El-Rey Fidelissimo o Senhor D. José I._

SONETO XIV.

Em quanto o Reino cheio de ternura Ao grande Bemfeitor te ha consagrado, E respeita aos teus pés ajoelhado O Rey Augusto de quem és figura:

Em quanto os que me vencem em ventura Abrindo o antigo cofre chapeado, Mandão de prata, e d'ouro recamado Entretecer a rica vestidura:

Eu que não tenho desta louçania, De outra sem pejo sahirei composto, Que não cede á mais fina pedraria.

São ternissimas lagrimas de gosto: Nem infama o triunfo deste dia Quem põe por gala o coração no rosto.

_Descripção de­ Badajoz._

SONETO XV.

Passei o Rio, que tornou atraz, Se acaso he certo o que Camões nos diz, Em cuja ponte hum bando de Aguazis Registrão tudo quanto a gente traz.

Segue-se hum largo, em frente delle jaz Longa fileira de baiucas vís: Cigarro acezo, fumo no nariz, He como a companhia alli se faz.

A cidade por dentro he fraca rez, As moças põem mantilhas, e andão sós, Tem boa cara; mas não tem bons pés.

Isto, coifas de prata, e de retroz, E a cada canto hum sórdido Marquez, Foi tudo quanto vi em Badajoz.

_Á Serenissima Princeza entrando no banho._

SONETO XVI.

Nynfas do Téjo já por mim cantadas,­ Nossa Augusta Princeza esta presente; Pedí-lhe, que honre a placida corrente, E as agoas ficaráõ mais prateadas.

Diante de seus pés ajoelhadas Em justo acatamento reverente, Serenem vossas mãos a clara enchente, E as frias agoas corrão temperadas.

Sobre as ondas as frentes levantando, Ao tempo que as douradas tranças bellas Brandamente lhe fordes enxugando,

Dizei-lhe, que sustento Irmãas donzellas, Outras viuvas; e ide-lhe lembrando, Que o bem que me fizer he feito a ellas.

_Levantando-se o Author da meza de hum Grande por serem horas de ir para a Aula._

SONETO XVII.

Não tomando em desprezo o escuro estado Em que me poz Fortuna, e Natureza, Olhastes sem horror minha baixeza, E fizestes sentar-me ao vosso lado.

Então de ingrata obrigação chamado Deixei á força a companhia, e a meza, E inda cheio de ideias de grandeza Vim dar por thema hum Verbo conjugado.

Não sei com dous oppostos conformar-me; Soffrem-me os Grandes, sou taful, e moço, Não sei a _Senhor Mestre_ costumar-me.

Taes extremos, Senhor, unir não posso; De dous genios não sou: mandai fechar-me Ou a minha Aula, ou o Palacio vosso.

_Ao Excellentissimo Senhor Marquez de Penalva chegando o A. á quinta das Lapas._

SONETO XVIII.

Hum triste fatigado caminhante Chega a Vós, Illustrissimo Penalva: Co'a mão na espada a augusta Casa salva Segundo as leis de cavalleiro andante.

Sobre ronceiro fraco Rocinante, Que pesca a dente encontradiça malva Por duras rochas, por areia calva Cem vezes pronta morte vio diante.

Cuidando achar aqui melhores fados, Aos pés de outro Rocim, por novo caso, Quasi que vio seus dias acabados.

Quiz correr junto a Vós sobre o Pegaso: Cahio, e por sinal colheis regados Do sangue seu os louros do Parnaso.

_Descripção de hum Peralta amaltezado._

SONETO XIX.[4]

Hum vulto cuja fórma desconsola Pelo muito que mostra o pouco sizo, E que pela pobreza do juizo Mil trastes exquisitos desenrola:

Chapeo que bem carrega hum mariola, E que ainda aos sizudos causa rizo, Cazaqui­nha cortada de improvizo, Fivela que lhe vem de sola a sola:

Espantalho que em praça nunca falta Sem ter occupação nem má, nem boa, Que apenas moça vê logo lhe salta:

Eis-aqui, sem medir qualquer pessoa, Breve quadro de hum mi­sero Peralta, Que affecta de Maltez cá em Lisboa.

_Aos Annos do Serenissimo Principe Nosso Senhor._

SONETO XX.

Foi este, Alto Senhor, o santo dia, O Ceo o concedeo, o Ceo que he justo Afflicto o Povo, posto em dôr, e em susto Com lagrimas ardentes lho pedia.

O fertil Ganges nas entranhas cria Offertas para Vós, Principe Augusto, E ajoelhado na praia o Povo adusto Rico thesouro a vossos pés envia.

Ao Reino tecereis dias dourados, Sem precizar que os Fastos Lusitanos Vos contem as acções dos Reis passados.

Ponde os olhos nos vivos Soberanos, Estudai-lhe as doutrinas, e os cuidados, E a patria acclamará os vossos Annos.

_A hum Leigo Arrabido vesgo, despedido da Meza do S. C. P. Silva, por tomar a melhor pera da Meza. He o de que se trata nas Decimas, Tom. II. pag. 178_, Ferio sacrilega espada.

SONETO XXI.

O vesgo monstro que co'a gente ralha E de manhãa a todos atravessa, A cuja hirsuta sordida cabeça Nunca chegou juizo, nem navalha;

Que os gazeos olhos pela meza espalha Por ver se ha mais comer que tire, ou peça, Entrando nelle com tal fome, e pressa Qual faminto frizão em branda palha;

Por crimes de alta gula, e pouco sizo, De meza bem servida, mas severa, Foi n'hum dia lançado de improviso.

Hoje chorando o seu perdão espera: Perdêrão dous glotões o Paraiso, O antigo por maçãa, este por pera.

_Aos toucados altos._

SONETO XXII.[5]

Foi ao Manique hum homem accusado Por contrabandos ter; elle sciente Chama a quadrilha, corre diligente, Entra, busca, e não acha o Malsinado.

Acha a mulher, que tinha por toucado A torre de Belem: ella que o sente, Banhada em pranto, desmaiada a frente, Prostra por terra o corpo delicado.

C'o boléo se esbandalha a mata espessa, Sahem della esguiões, cassas lavradas, E de belbute trinta e huma peça,

Fivelas, espadins, rendas bordadas: Até tinha escondido na cabeça O marido, e tres arcas encouradas.

_Mettendo a ridiculo humas contradanças_.

SONETO XXIII.

N'huma tremula s­ala mal armada Com placas velhas, e papel pintado; Clamava já o povo alvoroçado Que fosse a Favorita começada.

Guincha em venal rabeca desgrudada De velho musico o arco estuporado: Cadeia, grita hum muito suado, Olhem que vai a contradança errada.

Ne­rvoso chispo, saborosas frutas He fazenda que alli nunca governa: Aquellas bocas andão sempre enxutas.

Nunca mais alli tórno a fazer perna: Quanto mais val o ir com quatro trutas Fazer huma função n'huma taberna.

_Por occasião de estranharem ao Author hum sonho que a ninguem offendia._

SONETO XXIV.

Atiça, ó moço, a moribunda chama Dessa faminta, sordida candêa, E encostado á parede cabecêa, Posta de guarda ao pé da minha cama.

Se o sono, que em meus olhos se derrama, E os languidos sentidos me encadêa, Tentar com sonhos esta pobre idéa, Em altos gritos por meu nome chama:

Assenta-me na cara essas mãos frias: Pois ves o fructo, que sonhando tiro, Corta em raiz traidores fantasias.

Contra os sonhos desde hoje me conspiro: Se ao primeiro me dizem heresias, Em sonhando outros pregão-me hum tiro!

_Á moda dos chapeos maiores da marca._

SONETO XXV.

Amigos, e Senhor meu, de França, ou Malta Hum chapeo mande vir a toda a pressa; A cópa que me ajuste na cabeça; Mas as abas na fórma a mais peralta.

A detraz que me fique muito alta, A prezilha, e botão pequena peça: Estimarei que disto não se esqueça; Que a demora me faz bastante falta.

Gostei muito do invento, he bem traçado, Porque vi no Loreto hum certo dia Muito povo a correr para o Chiado,

Para ver hum Senhor, quem tal diria: C'hum chapeo de tal fórma desmarcado Que nem a gente a pé passar podia.

_Ás fivelas chamadas a la Chartre._

SONETO XXVI.

Oh quantos Mexicanos patacões, Mareados talheres já sem par, Á tonta Avó o neto vai furtar De mofentos­ decrepitos caixões:

Fundidos em quadrados fivelões Para á Chartres o neto passear, Traz nos pés a baixela singular Que podia servir em correões.

Capitão Vento-Sul, rico Hollandez, Que de prata subtil pequenos Ós Servem só de fivelas nos teus pés,

Vem admirar-te, vendo que entre nós Traz o pobre peralta Portuguez Por fivelas molduras de tremós.

_A huma Velha presumida._

SONETO XXVII.

Debalde sobre a face encarquilhada Pendendo louros bugres emprestados, Dás inda ao louco amor teus vãos cuidados, Em carmins enganosos confiada.

Postiça formosura, em vão comprada, Não torna atraz os annos apressados: Nem alvos dentes de marfim talhados, Tornão em nova a tremula queixada.

De ti no mesmo tempo que do Gama Cantou mil bens a Deosa Trombeteira, A que os baixos Poetas chamão Fama:

Porém sempre ficaste em boa esteira; Porque, se já não prestas para dama, Inda serves mui bem como terceira.

_Aos Annos de huma formosa Dama._

SONETO XXVIII.

Deixai, Pastores, na montanha os gados, Vinde ao sitio melhor desta campina Beijar a mão á bella, e peregrina Deidade tutelar dos nossos prados:

Vinde offertar-lhe aos annos celebrados O cravo, a roza, a angelica, a bonina; E ao mais suave som da flauta fina Decantar seus illustres predicados.

Mas já a cercão pastores, e pastoras; Huma lhe beija a mão, outra o vestido; Elles a coroão de vistosas flores,

E em doces vozes todo o rancho unido Canta que ella he a Deosa dos Amores; Pois tem no rosto as settas d­e Cupido.

_A Sua Alteza._

SONETO XXIX.

Nesta cansada triste poesia Vedes, Senhor, hum novo pertendente, Que aborrece o que estima toda a gente, Que he ter no mundo cargos, e valia.

Sobre alto throno ha annos que regia De docil povo turba obediente: Mas quer antes sentar-se humildemente N'hum banco da Real Secretaria;

Qual modesto Capucho reverendo, Que em fim de Guardiania triennal Passa a Porteiro as chaves recebendo.

Em mim conheço vocação igual: E co'a mesma humildade hoje pertendo Passar de Mestre a ser Official.

_A hum Padre Guardião._

SONETO XXX.

Meu Padre Guardião, que exemplarmente Regeis essa Capucha Sociedade, Que munida do véo da Santidade Passa como não passa a mais da gente:

Vós que á força de braço omnipotente Fazeis tremer do inferno a potestade, E aos exorcismos só de hum vosso Frade Se explica o Demo em Portuguez corrente:

Logo que dessa estola o forte escudo Buscar esbelta Nynfa, que atacada Seja d'algum Demonio surdo, ou mudo,

Mandai dos Márques conte a trapalhada:[6] Pois só elle, que foi o que urdio tudo, Sabe quem commetteo a velhacada.

_Em louvor de Caporalini, Actor do Theatro de S. Carlos._

SONETO XXXI.

No grão Theatro vejo sempre enchentes: As cans annosas, os cabellos louros, Illustradas nações, barbaros Mouros, Todos da tua voz ficão pendentes.

Que importa que não deixem descendentes Teus ex-virís deshabitados couros; Que importa que tu roubes aos vindouros Se enriqueces, se encantas os presentes?

Não he traição ao sexo feminino; He só razão quem te elogia, e preza, Comico Mestre, Musico divino.

Oh nação de harmonia, e de crueza! O teu ferro nem sempre he assassino: Não i­nsultou, honrou a natureza.

_Achando-se o Author prezo dos bellos olhos de Marcia._

SONETO XXXII.

Eu vi a Marcia bella, vi Cupido Com arco, settas, e cruel aljava, Com impeto sahir de donde estava, E voar para mim enfurecido.

Fugí; bradei: porém não fui ouvido; E o tyranno Rapaz que me buscava, Com huma, e outra setta me atirava, Até de todo me deixar rendido.

Atou-me as mãos com asperas cadeias, Sem o mover o sangue que corria Do roto coração, das rotas veias.

Antes, com frio rizo me dizia: «E não sabias tu, que Amor receias, Que nos olhos de Marcia Amor vivia?»

_Sobre a Ingratidão de huma Dama._

SONETO XXXIII.

Coração, de que gemes, de que choras? Que parece tens odio á propria vida! Se perdeste teu bem, foi mão perdida, Com te pôr a morrer nada melhoras.

Eu bem sei­ que a belleza a quem adoras, Foi-te ingrata, e cruel, foi fementida; Mas que esperavas tu, se he lei sabida O mudar-se a Mulher todas as horas.

Socega, Coração, deixa a tristeza; Quem te mandou querer com fé tão pura, Quem te mandou mostrar tanta firmeza!

Erraste, tem paciencia, em fim procura Não fazer por Mulher jámais fineza, Acharás mais amor, maior ventura.

CANTIGAS

_Feitas nas Caldas com o Estribilho:_

_Negras tristezas, Adeos, adeos._

Não ha nas Caldas­ Melancolia, Dão alegria Os ares seus. _Negras tristezas, Adeos, adeos._

Sara-me a terra, E não as agoas: Não curão magoas Os banhos seus. _Negras &c._

Huns lindos olhos, Que o dia aclárão, Afugentárão Os males meus. _Negras &c._

Brandos­ sorrizos A furto dados Fazem dourados Os dias meus. _Negras &c._

Se entra nos banhos Marilia bella, Entra com ella O cego Deos. _Negras &c._

Alli tempéra Nas agoas puras As pontas duras Dos ferros seus. _Negras &c._

Enxuga as tranças Da Nynfa loura, E nellas doura Os farpões seus. _Negras &c._

Caldas ditosas Teu nome cresça, Alça a cabeça Até­ os Ceos. _Negras &c._

O pobre Anfriso, Que estas calçadas Deixou regadas Dos olhos seus, _Negras &c._

Hoje em triunfo De seus pezares Levanta altares De Gnido ao Deos. _Negras &c._

ENDECHAS.

No sacro Templo Que Amor habita Minha alma afflicta Fui immolar.

Na ruiva flamma Que silva ardendo A mão detendo Jurei-te amar.

Fumoso sangue, Mal findo o voto, Do peito roto Vi gotejar.

D'alma opprimida A insana pena Causou-lhe El­ena Que soube amar.

N­os fidos peitos O morto lume Negro Ciume Hia ateiar.

Vulcano féro Ante Mavorte O rival forte Não póde olhar.

Dos desprezados, Que soffrem tanto, O rouco pranto Feria o ar.

Aqui jaz Delio Terno, e vencido. Sem de Cupido Premio alcançar:

Que Dafne esquiva, Com triste agouro, Em verde louro Vio transformar.

Pan segue a Nynfa, Que tanto adora; Seu fado chora Vendo-a mudar.

De tenras cannas Amor lhe manda, Que a frauta branda Vá fabricar.

Cercada Dido De angustias fêas, Ah falso Eneas! Se ouve bradar.

Seus lindos olhos Frouxos erravão; Em vão buscavão O vago mar.

Subtís enredos De acerbo dano Bifronte engano Eu vi tramar.

Por Thisbe bella, Que busca errante, Pyramo amante Vai acabar.

Conhece a amada O infeliz erro, Ousa impio ferro Em si cravar.

Serve-lhe a terra De duro leito, Vê-s­e-lhe o peito Inda arquejar:

As pardas sombras; Que Amor mistura, Na Estyge escura Vão aportar:

Desenrugando A crespa fronte, Lédo Acheronte As foi buscar.

E eu combatido De mil pezares Vou pelos ares A suspirar.

Sei ser-te amante Sem premios vivo, Este o motivo Do meu penar.

Vês mil exemplos, E jámais pensas Que póde offensas Amor vingar.

Ah! sê piedosa: As­ cruas penas Torne serenas Teu brando olhar.

_Em dia dos annos do Illustrissimo Principal Almeida._

Por mais que esse sangue honrado Vos inspire os pondonores De merecer os louvores E não querer ser louvado, Este dia he consagrado A elogios soberanos: Sem vir enfeitar enganos Com mão venal, e fingida, Em contar a minha vida Louvarei os vossos annos.

Tecêrão-me em baixo estado A Fortuna, e a Natureza: Entre os­ braços da Pobreza Fui desde o berço lançado. Pelas vossas mãos alçado Quebrei da desgraça o fio:

Se da crua fome, e frio Livro o Pai­, livro os Irmãos, He obra das vossas mãos, E faz o vosso elogio.[7]

MOTE.

_Olhos de Lize, olhos bellos, Olhos para mim fataes, Que hum vosso girar sómente Me faz temer mil rivaes._

GLOZA.

Da alva Lize os brancos dentes, O rosto affavel, e brando, A boca, donde em fallando Ficamos todos pendentes, Nos lizos hombros patentes Soltos os longos cabellos Não são causa dos desvellos­, Nem das ancias em que vivo: Vós sois, vós sois o motivo, Olhos de Lize, olhos bellos.

Vós sois os meus vencedores, E sois gloria do vencido:­ De vós me atira Cupido Mil farpados passadores. Se vence o Deus dos Amores, Vós as armas lhe emprestais. Que ternos saudosos ais, Que pranto em vão derramado, Me não tendes vós custado, Olhos para mim fataes!

Se o rosto ao Ceo levantado Alçais as pestanas pretas, Logo de brilhantes setas Vejo todo o ar cruzado. Cupido, que tem jurado Crua guerra á humana gente, Das nuas costas pendente Dura aljava, e passadores, Fará conquistas menores Que hum vosso girar sómente.