Obras poéticas de Nicoláo Tolentino de Almeida, Tom. II

Part 4

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Nada faz cautella, ou medo N'alma que devéras ama; Esta turbulenta chamma Não sabe arder em segredo; Sobe ao rosto, ou tarde, ou sedo, Do escondido fogo o ardor; Basta a declarar a dor, Vãmente n'alma guardada, Huma palavra truncada, Hum certo mudar de côr.

Duro amor, que coração Saberá nunca occultar-te? Que vai fazer força, ou arte, Onde as tuas settas vão? Cegos Amantes, em vão O vivo fogo abafais; Esses descuidados ais, Que sem tino ao vento dáveis, São provas incontestaveis, São evidentes sinais.

De que serve estar fallando Sizudos, e comedidos, Se esses olhos insoffridos Vos estão sempre entregando? Alçados de quando em quando Vão dizendo a occulta dôr; Abaixallos, he peior; Que essas vistas contrafeitas Dão ás vezes mais suspeitas, De que o peito occulta amor.

_Mandando huma gallinha a huma Pretinha bonita, que gostava de brincar com ellas_.

As tuas fulas mãoszinhas, Que a fome já não descarna, E que de crearem sarna Passão a crear gallinhas; Acceitem creações minhas, Que eu a outros fins guardava; Senhora com côr de escrava, Alta estrella, que em ti brilha, Manda que se dê á Filha Aquillo que o Pai furtava.

CANTIGAS

_Feitas nas caldas com o Estribilho_.

_Olhos meus, cansados olhos, O vosso officio he chorar_.

Nas Caldas, nas tristes Caldas Alegria vim buscar; Quiz de noíte ver o Sol, Quiz achar fogo no mar. _Olhos meus, etc._

Que importa mudar de terra, E baldados passos dar, Se a toda a parte a que os volto Vai comigo o meu pezar. _Olhos meus, etc._

Vejo pálidos doentes Pela Copa passear, Oiço de antigas molestias Tristes effeitos contar. _Olhos meus, etc._

Vejo nas férvidas aguas Mirrados corpos banhar, E de balde aos surdos Ceos Convulsos braços alçar. _Olhos meus, etc._

Vejo de perdido pranto Tristes ais acompanhar, Com as lagrimas alhêas Vou as minhas misturar. _Olhos meus, etc._

Que importa ver Ninfas bellas, Se accrescentão meu pezar? Gostão de attrahir os olhos, E as almas tyrannlzar. _Olhos meus, etc._

Ao som de feridas cordas Dão doces vozes ao ar, Quaes enganozas Serêas, Que cantão para matar. _Olhos meus, etc._

Se o meu pobre coração Se deixa huma vez tocar, Com escarneos, com rizadas, Meu pranto vejo pagar. _Olhos meus, etc._

Fartai-vos, pois, olhos meus De lagrimas derramar; Vós nascestes para tristes, E escolhestes o lugar. _Olhos meus, etc._

_A hum Leigo, que era vesgo, e que nunca teve fastio; e a quem por acazo tocou na cabeça a ponta de hum espadim_.

Ferio sacrilega espada, Alçada por mão traidora, Cabeça, que sempre fôra Té aos Barbeiros vedada; D'entre a grenha profanada Corre o sangue á terra dura; Tosquiou-se a matadura; E o casco rebelde a ordens, Precizou destas desordens Para ter Prima Tonsura.

Feroz Soldado imprudente, Que nova espada esgrimio, Foi o ímpio que ferio Esta victima innocente; A quem do golpe insolente O motivo lhe procura, Diz que fez compra segura; Pois duvidozo na escolha, Quiz ver que tal era a folha, Cortando por coiza dura.

Homem de tenção damnada, Só tu conseguiste o fim De entrar o teu espadim Aonde não entra nada; Da repentina estocada Cahe o Padre desmaiado; Mas quando recuperado A ti os olhos volveo, Sabes o que te valeo? Foi teres já almoçado.

Todo o Mundo te pragueja, Porque em detestavel guerra Hias deitando por terra Esta columna da Igreja; Mas se triunfaste a inveja, E o Padre morresse então, Dize, ó ímpío coração, Que tanto em furor te atiças, Quem ajudaria ás Missas? Quem tocaria ao Sermão?

Quem nos daria a certeza De haver outro homem sizudo, Que pudesse comer tudo Ouanto se puzer na meza? Da próvida Natureza Quem havia as Leis seguir! Observante em digerir Qual outro havia saber Depois de acordar, comer, Depois de comer, dormir!

Que importa, ó cruel Soldado, Para desculpar teu erro Ter sido o teu ímpio ferro Já pela Patria arrancado? Que importa que em campo armado Junto a si Lippe te veja, Que importa que o Mundo seja Das tuas acções o abono, Se a mão que defende o Throno, Ataca depois a Igreja?

E tu, que segues os trilhos, Que S. Francisco te fez, E pões os teus gordos pés Sobre os seus santos ladrilhos; Pois que a seus devotos filhos Guarda no Ceo largas pagas, Nos olhos he bem que o tragas, E de modélo não mudes; E pois não he nas virtudes, Que o seja ao menos nas chagas.

_Estando o A. doente, e mandando pedir algum prato á meza, aonde jantava o sobredito Leigo_.

Hum estomago cansado, De cuja antiga ruina Tem sido cauzas iguaes A molestia, e a Medicina;

Que tendo em si dos tres Reinos As perigozas heranças, Só não bebeo das Boticas Os S. Migueis, e as balanças;

Hum estomago sem forcas, E ás leis geraes ínfiel, Que não trabalha em diamante, Como o de Fr. Manoel;

Que não tem, como este Padre, Tanta fome obediente; E olha já para a gallinha Como elle olha para a gente;

Para emendar semrazões, Que faz Arte, e Natureza, Vai, fugido das Boticas, Acoitar-se á vossa meza;

Mil vezes por outra cauza Teve a honra de bussalla; Indo então por matar fome, Vai hoje por despertalla;

Perdiz, ou branda vitella, São deste remedio o nome; Da vossa esplendida meza Seja elogio huma fome;

E porque o Padre o não saiba, Será a melhor cautella, Mandar tirar a iguaria Quando elle olhar para ella.

_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez, de Ponte de Lima, Ministro de Estado, pedindo-lhe o A. licença para ir ao remedio de banhos, na occazião em que o mesmo Senhor se tinha encarregado de lhe promever a mercê de se imprimirem as suas Obras na Officina Regia_.

CARTA.

Senhor, entreguei meu livro; Foi esse filho mesquinho Co'a esteril benção do Pai Lançar-se aos pés do Padrinho;

Dei-lhe em dote inuteis rimas, Dei-lhe vazio thezoiro; Mas vossas mãos milagrozas Convertem nadas em oiro;

Do mal fadado Parnazo Quebrareis o injusto encanto; Nem sempre seus verdes loiros Serão regados com pranto;

Impertinentes crédores Largar-me-hão em fim a rua; O meu cégo abrindo a bocca Lhes ha de fechar a sua;

Até apertados genios Sem vontade comprarão; Farão focinho á Poezia, E obzequios á Protecçao;

Mas, Senhor, de livro basta; He ínsulto ás mãos em que anda Passar de ser o meu livro A ser a minha demanda;

Foi esse meu rogo ouvido; Deixai que para outro mude; Tem objecto inda mais alto, He mais do que oiro, he saude;

Contra o mal que me tem feito Raivozos Caniculares Me off-rece a fresca Ericeira Seus claros, sádios mares;

Sei que nestas ondas bravas O banho hum risco teria; Posso começallo alli, E ir acaballo á Bahia;

Bramindo na vasta praia Enrolada vaga forte, Dentro do pérfido seio Me traz a saûde, e a morte;

Mas com protector penedo, E cauto Marujo amigo, O impune, tónico susto, Tórna em remedio o perigo;

Falta só licença vossa, E juro, Senhor, que vem; Como podeis Vós negalla, Se sabeis que ella he hum bem?

He o Pindo o meu thezoiro, O Oceâno he meu Jordão; D'ambos recebo mil bens, Mas todos por vossa mão;

Eu a beijo; ella receba Gratidão devida, e pura Em tributo que lhe paga O Creado, e a Creatura.[26]

[Nota de rodapé 26: Tinha nomeado o A. Official da Secretaria.]

_Ao Excellentissimo Senhor D. Lourenço de Lima, tendo promettido ao A. que quando chegasse das Caldas, havia lembrar a mercê de se imprimirem estas Obras_.

CARTA.

Ora do cume dos Montes, Ora em suas verdes fraldas, Hia estender os meus olhos Na longa estrada das Caldas;

Sobre escumozos cavallos Trotando empoada sege, Disse quem fez os meus versos =Ahi vem quem os protege;=

Alçando-me, hia a dizer-vos =Senhor, chegou o meu prazo; Honrastes hoje outros Montes, Honrai agora o Parnazo;

Promettestes fazer ferteis Seus estereis Mirto, e Loiro; Promettestes que a Hypocrene Levaria arêas de oiro;

Sua clara, inutil vêa Réga chão, que não se lavra; Vinde fazello fecundo, Vinde cumprir-me a palavra.=

Mas, Senhor, não éreis Vós; Era hum Casquilho, e do Povo; Tornei a pegar nas Contas, Tomei a esperar de novo;

Mil votos ao Céo mandava Este humilde orador fraco, Que vos não vissem Carreiros,[27] Nem os ladrões do Tabaco;[28]

[Nota de rodapé 27: Allude ás Decimas da Enchára.]

[Nota de rodapé 28: Furto célebre feito naquella estrada.]

Então carrancuda Noite Me enxotou co'as negras azas; E em honra dos taes Amigos Vim como Gato por brazas;

Sei, em fim, que já chegastes Chamou por Vós minha dôr, Venha o Illustre Conselheiro Honrar-se em Procurador;

Fazer bem, he mór grandeza; Deo-vos, tambem esta, o Pai; Vós ambos d'entre os meus loiros Cruas silvas arrancai;

Com piedoza Geografia As Paternas mãos benignas, Emendando ingratos Mappas, Ponhão o Pindo nas Minas;

O Impressor gosta de Versos; Quer que os meus públicos andem; Mas he hum tanto acanhado, Não imprime sem que o mandem;

Elle perdoa o contagio; Pegai-lhe a minha doença; Só deixarei de gemer Em gemendo a sua Imprensa;

Assigne, pois, meu Avizo, Pia, obedecida mão; Mas não cuideis que com isso Dais férias á protecção;

O mais ávido Leitor, Das Quintilhas pregoeiro, Ha de achallas insoffriveis Em lhe custando dinheiro;

E só em nojoza Tenda De Braguez Chatim mesquinho Terão sahida os meus Versos, Embrulhando o seu toicinho;

Só rapazes acharão Minha Muza doce, e meiga; Não porque tenha Poezia, Mas porque teve manteiga;

Mettei, pois, Senhor, em brios Ricos peitos avarentos; Dizei, que comprem partidas, Que he honra honrar os talentos;

Que serão, comigo, eternos Se me evitarem o mal De ir ao Templo da Memoria Pela porta do Hospital;

E então da escondida burra Ouvirá a surda aldraba Não as vozes da Poezia, Mas a voz de quem lha gaba;

Indo abrindo, juraráõ A duas Artes odio, e medo; A' da Guerra, em alta voz; A' da Poezia, em segredo.

Entretanto ao digno Pai Pedi que me faça Author; Sejão públicos no Mundo Meus versos, e o seu favor;

De Limas na honroza historia Não serão titulos falsos Fazer que as augustas Artes Não marchem cos'pés descalços;

E Vós, firme Protector, Fazei que por taes favores Vamos beijar-vos a Mão, Eu, e os meus dois mil Credores.

_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde dos Arcos, sobre o mesmo assumpto_.

CARTA.

Bateu aos vossos Portaes Hum morador do outro Pólo;[29] Veio ao Templo de Minerva Dar hum recado de Apollo;

[Nota de rodapé 29: Morava muito distante.]

Vós sois dos seus obrigados, Bebeis seu licôr divino; Manda que lembreis na Roza[30] O esquecido Tolentino;

[Nota de rodapé 30: Sitio, aonde morava o Ministro de Estado respectivo.]

Sei que alli meu pobre livro Altos Protectores tem; Mas agora só se falla Nesta magica _Dutein_;[31]

[Nota de rodapé 31: Dançarina célebre.]

Apollo não troca as Artes; Mas vendo a Artifice, infia; Recêa que com taes braços A Dança affaste a Poezia;

Tambem sois réo; mas bem póde A Mágia dos passos seus Encantar os vossos olhos, Sem fazer chorar os meus.

_Ao Excellentissimo Senhor D. Fernando de Lima, sobre o mesmo assumpto_.

CARTA.

Forte co'a vossa promessa Dura voz se vai alçar; Não vem como das mais vezes, Não vem pedir, vem ralhar;

Não he de esteril rabugem Raiva inutil, que em mim lavra; Venho brigar, e vencer-vos, Minha arma he vossa palavra;

São Leis os priscos rifões; Na mão a Lei me mettestes; Sei que a ricos não deveis, Mas a pobre promettestes;

Promettestes, que huma Imprensa Faria hum faminto farto; Meu livro, e as vossas promessas Inda estão no vosso Quarto;

Sei que a vossa Illustre Caza He das que honrão Portugal; Mas eu quero outra melhor, Quero a Caza Manescal;[32]

[Nota de rodapé 32: Administrador da Imprensa Regia.]

Reis de Hespanha a vossa honrárão, E eu espero o mesmo delle; Fizerão-vos _Ricos Homens_, O mesmo me fará elle;

Vós sois Protector das Artes, E dahi meu mal viria; Talvez que pela da Dança Vos esqueça a da _Poezia_;

Por _Dutein_ esquece tudo; Estes grupos tão gabados, Não digo que são os vossos, Porém são os meus peccados;

As tres Graças a fadárão, Mas seus dons funestos são; Tira ás Deozas a maçã,[33] E a hum triste Poeta o pão;

[Nota de rodapé 33: Fazia a figura de Venus na Pantomima, em que se reprezentava a fabula de Páris, julgando-lhe o pomo de oiro, destinado á mais formoza.]

Se a vosso Pai vou queixar-me, Juro que acceita a querella; Juro, que vos quer os olhos Antes em mim, do que nella;

Mas, Senhor, deixando graças De poetica licença, Este brinco quer dizer Que apresseis a tal Imprensa;

Até por curiozidade Forjai-me este mialheiro; Só para vermos que effeito Faz em mim o ter dinheiro;

Talvez que altiva luneta Nos piscos olhos traidores Não conheça huns tantos homens, Principalmente os Crédores;

Talvez que o novel Gallego, Que soltas bragas trazia, Entaipado em pantalonas Dê ao Amo senhoria;

Talvez que inventando heranças Bisneto de grão Senhor, A falso espectro agradeça O que devo ao Protector;

Senhor, se o oiro tal póde; Levantai da empreza a mão; Antes réo do meu tendeiro, Do que réo de ingratidão

Mas inda agora he que eu vejo, Quanto me fui desmentindo; Disse que vinha ralhar, Por fim acho-me pedindo;

Não pude acabar a farça; Costume custa a vencer; Comvosco a minha linguagem He pedir, e agradecer.

_A' Illustrissima, e Excelentissima Senhora Dona Catharina Micaella de Souza, tendo o Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Luiz Pinto de Souza expedido Avizo para se imprimirem as Obras do Author na Officina Regia_.

CARTA.

Senhora, Apollo bem sabe Que sois digna companhia De quem em doirados annos Lhe honrava a doce Poezia;

Inda de viçozo loiro Lhe guarda a verde coroa; Fez-lhe falta em sua Corte, Mas a bem de outra o perdoa;

Manda, pois lhe estais ao lado, Canteis polidos louvores A quem em honra ao Parnazo Fez versos, e faz favores;

Vio o prazer generozo Com que acabou a tenção, Que crua Parca arrancára De outra bemfeitora Mão;[34]

[Nota de rodapé 34: O Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Ponte de Lima, Ministro de Estado, tinha obtido a mercê de se imprimirem estes Versos a beneficio do A. cujo Avizo não chegou a assignar por seu repentino falecimento.]

Vio, que apressou seus negocios Perante quem todos rege; E que amigo do seu Monte, Ora o sóbe, ora o protege;

Grato ao grande beneficio Vos envia o estilo, e a lyra; Manda-vos cantar-lhe os hymnos, Que lhe traja, e vos inspira;

Diz que esta empreza vos toca, E que não admitte escuzas; Que favor feito ao Parnazo Hão de agradecello as Muzas;

Pulsai a lyra, enfreai Bravos ventos rugidores; Cantai agradecimentos A quem cantastes amores;

Em má honra a longas cans Desta empreza escuzo fico; Fechou-me Apollo a sua Arte, E quer que aprenda a de rico;

Dura, enganoza sciencia! Incómmoda, tumultuaria! Muito mais a quem andou Sempre na escóla contraria;

Já em socegado somno Não vejo doces ficções; Inda a obra está na Imprensa E já sonho com ladrões;

Sonho, que escalada a porta, Medonhas caras sem dó, Vem furtar a Tolentino O que elle furta a _Boileau_;

Co'esse metal turbulento Já d'antemão me malquisto; Que me não fará a posse, Se a esperança já faz isto?

Sei quem poz a ultima força Ao punhal, de que me dôo; Mas, em fim, nada de raivas, Dizei-lhe que eu lhe perdôo;

E que he tal nesta virtude Meu conforme coração, Que não só perdoo o mal, Mas beijo por elle a Mão.

_Offerecendo alguns dos Versos, que vão neste Livro ao lllustrissimo, Excellentissimo Senhor Marquez de Angeja, Ministro de Estado, perante o qual se pertendeo desabonar a Poezia, e os Poetas_.

ILL.^MO E EXC.^MO SENHOR.

V. Excellencia se digne de não julgar atrevimento ir eu aprezentar hum Livro de inuteis Versos naquellas mesmas mãos, em que se apresentão Papeis, que decidem dos interesses do Estado, e dos destinos dos homens. A Poezia, Senhor, só he odioza a quem nella não he instruido. V. Excellencia sabe a origem, e os progressos desta Arte divina; sabe que de seu berço foi consagrada ao uzo da Religião, e da Politica; que por meio della o homem natural, que nutria vagamente entre fragas, e penedîas hum coração tão contrario ao do homem civil, conheceo a humanidade, e tomou sobre seus hombros o jugo da Razão, e da Justiça.

Que os primeiros Legisladores escrevião as Leis em verso, para que a harmonia lhes aplanasse, ou encubrisse aquelles passos escabrozos, que ferem, e revoltão a nossa natureza, sempre amiga da liberdade; que os Filosofos, e Sacerdotes do Egypto ensinavão em Poezia os seus Dogmas; que os bons tempos dos Gregos, modélo dos Seculos de Augusto, e de Luiz XIV, ao mesmo passo que se alargavão os limites do seu Imperio, vírão levadas á ultima perfeição, de que são capazes as obras dos homens, a Lirica, a Epica, e a Poezia de theatro.

V. Excellencia sabe, que os Poetas de Augusto, mais do que as Victorias de Farsalia, fizerão chamar-se o seu seculo, o seculo de Oiro: que a passagem do Rheno, e a conquista da Hollanda jazerião no esquecimento, com o nome de Luiz XIV, se Corneille, e os que o seguírão, não mandassem ás extremidades do Mundo a fama de suas Victorias; que ainda hoje a França conta, com prazer, entre as acções daquelle Monarca, a protecção, e acolhimento, que achárão ante elle as Artes, principalmente a da Poezia; e que as ultimas palavras do grande Corneille moribundo, forão agradecimentos ás liberalidades de Luiz XIV.

V. Excellencia sabe, que a Augusta Theologia da Escritura nos instrue muitas vezes dos Attributos de Deos por imagens inteiramente poeticas; que os Profetas, unindo maravilhosamente o simples ao sublime, fallão da existencia, e da Omnipotencia de Deos, com a locução, e com as figuras da mais alta Poezia.

Mas, SENHOR, eu insensivelmente vou fazendo de huma Dedicatoria huma Dissertação. V. Excellencia se digne attribuir este erro de methodo á desordem de animo, em que me põe a ingrata sem-razão de ver os Poetas desfavorecidos de alguns homens, talvez sem mais crime, que serem favorecidos das Muzas.

V. Excellencia, em cuja alma raia a razão illustrada, limpa das sombras do abuzo, não faz cahir sobre o Poeta os defeitos, que são do homem: a inconstancia de genio, o desconcerto das acções, a filozofia mal entendida, que caminha a passo cheio á devassidão de costumes, são os crimes de que o vulgo errado accuza indifferentemente todos os Poetas; mas se vemos que estas más qualidades brotão no coração de tantos homens, que não são Poetas, para que hão de elles sós levar o ferrete, que a Natureza corrupta põe indistinctamente sobre todos os que não deixão guiar-se da Religião, e da honra? Sempre houve Poetas, bem, e mal morigerados, assim como o resto dos outros homens: e porque lei barbara ha de pagar a Poezia as fraquezas da humanidade? Porque falsa Logica havemos inferir, que o commercio das Muzas, a suave lição dos Antigos, em que vemos pintada a Natureza, e explicada docemente a boa filozofia, ha de affogar no coração do Poeta as virtudes, que a índole, ou a educação talvez alli plantárão?

V. Excellencia julga mais rectamente; sabe, que em todos os ramos da vida Christã, e Civil tem havido Poetas, que hum talento não exclue os outros; que Richilieu fazia Versos, e foi grande Ministro; que entre os Poetas, como entre todos os mais homens, huns são venturozos, outros desgraçados; huns chamados aos grandes Empregos, ontros inteiramente esquecidos; que se houve hum Camões, e hum Bernardes, cuja memoria posthuma foi a unica paga do seu merecimento; tambem, houve hum Sá e Menezes levantado a Camareiro Mór dos Senhores Reis D. João o III, e D. Sebastião; hum Pedro de Andrade Caminha, Camareiro Mór do Infante D. Duarte; hum Garcia de Rezende muito estimado do Senhor D. João o II; hum Sá de Miranda feito Commendador pelo Senhor D. João o III; e para não fazer hum catalogo quazi infinito, houve o grande Ferreira, e Gabriel Pereira de Castro, os quaes, cada hum no gosto do seu Seculo, misturando Bartholo, e Accureio com Homero, e com Virgilio, forão tão estimados pelos Versos, que fazião no seu gabinete, como pelas Sentenças que lançárão nos diversos Tribunaes a que forão promovidos.

O conhecimento da Historia Portugueza, huma das lições, que recreão o espirito de V. Excellencia, talvez concorra junto com o gosto, que tem pelas Artes, a que, seguindo o exemplo de tantos Reis, se não despreze de ouvir os Poetas: eu sou huma prova viva de que V. Excellencia os ouve, e os protege: nos tempos da antiga Roma Augusto fazia o mesmo, nos tempos da moderna, lemos, que Benedicto XIV. não se envergonhou de fazer a apologia aos Versos de hum Poeta Francez com aquella mesma mão, de que pendião as Chaves do Ceo.

Esta justiça, e bom acolhimento, que V. Excellencia faz á Poezia, foi quem me esforçou a pôr nas respeitaveis mãos de V. Excellencia hum Livro de Versos; o terem alguns agradado a V. Excellencia, faz o seu unico merecimento: hum tal voto fez com que eu julgasse bem delles, e os levantasse á grande honra de serem offerecidos a V. Excellencia. Não me acovardão alguns assumptos joviaes, que nelles trato; V. Excellencia sabe, que se a Tragedia castiga os costumes pelos grandes afectos da compaixão, e do terror, tambem a Sátyra os castiga pelo meio do rizo; e este trabalho de minha penna, com que eu entretinha os meus cançados dias, passará a ser o mais feliz, se tiver a fortuna de divertir alguns instantes a V. Excellencia, para que com mais força torne depois a metter mão nos importantes Negocios, de que os Reis, prevenindo os dezejos do Público, se dignárão encarregar a V. Excellencia: isto dezeja, Senhor

DE V. Excellencia

O Criado mais humilde, e mais venerador.

_Ao mesmo Senhor no dia dos seus Annos_.

ILL.^MO E EXC.^MO SENHOR.

Os louvores nem sempre são filhos da lizonja, nem sempre são a linguagem baixa, em que os infelices fazem o seu commercio com os Poderozos; quando assentão em merecimento sólido, são huma paga devida ás Virtudes; o Ceo as dá; os Reis devem-lhe os premios; os outros homens os louvores.

Hoje, Ill.^mo e Exc.^mo Senhor, nos apontão os Fastos de Portugal o feliz Nascimento de V. Excellencia; o costume consagra com Elogios estes dias solemnes; a Patria recompensa assim os Annos, que a ella se derão; e se em hum dia destinado aos obsequios, eu fosse hum méro espectador, hum assistente ociozo, o silencio, tantas vezes virtude, seria agora hum crime, seria huma prova da minha ingratidão.

A força do agradecimento, e a abundancia, da materia me porião na boca huma torrente de louvores; mas V. Excellencia põe tanto cuidado em merecellos, como em não querer ouvillos; temo a sua modestia; e huma virtude de V. Excellencia me não deixa fallar-lhe nas outras; porém ao menos seja-me permittido, que a minha alma se encha de complacencia, lembrando-se de que tres Reis elogiárão a V. Excellencia, chamando-o a grandes coizas; não quizerão que estes talentos jazessem debaixo da terra; sobre ella, e sobre os mares os fizerão luzir.

Na flor dos annos, quando as paixões, os exemplos, a natureza abrem guerra viva ao coração do homem, então vio a severa Magestade do Senhor Rei D. João o V, que V. Excellencia tão moço nos annos, era já ancião no conselho, e nos costumes, queria o seu voto nos Tribunaes, e o seu braço nas Armadas, negros ventos, mares cavados, ferro, sangue, erão os leitos brandos, em que V. Excellencia hia descançar das honrozas fadigas da terra.

Que direi do Augusto, Piedozo, e ainda de fresco banhado das nossas lagrimas, o Senhor Rei D. Jozé o I.? O merecimento, junto com a semelhança dos genios, e de idades, puzerão sempre a V. Excellencia ao lado daquelle Monarca; mandou-lhe que acceitasse novos, e importantes Empregos; recebeo mil provas do seu poder, e da sua familiaridade, e entre ellas aquella, que V. Excellencia não disse, mas que todos sabem; aquella de que V. Excellencia nunca poderá lembrar-se sem dôr, e sem gloria.

Os Benignos, e Amaveis Soberanos, que vemos sobre o Throno, puzerão o Sêllo na Obra, que seus Augustos Predecessores tinhão começado; encarregárão a V. Excellencia dos mais importantes Negocios do Estado: a madureza nos conselhos, o sevéro espirito de inteireza, os Reis, a Lei, a utilidade pública, são os objectos, que vírão sempre na frente dos cuidados de V. Excellencia.