Obras poéticas de Nicoláo Tolentino de Almeida, Tom. II
Part 3
Que, insensivel, vi no Circo Burlesco Neto arrastado Deixar co'a rôta cabeça O terreno ensanguentado;
Que vejo com olhos seccos, Com firme semblante inteiro, Fugir-me n'um parolim O meu ultimo dinheiro;
Que em mim, digo, arranca pranto; Que amolga hum peito de seixo; Que muita vez co'chapeo Encubro o trêmulo queixo;
Que quando dos tenros Filhos Chorava o triste destino, Tinha este peito de bronze O coração de Sabino;
Este homem, que solto o panno, Vivas vem á força ouvir; Se cantar de hoje a déz lustros, Em vez de chorar, faz rir;
Sobre os levantados áres A envergonhada Harmonia, Batendo apressadas azas, Do seu Filho fugiria;
E o Jeronymo estendido[11] Co'as pernas nos tamboretes, Cabeceára entre as rimas Dos ociozos bilhetes;
[Nota de rodapé 11: O Vendedor dos bilhetes.]
E cuidavas tu, que a foice Que a taes dons ha de pôr fim, Que ha de ferir Crescentini, Me tinha poupado a mim?
Se eu hoje fosse aos Oiteiros, Onde já tive elogios, Dir-me-hião crueis verdades Mil sinceros assobios;
Este Genio dos Poetas He fugitivo, e mesquinho; A' primeira cam nos deixa Na ametade do caminho;
Não he irmão do teu Genio, Este estende mão segura; Acompanha os seus Valídos A' borda da sepultura;
Fará que sempre as desgraças Em tristes peitos emendes; Que sigas sempre os exemplos, Que dentro de caza aprendes;
Lastima, pois, minhas rugas, Que até me cauzão o mal De faltar ao teu preceito, E a louvar hum homem tal;
Mas vasto, cheio Theatro, Que elle encalma em tempo frio, Falla melhor, que dez Odes, He mais util elogio;
E nelle estas velhas mãos Co'as forças que nascem d'alma, Darão, em lugar de Versos Muito pinto[12], e muito palma.
[Nota de rodapé 12: Cruzado novo.]
CARTA
_A huma Senhora, que em bons Versos pedio ao A. a Sátyra do Velho_.
Senhora, o Quadro pedido Não estava retocado, Mas brevemente o remetto, Deixai isto ao meu cuidado;
Mostra os erros da velhice; Põe alguns Velhos á raza; Custou-me pouco a pintura, Por ter as tintas de caza;
Que já hum Amigo o vio, Eu, Senhora, vos confesso, Porém mostrei-lho inda em calva Como eu tambem lhe appareço
Vós sois de mais ceremonia, E pezais com mais rigor; Temi, que sem rir c'os Versos, Só vos vissem rir do Author;
Tómo outra vez o pincel, Vou-lhe pôr attenta mão; Abençoarei meu trabalho, Se lhe derdes protecção;
Pois que a deve o sangue illustre, Tem dois direitos meu cazo; Porque a peço a huma Fidalga, Que o he tambem no Parnazo;
De tão alto voto espero, Que geral favor me traga A huns Versos, que antes de lidos Tiverão tamanha paga.
Ao favor de mos pedirdes, Honra, que eu não merecia, Ajuntastes o thezoiro De mos pedir em Poezia;
Que fáceis, que amenos Versos! Trazem das Muzas o bafo; A moral os faz ser vossos, Que quanto ao mais são de Sapho;
Só na pintura dos annos Errou essa mestra mão; Porque inda que era em Poezia, Foi puchar muito a ficção;
A doce, igual harmonia, A imaginação fogoza, Depuzerão contra vós, E vos chamão mentiroza.
Se occulto, fyzico acazo Branqueou huns fios de oiro, Vosso vingador Apollo Os cobre de mirto, e loiro;
Quem marcha ao lado das Graças, Não sabe o que he fria idade; Deixai-me dizer a mim Essa funesta verdade;
He em mim que o voraz Tempo Já empolgou a mão forte; Se inda me mêcho em Poezia, He já co'a ansia da morte;
Cedo raivozos Crédores, A quem não curei as chagas, Darão a meus frios ossos, Em lugar de pranto, pragas;
E outros, a que a carapuça Mesmo, sem mira, não erra, Dirão com gosto ao Coveiro =Enche-lhe a boca de terra.=
Mas tudo perdoaráõ Minhas sepultadas cans, Se de cypreste as cobrirdes Vós, e as vossas oito Irmans.
CARTA.
A ti, amavel Bandeira, Partidista da Verdade, E de quem tenho mil provas, Que o és tambem da Amizade:
Que são Filozofo vives, E o mesmo morrer protestas, A' excepção de me dares Bilhete de boas festas:
Tolentino firme amigo Inda quando o Mundo caia, E a quem obrigas a sêllo Desde a rua da Atalaia,[13]
[Nota de rodapé 13: Onde tinhão morado havia muitos annos.]
Dezeja pura alegria, Saûde, e muito vintem; Dezeja-te tudo aquillo, Que elle quasi nunca tem;
Pois, que chuva, e negros ventos Me fechão a porta, e o dia, E em caza apontão cuidados, Redobrada bateria;
Pois que a horrivel solidão Aviva a idéa cruel Da gaveta, vão sepulchro Do agonizante quartel.
E a engenhoza Hypocondria Me mette no antigo empenho De jurar, que estou morrendo Das molestias, que não tenho,
Vou ver se posso esquivar-me A tanto mortal immigo, Acolhendo-me ás lembranças Do nosso bom tempo antigo;
Tem a sôlta fantazia Farto, milagrozo armario; Cura-me penas reaes Com prazer imaginario;
O nosso bom tempo antigo! Quando alçando a tôrva fronte Jantava Quintiliano A' meza de Anacreonte;
Quando nos brilhantes copos Do casto, herdado Gorizos,[14] Hião mergulhar as azas Os Prazeres com os Rizos;
[Nota de rodapé 14: Nome de huma Quinta do Amigo, a quem o A. escreve, a qual produz bom vinho.]
Quando em renhidas disputas Mettias traidora mão, Sendo o motivo da guerra Solapada mangação.
E sem haver lindos olhos, Sem haver ondadas tranças, Doidos com doidos tecião Turbulentas contradanças.
Quando o assustado Ministro, Que as margens do Doiro trilha, Pôde salvar da procella A sua estimavel bilha.
Clama em vão por tão bom tempo Minha discreta saudade; Doce, fugitivo tempo, Da nossa doirada idade!
Ante meus olhos sâudozos Cruas azas despregou; E em cambio de tantos bens, Cans, e rugas me deixou.
Só tu podes, caro Amigo, Virar-lhe o vôo apressado; E fazer que elle me traga Outra vez o meu reinado:
Não peço bruxos prestigios, Basta ouvires meu alvitre, Põe a rua da Atalaia Na Calçada do Salitre;[15]
[Nota de rodapé 15: O A. jantava muitas vezes na rua da Atalaia em casa do Amigo, a quem escreve, o qual se mudou para o Salitre.]
Prepara farta vingança A meus compridos jejuns; Lança, em nome da Amizade, Mais nozes aos teus peruns;
Lance fumo a faca tinta Nas victimas degolladas; Revôem pelo quintal As pennas ensanguentadas;
Tornem a dar os teus lares Guarida á minha desgraça; Tornem a ter teus amigos Polido Isidro de graça;[16]
[Nota de rodapé 16: Caza de Pasto.]
Vai na franca, lauta meza, Versos ouvindo, e tecendo; Entre as Muzas, entre as Graças Vai, a rir, empobrecendo;
Correntes do Doiro, e Rheno Escaldem meu Estro fraco; Abrão-me o Templo de Apóllo Atrevidas mãos de Baco;
Sólte o rozado Taful A falsa eloquencia sua; E marche pelas Sciencias Como marcha pela rua;[17]
[Nota de rodapé 17: Cóxeava.]
He alma das Companhias, Alegres mezas governa; Depois de estar assentado, Não conheço melhor perna;
Tomando amolada faca Teu sizudo Capitão, Nos demonstre, sobre hum lombo, A guerra do Rossilhão;
Aliza assim, caro Amigo, Meu velho, engelhado coiro; Manda ás Parcas, que o meu fio, Já que he curto, seja de oiro.
Dá brando ouvido a meus rogos; Teu bom peito em bem os tome; Não te falla vil lizonja, Falla-te a Amizade, e a fome:
E tu, dia tormentozo, Que abalas velhas trapeiras, Que o telhado me arripias, Que me ensopas as esteiras;
Que em meus reumaticos ossos Assentas pezado açoite; E sobre medonhas nuvens, Me mandas de tarde a noite;
Serás o dia mais alvo, Que em meus largos annos levo, Se for acceita esta Carta, Que á tua má luz escrevo;
Chamarei Zéfiros brandos A teus roucos ventos frios, Se hoje rezolve o Bandeira Dar de comer a vádios.
CARTA
_A hum Camarista_.
N'uma infeliz madrugada, Antes que o Sol esclareça, Mettido em pobre caleça, Puz peito, Senhor, á estrada: Sahi em hora mingoada, Pois negra traição me espera; Homens, com genios de féra, Me atacárão sem motivo; Por milagre fiquei vivo, E devo pezar-me a cêra.
Vi revoltozos Carreiros Com duro aguilháo armados; Vi nuvens de páos alçados Pelos cumes dos oiteiros: Roldão, e o bravo Oliveiros, Que alta pena Heróes declara, Talvez voltassem a cara, Que a tantos tremer fazia, Se nos campos da Turquia Vissem Carreiros da Enxara.
Vi os Campos inundados De gentes vagas, e incertas; Vi as estradas cobertas De cacheiras, e cajados: Não valem rogos, nem brados, Não valem ligeiras pernas; A raiva, e o Deos das Tavernas Accendêo tanto os Campinos, Que cuidei que os meus Meninos Terião férias eternas.[18]
[Nota de rodapé 18: O A. era Professor de Rhetorica, e pertendia passar para outro emprego.]
Em quanto no duro chão Meu Companheiro arquejava, Eu muito humilde esperava Tambem a minha ração; Bem me lembrou que esta acção Deslustrava a minha gloria; Mas não pertende vitoria, Nem sabe mover espada Mão, ha annos, costumada A dar só com palmatoria.
Entre mortaes agonias, Da bruta gente escapando, Me fui na sege encaixando, Maldizendo as romarias; Praguejei meus negros dias, Dias de pranto, e de dor; Conheci então, Senhor, Que só me dão meus destinos, Ou Carreiros, ou Meninos, Que Deos sabe o que he peior.
Mas a perda da vitoria Sirva de abrandar meus fados; Dem-vos motivo os Cajados De fallar na Palmatoria; Saiba o Principe esta historia; Contai-lha com viva côr; Fazei com que, em meu favor, Sentindo affectos diversos, Lhe motivem rizo os Versos, E lhe faça dó, o Author.
CARTA
_A hum Camarista, tendo o A. sido despachado_.
A rara benignidade, Que quiz o Ceo conceder-vos, Permitta que de escrever-vos, Tome eu hoje a liberdade; Pois tendes tanta bondade, Peço, nella confiado, Que por mim ajoelhado, E na bocca o coração, Beijeis ao Principe a mão, E lhe deis este recado.
=Dizei, pois, a Sua Alteza, Que eu, seu humilde Afilhado, Por elle ha pouco arrancado D'entre os braços da pobreza, Na simples, mas farta meza, Entre os Irmãos, e os Parentes, Aos Ceos, com votos ardentes, Pedimos, que em paga justa, Prosperem a Mão Augusta, Que nos faz viver contentes:
E se entre as puras verdades, Que Vós lhe podeis contar, Virdes, que terão lugar Algumas jovialidades, Pintai-lhe as felicidades, Que vai tendo a gente minha; Dizei-lhe que na Cozinha Ardem já montões de brazas; Que em todas as minhas cazas, Era a mais fresca, que eu tinha;
Que os enroupados Sobrinhos, Affrontando o vento frio, Vem todos mostrar ao Tio Os seus novos jozésinhos; Que então lhes conto, e aos vizinhos, Por quem a roupa foi dada; Que Mão, nunca assás louvada, Mão Real, piedoza, e justa, Me poz livre a Rua Augusta,[19] Por varios crimes vedada;
[Nota de rodapé 19: Aonde se vende panno.]
Que hum Tendeiro, que os seus bens Me fiava, dando arrancos, Veio em barrete, e támancos Dar-me logo os parabens; Espera que os meus vintens O fação tambem feliz; Porque, segundo elle diz, Ha de haver na sua Tenda Mais sahida na fazenda, E menos gasto no giz.[20]
[Nota de rodapé 20: Costumão marcar com giz o que dão fiado.]
Mas eu hum crime cometto, Quando de ensinar-vos trato; Quiz ser ao Principe grato, Mas fui comvosco indiscreto; Homem, como Vós, discreto Não preciza formulario; A Egoa do Seminario[21] Me deve os rompões cravar, Por eu querer ensinar O Padre nosso ao Vigario.
[Nota de rodapé 21: Tinha alluzão particular.]
_A' Illustrissima, Excellentissima Senhora D. Catharina Micaella de Souza, tendo feito a honra ao A. de lhe offerecer huma Vestia de Setim; e pedindo-lhe este que lembrasse o Requerimento, em que seu Irmão pertendia o Governo de hum Forte_.
Minha respeitoza mão De seus limites não sai; A escritura, que aqui vai, Não he carta, he Petição; Até ante os Thronos vão Vozes em papel incluzas; As minhas não vão confuzas; São memorial mui claro; Sou Poeta, dai-me amparo, He obrigação das Muzas.
Não peço hoje para mim; Bem cuberto anda meu peito; Inda beijo, inda respeito Huma Vestia de Setim. Triste Irmão tem já no fim Farda rôta, e chamuscada; Tem má côr, e he mal fadada; Quer que a mão piedoza, e franca, Que a mim me deo Vestia branca, Lhe dê Cazaca encarnada.
_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde, hoje Marquez de Angeja_.
Em sege estreita entaipados, Sol á ilharga, Sol por cima, Vinha eu, e o Padre Lima Cheios de pó, e encalmados. Eis-que na estrada atacados,
Párão as mulas baratas; Cuidei eu que erão Piratas, Que tirão vida, e dinheiro, Fui ver se era o Clavineiro, E achei duas Açafatas.
Trazião a arma mais dura, Que nos peitos se tem posto, Trazião ambas no rosto O respeito, e a formozura. Querem sege mais segura, Porque a sua está quebrada; E em quanto o Padre na estrada Lhe diz palavras pompozas, As minhas mãos respeitozas Lhe affoufavão a almofada.
Trabalho infeliz fizerão, Porque meus Fados são tais, Que acceitando tudo o mais, A almofada não quizerão.[22] Debaixo dos pés puzerão
[Nota de rodapé 22: Por cauza dos toucados altos.]
Minha obra desprezada Senhor, não fazemos nada, Tomar vãos trabalhos oizas, Tem todas as minhas coízas O destino da almofada.
_No dia dos annos da Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde, hoje Marquez de Angeja, em cuja caza o Author jantou_.
Senhor, talvez neste dia Já cantei Versos polidos; Porém em tectos cahidos Não mora o Deos da Poezia. Voou; e da testa fria Me tirou o verde loiro, E das mãos a Lyra de oiro; Tudo em fim se foi co'a bréca; Mas se a Aganippe se séca, Não se ha de secar o Doiro.
Embora no velho caco Murche o cansado miôlo; Se os loiros lhe tira Apollo, Com parras o adorna Baccho; Põe mira meu peito fraco Nos vossos puros almudes; E em honra de mil virtudes, De mil talentos diversos, Em vez de fazer dois Versos, Farei duas mil saûdes.
_Sahindo por sortes Compadre de huma Senhora da primeira Grandeza_.
Devo pouco á Natureza, E muito a hum brinco innocente; Porque elle me faz parente Da mais distinta Nobreza. Embora esquiva riqueza Pretas fortes me não mande; Qne importa que ha annos ande Sempre a perder nas menores, Se nas dos premios maiores Me sahio o premio grande.
_Fazendo annos o Illustrissimo, e Excelentissimo Senhor Marquez de Angeja, Tenente General, na occazião em que sahíra Provedor da Mizericordia_.
Que fazem Versos cansados, Applaudindo os vossos Annos, Se dos nossos Soberanos São melhor elogiados? Se os trazem sempre empregados Em servir a Monarquia, Se a Real Secretaria Escreve em vosso favor, Taes prozas louvão melhor, Do que a melhor Poezia.
Da vossa dexteridade Fião coizas encontradas; Dão-vos as duas estradas, A do Sangue, e da Piedade. Vivei pois comprida idade
Sempre entre Povos amigos; Mas se crescerem perigos, Cresceráõ as acções nobres; E a mão que defende os Pobres, Cortará os Inimigos.
_No dia dos annos do mesmo Senhor_.
A Minha Muza cansada, Perdendo os vôos ligeiros, E ao pé de murchos loireiros Com razão apozentada, Hoje, Senhor, animada Do amor, e da gratidão, Esquecendo a multidão De frios cabellos brancos, Vem, forcejando os pés mancos, Metter-me a Lyra na mão.
Gratidão seus passos rege; Quer que em limada Poezia Venha louvar neste dia Quem em todos me protege; Nas cordas de oiro, que elege, Quer, que invocando as Camenas, Eu cante as horas serenas Em que o Ceo piedozo, e justo Para o lado de hum Augusto Me fez nascer hum Mecenas.
Eu respondi, que a harmonia Me fugio co'a mocidade; E que a sólida verdade Não depende da Poezia; Que em proza sempre seguia Seu acertado conselho; E que em fim Poeta velho Por teima querer rimar, He o mesmo que ir dançar O vosso ginja, Botelho.[23]
[Nota de rodapá 23: Creado muito velho, tentado com minuetes.]
_Ao mesmo Senhor em outro dia de annos_.
Senhor, co'as minhas Poezias Festejava os annos teus; Porém mandão já os meus, Que eu venha co'as mãos vazias; Geladas madeixas frias Fechão do Parnazo o passo; Pois que já o Tempo escaço Esfriar meus Versos quiz, Quem me acceitou os que fiz, Me agradeça os que não faço.
Mas he da tua Grandeza, E a tal dia acção adquada, Inda que não trago nada, Não perder a Caza, e a meza; Por culpas da Natureza Não perca os meus ordenados; Cubrão teus tectos doirados Inutil, mudo Jarrêta; Não o merece o Poeta, Mas he costume aos Creados.
_Ao mesmo Senhor em outro dia de annos_.
Neste venturozo Dia, Honrado, e honrador Marquez, Sempre eu vim a vossos pés Trazer a offerta em Poezia; Ante Vós a Lyra erguia Humilde, alegre, e casquilho; Mas hoje mudando o trilho, A bem, Senhor, me levai, Que sendo os annos do Pai, Dê a Colgadura ao Filho.
Moço Illustre, eu dou conselhos, Filhos de, amor, e verdade; Permittida liberdade Aos fieis Creados velhos; Ouvi: Bons Pais são espelhos; Dão doutrinas sem enganos; E eu rogo aos Ceos Soberanos, Que ao vosso ouvindo as lições, Sejão as vosss acções O elogio dos seus Annos.
_Ao Illustrissimo, e Excelentissimo Senhor Marquez de Marialva, com quem se tinha encontrado o A. na Caza em que estava o Embaixador de Marrocos_.
Na Quinta da Praia clama, Que lhe tireis a Cadeira Hum triste, que quarta feira Comvosco esteve em Moirama: Se a Estrella, que a Vós o chama, Não lhe abranda os seus destinos, Torna para os Marroquinos; Porque, agoiros por agoiros, Antes cativo de Moiros, Do que Mestre de Meninos.
_No dia dos Annos de hum Menino_.
De plumachos emplumado, Manso, alegre Cavallinho, Ou torneado carrinho D'alvos Carneiros puchado, Devião marchar ao lado Deste papel que remetto; Mas mostrando o meu affecto Como póde o meu destino, Em obzequio de hum Menino, Vou dar aos outros Suéto.
_Na despedida de hum Ministro, que partia levando seus Filhos_.
A Lei da pura amizade Minhas lagrimas condemna; Quer que ceda a minha pena A' tua felicidade; Vai; e em quanto a vil maldade,
E a intrigante cubiça, A baixa inveja, a injustiça Pézas na recta balança, Conserva de mim lembrança, Que he tambem fazer justiça.
E vós, lindos Innocentes, Que nessas tenras idades Já sabeis mover saudades Nos amigos, nos parentes, Quando lhe virdes pendentes As balanças da razão, Ide internecello então Com rizos, com géstos novos; Lembrai-lhe, que aquelles Povos, Como vós, seus filhos são.
_A hum Fidalgo, que pedia para o Author hum lugar na Secretaria, na occazião em que elle pertendia o seu proprio Despacho_.
Se vemos rir quem chorava, E tantos exemplos temos, Senhor, não desesperemos, Deos ainda está onde estava: Água branda as pedras cava; Em tudo o tempo he precizo; Saber teimar com juizo Tem mil montes aplanado; Talvez sejais despachado, E talvez que eu lavre o Avizo.
Ah Senhor, com que alvoroço, Na liza banca forrada, Eu de cazaca encarnada, E fitta preta ao pescoço Lançára o despacho vosso, Que tanto tempo esqueceo! Que grande favor do Ceo, Se o meu primeiro exercicio Fosse servir-me do Officio A favor de quem mo deo!
_A respeito de hum Padre, que dizia ter sido Mestre de Rhetorica; que tomava triaga contra o veneno que ainda lhe havião de dar; que dizia que estava eleito Cardeal; e que era demaziadamente trigueiro, se deo este_
MOTE.
_Não tem côr de Cardeal_
Não ajuda ao Padre a cara; Revolvo antigos Annaes, E vejo que os Cardeaes Tinhão a pelle mais clara; Será maravilha rara Achar hum de côr igual; Forão brancos como a cal Mazarino, e Alberoni; E a não ser este o Negroni, Não tem côr de Cardeal.
_Respondeo em Decimas, ás quaes se fizerão as seguintes_:
Que venhão fuscos garraios Metter em Versos a mão! Potente Jove, aonde estão Os teus vingadores raios? Hum homem de coiros baios Segue as Muzas tuas filhas; Tu, pois, que os vaidozos trilhas, Faze que este, em todo o cazo, Saia logo do Parnazo, E passe para Cassilhas.
Se em rhetorico exercicio Já soubeste regras dar, Tambem eu posso fallar, Porque sou do mesmo officio; Que o teu cérebro tem vicio, He verdade assás notoria; Na Poezia, e na Oratoria Vaz em total decadencia; Collega, tem paciencia, Has de vir á palmatoria.
No teu escuro Papel, Aos bons ouvidos ingrato; Achei hum vivo retrato Da confuzao de Babel; A' patria lingua infiel Ès da Nação o desdoiro; Bem sei que te chego ao coiro; Mas não merece passagem, Que a batina, e a linguagem Ajuntem Clerigo, e Moiro.
A quem me queira arguir, Mostro, Padre, o tal Papel; He testemunha fiel, Não me deixará mentir; Em novos termos urdir Mettes a todos n'um canto; Que uzas palavras de encanto Assentão gentes maxuchas, Boas para ajuntar bruchas, Ou para tirar quebranto;
Deixei-me, pois, de criterio, E tomei melhor caminho; Meu amigo, a hum louquinho He loucura fallar serio; Chova, pois, o vituperio Sobre esse tostado coiro; Saia o tal Cardeal Moiro, Que o Capinha, alvoroçado, Vai, por ordem do Senado, Metter garrochas no toiro.
Fulla escrava Americana Já mandava á luz do dia Hum Crioilo, que seria Nódoa da Curia Romana; Carregado de banana, Porque no caminho coma, O rumo da Europa toma; E em terra, marchando á pata, Com sacco, e folha de lata, Deo a sua entrada em Roma.
Assim mesmo estropeado, E envolvido em grosso panno, Foi entre o Povo Romano Com mil respeitos tratado; Do vento, e do Sol queimado, Semblante quebrado, e afflito, Tem tal dom na cara escrito, Que gritavão de redor, Huns, que he o Rei Belxior, Outros, que he S. Benedito.
Tomou a Benção Papal; E teve tanto poder, Que sem o Papa o saber, Ficou feiro Cardeal; Voltou para Portugal Já Cardeal Protector; Achou cá pouco favor; E zombão-lhe do Capello, Por ter mui crespo o cabello, E ser muito bassa a côr.
Erra o Vulgo os passos seus; He hum cego, e maldizente; A côr he méro accidente, Todos são filhos de Deos. Porém para os lucros teus O Capello te faz mal; No S. João, e Natal Terias gôrda guedelha, Armado de faca velha, Pincel, e pote de cal.
Padre, vai-te o mundo ao pêllo; E c'o a lingua maldizente Te vai cortando igualmente As Poezias, e o Capello; Porém eu, que sou singelo, E meus contrarios ameigo, Te affirmo, piedozo, e meigo, Que se não tens, por teu mal, Em Roma o de Cardeal, Tens no Parnazo o de Leigo.
Deves voltar outra vez, E dizem que nisso fallas; Mas pégão-se pelas sallas Teus molles tardîos pés. Se ajuda de custo vês,[24] Fazes-te côxo, e ronceiro; Meu Padre, és muito matreiro, Já todos estão de acôrdo; E sem te verem a bórdo, Não pões a mão no dinheiro.
[Nota de rodapé 24: Pedia huma ajuda de custo.]
Tua saude se estraga, Mas teu Medico condemno; Meu amigo, o teu veneno Não se cura com triaga; Para a tua antiga chaga Medicina impropria he esta; Muda, pois vês que não presta; Grita c'os olhos em braza, Que te fechem n'uma caza, E que te sangrem na testa.
De balde em Lisboa gritas, Attestando a Italia inteira, Que regeste huma Cadeira Nos Claustros dos Jezuitas; As obras que vejo escritas Provão que nos tens mentido; Até das Ordens duvido, Quando as tem cabeças tontas; Tu, cá pelas minhas contas, Ès hum mulato fugido.
Foge outra vez, se tal és, Qual foge apupado mono; Antes que venha teu dono, E te ponha nas Galés; Antes que enfeite teus pés Legal, sonóro fuzil; Não veja o patrio Brazil, Que os hombros do filho bello, Vindo buscar hum Capello, Só achárão hum barril.
Dizem todos, que és fingido, Que ninguem louco te chame; Por mais que eu lhe jure, e clame, Que és mesmo doido varrido; Dizem que estás conhecido, E que o fazes por estudo; Em tal cazo prompto acudo, E de outro lado te ataco; Se não és doido, és velhaco, E talvez que sejas tudo.
Mas já quem póde me ordena, Que armas ponhamos em terra; Apôs sanguinoza guerra, Alce a frente a Paz serena; Sobre essa pelle morena Em paz teu Capello ajusta; Assento que he coiza justa Seguires methodo novo, E não dares gosto ao Povo, Que quer rir á tua custa.
Não te finge falso agrado Meu semblante contrafeito; Não encobre honrado peito Coração refalseado; Se me julgas disfarçado, Alta injustiça me fazes; Eu te juro eternas pazes; E se falto aos votos meus, Ah Padre, permitta Deos Que eu sempre ensine rapazes.
E tu, que sem estes sustos Vives cheio de alegrias, Serenos, doirados dias, Aos pés de teus Reis Augustos; Tu, que por titulos justos Te chamas o novo Horacio, Quando entrares em Palacio Conserva de mim lembranças, Porque tenho as esperanças Postas em ti, e no _Estacio_.[25]
[Nota de rodapé 25: Bobo célebre.]
MOTE.
_Hum suspiro de repente, Hum certo mudar de côr, São evidentes sinaes De que o peito occulta amor_.
GLOZA.
Debalde as penas, e os gostos Disfarçais, loucos Amantes, Se os attentos circumstantes Tem em vós os olhos postos; De que servem falsos rostos, Se o coração desmente N'um instante infelizmente Sabe perdido o longo estudo, Pois vem destruir-vos tudo Hum suspiro de repente.