Obras poéticas de Nicoláo Tolentino de Almeida, Tom. II
Part 2
Pinta-lhe as lagrimas tristes Em que meu rosto se lava; Por hum infeliz cativo Peça huma ditoza escrava;
Dize-lhe, que não se assuste De meu cabello nevado; Jura-lhe que não são annos, Mas penas, que me tem dado;
Que a cauza das minhas rugas He o seu desabrimento; E vai da minha velhice Fazer-me hum merecimento;
Ah Domingas, se em seu peito Me fazes achar piedade, Tambem eu juro fazer A tua felicidade;
E pois que o teu coração Sómente he baixo, e grosseiro, Em preferir liberdade A tão feliz cativeiro;
Por amor serei mesquinho; Meus gastos verás cortar; Para ajuntar-te quantia Com que te possas forrar;
Cheia de teus beneficios Minha mão agradecida Te irá pôr em larga praça Rendozo modo de vida;
E assentada em novo estrado, De fasquiada madeira, Ondeando ao som do vento Trémulo tecto de esteira,
Teus negros, airozos braços, Chocalhando hum assador, Encherão famintos peitos De castanhas, e de amor;
Terás bojudas tigellas Sobre incendidos tições, Onde fêrvão em cardumes Saborosos mexilhões;
Teus doces, sonóros écos, Sem mentir, apregoaráõ O azeite de Santarem, O cravo do Maranhão.
Domingas, segue esse rumo; Que teu amor reloucado, Sem te fazer venturoza, Me deixa a mim desgraçado;
E se sem dó dos meus ais, Teimas nos projectos teus, Fallando nos teus amores, Em vez de fallar nos meus;
Trocando boa amizade Por entranhado rancor, Vou descubrir teus intentos A teu austéro Senhor;
Que em zelo honrozo inflammado, Sem ser precizo atiçallo, Vai a caza do Lagoia[7] Trocar-te por hum cavallo.
[Nota de rodapé 7: Comprador]
CARTA
_A hum Amigo, louvando-lhe o estado de cazado_.
Foi este o ditozo dia, Que te deo a Espoza bella; Doce, sólida alegria, Para ti, junto com ella, No mesmo berço nascia;
Por tua maior ventura, Natureza lhe quiz pôr, Entre os Dons da Formozura, Outro dote inda maior, Que he, alma innocente, e pura;
Eu sei teu costume antigo, A Mulher, que he só formoza, Não vale tudo comtigo; Soubeste escolher Espoza, Em quem tens Espoza, e Amigo;
Quer sempre ter hum Senhor Nosso humano coração; E na ventura maior Inda sente em si hum vão, Que só enche o casto amor;
De quantos males te eximes, Dando ao teu tão bom Senhor? Damnozas paixões reprimes; Recebes das mãos do Amor Os prazeres, sem os crimes;
Céga mocidade errada, A' conjugal união Quiz chamar vida cansada; Diz que he triste escravidão, De mil pensões carregada.
Chama á paz hum dissabor; Diz, que de susto, e desdens Se alimenta o Deos de Amor; E que a certeza dos bens Lhes diminue o valor;
Fechão olhos á verdade, Caminhando apôs seus erros; E em falsa tranquilidade, Ao som de pezados ferros, Vão cantando liberdade;
Mil remórsos na alma estão, Que inda que o rosto os suffoca, Roendo as entranhas vão; Que importa rizo na boca, Se ha punhaes no coração?
Amor he fogo sublime, Que nas almas se accendeo; As outras paixões reprime; Elle he dadiva do Ceo, O abuzo he que o faz ser crime;
Beija, Amigo, os teus grilhões; Hum para o outro erão feitos Os vossos bons corações; Crava em vossos ternos peitos Santo Amor os seus farpões;
Onde achas pessoa estranha, Que não contrafaça o rosto, Porque vê, que assim te ganha? Quem he que na pena, ou gosto, Com verdade te acompanha?
Contas teus cazos sem medo A quem por amigo passa; Fiaste-te em rosto lêdo; Foste no meio da praça Assoalhar teu segredo;
Mal os homens conheceo Pura amizade enganada, O santo rosto escondeo, E tornou-se envergonhada Para o Ceo, donde desceo;
O amigo que te rodeia, Véste das tuas paixões; Com ellas te lizonjeia; São raros os corações, Em que dôa dor alheia;
Quando acertares de ler, Que houve entre homens união, O Escritor a quiz fazer; Não os pintou como são; Mas como devião ser;
São coizas imaginadas Dos _Nizos_ o amor profundo; São fábulas bem contadas; Ou os não houve no Mundo, Ou não deixárão pégadas;
Puro amor, limpa verdade, Só entre Esposos estão; Desce a elles a Amizade; Traz-lhes co'a santa união Huma só alma, e vontade;
Communica á Espoza amada Teus mais internos cuidados; E vive em paz descançada A vida dos bem cazados, Vida bemaventurada;
Sem receio de perigo Dorme sono saborozo; Que não tens junto comtigo; Lisonjeiro suspeitozo, Traidor, com rosto de amigo;
Tens por doce companhia Aquella, que o justo Ceo Com mil virtudes te invia; Tu es o cuidado seu, E como seu, te vigia;
Goza em socego profundo Tão pura felicidade; Tens hum thezoiro fecundo; Tens amor, tens amizade, Tens todos os bens do Mundo.
E se ha entre homens desvelo (Coiza que aqui contradigo) Conta com hum, que he singelo; E foi sempre teu amigo, Quanto os homens podem sêlo.
CARTA
_Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde D. Jozé de Noronha, hoje Marquez de Angeja_.
Senhor, eu não sou culpado; Traçar outros Versos quiz; Mas tenho perdido o trilho Com as Trovas do Luiz;
A Muza, que ha pouco as fez, Outra rima não me inspira; Por mais que mordo nas unhas, E que em vão tempéro a Lyra.
Acceitai meus bons dezejos; E como homem de razão Não desprezeis baixos Versos, Quando os dicta o coração;
Minhas fiéis expressões, Filhas de amor, e saudade, O que não tem em poezia, Lhe vai supprido em verdade.
Em quanto co'as soltas vélas, Forçadas do vento rijo, Demandava a Galeota Os areaes do Montijo;
Em quanto ao Principe Augusto O patrio Téjo se humilha, E sobre os rasgados hombros Lhe leva a soberba quilha;
Meus olhos, meus tristes olhos, Nas aguas seguindo a esteira, De lagrimas se arrazavão Sobre as praias da Junqueira.
Dentro do cansado peito Se ateou crua peleja; Senti huma guerra viva De saudades, e de inveja;
Não era de baixa inveja Affecto grosseiro, e injusto; Era invejar ao Creado Ir junto a seu Amo Augusto.
Senhor, não sou atrevido; Ha lugares derradeiros; O meu dezejo me punha Entre a chusma dos Remeiros;
Com as faces açoitadas Dos agudos ventos frios, Entre os borrifos das ondas, E as pragas dos Algarvios;
A Apóllo pedindo a Lyra, Que só para isto invéjo, Chamára das frias grutas As loiras Filhas do Téjo;
Que escutando o som divino Entre as húmidas moradas, E levantando nas ondas Suas cabeças doiradas;
De tal Hospede soberbas O lenho rodearião; E as aguas co'branco peito A' porfia lhe abririão;
O fatídico Protêo, Cheio de saber divino, Revelára ao novo Heróe Os segredos do Destino;
Famozas acções cantára, Levantando a sábia voz, Moldadas sobre as historias Dos Augustos Pais, e Avós:
Mas, Senhor, a minha Muza Sem tino ao ar se remonta; E vai-se mettendo em obra, De que não póde dar conta;
Esta levantada empreza Até a _Boileau_ deo sustos; Dizia que só Virgilios Podião louvar Augustos;
He queimar-lhe baixo incenso, Cansallo com Versos frios; Amor respeitoso, e votos Serão os meus elogios:
Vós, Illustre Villa Verde, Com quem sempre me hei achado, Fazei que seja o meu nome A seus ouvidos levado;
Se lhe der acolhimento, Sigamos de Horacio as traças, Façamos que a par das Muzas Marchem as rizonhas Graças;
Dizei-lhe, que na Folhinha, Com letras doiradas puz Aquelles formozos dias Das escadas de Quéluz;
Aquelles dias ditozos, Quando a seus pés ajoelhado, Era ao abrigo das Muzas Benignamente escutado;
Quando, tendo já traçado Melhorar-me os meus destinos, Se dignava perguntar-me Como estavão os meninos.
Quando me mandou, que em verso Contasse como escapára Naquelle funesto encontro Dos taes Carreiros da Enxára;[8]
[Nota de rodapé 8: Allude ás Decimas.]
E se inda o favor mereço De tão alta Protecção, Dizei, que mudei de Officio, Porém de ventura, não;
Que não me enganão zumbaias Dos humildes Supplicantes; Porque a bolsa mais sincera Trata-me inda como dantes.
Que inda os cães atrás do Russo Esperão nelle a merenda, Quando eu vou para Lisboa Fazendo Versos, e renda;
Que dando aos oucos ilhaes, Vai marchando triste, e só; Que as mais seges fazem sécia, Porém que a minha faz dó;
Que até o boçal Gallego, Que eu tinha por innocente, Já me conhece a fraqueza, E já me revíra o dente;
Depois, que as vélas de cebo Já cerceia no topete, E vai conquistar o Bairro De polainas, e colete;
Depois que em chapeo de Braga, Que só põe em dia claro, Cozeo em devota rosca Candêa de Santo Amaro;
Depois que em déstros meneios O suado corpo bole, E abre guerra ás Cozinheiras Ao som da Gaita de fole;
Já responde focinhudo, E eu me cálo as mais das vezes; Porque, pelos meus peccados, Sou réo de huns poucos de mezes:
Mas, Senhor, este Epizódio Vai sendo dos arrastados, O Gallego veio nelle, Como me vai aos recados;
Se o julgardes enfadonho, Ao Principe o não conteis; Nos factos da minha vida A' vontade escolhereis;
Pintai-lhe a triste familia, Gritando-me por dinheiro; Hoje o rol de hum Alfaiate, A' manhã o de hum Tendeiro;
Pintai-lhe hum Procurador, Que aqui vem todos os dias Saber da minha saude Da parte das Senhorias;[9]
[Nota de rodapé 9: Das Cazas.]
Enfeitai de côr alegre A funesta narração; Marchão ás vezes os rizos Ao lado da compaixão;
E pois que os vossos esforços Nunca me tem sido vãos, Acabai, benigno Conde, Esta obra das vossas mãos;
De hum mal fadado Poeta Trocai em prazer as penas; Já diante d'outro Augusto Fez o mesmo outro Mecenas.
CARTA
_No dia dos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Angeja D. Jozé de Noronha, estando o Author doente_.
Senhor, se vos são acceitos Pobres Versos, mal limados, Entre vidros, e receitas, Em triste leito traçados;
Se de hum sombrio doente A fúnebre poezia Os prazeres não perturba Deste faustissimo Dia;
Consenti, que a branda Lyra, Por vós outr'ora escutada, E que teimoza molestia Tem ha muito pendurada;
Sobre este cansado peito, Ferida com debil mão, Mande ao Ceo singelos hymnos, Nascidos do coração;
Consenti, que eu louve o Dia, Para mim assinalado, Qne raia em nosso Horizonte, De nova luz coroado;
Dia, que vos vio nascer; E que quiz trazer comsigo Quem une ao nome de Grande, O santo nome de Amigo;
Quem não quer só a Nobreza De Illustres Antepassados; E mais ama huma virtude, Que cem Titulos herdados;
Quem sabe, que o vir honrar Dos pequenos a baixeza, He entre os que nascem Grandes A verdadeira Grandeza;
Quem a favor de infelizes Traz sempre occupada a idéa; E estima a fortuna propria, Só para fazer a alhea;
Cem vezes, formozo Dia, Vem o Horizonte doirar; Nunca possão negros ventos Tuas luzes perturbar;
Tu nos déste em peito illustre, Que se doe de alheios ais, Hum coração adornado De mil Virtudes Morais;
Senhor, eu não doiro enganos, Que venal lizonja approva; Sabidas verdades digo, E sou dellas huima prova;
Sou hum dos muitos exemplos Do vosso bom coração; A minha felicidade Foi obra da vossa mão;
Razoando em meu favor Contra teimozos destinos, Felizmente pleiteastes A cauza dos meus Meninos;
Ao bom Principe pedistes, Que com mão compadecida, Lhes concedesse humas ferias, Que durassem toda a vida;
Pedistes depois, Senhor, Que a sua Real Grandeza Se dignasse de arrancar-me D'entre os braços da pobreza;
Sei que nelle he natural Ter dó das alheias penas: Mas ouve-as melhor Augusto, Quando lhas conta Mecenas;
Por este modo alegrastes A triste familia minha; E em caza nos levantastes O Interdicto da Cozinha:
Já hum segundo Frizão, Pendurada a lingua velha, Dá reboque, como póde, A' antiga meia parelha;
Já o sórdido Gallego, Meu antigo companheiro, De gravata, e carrapito Arvorado em Boleeiro;
Açoitando surdas ancas De dois Sendeiros roazes, No mesmo Bairro apregôa, Ora barrîs; ora pazes;
Mas, Senhor, deixando graças, Pois não as pede a materia, E pedindo á minha Muza, Que seja comvosco séria;
Rogo ao Ceo vos dê mil annos, Já que são tão bem gastados; Annos que achareis depois Em Livro de Oiro apontados;
E se em dia de Mercês Ides de Semana entrar, Seja a Mercê destes Annos O meu nome apprezentar.
Ao Principe, ajoelhando, Em favoravel momento, Por mim, Senhor, lhe jurai Eterno agradecimento;
E eu, em largando este leito, Já sei a hora opportuna De poder ajoelhar-lhe, Quando elle chega á Tribuna;
E pondo-me ao pé do Ginja, Que na _Náo Ajuda_ falla; E faz a todos os _Glorias_ Continencias co'a vengalla;
Surdo á historia do naufragio, Com que elle ás vezes me afferra, Rezarei ao Deos do Ceo, E assistirei aos da Terra.
CARTA.
_Tendo mandado huma Senhora ao Author Vinho da Madeira com huma Carta em boa Poezia_.
Hum humilde admirador Da vossa bondade, e estilo, Beija a Carta precioza, Que veio honrallo, e instruillo;
Desde hoje, do Mestre Horacio Minha alma a lição escuza; Quiz a minha Bemfeitora Ser tambem a minha Muza;
De fino licor mandastes A minha cava prover; A vossa mão generoza Sabe dar, como escrever;
A' parca meza assentado, Em Vinho, e Carta pegava; Hia bebendo, hia lendo, E tudo me embebedava;
Deixo o velho Anacreonte, Hoje mettido a hum cantinho; Sua meza nunca teve Tão bons Versos, tão bom Vinho;
Se os teve, Vós o roubastes Por minha felicidade; Já cá tem o Vinho, e os Versos Quem delle só tinha a idade;
Das escumas do Madeira Vejo nascer a alegria; Com as azas affugenta A minha melancolia;
Já se perturba a cabeça; Já tenho emprestadas cores; Já começão a esquecer-me As molestias, e os Crédores;
O tal Horacio enganou-se; Não conhecêo a parreira; Não se chamava Falerno; Se era bom, era Madeira;
He bom, mas tira o juizo; Mandai-mo, em vez de o beber; Não se arrisque neste jogo Quem tem tanto que perder.
CARTA.
_Desculpando-se o Author de não ir a huns Annos_.
Senhora, em honra do Dia, Esforçando a mão pezada, Tómo a Lyra, ha longo tempo Ao silencio consagrada;
E em quanto lhe alimpo as cordas, Que bolor aos dedos dão, E atarantadas aranhas Despejando o bêco vão;
C'os olhos ao ar alçados A' minha Muza pedia Me désse sonóros Versos, Dignos de Apollo, e do Dia;
Que me ensinasse a louvar O ditozo Nascimento, Que ao vosso brilhante Séxo Trouxe mais hum ornamento;
Que pintasse a loira Venus Vosso rosto bafejando; Que me mostrasse as tres Graças O rico berço embalando;
Que me ensinasse a cantar, Cingida a testa de loiro, Huns claros, triunfantes olhos, Huns finos cabellos de oiro;
Que me fizesse augurar, Rasgando ao futuro o véo, Amor consagrando as settas Nos Altares de Hymenêo;
Mas as Muzas, como as Ninfas, Tem para mim os pés mancos; Fogem de trémulas vozes, Tremem de cabellos brancos;
Fiquei, pois, desamparado; E merecendo desculpa, De não vos mandar bons Versos, Peco perdão, sem ter culpa;
Sei que devia ir pedillo Respeitozo, e diligente; Mas impede-me essa honra Hum defluxo impertinente;
E quem em caza traz botas, E vinte xaropes bebe; E quando fahe, fahe mettido N'uma loge de Algebebe;
Se fosse em tempo invernozo Entrar na illustre Assembléa Com leve, ingleza cazaca, Fina, transparente mêa;
Sem acabar cumprimentos, Logo o corpo arripiado, Gelada a voz sobre os beiços, Cahiria constipado;
E o Marcos largando os bules, Pondo o Velho em quentes pannos, Entre os applauzos dos vossos, Praguejaria os meus annos;
Vossa bondade não quer Pôr o Cortezão em risco, De ir com Habito de Christo, E vir no de S. Francisco;
Acceitai dahi meus votos; Daqui a mão vos beijei; E dos doces que não como, Domingo me vingarei;
Darei escumantes copos Ao perum, e aos môlhos seus; Brindarei os vossos Annos, Tratando mui bem dos meus.
CARTA.
_Aconselhando a hum Cebelleireiro, que não continuasse a fazer Versos_.
Pois que o talento inquieto Até em poezia provas, E queres ás mais desgraças Ajuntar desgraças novas;
Pois, que em galantes cantigas Teu Rival puzeste razo, E coroado de trovas Vás entrando no Parnazo,
Quero em trovas avizar-te, Que ha baixîos nesta barra; Vou ser Prégador trovista, Vou ser hum novo Bandarra;
A occupação de Poeta He nobre por natureza; Mas todo o Officio tem ossos, E os deste são, a pobreza;
Os dentes do bom Camões Sejão fieis testemunhas; Muitas vezes esfaimados Não achárão senão unhas;
Depois que seus frios olhos Se fechárão no Hospital Logo as Filhas da Memoria Lhe erguêrão Busto immortal;
De que serve honra tardia? Bem sei, que o rifão vem torto; Mas faz lembrar a cevada, Que se deo ao asno morto;
Só as Muzas o chorárão; E o enterro devia ser Como hoje nos pinta o Lobo O de João Xavier.
Homéro, o divino Homéro, Honra de antigas Idades, Por cujos inuteis ossos Brigárão sete Cidades;
Doces Versos recitando, Pela Grecia discorria; Tinha os Thezouros de Apollo, E esmola aos homens pedia;
Mas se de Authores antigos Tens tido pouco exercicio, Eu te aponto hum bem moderno, E até do teu mesmo Officio;
Foi este o famozo Quita, A quem triste fado ordena, Que a fome lhe traga o pentem, E da mão lhe tire a penna;
Em quanto na suja banca Pobre tarefa tecia, Seu espirito sublime Sobre o Parnazo se erguia;
Cozendo sobre o joelho Era dura, falsa cáveira, A sua alma conversava Com Bernardes, e Ferreira;
Mil vezes travêssas Muzas Da baixa obra o desvião; E mostrando-lhe o tinteiro, Pós, e banha lhe escondião;
Mas de que servem talentos A quem nasceo sem ventura? Vale mais, que cem Sonetos, A peior penteadura;
Amigo, vamos errados; Escolhemos muito mal; He o fado dos Poetas Não professarem real;
Péga no pardo baralho, E sobre a cama assentado, Fisga as biscas conhecidas Ao parceiro descuidado;
Matando boçaes tafûes, Vai mexendo os papelinhos; Nem poupes no cadafalso As gargantas dos Sobrinhos;
Em lhe vendo huma de seis, Arma-lhe os laços viscozos; Antes que lhe caia a xina Na ceira dos laparozos;
Imita ondados cabellos Co'rubro lápis na mão; Estas pinturas dão xina, As da Poezia, não;
Se em roda de loiras Ninfas Gyrão em torno teus ais, Em quanto lhe deres Versos, Acharás sempre Vestais;
Fallo como exprimentado; Fallo com peito sincero, Póde huuma vara de fitta, Mais que a Ilíada de Homéro;
No sonóro bandolim Fortuna as armas te deo; Não ha Dama, que rezista A' moda do Melibêo;
Toca-lhe mil contradanças; Mas se não tiverem Dom, Entre ellas não sevandiges O Fidalgo Cotilhom;
Nestas coizas he que eu creio; Poezia he mal fadada; Assenta, amigo Luiz, Que nunca servio de nada;
Poucas Damas a conhecem; Se a pedem, e se a festejão, Gostão do que não entendem, Pedem o que não dezejão;
Inda que por moda querem, Que lhes repitão Versinhos, Tem por modas de mais gosto Convulsões, e Jozézinhos;
Huma Venus me pedio, Por quem inda eu hoje peno, Que lhe fizesse hum Soneto, Inda que fosse pequeno;
Dinheiro, invisto dinheiro, Só em ti he que eu me fundo; Tens o Direito da força, És o Tyranno do Mundo;
Amigo, escolhe hum Paralta, Corpo esbelto, perna teza, O chapeo tocando as nuvens, As fivellas á Malteza;
Ornem-lhe loiros canudos, Pendentes com igualdade, Tenras faces, onde morão A Saûde, e a Mocidade;
Chegue á bocca rubicunda Cheirozo lenço anilado; Dê bilhetinho discreto, De huma Novela furtado;
Põe da outra parte hum Ginja, Fivella de oiro no pé, Bom vestido de lemiste, Boa meia grudifé;
Com óculos no nariz, Mas com a penna na mão, Assignando vinte letras Para Londres, e Amsterdão;
E dize-me, qual assentas, Que será o mais querido? Apósto, que as Damas todas Cuidão que o Velho he Cupido.
Amigo, tenho acabado O meu comprido Sermão; Préguei-te as altas verdades, Que trago no coração;
Abre mão das Poezias, Que nenhum prestimo tem; E cuida em sólidos meios De ganhar algum vintem;
Se dizes, que contra os Versos, Em Verso huma Carta ordeno, E que aqui me contradigo, Praticando o que condemno;
A teu forçozo argumento Respondo com Fr. Thomaz; Faze o que o Prégador diz, Não faças o que elle faz.
CARTA.
_Pedindo-se ao Author huma Gloza_.
Menino, dizer finezas, Só o proprio Pertendente; Amor não póde imitar-se, Só o pinta quem o sente;
Se adora alguma Nerina, Se he para ella a tal Gloza, Que vão fazer os meus Versos, Onde está a sua proza?
Além disso, essa figura, Faces tenras, e córadas, Fallão mais discretamente, Que mil Cantigas glozadas;
Lenço nas pontas bordado, Cipó, tízicas fivellas, Sobre hum corpo assim talhado, Se eu gósto, que farão ellas?
Versos são mui fracas armas Para vencer corações; He clara a letra redonda, Leia a vida de Camões;
Sua divina Poezia Teve mui curtos poderes; Tratarão-no mal os homens, E inda peior as mulheres;
Pois entra de amor na estrada, Siga nella outro farol; Embuce-se a huma esquina, Soffra chuva, soffra Sol;
Erga alli o Altar do Amor; Queime alli humilde incenso; Suba ao alto do capote Branco, alcoviteiro lenso;
Que importa que os Çapateiros Dem assobio insultante, Se os negocios vão marchando Com passadas de Gigante?
Cem vezes na mesma tarde Pize esbelto a feliz rua; Alheias cadeias de aço, Relogio de hollanda crua;
Vá por aqui, que por Versos Dá em vão loucas passadas; São divertimento inutil, São as historias das Fadas;
Inda que para cantallos Lhe désse Garção a Lyra, Como hão de crer-lhe verdades Na linguagem da mentira?
Seja acérrimo chorão; Pranto entendem raparigas; Faça em lagrimas seu fundo, E não o faca em Cantigas;
Palêe co'estes remedios, Pois não tem o verdadeiro; He elle (aqui em segredo) O mílagrozo dinheiro;
Mas se teima em pedir Versos, E conselhos não supporta, Então perdôe, meu Menino, Póde bater a outra porta.
CARTA.
_Agradecendo alguns pratos, que despertárão a vontade de comer_.
Senhor, a dada Perdiz, Acerejada, e fresquinha, Veio emendar os estragos Da enjoativa gallinha;
Esta ave he sempre odioza A melancólicos dentes; Faz lembrar ultimos caldos De já perdidos doentes;
He, além disto, hum cruzado Fugido do mialheiro; Este meu mortal fastio Custou rios de dinheiro;
Mas da vossa lauta meza Bocados medicinais Forão tão bem applicados, Que me curárão de mais;
Venceo vosso cozinheiro O tal fastio cruel; Meu estomago já pede Meças com Fr. Manoel;
Mas, Senhor, vossa piedade Vai ser-vos hum dom fatal; Quizestes fazer hum bem, Que redunda em vosso mal;
Fizestes nascer a fome, E a fome pede mantença; Se a deixais entregue a mim, Póde morrer á nascença;
A vossa filha amparai; Não he de peitos honrados Pôr as suas Creaturas Na Roda dos Engeitados.
Em soando as duas horas, Sabei que esta cara minha Tem longos, ávidos olhos, Fitos na vossa Cozinha;
Eu não vou, porque inda fraco, Indo arrostar ar delgado, Antes de matar a fome, Morreria constipado.
CARTA
_Sobre o mesmo Assumpto_.
Senhor, assim que eu largar A baetal fatiota minha, Vou beijar as pias lágeas Da vossa farta Cozinha;
Não foi attento Hespanhol,[10] Receitando amarga quina, Quem venceo meu mal co'as armas Da fallivel Medicina;
[Nota de rodapé 10: Medico.]
Vós sabeis traçar receitas Mais gratas, e mais felizes: Curárão-me oppostos males Bem applicadas Perdizes;
Humas o appetite abrírão, Outras socêgo lhe dão; Sarárão as duas chagas Co'pêllo do mesmo cão:
Dizem linguas inimigas, Que esta doença he ficticia; E os Práticos do meu pulso A capitúlão malicia.
Que em meu capote abafadas Estas goellas felizes, Em vez de cozerem lynfas, Estão armando ás Perdizes;
Senhor, não devo atalhar Este conjurado assédio; Porque era, provar doença, Ingratidão ao remédio;
Só digo, que não ganhais, Dando ouvido ás vozes suas; Aqui dais-me huma Perdiz, E se lá vou, tiro duas.
CARTA.
Bom Sobral, o que eu te disse He, a meu pezar, verdade; Sonóros, amenos versos, São obra da Mocidade;
Mandaste que em Crescentini; Louvando a doce harmonia, O que o Mundo diz em proza, Eu lho enfeitasse em Poezia;
Que invocando as brandas Muzas, Encostada ao peito a Lyra; Cante os ternos sentimentos, Que elle nas almas inspira;
Môço Sobral, tu ignoras Da inerte velhice os damnos; Nesta fria testa brigão, Co'teu preceito, os meus annos:
Que importa, que a huma orelha A tua voz respeitada Me mande afinar a Lyra Ha dez annos pendurada,
Se á outra me diz Apollo, Que eu sou já dos reformados; Que em seu Tribunal não tornão A servir Apozentados?
Longa idade, he longo mal; Velho, só he bom o Amigo; O teu mesmo Crescentini Ha de provar o que eu digo:
Este homem, que a seu arbitrio Move as humanas paixões; Que traz na sua voz o sceptro Dos sensiveis corações;
Que nos deixa duvidozos Quaes forças maiores são, Se os encantos da harmonia, Ou se a viveza da acção;
Que em mim, que sou homem duro, E rebelde ás Leis primeiras; Que não chóro nos mais homens As desgraças verdadeiras;