Obras poéticas de Nicoláo Tolentino de Almeida, Tom. II
Part 1
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OBRAS POETICAS
DE
NICOLÁO TOLENTINO DE ALMEIDA.
TOM. II.
LISBOA.
NA REGIA OFFICINA TYPOGRAFICA.
ANNO M.DCCCI.
_Com licença da Meza do Desembargo do Paço_.
QUINTILHAS
_Offerecidas ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de S. Lourenço_.
Ante vós, Claro Senhor, Que pondes os sãos cuidados De bons estudos no amor, E que d'homens applicados Sois o exemplo, e o protector;
Levanto sem pejo a voz; Que essa alma nunca despreza O pouco que encontra em nós; Não produz a Natureza Muitos homens como vós;
Pois vi outr'ora amparado O discreto, e doce Brito, Triste moço, em flor cortado, Que hia alevantando o esprito, De vossas luzes guiado;
Pois na vida lhe adoçastes De seu fado a má ventura, E não vos envergonhastes, Quando a fria sepultura Com as lagrimas lhe honrastes;
Se os seus Versos sonorozos Inda repetis com mágoa; E pensamentos saudozos Vos trazem aos olhos agua, Que os deixa, Senhor, formozos;
Hoje, outro triste vos faça Nascer iguaes sentimentos; Com os vossos pés se abraça; Não tem os mesmos talentos; Mas tem a mesma desgraça;
Nascido em baixa pobreza, Quiz buscar huma Colu'na, Foi sempre baldada a empreza, Achou ingrata a fortuna, Inda mais, que a natureza.
Em vão paternal ternura Com vivo zêlo me assiste; Foi trabalho sem ventura; Crescia no Filho triste, Com a idade, a desventura;
Das boas Artes no estudo Bom Pai empenhar-me quiz; Traçava o velho sizudo Que fosse hum Filho feliz Dos outros Filhos o escudo;
Forão seus intentos vãos; Zombou desgraça importuna Destes pensamentos sãos; Para vencer a fortuna Não ha lagrimas, nem mãos;
Cortado então de agonias, Só esperei ter ventura, Quando envolto em cinzas frias Escondesse a sepultura Meu nome, e meus tristes dias;
E em quanto o vento forceja, E no mar, que em flor rebenta, Meu fraco lenho veleja, Demando, em tanta tormenta, Por porto a Casa de Angeja;
Surgi em lugar seguro, Onde achei mil acolhidos; Clareou o dia escuro; E meus molhados vestidos Pelas paredes penduro;
De meu fado a força dura Foi hum pouco enfraquecendo; E ainda que em sombra escura, Vem-me ao longe apparecendo O bom rosto da Ventura;
Vossos Sobrinhos me dão (Porque de meus males sabem) Principios de protecção; Mandai-lhe que em mim acabem Esta obra da sua mão.
Mandai, que apressem o passo, Que inda longe a méta vejo, Pois nas supplicas que faço, Não se vence com dezejo, Vence-se á forca de braço;
Mandai, pois tendes direito, Que o turvo mar arrostando, A' corrente ponhão peito; Fallai, Senhor, que em fallando, O vosso mandado he feito.
Não vedes venal incenso Por astuta mão queimado; Fallo, Senhor, como penso; Eu sei quanto he respeitado O Erudîto São Lourenço;
Eu sei bem o alto conceito, E as geraes estimações, Que todos de vós tem feito; Oiço ternas expressões, Filhas de amor, e respeito;
Do bom Irmão, e Sobrinhos Oiço tod'ora louvar-vos; Oiço-lhes doces carinhos; De poderem agradar-vos Dezejão achar caminhos;
Vosso Irmão, e pregoeiro Ordena, como sizudo, Ao Illustre Neto, e Herdeiro, Que das Sciencias no estudo Vai dar o passo primeiro,
Se encoste a vós, sem desvio, Qual ao Choupo Hera silvestre; Que em Artes, virtude, e brio, Mais, do que as regras do Mestre, Siga os dictames do Tio;
Com que gosto oiço, e contemplo, Dizer-lhe = Se ao bem te inclinas, Segue-o no estudo, e no Templo; Elle te dê as doutrinas; Elle te sirva de Exemplo.
Mas sigo inutil empreza, Pois sabeis quaes são seus peitos, Mistura-se esta fineza Com os sagrados direitos Do sangue, e da natureza;
Todo o mundo, em vosso abono, Põe na boca os corações, E delles vos chama dono; Oiço mil acclamações Desde a plebe até ao Throno;
A geral estimação Nos arma de authoridade; Vinde pôr nesta obra a mão, E dai-me felicidade, Como me dais instrucção;
Sabeis a fundo, e de cór, Tudo quanto ha bom, escrito; Juntai extremos, Senhor; Ao homem mais erudíto, Juntai o mais bemfeitor.
Pois sabeis da Antiguidade Prozas sans, e sã poezia, Deveis sentir mais piedade; Quem tem mais filozofia, Vê melhor a humanidade:
Que eu nesta fresca espessura, Entre estes Loiros sagrados, Sentado sobre a verdura, Cantarei Versos limados A quem me fez ter ventura.
Deixarei em mil letreiros O vosso Nome entalhado Nos troncos destes Loureiros; Possa elle ser respeitado Do negro vento, e chuveiros;
Ramos sobre elle estendendo, Dafne no seu peito o tome; E eu, doces hymnos tecendo, Verei ir o tronco, e o Nome Té ás Estrellas crescendo.
QUINTILHAS
_Offerecidas ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez do Lavradio_.
Se os Versos, que outra ora fiz Escutastes prompto, e attento; E se aos pés, que abraçar quiz, Achou grato acolhimento A minha Muza infeliz;
Dai-me benignos ouvidos A outros, em dôr traçados, D'arte, e de enfeite despidos; Pela verdade dictados, E a vós, Senhor, dirigidos;
Em louvores não os fundo, Pois sei que sempre os pizastes; E co'as mais acções confundo As do tempo, em que tomastes As rédeas do Novo Mundo;
Mas se eu disser parte dellas, Não me julgueis lizonjeiro; Que vos poupo em não dizellas? Se vedes, que o Mundo inteiro As vai erguendo ás Estrellas?
Diz que vio a Capital Cheia de pompa, e grandeza; E que a ergueis a lustre tal D'entre os braços da molleza, Que he no Clima natural.
Que nas mãos, onde se encerra Alto Poder respeitozo, Mostraste na nova Terra Ao Vizinho revoltozo, N'uma a paz, em outra a guerra.
Que offreceis a vida então Para a palavra salvar-se, Que, os bons Reis não dão em vão; Acção digna de contar-se Entre as de Mario, ou Catão;
Que a mão que as Quinas voltêa, Justiça ao Povo reparte; E que igualmente menêa, Ora as Bandeiras de Marte, Ora as Balanças de Astiéa;
Mas já vossa austeridade Minha narração reprime; Ouvis-me contra vontade; Perdoai, Senhor, hum crime, De que foi causa a verdade;
Pois que vos não dão desvelos Louvores, que préza a gente, Eu vou, Senhor, suspendellos; E vou dar-vos novamente Motivos de merecellos.
A minha longa fadiga Já sabeis qual he, Senhor; Levai-me a bem, que a não diga; Deixai-me poupar a dôr De abrir huma chaga antiga.
Pintar Irmans desgrenhadas Co'as creanças innocentes. Nos débeis braços alçadas, E de lagrimas ardentes, Quasi sem fruto, banhadas.
Mostrar-lhe os olhos magoados, Onde inutil pranto assiste, Immoveis no chão pregados, Nutrindo hum silencio triste, Falsa paz dos desgraçados;
Contar-vos, que entre os Irmãos, Diz o bom Pai, com ternura, Que ao Ceo levantem as mãos; Que assim se emenda a ventura, E não com queixumes vãos:
Que he do espirito fraqueza Perder suspiros no vento; Que venção a natureza; Que fação co'soffrimento Honroza a dura pobreza;
Não lhe ver de dor sinais; Ter no rosto olhos serenos, E no peito agudos ais; Que porque se escutão menos, Por isso me córtão mais:
Dar-vos huma inteira idéa Da desgraça minha, e delles, Pintura de pranto chêa; Se he preciza, he para aquelles, A quem não dóe dor alhêa.
As almas tão bem nascidas, Como a vossa vejo ser, Para serem condoîdas, Não tem precizão de ver Correr sangue das feridas;
Sabeis, que soffro a impiedade De vã fortuna traidora; Mudai pois de heroicidade; Vinde pleitear agora A cauza da humanidade;
Por vós tirar não podeis Penas, que a alma me abafárão; Mas ante o Throno valeis; E se o Sceptro vos fiárão, Que vos negarão os Reis?
Reger-lhe os vastos Estados, Ir dar-lhe hum novo esplendor, São feitos famigerados; Mas inda o será maior Ir pedir por desgraçados,
Disse a Cezar o Orador, Que os Soldados tinhão parte No perigo, e no louvor; Que fosse em outro Estendarte Elle só o Vencedor;
Que era, de doce brandura O deixar-se então vencer, Mór victoria, e mais segura; Onde não tinhão poder Nem ferro, nem má ventura.
Vencei vós sem ter Soldados; Fazei de dias de dor Dias bemaventurados; E possa essa mão, Senhor, Mais do que podem meus fados;
Claros Avós imitastes, Que o Mundo apenas abrange; No berço palmas achastes; Dos Heróes que vio o Gange, O sangue, e as acções herdastes;
Remotos Povos vencêrão, E mares bravos abrindo; As Quinas desenvolvêrão; Ante eles o Gange, e o Indo, Tintos de sangue corrêrão.
Vós, que em obras semelhantes Fostes ser a Copia honroza Do que elles fizerão d'antes, Na série maravilhoza Das vossas acções brilhantes;
Consenti, que a larga historia, Que Almeidas levanta aos Ceos, Lhes deixe no Altar da Gloria Pendente, entre os mais Troféos, Huma negra Palmatoria.
_A' Illustrissima, e Excellentissima Senhora Condeça de Tarouca, na occasião do seu Casamento_.
Senhora, o Forte da Estrella, Chorando o bem que perdeo, Das suas justas saudades Por portador me escolheo;
Quiz que eu viesse contallas Ao som desta rouca Lyra, De longos annos affeita A acompanhar quem suspira;
Não fallo nos ternos Pais; Nelles a alta Jerarquia Tempéra saudozo pranto Com o pranto da alegria;
Ao nome dos seus Passados Planos caminhos achárão, Unindo ao sangue de Heróes O sangue de Heróes que herdárão;
Não fallo no amavel Conde; Esse não faz compaixão; Tem seges, tem bons cavallos, Tem o remedio na mão;
Sobre rápidos ginetes, Quebrando a dura calçada, Com o Francisco a reboque, Andará sempre na estrada;
Tambem das caras Irmans Não venho as mágoas pintar; Co'a terna Mãi muitas vezes As virão desafogar;
Fallo da triste Familia, Que em amoroza manîa Accuza o Ceo, que vos deo Formozura, e Fidalguia;
Dons, de seu mal cauzadores; E que deixão coroado, Na mais illustre Conquista, O mais ditozo Soldado;
Ralham delle a toda hora; Foi cauza do seu tormento; Elogião, e praguejão Seu alto merecimento;
Se he Soldado, siga a Guerra, E as funestas glorias della; Ataque milhões de Fortes, Mas deixe em paz o da Estrella;
Tem figura, tem talentos; Tem alta Estirpe preclara; Oxalá que assim não fosse, Ella então o desprezára; =
Mas, Senhores, perdoai-lhes; A's vezes na grande dor Fallão palavras de raiva A linguagem de amor;
O Silva, o Authomato honrado,[1] Anda mais abstracto, e mudo; Põe o doce antes da sôpa; Queima o Café, quebra tudo;
[Nota de rodapé 1: Copeiro.]
O hirsuto, austéro Rodrigues, Semblante de poucas pazes, Desafoga a sua dor, Dando murros nos rapazes;
Vossa Aya, de tres idades, Em canto escuro assentada, Vos manda calado pranto, N'um cobertor abafada.
Outras vezes esquecida De quanto seu Fado he crú, No queixo ajustando o lenço, E sobrepondo o bajú:
Ergue ao ar cansados ossos; E sem temer ventos frios, Tirando-lhe Amor o pezo Dos gelados pés tardios;
Do bom costume enganada, E com a uzada cautela, Para dar, e ter, bons dias, Vos vai abrir a janela;
A janela a desengana; Renova-lhe a dor no peito; Chama em vão o vosso nome, Abraçando hum ermo leito.
Do peito das mais Creadas A saudade se não risca, Desde as Ayas ralhadoras, Té á ladina Francisca.
E pois que o sangue de Reis, Pois que a Augusta Ceremonia, Bem a pezar das Creadas, Vos trouxe a Santa Apollonia;
Ide, Senhora, mil vezes Curar-lhes a fresca chaga; Seu pranto he filho de amor, E amor com amor se paga;
Na rica, airoza Berlinda, Dando ao digno Espozo parte, Aos patrios lares vos leve Amor nos braços de Marte.
O Téjo, abaixando as ondas, Vossos pés virá beijar; Vai das Ninfas que creou, Ver a Ninfa Tutelar.
Os Prazeres com os Rizos Sejão a vossa equipagem; Revôem em torno as Graças, De quem sois a inveja, e a imagem:
Entrai nos tectos dourados, Hoje lugar de saudade; Ide, dos braços do Amor, Lançar-vos nos da Amizade;
Levai-nos as doces noites, Em que a voz que se escutava, Sobre as azas da harmonia, Nos nossos peitos entrava;
Quando o Cómico travêsso, Entre geitos, e corcovos, Habilmente arremedava Todos os Muzicos novos,
O triste, calado Cravo; Já não sente a déstra mão; Apenas he perseguido Pelo Senhor Dom João.[2]
[Nota de rodapé 2: Menino.]
Ide, Senhora, levar-nos No vosso rosto a alegria; Fazei á triste Junqueira, O que faz o Sol ao dia;
Mas, Senhora, a minha Muza Tem talvez errado os Cultos; Cuidando ter feito obsequios, Talvez tenha feito insultos;
Dirão, que, trocando as cordas Forão meus sons desiguaes; Que errei em fallar aos Filhos, Sem fallar primeiro aos Pais.
Que podia esta Embaixada Se désse em mais habil mão, Cumprir as leis da Saudade, Sem violar as da razão;
Mas, Penalvas, dito, dito; Defendo o meu sacrilegio; Sois tudo; mas não sois Noivos, E he este o seu privilegio.
_No dia dos Annos da Illustrissima, e Excellentissima Senhora D. Maria de Noronha, hoje Condeça de Valladares_.
Senhora, os pobres vestidos Do vosso humilde Compadre, Não o deixão ir aos Annos Da sua Illustre Comadre;
O conhecido Colete De bordadas guarnições, Encartado ha longo tempo Em Colete das Funções;
Sobre os seus cançados annos, De humido Inverno Assaltado, Cheio de invenciveis manchas Me foi hoje apresentado;
Em vão bemfeitor miôlo Lhe esfrega o quarto offendido; A minha choroza Mana Dá o cazo por perdido;
E se assim me apresentasse A tão alta Companhia, As suas nódoas serião Manchas da seda, e do Dia;
Do Tempo a fôice raivoza Não me dá só hum revéz; Além de me fazer velho, Faz-me tambem descortez;
Mas elle honrou hoje o Mundo; Sois do Mundo ornato, e inveja; Deo hoje mais huma paga A' Illustre Caza de Angêja.
Sua mão, que aperfeiçoa Altos dons da Natureza, A huns lindos, modestos olhos Vai augmentando a belleza;
Altêa a airoza figura Sobre a das Graças moldada; A huma alma a mais digna, e nobre Dá a mais digna morada;
Justo Tempo, eu abençôo O teu poder desigual; E em honra de tantos bens, Eu te perdoo o meu mal;
Cem vezes nas tuas azas Nos mande este dia o Ceo; As Virtudes o consagrem Nos altares de Hymenêo.
E Vós, Illustre Senhora, Perdoai Coletes rotos; Valem mais, que inuteis sedas, Puro incenso, puros votos;
Quiz mandallos em bons versos; Suou em vão meu topete; Fui achar a minha Muza Como achei o meu Colete.
_A' Illustrissima, e Excellentissima Senhora Marqueza de Alegrete, quando lhe nasceo huma Filha_.
Senhora, he couza sabida, Que aos Deozes não são vedados Os escondidos segredos Do escuro livro dos Fados;
E pois que em tempos antigos Já tive alguma valia Co'aquelle, a quem coube em forte O governo da Poezia;
Não esperando do Tempo O vagarozo progresso, E desejando augurar-vos O vosso feliz successo;
Na raiz do alto Parnazo, Curvando o humilde joelho, Exclamei = Se aqui se escutão Votos de hum Poeta velho,
Não te peço, esquivo Apollo, Teus verdes, sagrados loiros; Não aspirão a coroas Desta testa os velhos coiros;
Abre, sim, a densa nevoa Do vindoiro tempo escuro; E ante meus ávidos olhos Rasga as sombras do futuro;
Saiba meu justo dezejo Quanto o destino promette Aos nossos ardentes votos, E aos da assustada Alegrete;
O Deos, que nunca em mim vio De Odes moiras a manía, Que sem o assumpto honrarem, Lhe deshonrão a Poezia;
Que em Oiteiros de Oratorio Não lhe puz a Lyra ao frio, Arriscando-a a ter por paga Ou pedrada, ou assobio;
E muito mais porque vio, Que da minha petição Erão sagrados motivos A amizade, e a gratidão;
Fez fuzilar em meus olhos Nova luz, vedada, e pura; E de tudo o que então vi, Vos vou fazer a pintura.
Vi, Senhora, as loiras Graças Com doce, e rizonho aspeito, Tecendo engenhozas danças Em torno de hum aureo leito;
E abrindo as ricas Cortinas Trazerem nos castos braços O digno, e precioso Fruto De Illustres, sagrados laços.
Sobre o mimoso semblante, Em que os seus dons inspiravão, Dos mais altos Pertendentes, Mil suspiros auguravão;
Os Prazeres sobre as azas O berço lhe rodeavão; Fortuna lhe abria os cofres, As Virtudes a embalavão;
Vi Penalvas, vi Angejas, Que aos Ceos mil hymnos mandavão; Aos Ceos, que as duas Familias Novamente abençoavão:
Vi a roda das Creadas, Que á Menina dando vai, Humas, os olhos da Mãi, Outras, a boca do Pai;
Mas Apollo aqui fechando As altas couzas futuras, E deixando o pobre velho Alegre, mas ás escuras;
Me disse = Conta o que viste; O mais, em tempo vindoiro, Fiel, apurada historia, O dirá em letras de oiro;
Corri: mas trémulas pernas Tem sempre estrada comprida; E pois acho a profecia, Gradas aos Ceos, já cumprida,
Beijo respeitozamente Estas faixas, que envolvêrão Aquella, a quem dão a vida Os que a minha protejêrão;
= Recebe, oh Recem-nascida, Terno amor, alto respeito; Teus Avós, teus claros Pais Te derão este direito;
E tu, Formoza Alegrete, Que depois de erguida a meza, Ficavas co'as velhas Aias De mágicos filtros prêza;
Quando eu a teus pés contava, Mentirozo historiador, Ora a do Caixão de vidro, Ora a das Cidras do amor;
Quando os mesmos tenros annos A tua Filha contar, Todos os dias virei Meu officio exercitar,
E em tanto, a pezar do tempo, Que a fronte me vai gelando, Com a rouca Lyra ás costas Pelo Parnazo trepando:
Vou sentar-me entre os Loireiros, Que réga Castalia fria; Onde revôam em bandos Os genios da Poezia;
E co'a testa descuberta A' viração bemfeitora, Traçarei mais dignos versos Do que estes, que ouvis agora;
Com tempo os irei fazendo; O Deos também me fez ver, Que sobre este mesmo assumpto Tenho muito que escrever.
_Na occazião em que o A. hia ver o Varatojo_.
Meu Amigo, duro Amigo, Fatal, rígido Banqueiro, Motivo dos meus pezares, Herdeiro do meu dinheiro;
Em taes termos me deixaste, Que sou deste rancho o nôjo; E co'as lagrimas nos olhos Parto para o Varatojo;
Por ti filho da pobreza, Irei ser naquelle mato, Qual foi São Sebastião, Não na vida, mas no fato;
Vai tu seguindo a fortuna, E leva a bandeira alçada, De tarde na laranginha, A' noite na Arrenegada;
Até que voltando a roda, Mande teu fado inimigo, Que deixes crescer as barbas, E venhas viver comigo:
Vem, e traze o teu baralho, Ministro dos meus destroços; Farei do vicio virtude, Apontando a Padres nossos;
Vem viver entre altas brenhas; Vem curtir as minhas dores; Traze o pranto dos Parentes, Traze as pragas dos Crédores.
Não falla vão Agoureiro, De cujas palavras rias; Meus trabalhos me fizerão Mestre nestas profecias.
Não te fies em ventura; Quem joga, tem o meu fim; Outrem te dará os gostos, Que tu me tens dado a mim.
_Resposta a huma Carta, que em boa Poezia citava o A. por huns Versos, que tinha promettido_.
A tua polida Carta, Que honrou hum Poeta razo, Escrita em pura linguagem, E assignada no Parnazo;
Da mais injusta ambição Traz testemunhos fieis; Possues grossos thezoiros, E citas-me por dez reis?
Quem do doce Anacreonte Bebeo o estilo divino, Quer prostituir seus olhos Co'as Trovas do Tolentino?
Pago, em fim, divida louca; Mas quem quer pontualidade, Cuide tambem em pagar As dividas da Amizade;
Sabes que intento imprimir; E porque o Povo não fuja, Sabio Amigo, emenda, risca, Põe sabão na roupa suja;
Não te vendo falso íncenso; Es Juiz da Confraria; Oxalá que altos negocios Se tratassem em Poezia;
A Paz, a fugida Paz, Voltára seu alvo cóllo; E dera brandos ouvidos A' branda Lyra de Apollo;
Reziste humana cabeça A' mais discreta razão; Mas ao poder da harmonia Não reziste o coração:
Faze, pois, o que eu te peço; Que inda que ha vótos diversos, Se lhe pões a tua lima, Quem morderá nos meus Versos?
Dá-lhe, depois, teus louvores; Comprará toda Lisboa, Se huma vez te ouvir dizer = Que comprem, que a Obra he boa;
Farta-me a bolsa; e se queres Ver tambem minha alma farta, Manda riquezas de Athenas Embrulhadas n'outra Carta.
_Offerecendo hum Perum em caza, aonde todos os Domingos davão ao A. este prato_.
Senhora, tambem hum dia Entrarei co'a frente erguida; Não serei na vossa meza Dependente toda a vida;
Nem sempre abatido pejo Dirá nesta cara feia Quanto doe a hum peito altivo Matar fome em caza alheia;
Airozo, gordo Perum, He meu soberbo prezente; Traz inda as pennas molhadas Co'pranto da minha gente;
No Santo Dia esperavão, Quebrando antigo jejum, Cravar inexpertos dentes Neste primeiro Perum;
A russa, magra Jozefa,[3] Ergueo queixume sentido; Custou-lhe mais esta auzencia, Que a do defunto Marido.
[Nota de rodapé 3: Creada.]
O loiro, alvar galleguinho Chegou aos olhos seu trapo; Tinha vistas sobre a carne, E muitas mais sobre o papo.
Seu almôço requerendo Em luzindo a madrugada, Na esquerda, grossa fatia D'ambas as partes barrada;
Na dextra, com branda cana O seu pupîlo guiava; Em tenras, públicas malvas, Para si o apascentava;
Quando lhe mandei trazer-vos O bom companheiro seu, Pedindo-me côxos mezes, Me disse, que o trouxesse eu.
Eu o trago; a offerta he pura, Mas a tenção a envenena; Traz escondida huma uzura, Maior, que a da meia sena.[4]
[Nota de rodapé 4: Partido de jogo.]
Com hum sorrizo acceitai O atraiçoado convite; Vem a morrer huma vez, Porque muitas resuscite.
Curai todos os Domingos A minha doença interna; Sobre a meza milagroza Seja esta ave, huma ave eterna;
De outra, que finge a Poezia, Trocai em verdade a pêta; E seja hum negro Perum A Fenis deste Poeta;
Na ondada, pia toalha, Co'a benção da vossa mão Seus frios, despidos ossos, De carne se cubriráõ;
Consenti, que este ouco peito Ao prodígio se consagre; E que dentro em si colloque A mór parte do milagre;
Quanto ao Padre Prégador,[5] Meu voto he não convidallo; Porque ha de comer o assumpto, Muito melhor que prégallo.
[Nota de rodapé 5: Capellão da Caza.]
_A huma Preta, que pertendia que a obsequiassem_.
Domingas, debalde queres, Nesse canto da Cozinha, Vencer a invencivel teima Da rebelde carapinha;
Em vão te arripia a frente, De que zomba o Deos de Amor, Alvo côto de pomada, Furtado do Toucador;
Debalde tufado laço De atadeira fitta Ingleza Te assombra a lêveda pôpa, Rissada por natureza.
Debalde altêas as ancas, Esguias, e enganadoras, Co'as velhas algibeirinhas, Que vão deixando as Senhoras,
Amor, fingindo dotar-te, Te poz, com traidora mão, Junto dos dentes de neve, Faces tintas de carvão;
Inda que ancião pezado, Desprézo teus vãos intentos; Debaixo de murchas cans Nutro altivos pensamentos.
Vejo a quebrada madeixa Já tornada em gêlo frio; Tudo o tempo me levou, Mas não me levou o brio.
Debaixo da Zona Ardente Jurar-te-hia amor, e fé; Mas não tem culto na Europa As Deidades de Guiné;
Se ás vezes te ponho os olhos, Não he de amor sinal certo; São dezejos de levar-te A' caza de João Alberto.[6]
[Nota de rodapé 6: Comprador.]
A engomada cazaquinha Te descobre novas faltas; Para outro corpo foi feita, Dizem-no as feições mais altas.
Já n'outros pés teus çapatos Soffrêrão do tempo o açoite; Cansada, fendida sêda, Mostra dedos côr da noite;
E pois que a Amor queres dar-te, Eu te aponto hum Xafariz, Onde aches dignos amantes Assentados em barris;
Acharás o Pai Francisco, Homem a bulhas contrario, Já duas vezes Juiz Na Irmandade do Rozario;
Acharás o forro Antonio, Que o tabaco, e vinho enjôa; E tem nos calmozos Junhos Caiado meia Lisboa;
Verás esbelto Crioilo, Dado ao vento o peito nû, Levantando airosos saltos No manejo do barubû;
Que ávidos cães enxotando, Tem, com braço arregaçado, Nas êrmas praias do Téjo Cem cavallos esfolado;
Nestes, vaidoza Domingas, Assenta bem teu amor; Chovão settas de teus olhos Em peitos da tua côr;
Vai da janella da escada Acolher, com doce agrado, Os suspiros que te envião, Ao som do londum chorado;
E deixa de atormentar-me Com tuas loucas idéas; Também sinto dores proprias, E escuto pouco as alhêas;
Sim, Domingas, nós marchamos Na mesma infeliz estrada; E do amor, que eu te não pago, Assaz estás bem vingada;
Tu puzeste em mim teus olhos, E eu fui pôr em Marcia os meus; Que me paga mil extremos, Assim como eu pago os teus;
Marcia, que em alçando os olhos, Mil settas nesta alma crava; E em cuja caza tu tens A dita de ser escrava;
Tens-me a mim por companheiro; Temos o mesmo Senhor; Tu, por cazos da fortuna, Eu, por castigo de Amor;
E pois que eu não posso amar-te, Seguirás melhor esteira, Se de meus ternos suspiros Quizeres ser mensageira;
Em vendo que ella está só, Vai-lhe expôr a paixão minha; Eu peço a Amor, que entretanto Tóme conta na cozinha;
Amor lavará teus pratos, E escumará a panella, Em quanto tu a seus pés Dizes, que eu morro por ella;
Teus grossos, trombudos beiços, Lhe vão expôr meus cuidados; Hão de ser melhor ouvidos, Que sendo por mim contados;