Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Part 9

Chapter 93,679 wordsPublic domain

Fortuna, emfim, co'o Amor se conjurou Contra mi, porque mais me magoasse: Amor a hum vão desejo me obrigou, Só para que a Fortuna mo negasse. O tempo a tal estado me chegou; E nelle quiz que a vida se acabasse; Se ha em mi acabar-se, o qu'eu não creio; Que até da muita vida me receio.

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EPISTOLA II.

Como nos vossos hombros tão constantes (Principe illustre e raro) sustenteis Tantos negocios arduos e importantes, Dignos do largo Imperio, que regeis; Como sempre nas armas rutilantes Vestido, o mar e a terra segureis Do pirata insolente, e do tyrano Jugo do potentissimo Othomano;

E como com virtude necessaria, Mal entendida do juizo alheio, Á desordem do vulgo temeraria Na santa paz ponhais o duro freio; Se com minha escriptura longa e vária Vos occupasse o tempo, certo creio Que com vagante e ociosa phantasia Contra o commum proveito peccaria.

E não menos sería reputado Por doce adulador, sagaz e agudo, Que contra meu tão baixo e triste estado Busco favor em vós que podeis tudo, Se contra a opinião do vulgo errado Vos celebrasse em verso humilde e rudo. Dirão, que com lisonja ajuda peço Contra a miseria injusta que padeço.

Porém, porque a verdade póde tanto No livre arbitrio, (como disse bem Ao Rei Dario o moço sabio e santo, Que foi reedificar Hierusalem) Esta m'obriga a qu'em humilde canto, Contra a tenção que a plebe ignara tem, Vos faça claro a quem vos não alcança; E não de premio algum vil esperança.

Romulo, Baccho e outros que alcançárão Nomes de semideoses soberanos, Em quanto por o mundo exercitárão Altos feitos, e quasi mais que humanos, Com justissima causa se queixárão Que não lhes respondêrão os mundanos Favores do rumor justos e iguaes A seus merecimentos immortaes.

Aquelle, que nos braços poderosos Tirou a vida ao Tingitano Anteo, E a quem os seus trabalhos tão famosos Fizerão Cidadão do claro ceo; Achou que a má tenção dos invejosos Não se doma, senão despois que o véo Se rompe corporal: porque na vida Ninguem alcança a glória merecida.

Pois logo, se Barões tão excellentes Forão do baixo vulgo molestados, O vituperio vil das rudas gentes, He louvor dos Reaes, e sublimados. Quem no lume dos vossos Ascendentes Poderá pôr os olhos, que abalados Lhes não fiquem da luz, vendo os maiores Vossos passados, Reis e Imperadores?

Quem verá aquelle Pae da Patria sua, Açoute do soberbo Castelhano, Que o duro jugo só, co'a espada nua, Removeo do pescoço Lusitano, Que não diga: Ó grão Nuno, a eterna tua Memoria causará, se não m'engano, Que qualquer teu menor tanto s'estime, Que nunca possa ser senão sublime?

Nisto não fallo mais, porque conheço Que da materia se me baixa o engenho. Mas, pois a dizer tudo m'offereço, E dias ha que no desejo o tenho, Sendo vós de tão alto e illustre preço, A vida fostes pôr n'hum fraco lenho, Por largo mar e undosa tempestade, Só por servir á Regia Magestade.

E despois de tomar a redea dura Na mão, do povo indomito qu'estava Costumado a larguezas, e á soltura Do pezado govêrno que acabava; Quem não terá por santa e justa cura, Qual do vosso conceito s'esperava, A tão desenfreada enfermidade Applicar-lhe contrária qualidade?

Não he muito, Senhor, se o moderado Govêrno se blasphema e se desama; Porque o povo á largueza costumado, Á lei serena e justa, dura chama. Pois o zelo em virtude só fundado De salvar almas da Tartarea flama Com a ágoa salutifera de Christo, Poderá por ventura ser malquisto?

Quem quizesse negar tão grã verdade, Qual he o seu effeito santo e pio; Negue tambem ao sol a claridade, E certifique mais que o fogo he frio. Se o successo he contrário da vontade Nas obras que são boas, e ha desvio; Está nas mãos dos homens comettellas, E nas de Deos está o successo dellas.

Sei eu, e sabem todos que os futuros Verão por vós o Estado accrescentado, Serão memoria vossa os fortes muros Do Cambaico Damão bem sustendado: Da ruina mortal serão seguros, Tendo todo o alicerce seu fundado Sôbre orfãas amparadas com maridos, E pagos os serviços bem devidos.

Quãmanha infamia ao Principe he perder-se Pouco do Estado seu, que inteiro herdou, Tanto por glória grande deve ter-se Se accrescentado e próspero o deixou. Nunca consentio Roma ennobrecer-se Com triumphos alguem, se não ganhou Provincia com que o Imperio s'augmentasse, Por maiores victorias qu'alcançasse.

Póde tomar o vosso nome dino Damão, por honra sua clara e pura, Como ja do primeiro Constantino Tomou Byzancio aquelle qu'inda dura. E tu, Rei, que no Reino Neptunino, Lá no seio Gangetico a Natura Te aposentou, de ser tão inimigo Deste Estado não ficas sem castigo.

Bem viste contra ti nadantes aves Cortar a espumosa ágoa navegando; Ouviste o som das tubas, não suaves, Mas com temor horrifero soando; Sentiste os golpes asperos e graves Do Lusitano braço nunca brando. Não soffreste o grão brado penetrante, Que os trovões imitava do Tonante.

Mas antes dando as costas e a victoria Á Bragancez ventura não corrido, Déste bem a entender quão grande glória He de tal vencedor o ser vencido. Quem faz obras tão dignas de memoria Sempre será famoso e conhecido, Onde os altos juizos o estimarem, Qu'estes sós tee poder de fama darem.

Não vos temais, Senhor, do povo ignaro, Tão ingrato a quem tanto faz por elle; Mas sabei qu'he signal de serdes claro O ser agora tão malquisto delle. Themistocles, da patria sua amparo, O forte e liberal Cimon, e aquelle Que Leis ao povo deo d'Esparta antigo, Testimunhas serão de quanto digo.

Pois ao justo Aristídes hum robusto, Votando no ostracismo costumado, Lhe disse claro assi: Porque era justo Desejava que fosse desterrado. Pachitas por fugir do povo injusto Calumnioso, dando no Senado Conta de Lesbos, qu'elle ja mandára, Se tirou co'o seu ferro a vida chara.

Demosthenes, lançado das tormentas Populares, Ó Pallas! foi dizendo, Que de tres monstros grandes te contentas, Do drago e moucho, e do vil povo horrendo! Que glórias immortaes houve, qu'isentas Do veneno vulgar fossem, vivendo? Pois mil exemplos deixo de Romanos, E vós tambem sois hum dos Lusitanos.

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EPISTOLA III.

Mui alto Rei, a quem os Ceos em sorte Derão o nome augusto e sublimado Daquelle Cavalleiro que na morte, Por Christo, foi de settas mil passado; Pois delle o fiel peito, casto e forte, Co'o nome Imperial tendes tomado, Tomae tambem a setta veneranda Que a vós o Successor de Pedro manda.

Ja por ordem do Ceo, que o consentio, Tendes o braço seu, reliquia chara, Defensor contra o gladio que ferio O povo que David contar mandára. No qual, pois tudo em vós se permittio, Presagio temos, e esperança clara, Que sereis braço forte e soberano Contra o soberbo gladio Mauritano.

E o que hum presagio tal agora encerra, Nos faz ter por mais certo e verdadeiro A setta, que vos dá quem he na terra Dos celestes thesouros Dispenseiro: Que as vossas settas são na justa guerra Agudas, e entrarão por derradeiro (Cahindo a vossos pés povo sem lei) Nos peitos que inimigos são do Rei.

Quando vossas bandeiras despregava Albuquerque fortissimo com glória Por as praias de Persia, e alcançava De Nações tão remotas a victoria; As settas embebidas, que tirava O arco Armusiano (he larga historia) Nos ares, Deos querendo, se viravão, Pregando-se nos peitos que as tiravão.

O querido de Deos, por quem peleja, O ar tambem e o vento conjurado Ao atambor lhe acodem, porque veja Que o que a Deos ama, he de Deos amado: Os contrarios revéis á Madre Igreja Atroarão co'o tom do Ceo irado. Que assi deo ja favor maior que humano A Josué Hebreo, Teodosio Hispano.

Pois se as settas tiradas da inimiga Corda, contra si só nocivas são, Que farão, Rei, as vossas que tee liga Com a que ja tocou Sebastião? Tinta vem do seu sangue, com que obriga A levantar a Deos o coração, Crendo bem que as que vós despedireis, No sangue Sarraceno as tingireis.

Ascanio, (se trazer me he concedido Entre santos exemplos hum profano) Rei do Imperio, despois tão conhecido, De Roma, e só reliquia do Troiano, Vingou com setta e ânimo atrevido As soberbas palavras de Numano; E logo foi dalli remunerado Com louvores de Apollo, e celebrado.

Assi vós, Rei, que fostes segurança De nossa liberdade, e que nos dais De grandes bens certissima esperança; Nos costumes, e aspecto que mostrais, Concebemos segura confiança Que Deos, a quem servis e venerais, Vos fara vingador dos seus revéis, E os premios vos dará que mereceis.

Estes humildes versos, que pregão São destes vossos Reinos com verdade, Recebei com benigna e Real mão, Pois he devida a Reis benignidade. Tenhão (se não merecem galardão) Favor sequer da Regia Magestade: Assi tenhais de quem ja tendes tanto, Com o nome e reliquia, favor santo.

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EPISTOLA IV.

Senhora, s'encobrir por algum'arte Pudera esta occasião de meu tormento, Não creias que chegára a declarar-te Este meu perigoso pensamento. Mas por mais que te offenda, não sou parte No crime de tamanho atrevimento: Elle he d'amor; e delle fui forçado A que te declarasse o meu cuidado.

Se merece castigo a confiança Com que descubro agora o que padeço, Aqui prompto me tens; toma a vingança Que por tão grave culpa te mereço. Bem me podes negar toda esperança, Mas eu não desistir deste comêço; Porque tempo e Fortuna não são parte Para deixar hum'hora só de amar-te.

Ja que ver-te os meus olhos alcançárão, Descansem neste bem com alegria, Pois ja com ver os teus tanto ganhárão, Quanto, estando sem vê-los, se perdia. Que glória querem mais, se a ver chegárão Aquella pura luz que vence ao dia? Qual mor bem ha no mundo que querer-te, Se não ha mais que ver despois de ver-te?

Minhas dores mortaes, bella Senhora, Tirárão a virtude ao soffrimento; E fazendo-se mais em qualquer hora, Levando vão traz ti meu pensamento: Porém soberbos vejo desde agora, Por a causa gentil de seu tormento, Minha alma, meu desejo, meu sentido, Porque á tua belleza se hão rendido.

A par de tua rara formosura Se desconhece o mor merecimento; A tua claridade torna escura Do sol a clara luz em hum momento. Se Zeuxis ao formar bella figura, A vista em ti pudera pôr attento, Mais alto original houvera achado Para admirar o mundo co'o traslado.

Aquelles qu'escrevêrão mil louvores De formosura, graça e gentileza, Todos forão, Senhora, huns borradores De tua perfeitissima belleza. Agora se vê claro em teus primores Qu'em ti s'esmerou mais a natureza; E qu'erão os seus cantos prophecias Do que havias de ser em nossos dias.

Vê, pois, se vinha a ser culpavel falta Em mi o não render-te amante a vida, E se deixar d'amar glória tão alta Era digno da pena mais crescida. Emfim, eu te amarei; que Amor m'exalta Co'o castigo de culpa assi atrevida: E quando della caia, maior glória Tera o Tejo, que o Pó, com sua historia.

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OITAVAS.

GLOSA DO SONETO 14.

Despois que a clara Aurora a noite escura Com novo resplandor foi desfazendo, E Phebo por os montes e espessura Os seus dourados raios estendendo; Se buscava nos valles a verdura O manso gado a luz serena vendo, Quando a férvida sésta ja abrazava, _Todo animal da calma repousava._

Ja por fugir do sol o fogo ardente, As sombras os rebanhos vão buscando; Os tenros cabritinhos juntamente Apos as mansas mães hião saltando; Tangendo as suas frautas docemente Os pastores, estavão enganando A grã chamma solar qu'então ardia; _Só Liso o ardor della não sentia._

Tristes lembranças tanto o traspassavão, Que a dura sésta nelles só passava; O tempo qu'em prazer outros gastavão, Em celebrar seu mal elle o gastava; As festas que com jogos celebravão, Elle com suspirar as celebrava: Nada buscava mais, mais não queria _Que o repouso do fogo em qu'elle ardia._

Os repetidos jogos dos pastores, As lutas entre a rama repetidas, Em nada lhe divertem suas dores; Mas antes n'alegria as vê crescidas. Como o repouso roubão os amores Ás almas que para elles são nascidas, Elle, todo o repouso qu'esperava, _Consistia na Nympha que buscava._

Com o chôro, que ja corria em fio Por o pallido rosto, augmenta as fontes, Que levão ágoa estranha ao claro rio Que os valles vai regando entre altos montes. Com suspiros a quem o ecco pio Responde de apartados horizontes, Os ventos parecia qu'enfreava, _Os montes parecia que abalava._

Que ás queixas de seus doces pensamentos Se movessem os montes mais constantes, Se parassem os mais veloces ventos, Qu'estavão, que corrião circumstantes, Bem se devia á dor de seus tormentos, E inda que fosse em peitos de diamantes; Que hum peito de diamante abrandaria _O triste som das mágoas que dizia._

Porém elle as dizia a outro peito, Mais, que diamante, inexpugnavel, duro: A fé lh'encarecia, a que sogeito O tinha em pena eterna o amor puro; Mostrava-lhe este n'alma mais perfeito, Quanto mais offendido, mais seguro: A Nympha mais segura tudo ouvia, _Mas nada o duro peito commovia._

As lástimas aqui tanto crescêrão, Que s'em montes de Hircania s'escuitárão, Tigres nos seios seus mover puderão, E pedras nos seus cumes abrandárão. Mas se no peito as tristes vozes dérão Daquella fera humana que buscárão, Elle d'as admittir se retirava; _Que na vontade de outro pôsto estava._

Desenganado ja da triste sorte, De que mal fino amor se desengana, Com a desperança só de sua morte Aquellas penas últimas engana. Deixando na espessura o claro Norte, Para elle de outra luz mais soberana, A hum valle aberto então sahir procura, _Cansado ja de andar por a espessura._

Deixando as suas cabras que pascessem Naquelle verde prado as frescas flores; Porque os Satyros leves o soubessem, E os sylvestres Faunos amadores; Tambem porque os pastores o entendessem, Todo o processo e fim de seus amores Escreveo (sem em nada haver mudança) _No tronco d'huma faia por lembrança._

Por lembrança no tronco d'huma faia, Que vai sahindo ao ceo de puro altiva Na verde, prateada e aurea praia, Por onde o claro Tejo se deriva; Porque tambem ao ceo sua dor saia Sôbre aquella corrente fugitiva, Escrita no papel da natureza; _Escreve estas palavras de tristeza:_

Natercia, Nympha bella, por quem vivo Em tal tormento, tempo algum me olhou; Mas des qu'em mi sentio qu'era captivo Daquelle brando olhar que m'enganou, O amor tornava em desamor esquivo; E d'hum tormento tal a outro passou. Em cousas tão sujeitas a mudança _Nunca ponha ninguem sua esperança._

Para dar proveitosos desenganos Dos enganos que são de Amor effeitos, E dos dous sexos publicar, humanos, A origem das mudanças de seus peitos; Estas letras aqui por longos anos Digão a corações a amar sujeitos Em peito varonil, que de ventura, _Em peito feminil, que de natura..._

Faltou-lhe aqui o alento, e ja cansado Cahio ao pé da faia em qu'escrevia, Não podendo seguir o começado, Porque a alma ja do corpo lhe sahia. Tres vezes, com accento mal formado, Para exemplo futuro repetia: Amantes, entendei que a mór belleza _Somente em ser mudavel tem firmeza._

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GLOSA DO SONETO 194.

_Cá nesta Babylonia adonde mana_ Hypocrisia, engano e falsidade; Cá donde ousada toda carne humana A todo arbitrio vive da vontade; Cá donde enrouqueceo da Lusitana Musa o furor heroico e suavidade; Cá donde se produz por cega via _Materia a quanto mal o mundo cría_;

_Cá donde o puro Amor não tee valia_, Porque Baccho o tee hoje desterrado; Cá donde a frecha d'ouro não feria, Senão cabello preto e alfenado; Cá donde a loura trança não se via, Nem o rosto de sangue matizado; Cá donde nada val a glória humana, _Que a mãe, que manda mais, tudo profana_;

_Cá donde o mal se affina, o bem se dana_, Se algum a terra em si quer produzir; Cá donde a falsa gente Mahometana A glória toda funda em adquirir; Cá donde multiplica a mão tyrana, Professa em mais crescer, matar, mentir; Cá donde o fazer bem he villania, _E póde mais que a honra a tyrannia_;

_Cá donde a errada e cega Monarchia_ De fabulosas leis está vivendo, E á fôrça d'hum amor engrandecia O nefando Alcorão em qu'está crendo; Cá donde nada val a Poesia, E s'está da lei della escarnecendo; Cá donde a fidalguia Mahometana _Cuida qu'um nome vão a Deos engana._

_Cá nesta Babylonia, onde a Nobreza_ Da Lusitana gente se perdeo; E do grão Sebastião toda a grandeza Irreparavelmente se abateo; Cá donde algum mentir não he baixeza, E os meritos esmola (assi cresceo Da cobiça mortal a semrazão) _Co'o esfôrço e saber, pedindo vão._

_Ás portas da cobiça e da vileza_ Estes netos de Agar estão sentados Em bancos de torpissima riqueza, Todos de tyrannia marchetados. He do feio Alcorão summa a largueza Que tee para que sejão perdoados De quantos erros commettendo estão _Cá neste escuro cáos de confusão._

_Cumprindo o curso estou da natureza_, Illustre Dama, neste labyrintho; Mas quem usa comigo mais crueza, He tua condição, que n'alma sinto. Acabe-se algum dia tal tristeza, E este sentido mal qu'em versos pinto: E pois n'alma he sentido e coração, _Ve se m'esquecerei de ti, Sião._

* * * * *

A SANTA URSULA.

D'huma formosa virgem desposada, Que d'outras onze mil, tambem formosas, Entrou no claro Olympo acompanhada, Com corôas de lyrios e de rosas; De Christo Esposo seu tão namorada, Que delle as quiz fazer todas esposas; Amor, vida e martyrio cantar quero, Fiado no favor que della espero.

Alcança, Ursula bella, (que diante De tão bello esquadrão foste por guia) De teu suave Amor, que de ti cante O seu amor que no teu peito ardia. Meu verso para ti mais se levante, Ó Christifera, ó heroica companhia; Tanto se mostre aqui mais soberano, Quanto o divino Amor excede o humano.

E vós, unica Mãe e Virgem pura, Pois sois das que tal ordem escolhêrão, Que fostes, sois, sereis guarda segura Da pureza que a Deos offerecêrão; Neste canto me dae melhor ventura Do que atégora as Musas vãas me derão: Vossas servas serão de mi servidas, Cantadas suas mortes, suas vidas.

Serenissima Infante, produzida Do grão Tronco Real, sublime Planta; No titulo, nas obras e na vida, Retrato natural de Ursula Santa, Desta virgem, tambem de Reis nascida, Ouvi com ledo rosto o que se canta; Dae o sentido hum pouco a tal sogeito: Não lhe tire seu preço o meu defeito.

No tempo que Ciriáco se sentava Na Cadeira de Pedro pescador, De que com sãa doutrina apascentava As Ovelhas de Christo, Bom Pastor; Teve Bretanha hum Rei, que professava A Lei que deo no mundo o Redemptor, Justo e temente ao Ceo, pio e devoto, Chamado Mauro d'huns, e d'outros Noto.

De virtudes hum novo exemplo e raro, Em idade e belleza florecia Ursula, por quem Noto era mais claro, Que por todo o poder que possuia; Com quem em nada o Ceo quiz ser avaro, Com quem todas as graças repartia; Prudente, honesta e docta a maravilha, De tão ditoso pae ditosa filha.

Aquella que por o ar com ligeireza As pennas de mil azas abre e cerra, E que com velocissima presteza Com outros tantos pés corre por terra; Aquella, que de sua natureza Não cuida em quanto diz se acerta ou erra, E d'huma em outra boca se derrama: Aquella, emfim, a quem chamamos Fama;

Hia por todo o mundo divulgando Extremos desta virgem soberana, Aquella formosura celebrando Com que Amor cego a tanta vista engana: Mais hia a d'alma sua publicando, Porqu'era mais divina do que humana: Ja d'huma, e d'outra ja dizia tanto, Qu'em huns criava amor, n'outros espanto.

Ouvidos seus louvores, muitas vezes Desejou desta virgem fazer nora Hum Rei que o sceptro tinha dos Inglezes, Idolatras então, cegos agora. Ó povo cego e leve! as torpes fezes Aparta do ouro puro e lança fóra, Torna-te ao teu pastor, perdido gado! Ólha que vás sem elle mal guiado.

Hum filho deste Rei (de quem dizia Que ser de Ursula sogro desejava) Movido do rumor que della ouvia, Ja dentro no seu peito a namorava. Alli seu amor, delle, lhe offrecia; Alli por o amor della suspirava. Suspira elle por ella; ella suspira Tambem por outro amor que nunca vira.

Mandou o Rei Inglez Embaixadores Com pompa Regia e lustre sumptuoso, (Do grande Reino seu grandes Senhores) A Noto, Rei não tanto poderoso. Pedio-lhe a bella filha (qu'em amores Ardia toda do celeste Esposo) Para esposa do filho, que sabia Que ja d'amores della todo ardia.

O Rei Bretão se achava descontente Com a nova embaixada de Inglaterra: Receia que se nella não consente, O gentio lhe mova cruel guerra: Porque sendo mais rico e mais potente, Assi no largo mar, como na terra, Quando desprezos visse de seu rôgo, Podia pôr Bretanha a ferro e fogo.

Sôbre este não errado pensamento Do medo de perder seu senhorio, Novo discurso tinha e novo intento, Com que se achava mais medroso e frio. Estranhava o fazer ajuntamento Da catholica filha co'hum gentio; Pois nem a Lei de Christo o permittia, Nem Ursula fiel o admittiria.

Estando o pae em tal angústia pôsto, Divinamente a filha ja inspirada, Lhe assegurava com sereno rosto Que consentir podia na embaixada; Dizendo que se o Inglez levava gôsto D'ella com seu herdeiro ser casada, Primeiro lhe mandasse dez donzellas, Do Reino as mais illustres, as mais bellas.

Que mil daria a cada virgem destas, E que a ella outras mil tambem daria, Todas de claro sangue, e em vista honestas. (Dest'arte a conta de onze mil fazia) Que por trez annos dilação nas festas, Além do ja pedido, lhe pedia; E naos e mantimentos, porque todas Fossem com ella a Roma antes das bodas.

Alli sua pureza e virgindade Queria com solemne e sacro voto Consagrar á divina Potestade, Que o ceo e a terra fez de proprio moto. E que deixasse a vãa gentilidade Seu filho, para genro ser de Noto, Para que neste espaço doutrinado Fosse na Fé de Christo, e baptizado.

Com estas condições Ursula disse Ao charo pae, que, a ser dellas contente, Podia responder; e despedisse A proposta daquelle Rei potente: Ou porque ouvindo-as elle desistisse, Podendo-se acceitar difficilmente; Ou porque, quando as virgens concedesse, Comsigo a seu Senhor onze mil désse.