Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Part 7

Chapter 73,784 wordsPublic domain

E se huma condição endurecida Tambem me nega a morte por meu dano, Oh que doce morrer! que doce vida!

E se me mostra hum gesto lindo humano, Como que de meu mal culpada se acha, Oh que doce mentir! que doce engano!

E s'em querer-lhe tanto ponho tacha, Mostrando refrear o pensamento, Oh que doce fingir! que doce cacha!

Assi que ponho ja no soffrimento A parte principal de minha glória, Tomando por melhor todo tormento.

Se sinto tanto bem só co'a memoria De ver-vos, linda Dama, vencedora; Que quero eu mais que ser vossa victoria?

Se tanto a vossa vista mais namora, Quanto eu sou menos para merecer-vos; Que quero eu mais que ter-vos por senhora?

Se procede este bem de conhecer-vos, E consiste o vencer em ser vencido, Que quero eu mais, Senhora, que querer-vos?

S'em meu proveito faz qualquer partido, Só na vista d'huns olhos tão serenos, Que quero eu mais ganhar que ser perdido?

Se, emfim, os meus espritos, de pequenos, A merecer não chegão seu tormento, Que quero eu mais, que o mais não seja menos?

A causa, pois, m'esforça o soffrimento; Porque, a pezar do mal que me resiste, De todos os trabalhos me contento;

Que a razão faz a pena alegre, ou triste.

* * * * *

ELEGIA VI.

Entre rusticas serras e fragosas, Compostas d'asperissimos rochedos, De salitradas lapas cavernosas;

Onde gretando os humidos penedos Orvalhados de neve branca e fria, Brotando estão de si mil arvoredos;

Huma floresta fez verde e sombria A natureza experta, que rodeia, Como elevado muro, a serrania.

Neste formoso sítio se recreia O lascivo Cupido entre as boninas, Que sempre hum brando Zephyro meneia.

Da candida cecem, das clavellinas, Da salva, mangerona e das mosquetas, Das rubicundas flores hyacinthinas,

Muitas capellas tece, que de setas Lhe servem contra peitos de donzellas, A quem d'inveja traz sempre inquietas.

Não são d'huma só côr as flores bellas; Que humas esmalta verde, outras rosado, Entre as azues crescendo as amarellas.

Dos agrestes loureiros rodeado, Faz o valle huma sombra deleitosa, Quando apparece o sol mais levantado.

E por cima da relva bem graciosa As gottas de crystal quasi imitando Estão do aljofar puro a luz formosa.

As crystallinas fontes, que brotando Por entre alvos seixinhos se derivão, Das árvores os troncos vão banhando.

Entre as limpidas ágoas, qu'inda esquivão O formoso pastor que se perdeo, Preso das falsas mostras que o captivão,

Cresce a por cuja causa s'esqueceo A linda Cytherêa de Vulcano, Quando presa d'Amor se lhe rendeo.

Na brancura do rosto soberano, Inda as crueis feridas apparecem Do javali cerdoso e deshumano.

As rosas que de sangue resplandecem, As candidas boninas marchetadas, Qual roxo esmalte á vista bem se offrecem.

Do matutino orvalho rociadas, As flores rutilantes e cheirosas Estão como por cima prateadas.

Os humidos botões abrindo as rosas, Que os agudos espinhos vão cercando, No prado se vem rindo deliciosas.

A mellifera abelha, susurrando Por cima das boninas que rodeia, Está co'o som das ágoas concertando.

Do trémulo regato a branda areia De jacinthos se cobre e de vieiras, Qu'encrespão da corrente a branca veia.

Os álamos s'abração co'as videiras De sorte, que s'enxérga escassamente Se são os cachos seus, se das parreiras;

E pendendo por cima da corrente, Outro formoso bosque debuxando Estão no fundo della brandamente.

Ouve-se o rouxinol aqui, lembrando Do perfido cunhado a crueldade, Mágoas em melodias transformando.

A solitaria rôla com soidade Desfaz o rouco peito, ja cansada De que não move a morte a piedade.

A domestica Progne anda banhada No sangue de seus filhos, em vingança Da triste Philomela profanada.

De competir co'o merlo não descança O garrulo calhandro, qu'enrouquece Por não perder callado a confiança.

Em quanto o pobre ninho ajunta e tece O sonoro canario, modulando Engana a grave pena que padece.

Alguns versos s'escuta derramando O vário pintasirgo, tão saudaveis, Que produzem memorias d'amor brando.

Por os direitos troncos ha notaveis Epigrammas; alguns d'antigua historia, Que contra o duro tempo são duraveis.

Huns de cruel tormento, outros de glória, Conforme a liberdade do qu'escreve, Estranhos casos mostrão á memoria.

O que neste lugar contente esteve, Contente declarou seu pensamento, E os prazeres tambem que nelle teve.

Mas outros, declarando o sentimento Que dos olhos destila tristes ágoas, Deixárão mil lembranças de tormento.

Abrazando-se alguns em vivas frágoas, Escrevêrão do bosque em muitas partes Gostos d'Amor agora, agora mágoas.

Porque, cruel menino, o premio partes A quem serás[2] tyranno se lho negas, E injusto e desigual, se lho repartes?

Porqu'enganas as almas que tão cegas Arrastas apos ti, de error captivas? Porque a crueis rigores as entregas?

Para que contra hum peito assi t'esquivas, Que humilde se sujeita a teu cuidado, Com enganos de sombras fugitivas?

Levas, como a menino, hum pobre a nado, N'huma apparencia falsa embevecido, Quando co'os braços corta o mar inchado.

Querendo-se tornar, vê-se perdido; Ja grita que se affoga; e tu zombando, Da praia entre os penedos escondido!

O triste, que conhece ir-se affogando, No meio da arriscada zombaria Por divino soccorro está clamando.

Mas eu de que m'espanto, se dizia Hum sabio que d'enganos se temesse O que tomasse a hum cego tal por guia?

Nunca nelle a firmeza permanece; Se nos dá gôsto algum, muda-se logo; Ja chora, ja se ri, ja s'enfurece.

Anda co'os corações sempre em hum jôgo; Humas vezes os faz de pedra fria, Outras os faz de neve, outras de fogo.

Tornando ao bosque meu que descrevia, Despois de ter contado da frescura Que nelle tão pomposa apparecia,

Referir quero agora huma aventura Que nelle ao vão Narciso aconteceo, Digna de se chorar com mágoa pura.

Castigo foi que o moço mereceo Por se mostrar esquivo com aquella, Qu'em viva pedra Juno converteo.

Ardia em fogo d'alma a vãa donzella, Soffrendo hum duro peito; que a Narciso, Quando ella mais se abraza, mais congela.

E quando a fraca Nympha mais de siso Mostrava hum signal certo de firmeza, Então se provocava o moço a riso.

Ja d'huma profundissima tristeza A descora o rigor que a consumia. Como diz desfavor mal com belleza!

O gelado pastor folgava e ria; Mas vendo-a de seu gôsto andar contente, Por não a contentar s'entristecia.

He tal o seu rigor, que não consente Que seja o gôsto proprio festejado; Antes disso se mostra descontente.

Mas o cego Cupido, d'affrontado, Em vingança da fé que desprezou, Fez que fosse de si mesmo enganado.

Casualmente hum dia se chegou A beber n'huma fonte crystallina, Que de si nova sêde lhe causou.

Vendo a sua figura peregrina Que a fonte dentro em si representava, Se perdeo por imagem tão divina.

Como ja, d'enlevado, não cuidava Nos enganos que a sombra lhe fazia, Vendo o formoso rosto, suspirava.

Por as avaras ágoas se metia; E quanto mais molhava os tenros braços, Então mais vivamente o fogo ardia.

Vendo-se assi prender em duros laços, Ao sentimento obriga a paciencia, Dando, fóra de si, ao vento abraços.

Embevecido todo n'apparencia, Sem saber de cuidado o que sentia, Não fez ao doce engano resistencia.

Ao ver-se longe mais, mais perto via O peregrino gesto; e se chegava, Então para mais longe lhe fugia.

Vendo, emfim, como em tudo o remedava Cahio no torpe engano que tivera, A tempo que de si ja preso estava.

A belleza que a tantas morte dera, De si mesma se abraza e se captiva. Quão longe então de si ver-se quizera!

Ella se abranda propria; ella se esquiva; E sendo ella somente a que se amava, Ella se chama ingrata e fugitiva.

A formosura, pois, que namorava, Com tal difficuldade era seguida, Qu'estando dentro em si, mui longe estava.

A solitaria Nympha, qu'escondida Ja nas cavernas concavas se via, Dos males que lhe ouvio foi commovida.

Das namoradas mágoas que dizia O namorado moço, ella somente Os ultimos accentos repetia.

Elle vendo-se estar alli presente, As crystallinas ágoas accusava De que ellas o fazião descontente.

Outras vezes á fonte, quando a olhava, Ja cego, e sem juizo, agradecia A figura que dentro lhe mostrava.

Mas vendo qu'ella em nada se dohia De seu grave tormento, grita e chora. Quanto erra quem de sombras se confia!

Ja lhe pede que saia para fóra. Ignorando que sempre fóra esteve A belleza que nelle proprio mora.

Despois que longo espaço se deteve Nestes queixumes seus tão lastimosos, Que com tão longo ser, julgou por breve;

Co'os olhos, bellos si, mas lagrimosos, Do valle se despede e da espessura, Dando soluços da alma vagarosos.

Entregue na vontade da ventura, Ou, por melhor dizer, de seus enganos, Ao centro se arrojou da fonte pura.

Dest'arte feneceo em tenros anos Narciso, dando exemplo á formosura De que tema, se he tal, tambem seus danos.

Sentimento mostrou da sorte dura O namorado Jupiter, mudando Ao moço em flor purpurea, qu'inda dura.

Aquellas claras ágoas rodeando, Onde por seus amores se perdeo, Está despois da morte acompanhando.

Tanto no seu engano procedeo, Que não sabe na morte inda apartar-se Dos erros que na vida commetteo.

Bem póde o coração desenganar-se, Que o fogo d'hum querer, n'alma inflammado, Não costuma na morte resfriar-se.

Porque despois do corpo sepultado, Prisão onde s'encerra o fraco esprito, Eternamente chora o seu cuidado.

E das escuras ágoas do Cocito A rapida corrente refreando, Celebra o lindo gesto n'alma escrito.

Lá se está co'os favores recreando; E se foi desprezado, lá padece, As duras esquivanças lamentando.

Nem dos avaros olhos lá s'esquece, Que de formoso verde a terra esmaltão, Por não ver os do triste qu'endoudece.

Assi que os desfavores nunca faltão, Até despois da morte perseguindo Hum triste coração que desbaratão.

Triste de quem em vão lhe vai fugindo!

[2] Este terceto foi viciado na cópia e depois, ao que parece, corrigido por mão estranha. A versificação está certa, mas o sentido he absurdo: e se a verdadeira lição não he:

Porque, cruel menino, o premio partes De modo que es tyranno, quando o negas, E injusto e desigual, quando o repartes?

não podemos adivinhar qual seja. _Nota dos Editores._

* * * * *

ELEGIA VII.

Ao pé d'hum'alta faia vi sentado, N'hum valle deleitoso e bem florido, A Almeno, pastor triste e namorado.

Outro no mundo póde haver nascido Mui queixoso de Amor; porém não tanto, Como este amante, por amar perdido.

Ja Venus hia recolhendo o manto Escuro com que a terra se mostrava, Para ajudar d'Almeno o triste pranto.

Apollo sôbre os montes derramava Seus dourados cabellos, que fazião Ao triste inda mais triste do qu'estava.

As flores por o prado s'estendião. E das que finas mais erão as côres, Brancas, roxas, as Nymphas mais colhião.

Ja guiavão seus gados os pastores, Que, deixando-os no campo deleitoso, Com ellas praticavão só d'amores.

Mas era esta alegria hum perigoso Estado para Almeno entristecido; E por isso a deixava pressuroso,

Buscando outro lugar: contra Cupido Claramente exclamava, e o arguia De contrário, d'astuto e fementido.

De quando em quando a frauta que tangia. Numeros dava ao ar tão docemente, Que as aves provocava a melodia.

Cego assi desta dor, deste accidente, Com os olhos em lagrimas banhados, Postos no ceo, dizia tristemente:

Se, Amor, eu te offendi com meus cuidados, Porque mos déste tu para offender-te, Quando livre vivia nestes prados?

Não vês quanto me negas merecer-te O bem que me mostravas, se deixasse Ferir meu coração para soffrer-te?

Qual bem me has dado, Amor, que me durasse? Ou qual me has promettido, que hajas dado? Ou qual déste, que muito não custasse?

Mostra-me quem puzeste em tal estado, Que pudesse viver de ti contente, Ou quem de ti não fosse lastimado?

Inimigo cruel de toda a gente, Ja não quero teu bem, só meu mal quero; Se de ti nem meu mal se me consente.

Inda que de teus bens ja desespéro, Não desprézo dos males o tormento; Antes o prezo mais, quando he mais fero.

Arrebatado deste pensamento Hia o triste pastor com hum contino Pranto, que lhe avivava o sentimento.

Quando entrou n'hum vergel d'esmalte fino, Qu'era de Amor plantado; e parecendo Lhe está menos humano que divino.

Nelle a dor sua esteve suspendendo: Porém não, como cervo, está ferido, Reparo ao mal que leva pretendendo.

Apparecia o sítio tão florído, Que provocava a não vulgar espanto, Entre huns altos ulmeiros escondido.

D'hum crystallino orvalho tinha o manto, Quando entrou nelle o misero pastor, E as tenções explicou neste seu canto.

Ó bellas rosas, vós que sois amor, He por dita humildade, ou he baixeza, O ter apar de vós murta, que he dor?

Papoulas conversais, que são tristeza! Não desprezais o cardo, que he tormento! Admittis a hortelãa, sendo crueza!

Dos goivos longe vejo o sentimento; Dos jasmins perto estou vendo o perigo; Dos malmequeres vejo o soffrimento.

Deste me temerei como inimigo; Mas traz por armas salva, que he razão: Com ella acabará tambem comigo.

As minhas vem a ser huma affeição, Que são os puros cravos misturados Co'a vontade sujeita, que he limão.

Ai mosquetas, que sois d'amor cuidados! Ai crespa mangerona, que es prazer! Vós sós devieis adornar os prados.

Não pódem dous oppostos juntos ser: Onde se põe giesta, que he lembrança, Junto do rosmaninho, que he 'squecer?

Bem peza do leve álamo a mudança; Do roxo goivo anima o pensamento Do cypreste odorifero a esperança.

O trevo, que he sentido apartamento, Cérca o mangericão, que se interpreta Memoria a quem offende o esquecimento.

Mais importuna que o jardim de Creta, A ameixieira a flor está soltando: A segurelha vejo, que he discreta.

As hervas que daqui irei tomando, São a pura cecem, qu'he saudade; Cravos, medo de ver qual de amor ando.

E, de ter mui perdida a liberdade, Tomarei madresylva entendimento; Legação tomarei, porqu'he verdade.

Marmeleiro me dá arrependimento: Por a salva, que he gôsto, tomarei Coentro opposto ao meu contentamento.

Conhecimento firme nunca achei, Que violetas são; e, quando o houvera, Qual meu damno então fôra, bem o sei.

Oh quem, herva cidreira, oh quem pudera Ver-vos aqui menor, pois sois victória, Que de mi alcançou chamma severa!

Mas se quereis que tenha alguma glória, Por galardão d'amar e ser sujeito, Perderei de tormentos a memoria.

Porém, pois mo negais, de todo engeito A palma, qu'he ventura; e na parreira, Qu'he'sperança perdida, me deleito.

Entretanto co'a flor da laranjeira, Qu'he desafio duro e arriscado, Posso arguir da hora derradeira.

Ja não se quer deter o meu cuidado Com a romãa descanso: a brevidade Das maravilhas só tee desejado.

E vós, ovelhas minhas, sem piedade Vos apartae de mi, se algum desejo Tendes de ter do pasto mais vontade.

Se muita de me verdes em vós vejo, Toda a minha de ver-vos hei perdido Á força do poder d'amor sobejo.

Lograe do Tejo o placido ruido; Sós lograe estas veigas florecidas: Pois se perde o pastor vosso querido,

Não gosteis de com elle ser perdidas.

* * * * *

ELEGIA VIII.

Belisa, unico bem desta alma triste, Descanso singular de minha vida, Throno donde o poder d'Amor consiste;

Formosa fera, a quem está rendida D'Amor a que he mais livre liberdade, Ganhada mais, se mais por ti perdida;

Quão contrário parece na beldade, Que os corações captiva com brandura, Alguma nódoa haver de crueldade!

Quão contrário parece em formosura, Que deixa muito atraz quanto he humano, Esquiva condição, ou alma dura!

Quão mal parece em quem só co'hum engano Póde dar vida ao coração sujeito, Dar-lhe, em lugar de vida, hum mortal dano!

Quão mal parece que hum amor perfeito Não seja d'outro igual remunerado, Inda que seja, acaso, contrafeito!

Quão mal parece estar desesperado Quem tanto por ti soffre e tee soffrido, Devendo estar de penas alliviado!

Porém peor parece quem rendido Não for a hum parecer que tudo rende, Por mais qu'em seu rigor viva offendido.

E inda peor parece quem defende O ser essa belleza sempre amada, Por mais qu'em vão se canse o que a pretende.

Se quem te mostra amor te desagrada, Só pódes pretender o não ser vista, Mas não despois de vista o ser deixada.

Quão mal sabe o valor de tua vista Quem cuida que o que della acaso alcança Póde achar coração que lhe resista!

Quão bem pareceria huma esperança Ja concedida a meu amor ardente, Não sempre huma mortal desconfiança!

Se hum padecer por ti constantemente Pudesse ser reparo a quem mais te ama, Inda esperar pudera o ser contente.

Mas eu temo que aquella immensa chama Com que a teu bello imperio me levaste, Te enfrie tanto a ti, qu'anto m'inflama.

Se a Olympica belleza assi imitaste, Que brandamente move hum amor puro, Porque tão dura condição tomaste?

Qual elevado, qual soberbo muro Este mal, que m'occupa o pensamento, Contado, não tornára menos duro?

Tu, qu'es a causa só de meu tormento, Tu, que somente podes gloriar-me, Queres que as minhas queixas leve o vento?

Tu, que me pagarias com matar-me, Inda a morte me negas vezes tantas? Ai, que me deras vida em morte dar-me!

Usa piedade, tu, que o mundo espantas Co'os bellos olhos, com que o douras tanto, Se acaso a vê-lo brandos os levantas.

Estende-se na terra o negro manto, E á noute dá alegria a luz alheia; Mas nos meus olhos tristes dura o pranto.

Torna a manhãa despois alegre e cheia Da luz que o chôro enxuga á bella Aurora; Mas do meu chôro nunca enxuga a veia.

Lagrimas ja não são qu'esta alma chora, Mas amor he vital que dentro arde, E por a luz dos olhos salta fóra.

Como inda a morte quer que mais aguarde? Não tarde ja, mas corra a mal tão fero. Mas ja por mais que corra virá tarde.

Nem no supremo trance de ti 'spero Qu'inda com ver o estado em que me has pôsto Queiras, crua, entender quanto te quero.

Ai! se volveres esse bello rosto Ao lugar triste em que morrer me vires, Não por desgôsto teu, mas por teu gôsto,

Não quero de ti, não, que alli suspires, Nem que de dar-me a morte te arrependas, Mas que os olhos de ver-me então não tires.

Assi nunca pastor a quem te rendas, Te faça conhecer o que me fazes, Para que com teu mal meu mal entendas!

Como ja agora não te satisfazes Das penas deste amor, que por querer-te, De teu merecimento são capazes?

Pois quem com outro merito render-te Presume, (oh raro monstro de belleza!) Muito mais longe está de merecer-te.

Este si, que merece a grã crueza Com que tu d'acabar-me a vida tratas, Pois diante de ti, de si se preza.

Se cuidas que com isto desbaratas O meu constante amor, porque não viva, Elle mais vive quando mais me matas.

Se o dar-me morte tens por glória altiva, Eu m'inclino a que mates; tu t'inclina A matar mais de branda que d'esquiva.

S'esta alma tua julgas por indina Daquelle grande bem qu'em ti s'esconde, Do descoberto mal a faze dina.

Onde (ai!) voz acharei que baste, (ai!) onde, A poder reduzir-te a ser piedosa? Ou m'acaba de todo, ou me responde.

Mas por mais que te mostres rigorosa, Deixar meu pensamento m'he impossivel, Igualmente que a ti não ser formosa.

E por mais qu'esta dor seja terrivel, Somente o contemplar a causa della, Inda que a faz maior, a faz soffrivel

Porém chegando a não poder soffrê-la, Perdendo a vida; quando a morte chame, Não perderei o gôsto de perdê-la.

He justo qu'eu por ti mil mortes ame: Mas vê tu se te illustra, quando offensa Minha mortal o teu valor se chame.

Bem vês que huma beldade tão immensa De vencer-me tee glória bem pequena, Pois só render-me tomo por defensa.

Mas ja que amor tão puro me condena, Contente fico assaz desta victoria; Que não me dão meus males tanta pena,

Quanto o serem por ti me dá de glória.

* * * * *

ELEGIA IX.

A vida me aborrece, a morte quero: Será eterno o meu mal, segundo entendo, Pois na mor esperança desespéro.

Sem viver vivo, por morrer vivendo Por não verdes, Senhora, como eu vejo, Quanto de mi por vós me ando esquecendo.

Seja-me agradecido este desejo; Ingrata não sejais a quem vos ama Com puro e honestissimo despejo.

A culpa que me pondes, ponde-a á fama, Que pregôa de vós celeste vida Que os corações d'amor divino inflama.

Humana, quando não agradecida, Vos mostrae ao mal meu, que me faz vosso, Antes que a alma do corpo se despida.

Mas que posso eu fazer, pois ja não posso Hum tormento domar tão forte e duro, Homem formado só de carne e de osso?

Em minha fé segura me asseguro; Porqu'esta, quando he grande, jamais erra, Se resulta d'amor sincero e puro.

Essa beldade santa me faz guerra; Por ella hei de morrer, inda que veja Tornar o brando rio em dura serra.

Que cousa tenho eu ja que minha seja? Quem não deseja a vossa formosura, Não póde assegurar que o ceo deseja.

De qu'eu sempre a deseje estae segura: Neste desejo meu nunca mudança Hão de ver as mudanças da ventura.

A vida tenho posta na balança Da glória singular, do damno esquivo; Que o perdê-la por vós he mor bonança.

Se vos offendo, cuido que não vivo: Olhae se muito mais que de offender-vos, Das esperanças do viver me privo.

O que temo somente he só perder-vos; O que quero somente he só adorar-vos; O que somente adoro he só querer-vos.

Querer-vos sem deixar de venerar-vos; Desejar-vos somente por servir-vos; Por servir a amor vil não desejar-vos:

Somente ver-vos, e somente ouvir-vos Pretendo; e pois somente isto pretendo, Deveis a estes sentidos permittir-vos.

Isto somente, (oh cego!) estou dizendo, Como se fôra pouco isto somente! Que mais que ouvir-vos ha? qu'estar-vos vendo?

Se o não merece o meu amor decente; Se morte por amar-vos se merece, Morra eu, Senhora; e vós ficae contente.

Se vos aggrava quem por vós padece; Se vos vee a offender quem vos quer tanto, Quem desta sorte errou não desmerece.

Que quando os olhos da razão levanto Ao ceo d'essa rarissima belleza, De não morrer por ella só m'espanto.

Deixae-me contentar desta tristeza, E fazer de meus olhos largo rio; Se algum póde abrandar vossa dureza.

Correndo sempre as lagrimas em fio, Farei crescer as hervas por os prados, Pois ja d'outra alegria desconfio.

No monte darei pasto a meus cuidados; E serão de mi sempre entre os pastores Esses divinos olhos celebrados.

Aprenderão de mi os amadores Aquillo que se chama amor sublime, Ouvindo o rigor vosso, e minhas dores.

E nenhum havera que a pena estime Mais soberana por a causa della, Que a que teve até então não desestime;

E qu'inveja não mostre á minha estrella.

* * * * *

ELEGIA X.

Que tristes novas, ou que novo dano, Qu'inopinado mal incerto sôa, Tingindo de temor o vulto humano?