Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
Part 6
Não via maior glória que meu damno, Quando do damno meu eras contente: Agora me he tormento a maior glória, Que póde prometter-me Amor na vida, Pois tornar-te não póde á minha vista, Que só na tua achava a luz do dia.
E pois de dia em dia cresce o damno, Nem posso sem tal vista ser contente, Só com perder a vida acharei glória.
* * * * *
SEXTINA IV.
Sempre me queixarei desta crueza Que Amor usou comigo quando o tempo, A pezar de meu duro e triste fado, A meus males queria dar remedio, Em apartar de mi aquella vista, Por quem me contentava a triste vida.
Levára-me, oxalá, traz ella a vida, Para que não sentira esta crueza De me ver apartado de tal vista! E praza a Deos não veja o proprio tempo Em mi, sem esperança de remedio, A desesperação d'hum triste fado!
Porém ja acabe o triste e duro fado! Acabe o tempo ja tão triste vida, Qu'em sua morte só tee seu remedio. O deixar-me viver he mor crueza, Pois desespéro ja d'em algum tempo Tornar a ver aquella doce vista.
Duro Amor! se pagava só tal vista Todo o mal que por ti me fez meu fado, Porque quizeste que a levasse o tempo? E se o assi quizeste, porque a vida Me deixas para ver tanta crueza, Quando em não vê-la só vejo o remedio?
Tu só de minha dor eras remedio, Suave, deleitosa e bella vista. Sem ti, que posso eu ver senão crueza? Sem ti, qual bem me póde dar o fado, Se não he consentir que acabe a vida? Mas elle della me dilata o tempo.
Azas para voar vejo no tempo, Que com voar a muitos foi remedio; E só não vôa para a minha vida. Para que a quero eu sem tua vista? Para que quer tambem o triste fado Que não acabe o tempo tal crueza?
Não poderão fazer crueza, ou tempo, Fôrça de fado, ou falta de remedio, Qu'essa vista m'esqueça em toda a vida.
* * * * *
ELEGIAS
ELEGIA I.
O sulmonense Ovidio desterrado Na aspereza do Ponto, imaginando Ver-se de seus Penates apartado;
Sua chara mulher desamparando, Seus doces filhos, seu contentamento, De sua Patria os olhos apartando;
Não podendo encobrir o sentimento, Aos montes ja, ja aos rios se queixava De seu escuro e triste nascimento.
O curso das estrellas contemplava, E aquella ordem com que discorria O ceo e o ar, e a terra adonde estava.
Os peixes por o mar nadando via, As feras por o monte procedendo Como o seu natural lhes permittia.
De suas fontes via estar nascendo Os saudosos rios de crystal, Á sua natureza obedecendo.
Assi só, de seu proprio natural Apartado, se via em terra estranha, A cuja triste dor não acha igual.
Só sua doce Musa o acompanha Nos soidosos versos qu'escrevia, E nos lamentos com que o campo banha.
Dest'arte me figura a phantasia A vida com que morro, desterrado Do bem qu'em outro tempo possuia.
Aqui contemplo o gôsto ja passado, Que nunca passará por a memoria De quem o traz na mente debuxado.
Aqui vejo caduca e debil glória Desenganar meu êrro co'a mudança Que faz a fragil vida transitoria.
Aqui me representa esta lembrança Quão pouca culpa tenho; e m'entristece Ver sem razão a pena que m'alcança.
Que a pena que com causa se padece, A causa tira o sentimento della; Mas muito doe a que se não merece.
Quando a roxa manhãa, dourada e bella, Abre as portas ao sol e cahe o orvalho, E torna a seus queixumes Philomela;
Este cuidado, que co'o somno atalho, Em sonhos me parece; que o que a gente Por seu descanso tee me dá trabalho.
E despois de acordado cegamente, (Ou, por melhor dizer, desacordado, Que pouco acôrdo logra hum descontente)
Daqui me vou, com passo carregado, A hum outeiro erguido, e alli m'assento, Soltando toda a redea a meu cuidado.
Despois de farto ja de meu tormento, Estendo estes meus olhos saudosos Á parte donde tinha o pensamento.
Não vejo senão montes pedregosos; E sem graça e sem flor os campos vejo, Que ja floridos víra, e graciosos.
Vejo o puro, suave e rico Tejo, Com as concavas barcas, que nadando Vão pondo em doce effeito o seu desejo.
Humas com brando vento navegando, Outras com leves reinos brandamente As crystallinas ágoas apartando.
D'alli fallo com a ágoa que não sente Com cujo sentimento est'alma sae Em lagrimas desfeita claramente.
Ó fugitivas ondas, esperae; Que pois me não levais em companhia, Ao menos estas lagrimas levae.
Até que venha aquelle alegre dia Qu'eu vá onde vós ides, livre e ledo. Mas tanto tempo, quem o passaria?
Não póde tanto bem chegar tão cedo: Porque primeiro a vida acabará, Que se acabe tão aspero degredo.
Mas essa triste morte que virá, S'em tão contrário estado me acabasse, Est'alma assi impaciente adonde irá?
Que se ás portas Tartaricas chegasse, Temo que tanto mal por a memoria Nem ao passar do Lethe lhe passasse.
Que se a Tantalo e Ticio for notoria A pena com que vai, e que a atormenta, A pena que lá tee, terão por glória.
Essa imaginação, emfim, me augmenta Mil mágoas no sentido, porque a vida De imaginações tristes se contenta.
Que pois de todo vive consumida, Porque o mal que possue se resuma, Imagina na glória possuida.
Até que a noite eterna me consuma, Ou veja aquelle dia desejado Em que a Fortuna faça o que costuma;
Se nella ha hi mudar-se hum triste estado.
* * * * *
ELEGIA II.
Aquella que d'amor descomedido Por o formoso moço se perdeo, Que só por si d'amores foi perdido;
Despois que a deosa em pedra a converteo De seu humano gesto verdadeiro, A última voz só lhe concedeo.
Assi meu mal do proprio ser primeiro Outra cousa nenhua me consente, Qu'este canto qu'escrevo derradeiro.
E se huma pouca vida, estando ausente, Me deixa Amor, he porque o pensamento Sinta a perda do bem d'estar presente.
Senhor, se vos espanta o soffrimento Que tenho em tanto mal para escrevê-lo, Furto este breve espaço a meu tormento.
Porque quem tee poder para soffrê-lo, Sem se acabar a vida co'o cuidado, Tambem terá poder para dizê-lo.
Nem eu escrevo hum mal ja acostumado; Mas n'alma minha triste e saudosa A saudade escreve, e eu traslado.
Ando gastando a vida trabalhosa, E esparzindo a contínua soidade Ao longo d'huma praia soidosa.
Vejo do mar a instabilidade, Como com seu ruido impetuoso Retumba na maior concavidade.
De furibundas ondas poderoso, Na terra, a seu pezar, está tomando Lugar, em que s'estenda, cavernoso.
Ella, como mais fraca, lh'está dando As concavas entranhas, onde esteja Sempre com som profundo suspirando.
A todas estas cousas tenho inveja Tamanha, que não sei determinar-me, Por mais determinado que me veja.
Se quero em tanto mal desesperar-me, Não posso, porque Amor e saudade Nem licença me dão para matar-me.
Ás vezes cuido em mi, se a novidade E estranheza das cousas, co'a mudança, Poderião mudar huma vontade.
E com isto figuro na lembrança A nova terra, o novo trato humano, A estrangeira progenie, a estranha usança.
Subo-me ao monte que Hercules Thebano Do altissimo Calpe dividio, Dando caminho ao mar Mediterrano;
D'alli'stou tenteando adonde vio O pomar das Hesperidas, matando A serpe que a seu passo resistio.
Estou-me em outra parte figurando O poderoso Anteo, que derribado Mais fôrça se lhe vinha accrescentando;
Porém do Herculeo braço sobjugado, No ar deixando a vida, não podendo Dos soccorros da mãe ser ajudado.
Mas nem com isto, emfim, qu'estou dizendo, Nem com as armas tão continuadas, D'amorosas lembranças me defendo.
Todas as cousas vejo demudadas, Porque o tempo ligeiro não consente Qu'estejão de firmeza acompanhadas.
Vi ja que a Primavera, de contente, Em variadas côres revestia O monte, o campo, o valle, alegremente.
Vi ja das altas aves a harmonia, Que até duros penedos convidava A algum suave modo d'alegria.
Vi ja que tudo, emfim, me contentava, E que, de muito cheio de firmeza, Hum mal por mil prazeres não trocava.
Tal me tee a mudança e estranheza, Que se vou por os prados, a verdura Parece que se sécca de tristeza.
Mas isto he ja costume da ventura; Porque aos olhos que vivem descontentes, Descontente o prazer se lhes figura.
Oh graves e insoffriveis accidentes De Fortuna e d'Amor! que penitencia Tão grave dais aos peitos innocentes!
Não basta examinar-me a paciencia Com temores e falsas esperanças, Sem que tambem me tente o mal de ausencia?
Trazeis hum brando espirito em mudanças, Para que nunca possa ser mudado De lagrimas, suspiros e lembranças.
E s'estiver ao mal acostumado, Tambem no mal não consentis firmeza, Para que nunca viva descansado.
Ja quieto m'achava co'a tristeza; E alli não me faltava hum brando engano. Que tirasse desejos da fraqueza.
Mas vendo-me enganado estar ufano, Deo á roda a Fortuna; e deo comigo Onde de novo chóro o novo dano.
Ja deve de bastar o que aqui digo, Para dar a entender o mais que calo A quem ja vio tão aspero perigo.
E se nos brandos peitos faz abalo Hum peito magoado e descontente, Que obriga a quem o ouve a consolá-lo;
Não quero mais senão que largamente, Senhor, me mandeis novas dessa terra; Que alguma dellas me fara contente.
Porque se o duro Fado me desterra Tanto tempo do bem, que o fraco esprito Desampare a prisão onde s'encerra;
Ao som das negras ágoas do Cocito, Ao pé dos carregados arvoredos Cantarei o que n'alma tenho escrito.
E por entre estes horridos penedos A quem negou Natura o claro dia, Entre tormentos asperos e medos,
Com a trémula voz, cansada e fria, Celebrarei o gesto claro e puro, Que nunca perderei da phantasia.
O Musico de Thracia, ja seguro De perder sua Eurydice, tangendo Me ajudará ferindo o ar escuro.
As namoradas sombras, revolvendo Memorias do passado, me ouvirão; E com seu chôro o rio irá crescendo.
Em Salmonêo as penas faltarão, E das filhas de Belo juntamente De lagrimas os vasos s'encherão.
Que se amor não se perde em vida ausente, Menos se perderá por morte escura: Porque, emfim, a alma vive eternamente,
E amor he effeito d'alma, e sempre dura.
* * * * *
ELEGIA III.
O poeta Simonides fallando Co'o Capitão Themistocles hum dia, Em cousas de sciencia praticando;
Hum'arte singular lhe promettia, Qu'então compunha, com que lh'ensinasse A lembrar-se de tudo o que fazia;
Onde tão subtis regras lhe mostrasse, Que nunca lhe passassem da memoria Em nenhum tempo as cousas que passasse.
Bem merecia, certo, fama e gloria Quem dava regra contra o esquecimento, Que sepulta qualquer antigua historia.
Mas o Capitão claro, cujo intento Bem differente estava, porque havia Do passado as lembranças por tormento;
Oh illustre Simonides! (dizia) Pois tanto em teu engenho te confias, Que mostras á memoria nova via;
Se me désses hum'arte, qu'em meus dias Me não lembrasse nada do passado, Oh quanto melhor obra me farias!
S'este excellente dito ponderado Fosse por quem se visse estar ausente, Em longas esperanças degradado;
Oh como bradaria justamente, Simonides, inventa novas artes; Não midas o passado co'o presente!
Que se he forçado andar por várias partes Buscando á vida algum descanço honesto, Que tu, Fortuna injusta, mal repartes;
E se o duro trabalho, he manifesto Que por grave que seja, ha de passar-se Com animoso esprito e ledo gesto;
De que serve ás pessoas o lembrar-se Do que se passou ja, pois tudo passa, Senão d'entristecer-se e magoar-se?
S'em outro corpo hum'alma se traspassa, Não como quiz Pythagoras na morte, Mas como quer Amor na vida escassa;
E s'este Amor no mundo está de sorte, Que na virtude só d'hum lindo objecto Tee hum corpo, sem alma, vivo e forte;
Onde este objecto falta, qu'he defecto Tamanho para a vida, que ja nella M'está chamando á pena a dura Alecto;
Porque me não criára a minha Estrella Selvatico no mundo, e habitante Na dura Scythia, e no mais duro della?
Ou no Caucaso horrendo, fraco infante Criado ao peito d'huma tigre Hircana, Homem fôra formado de diamante;
Porque a cerviz ferina e inhumana Não submettêra ao jugo e dura lei Daquelle que dá vida quando engana.
Ou em pago das ágoas qu'estilei, As que passei do mar, forão do Lete, Para que m'esquecêra o que passei.
Porque o bem que a esperança vãa promette, Ou a morte o estorva, ou a mudança, Que he mal que hum'alma em lagrimas derrete.
Ja, Senhor, cahirá como a lembrança, No mal, do bem passado he triste e dura, Pois nasce aonde morre a esperança.
E se quizer saber como se apura Em almas saudosas, não s'enfade De ler tão longa e misera escriptura.
Soltava Eolo a redea e liberdade Ao manso Favonio brandamente, E eu a tinha ja sôlta á saudade.
Neptuno tinha pôsto o seu tridente; A proa a branca escuma dividia, Com a gente maritima contente.
O côro das Nereidas nos seguia; Os ventos, namorada Galatêa Comsigo socegados os movia.
Das argenteas conchinhas Panopêa Andava por o mar fazendo mólhos, Melanto, Dinamene, com Ligea.
Eu, trazendo lembranças por antolhos, Trazia os olhos n'ágoa socegada, E a ágoa sem socêgo nos meus olhos.
A bem-aventurança ja passada Diante de mi tinha tão presente, Como se não mudasse o tempo nada.
E com o gesto immoto e descontente, Co'hum suspiro profundo e mal ouvido, Por não mostrar meu mal a toda a gente,
Dizia: Oh claras Nymphas! se o sentido Em puro amor tivestes, e inda agora Da memoria o não tendes esquecido;
Se por ventura fordes algum'hora Adonde entra o grão Tejo a dar tributo A Tethys, que vós tendes por Senhora;
Ou ja por ver o verde prado enxuto, Ou ja por colher ouro rutilante, Das Tagicas areias rico fruto;
Nellas em verso erotico e elegante Escrevei co'huma concha o qu'em mi vistes; Póde ser que algum peito se quebrante.
E contando de mi memorias tristes, Os pastores do Tejo, que me ouvião, Oução de vós as mágoas que me ouvistes.
Ellas, que ja no gesto m'entendião, Nos meneios das ondas me mostravão Qu'em quanto lhes pedia consentião.
Estas lembranças, que me acompanhavão Por a tranquillidade da bonança, Nem na tormenta triste me deixavão.
Porque chegando ao Cabo da Esperança, Comêço da saudade que renova, Lembrando a longa e aspera mudança;
Debaixo estando ja da estrella nova Que no novo Hemispherio resplandece, Dando do segundo axe certa prova;
Eis a noite com nuvens s'escurece; Do ar subitamente foge o dia; E todo o largo Oceano s'embravece.
A máchina do mundo parecia Qu'em tormentas se vinha desfazendo; Em serras todo o mar se convertia.
Lutando Boreas fero e Noto horrendo. Sonoras tempestades levantavão, Das naos as velas concavas rompendo.
As cordas co'o ruido assoviavão; Os marinheiros, ja desesperados, Com gritos para o ceo o ar coalhavão.
Os raios por Vulcano fabricados Vibrava o fero e aspero Tonante, Tremendo os Polos ambos de assombrados.
Amor alli, mostrando-se possante, E que por algum medo não fugia, Mas quanto mais trabalho, mais constante;
Vendo a morte presente, em mi dizia: Se algum'hora, Senhora, vos lembrasse, Nada do que passei me lembraria.
Emfim, nunca houve cousa que mudasse O firme amor intrinseco daquelle Em quem alguma vez de siso entrasse.
Huma cousa, Senhor, por certa asselle, Que nunca amor se affina, nem se apura, Em quanto está presente a causa delle.
Dest'arte me chegou minha ventura A esta desejada e longa terra, De todo pobre honrado sepultura.
Vi quanta vaidade em nós s'encerra, E nos proprios quão pouca; contra quem Foi logo necessario termos guerra.
Huma Ilha que o Rei de Porcá tem, E que o Rei da Pimenta lhe tomára, Fomos tomar-lha, e succedeo-nos bem.
Com huma grossa armada, que juntára O Viso-Rei, de Goa nos partimos Com toda a gente d'armas que se achára.
E com pouco trabalho destruimos A gente no curvo arco exercitada: Com morte, com incendios os punimos.
Era a Ilha com ágoas alagada, De modo que se andava em almadias: Emfim, outra Veneza trasladada.
Nella nos detivemos sós dous dias, Que forão para alguns os derradeiros, Pois passárão da Estyge as ondas frias.
Qu'estes são os remedios verdadeiros Que para a vida estão apparelhados Aos que a querem ter por cavalleiros.
Oh Lavradores bem-aventurados! Se conhecessem seu contentamento, Como vivem no campo socegados!
Dá-lhes a justa terra o mantimento; Dá-lhes a fonte clara d'ágoa pura; Mungem suas ovelhas cento a cento.
Não vem o mar irado, a noite escura, Por ir buscar a pedra do Oriente; Não temem o furor da guerra dura.
Vive hum com suas árvores contente, Sem lhe quebrar o somno repousado A grã cobiça d'ouro reluzente.
Se lhe falta o vestido perfumado, E da formosa côr de Assyria tinto, E das torçaes Attalicos lavrado;
Se não tee as delicias de Corinto, E se de Pario os marmores lhe faltão, O pyropo, a esmeralda e o jacinto;
Se suas casas de ouro não s'esmaltão, Esmalta-se-lhe o campo de mil flores, Onde os cabritos seus comendo sáltão.
Alli lhe mostra o campo várias côres; Vem-se os ramos pender co'o fructo ameno; Alli se affina o canto dos pastores.
Alli cantára Tityro e Sileno. Emfim, por estas partes caminhou A sãa Justiça para o ceo sereno.
Ditoso seja aquelle que alcançou Poder viver na doce companhia Das mansas ovelhinhas que criou!
Este bem facilmente alcançaria As causas naturaes de toda cousa; Como se gera a chuva e neve fria:
Os trabalhos do sol, que não repousa; E porque nos dá lua a luz alhêa, Se tolher-nos de Phebo os raios ousa:
E como tão depressa o ceo rodêa; E como hum só os outros traz comsigo; E se he benigna ou dura Cytherêa.
Bem mal póde entender isto que digo, Quem ha de andar seguindo o fero Marte; Que sempre os olhos traz em seu perigo.
Porém seja, Senhor, de qualquer arte, Pois postoque a Fortuna possa tanto, Que tão longe de todo o bem me aparte;
Não poderá apartar meu duro canto Desta obrigação sua, em quanto a morte Me não entrega ao duro Radamanto;
Se para tristes ha tão leda sorte.
* * * * *
ELEGIA IV.
Despois que Magalhães teve tecida A breve historia sua, que illustrasse A Terra Santa Cruz, pouco sabida;
Imaginando a quem a dedicasse, Ou com cujo favor defenderia Seu livro d'algum zoilo que ladrasse;
Tendo nisto occupada a phantasia, Lhe sobreveio hum somno repousado, Antes que o sol abrisse o claro dia.
Em sonhos lhe apparece todo armado Marte, brandindo a lança furiosa, Com que fez quem o vio todo enfiado;
Dizendo em voz pezada e temerosa: Não he justo que a outrem se offereça Obra alguma que possa ser famosa,
Senão a quem por armas resplandeça No largo inundo com tal nome e fama, Que louvor immortal sempre mereça.
Disse assi: quando Apollo, que da flama Celeste guia os carros, de outra parte Se lhe presenta, e por seu nome o chama,
Dizendo: Magalhães, postoque Marte Com seu terror t'espante, todavia Comigo deves só de aconselhar-te.
Hum Varão sapiente, em quem Thalia Poz seus thesouros, e eu minha sciencia, Defender tuas obras poderia.
He justo que a escriptura na prudencia Ache só defensão; porque a dureza Das armas he contrária da eloquencia.
Assi disse: e tocando com destreza A cithara dourada, começou A mitigar de Marte a fortaleza.
Mas Mercurio, que sempre costumou Pacificar porfias duvidosas, Co'o Caducêo na mão, que sempre usou,
Determina compor as perigosas Opiniões dos deoses inimigos Com suaves razões e ponderosas.
E disse: Bem sabemos dos antigos Heroes, e dos modernos, que provárão De Belona os gravissimos perigos,
Como tão bem mil vezes concordárão As armas com as letras; porque as Musas A muitos na milicia acompanhárão.
Nunca Alexandre, ou Cesar, nas confusas Guerras o estudo deixão grande espaço; Que as armas jamais delle são escusas.
N'huma mão livros, n'outra ferro e aço; Aquella rege e ensina; est'outra fere: Mais co'o saber se vence, que co'o braço.
Pois, logo, hum Varão grande se requere, Que com teus dões (Apollo) illustre seja, E de ti (Marte) palma e glória espere.
Este vos darei eu, em quem se veja Saber e esfôrço no sereno peito, Que he hum Leoniz que faz ao mundo inveja.
Deste as Irmãas em vendo o bom sogeito, Todas nove nos braços o tomárão, Criando-o co'o seu leite no seu leito:
As Artes e as Sciencias lh'ensinárão; Inclinação divina lh'influírão Ás virtudes moraes, que logo o ornárão.
Daqui nos exercidos o seguírão Das armas no Oriente, onde primeiro Hum soldado gentil instituírão.
Alli taes provas fez de Cavalleiro, Que, de Christão magnanimo e seguro, A si mesmo venceo por derradeiro.
Despois, ja Capitão forte e maduro, Governando toda a Aurea Chersoneso, Lhe defendeo co'o braço o debil muro.
Porque vindo a cercá-la todo o pêso Do poder dos Achens, que se sustenta De alheio sangue, em furia todo acceso;
Este só que a ti, Marte, representa, O castigou de sorte, que vencido De ter quem vivo fique se contenta.
E logo qu'este Reino defendido Deixou, segunda vez com maior glória Para o ir governar foi elegido.
Mas não perdendo ainda da memoria Os amigos o seu govêrno brando, Os imigos o damno da victoria;
Huns com amor intrinseco esperando Estão por elle, e os outros congelados O estão com frio medo receando.
Vêde pois se serião debellados Por seu claro valor, se lá tornasse, E dos Indicos mares degradados.
Porqu'he justo que nunca lhe negasse O conselho do Olympo alto e subido Favor e ajuda com que pelejasse.
Aqui só póde ser bem dirigido De Magalhães o estudo: este só deve Ser de vós, claros deoses, escolhido.
Assi Mercurio disse; e em termo breve Conformados se vem Apollo e Marte; E voou juntamente o somno leve.
Acorda Magalhães, e ja se parte A offrecer-vos, Senhor claro e famoso, Tudo o que nelle poz sciencia e arte.
Tee claro estylo, e engenho curioso, Para poder de vós ser recebido, Com mão benigna, de ânimo amoroso.
Pois se só de não ser favorecido Hum alto esprito fica baixo e escuro; Este seja comvosco defendido,
Como o foi de Malaca o debil muro.
* * * * *
ELEGIA V.
Aquelle mover de olhos excellente, Aquelle vivo espirito inflammado Do crystallino rosto transparente;
Aquelle gesto immoto e repousado, Qu'estando n'alma propriamente escrito, Não póde ser em verso trasladado;
Aquelle parecer, que he infinito Para se comprender d'engenho humano; O qual offendo em quanto tenho dito;
Tanto a inflamar-me vem d'hum doce engano, E tanto a engrandecer-me a phantasia, Que não vi maior glória que meu dano.
Oh bem-aventurado seja o dia Em que tomei tão doce pensamento, Que de todos os outros me desvia!
E bem-aventurado o soffrimento Que soube ser capaz de tanta pena, Vendo que o foi da causa o entendimento!
Faça-me quem me mata, o mal que ordena, Trate-me com enganos, desamores; Qu'então me salva, quando me condena.
E se de tão suaves desfavores Penando vive hum'alma consumida, Oh que doce penar! que doces dores!