Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Part 5

Chapter 53,576 wordsPublic domain

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ALHEIO.

Vos teneis mi corazon.

_Glosa._

Mi corazon me han robado; Y Amor viendo mis enojos, Me dijo: Fuéte llevado Por los mas hermosos ojos, Que desque vivo he mirado. Gracias sobrenaturales Te lo tienen en prision. Y si Amor tiene razon, Señora, por las señales, _Vos teneis mi corazon._

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MOTE.

Qué veré que me contente?

_Glosa._

Desque una vez yo miré, Señora, vuestra beldad, Jamas por mi voluntad Los ojos de vos quité. Pues sin vos placer no siente Mi vida, ni lo desea, Si no quereis que yo os vea, _Qué veré que me contente?_

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MOTE.

Sem vós, e com meu cuidado.

_Glosa._

Querendo Amor esconder-vos Em parte que vos não visse, Co'o extremo de querer-vos Cegou-me os olhos com ver-vos, Levou-vos, sem que vos visse. Eu cego, mas atinado, Quando vi que vos não via, Do mesmo Amor indignado, Ja vêdes qual ficaria _Sem vós e com meu cuidado._

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MOTE.

Retrato, vós não sois meu; Retratárão-vos mui mal; Que a serdes meu natural, Foreis mofino como eu.

_Glosa._

Indaqu'em vós a arte vença O que o natural tee dado, Não fostes bem retratado; Que ha em vós mais differença, Que no vivo do pintado. Se o lugar se considera Do alto estado, que vos deu A sorte, qu'eu mais quizera; Se he qu'eu sou quem d'antes era, _Retrato, vós não sois meu._

Vós na vossa glória pôsto, Eu na minha sepultura, Vós com bens, eu com desgôsto; Pareceis-vos ao meu rosto, E não ja á minha ventura. E pois nella e vós errarão O qu'em mi he principal, Muito em ambos s'enganárão. Se por mi vós retratárão, _Retratárão-vos mui mal._

Mas se esse rosto fingido Quizerão representar, E houverão por bom partido Dar-vos a alma do sentido Para a glória do lugar; Víreis, pôsto nessa alteza, Que vos não ha cousa igual; E que nem a maior mal Podeis vir, nem mor baixeza, _Que a serdes meu natural._

Por isso não confesseis Serdes meu, qu'he desatino, Com que o lugar perdereis: Se conservar-vos quereis, Blazonae que sois divino. Que se nesta occasião Conhecessem qu'ereis meu, Por meu vos derão de mão, . . . . . . . . . . _Fôreis mofino, como eu._

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MOTE.

Foi-se gastando a esperança, Fui entendendo os enganos; Do mal ficárão-me os danos, E do bem só a lembrança.

_Glosa._

Nunca em prazeres passados Tive firmeza segura. Antes tão arrebatados, Qu'inda não erão chegados, Quando mos levou ventura. E como quem desconfia Ter em tal sorte mudança, No meio desta porfia, De quanto bem pretendia _Foi-se gastando a esperança._

Não tive por desatino A occasião de perdella; Mas foi culpa do destino, Que a ninguem, como mais dino, Amor pudéra sostella. Dei-lhe tudo o qu'era seu, Não receando taes danos Deste, a quem alma lhe deu: Quando ja não era meu, _Fui entendendo os enganos._

Fiquei deste mal sobejo A quem a causa compete Dizer-lhe tudo o que vejo, Que Amor acceita o desejo, Mas mente no que promete. Que se a mi se me obrigou A dar-me bens soberanos, Foi engano que ordenou; Que do bem tudo levou, _Do mal ficárão-me os danos._

E se dor tão desigual Soffro em mi com padecellos, Quero de novo soffrellos; Que por a causa ser tal, Não determino offendellos. Dobre-se o mal, falte a vida, Cresça a fé, falte a esperança, Pois foi mal agradecida; Fique a dor n'alma imprimida, _E do bem só a lembrança._

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ENDECHAS A BARBARA ESCRAVA.

Aquella captiva, Que me tee captivo, Porque nella vivo, Ja não quer que viva. Eu nunca vi rosa Em suaves mólhos, Que para meus olhos Fosse mais formosa.

Nem no campo flores, Nem no ceo estrellas, Me parecem bellas, Como os meus amores. Rosto singular, Olhos socegados, Pretos e cansados, Mas não de matar.

Huma graça viva, Que nelles lhe mora, Para ser senhora De quem he captiva. Pretos os cabellos, Onde o povo vão Perde opinião, Que os louros são bellos.

Pretidão de Amor, Tão doce a figura, Que a neve lhe jura Que trocára a cór. Leda mansidão, Que o siso acompanha, Bem parece estranha, Mas barbara não.

Presença serena, Que a tormenta amansa: Nella emfim descansa Toda minha pena. Esta he a captiva, Que me tee captivo; E pois nella vivo, He fôrça que viva.

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MOTE.

Quem ora soubesse Onde o Amor nasce, Que o semeasse!

_Voltas._

D'Amor e seus danos Me fiz lavrador; Semeava amor, E colhia enganos; Não vi, em meus anos, Homem que apanhasse O que semeasse.

Vi terra florída De lindos abrolhos, Lindos para os olhos, Duros para a vida. Mas a rez perdida, Que tal herva pasce, Em forte hora nasce.

Com quanto perdi, Trabalhava em vão: Se semeei grão, Grande dor colhi. Amor nunca vi Que muito durasse, Que não magoasse.

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ALHEIO.

Se me levão ágoas, Nos olhos as levo.

_Voltas._

Se de saudade Morrerei ou não, Meus olhos dirão De mi a verdade. Por elles me atrevo A lançar as ágoas, Que mostrem as mágoas Que nesta alma levo.

As ágoas, qu'em vão Me fazem chorar, Se ellas são do mar, Estas de amar são. Por ellas relévo Todas minhas mágoas; Que se fôrça d'ágoas Me leva, eu as levo.

Todas me entristecem, Todas são salgadas; Porém as choradas Doces me parecem. Correi, doces ágoas, Que se em vós m'enlévo, Não doem as mágoas, Que no peito levo.

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ALHEIO.

Menina dos olhos verdes, Porque me não vedes?

_Voltas._

Elles verdes são, E tee por usança Na côr esperança, E nas obras não. Vossa condição Não he d'olhos verdes, Porque me não vêdes.

Isenções a mólhos Qu'elles dizem terdes, Não são d'olhos verdes, Nem de verdes olhos. Sirvo de giolhos, E vós não me credes, Porque me não vêdes.

Havião de ser, Porque possa vê-los, Que huns olhos tão bellos Não se hão d'esconder: Mas fazeis-me crer, Que ja não são verdes, Porque me não vêdes.

Verdes não o são, No que alcanço delles; Verdes são aquelles Qu'esperança dão. Se na condição Está serem verdes, Porque me não vedes?

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ALHEIO.

Trocae o cuidado, Senhora, comigo; Vereis o perigo, Qu'he ser desamado.

_Voltas._

Se trocar desejo O amor entre nós, He para qu'em vós Vejais o que vejo. E sendo trocado Este amor comigo, Ser-vos-ha castigo Terdes meu cuidado.

Tendes o sentido D'Amor livre e isento, E cuidais qu'he vento Ser tão mal querido. Não seja o cuidado Tão vosso inimigo, Que queira o perigo De ser desamado.

Mas nunca foi tal Este meu querer, Que a quem tanto quer, Queira tanto mal Seja eu maltratado, E nunca o castigo Vos mostre o perigo, Qu'he ser desamado.

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Á TENÇÃO DE MIRAGUARDA.

Ver, e mais guardar De ver outro dia, Quem o acabaria?

_Voltas._

Da lindeza vossa, Dama, quem a vê, Impossivel he Que guardar-se possa. Se faz tanta mossa Ver-vos hum só dia, Quem se guardaria?

Melhor deve ser Neste aventurar Ver, e não guardar, Que guardar e ver. Ver e defender, Muito bom sería, Mas quem poderia?

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MOTE.

Irme quiero, madre, Á aquella galera, Con el marinero, Á ser marinera.

_Voltas._

Madre, si me fuere, Do quiera que vó, No lo quiero yo, Que el Amor lo quiere. Aquel niño fiero, Hace que me mueva Por un marinero Á ser marinera.

El que todo puede, Madre, no podrá, Pues el alma vá, Que el cuerpo se quede. Con él por que muero Voy, porque no muera; Que si es marinero, Seré marinera.

Es tirana ley Del niño Señor, Que por un amor Se deseche un Rey. Pues desta manera Quiero irme, quiero Por un marinero Á ser marinera.

Decid, ondas, cuando Vistes vos doncella, Siendo tierna y bella, Andar navegando? Mas qué no se espera Daquel niño fiero? Vea yo quien quiero, Sea marinera.

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MOTE.

Saudade minha, Quando vos veria?

_Voltas._

Este tempo vão, Esta vida escassa, Para todos passa, Só para mi não. Os dias se vão Sem ver este dia, Quando vos veria.

Vêde esta mudança Se está bem perdida, Em tão curta vida Tão longa esperança. Se este bem se alcança, Tudo soffreria, Quando vos veria.

Saudosa dor, Eu bem vos entendo; Mas não me defendo, Porque offendo Amor. Se fôsseis maior, Em maior valia Vos estimaria.

Minha saudade, Charo penhor meu, A quem direi eu Tamanha verdade? Na minha vontade De noite e de dia Sempre vos teria.

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MOTE.

Vida da minha alma, Não vos posso ver: Isto não he vida Para se soffrer.

_Voltas._

Quando vos eu via, Esse bem lograva, A vida estimava, Pois então vivia; Porque vos servia Só para vos ver. Ja que vos não vejo Para qu'he viver?

Vivo sem razão, Porqu'em minha dor Não a poz Amor; Que inimigos são. Mui grande traição Me obriga a fazer Que viva, Senhora, Sem vos poder ver.

Não me atrevo ja, Minha tão querida, A chamar-vos vida, Porque a tenho má. Ninguem cuidará, Que isto póde ser, Sendo-me vós vida, Não poder viver.

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MOTE.

Coifa de beirame Namorou Joanne.

_Voltas._

Por cousa tão pouca Andas namorado? Amas o toucado, E não quem o touca? Ando cega e louca Por ti, meu Joanne, Tu pelo beirame.

Amas o vestido? Es falso amador. Tu não vês que Amor Se pinta despido? Cego e mui perdido Andas por beirame, E eu por ti, Joanne.

A todos encanta Tua parvoice; De tua doudice Gonçalo s'espanta, E zombando canta: Coifa de beirame, Namorou Joanne.

Eu não sei que viste Neste meu toucado, Que tão namorado Delle te sentiste. Não te veja triste; Ama-me, Joanne, E deixa o beirame.

Joanne gemia, Maria chorava, E assi lamentava O mal que sentia: (Os olhos feria, E não o beirame, Que matou Joanne)

Não sei do que vem Amares vestido; Que o mesmo Cupido Vestido não tem. Sabes de que vem Amares beirame? Vem de ser Joanne.

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MOTE.

Se Helena apartar Do campo seus olhos, Nascerão abrolhos.

_Voltas._

A verdura amena, Gados, que pasceis, Sabei que a deveis Aos olhos d'Helena. Os ventos serena, Faz flores d'abrolhos O ar de seus olhos.

Faz serras florídas, Faz claras as fontes: S'isto faz nos montes, Que fara nas vidas? Tra-las suspendidas, Como hervas em mólhos, Na luz de seus olhos.

Os corações prende Com graça inhumana; De cada pestana Hum'alma lhe pende. Amor se lhe rende, E pôsto em giolhos, Pasma nos seus olhos.

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ALHEIO.

Verdes são os campos De côr de limão; Assi são os olhos Do meu coração.

_Voltas._

Campo, que t'estendes Com verdura bella; Ovelhas, que nella Vosso pasto tendes; D'hervas vos mantendes Que traz o verão; E eu das lembranças Do meu coração.

Gados, que pasceis Com contentamento, Vosso mantimento Não no entendeis. Isso que comeis, Não são hervas, não; São graça dos olhos Do meu coração.

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ALHEIO.

Verdes são as hortas Com rosas e flores: Moças, que as régão, Matão-me d'amores.

_Voltas._

Entre estes penedos Que daqui parecem, Verdes hervas crescem, Altos arvoredos. Vai destes rochedos Ágoa, com que as flores D'outras são regadas, Que mátão d'amores.

Com ágoa, que cai Daquella espessura, Outra se mistura, Que dos olhos sai: Toda junta vai Regar brancas flores; Onde ha outros olhos, Que mátão d'amores.

Celestes jardins, As flores estrellas: Hortelôas dellas São huns seraphins. Rosas e jasmins De diversas côres, Anjos, que as régão, Mátão-me d'amores.

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ALHEIO.

Menina formosa, Dizei de que vem Serdes rigorosa A quem vos quer bem?

_Voltas._

Não sei quem assella Vossa formosura; Que quem he tão dura Não póde ser bella. Vós sereis formosa; Mas a razão tem Que quem he irosa, Não parece bem.

A mostra he de bella, As obras são cruas: Pois qual destas duas Ficará na sella? Se ficar _irosa_, Não vos está bem: Fique antes _formosa_, Que mais fôrça tem.

O Amor formoso Se pinta e se chama: Se he amor, ama, Se ama, he piedoso. Diz agora a grosa Que este texto tem, Que quem he formosa Ha de querer bem.

Havei dó, menina, Dessa formosura; Que se a terra he dura, Secca-se a bonina. Sêde piedosa; Não veja ninguem Que por rigorosa Percais tanto bem.

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ALHEIO.

Tende-me mão nelle, Que hum real me deve.

_Voltas._

C'hum real d'amor, Dous de confiança, E tres d'esperança, Me foge o trédor. Falso desamor S'encerra naquelle Que hum real me deve.

Pedio-mo emprestado, Não lhe quiz penhor: He mao pagador; Tendo-mo afferrado. C'hum cordel atado, Ao Tronco se leve; Que hum real me deve.

Por esta travéssa Se vai acolhendo: Ei-lo vai correndo, Fugindo a grã pressa. Nesta mão, e nessa O falso se atreve, Que hum real me deve.

Comprou-me o amor, Sem lhe fazer preço: Eu não lhe mereço Dar-me desfavor. Dá-me tanta dor, Que ando apos elle Pelo que me deve.

Eu de cá bradando, Elle vai fugindo; Elle sempre rindo, Eu sempre chorando. E de quando em quando No amor se atreve, Como que não deve.

A fallar verdade Elle ja pagou; Mas ainda ficou Devendo ametade. Minha liberdade He a que me deve: Só nella se atreve.

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MOTE.

Dó la mi ventura, Que no veo alguna?

_Voltas._

Sepa quien padece, Que en la sepultura Se esconde ventura De quien la merece. Allá me parece, Que quiere fortuna Que yo halle alguna.

Naciendo mesquino, Dolor fué mi cama; Tristeza fué el ama, Cuidado el padrino. Vestióse el destino Negra vestidura, Huyó la ventura.

No se halló tormento, Que alli no se hallase; Ni bien, que pasase, Sinó como viento. Oh qué nacimiento, Que luego en la cuna Me siguió fortuna!

Esta dicha mia, Que siempre busqué, Buscándola, hallé Que no la hallaria; Que quien nace en dia D'estrella tan dura, Nunca halla ventura.

No puso mi estrella Mas ventura em min: Ansí vive en fin Quien nace sin ella. No me quejo della; Quéjome que atura Vida tan escura.

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MOTE.

Vida de minha alma.

_Volta._

Dous tormentos vejo Grandes por extremo: Se vos vejo, temo, E se não, desejo. Quando me despejo, E venho a escolher, Temendo o desejo, Desejo temer.

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CANTIGA ALHEIA.

Pastora da serra, Da serra da Estrella, Perco-me por ella.

_Voltas._

Nos seus olhos bellos Tanto Amor se atreve, Que abraza entre a neve Quantos ousão vellos. Não sólta os cabellos Aurora mais bella: Perco-me por ella.

Não teve esta serra No meio d'altura Mais que a formosura, Que nella se encerra. Bem ceo fica a terra, Que tee tal estrella: Perco-me por ella.

Sendo entre pastores Causa de mil males, Não se ouvem nos vales Senão seus louvores. Eu só por amores Não sei fallar nella, Sei morrer por ella.

D'alguns, que sentindo Seu mal vão mostrando. Se ri, não cuidando Qu'inda paga rindo. Eu triste, encobrindo Só meus males della, Perco-me por ella.

Se flores deseja Por ventura bellas, Das que colhe dellas Mil morrem d'inveja. Não ha quem não veja Todo o melhor nella: Perco-me por ella.

Se n'ágoa corrente Seus olhos inclina, Faz a luz divina Parar a corrente. Tal se vê, que sente Por ver-se a ágoa nella: Perco-me por ella.

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ENDECHAS.

Vós sois huma Dama Das feias do mundo; De toda a má fama Sois cabo profundo.

A vossa figura Não he para ver; Em vosso poder Não ha formosura.

Vós fostes dotada De toda a maldade; Perfeita beldade De vós he tirada.

Sois muito acabada De taixa e de glosa: Pois quanto a formosa, Em vós não ha nada.

Do grão merecer Sois bem apartada; Andais alongada Do bem parecer.

Bem claro mostrais Em vós fealdade: Não ha hi maldade, Que não precedais.

De fresco carão Vos vejo ausente; Em vós he presente A má condição.

De ter perfeição Mui alheia estais; Mui muito alcançais De pouca razão.

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ENDECHAS.

Vai o bem fugindo, Cresce o mal co'os annos, Vão-se descubrindo Co'o tempo os enganos.

Amor e alegria. Menos tempo dura. Triste de quem fia Nos bens da ventura!

Bem sem fundamento Tee certa a mudança, Certo o sentimento Na dor da lembrança.

Quem vive contente, Viva receoso: Mal que se não sente, He mais perigoso.

Quem males sentio, Saiba ja temer; E pelo que vio Julgue o qu'ha de ser.

Alegre vivia, Triste vivo agora; Chora a alma de dia, E de noite chora.

Confesso os enganos De meu pensamento: Bem de tantos annos Foi-se n'hum momento.

Meus olhos, que vistes? Pois vos atrevestes, Chorae, olhos tristes, O bem que perdestes.

A luz do sol pura Só a vós se negue; Seja noite escura, Nunca a manhãa chegue.

O campo floreça, Murmurem as ágoas, Tudo me entristeça, Cresção minhas mágoas.

Quizera mostrar O mal que padeço; Não lhe dá lugar Quem lhe deu comêço.

Em tristes cuidados Passo a triste vida; Cuidados cansados, Vida aborrecida.

Nunca pude crer O que agora creio: Cegou-me o prazer Do mal que me veio.

Ah ventura minha, Como me negaste! Hum so bem que tinha, Porque mo roubaste?

Triste fantasia Quanta cousa guarda! Quem ja visse o dia, Que tanto lhe tarda!

Nesta vida cega Nada permanece; O qu'inda não chega, Ja desaparece.

Qualquer esperança Foge como o vento: Tudo faz mudança, Salvo meu tormento.

Amor cego e triste, Quem o tee padece: Mal quem lhe resiste! Mal quem lhe obedece!

No meu mal esquivo Sei como Amor trata: E pois nelle vivo, Nenhum amor mata.

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SEXTINAS.

SEXTINA I.

Foge-me pouco a pouco a curta vida, Se por caso he verdade qu'inda vivo; Vai-se-me o breve tempo d'ante os olhos; Chóro por o passado; e em quanto fallo, Se me passão os dias passo a passo. Vai-se-me, emfim, a idade, e fica a pena.

Que maneira tão aspera de pena! Pois nunca hum'hora vio tão longa vida Em que do mal mover se visse hum passo. Que mais me monta ser morto que vivo? Para que chóro, emfim? para que fallo, Se lograr-me não pude de meus olhos?

Oh formosos, gentís e claros olhos, Cuja ausencia me move a tanta pena, Quanta se não comprende em quanto fallo! Se no fim de tão longa e curta vida De vós m'inflammasse inda o raio vivo, Por bem teria todo o mal que passo.

Mas bem sei que primeiro o extremo passo Me ha de vir a cerrar os tristes olhos, Que Amor me mostre aquelles por quem vivo. Testimunhas serão a tinta e penna, Qu'escrevêrão de tão molesta vida O menos que passei, e o mais que fallo.

Oh que não sei qu'escrevo, nem que fallo! Pois se d'hum pensamento em outro passo, Vejo tão triste genero de vida, Que se lhe não valerem tanto os olhos, Não posso imaginar qual seja a penna Qu'esta pena traslade com que vivo.

N'alma tenho contino hum fogo vivo, Que se não respirasse no que fallo, Estaria ja feita cinza a pena; Mas sôbre a maior dor que soffro e passo, O temperão com lagrimas os olhos: Com que, se foge, não se acaba a vida.

Morrendo estou na vida, e em morte vivo; Vejo sem olhos, e sem lingua fallo; E juntamente passo gloria e pena.

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SEXTINA II.

A culpa de meu mal só tee meus olhos, Pois que derão a Amor entrada n'alma, Para que perdesse eu a liberdade. Mas quem póde fugir a huma brandura, Que despois de vos pôr em tantos males, Dá por bens o perder por ella a vida?

Assaz de pouco faz quem perde a vida Por condição tão dura e brandos olhos; Pois de tal qualidade são meus males, Que o mais pequeno delles toca n'alma. Não s'engane com mostras de brandura Quem quizer conservar a liberdade.

Roubadora he de toda liberdade (E oxalá perdoasse á triste vida!) Esta que o falso Amor chama brandura, Ai meus antes imigos, que meus olhos! Que mal vos tinha feito esta vossa alma, Para vós lhe fazerdes tantos males?

Cresção de dia em dia embora os males; Perca-se embora a antigua liberdade; Transforme-se em Amor esta triste alma; Padeça embora esta innocente vida; Que bem me págão tudo estes meus olhos, Quando de outros, se os vem, vem a brandura.

Mas como nelles póde haver brandura, Se causadores são de tantos males? Engano foi d'Amor, porque meus olhos Dessem por bem perdida a liberdade. Ja não tenho que dar senão a vida, Se a vida ja não deo, quem ja deo a alma.

Que póde ja'sperar quem a sua alma Captiva eterna fez d'huma brandura, Que quando vos dá morte, diz qu'he vida? Forçado me he gritar nestes meus males, Olhos meus: pois por vós a liberdade Perdi, de vós me queixarei, meus olhos.

Chorae, meus olhos, sempre os damnos d'alma, Pois dais a liberdade a tal brandura, Que para dar mais males, dá mais vida.

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SEXTINA III.

Oh triste, oh tenebroso, oh cruel dia, Amanhecido só para meu damno! Pudeste-me apartar daquella vista Por quem vivia com meu mal contente? Ah se o supremo fôras desta vida, Qu'em ti se começára a minha glória!

Mas como eu não nasci para ter glória, Senão pena que cresça cada dia, O ceo m'está negando o fim da vida, Porque não tenha fim com ella o damno: Para que nunca possa ser contente, Da vista me tirou aquella vista.

Suave, deleitosa, alegre vista, Donde pendia toda a minha gloria, Por quem na mor tristeza fui contente; Quando será que veja aquelle dia Em que deixe de ver tão grave damno, E em que me deixe tão penosa vida?

Como desejarei humana vida, Ausente d'hua mais que humana vista, Que tão glorioso me fazia o damno! Vejo o meu damno sem a sua glória; Á minha noite falta ja seu dia: Triste tudo se vê, nada contente.

Pois sem ti ja não posso ser contente, Mal posso desejar sem ti a vida; Sem ti ja ver não posso claro dia, Não posso sem te ver desejar vista; Na tua vista só se via a glória, Não ver a glória tua he ver meu damno.