Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Part 4

Chapter 43,577 wordsPublic domain

Se se foi ha mais d'hum mês, Teus olhos não cansarão? Não, que apos elle se vão Estas lagrimas que vês. Fazem logo estes abrolhos O mato espinhoso e fero. Pois eu não vejo a Cincero, Isso só verão meus olhos.

Chorando queres morrer? Mais quero viver chorando. Tu não vês que vás cegando? Se cego, como hei de ver? Põe na vista outros antolhos. Não posso, nem menos quero. Outra para outro Cincero, Antes não quero ter olhos.

* * * * *

A HUMA MULHER, QUE SE CHAMAVA GRACIA DE MORAES.

_Mote._

Olhos, em qu'estão mil flores, E com tanta graça olhais, Que parece que os Amores Morão onde vós morais.

_Volta._

Vem-se rosas e boninas, Olhos, nesse vosso ver; Vem-se mil almas arder No fogo dessas meninas. E di-lo-hão minhas dores, Meus suspiros e meus ais; E dirão mais, que os amores Morão onde vós morais.

* * * * *

MOTE.

Quem se confia em huns olhos, Nas meninas delles vê Que meninas não tee fé.

_Voltas._

Quem põe suas confianças Em meninas sem assento, Offereça o soffrimento A duzentas mil mudanças. Mostrão no ar esperanças; Mas em seus olhos se vê Como não tee n'alma fé.

Enganão ao parecer, Porque no caso d'amar, São mulheres no matar, E meninas no querer. Quem em seus olhos se crer, Cem mil graças nelles vê; Vê-las sim, mas não ter fé.

Amostrão-vos n'hum momento Favores assi a mólhos; Mas na mudança dos olhos Se lhe muda o pensamento. Em nada ja tee assento, E o que mais nelles se vê He formosura sem fé.

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LOUVANDO E DESLOUVANDO UMA DAMA.

_Cantiga Velha._

Sois formosa, e tudo tendes, Senão que tendes os olhos verdes,

_Voltas._

Ninguem vos póde tirar Serdes tão bem assombrada; Mas heis-me de perdoar, Que os olhos não valem nada. Fostes mal aconselhada Em querer que fossem verdes: Trabalhae de os esconderdes.

A vossa testa he jardim, Onde Amor se desenfada; He tão branca e bem talhada, Que parece de marfim. Assi he; e quanto a mim, Isso vos nasce de a terdes Tão perto dos olhos verdes.

Os cabellos desatados O mesmo sol escurecem; Senão que por ser ondados, Algum tanto desmerecem: Mas á fé, que se parecem A furto dos olhos verdes, Não vos peze, não, de os terdes.

As pestanas tee mostrado Ser raios, que abrazão vidas: Se não forão tão compridas, Tudo o mais era pintado: Ellas me tinhão levado A alma, sem o vós saberdes, Se não forão os olhos verdes.

O mimo desse carão Nem pôr-lhe os olhos consente: O ser liso e transparente Rouba todo o coração: Inda assi achareis nação, Que lhe não peze de os verdes; Mas não seja co'os olhos verdes.

Esse riso, que he compôsto De quantas graças nascêrão, Senão que alguns me disserão, Vos faz covinhas no rôsto. Na vontade tenho posto Dar-vos a alma, se quizerdes, A trôco dos olhos verdes.

Nunca se vio, nem se escreve Boca co'huma graça igual, Se não fôra de coral, E os dentes de côr de neve. Dou-me eu a Deos, que me leve! Soffrerei quanto tiverdes, Não me tenhais olhos verdes.

Essa garganta merece Outras palavras não minhas, Senão qu'he feita em rosquinhas D'alfenim, ao que parece. Eu sei bem quem se offerece A tomar tudo o que tendes, E tambem os olhos verdes.

Essas mãos são ferropeas: Só o vê-las enfeitiça; Senão que são alvas, cheias, E tee a feição roliça; Com que appellais por justiça, Para com ellas prenderdes Quem vê vossos olhos verdes.

A vossa galantaria Matará a quem fallardes: Tendes huns desdens e tardes, Que eu logo vos roubaria. Oh dou-me a Santa Maria! Sou cujo de quanto tendes, E tambem desses olhos verdes.

* * * * *

AO MESMO.

Tudo tendes singular, Com que os corações rendeis, Senão que rindo, fazeis Covinhas para enterrar: E para resuscitar Tee força a graça que tendes; Senão que tendes os olhos verdes.

Tudo, Senhora, alcançais, Quanto o ser formosa alcança, Senão que dais esperança Co'os olhos com que matais. Se acaso os alevantais, He para as almas renderdes; Senão que tendes os olhos verdes.

* * * * *

A DOM ANTONIO, SENHOR DE CASCAES, QUE TENDO-LHE PROMETTIDO SEIS GALLINHAS RECHEADAS POR HUMA COPLA QUE LHE FIZERA, LHE MANDOU POR PRINCÍPIO DA PAGA MEIA GALLINHA RECHEADA.

Cinco gallinhas e meia Deve o Senhor de Cascais; E a meia vinha cheia De appetite para as mais.

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MOTE.

Catharina bem promette; Ora má! como ella mente!

_Voltas._

Catharina he mais formosa Para mi, que a luz do dia; Mas mais formosa sería, Se não fosse mentirosa. Hoje a vejo piedosa, Á manhãa tão differente, Que sempre cuido que mente.

Prometteo-me hontem de vir, Nunca mais appareceo; Creio que não prometteo, Senão só por me mentir. Faz-me, emfim, chorar e rir; Rio, quando me promette, Mas chóro quando me mente.

Jurou-me aquella cadella De vir, pela alma que tinha; Enganou-me; tinha a minha; Deo-lhe pouco de perdella. A vida gasto apos ella, Porque ma dá, se promette, Mas tira-ma, quando mente.

Má, mentirosa, malvada, Dizei, porque me mentis? Prometteis, e então fugis? Pois sem tornar, tudo he nada. Não sois bem aconselhada; Que quem promette, se mente, O que perde não o sente.

Tudo vos consentiria Quanto quizesseis fazer, Se este vosso prometter Fosse por me ter hum dia. Todo então me desfaria Com gôsto; e vós de contente, Zombarieis de quem mente.

Mas pois folgais de mentir, Promettendo de me ver, Eu vos deixo o prometter, Deixae-me vós o servir: Haveis então de sentir Quanto a minha vida sente O servir a quem lhe mente.

Catharina me mentio Muitas vezes, sem ter lei, E todas lhe perdoei Por huma só que cumprio. Se como me consentio Fallar-lhe, o mais me consente, Nunca mais direi que mente.

* * * * *

MOTE.

A alma, qu'está offrecida A tudo, nada lhe he forte; Assi passa o bem da vida, Como passa o mal da morte.

_Volta._

De maneira me succede O que temo, e o que desejo, Que sempre o que temo, vejo, Nunca o que a vontade pede. Tenho tão offerecida Alma e vida a toda a sorte, Que isso me dera da morte, Como ja me dá da vida.

* * * * *

MOTE.

Ferro, fogo, frio e calma, Todo o mundo acabarão; Mas nunca vos tirarão, Alma minha, da minha alma.

_Volta._

Não vos guardei, quando vinha, Em tôrre, fôrça, ou engenho; Que mais guardada vos tenho Em vós, que sois alma minha. Alli nem frio, nem calma, Não podem ter jurdição; Na vida sim, porém não Em vós que tenho por alma.

* * * * *

MOTE.

Esperei, ja não espero De mais vos servir, Senhora; Pois me fazeis cada hora Tanto mal, que desespéro.

_Volta._

Pois sei certo que folgais, Quando mais mal me fazeis, E que nunca descansais, Senão quando me mostrais Quão pouco bem me quereis; Servir-vos mais não espero Pois meu viver empeora Com me fazerdes, Senhora, Tanto mal, que desespéro.

* * * * *

MOTE.

Descalça vai para a fonte Leonor pela verdura; Vai formosa, e não segura.

_Voltas._

Leva na cabeça o pote, O testo nas mãos de prata, Cinta de fina escarlata, Sainho de chamalote: Traz a vasquinha de cote, Mais branca que a neve pura; Vai formosa, e não segura.

Descobre a touca a garganta, Cabellos de ouro entrançado, Fita de côr d'encarnado, Tão linda que o mundo espanta: Chove nella graça tanta, Que dá graça á formosura; Vai formosa, e não segura.

* * * * *

MOTE.

Quem disser que a barca pende, Dir-lhe-hei, mana, que mente.

_Voltas._

Se vos quereis embarcar, E para isso estais no caes, Entrae logo: que tardaes? Olhae qu'está preamar: E se outrem, por vos fretar, Vos disser qu'esta que pende, Dir-lhe-hei, mana, que mente.

Esta barca he de carreira; Tee seus apparelhos novos: Não ha como ella outra em Povos Boa de leme, e veleira: Mas, se por ser a primeira, Vos disser alguem que pende, Dir-lhe-hei, mana, que mente.

* * * * *

MOTE.

Com razão queixar-me posso De vós, que mal vos queixais; Pois, Senhora, vos sangrais, Que seja n'hum corpo vosso.

_Voltas._

Eu para levar a palma, Com que ser vosso mereça, Quero que o corpo padeça Por vós, que delle sois alma. Vós do corpo vos queixais, Eu queixar-me de vós posso, Porque, tendo hum corpo vosso, Na minha alma vos sangrais.

E sem fazer differença No que de mi possuis, Pelo pouco que sentis, Dais á minh'alma doença. Porque dous aventurais? Oh não seja o damno nosso! Sangre-se este corpo vosso, Porque, minha alma, vivais.

E inda, se attentardes bem, Seguis medicina errada, Porque para ser sangrada Hum'alma sangue não tem. E pois em mi sarar posso Males, que á minha alma dais, Se inda outra vez vos sangrais, Seja neste corpo vosso.

* * * * *

MOTE.

Ojos, herido me habeis, Acabad ya de matarme; Mas muerto volved á mirarme, Porque me resusciteis.

_Voltas._

Pues me distes tal herida, Con gana de darme muerte, El morir me es dulce suerte, Pues con morir me dais vida. Ojos, qué os deteneis? Acabad ya de matarme; Mas muerto volved á mirarme, Porque me resusciteis.

La llaga cierto ya es mia, Aunque, ojos, vós no querrais; Mas si la muerte me dais, El morir me es alegría. Y así digo que acabeis, O ojos, ya de matarme; Mas muerto volved á mirarme, Porque me resusciteis.

* * * * *

A DONA FRANCISCA DE ARAGÃO, QUE LHE MANDOU GLOSAR ESTE VERSO:

Mas porém a que cuidados?

Tanto maiores tormentos Forão sempre os que soffri, Daquillo que cabe em mi, Que não sei que pensamentos São os para que nasci. Quando vejo este meu peito A perigos arriscados Inclinado, bem suspeito Que a cuidados sou sujeito, _Mas porém a que cuidados?_

_Ao mesmo._

Que vindes em mi buscar, Cuidados, que sou captivo? Eu não tenho que vos dar: Se vindes a me matar, Ja ha muito que não vivo: Se vindes, porque me dais Tormentos desesperados, Eu, que sempre soffri mais, Não digo que não venhais; _Mas porém a que cuidados?_

_Ao mesmo._

Se as penas que Amor me deu, Vem por tão suaves meios, Não ha que temer receios; Que val hum cuidado meu Por mil descansos alheios. Ter n'huns olhos tão formosos Os sentidos enlevados, Bem sei qu'em baixos estados São cuidados perigosos; _Mas porém a que cuidados?..._

_Carta com a glosa acima._

Deixei-me enterrar no esquecimento de v. m. crendo me sería assi mais seguro: mas agora que he servida de me tornar a resuscitar, por me mostrar seus poderes, lembro-lhe que huma vida trabalhosa he menos de agradecer, que huma morte descansada. Mas se esta vida, que agora de novo me dá, for para ma tornar a tomar, servindo-se della, não me fica mais que desejar, que poder acertar com este mote de v. m., ao qual dei tres entendimentos, segundo as palavras delle pudérão soffrer: se forem bons, he mote de v. m.: se maos, são as glosas minhas.

* * * * *

MOTE ALHEIO.

Campos bem-aventurados, Tornae-vos agora tristes; Que os dias, em que me vistes, Alegres ja são passados.

_Glosa._

Campos cheios de prazer, Vós qu'estais reverdecendo, Ja m'alegrei com vos ver; Agora venho a temer Qu'entristeçais em me vendo. E pois a vista alegrais Dos olhos desesperados, Não quero que me vejais, Para que sempre sejais, _Campos, bem-aventurados._

Porém se por accidente Vos pezar de meu tormento, Sabereis que Amor consente Que tudo me descontente, Senão descontentamento. Por isso vós, arvoredos, Que ja nos meus olhos vistes Mais alegria, que medos, Se mos quereis fazer ledos, _Tornae-vos agora tristes._

Ja me vistes ledo ser, Mas despois que o falso Amor Tão triste me fez viver, Ledos folgo de vos ver, Porque me dobreis a dor. E se este gôsto sobejo De minha dor me sentistes, Julgae quanto mais desejo As horas que vos não vejo, _Que os dias em que me vistes._

O tempo, qu'he desigual, De seccos, verdes vos tem; Porqu'em vosso natural Se muda o mal para o bem, Mas o meu para mor mal. Se perguntais, verdes prados, Pelos tempos differentes Que de Amor me forão dados, Tristes, aqui são presentes, _Alegres, ja são passados._

* * * * *

MOTE ALHEIO.

Trabalhos descansarião Se para vós trabalhasse; Tempos tristes passarião, Se algum'hora vos lembrasse.

_Glosa._

Nunca o prazer se conhece, Senão despois da tormenta: Tão pouco o bem permanece, Que se o descanso florece, Logo o trabalho arrebenta. Sempre os bens se lograrião, Mas os males tudo atalhão; Porém ja que assi porfião, Onde descansos trabalhão, _Trabalhos descansarião._

Qualquer trabalho me fôra Por vós grão contentamento: Nada sentira, Senhora, Se víra disto algum'hora Em vós hum conhecimento. Por mal que o mal me tratasse, Tudo por bem tomaria; Postoque o corpo cansasse, A alma descansaria, _Se para vós trabalhasse._

Quem vossas cruezas ja Soffreo, a tudo se poz; Costumado ficará; E muito melhor será, Se trabalhar para vós. Tristezas esquecerião, Postoque mal me tratárão; Annos não me lembrarião, Que como est'outros passarão, _Tempos tristes passarião._

Se fosse galardoado Este trabalho tão duro, Não vivêra magoado. Mas não o foi o passado, Como o será o futuro? De cansar não cansaria, Se quizereis, que cansasse; Cavar, morrer, fa-lo-hia; Tudo, emfim, esqueceria, _Se algum'hora vos lembrasse._

* * * * *

MOTE ALHEIO.

Triste vida se me ordena, Pois quer vossa condição Que os males, que dais por pena, Me fiquem por galardão.

_Glosa._

Despois de sempre soffrer, Senhora, vossas cruezas, A pezar de meu querer, Me quereis satisfazer Meus serviços com tristezas. Mas, pois em balde resiste Quem vossa vista condena, Prestes estou para a pena; Que de galardão tão triste _Triste vida se me ordena._

De contente do mal meu A tão grande extremo vim, Que consinto em minha fim: Assi que vós e mais eu, Ambos somos contra mim. Mas que soffra meu tormento, Sem querer mais galardão, Não he fóra de razão Que queira meu soffrimento, _Pois quer vossa condição._

O mal, que vós dais por bem, Esse, Senhora, he mortal; Que o mal, que dais como mal, Em muito menos se tem, Por costume natural. Mas porém nesta victoria, Que comigo he bem pequena, A maior dor me condena A pena, que dais por gloria, _Que os males, que dais por pena._

Que mor bem me possa vir, Que servir-vos, não o sei. Pois que mais quero eu pedir, Se quanto mais vos servir, Tanto mais vos deverei? Se vossos merecimentos De tão alta estima são, Assaz de favor me dão Em querer que meus tormentos _Me fiquem por galardão._

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MOTE ALHEIO.

Ja não posso ser contente, Tenho a esperança perdida; Ando perdido entre a gente, Nem morro, nem tenho vida.

_Glosa._

Despois que meu cruel Fado Destruio huma esperança, Em que me vi levantado, No mal fiquei sem mudança, E do bem desesperado. O coração, que isto sente, Á sua dor não resiste, Porque vê mui claramente Que pois nasci para triste, _Ja não posso ser contente._

Por isso, contentamentos, Fugi de quem vos despreza: Ja fiz outros fundamentos, Ja fiz senhora a tristeza De todos meus pensamentos. O menos que lh'entreguei, Foi esta cansada vida: Cuido que nisto acertei, Porque de quanto esperei _Tenho a esperança perdida._

Acabar de me perder Fôra ja muito melhor; Tivera fim esta dor, Que não podendo mor ser, Cada vez a sinto mor. De vós desejo esconder-me, E de mi principalmente, Onde ninguem possa ver-me; Que pois me ganho em perder-me, _Ando perdido entre a gente._

Gostos de mudanças cheios, Não me busqueis, não vos quero: Tenho-vos por tão alheios, Que do bem que não espero, Inda me ficão receios. Em pena tão sem medida, Em tormento tão esquivo Que morra, ninguem duvída; Mas eu se morro, ou se vivo, _Nem morro, nem tenho vida._

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A HUMA DAMA, QUE SE CHAMAVA ANNA.

_Mote._

A morte, pois que sou vosso, Não a quero; mas se vem, Ha de ser todo meu bem.

_Glosa._

Amor, qu'em meu pensamento Com tanta fé se fundou, Me tee dado hum regimento, Que quando vir meu tormento Me salve com cujo sou. E com esta defensão, Com que tudo vencer posso, Diz a causa ao coração: Não tee em mi jurdição _A morte, pois que sou vosso._

Por exprimentar hum dia Amor se me achava forte Nesta fé, como dizia, Me convidou com a morte, Só por ver se a temeria. E como ella seja a cousa Onde está todo meu bem, Respondi-lhe, como quem Quer dizer mais, e não ousa: _Não a quero, mas se vem..._

Não disse mais, porque então Entendeo quanto me toca; E se tinha dito o não, Muitas vezes diz a boca, O que nega o coração. Toda a cousa defendida Em mais estima se tem: Por isso he cousa sabida, Que perder por vós a vida _Ha de ser todo meu bem._

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Á MESMA DAMA.

Vejo-a n'alma pintada, Quando me pede o desejo O natural que não vejo.

_Glosa._

Se só de ver puramente Me transformei no que vi, De vista tão excellente Mal poderei ser ausente, Em quanto o não for de mi. Porque a alma namorada A traz tão bem debuxada, E a memoria tanto voa, Que se a não vejo em pessoa, _Vejo-a n'alma pintada._

O desejo, que s'estende Ao que menos se concede, Sôbre vós pede e pretende, Como o doente que pede O que mais se lhe defende. Eu, qu'em ausencia vos vejo, Tenho piedade e pejo De me ver tão pobre estar, Qu'então não tenho que dar, _Quando me pede o desejo._

Como áquelle que cegou, He cousa vista e notoria, Que a natureza ordenou Que se lhe dobre em memoria O qu'em vista lhe faltou: Assi a mi, que não vejo Co'os olhos o que desejo, Na memoria e na firmeza Me concede a natureza _O natural que não vejo._

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MOTE ALHEIO.

Sem vós, e com meu cuidado, Olhae com quem, e sem quem.

_Glosa._

Vendo Amor que com vos ver Mais levemente soffria Os males que me fazia, Não me pôde isto soffrer; Conjurou-se com meu Fado; Hum novo mal me ordenou: Ambos me levão forçado, Não sei onde, pois que vou _Sem vós e com meu cuidado._

Não sei qual he mais estranho Destes dous males que sigo, Se não vos ver, se comigo Levar imigo tamanho. O que fica, e o que vem, Hum me mata, outro desejo: Com tal mal, e sem tal bem, Em taes extremos me vejo: _Olhae com quem, e sem quem_!

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AO MESMO.

Amor, cuja providencia Foi sempre que não errasse, Porque n'alma vos levasse, Respeitando o mal d'ausencia, Quiz qu'em vós me transformasse. E vendo-me ir maltratado, Eu e meu cuidado sós, Proveo nisso de attentado, Por não me ausentar de vós, _Sem vós, e com meu cuidado._

Mas est'alma, qu'eu trazia, Porque vós nella morais, Deixa-me cego, e sem guia; Que ha por melhor companhia Ficar onde vós ficais. Assi me vou de meu bem, Onde quer a forte estrella, Sem alma, qu'em si vos tem, Co'o mal de viver sem ella: _Olhae com quem, e sem quem_!

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MOTE ALHEIO.

Sem ventura he por demais.

_Glosa._

Todo o trabalhado bem Promette gostoso fruito; Mas os trabalhos, que vem, Para quem dita não tem Valem pouco, e custão muito. Rompe toda a pedra dura, Faz os homens immortais O trabalho quando atura; Mas querer achar ventura, _Sem ventura, he por demais._

* * * * *

MOTE ALHEIO.

Minh'alma, lembrae-vos della.

_Glosa._

Pois o ver-vos tenho em mais Que mil vidas que me deis, Assi como a que me dais, Meu bem, ja que mo negais, Meus olhos, não mo negueis. E se a tal estado vim Guiado de minha estrella, Quando houverdes dó de mim, Minha vida, dae-lhe a fim, _Minh'alma, lembrae-vos della._

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MOTE ALHEIO.

Tudo póde huma affeição.

_Glosa._

Tee tal jurdição Amor N'alma donde se aposenta, E de que se faz senhor, Que a liberta e isenta De todo humano temor. E com mui justa razão, Como senhor soberano, Que Amor não consente dano. E pois me soffre tenção, Gritarei por desengano: _Tudo póde huma affeição._

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TROVA DE BOSCÃO.

Justa fué mi perdicion; De mis males soy contento; Ya no espero galardon, Pues vuestro merecimiento Satisfizo mi pasion.

_Glosa._

Despues que Amor me formó Todo de amor, cual me veo, En las leyes, que me dió, El mirar me consintió, Y defendióme el deseo. Mas el alma, como injusta, En viendo tal perfeccion, Dió al deseo ocasion: Y pues quebré ley tan justa, _Justa fué mi perdicion._

Mostrándoseme el Amor Mas benigno que cruel, Sobre tirano traidor, De zelos de mi dolor, Quiso tomar parte en él. Yo que tan dulce tormento No quiero dallo, aunque peco, Resisto, y no lo consiento; Mas si me lo toma á trueco _De mis males, soy contento._

Señora, ved lo que ordena Este Amor tan falso nuestro! Por pagar á costa agena, Manda que de un mirar vuestro Haga el premio de mi pena. Mas vos, para que veais Tan engañosa intencion, Aunque muerto me sintais, No mireis, que si mirais, _Ya no espero galardon._

Pues que premio (me direis) Esperas que será bueno? Sabed, sino lo sabeis, Que es lo mas de lo que peno Lo menos que mereceis. Quien hace al mal tan ufano, Y tan libre al sentimiento? El deseo? No, que es vano. El amor? No, que es tirano. _Pues? Vuestro merecimiento._

No pudiendo Amor robarme De mis tan caros despojos, Aunque fué por mas honrarme, Vos sola para matarme Le prestastes vuestros ojos. Matáranme ambos á dos; Mas á vos con mas razon Debe el la satisfaccion; Que á mi por él, y por vos, _Satisfizo mi pasion._

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ALHEIO.

Todo es poco lo posible.

_Glosa._

Ved que engaño señorea Nuestro juicio tan loco, Que por mucho que se crea, Todo el bien, que se desea, Alcanzado, queda poco. Un bien de cualquiera grado, Si de haberse es imposible, Queda mucho deseado. Mas para mucho, alcanzado, _Todo es poco lo posible._

_Outro._

Posible es á mi cuidado Poderme hacer satisfecho, Si fuera posible al hado Hacer no hecho lo hecho, Y futuro lo pasado. Si olvido pudiera haber, Fuera remedio sufrible; Mas ya que no puede ser, Para contento me hacer, _Todo es poco lo posible._