Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
Part 3
N'huma casada fui pôr Os olhos, de si senhores: Cuidei que fossem amores, Elles fizerão-se amor. Faz-se o desejo maior Donde o remedio não val, Em perigo de meu mal.
Não me paraceo que Amor Pudesse tanto comigo, Que donde entra por amigo, Se levante por senhor. Leva-me de dor em dor, E de final em final, Cada vez para mor mal.
* * * * *
OUTRO SEU
Enforquei minha esperança; Mas Amor foi tão madraço, Que lhe cortou o baraço.
_Volta._
Foi a esperança julgada Por sentença da Ventura, Que pois me leve á pendura, Que fosse dependurada: Vem Cupido com a espada, Corta-lhe cerce o baraço. Cupido, foste madraço.
* * * * *
OUTRO SEU
Puz o coração nos olhos, E os olhos puz no chão, Por vingar o coração.
_Volta._
O coração invejoso Como dos olhos andava, Sempre remoques me dava Que não era o meu mimoso: Venho eu de piedoso Do Senhor meu coração, E boto os olhos no chão.
* * * * *
OUTRO SEU
Puz meus olhos n'huma funda, E fiz hum tiro com ella Ás grades d'huma janella.
_Volta._
Huma Dama, de malvada, Tomou seus olhos na mão; E tirou-me huma pedrada Com elles ao coração. Armei minha funda então, E puz os meus olhos nella, Trape, quebrei-lhe a janella.
* * * * *
ALHEIO.
De pequena tomei amor, Porque o não entendi; Agora que o conheci, Mata-me com desfavor.
_Voltas._
Vi-o moço e pequenino, E a mesma idade ensina Que s'incline huma menina Ás amostras d'hum menino: Ouvi-lhe chamar Amor, Pelo nome me venci; Nunca tal engano vi, Nem tamanho desamor.
Cresceo-me de dia em dia Com a idade a affeição, Porque amor de criação, N'alma, e na vida se cria. Criou-se em mi este amor, E senhoreou-se de mi: Agora que o conheci, Mata-me com desfavor.
As flores me torna abrolhos, A morte me determina Quem eu trouxe de menina Nas meninas de meus olhos. Desta mágoa e desta dor Tenho sabido que emfim Por amor me perco a mim Por quem de mi perde amor.
Parece ser caso estranho O que Amor em mi ordena, Qu'em idade tão pequena Haja tormento tamanho. Sejão milagres d'Amor, Hei-os de soffrer assi, Até que haja dó de mi Quem entender esta dor.
* * * * *
CANTIGA VELHA.
Apartárão-se os meus olhos De mi tão longe. Falsos amores, Falsos, maos, enganadores.
_Voltas._
Tratárão-me com cautella, Por m'enganar mais asinha; Dei-lhe posse d'alma minha, Forão-me fugir com ella. Não ha vê-los, nem ha vella, De mi tão longe. Falsos amores, Falsos, maos, enganadores!
Entreguei-lhe a liberdade, E, emfim, da vida o melhor; Forão-se; e do desamor Fizerão necessidade. Quem teve a sua vontade De si tão longe? Falsos amores, E oxalá enganadores!
* * * * *
OUTRA.
Falso Cavalheiro, ingrato, Enganais-me, Vós dizeis, que eu vos mato, E vós matais-me.
_Voltas._
Costumadas artes são Para enganar innocencias, Piedosas apparencias Sôbre isento coração. Eu vos amo, e vós ingrato Magoais-me, Dizendo, que eu vos mato, E vós matais-me.
Vêde agora qual de nós Anda mais perto do fim, Que a justiça faz-se em mim, E o pregão diz que sois vós. Quando mais verdade trato Levantais-me Que vos desamo e vos mato, E vós matais-me.
* * * * *
PROPRIO.
Se de meu mal me contento, He porque para vós vejo Em todo o mundo desejo, E em ninguem merecimento.
_Volta._
Para quem vos soube olhar Tão impossivel foi ser O poder-vos merecer, Como o não vos desejar. Pois logo a meu pensamento Nenhum remedio lhe vejo, Senão se der o desejo Azas ao merecimento.
* * * * *
ALHEIO.
Vós, Senhora, tudo tendes, Senão que tendes os olhos verdes.
_Voltas._
Dotou em vós natureza O summo da perfeição; Que o qu'em vós he senão, He em outras gentileza: O verde não se despreza, Que, agora que vós os tendes, São bellos os olhos verdes.
Ouro e azul he a melhor Côr, por que a gente se perde; Mas a graça desse verde Tira a graça a toda côr. Fica agora sendo a flor A côr, que nos olhos tendes, Porque são vossos e verdes.
* * * * *
ALHEIO.
Para que me dan tormento, Aprovechando tan poco? Perdido, mas no tan loco, Que descubra lo que siento.
_Voltas._
Tiempo perdido es aquel Que se passa en darme afan, Pues cuanto más me lo dan, Tanto menos siento dél. Que descubra lo que siento? No lo haré, que no es tan poco; Que no puede ser tan loco Quien tiene tal pensamiento.
Sepan que me manda Amor, Que de tan dulce querella, A nadie dé parte della, Porque la sienta mayor. Es tan dulce mi tormento, Que aun se me antoja poco; Y si es mucho, quedo loco De gusto de lo que siento.
* * * * *
ALHEIO.
De vuestros ojos centellas, Que encienden pechos de hielo, Suben por el aire al cielo, Y en llegando son estrellas.
_Voltas._
Falsos loores os dan, Que essas centellas tan raras No son nel cielo mas claras Que en los ojos donde estan. Porque cuando miro en ellas Lo como alumbran al suelo, No sé que seran nel cielo; Mas sé que acá son estrellas.
Ni se puede presumir Que al cielo suban, Señora; Que la lumbre que en vós mora, No tiene más que subir; Mas pienso que dan querellas Á Dios nel octavo cielo, Porque son acá en el suelo Dos tan hermosas estrellas.
* * * * *
ALHEIO.
De dentro tengo mi mal, Que de fuera no hay señal.
_Volta._
Mi nueva y dulce querella Es invisible á la gente; El alma sola la siente, Que el cuerpo no es dino della. Como la viva centella Se encubre en el pedernal, De dentro tengo mi mal.
* * * * *
ALHEIO.
Amor loco, amor loco, Yo por vós, y vós por otro.
_Voltas._
Dióme Amor tormentos dós, Para que pene doblado; Uno es verme desamado, Otro es mancilla de vós. Ved que ordena Amor en nós! Porque vós haceisme loco, Que seais loca por otro.
Tratais Amor de manera, Que porque asi me tratais, Quiere que, pues no me amais, Que ameis otro que no os quiera. Mas con todo, si no os viera De todo loca por otro, Con mas razon fuera loco.
Y tan contrario viviendo, Alfin, alfin, conformamos; Pues ambos a dós buscamos Lo que mas nos vá huyendo. Voy tras vós siempre siguiendo, Y vós huyendo por otro: Andais loca, y me haceis loco.
* * * * *
ALHEIO.
Vêde bem se nos meus dias Os desgostos vi sobejos, Pois tenho medo a desejos, E quero mal a alegrias.
_Volta._
Se desejos fui ja ter, Servírão de atormentar-me; Se algum bem póde alegrar-me, Quiz-me antes entristecer. Passei annos, passei dias Em desgostos tão sobejos, Que só por não ter desejos, Perderei mil alegrias.
* * * * *
PROPIO.
Pois he mais vosso que meu, Senhora, meu coração, Eu vosso captivo são, Meus olhos, lembre-vos eu.
_Volta._
Lembre-vos minha tristeza, Que jamais nunca me deixa; Lembre-vos com quanta queixa Se queixa minha firmeza: Lembre-vos que não he meu Este triste coração; E pois ha tanta razão, Meus olhos, lembre-vos eu.
* * * * *
OUTRO.
Senhora, pois minha vida Tendes em vosso poder; Por serdes della servida, Não queirais que destruida Possa ser.
_Volta._
Isto não por me pezar De morrer, se vós quizerdes; Que melhor me he acabar Mil vezes, que supportar Os males que me fizerdes; Mas só por serdes servida De mi, em quanto viver, Vos peço que minha vida Não queirais que destruida Possa ser.
* * * * *
OUTRO.
Pois damno me faz olhar-vos, Não quero, por não perder-vos, Que ninguem me veja ver-vos.
_Voltas._
De ver-vos a não vos ver Ha dous extremos mortaes; E são elles em si taes, Que hum por hum me faz morrer; Mas antes quero escolher, Que possa viver sem ver-vos, Minh'alma, por não perder-vos.
Deste tamanho perigo Que remedio posso ter, Se vivo só com vos ver, Se vos não vejo, perigo? Mas quero acabar comigo, Que ninguem me veja ver-vos, Senhora, por não perder-vos.
* * * * *
A TRES DAMAS, QUE LHE DIZIÃO QUE O AMAVÃO.
_Mote._
Não sei se m'engana Helena, Se Maria, se Joanna; Não sei qual dellas m'engana.
_Voltas._
Huma diz que me quer bem, Outra jura que me quer; Mas em jura de mulher Quem crerá, se ellas não crem? Não posso não crer a Helena, A Maria, nem Joanna; Mas não sei qual mais m'engana.
Huma faz-me juramentos Que só meu amor estima, A outra diz que se fina, Joanna, que bebe os ventos. Se cuido que mente Helena, Tambem mentirá Joanna; Mas quem mente não m'engana.
* * * * *
A HUMA DAMA MAL EMPREGADA.
_Mote._
Menina, não sei dizer, Vendo-vos tão acabada, Quão triste estou por vos ver Formosa e mal empregada.
_Voltas._
Quem tão mal vos empregou, Pouco de mi se dohia, Pois não vio o quanto me hia Em tirar-me o que tirou. Obriga o primor que tem Lindeza tão extremada Que digão quantos a vem, Formosa e mal empregada!
Tomastes da formosura Quanto della desejastes, E com ella me guardastes Para tão triste ventura. Mataveis sendo solteira, Matais agora em casada; Matais de toda a maneira, Formosa e mal empregada.
* * * * *
A HUMA Foãa Gonçalves.
_Mote._
Com vossos olhos, Gonçalves, Senhora, captivo tendes Este meu coração Mendes.
_Volta._
Eu sou boa testimunha, Que Amor tem por cousa má, Que olhos, que são homens ja, Se nomeiem sem alcunha; Pois o coração apunha, E diz, olhos, pois vós tendes, Chamae-me coração Mendes.
* * * * *
OUTRO
De que me serve fugir De morte, dor e perigo, Se me eu levo comigo?
_Voltas._
Tenho-me persuadido, Por razão conveniente, Que não posso ser contente, Pois que pude ser nascido. Anda sempre tão unido O meu tormento comigo, Qu'eu mesmo sou meu perigo.
E se de mi me livrasse, Nenhum gôsto me sería: Quem, senão eu, não teria Mal, que esse bem me tirasse? Fôrça he logo que assi passe, Ou com desgôsto comigo, Ou sem gôsto e sem perigo.
* * * * *
A HUMA DAMA, QUE JURAVA PELOS SEUS OLHOS.
Quando me quer enganar A minha bella perjura, Para mais me confirmar O que quer certificar, Polos seus olhos me jura. Como meu contentamento Todo se rege por elles, Imagina o pensamento, Que se faz aggravo a elles Não crer tão grão juramento.
Porém como em casos tais Ando ja visto e corrente, Sem outros certos sinais, Quanto me ella jura mais, Tanto mais cuido que mente. Então vendo-lhe offender Huns taes olhos como aquelles, Deixo-me antes tudo crer, Só pola não constranger A jurar falso por elles.
* * * * *
MOTE ALHEIO.
Ha hum bem, que chega e foge; E chama-se este bem tal, Ter bem para sentir mal.
_Volta._
Quem viveo sempre n'hum ser, Inda que seja em pobreza, Não vio o bem da riqueza, Nem o mal d'empobrecer: Não ganhou para perder; Mas ganhou com vida igual Não ter bem, nem sentir mal.
* * * * *
A HUMA DAMA, QUE LHE VIROU O ROSTO.
_Mote._
Olhos, não vos mereci Que tenhais tal condição, Tão liberaes para o chão, Tão irosos para mi.
_Volta._
Baixos e honestos andais, Por vos negardes a quem Não quer mais que aquelle bem, Que vós no chão espalhais? Se pouco vos mereci, Não m'estimeis mais que o chão, A quem vós o galardão Dais, e mo negais a mi.
* * * * *
PROPRIO.
Venceo-me Amor, não o nego; Tee mais fôrça qu'eu assaz; Que como he cego e rapaz, Dá-me porrada de cego.
_Volta._
Só porque he rapaz ruim, Dei-lhe hum boféte zombando. Diz-me: Ó mao, estais me dando, Porque sois maior que mim? Pois se eu vos descarrégo, E em dizendo isto, chaz; Torna-me outra; tá rapaz, Que dás porrada de cego.
* * * * *
AO DESCONCERTO DO MUNDO.
Os bons vi sempre passar No mundo graves tormentos; E para mais m'espantar, Os maos vi sempre nadar Em mar de contentamentos. Cuidando alcançar assi O bem tão mal ordenado, Fui mao; mas fui castigado. Assi, que só para mi Anda o mundo concertado.
* * * * *
A HUMA DAMA, PERGUNTANDO-LHE QUEM O MATAVA.
_Mote._
Perguntais-me, quem me mata? Não quero responder nada, Por vos não fazer culpada.
_Volta._
E se a penna não me atiça, A dizer pena tão forte, Quero-me entregar á morte, Antes que a vós á justiça. Porém se tendes cobiça De vos verdes tão culpada, Direi que não sinto nada.
* * * * *
MOTE.
Esconjuro-te, Domingas, Pois me dás tanto cuidado, Que me digas se te vingas, Viverei menos penado.
_Voltas._
Juravas-me, que outras cabras Folgavas de apascentar; Eu por não me magoar, Fingia qu'erão palabras. Agora d'arte te vingas D'algum meu doudo peccado, Qu'inda que queiras, Domingas, Não posso ser enganado.
Qualquer cousa busca o seu; A fonte vai para o Tejo, E tu para o teu desejo, Por te vingares do meu. De mi t'esqueces, Domingas, Como eu faço do meu gado: Praza a Deos, que se te vingas, Que morra desesperado.
Na phantasia te pinto, Fallo-te, responde o monte, Busco o rio, busco a fonte, Endoudeço, e não o sinto: Domingas no valle brado, Responde o eco Domingas; E tu inda te não vingas De me ver doudo tornado!
* * * * *
ALHEIO.
Se a alma ver-se não póde Onde pensamentos ferem, Que farei para me crerem?
_Voltas._
Se n'alma huma só ferida Faz na vida mil sinais, Tanto se descobre mais, Quanto he mais escondida. S'esta dor tão conhecida Me não vem, porque não querem, Que farei para ma crerem?
Se se pudesse bem ver Quanto callo, e quanto sento, Despois de tanto tormento Cuidaria alegre ser. Mas se não me querem crer Olhos, que tão mal me ferem, Que farei para me crerem?
* * * * *
ALHEIO.
Vosso bem querer, Senhora, Vosso mal melhor me fôra.
_Voltas._
Ja agora certo conheço Ser melhor todo tormento, Onde o arrependimento Se compra por justo preço. Enganou-me hum bom comêço; Mas o fim me diz agora Que o mal melhor me fôra.
Quando hum bem he tão damnoso, Que sendo bem, dá cuidado, O damno fica obrigado A ser menos perigoso. Mas se a mi por desditoso, Co'o bem me foi mal, Senhora, Co'o vosso mal bem me fôra.
* * * * *
ALHEIO.
Se me desta terra for, Eu vos levarei, amor.
_Voltas._
Se me for, e vos deixar, (Ponho por caso, que possa) Est'alma minha, qu'he vossa, Comvosco m'ha de ficar. Assi que só por levar A minha alma, se me for, Vos levarei, meu amor.
Que mal póde maltratar-me, Que comvosco seja mal? Ou que bem póde ser tal, Que sem vós possa alegrar-me? O mal não póde enojar-me, O bem me será maior, Se vos levar, meu amor.
* * * * *
ALHEIO.
Pequenos contentamentos, Hi buscar quem contenteis, Que a mi não me conheceis.
_Voltas._
Os gostos, que tantas dores Fizerão ja valer menos, Não os acceita pequenos, Quem nunca teve maiores: Bem parecem vãos favores, Pois tão tarde me quereis, Qu'inda me não conheceis.
Offereceis-me alegria, Tendo-me ja cego e mouco: He baixeza acceitar pouco, Quem tanto vos merecia. Ide-vos por outra via, Pois o bem que me deveis, Nunca mo satisfareis.
* * * * *
ALHEIO.
Perdigão perdeo a penna, Não ha mal que lhe não venha.
_Voltas._
Perdigão, que o pensamento Subio a hum alto lugar, Perde a penna do voar, Ganha a pena do tormento: Não tee no ar, nem no vento, Azas com que se sostenha: Não ha mal que lhe não venha.
Quiz voar a huma alta torre, Mas achou-se desasado; E vendo-se despennado, De puro penado morre. Se a queixumes se soccorre, Lança no fogo mais lenha: Não ha mal que lhe não venha.
* * * * *
A HUMAS SENHORAS, QUE HAVIÃO SER TERCEIRAS PARA COM HUMA DAMA.
Pois a tantas perdições, Senhoras, quereis dar vida, Ditosa seja a ferida, Que tee taes Cirurgiões! Pois ventura Me subio a tanta altura, Que me sejais valedoras, Ditosa seja a tristura, Que se cura Por vossos rogos, Senhoras!
Ser minha pena mortal, Ja qu'entendeis, que he assi, Não quero fallar por mi, Que por mi falla meu mal. Sois formosas, Haveis de ser piedosas, Por ser tudo d'huma côr; Que pois Amor vos fez rosas Milagrosas, Fazei milagres de Amor.
Pedi a quem vós sabeis, Que saiba de meu trabalho, Não pelo qu'eu nisso valho, Mas pelo que vós valeis. Que o valer De vosso alto merecer, Com lho pedir de giolhos, Fara qu'em meu padecer Possa ver O poder que tee seus olhos.
Vossa muita formosura Com a sua tanto val, Que me rio de meu mal, Quando cuido em quem me cura. A meus ais, Peço-vos que lhe valhais, Damas de Amor tão valídas, Que nunca tal dor sintais, Que queirais, Onde não sejais queridas.
* * * * *
CANTIGA ALHEIA.
Na fonte está Leonor Lavando a talha, e chorando, Ás amigas perguntando: Vistes lá o meu amor?
_Voltas._
Pôsto o pensamento nelle, Porque a tudo o Amor a obriga, Cantava, mas a cantiga Erão suspiros por elle. Nisto estava Leonor O seu desejo enganando, Ás amigas perguntando: Vistes lá o meu amor?
O rosto sôbre hua mão, Os olhos no chão pregados, Que de chorar ja cansados, Algum descanso lhe dão; Desta sorte Leonor Suspende de quando em quando Sua dor; e em si tornando, Mais pezada sente a dor.
Não deita dos olhos ágoa, Que não quer que a dor s'abrande Amor, porque em mágoa grande Sécca as lagrimas a mágoa. Despois que de seu amor Soube novas perguntando, D'improviso a vi chorando. Olhae que extremos de dor!
* * * * *
ESTAS TROVAS MANDOU O AUTOR DA CADEIA, EM QUE O TINHA EMBARGADO POR HUMA DIVIDA MIGUEL ROIZ, FIOS SECOS D'ALCUNHA, AO CONDE DO REDONDO D. FRANCISCO COUTINHO, VISO-REI, QUE SE EMBARCAVA PARA FÓRA, PEDINDO-LHE O FIZESSE DESEMBARGAR.
Que diabo ha tão damnado, Que não tema a cutilada Dos fios seccos da espada Do fero Miguel armado? Pois se tanto hum golpe seu Sôa na infernal cadeia; Do que o demonio arreceia Como não fugirei eu?
Com razão lhe fugiria, Se contr'elle, e contra tudo Não tivesse hum forte escudo Só em Vossa Senhoria. Por tanto, Senhor, proveja, Pois me tee ao remo atado, Que antes que seja embarcado, Eu desembargado seja.
* * * * *
ESTAS TROVAS MANDOU HEITOR DA SILVEIRA AO MESMO CONDE, INVERNANDO EM GOA.
Vossa Senhoria creia Que não apura o engenho Fome, se he como a que tenho, Mas afraca e corta a veia. E quem o contrário sente, Está farto em toda a hora, Como estou faminto agora: Mas Martha, se está contente, Dá-lhe pouco de quem chora.
E pois Vossa Senhoria Em geral a tudo acode, Acuda a mi, que só póde Dar-me no engenho valia. Esperte esta Musa minha, Que o tempo traz somnolenta; Valha-lhe nesta tormenta Com essa doce mézinha, Que só dá vida e contenta.
Acuda com provisão, Não de papel, mas provída D'ouro e prata; que esta vida Não sustentão papéis, não. De feitor a thesoureiro Ser-me-hia trabalho grande; Vossa Senhoria mande Algum remedio, primeiro, Com que a morte o ferro abrande.
_Ajuda de Luis de Camões._
Nos livros doutos se trata Que o grande Achilles insano Deo a morte a Heitor Troiano; Mas agora a fome mata O nosso Heitor Lusitano. Só ella o póde acabar, Se essa vossa condição Liberal e singular Não mete entr'elles bastão, Bastante para o fartar.
* * * * *
A HUMA SENHORA, QUE LHE CHAMOU DIABO.
_Esparsa._
Não posso chegar ao cabo De tamanho desarranjo, Que sendo vós, Senhora, Anjo, Vos queira tanto o Diabo. Dais manifesto sinal De minha muita firmeza, Que os diabos querem mal Aos Anjos por natureza.
* * * * *
CANTIGA.
Vi chorar huns claros olhos, Quando delles me partia. Oh que mágoa! Oh que alegria!
_Voltas._
Polo meu apartamento Se arrazárão todos d'ágoa. Quem cuidou qu'em tanta mágoa Achasse contentamento? Julgue todo entendimento Qual mais sentir se devia, Se esta dor, se esta alegria?
Quando mais perdido estive, Então deo a est'alma minha Na maior mágoa que tinha, O maior gôsto que tive. Assi, se minha alma vive, Foi porque me defendia Desta dor esta alegria?
O bem, que Amor me não deu No tempo que desejei, Quando delle me apartei, Me confessou, qu'era meu. Agora que farei eu, Se a fortuna me desvia De lograr esta alegria?
Não sei se foi enganado, Pois me tinha defendido Das íras de mal querido, No mal de ser apartado. Agora peno dobrado, Achando no fim do dia O princípio da alegria.
* * * * *
VILLANCETE PASTORIL.
Deos te salve, Vasco amigo. Não me fallas? Como assi? Bofé, Gil, não 'stava aqui.
_Voltas._
Pois onde te hão de fallar, Se não 'stás onde appareces? Se Magdanela conheces, Nella me pódes achar. E como te hão d'ir buscar Aonde fogem de ti? Pois nem eu estou em mi.
Porque te não acharei Em ti, como em Magdanela? Porque me fui perder nella O dia que me ganhei. Quem tão bem falla, não sei Como anda fóra de si. Ella falla dentro em mi.
Como estás aqui presente, Se lá tens a alma e a vida? Porqu'he d'hum'alma perdida Apparecer sempre á gente. Se es morto, bem se consente Que todos fujão de ti. Eu tambem fujo de mi.
* * * * *
OUTRO PASTORIL.
Porque no miras, Giraldo, Mi zampoña como suena? Porque no me mira Elena.
_Voltas._
Vuelve acá, no estês pasmado, Mira que gentil sonar! Como te podrá mirar Quien no puede ser mirado? Y que bueno enamorado! No dirás, si es mala, o buena? No, que me hizo mudo Elena.
Mira tan dulce armonía, Déjate dessos enojos. Tengo clavados los ojos Con que mirar te podia. Ansí Dios te dé alegría: No vés cuan dulce que suena? No, porque no veo Elena.
* * * * *
OUTRO PASTORIL.
Crescem, Camilla, os abrolhos De chorares por Cincero: Não he muito, que lhe quero, Belisa, mais que meus olhos.
_Voltas._
Sempre os teus olhos estão, Camilla, d'ágoas banhados. De se verem desamados Póde ser que chorarão. Si, mas crescem os abrolhos, E tu cegas por Cincero. S'eu não vejo quem mais quero, Para que quero mais olhos?