Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
Part 2
CONVITE QUE FEZ NA INDIA A CERTOS FIDALGOS.
_A primeira iguaria foi posta a Vasco de Ataide, e dizia:_
Se não quereis padecer Huma, ou duas horas tristes, Sabeis que haveis de fazer? Volveros por dó venistes, Que aqui não ha que comer. E, postoque aqui leais Trovinha que vos enleia, Corrido não estejais; Porque por mais que corrais, Não heis de alcançar a ceia.
_A segunda a D. Francisco de Almeida._
Heliogabalo zombava Das pessoas convidadas; E de sorte as enganava, Que as iguarias que dava, Vinhão nos pratos pintadas. Não temais tal travessura, Pois ja não póde ser nova; Porque a cêa está segura De vos não vir em pintura; Mas ha de vir toda em trova.
_A terceira a Heitor da Silveira._
Cêa não a papareis: Com tudo, porque não minta, Para beber achareis, Não Caparica, mas tinta, E mil cousas que papeis. E vós torceis o focinho Com esta amphibologia? Pois sabei que a Poesia Vos dá aqui tinta por vinho, E papéis por iguaria.
_A quarta a João Lopes Leitão, a quem o Author fez huns versos, que vão adiante, sôbre huma peça de cacha, que deo a huma Dama._
Porque os que vos convidárão Vosso estomago não danem, Por justa causa ordenárão, Se trovas vos enganárão, Que trovas vos desenganem. Vós tereis isto por tacha, Converter tudo em trovar; Pois se me virdes zombar, Não cuideis, Senhor, que he cacha, Que aqui não ha que cachar.
_Responde João Lopes._
Pezar ora não de são, Eu juro pelo Ceo bento, Se de comer não me dão, Qu'eu não sou camaleão, Que m'hei de manter do vento.
_Responde o Author._
Senhor, não vos agasteis, Porque Deos vos proverá; E se mais saber quereis, Nas costas deste lereis As iguarias que ha.
_Virado o papel, dizia assi:_
Tendes nem migalha assada; Cousa nenhuma de môlho; E nada feito em empada; E vento de tigelada; Picar no dente em remôlho: De fumo tendes taçalhos; Ave da pena que sente Quem da fome anda doente; Bocejar de vinho e d'alhos; Manjar em branco excellente.
_A derradeira a Francisco de Mello._
D'hum homem, que teve o scetro Da vêa maravilhosa, Não foi cousa duvidosa, Que se lhe tornava em metro O qu'hia a dizer em prosa. De mi vos quero affirmar Que faça cousas mais novas, De quanto podeis cuidar; E esta cêa, que he manjar, Vos faça na boca em trovas.
* * * * *
NA INDIA AO VISO-REI, COM O MOTE ADIANTE.
Conde, cujo illustre peito Merece nome de Rei, Do qual muito certo sei Que lhe fica sendo estreito O cargo de Viso-Rei; Servirdes-vos d'occupar-me Tanto contra meu Planeta, Não foi senão azas dar-me, Com as quaes vou a queimar-me, Como o faz a borboleta.
E s'eu a penna tomar, Que tão mal cortada tenho, Será para celebrar Vosso valor singular Dino de mais alto engenho. Que se o meu vos celebrasse, Necessario me sería Que os olhos d'aguia tomasse, Só para que não cegasse No sol de vossa valia.
Vossos feitos sublimados Nas armas, dignos de gloria, São no mundo tão soados, Qu'em vós de vossos passados Se resuscita a memoria. Pois aquelle ânimo estranho, Prompto para todo effeito, Espanta todo o conceito: Como coração tamanho Vos póde caber no peito?
A clemencia, que asserena Coração tão singular, S'eu nisso puzesse a penna, Sería encerrar o mar Em cova muito pequena. Bem basta, Senhor, que agora Vos sirvais de me occupar; Que assi fareis aparar A penna, com que algum'hora Vos vereis ao ceo voar.
Assi vos irei louvando, Vós a mi do chão erguendo, Ambos o mundo espantando; Vós com a espada cortando, Eu com a penna escrevendo.
_Mote que lhe mandou o Viso-Rei._
Muito sou meu inimigo, Pois que não tiro de mi Cuidados, com que nasci, Que põe a vida em perigo. Oxalá que fôra assi!
_Volta._
Viver eu, sendo mortal, De cuidados rodeado, Parece meu natural; Que a peçonha não faz mal A quem foi nella criado. Tanto sou meu inimigo, Que por não tirar de mi Cuidados, com que nasci, Porei a vida em perigo. Oxalá que fôra assi!
Tanto vim a accrescentar Cuidados, que nunca amansão Em quanto a vida durar, Que canso ja de cuidar Como cuidados não cansão. S'estes cuidados, que digo, Dessem fim a mi e a si, Farião pazes comigo; Que pôr a vida em perigo, O bom fôra para mi.
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A HUMA DAMA, QUE LHE MANDOU PEDIR ALGUMAS OBRAS SUAS.
Senhora, s'eu alcançasse No tempo que ler quereis, Que a dita dos meus papéis Pola minha se trocasse; E por ver Tudo o que posso escrever Em mais breve relação, Indo eu onde elles vão, Por mi só quizesseis ler;
Despois de ver hum cuidado Tão contente de seu mal, Verieis o natural Do que aqui vêdes pintado; Que o perfeito Amor, de que sou sogeito, Vereis aspero e cruel, Aqui com tinta e papel, Em mi com sangue no peito.
Que hum continuo imaginar Naquillo que Amor ordena, He pena, que emfim por penna Se não póde declarar; Que se eu levo Dentro n'alma quanto devo De trasladar em papéis, Vêde que melhor lereis, Se a mi, se aquillo qu'escrevo?
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A HUMA SENHORA, A QUEM DERÃO HUM PEDAÇO DE SITIM AMARELLO.
Se derivais da verdade Esta palavra _Sitim_, Achareis sem falsidade, Que apos o _si_ tee o _tim_, Que tine em toda a Cidade. Bem vejo que m'entendeis; Mas porque não falle em vão, Sabei que a esta Nação Tanto que o _si_ concedeis, O _tim_ logo está na mão.
E quem da fama s'arreda, Que tudo vai descobrir, Deve sempre de fugir De sitins, porque da seda Seu natural he rugir. Mas panno fino e delgado, Qual a raxa e outros assi, Dura, aquenta, e he callado, Amoroso, e dá de si Mais que _sitim_, nem brocado.
Mas estes, que sedas são Com quem s'enganão mil Damas, Mais vos tomão, do que dão; Promettem, mas não darão, Senão nodoas para as famas. E se não me quereis crer, Ou tomais outro caminho, Por exemplo o podeis ver, Quando lá virdes arder A casa d'algum vizinho.
Oh feminina simpreza, Donde estão culpas a pares, Que por hum Dom de nobreza, Deixão dões da natureza, Mais altos e singulares! Hum Dom, que anda enxertado No nome, e nas obras não. Fallo como exprimentado; Que _sitim_ desta feição Eu tenho muito cortado.
Dizem-me qu'era amarello; E quem assi o quiz dar, Só para me Deos vingar, Se vem á mão amarê-lo, O qu'eu não posso cuidar. Porque quem sabe viver Por estas artes manhosas, (Isto bem póde não ser) Dá a meninas formosas, Somente polas fazer.
Quem vos isto diz, Senhora, Servio nas vossas armadas Muito, mas anda ja fóra; E póde ser qu'inda agora Traz abertas as fréchadas. E, postoque desfavores O tirão de servidor, Quer-vos ventura melhor; Que dos antigos amores Inda lhe fica este amor.
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A HUMA SENHORA REZANDO POR HUMAS CONTAS.
Peço-vos que me digais As orações que rezastes, Se são polos que matastes, Se por vós que assi matais? Se são por vós, são perdidas; Que qual será a oração, Que seja satisfação, Senhora, de tantas vidas?
Que se vêdes quantos vem A só vida vos pedir, Como vos ha Deos de ouvir, Se vós não ouvis ninguem? Não podeis ser perdoada Com mãos a matar tão prontas, Que se n'huma trazeis contas, Na outra trazeis espada.
Se dizeis que encommendando Os que matastes andais; Se rezais por quem matais, Para que matais rezando? Que se na fôrça do orar Levantais as mãos aos Ceos, Não as ergueis para Deos, Erguei-las para matar.
E quando os olhos cerrais, Toda enlevada na fé, Cerrão-se os de quem vos vê, Para nunca verem mais. Pois se assi forem tratados Os que vos vem quando orais, Essas horas que rezais, São as horas dos finados.
Pois logo, se sois servida Que tantos mortos não sejão, Não rezeis onde vos vejão, Ou vêde para dar vida. Ou se quereis escusar Estes males que causastes, Resuscitae quem matastes, Não tereis por quem rezar.
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A HUMA DAMA QUE LHE DEO HUMA PENNA.
Se n'alma e no pensamento Por vosso me manifesto, Não me peza do que sento; Que se não soffrer tormento, Faço offensa a vosso gesto. E, pois quanto Amor ordena, E quanto est'alma deseja, Tudo á morte me condena, Não quero senão que seja Tudo pena, pena, pena.
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A HUMA DAMA QUE LHE CHAMOU CARA SEM OLHOS.
Sem olhos vi o mal claro, Que dos olhos se seguio: Pois cara sem olhos vio Olhos, que lhe custão caro. D'olhos não faço menção, Pois quereis que olhos não sejão; Vendo-vos, olhos sobejão, Não vos vendo, olhos não são.
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DISPARATES NA INDIA.
Este mundo es el camino Adó hay ducientos váos, Ou por onde bons e maos, Todos somos del merino. Mas os maos são de teor, Que desque mudão a côr, Chamão logo a ElRei compadre; E emfim dejadlos, mi madre, Que sempre tee hum sabor De quem torto nasce, tarde s'endireita.
Deixae a hum que se abone: Diz logo de muito sengo, Villas y castillos tengo, Todos á mi mandar sone. Então eu, qu'estou de môlho, Com a lagrima no ôlho, Polo virar do envés, Digo-lhe: _tu ex illis es_, E por isso não te ólho; Pois honra e proveito não cabem n'hum saco.
Vereis huns, que no seu seio Cuidão que trazem París, E querem com dous ceitís, Fender anca pelo meio. Vereis mancebindo de arte, Com espada em talabarte: Não ha mais Italiano. A este direis: Meu mano, Vós sois galante que farte; Mas pan y vino anda el camino, que no mozo garrido.
Outros em cada theatro, Por officio lhe ouvirês Que se matarán con tres, Y lo mismo haran con cuatro. Prezão-se de dar respostas, Com palavras bem compostas; Mas se lhe meteis a mão, Na paz mostrão coração, Na guerra mostrão as costas; Porque aqui torce a porca o rabo.
Outros vejo por ahi, A que se acha mal o fundo, Que andão emendando o mundo, E não se emendão a si. Estes respondem a quem Delles não entende bem El dolor que está secreto; Mas porém quem for discreto, Responder-lhe-ha muito bem: Assi entrou o mundo, assi ha de sahir.
Achareis rafeiro velho, Que se quer vender por galgo: Diz que o dinheiro he fidalgo, Que o sangue todo he vermelho. Se elle mais alto o dissera, Este pelote puzera: Que o seu eco lhe responda; Que su padre era de Ronda, Y su madre de Antequera, E quer cobrir o ceo co'huma joeira.
Fraldas largas, grave aspeito, Para Senador Romano. Oh que grandissimo engano! Que Momo lhe abrisse o peito! Consciencia, que sobeja, Siso, com que o mundo reja, Mansidão outro que si; Mas que lobo está em ti, Metido em pelle de oveja! E sabem-no poucos.
Guardae-vos de huns meus Senhores, Que ainda comprão e vendem; Huns, qu'he certo, que descendem Da geração de pastores: Mostrão-se-vos bons amigos; Mas se vos vem em perigos, Escarrão-vos nas paredes; Que de fóra dormiredes, Irmão, que he tempo de figos; Porque de rabo de porco nunca bom virote.
Que direis d'huns, que as entranhas Lh'estão ardendo em cobiça, E se tee mando, a justiça Fazem de teas de aranhas? Com suas hypocrisias, Que são de vossas espias: Para os pequenos huns Neros, Para os grandes tudo feros. Pois tu, parvo, não sabías, Que lá vão leis, onde querem cruzados?
Mas tornando a huns enfadonhos, Cujas cousas são notorias; Huns, que contão mil histórias Mais desmanchadas que sonhos; Huns mais parvos que zamboas, Qu'estudão palavras boas, A que ignorancia os atiça: Estes paguem por justiça, Que tee morto mil pessoas, Por vida de quanto quero.
Adonde tienen las mentes Huns secretos trovadores, Que fazem cartas d'amores, De que ficão mui contentes? Não querem sahir á praça; Trazem trova por negaça; E se lha gabais, qu'he boa, Diz qu'he de certa pessoa. Ora que quereis que faça, Senão ir-me por esse mundo?
Ó tu, como me atarracas, Escudeiro de Solia, Com bocaes de fidalguia, Trazido quasi com vacas; Importuno a importunar, Morto por desenterrar Parentes, que cheirão ja! Voto a tal, que me fara Hum destes nunca fallar Mais com viva alma.
Huns, que fallão muito, vi, De que quizera fugir; Huns que, emfim, sem se sentir, Andão fallando entre si; Porfiosos sem razão; E desque tomão a mão, Fallão sem necessidade; E se algum'hora he verdade, Deve ser na confissão; Porque quem não mente... Ja m'entendeis.
Oh vós, quem quer que me lerdes, Qu'haveis de ser avisado, Que dizeis ao namorado Que caça vento com redes? Jura por vida da Dama; Falla comsigo na cama; Passêa de noite e escarra; Por falsete na guitarra Põe sempre: Viva que ama, Porque calça a seu proposito.
Mas deixemos, se quizerdes, Por hum pouco as travessuras, Porqu'entre quatro maduras Leveis tambem cinco verdes. Deitemos-nos mais ao mar; E se algum se arrecear, Passe tres ou quatro trovas. E vós tomais côres novas? Mas não he para espantar; Que quem porcos ha menos, Em cada mouta lhe roncão.
Ó vós, que sois Secretarios Das consciencias Reais, E que entre os homens estais Por Senhores ordinarios; Porque não pondes hum freio Ao roubar, que vai sem meio, Debaixo de bom governo? Pois hum pedaço de inferno Por pouco dinheiro alheio Se vende a Mouro e a Judeo.
Porque a mente, affeiçoada Sempre á Real dignidade, Vos faz julgar por bondade A malicia desculpada. Move a presença Real Huma affeição natural, Que logo inclina ao Juiz A seu favor: e não diz Hum rifão muito geral, Que o Abbade donde canta, dahi janta?
E vós bailais a esse som: Por isso, gentís pastores, Vos chama a vós mercadores Hum que só foi pastor bom.
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A JOÃO LOPES LEITÃO, SÔBRE HUMA PEÇA DE CACHA QUE MANDOU A HUMA DAMA, QUE SE LHE FAZIA DONZELLA.
_Mote._
Se vossa Dama vos dá Tudo quanto vós quizestes, Dizei-me: p'ra que lhe déstes O que vos ella fez ja?
_Volta._
Sendo os restos envidados, E vós de cachas mil contos Sabeis com quão poucos pontos, Que lhos achastes quebrados; Se o que tee, isso vos dá, Vós mui bem lho merecestes, Porque se a cacha lhe déstes Tinha-vo-la feita ja.
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MOTE.
Menina formosa e crua, Bem sei eu Quem deixará de ser seu, Se vós quizereis ser sua.
_Voltas._
Menina mais que na idade, Se para me querer bem Vos não vejo ter vontade, He porque outrem vo-la tem; Tee-vo-la, e faz-vo-la crua. Porém eu Ja tomára não ser meu, Se vós não foreis tão sua.
Nos olhos, e na feição Vos vi, quando vos olhava, Tanta graça, que vos dava De graça este coração: Não o quizestes de crua, Por ser meu: Se outrem vos dera o seu, Póde ser foreis mais sua.
Menina, tende maneira, Que ainda não venha a ser, Pois não quereis quem vos quer, Que queirais quem vos não queira. Olhae não me sejais crua, Que pois eu Quero ser vosso, e não meu, Sêde vós minha, e não sua.
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A HUMA DAMA DOENTE
_Mote._
Da doença, em que ora ardeis, Eu fôra vossa mézinha Só com vós serdes a minha.
_Voltas._
He muito para notar Cura tão bem acertada, Que podereis ser curada Somente com me curar. Se quereis, Dama, trocar, Ambos temos a mézinha, Eu a vossa, e vós a minha.
Olhae, que não quer Amor, (Porque fiquemos iguais) Pois meu ardor não curais, Que se cure vosso ardor. Eu cá sinto vossa dor; E se vós sentis a minha, Dae e tomae a mézinha.
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OUTRO
Deo, Senhora, por sentença Amor, que fosseis doente, Para fazerdes á gente Doce e formosa a doença.
_Voltas._
Não sabendo Amor curar, Foi a doença fazer Formosa para se ver, Doce para se passar. Então vendo a differença Que ha de vós a toda a gente, Mandou, que fôsseis doente, Para glória da doença.
E digo-vos de verdade, Que a saude anda invejosa, Por ver estar tão formosa Em vós essa enfermidade. Não façais logo detença, Senhora, em estar doente, Porque adoecerá a gente, Com desejos da doença.
Qu'eu por ter, formosa Dama, A doença, qu'em vós vejo, Vos confesso, que desejo De cahir comvosco em cama. Se consentis, que me vença Deste mal, não houve gente Da saude tão contente, Como eu serei da doença.
* * * * *
AO MESMO
Olhae que dura sentença Foi amor dar contra mi! Que porqu'em vós me perdi, Em vós me busque a doença. Claro está, Que em vós só me achará; Qu'em mi, se me vem buscar, Não poderá mais achar, Que a fórma do que foi ja.
Que s'em vós Amor se pôs, Senhora, he forçado assi, Que o mal, que me busca a mi, Que vos faça mal a vós. Sem mentir, Amor me quiz destruir Por modo nunca cuidado, Pois ha de ser ja forçado Pezar-vos de vos servir.
Mas sois tão desconhecida, E são meus males de sorte, Que vos ameaça a morte, Porque me negais a vida. Se por boa Tal justiça se pregoa; Quando desta sorte for, Havei vós perdão de Amor, Que a parte ja vos perdoa.
Mas o que mais temo, emfim, He que nesta differença, Que se não torne a doença, Se me não tornais a mim. De verdade, Que ja vossa humanidade De que se queixe não tem; Pois para as almas tambem Fez Amor enfermidade.
* * * * *
A HUMA DAMA VESTIDA DE DÓ.
_Mote._
De atormentado e perdido, Ja vos não peço, senão Que tenhais no coração O que tendes no vestido.
_Volta._
Se de dó vestida andais Por quem ja vida não tem Porque não o haveis de quem Vós tantas vezes matais? Que brado sem ser ouvido, E nunca vejo senão Cruezas no coração, E grande dó no vestido.
* * * * *
A DONA GUIOMAR DE BLASFÉ, QUEIMANDO-SE COM HUMA VÉLA NO ROSTO.
_Mote._
Amor, que todos offende, Teve, Senhora, por gôsto, Que sentisse o vosso rosto O que nas almas accende.
_Volta._
Aquelle rosto que traz O mundo todo abrazado, Se foi da flamma tocado, Foi porque sinta o que faz. Bem sei que Amor se vos rende; Porém o seu presupposto Foi sentir o vosso rosto O que nas almas accende.
* * * * *
A HUMA MULHER, AÇOUTADA POR HUM HOMEM, QUE CHAMAVÃO QUARESMA.
_Mote._
Não estejais aggravada, Senão se for de vós mesma; Porqu'a mulher, que he errada, Com razão pela Quaresma Deve ser disciplinada.
_Voltas._
Quererdes profano amor Em Quaresma, he consciencia: Açoutes e penitencia Vos está muito melhor. Não fiqueis disto affrontada, Pois a culpa he vossa mesma; Que mulher, que he tão malvada, He bem que pela Quaresma Seja bem disciplinada.
Se a penitencia vos val, Mui bem açoutada estais; Pois por Quaresma pagais Vossos vicios do carnal. Não torneis a ser errada, Nem condemneis a vós mesma, Pois estais ja emendada; E não sereis por Quaresma Outra vez disciplinada.
* * * * *
A HUM FIDALGO, QUE LHE TARDAVA COM HUMA CAMISA, QUE LHE PROMETTEO.
Quem no mundo quizer ser Havido por singular, Para mais s'engrandecer, Ha de trazer sempre o dar Nas ancas do prometter. E ja que vossa mercê, Largueza tee por divisa, Como o mundo todo vê, Ha mister que tanto dê, Que venha a dar a camisa.
* * * * *
A HUMA DAMA, QUE LHE CHAMOU DIABO, POR NOME FOÃ DOS ANJOS
_Mote._
Senhora, pois me chamais Tão sem razão tão mão nome, Inda o diabo vos tome.
_Voltas._
Quem quer que vio, ou que leo, Terá por novo e moderno, Ter quem vive no inferno, O pensamento no ceo. Mas se a vós vos pareceo, Que m'estava bem tal nome, Esse diabo vos tome.
Perdido mais que ninguem Confesso, Senhora, ser; Mas o diabo não quer Aos Anjos tamanho bem. Pois logo não me convem, Ou se me convem tal nome, Será para que vos tome.
Se vos benzeis com cautella, Como de Anjo, e não de luz, Mal póde fugir da Cruz, Quem vós tendes pôsto nella. Mas ja que foi minha estrella Ser diabo, e ter tal nome, Guardae-vos, que vos não tome.
Ja que chegais tanto ao cabo, Com as mãos, postas aos ceos Vou sempre pedindo a Deos, Que vos leve este diabo. Eu, Senhora, não me gabo; Mas pois que me dais tal nome, Tomo-o, para que vos tome.
* * * * *
A HUM AMIGO, QUE NÃO PODIA ENCONTRAR.
_Mote._
Qual terá culpa de nós Neste mal, que todo he meu? Quando vindes, não vou eu, Quando vou, não vindes vós.
_Volta._
Reinando Amor em dous peitos, Tece tantas falsidades, Que de conformes vontades Faz desconformes effeitos. Igualmente vive em nós; Mas por desconcêrto seu Vos leva, se venho eu, Me leva, se vindes vós.
* * * * *
MOTE SEU.
Descalça vai pela neve: Assi faz quem Amor serve.
_Voltas._
Os privilegios, que os Reis Não pódem dar, póde amor, Que faz qualquer amador Livre das humanas leis. Mortes e guerras crueis, Ferro, frio, fogo e neve, Tudo soffre quem o serve.
Moça formosa despreza Todo o frio, e toda a dor. Olhae quanto póde Amor Mais que a propria natureza. Medo, nem delicadeza Lh'impede que passe a neve. Assi faz quem Amor serve.
Por mais trabalhos que leve, A tudo se off'receria; Passa pela neve fria, Mais alva que a propria neve; Com todo frio se atreve. Vêde em que fogo ferve O triste, que a Amor serve.
* * * * *
OUTRO ALHEIO
A dor que a minha alma sente, Não na sabe toda a gente.
_Voltas._
Qu'estranho caso de Amor! Que desejado tormento! Que venho a ser avarento Das dores de minha dor! Por me não tratar peor, Se se sabe, ou se se sente, Não na digo a toda a gente.
Minha dor e causa della De ninguem ouso fiar; Que sería aventurar A perder-me, ou a perdella. E pois só com padecella, A minha alma está contente, Não quero que o saiba a gente.
Ande no peito escondida, Dentro n'alma sepultada; De mi só seja chorada, De ninguem seja sentida. Ou me mate, ou me dê vida, Ou viva triste ou contente, Não ma saiba toda a gente.
* * * * *
OUTRO SEU
D'alma, e de quanto tiver, Quero que me despojeis, Com tanto, que me deixeis Os olhos para vos ver.
_Volta._
Cousa este corpo não tem, Que ja não tenhais rendida: Despois de tirar-lhe a vida, Tirae-lhe a morte tambem. Se mais tenho que perder, Mais quero que me leveis, Com tanto que me deixeis Os olhos para vos ver.
* * * * *
MOTE ALHEIO.
Amores de huma casada, Que eu vi pelo meu mal.
_Voltas._