Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Part 17

Chapter 173,285 wordsPublic domain

VILARDO.

Ei-la aqui; E veja o saibo que tem; Porque esta trovinha assi, Saiba qu'he trova do assem.

_Trova._

Passarinhos, que voais Nesta manhãa tão serena, Sabei que só minha pena Póde encher mil cabeçais.

SOLINA.

O rifão está salgado. Essa pena te dou eu?

VILARDO.

Vós e Amor, que de malvado, Me tee melhor empennado, Que nenhum virote seu. Pois se me ouvíreis cantar!

SOLINA.

E tu es tambem cantor?

VILARDO.

Canto melhor que hum açor. Quereis que vos venha dar Musiqueta de primor, E que vos mande tanger Muito melhor que ninguem?

SOLINA.

Ja isso quizera ver.

VILARDO.

Querer-me-heis, se o eu fizer, Algum pedaço de bem?

SOLINA.

Querer-te-hei trinta pedaços.

VILARDO.

E esse querer dará fruito, Que me tire destes laços?

SOLINA.

E que fruito?

VILARDO.

Dous abraços.

SOLINA.

Esse fruito custa muito.

VILARDO.

Esse he o amor qu'em vós ha? Pezar de minha mãe torta!

SOLINA.

Ora hi, chamae logo lá Vosso amo que venha cá, Porque he cousa que importa.

VILARDO.

Logo?

SOLINA.

Logo nessas horas.

VILARDO.

Não estarei aqui mais?

SOLINA.

Não. Ainda ahi estais? Vós haveis mister esporas.

VILARDO.

Irei, porque me mandais.

SCENA III.

_O pastor, e Venadoro com elle, feito pastor._

PASTOR.

Mas de un mez es ya pasado Que en esta sierra andais; Y es caso mal mirado Que andeis guardando ganado Por una que tanto amais. Y si os determinais En querer casar con ella, Juro á mi que nada errais; Y si eso es para habella, En vano cabras guardais. Ya me distes vuestra fé (Sábenlo estas tierras todas): Yo con ella me engañé, Que luego mandar llamé Quien festejase las bodas. Y agora dicis con pena, Que es dura cosa casar: Pues volveos hora buena, Que no habeis de engañar Con palabras Florimena.

VENADORO.

Quem se ha de ter coração Para tamanho temor? Que em mim pegando estão. De huma parte a razão. E d'outra parte o Amor. Tambem vejo que perdella Será minha perdição; Que bem me diz a affeição, Que pouco faço por ella, Pois não desfaço em quem são.

PASTOR.

Digoos, si por bajeza Dicis que no os conviene, Daros hé una certeza, Que en sangre y en nobleza, Tanto como vos la tiene.

VENADORO.

Pastor, digo que daqui Farei tudo que quizerdes; E se mais quereis de mi, Digo que vos dou o si Para tudo o que quizerdes.

PASTOR.

Dios os dé su bendicion; Y pues que casais con ella, Yo os afirmo en conclusion, Que aun de vos y mas della Verná gran generacion. Yo me voy por ella, hijo, Tomadla asi mal compuesta; Verná quien haga la fiesta; Que en placer y regocijo Nos festeje esta floresta.

SCENA IV.

VENADORO _só_.

Ó ribeiras tão formosas, Valles, campos pastoris, Porque vos não revestis De novas flores e rosas, Se minha gloria sentis? Porque não seccais, abrolhos? E vós, ágoa, que regando, Os olhos his alegrando, Correi, que tambem meus olhos D'alegres estão manando. Ah pastora, em quem espero Poder viver descansado! Comtigo guardarei gado, Que ja eu sem ti não quero Nenhuma alteza d'estado. Diga o que quizer a gente, Tudo terei n'huma palha, Porque está claro e evidente Que não ha honra que valha Contra a vida descontente.

SCENA V.

_Tres pastores bailando, e cantando de terreiro, diante do pastor, que traz Florimena._

PASTOR.

Pues el amor os obliga Á que hagais tan buena liga, Tomando á Dios por testigo, Daqui os la entrego, amigo, Por muger y por amiga.

VENADORO.

Consentis nisto, Senhora?

FLORIMENA.

Senhor, em tudo consento.

VENADORO.

Oh grande contentamento!

FLORIMENA.

Saiba que nunca tégora Lhe houve inveja ao tormento.

PASTOR.

Asi lo dices, bobilla? Oh! mala dolor os duela! Pero no es maravilla Quien consiente ansi la silla, Consienta tambien la espuela.

SCENA VI.

_Tornão a bailar e cantar, e acabado, entra D. Lusidardo, e o Monteiro, que andão em busca de Venadoro._

LUSIDARDO.

Tres dias ha ja que ando Por esta larga espessura A Venadoro buscando; E o que delle vou achando He como quer a Ventura.

MONTEIRO.

Senhor, cuido que lá vejo Huns lavradores cantar.

LUSIDARDO.

Hi diante perguntar.

MONTEIRO.

Cumprido he seu desejo, Se a vista não m'enganar.

LUSIDARDO.

Como assi?

MONTEIRO.

Elle não vê Aquelle pastor loução Com huma moça pela mão? Se Venadoro não he, Nem eu o Monteiro são.

PASTOR.

Quien veo allá asomar, Que se viene á nuestras bodas?

BOBO.

No los dejemos llegar, Que nos vernan á roubar, Juro á mi, las migas todas.

LUSIDARDO.

Oh Venadoro, meu filho! Es tu este?

VENADORO.

Tal estou, Que cuido que este não sou.

LUSIDARDO.

Certo que me maravilho De quem tanto te mudou. Como estais assi mudado No rosto e mais no vestido!

VENADORO.

Ando ja n'outro trocado, Tanto, que fiquei pasmado De como fui conhecido. E se Vossa Mercê vem Para me levar daqui, Mais ha de levar que a mi; E ha de ser quem me tem Todo transformado em si.

BOBO.

Eso porque lo entendeis? Por las migas por ventura? Voto á tal no llevareis: Por mas y por mas que andeis No hareis tal travesura.

VENADORO.

Esta formosa donzella Em mi teve tal poder, Que folguei de me perder; Pois, emfim, vim achar nella O que não cuidei de ser. Tanto em mi pôde este amor, Que a tenho recebida; E se o êrro grave for, Aqui quero ser pastor: Deixe-me ter esta vida.

LUSIDARDO.

He certo tal casamento?

VENADORO.

Tenha-o por cousa segura.

LUSIDARDO.

Oh grande acontecimento! Dest'arte sabe a ventura Aguar hum contentamento!

PASTOR.

Óigame, Señor, á mi, Como hombre sabio, discreto, Porque acaeció así, Y lo que supo hasta aqui Lo puede tener por cierto. Muchos años son corridos Que en esta fuente abierta, En estos valles floridos Hallé dos niños nascidos, Y á su madre casi muerta. Los niños chicos crié, (Y desto cierto me arreo) Y á la madre sepulté; Y despues un gran deseo De saber esto tomé. Como yo fuese enseñado De chico á la mágica arte Por mi padre, que es finado; Muy conoscido y nombrado Soy por tal en toda parte. Yo con yervas de la sierra, Animales y otras cosas Haré, si el arte no se yerra, Que desciendan á la tierra Las estrellas luminosas. Soy, en fin, certificado Que la madre de los dos Fué Princeza de alto estado. Y por un caso nombrado La trajo á esta tierra Dios. El macho, como creció, Deseoso de otro bien, Á la Corte se partió: La hembra es esta por quien Vuestro hijo se perdió. Y si mas quiere, Señor, De mi arte, prestamente Dello le haré sabedor; Mas ha de ser de tenor Que no lo sepa la gente.

LUSIDARDO.

Mas vamos-nos, se quereis, Que não soffro dilação, A minha casa, e então Lá disso me informareis, Que caso he de admiração. E vós, filho, não cuideis Que a gloria de vos achar Não he tanto d'estimar, Qu'em qualquer 'stado que esteis, Não folgue de vos levar.

ACTO QUINTO.

SCENA I.

_Solina, Dionysa e Filodemo._

SOLINA.

Eis Filodemo lá vem: Asinha acudio ao leme.

DIONYSA.

Isso he de quem quer bem; Mas não sei se o vio alguem, Porque quem espera teme. Agora me quizera eu Daqui cem mil leguas ver.

FILODEMO.

Folgára eu assi de ser, Porqu'este cuidado meu Fôra mais de agradecer. Que quando por accidente A Fortuna desastrada Vos apartasse da gente N'hum deserto, onde somente Das feras fosseis guardada; Lá por ferro, fogo e ágoa Buscar minha morte iria; A voz ronca, a lingua fria, Tamanho mal, tanta mágoa Ás montanhas contaria. Lá, mui contente e ufano De mostrar amor tão puro, Poderia ser que o dano, Que não move hum peito humano, Que movesse hum monte duro.

DIONYSA.

Nesse deserto apartado De toda a conversação Merecieis degradado Por justiça, com pregão Que dissesse: _Por ousado_. E eu tambem merecia Metida a grave tormento, Pois que, como não devia, Vim a dar consentimento A tão sobeja ousadia.

FILODEMO.

Senhora, se me atrevi, Fiz tudo o que Amor ordena; E se pouco mereci, Tudo o que perco por mi, Mereço por minha pena. E se Amor pôde vencer, Levando de mi a palma, Eu não lho pude tolher; Que os homens não tee poder Sôbre os affectos da alma. E ainda que pudera Resistir contra o mal meu. Saiba que o não fizera; Que pouco valêra eu, Se contra vós me valêra. Não deve logo ter culpa Quem se venceo d'armas tais: Assi que nisto, e no mais, Tomo por minha desculpa Vós mesma que me culpais. E se este atrevimento Com tudo for de culpar, Acabae de me matar; Que aqui tenho hum soffrimento Que tudo póde passar. E se esta penitencia, Que faço em me perder, Algum bem vos merecer, Fique em vossa consciencia O que me podeis dever. Que dizeis a isto, Senhora?

DIONYSA.

Eu que vos posso dizer? Ja não tenho em mi poder, Segundo me sinto agora, Para poder responder. Respondei-lhe, vós Solina, Pois que a vós me entreguei.

SOLINA.

Bofé não responderei: Veja ella o que determina.

DIONYSA.

Não o vejo, nem o sei.

SOLINA.

Pois eu tambem não sei nada.

DIONYSA.

Porque?

SOLINA.

Do que eu fizer, Se despois se arrepender, Dirá qu'eu fui a culpada.

DIONYSA.

Eu só quero a culpa ter.

SOLINA.

Senhora, por não errar, Não quero que fique em mim. Esta noite no jardim Ambos podem praticar Como isto venha a bom fim. Lá poderão ajustar Entr'ambos o parecer; Qu'eu não m'hei nisso de achar, Que não quero temperar O que outrem ha de comer.

DIONYSA.

Vós vêdes a torvação, Que lá nessa casa vae?

SOLINA.

Dá-me cá no coração Que he vindo o Senhor seu pae Com o Senhor seu irmão.

DIONYSA.

Filodemo, hi-vos embora, Fallae depois com Solina.

SOLINA.

Vamos-nos tambem, Senhora. Receber seu pae lá fóra; Não venha sentir a mina.

SCENA II.

_Vilardo e Doloroso, que vem dar hum descante a Solina com os Musicos._

VILARDO.

Assi que te contava, Doloroso, destas em que sempre andão rugindo as sedas.

DOLOROSO.

Avante, que bem sei que o não dizeis polas sedas de Veneza.

VILARDO.

Ja sabeis que esta nossa Solina he tão Celestina, que não ha quem a traga a nós.

DOLOROSO.

Logo parece moça brigosa, que por dá cá aquellas palhas, dará e tomará quatro espaldeiradas; e ao outro dia quem ha de cuidar que huma mulher de sua arte ha de querer bem a hum parvo como a ti? porque estas taes são como homens sisudos; se de noite se achão em algum arruido, onde possão fugir sem serem conhecidos, facilmente o fazem; e ao outro dia quem ha de cuidar que hum tão honrado havia de fugir? Outros dizem: Bem pode ser, porque noite escura he capa de Judeos e de envergonhados.

VILARDO.

Mui gentil comparação he esta. Mas assi que te dizia, o outro dia assi zombando lhe prometti de lhe dar huma musica, e ja chamei outros dous meus amigos, que logo hão de vir aqui ter comnosco.

DOLOROSO.

Que tal he a musica que determinas de lhe dar? Não seja de siso; porque será a maior parvoice do mundo, porque não concerta com a parvoice que tu finges.

VILARDO.

A musica não he senão das nossas; mas faço-te queixume, que nem com hum cão de busca pude achar humas nesperas por toda esta terra.

DOLOROSO.

Nem as acharás senão alugadas; mas eu não sou de opinião que teus amores te custem dinheiro. Ora ja lá apparecem os outros companheiros, e eu tambem ajudarei de telhinha ou de assovio; e vem-me isto á popa, porque daqui iremos á porta da minha padeirinha, porque ando com ella n'hum certo requerimento.

VILARDO.

Vossas Mercês vem ao proprio: boa seja a vinda. As guitarras vem temperadas?

DOLOROSO.

Tudo vem como cumpre: mandae vigiar a Justiça entretanto.

VILARDO.

Ora sus: fazei como se temperasseis cabeça de pescada com seu figado e bucho, e canada e meia, que nunca meu pae fez tamanho gasto na sua Missa nova.

_Neste passo se dá a musica com todos quatro, hum tange guitarra, outro pentem, outro telhinha, outro canta cantigas muito velhas, e no melhor diz Vilardo:_

Estae assi quedos, que eu sinto quem quer que he.

DOLOROSO.

Justiça, pelo corpo de tal! Ora sus: aqui não ha outro valhacouto que nos valha, que pôr os pés ao caminho, e mostrar-lhe as ferraduras.

SCENA III.

O MONTEIRO _só_.

Como he gracioso este mundo, e como he galante! E quão gracioso sería quem o pudesse ver de palanque com carta d'alforria ao pescoço, porque não podessem entender nelle Meirinhos, Almotacés da limpeza, trabalhos, esperanças, temores, com toda a outra cabedella de enfadamentos! Ora notae bem de quantas côres teceo a Fortuna esta manta d'Alentejo: perdeo-se Venadoro na caça, eis a casa toda envolta como rio: o pae enfadado, a irmãa triste, a gente desgostosa; tudo, emfim, fóra do couce; e o galante aposentado nos matos com trajos mudados como camaleão, decepado dos pés e das mãos, por huma serranica d'Alentejo; e veio acaso a sahir de maneira fóra da madre, que a recebeo por mulher; e rapa oleo e chrisma de quem he, e renega todas as lembranças de seu pae; pois tanto tomou ao pé da letra o que Deos disse: _Por esta deixarás teu pae e mãe_. E attentae isto por me fazer mercê: cuidareis que este caso era _solus peregrinus_: sabei que os não dá a fortuna senão aos pares, como quédas. Dionysa mais mimosa e mais guardada de seu pae que bicho de seda, moça sem fel como pombinha, que nos annos não tinha feito inda o enequim; mais formosa que huma manhãa do S. João, mais mansa que o Rio Tejo, mais branda que hum Soneto de Garcilasso, mais delicada que hum pucarinho de Natal; emfim, que por meia hora de sua conversação se poderá soffrer huma pipa com cobra e gallo e doninha, como a parricida, com tanto que dissesse o pregão o porque; porque vos não fieis em castanhas (não sei se diga, se o cale, que de magoado me trava pola manga a falla da garganta; mas, com tudo, não ha quem se tenha) seu pae a achou esta noite no jardim com Filodemo, mais arrependida do tempo que perdêra, que do que alli perdia: eu, coitado de mi, que meta os dentes nos cabeçaes se desejar ave de penna.

SCENA IV.

_Duriano e o Monteiro._

DURIANO, _como cantando_.

Ti ri ri, ti ri rão.

MONTEIRO.

Que he isso, Senhor Duriano? Que descuidos são esses? Onde he cá a ida agora?

DURIANO.

Vou assi como parvo, porque o melhor he não saber homem nada de si.

MONTEIRO.

Que dizeis a vosso amigo Filodemo, que assi se soube aproveitar do tempo que ficou só em casa?

DURIANO.

Eu que hei de dizer? Digo que descreio desta minha capa, se não he isso caso para sahir com elle a desafio.

MONTEIRO.

Porque?

DURIANO.

Porque não basta que lhe dê a Fortuna gostos tão medidos sôbre o funil, que lhe põe nos braços Dionysa, a mais formosa dama que nunca espalhou cabellos ao vento, senão ainda para o assegurar em sua boa ventura, lhe vem a descobrir, que he filho de não sei quem, nem quem não.

MONTEIRO.

Esses são outros quinhentos. Cujo filho dizem que he? que eu ouvi ja sôbre isso não sei que fábulas.

DURIANO.

Dir-vo-lo-hei; pasmareis, que não he menos que Principe, e peor ainda. Nunca ouvistes dizer de hum irmão do Senhor Dom Lusidardo que aggravado del Rei, se foi para os Reinos de Dinamarca?

MONTEIRO.

Tudo isso ouvi ja.

DURIANO.

Pois esse galante, em satisfação de muitas mercês que ElRei de Dinamarca lhe fizera, meteo-se d'amores com huma sua filha, a mais moça; e como era bom justador, manso, discreto, galante, partes que a qualquer mulher abalão, desejou ella de ver geração delle; senão quando, livre-nos Deos! se lhe começou d'encurtar o vestido; e porque estes sirgos não se desistem em nove dias, senão em nove mezes, foi-lhe a elle então necessario acolher-se com ella, porque não colhessem a ella com elle: acolheu-se em huma galé; e vêde la Princeza em huma galera nueva, con el marinero á ser marinera. Finalmente, vindo navegando todo esse Oceano Germanico, bancos de Frandes, mar d'Inglaterra, e trazidos á costa d'Hespanha, não os quiz a Ventura deixar gozar do repouso que nella buscavão: deo-lhe subitamente tamanha tormenta, que sem remedio deo a galé á costa, onde feita pedaços, morrêrão todos desastradamente, sem escapar mais que a Princeza com o que trazia na barriga, a quem parece que a Fortuna guardava para dar o descanso, que a seu pae e mãe negára. Sahio finalmente a moça na praia, tal qual o temeroso naufragio deixaria huma Princeza mais delicada que hum arminho; e indo assi a pobre mulher pola terra estranha e despovoada, e sem quem a encaminhasse por onde, despois de ter perdido toda a esperança de ter algum remedio, derão-lhe as dores de parto junto de huma fonte, aonde em breve espaço lançou duas crianças, macho e femia, como vizagras. E como a fraca compreição da delicada mulher não pudesse sustentar tantos e tão desacostumados trabalhos, facilmente deo a vida, que tanto havia que desejava de dar, deixando vivos aquelles dous retratos della e de seu pae, que por causa de seus nascimentos a vida lhe tirárão, como acontece a viboras. E como as crianças fossem destinadas ao que vêdes, não faltou hum pastor que as criasse, que alli veio ter, dando a mãe a alma a Deos: de maneira que, por não gastar mais palavras, o macho he vosso amigo Filodemo, e a femia he a serrana Florimena, mulher que he ja de Venadoro.

MONTEIRO.

Estranhas cousas me contais. Assi que logo de seu pae herdou Filodemo namorar a filha do Senhor que serve: não haverá logo por mal o Senhor Dom Lusidardo tomar por genro e nora, quem acha por sobrinhos.

DURIANO.

Sabei que chora de prazer com elles, que ja diz que acha que Filodemo se parece natural com seu irmão, e Florimena com sua mãe.

MONTEIRO.

Dae-me a entender, como se creo tão de ligeiro o Senhor Dom Lusidardo de quem isso contou.

DURIANO.

No caso não ha dúvida, porque o pastor que hi achastes, lhe certificou todo o caso; e fez ao pastor muitas mercês, e mandou fazer muitas festas solemnes. Venadoro, casado com sua mulher e prima, e Filodemo, que o mesmo parentesco tee com a Senhora Dionysa, estão fóra de crer tamanho contentamento; cuido que zombão delle.

MONTEIRO.

Ora deixa-me ir a ver o rosto a esse velhaco de Filodemo; pois de meu matalote se me tornou Senhor. Creio que vem o Senhor Dom Lusidardo: dissimulemos.

SCENA V.

_Dom Lusidardo com Venadoro, que traz Florimena pela mão, e Filodemo a Dionysa._

LUSIDARDO.

Quem não ficará pasmado De ver que por tal caminho Tee a Ventura ordenado Filodemo, meu criado, Vir ser meu genro e sobrinho! Quem não pasmará agora De ver a ventura minha, Que tee tornado n'hum'hora Florimena, huma pastora, Ser minha nora e sobrinha! Dem-se graças ao Senhor, Cujo segredo he profundo; Pois que vemos que quiz dar A ventura e o amor Por prazeres deste mundo.

* * * * *

CARTAS.

CARTAS.

CARTA I.

Desejei tanto huma vossa, que cuido que pola muito desejar a não vi; porque este he o mais certo costume da Fortuna, consentir que mais se deseje o que mais presto ha de negar. Mas porque outras naos me não fação tamanha offensa, como he fazerem-me suspeitar que vos não lembro, determinei de vos obrigar agora com esta; na qual pouco mais ou menos vereis o que quero que me escrevais dessa terra. Em pago do qual, d'ante mão vos pago com novas desta, que não serão más no fundo de huma arca para aviso de alguns aventureiros, que cuidão que todo o mato he ouregãos, e não sabem que cá e lá más fadas ha.