Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III
Part 16
DURIANO.
Fallae, que aqui 'stamos sós.
SOLINA.
Qualquer honesta se abala, Como sabe que he querida. Ella he por elle perdida: Nunca n'outra cousa falla.
DURIANO.
Ora vou-lhe dar a vida.
SOLINA.
E eu não lhe disse ja Quanta affeição lh'ella tem?
DURIANO.
Não se fia de ninguem, Nem crê que para elle ha No mundo tamanho bem.
SOLINA.
Dir-vos-hia de mim lá O que lh'eu disse zombando?
DURIANO.
Não disse, por S. Fernando!
SOLINA.
Ora ide-vos.
DURIANO.
Que me va! E mandais que torne? Quando?
SOLINA.
Quando eu cá vir lugar, Vo-lo mandarei dizer.
DURIANO.
Se o quizerdes buscar, Não vos deve de faltar, Se não faltar o querer.
SOLINA.
Não falta.
DURIANO.
Dae-me hum abraço Em sinal do que quereis.
SOLINA.
Tá, que o não levareis.
DURIANO.
De quantos serviços faço Nenhum pagar me quereis?
SOLINA.
Pagar-vos-hão algum'hora, Que isso a mi tambem me toca; Mas agora hi-vos embora.
DURIANO.
Essas mãos beijo, Senhora, Em quanto não posso a boca.
SCENA VI.
_Solina que traz a almofada, e Dionysa._
SOLINA.
Ja Vossa Mercê dirá Qu'estive muito tardando.
DIONYSA.
Bem vos detivestes lá. Bofé que estava cuidando Em não sei que.
SOLINA.
Que será? Aqui somos. (Quanté agora Está ella transportada.)
DIONYSA.
Que rosnais vós lá, Senhora?
SOLINA.
Digo que tardei lá fóra Em buscar esta almofada. Que estava ella agora só Comsigo phantasiando?
DIONYSA.
Bofé que estava cuidando Qu'he muito para haver dó Da mulher que vive amando. Que hum homem póde passar A vida mais occupado: Com passear, com caçar, Com correr, com cavalgar, Fórra parte do cuidado. Mas a coitada Da mulher sempre encerrada, Que não tee contentamento, Não tee desenfadamento, Mais que agulha e almofada? Então isto vem parir Os grandes erros da gente: Forão mil vezes cahir Princezas d'alta semente. Lembra-me que ouvi contar De tantas affeiçoadas Em baixo e pobre lugar, Que as que agora vão errar Podem ficar desculpadas.
SOLINA.
Senhora, a muita affeição Nas Princezas d'alto estado Não he muita admiração; Que no sangue delicado Faz amor mais impressão. Mas deixando isto á parte, Se m'ella quizer peitar, Prometto de lhe mostrar Huma cousa muito d'arte, Que lá dentro fui achar.
DIONYSA.
Que cousa?
SOLINA.
Cousa d'esprito.
DIONYSA.
Algum panno de lavores?
SOLINA.
Inda ella não deo no fito? Cartinha sem sobre-escripto, Que parece ser de amores.
DIONYSA.
Essa he a boa ventura?
SOLINA.
Bofé que mo pareceo.
DIONYSA.
E essa donde nasceo?
SOLINA.
No meu cesto da costura: Não sei quem m'alli meteo.
DIONYSA.
Mostrae-ma; não hajais medo, Mana. Eu que vos descobri...
SOLINA.
E se ella vem para mi, Logo quer ver meu segredo? Não a veja: vá-se d'hi. Ei-la-ahi.
DIONYSA.
Cuja será?
SOLINA.
Não sei certo cuja he.
DIONYSA.
Si; sabeis.
SOLINA.
Não sei, bofé.
DIONYSA.
Ora a carta mo dirá.
SOLINA.
Pois leia Vossa Mercê.
_Abre Dionysa a carta, e lê-a._
Se para merecer minha pena me não falta mais que viver contente della, ja logo ma podeis consentir; pois que de nenhuma outra cousa vivo triste, senão por não ser para tão doce tristeza. Se tendes por offensa commetter tamanha ousadia; por maior a devieis ter, se a não commettesse; que amor acostumado he fazer os extremos á medida das affeições, e as affeições á medida da causa dellas. Pois logo, nem o meu amor póde ser pouco, nem fazer menos: se este não bastar para consentirdes em meu pensamento, baste para me dardes o que pelo ter mereço; e senão muitas graças ao Amor, que me soube dar hum cuidado, que com tê-lo se paga o trabalho de soffrê-lo.
SOLINA.
Quanta parvoice diz!
DIONYSA.
Ora muito boa está! Como vós, mana, sois má! Não sejais vós tão biliz; Que bem vos entendo ja. Cuja he?
SOLINA.
E eu que sei?
DIONYSA.
Pois quem o sabe?
SOLINA.
O démo.
DIONYSA.
Certo que he de quem temo; Que os ditos que nella achei São todos de Filodemo. Este homem, que atrevimento He este que foi tomar? Qual será seu fundamento? Que mil vezes me faz dar Mil voltas ao pensamento. Não entendo delle nada. Mas inda qu'isto he assi, Disso que delle entendi, Me sinto tão alterada, Que me arreceio de mi. Eu inda agora não creio Que he verdade este amor; Mas praza a Deos, se assi for, Que inda este meu arreceio Se não converta em temor.
SOLINA.
Ja vós, ja sêdes, Peixes, nas redes. Senhora, quem mais confia, Mais asinha a cahir vem: Natural he o querer bem; Que o amor n'alma se cria, Sem o sentir quem o tem. Filodemo, no que ouvi, Tee-lhe sobeja affeição; E postoque o creia assi, Ou eu sonhei, ou ouvi. Que era d'alta geração. Logo na phisionomia, Nas manhas, artes e geito, Mostra mui grande respeito: Nem tão alta phantasia Não se põe em baixo peito.
DIONYSA.
Tudo isso cuido, e vi Mil vezes miudamente; Mas estas mostras assi São desculpas para mi, E não para toda a gente.
SOLINA.
O seu moço vejo vir A nós, seu passo contado: Este he muito para ouvir, Que diz que me quer servir D'amores esperdiçado.
SCENA VII.
_Vilardo, Solina e Dionysa._
VILARDO.
Senhora, o Senhor seu pae, Mesmo de Vossa Mercê, Ja lá para casa vae: Por isso, Senhora, andae, Que elle me mandou n'hum pé; E diz que fosse jantar Vossa Mercê mesmamente.
SOLINA.
E ja veio do pomar?
DIONYSA.
Oh quem pudéra escusar De comer, nem de ver gente! (Nenhuma côr de verdade Tenho do que m'elle manda.)
VILARDO.
S'ella sem vontade anda, Eu lh'emprestarei vontade, Empreste-m'ella a vianda.
SOLINA.
Va, Senhora, por não dar Mais em que cuidar á gente.
DIONYSA.
Irei, mas não por jantar; Que quem vive descontente Mantem-se de imaginar.
VILARDO.
Pois tambem cá minhas dores Me não deixão comer pão; Nem come minha affeição Senão sopadas d'amores, E mil postas de paixão. Das lagrimas caldo faço, Do coração escudella; Esses olhos são panella Que coze bofes e baço, Com toda a mais cabedella.
SCENA VIII.
_O Monteiro, um pastor e um bobo._
MONTEIRO.
Perdeo-se por esta brenha Venadoro, meu Senhor, Sem que novas delle tenha: Queira Deos que inda não venha Desta perda outra maior. Contra esta parte daqui Des pos hum cervo correo, Logo desappareceo: Como da vista o perdi, O gosto se me perdeo. Eu, e os mais caçadores, Corremos montes e covas; Fallamos com lavradores Deste valle, e com pastores, Sem acharmos delle novas. Quero ver nestes casais Que cobre aquelle arvoredo, Se acharei pastores mais, Que me dem alguns sinais Que me possão tornar ledo.
_Chama._
Ó dos casaes, ó de lá: Ah pastores, não fallais?
PASTOR.
Quien sois, ó lo que buscais?
MONTEIRO.
Ouvis? Chegae para cá.
PASTOR.
Dicid vos lo que mandais.
BOBO.
No vayais adó os llamó, Padre, sin saber quien es.
PASTOR.
Porque?
BOBO.
Porque este es Aquel ladron que hurtó El asno del Portugues. Y se vais adó estan, Os juro al cuerpo sagrado De San Pisco, y San Juan, Que tambien os hurtarán, Que sois asno mas honrado.
PASTOR.
Déjame ir, que me llamó.
BOBO.
No, por vida de mi madre; Que si allá vais, muerto so', Y desta vez quedo yo, Sin asno, triste! y sin padre.
MONTEIRO.
Vinde, que vo-lo encommendo, E em vossas mãos me ponho.
BOBO.
No vais, que dijo _en comiendo_. Encomiendoos al demonio! _(Ao Monteiro.)_ Y esso es lo que andais haciendo?
PASTOR.
Déjame ir adó está, Que no es cosa que me espante.
BOBO.
No quereis sino ir allá? Pues echadle pan delante, Puede ser amansará.
PASTOR.
Dios os guarde! Qué cosa es Esa por que voceais?
MONTEIRO.
Dar-m'heis novas, ou sinais D'hum Fidalgo Portugues, Se passou por onde andais?
BOBO.
Yo so' Hidalgo Portugues: Que manda su Señoria?
PASTOR.
Cállate: oh que nescio es!
BOBO.
Padre, no me dejarés Ser lo que quisiere un dia? Ah Santo Dios verdadero! No seré lo que otros son? Digo ahora que no quiero Ser Alonsico, el vaquero.
PASTOR.
Cállate ya, bobarron.
BOBO.
Ya me callo: ahora un poco He de ser lo que yo quisiere.
PASTOR.
Señor, diga lo que quiere, Porque este mochacho es loco, Y muero porque no muere.
MONTEIRO.
Digo, que se por ventura Sabeis o que ando buscando: Hum Fidalgo, que caçando Se perdeo nesta espessura Apos hum cervo andando. Tenho esta parte corrida, Sem delle poder saber: Trago a alegria perdida; E se de todo a perder, Perca-se tambem a vida. Porque só polo buscar Tenho trabalhos assás.
BOBO.
(Yo no puedo callar mas.)
PASTOR.
(Como no puedes callar? Quítate allá para tras.) Cuanto por aquesta tierra, No siento nueva ninguna.
MONTEIRO.
Oh trabalhosa fortuna!
PASTOR.
Mas detras daquesta sierra Hallareis, por dicha, alguna; Que unas choças de vaqueros Portugueses allí estan; Y ahí muchas veces van Cazadores Cavalleros: Puede ser que lo sabran.
MONTEIRO.
Quero-me ir lá saber. Ficae-vos a Deos, pastor.
PASTOR.
Dios os livre de dolor.
BOBO.
Y á nos dé siempre comer Pan y sopas, qu'es mejor. Mirad lo que os notifico: En aquel valle, acullá, Anda paciendo un burrico, Hidalgo, manso, y bonico; Puede ser que ese será.
PASTOR.
Calla, y acaba de andar.
BOBO.
Ya ando.
PASTOR.
Quieres callar? Bobo, que tan poco sabe!
BOBO.
No diceis que ande y acabe? Ando, y no quiero acabar.
ACTO TERCEIRO.
SCENA I.
_Florimena, pastora, com hum pote que vai á fonte._
FLORIMENA.
Por este formoso prado Tudo quanto a vista alcança Tão alegre está tornado, Que a qualquer desesperado Póde dar certa esperança. O monte, e sua aspereza, De flores se veste ledo; Reverdece o arvoredo, Somente em minha tristeza Está sempre o tempo quedo. Junto desta fonte pura, Segundo a muitos ouvi, D'altos parentes nasci: Foi como quiz a Ventura, Mas não como eu mereci. O dia que fui nascida, Minha mãe do parto forte Foi sem cura fallecida; E o dia que me deo vida Lhe dei eu a ella a morte. Do mesmo parto nasceo Meu irmão, que entre os cabritos Comigo tambem viveo; Mas, assi como cresceo, Crescêrão nelle os espritos. Foi-se buscar a cidade; Teve juizo e saber; Eu fiquei, como mulher, E não tive faculdade Para poder mais valer. A hum pastor obedeço Por pae, que d'outro não sei; E, pola mãe que matei, A huma cabra conheço, De cujo leite mamei. Mas porém, ja qu'este monte Me obriga e meu nascimento, Quero, pois quer meu tormento, Encher a talha na fonte Que co'os olhos accrescento.
_Finge que enche a talha._
SCENA II.
_Venadoro e Florimena._
VENADORO.
Pois que me vim alongar Dos caminhos e da gente, Fortuna, que o consente, Se devia contentar De me ter tão descontente. Porém, segundo adivinho, Por tão espêsso arvoredo, Por tão aspero rochedo, Quanto mais busco o caminho, Tanto mais delle me arredo. O cavallo, como amigo, Ja cansado me trazia: Mas deixou-me todavia; Que mal pudera comigo Quem comsigo não podia. Quero-me aqui assentar Á sombra, nesta hervinha, Porque canso ja de andar; Mas inda a fortuna minha Não cansa de me cansar. Junto desta fonte pura Não sei quem cuido qu'está; Mas no coração me dá Que aqui me guarda a Ventura Alguma ventura má. Ou ganhado, ou bem perdido, Faça, emfim, o que quizer, Qu'eu o fim disto hei de ver? Que ja venho apercebido A tudo quanto vier. Oh que formosa serrana Á vista se me offerece! Deosa dos montes parece; E se he certo que he humana, O monte não a merece. Pastora tão delicada, De gesto tão singular, Parece-me qu'em lugar De perguntar pola estrada, Por mim lhe hei de perguntar. Atéqui sempre zombei De qualquer outra pessoa Que affeiçoada topei; Mas agora zombarei De quem se não affeiçoa. Serrana, cuja pintura Tanto a alma me moveo, Dizei-me: Por qual ventura Andareis nesta espessura, Merecendo estar no ceo?
FLORIMENA.
Tamanho inconveniente Andar na serra parece? Pois a ventura da gente Sempre he mui diferente Do que, ao parecer, merece.
VENADORO.
Tal resposta he manifesto Não se parecer co'as cabras. Pois não vos parece honesto Saberdes matar co'o gesto, Senão inda com palabras? No mato tudo he rudeza. Ha tal gesto e discrição? Não o creio.
FLORIMENA.
Porque não? Não supprirá natureza Onde falta criação?
VENADORO.
Ja logo nisso, Senhora, Dizeis, se não sinto mal, Que do vosso natural Não era serdes pastora.
FLORIMENA.
Digo, mas pouco me val.
VENADORO.
Pois quem vos pôde trazer Á conversação do monte?
FLORIMENA.
Perguntae-o a essa fonte; Que as cousas duras de crer, Hum as faça, outro as conte.
VENADORO.
Esta fonte, que está aqui, Que sabe do que dizeis?
FLORIMENA.
Senhor, mais não pergunteis. Porque outra cousa de mi Sabei que não sabereis. De vós agora sabei, O que não tendes sabido: Se quereis ágoa, bebei; Se andais por dita perdido, Eu vos encaminharei.
VENADORO.
Senhora, eu não vos pedia Que ninguem m'encaminhasse; Que o caminho qu'eu queria, Se o eu agora achasse, Mais perdido me acharia. Não quero passar daqui; E não vos pareça espanto Qu'em vos vendo me rendi; Porque quando me perdi, Não cuidei de ganhar tanto.
FLORIMENA.
Senhor, quem na serra mora Tambem entende a verdade Dos enganos da cidade: Vá-se embora, ou fique embora, Qual for mais sua vontade.
VENADORO.
Oh lindissima donzella, A quem a ventura ordena Que me guie como estrella! Quereis-me deixar a pena, E levar-me a causa della? E ja que vos conjurastes Vós e Amor para matar-me, Oh não deixeis d'escutar-me! Pois a vida me tirastes, Não me tireis o queixar-me! Qu'eu, em sangue e em nobreza O claro Ceo me extremou; E a Fortuna me dotou De grandes bens e riqueza, Que sempre a muitos negou. Andando caçando aqui, Apos hum cervo ferido, Permittio meu fado assi, Que andando dos meus perdido, Me venha perder a mi. E porqu'inda mais passasse Do que tinha por passar, Buscando quem m'ensinasse, Por que via me tornasse, Acho quem me faz ficar. Que vingança permittio A fortuna n'hum perdido! Oh que tyranno partido, Que quem o cervo ferio, Vá como cervo ferido! Ambos feridos n'hum monte, Eu a elle, outrem a mi: Huma differença ha aqui, Qu'elle vai sarar á fonte, E eu nella me feri. E pois que tão transformado Me tee vossa formosura, Hum de nós troque o estado. Ou vós para o povoado, Ou eu para a espessura.
FLORIMENA.
Dos arminhos he certeza, Se lhe a cova alguem çujar, Morar fóra, antes d'entrar: D'estimar muito a limpeza Pola vida a vai trocar: Tambem quem na serra mora Tanto estima a honestidade, Que antes toma ser pastora, Que perder a honestidade A trôco de ser Senhora. Se mais quereis, esta fonte Vos descubra o mais de mim: O que ella vio, ella o conte; Porque eu vou-me para o monte, Porque ha ja muito que vim.
SCENA III.
VENADORO.
Ó linda minha inimiga, Gentil pastora, esperae! Pois que tanto amor me obriga, Consenti-me que vos siga; Vá o corpo onde alma vae. E pois por vós me perdi, E neste estado Amor pôs Os olhos com que vos vi, Pois os deixaste sem mi, Oh não os deixeis sem vós! Porque a Fortuna me disse Que nas serras, onde andais, Em estes extremos tais, Não era bem que vos visse Para não ver de vós mais. E pois Amor se quiz ver Da livre vida vingado, Em que eu sohia viver; Faça em mi o que quizer, Que aqui vou ao jugo atado.
SCENA IV.
_Dom Lusidardo, o Monteiro e Filodemo._
LUSIDARDO.
Oh Santo Deos verdadeiro, A quem o mundo obedece! Meu filho não apparece. E que me dizeis, Monteiro?
MONTEIRO.
Digo-lhe que m' entristece. Qu'eu corri por esses montes, Bem quinze leguas, ou mais, E busquei polos casais, Por serras, montes e fontes, Sem ver novas, nem sinais. Toda a gente que levou, Buscando-o, muito cansada Pelo mato anda espalhada; Mas ainda ninguem tomou, Que soubesse delle nada.
LUSIDARDO.
Oh fortuna nunca igual! Quem me fara sabedor De meu filho e meu amor? Que se he muito grande o mal, Muito mor he o temor. Quem tolhe que não achasse Algum leão temeroso N'algum monte cavernoso, Que sua fome fartasse Em seu corpo tão formoso? Quem ha que saiba, ou que visse, Que das montanhas erguidas Algum monstro não sahisse, E com seu sangue tingisse As hervas nellas nascidas? Oh filho! vai-me a lembrar Quantas vezes os mandava Que deixasseis o caçar! Não cuidei de adivinhar O que Fortuna ordenava. Eu irei, filho, buscar-vos Por esses montes, por hi, Ou a perder-me, ou cobrar-vos; Que morte que quiz matar-vos, Quero que me mate a mi. Onde fostes fenecido, Seja tambem vosso pae; Ser-me-ha acontecido, Como a virote que vae Buscar outro que he perdido. Vós só haveis de ficar, Filodemo, encarregado Para esta casa guardar; Que de vosso bom cuidado Tudo se póde fiar. Ide-vos a fazer prestes, Mandae cavallos sellar; Pois achá-lo não pudestes, Ir-m'heis buscar o lugar Onde da vista o perdestes.
SCENA V.
_O Bobo com o vestido de Venadoro, a quem dera o seu._
_Canta._
Los mochachos del Obispo No comen cosa mimosa, Ni zanca d'araña, ni cosa mimosa.
_Falla._
De su sayo colorado Tan lozano me vestió, Que yo ya no soy yo, Ya por otro estoy trocado; Que este sayo me trocó. Oh qué asno Portugues, Que loco por Florimena, Deseó zamarra agena, Y dame por enterés Una zamarra tan buena! Como yo vi la bobilla Andar con él en questiones, Y parársele amarilla, Díjele: Florimenilla, Andais en dongolondrones? Él me dijo: Matalote, No tengais dello desmayo. Y en esto, como un rayo, Tomóme mi capirote, Y dióme su capisayo. Capirote, en buena fé, Si vos, cuando en mi entrastes, Capisayo vos tornastes, Que yo por eso cantaré, Pues ansí me mejorastes.
_Canta._
Lyrio, lyrio, lyrio loco, Con qué? Con capirotada. Por hablar con la golosa De amores, mirad la cosa! Zamarrilla tan hermosa, Que me ha dado tan honrada, Con qué? Con capirotada.
_Falla._
Yo entonces respondí: Señor, dame pan y queso, Mas despues que lo entendí, Dije á ella: Dale un beso, Que él me dió zamarra á mí. Ahora me mirarán Cuantos á la eglesia fueren; Y aquellos que no me quieren, Ahora me rogarán. Sabeis porque no querré? Porque estoy ahidalgado; Y cuando fuere rogado, Cantando responderé, Que ya estoy otro tornado.
_Canta e baila._
Soropicote, picote, mozas, Ahora quiero amores con vosotras.
SCENA VI.
_O Pastor e o Bobo._
PASTOR.
Hijo Alonsillo.
BOBO.
Hijo Alonsillo.
PASTOR.
No me quieres escuchar?
BOBO.
Pues déjame suspirar.
PASTOR.
Escúchame ahora, asnillo, Lo que te quiero mandar. Véte al valle de las rosas, Y di á Anton del Lugar Que si puede acá llegar, Porque tengo muchas cosas Que importan para le hablar. Porque es aqui llegado Á este valle un hombre honrado, Mancebo de casta buena, Que amores de Florimena Le traen loco y penado. Dice que quiere casar Con ella, que su tormento No le deja reposar; Y que venga festejar Tan dichoso casamiento.
BOBO.
Dicid, padre, tambien vos, No quereis casar comigo? Casemos ambos adós.
PASTOR.
Vé, y haz lo que te digo.
BOBO.
Responde, padre, por Dios.
PASTOR.
Vé luego, y vuelve apresado. Anda. No quieres andar?
BOBO.
Pues que me habeis empujado, Juro á mi de desandar Todo cuanto tengo andado.
PASTOR.
Trabajoso es este insano! Nunca hace lo que quereis.
BOBO.
Ora no os apasioneis, Mi padrecico lozano: Que burlaba, no lo veis?
PASTOR.
Véte dahi.
BOBO.
Héme aqui.
PASTOR.
Vé donde te dije.
BOBO.
Ya vengo. Oh que padrasto que tengo, Que asi me manda por ahi, Siendo camino tan luengo!
ACTO QUARTO.
SCENA I.
_Dionysa e Solina._
DIONYSA.
Oh Solina, minha amiga, Que todo este coração Tenho posto em vossa mão; Amor me manda que diga, Vergonha me diz que não. Que farei? Como me descobrirei? Porque a tamanho tormento Mais remedio lhe não sei, Que entregá-lo ao soffrimento. Meu pae muito entristecido Se vai pela serra erguida, Ja da vida aborrecido, Buscando o filho perdido, Tendo a filha cá perdida! Sem cuidar, Foi a casa encommendar A quem destruir lha quer: Olhae que gentil saber, Que vai comigo deixar Quem me não deixa viver.
SOLINA.
Senhora, em tanto desgôsto. Não posso meter a mão; Mas como diz o rifão, Mais val vergonha no rosto, Que mágoa no coração. E bofé, se eu tanto amasse, E visse tempo e sazão, Sem seu pae, sem seu irmão, Que a nuvem triste tirasse De cima do coração.
DIONYSA.
Ah mana! que tenho medo, Que s'eu em tal consentisse Que logo o mundo o sentisse, Porque nunca houve segredo, Que, emfim, se não descobrisse.
SOLINA.
Se eu tantas dobras tivesse Como quantas houve erradas, Sem que o mundo o soubesse, Á fé qu'eu enriquecesse, E fosse das mais honradas.
DIONYSA.
Sabeis que tenho em vontade?
SOLINA.
Que podeis, Senhora, ter?
DIONYSA.
Fallar-lhe, só para ver Se he por ventura verdade O que dizeis que me quer.
SOLINA.
Bofé, mana, dizeis bem, E eu o mandarei chamar, Como para lhe rogar Que hum annel, que lá me tem, Que mo mande concertar.
DIONYSA.
Dizeis mui bem.
SOLINA.
Vou-me lá Chamar o seu moço á sala; E s'este parvo vem cá, Com elle hum pouco rirá, Que sempre amores me fala. Vilardo, moço?
SCENA II.
_Vilardo e Solina._
VILARDO.
Quem chama?
SOLINA.
Vem cá, moço; eu te chamo. Qu'he de teu amo?
VILARDO.
Ah que dama! Perguntais-me por meu amo, E não por hum que vos ama?
SOLINA.
E quem he esse amador, Que quer ter comigo passo? Será elle algum madrasso?
VILARDO.
Eu sou o mesmo, que o amor Me quebra pelo espinhasso. E mais vós sabei de mi, Se eu a dizê-lo me atrevo, Que desque esses olhos vi, Que yo ni como, ni bebo, Ni hago vida sin ti. E mais para namorado Não sou ora tão madraço.
SOLINA.
Sois muito desmazelado.
VILARDO.
Mas antes, de delicado Caio pedaço a pedaço. E mais eu soffrer não posso Que me façais tanto fero, Qu'estou ja posto no osso, Porque sou vosso e revosso, Por vida de quanto quero.
SOLINA.
Feros está cheia a rua. Ora estou bem aviada!
VILARDO.
Cupido, por vida tua, Que a não faças tão crua, Pois que te não faço nada! Amor, Amor, mas te pido, Que quando se for deitar, Que le digas al oido: Devieis-vos de lembrar Neste tempo de hum perdido.
SOLINA.
E tu ja fazes coprinhas? Ainda tu trovarás?
VILARDO.
Quem eu? Por estas barbinhas, Que se vós virdes as minhas, Que digais que não são más.
SOLINA.
Ora, pois me quereis bem, Dizei-me huma.