Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Part 15

Chapter 153,963 wordsPublic domain

Agora quero eu fallar Neste caso com mais tento; Quero agora perguntar: E de siso his vós tomar Hum tão alto pensamento? Certo he minha maravilha, Se vós isto não sentis Bem: vós como não cahis Que Dionysa qu'he filha Do Senhor a quem servis? Como? Vós não attentais Os Grandes, de qu'he pedida? Peço-vos que me digais Qual he o fim que esperais Neste caso, em vossa vida. Que razão boa, ou que côr Podeis dar a esta affeição? Dizei-me vossa tenção.

FILODEMO.

Onde vistes vós amor Que se guie por razão? Se quereis saber de mi Que fim, ou de que theor O pretendo em minha dor; S'eu neste amor quero fim, Sem fim me atormente Amor. Mas vós com gloria fingida Pretendeis de m'enganar, Por assi mal me tratar: Assi que me dais a vida Somente por me matar.

SOLINA.

Eu digo-vos a verdade.

FILODEMO.

Da verdade fujo eu, Porque se o Amor me deu Pena de tal qualidade, Assaz me custa do meu.

SOLINA.

Fólgo muito de saber Que sois amante tão fino.

FILODEMO.

Pois mais vos quero dizer, Que ás vezes no imaginar Não ouso de m' estender. Na hora que imaginei Na causa de meu tormento, Tamanha gloria levei, Que por onças desejei De lograr o pensamento.

SOLINA.

Se me vós a mi jurardes De me terdes em segredo Huma cousa... mas hei medo De logo tudo contardes.

FILODEMO.

A quem?

SOLINA.

Áquelle enxovedo.

FILODEMO.

Qual?

SOLINA.

Aquelle mao pezar, Que ant'hontem comvosco hia. Quem se fosse em vós fiar! O que vos disse o outro dia, Tudo lhe fostes contar.

FILODEMO.

Que lhe contei?

SOLINA.

Ja lh'esquece?

FILODEMO.

Por certo qu'estou remoto.

SOLINA.

Hi, que sois hum cesto roto.

FILODEMO.

Esse homem tudo merece.

SOLINA.

Vós sois muito seu devoto.

FILODEMO.

Senhora, não hajais medo: Contae-m'isso, e far-me-hei mudo.

SOLINA.

Senhor, o homem sisudo, Se em taes cousas tee segredo, Saiba que alcançará tudo. A Senhora Dionysa Crede que mal vos não quer: Não vos posso mais dizer. Isto tende por balisa Com que vos saibais reger. Qu'em mulheres, se attentais, O querer está visibil; E se bem vos governais, Não desespereis do mais, Porque, emfim, tudo he possibil.

FILODEMO.

Senhora, póde isso ser?

SOLINA.

Si, que tudo o mundo tem: Olhae não o saiba alguem.

FILODEMO.

E que maneira hei de ter Para crer tamanho bem?

SOLINA.

Vós, Senhor, o sabereis; E ja que vos descobri Tamanho sogredo aqui, Huma mercê me fareis Em que me vai muito a mi.

FILODEMO.

Senhora, a tudo me obrigo Quanto for em minha mão.

SOLINA.

Pois dizei a vosso amigo Que não gaste tempo em vão, Nem queira amores comigo. Porque eu tenho parentes, Que me podem bem casar; E mais que não quero andar Agora em boca de gentes A quem s'elle vai gabar.

FILODEMO.

Senhora, mal conheceis O que vos quer Duriano: Sabei-o, se o não sabeis, Qu'em sua alma sente o dano Do pouco que lhe quereis; E que outra cousa não quer, Que ter-vos sempre servida.

SOLINA.

Pola sua negra vida, Isso havia eu bem mister.

FILODEMO.

Vós sois desagradecida!

SOLINA.

Si, que tudo são enganos Em tudo quanto fallais.

FILODEMO.

Não quero que me creais: Crede o tempo; que ha dous anos Que vos serve, e inda mais.

SOLINA.

Senhor, bem sei que m'engano; Mas a vós, como a irmão, Descubro este coração: Sabei que a Duriano Tenho sobeja affeição. Olhae que lhe não digais Isto que vos aqui digo.

FILODEMO.

Senhora, mal me tratais: Inda que sou seu amigo, Sabei que vosso sou mais.

SOLINA.

E ja que vos confessei Aquestas fraquezas minhas, Que ha tanto que de mi sei; Fazei vós nas cousas minhas O qu'eu nas vossas farei.

FILODEMO.

Vós enxergareis, Senhora, O qu'eu por vós sei fazer.

SOLINA.

Como me deixo esquecer! Aqui estivera agora Fallando té anoitecer. Vou-me; e olhae quanto val O que passou entre nós.

FILODEMO.

E porque vos ides vós?

SOLINA.

Porque parece ja mal Estar aqui ambos sós. E mais vou vestir agora A quem vos dá tão má vida. Ficae-vos, Senhor, embora.

FILODEMO.

Nessa ide vós, Senhora, Que ja vos tenho entendida.

SCENA VI.

FILODEMO _só_.

Ora se póde isto ser Do qu'esta moça me avisa, Que a Senhora Dionysa, Por me ouvir, se fosse erguer Da sua cama em camisa! E diz que mal me não quer. Não queria maior gloria; Mas o que mais posso crer, Que nem para lhe esquecer Lhe passo pela memoria. Mas ter Solina tambem Em Duriano o intento, He levar-me a lenha o vento; Porque s'ella lhe quer bem, Para bem vai meu tormento. Mas foi-se este homem perder Neste tempo, de maneira, Por huma mulher solteira, Que não me atrevo a fazer Que hum pequeno bem lhe queira. Porém far-lhe-hei hum partido, Porqu'ella não se querelle: Que se mostre seu perdido, Inda que seja fingido, Como lh'outrem faz a elle. E ja que me satisfaz, E tanto nisto se alcança, Dê-lhe fingida esperança: Do mal que lhe outrem faz, Tomará nella vingança.

SCENA VII.

VILARDO _só_.

Ora boa está a cilada De meu amo com sua ama, Que se levantou da cama Por ouvi-lo! Está tomada: Assi a tome má trama. E mais crede que quem canta, Ainda descantará; E quem do leito, onde está, Por ouvi-lo se levanta, Mor desatino fará. Quem havia de cuidar, Que dama formosa e bella Saltasse o demonio nella, Para a fazer namorar De quem não he igual della? Que me dizeis a Solina? Como se faz Celestina, Que por não lhe haver inveja Tambem para si deseja O que o desejo lh'ensina! Crede que se me alvoróço, Que a hei de tomar por dama; E não será grão destrôço, Pois o amo quer a ama, Que a moça queira o moço. Vou-me; que vejo lá vir Venadoro, apercebido Para a caça se partir: E voto a tal, que he partido Para ver e para ouvir. Que he razão justa e rasa Que seu folgar se desconte Em quem arde como brasa; Que se vai caçar ao monte, Fique outrem caçando em casa.

SCENA VIII.

VENADORO _só_.

Aprovada antiguamente Foi, e muito de louvar A occupação do caçar, E da mais antigua gente Havida por singular. He o mais contrário officio Que tee a ociosidade, Mãe de todo o bruto vício: Por este limpo exercicio Se reserva a castidade. Este dos grandes Senhores Foi sempre muito estimado; E he grande parte do estado Ter monteiros, caçadores, Como officio qu'he prezado. Pois logo porque razão A meu pae ha de pezar De me ver ir a caçar? E tão boa occupação Que mal me póde causar?

SCENA IX.

_Venadoro e o Monteiro._

MONTEIRO.

Senhor, venho alvoroçado, E mais com muita razão.

VENADORO.

Como assi?

MONTEIRO.

Que me he chegado O mais extremado cão, Que nunca caçou veado. Vejamos que me ha de dar.

VENADORO.

Dar-vos-hei quanto tiver; Mas ha-se d'exprimentar, Para se poder julgar As manhas que póde ter.

MONTEIRO.

Póde assentar qu'este cão, Que tee das manhas a chave. Bem feito? Em admiração. Pois em ligeiro? He huma ave. Em commetter? Hum leão. Com porcos? Maravilhoso. Com veados? Extremado. Sobeja-lhe o ser manhoso.

VENADORO.

Pois eu ando desejoso D'irmos matar hum veado.

MONTEIRO.

Pois, Senhor, como não vae?

VENADORO.

Vamos, e vós mui ligeiro O necessario ordenae; Qu'eu quero chegar primeiro Pedir licença a meu pae.

ACTO SEGUNDO.

SCENA I.

DURIANO.

Pois não creio eu em S. Pisco de pao, se hei de pôr pé em ramo verde, té lhe dar trezentos açoutes. Despois de ter gastado perto de trezentos cruzados com ella, porque logo lhe não mandei o setim para as mangas, fez de mim mangas ao demo. Não desejo eu de saber, senão qual he o galante que me succedeo; que se vo-lo eu colho a balravento, eu lhe farei botar ao mar quantas esperanças lhe a fortuna tee cortado á minha. Ora tenho assentado, que amor destas anda com o dinheiro, como a maré com a lua: bolsa cheia, amor em ágoas vivas; mas se vasa, vereis espraiar este engano, e deixar em sêcco quantos gostos andavão como o peixe na ágoa.

SCENA II.

_Filodemo e Duriano._

FILODEMO.

Ó lá! cá sois vós? Pois agora hia eu bater essas moutas, para ver se me sahieis de alguma; porque quem vos quizer achar, he necessario que vos tire como huma alma.

DURIANO.

Oh maravilhosa pessoa! Vós he certo que vos prezais de mais certo em casa, que pinheiro em porta de taverna; e trazeis, se vem á mão, os pensamentos com os focinhos quebrados, de cahirem onde vós sabeis. Pois sabeis, Senhor Filodemo, quaes são os que me mátão? Huns muito bem almofaçados, que com dois ceitis fendem a anca pelo meio, e se prezão de brandos na conversação, e de fallarem pouco e sempre comsigo, dizendo que não darão meia hora de triste pelo thesouro de Veneza; e gábão mais Garcilasso que Boscão; e ambos lhe sahem das mãos virgens; e tudo isto por vos meterem em consciencia que se não achou para mais o grão Capitão Gonçalo Fernandes. Ora pois desengano-vos, que a mor rapazia do mundo farão altos espiritos: e eu não trocarei duas pescoçadas da minha etc., depois de ter feito a tosquia a hum frasco, e fallar-me por tu e fingir-se-me bebada, porque o não pareça, por quantos Sonetos estão escriptos polos troncos dos árvores do vale Luso, nem por quantas Madamas Lauras vós idolatrais.

FILODEMO.

Tá, tá, não vades avante, que vos perdeis.

DURIANO.

Aposto que adivinho o que quereis dizer?

FILODEMO.

Que?

DURIANO.

Que se me não acudieis com o batel, que me hia meus passos contados a herege de amor.

FILODEMO.

Oh que certeza tamanha, o muito peccador não se conhecer por esse!

DURIANO.

Mas oh que certeza maior, de muito enganado, esperar em sua opinião! Mas tornando a nosso proposito, que he o para que me buscais? que se he cousa de vossa saude, tudo farei.

FILODEMO.

Como templará el destemplado? Quem poderá dar o que não tee, Senhor Duriano? Eu quero-vos deixar comer tudo: não póde ser que a natureza não faça em vós o que a razão não póde: o caso he este, dir-vo-lo-hei; porém he necessario que primeiro vos alimpeis como marmelo, e que ajunteis para hum canto da casa todos esses maos pensamentos; porque segundo andais mal avinhado, damnareis tudo aquillo que agora lançarem em vós. Ja vos dei conta da pouca que tenho com toda a outra cousa que não he servir a Senhora Dionysa; e postoque a desigualdade dos estados o não consinta, eu não pretendo della mais que o não pretender della nada, porque o que lhe quero, comsigo mesmo se paga; que este meu amor he como a ave Phenix, que de si só nasce, e não de outro nenhum interesse.

DURIANO.

Bem praticado está isso; mas dias ha que eu não creio em sonhos.

FILODEMO.

Porque?

DURIANO.

Eu vo-lo direi: porque todos vós-outros os que amais pela passiva, dizeis que o amor fino como melão, não ha de querer mais de sua dama que amá-la; e virá logo o vosso Petrarca, e o vosso Pietro Bembo, atoado a trezentos Platões, mais çafado que as luvas de hum pagem d'arte, mostrando razões verisimeis e apparentes, para não quererdes mais de vossa dama que vê-la; e ao mais até fallar com ella. Pois inda achareis outros esquadrinhadores d'amor, mais especulativos, que defenderão a justa por não emprenhar o desejo; e eu (faço-vos voto solemne) se a qualquer destes lhe entregassem sua dama tosada e apparelhada entre dous pratos, eu fico que não ficasse pedra sôbre pedra: e eu ja de mi vos sei confessar que os meus amores hão de ser pela activa, e que ella ha de ser a paciente, e eu agente, porque esta he a verdade. Mas, com tu de, vá v. m. co'a historia por diante.

FILODEMO.

Vou, porque vos confesso que neste caso ha muita dúvida entre os Doctores: assi que vos conto, que estando esta noite com a viola na mão, bem trinta ou quarenta legoas pelo sertão dentro de hum pensamento, senão quando me tomou á traição Solina; e entre muitas palavras que tivemos, me descobrio que a Senhora Dionysa se levantára da cama por me ouvir, e que estivera pela greta da porta espreitando quasi hora e meia.

DURIANO.

Cobras e tostões, sinal de terra: pois ainda vos não fazia tanto avante.

FILODEMO.

Finalmente, veio-me a descobrir, que me não queria mal, que foi para mi o maior bem do mundo; que eu estava ja concertado com minha pena a soffrer por sua causa, e não tenho agora sogeito para tamanho bem.

DURIANO.

Grande parte da saude he para o doente trabalhar por ser são. Se vos deixardes manquecer na estrebaria com essas finezas de namorado, nunca chegareis onde chegou Rui de Sande. Por isso boas esperanças ao leme; que eu vos faço bom que ás duas enxadadas acheis ágoa. E que mais passastes?

FILODEMO.

A maior graça do mundo: veio-me a descobrir que era perdida por vós; e me quiz dar a entender que faria por mi tudo o que lhe vós merecesseis.

DURIANO.

Santa Maria! Quantos dias ha que nos olhos lhe vejo marejar esse amor? porque o fechar de janellas que essa mulher me faz, e outros enojos que dizer poderia, no son sino corredores del amor, e a cilada em que ella quer que eu caia.

FILODEMO.

Nem eu não quero que lho queirais, mas que lhe façais crer que lho quereis.

DURIANO.

Não... quanté dessa maneira me offereço a romper meia duzia de serviços alinhavados ás panderetas, que bastem assentar-me em soldo pelo mais fiel amante que nunca calçou esporas; e se isto não bastar, salgan las palabras mas sangrientas del corazon, entoadas de feição, que digão que sou hum Mancias, e peor ainda.

FILODEMO.

Ora dais-me a vida. Vamos ver se por ventura apparece, porque Venadoro, irmão da Senhora Dionysa, he fóra á caça; e sem elle fica a casa despejada; e o Senhor Dom Lusidardo anda no pomar; que todo o seu passatempo he enxertar e dispôr, e outros exercicios d'agricultura, naturaes a velhos: e pois o tempo nos vem á medida do desejo, vamo-nos lá; e se puderdes fallar, fazei de vós mil manjares, porque lhe façais crer que sois mais esperdiçado d'amor que hum Braz Quadrado.

DURIANO.

Ora vamos, que agora estou de vez, e cuido d'hoje fazer mil maravilhas, com que vosso feito venha á luz.

SCENA III.

_Dionysa e Solina._

DIONYSA.

Solina, mana.

SOLINA.

Senhora.

DIONYSA.

Trazei-me cá a almofada; Que a casa está despejada, E esta varanda cá fóra Está melhor assombrada. Trazei a vossa tambem Para estarmos cá lavrando; Em quanto meu pae não vem, Estaremos praticando, Sem nos estorvar ninguem.

SOLINA.

Este he o mesmo lugar Onde estava o bem logrado, Tal que de muito enlevado Se esquecia do cantar Por se enlevar no cuidado.

DIONYSA.

Vós, mana, sois mui ruim! Logo lhe fostes contar Que me ergui polo escutar.

SOLINA.

Eu o disse?

DIONYSA.

Eu não o ouvi? Como mo quereis negar?

SOLINA.

E pois isso que releva? Que se perde nisso agora?

DIONYSA.

Que se perde! Assi, Senhora, Folgareis vós que se atreva A contá-lo lá por fóra? Que se lhe meta em cabeça Alguma parvoa tenção? Que faça, se vem á mão, Algua cousa que pareça?

SOLINA.

Senhora, não tee razão.

DIONYSA.

Eu sei mui bem attentar Do que se ha de ter receio, E do que he para estimar.

SOLINA.

Não he o demo tão feio Como alguem o quer pintar; E não se espera isso delle, Que não he ora tão moço. E Vossa Mercê asselle Que qualquer segredo nelle He como huma pedra em poço.

DIONYSA.

E eu que segredo quero Co'hum criado de meu pae?

SOLINA.

E vós, mana, fazeis fero? Ao diante vos espero, Se adiante o caso vae.

DIONYSA.

O madraço! quem o vir Fallar de siso co'ella... Então vós, gentil donzella, Folgais muito de o ouvir?

SOLINA.

Si, porque me falla nella; E eu como ouço fallar Nella, como quem não sente, Folgo de o escutar, Só para lhe vir contar O que della diz a gente; Qu'eu não quero nada delle. E mais, porque está fallando? Não m'esteve ella rogando Que fosse fallar com elle?

DIONYSA.

Disse-vo-lo assi zombando. Vós logo tomais em grosso Tudo quanto me escutais. Parvo! que vê-lo não posso.

SOLINA.

Ella alli, e o cão co'o osso! Inda isto ha de vir a mais. Pois que tal odio lhe tem, Fallemos, Senhora, em al; Mas eu digo que ninguem Merece por querer bem Que a quem lho quer, queira mal.

DIONYSA.

Deixae-o vós doudejar. Se meu pae, ou meu irmão, O vierem a aventar, Não ha elle de folgar.

SOLINA.

Deos meterá nisso a mão.

DIONYSA.

Ora hi polas almofadas, Que quero hum pouco lavrar; Por ter em que me occupar; Qu'em cousas tão mal olhadas Não se ha o tempo de gastar.

SOLINA.

Que cousa somos mulheres! Como somos perigosas! E mais estas tão viçosas Qu'estão á boca _que queres_ E adoecem de mimosas! Se eu não caminho agora A seu desejo e vontade; Como faz esta Senhora, Fazem-se logo nessa hora Na volta da honestidade. Quem a vira o outro dia Hum poucochinho agastada, Dar no chão com a almofada, E enlevar a phantasia, Toda n'outra transformada! Outro dia lhe ouvirão Lançar suspiros a mólhos, E com a imaginação Cahir-lhe a agulha da mão, E as lagrimas dos olhos. Ouvir-lhe-heis á derradeira A ventura maldizer, Porque a foi fazer mulher. Então diz que quer ser Freira; E não se sabe entender. Então gaba-o de discreto, De musico e bem disposto, De bom corpo e de bom rosto. Quanté então eu vos prometo, Que não tee delle desgôsto. Despois, se vem a attentar, Diz que he muito mal feito Amar homem deste geito; E que não póde alcançar Pôr seu desejo em effeito. Logo se faz tão Senhora, Logo lhe ameaça a vida, Logo se mostra nessa hora Muito segura de fóra, E de dentro está sentida. Bofé, segundo vou vendo, Se esta postema vier, Como eu suspeito, a crescer, Muito ha que della entendo O fim que póde vir ter.

SCENA IV.

_Duriano e Filodemo._

DURIANO.

Ora deixae-a ir, que á vinda lhe fallaremos; entretanto cuidarei o como hei de fazer; que não ha mor trabalho para huma pessoa que fingir-se.

FILODEMO.

Dar-lhe-heis esta carta; e fazei muito com ella que a dê á Senhora Dionysa; que me vai nisso muito.

DURIANO.

Por mulher de tão bom engenho a tendes?

FILODEMO.

E porque me perguntais isso?

DURIANO.

Porque ainda hontem entrou pelo A, B, C, e ja quereis que leia carta mandadeira: fa-la-heis cedo escrever materia junta.

FILODEMO.

Não lhe digais que vos disse nada, porque cuidará que por isso lhe fallais; mas fingi que de puro amor a andais buscando a tempos que fação á vossa tenção.

DURIANO.

Deixae-me vós a mi com o caso, que eu sei melhor as pancadas a estes vintes, que vós; e eu vo-la farei hoje vir a nós sem gafas; e vós entretanto acolhei-vos a sagrado, porque ei-la lá vem.

FILODEMO.

Olhae lá: fazei que a não vêdes, e fingi que fallais comvosco; que faz a nosso caso.

DURIANO.

Dizeis bem. (Yo sigo tristeza, remedio de tristes: la terrible pena mia no la espero remediar. Pois não devia assi de ser, polos santos Evangelhos! mas muitos dias ha que eu sei que o amor, e os cangrejos, andão ás vessas. Ora, emfim, las tristezas no me espanten, porque suelen aflojar cuando mas duelen.)

SCENA V.

_Solina e Duriano._

SOLINA, _com a almofada_.

Aqui anda passeando Duriano, e só comsigo Pensamentos praticando: Daqui posso estar notando Com quem sonha, se he comigo.

DURIANO.

Ah quão longe estará agora Minha Senhora Solina De saber que estou bem fóra De ter outra por senhora, Segundo o amor determina! Porém se determinasse Minha bem-aventurança Que de meu mal lhe pezasse. Até que nella tomasse Do que lhe quero vingança!...

SOLINA.

(Comigo sonha por certo. Ora quero-me mostrar, Assi como por acêrto: Chegar-me-hei mais ao perto, Por ver se me quer fallar.) Sempre esta casa ha d'estar Acompanhada de gente, Que não possa homem passar!

DURIANO.

Á traição vindes tomar Quem ja feridas não sente?

SOLINA.

Logo me a mi parecia Que era elle o que passeava.

DURIANO.

E eu mal adivinhava Que me viesse este dia, Que ha tantos que desejava. Se huns olhos por vos servir, Com o amor que vos conquista, Se atrevêrão a subir Os muros da vossa vista, Que culpa tee quem vos vir? E se esta minha affeição, Que vos serve de giolhos, Não fez êrro na tenção, Tomae vingança nos olhos, E deixae o coração.

SOLINA.

Ora agora me vem riso. Assi que vós sois, Senhor, De siso meu servidor?

DURIANO.

De siso não, porque o siso Me tee tirado o amor. Porque o amor, se attentais, N'hum tão verdadeiro amante Não deixa siso bastante; Senão se siso chamais A doudice tão galante.

SOLINA.

Como Deos está nos Ceos, Que se he verdade o que temo, Que fez isto Filodemo.

DURIANO.

Mas fê-lo o démo; que Deos Não faz mal tanto em extremo.

SOLINA.

Bem. Vós, Senhor Duriano, Porque zombareis de mim?

DURIANO.

Eu zombo?

SOLINA.

Eu não m' engano.

DURIANO.

S' eu zombo, inda em meu dano Vejais vós mui cedo a fim. Mas vós, Senhora Solina, Porque me querereis mal?

SOLINA.

Sou mofina.

DURIANO.

Oh! real. Assi que minha mofina He minha imiga mortal. Dias ha qu'eu imagino Qu'em vos amar e servir Não ha amador mais fino; Mas sinto que de mofino Me fino sem o sentir.

SOLINA.

Bem derivais: quanté assi Á popa o dito vos veio.

DURIANO.

Vir-me-ha de vós, porque creio Que vós fallais dentro em mi, Como esprito em corpo alheio. E assi que em estas piós A cahir, Senhora, vim; Bem parecerá entre nós, Pois vós andais dentro em mim, Que ande eu tambem dentro em vós.

SOLINA.

He bem: que fallar he esse?

DURIANO.

Dentro na vossa alma, digo, Lá andasse, e lá morresse! E se isto mal vos parece, Dae-me a morte por castigo.

SOLINA.

Ah mao! Como sois malvado!

DURIANO.

Mas vós como sois malvada, Que de hum pouco mais de nada Fazeis hum homem armado, Como quem 'stá sempre armada! Dizei-me, Solina, mana.

SOLINA.

Qu'he isso? Tirae lá a mão: Oh! vós sois mao cortezão.

DURIANO.

O que vos quero m'engana, Mas o que desejo não. Não ha aqui senão paredes, As quaes não fallão, nem vem.

SOLINA.

Está isso muito bem. Bem: e vós, Senhor, não vêdes Que poderá vir alguem?

DURIANO.

Que vos custão dous abraços?

SOLINA.

Não quero tantos despejos.

DURIANO.

Pois que farão meus desejos, Que querem ter-vos nos braços, E dar-vos trezentos beijos?

SOLINA.

Olhae que pouca vergonha! Hi-vos d'hi, boca de praga.

DURIANO.

Eu não sei certo a que ponha Mostrardes-me a triaga, E virdes-me a dar peçonha.

SOLINA.

Ora ide rir á feira, E não sejais dessa laia.

DURIANO.

Se vêdes minha canseira, Porque lhe não dais maneira?

SOLINA.

Que maneira?

DURIANO.

A da saia.

SOLINA.

Por minha alma, hei de vos dar Meia duzia de porradas.

DURIANO.

Oh que gostosas pancadas! Mui bem vos podeis vingar, Qu'em mim são bem empregadas.

SOLINA.

Ao diabo, que o eu dou. Como me doeo a mão!

DURIANO.

Mostrae cá, minha affeição, Que essa dor me magoou Dentro no meu coração.

SOLINA.

Ora hi-vos embora asinha.

DURIANO.

Por amor de mi, Senhora, Não fareis huma cousinha?

SOLINA.

Digo que vades embora. Que cousa?

DURIANO.

Esta cartinha.

SOLINA.

Que carta?

DURIANO.

De Filodemo A Dionysa vossa ama.

SOLINA.

Dizei, que tome outra dama, E dê os amores ao démo.

DURIANO.

Não andemos pola rama. Senhora, (aqui para nós) Que sentis della com elle?

SOLINA.

Grandes alforges sois vós! Pois hi-lhe dizer que appelle.