Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Part 14

Chapter 143,701 wordsPublic domain

Grandes revoltas vão lá. Grandes acontecimentos! Cumpre-me que esteja cá, Em quanto meu pae está Em seus desenfadamentos. Porque vi Amphitrião Vir da nao mui apressado; E tendo corrido e andado, Não pôde achar Belferrão, Que lhe era bem escusado. Parece-me que virá Ver se lhe abre aqui alguem; Mas, porém, se chega cá, Ja póde ser que se vá Mais confuso do que vem.

SCENA III.

_Mercurio e Amphitrião._

AMPHITRIÃO.

Quiz-nos nossa natureza Com tal condição fazer, Que ja temos por certeza Não haver grande prazer, Sem mistura de tristeza. Este decreto espantoso, Que instituio nossa sorte, He tal e tão rigoroso, Que ninguem antes da morte Se póde chamar ditoso. Com esta justa balança O Fado grande e profundo Nos refreia a esperança, Porque ninguem neste mundo Busque bem-aventurança. Eu, que cuidei de viver Sempre contente de mi Com tamanho Rei vencer, Venho achar minha mulher De todo fóra de si. Mas d'outra parte, que digo? Que s'he verdade o que vi, E o que ella diz he assi; Virei a cuidar comigo Qu'eu sou o fóra de mi. Quero ver se a acho ja Fóra de tão seccos nós. Ó de casa?

MERCURIO.

O de allá? Quien sois?

AMPHITRIÃO.

Abre.

MERCURIO.

Santo Dios! Pues no os conocen acá.

AMPHITRIÃO.

Oh que gentil desvario! Abri-me ora se quizerdes.

MERCURIO.

No haré, que en mí confio Que de fuera dormiredes, Que no comigo, amor mio. (Que cancion para oir!)

AMPHITRIÃO.

Ah Sósea! zombas de mi? (Ora quero-me fingir Que ainda o não conheci, Por ver se me quer abrir) Ah Senhor, não abrireis?

MERCURIO.

Qué quereis, hombre, por Dios?

AMPHITRIÃO.

Duas palavras de vós.

MERCURIO.

Tengo dicho mas de seis, E ahora me pedis dos? De fuera podeis dormir, Que entrar no podeis acá.

AMPHITRIÃO.

Ora acabae, abri lá.

MERCURIO.

Digo que no quiero abrir: Dije dos palabras ya.

AMPHITRIÃO.

Ora sus, bargante, abri.

MERCURIO.

Si no te vuelves de aqui, Á gran peligro te ofreces.

AMPHITRIÃO.

Velhaco, não me conheces. Ou estás fóra de ti?

MERCURIO.

Bonito venis, amor. Quien sois, que hablais tan osado?

AMPHITRIÃO.

Abre, que sou teu Senhor.

MERCURIO.

Vuélvase de esotro lado, Y conocerlehé mejor.

AMPHITRIÃO.

Sósea moço.

MERCURIO.

Así me llamo, Huélgome que lo sepais; Empero digo que os vais, Que Amphitrion es mi amo; Vos id buscar quien seais.

AMPHITRIÃO.

Pois quero saber de ti: Eu quem sou?

MERCURIO.

Y quien sois vós? Como os llaman?

AMPHITRIÃO.

Abri.

MERCURIO.

Á vos os llaman Abri? Pues, Abri, andad con Dios.

AMPHITRIÃO.

Quem ha, que possa soffrer Em sua honra tal destrôço, Que para me endoudecer Me tee negado a mulher, E agora me nega o moço?

MERCURIO.

Mira el encantador Como se lastima y llora, Y fuese tomar ahora La forma de mi Señor, Para engañar mi Señora. Pues esperad, y no os vais, Por un espacio pequeño; Verná quien representais, Y él os hará que volvais El falso gesto á su dueño.

AMPHITRIÃO.

Vae, velhaco, e chama cá Esse falso feiticeiro; Que se elle lá dentro está, Esta espada julgará Qual de nós he o verdadeiro.

SCENA IV.

_Amphitrião, Sosea e Belferrão._

BELFERRÃO.

Ora ninguem presumíra Que tinhas tão pouco siso; Pois vás achar d'improviso Tão bem forjada mentíra, Que me faz cahir de riso. Hum moço, que alevantou Tal graça, nunca nasceo: Porque vos jura que achou Que ou elle em dous se perdeo, Ou de hum dous se tornou.

SOSEA.

Patron, que no burlo, no: En uno son dos unidos, Y en dos cuerpos repartidos; Yo soy él, y él es yo, De un padre y madre nacidos.

BELFERRÃO.

Esse tu que lá estás, Tão velhaco he como ti?

SOSEA.

Mas aun pienso que es mas: Por delante y por detrás Todo se parece á mí. Y fue gran merced de Dios Ayuntar á mí mas uno, Que peor fuera de nos, Si Dios me hiciera ninguno, Que no de uno hacer dos.

BELFERRÃO.

Assi que, se te perdeste Vieste a cobrar mais hum: Mui gentil conta fizeste, Pois que perdido soubeste Que eras dous, sendo nenhum.

SOSEA.

Pues teneis por abusion Verdad tan clara, y tan rasa, Aunque pone admiracion; Quiera Dios, que allá en casa No halleis otro Patron.

AMPHITRIÃO.

O Patrão, que fui buscar, Parece que vejo vir: Não sei quem o foi chamar; Mas que me ha de aproveitar Se me não querem abrir? Ah Belferrão!

BELFERRÃO.

Ah Senhor! Ja sinto que fui culpado; Porque quem he convidado, Se tão vagaroso for, Merece não ser chamado.

AMPHITRIÃO.

A vós quem vos convidou?

BELFERRÃO.

Sósea, por mandado seu.

AMPHITRIÃO.

Disso, Patrão, não sei eu; Que Sósea ja me negou, E ja se não dá por meu. E se alguem vos foi dizer Qu'eu vos chamo á minha mesa; Mal vos dara de comer Quem de todo lhe he defesa A casa, e mais a mulher.

BELFERRÃO.

Quem he esse tão ousado, Que vos isso faz, Senhor?

AMPHITRIÃO.

Sósea, creio que enganado Por algum encantador, Que a honra me tee roubado.

BELFERRÃO.

Se elle aqui comigo vem, Isso como póde ser?

AMPHITRIÃO.

Ah! que a íra que vou ter, Tão cega a vista me tem, Que mo não deixava ver. Porque razão, cavalleiro, Não me abris quando vos mando? Vós fazeis-vos chocarreiro?

SOSEA.

Yo Señor? y como? y cuando?

AMPHITRIÃO.

Quereis-lo saber primeiro? Esperae, dir-se-vos-ha, Mas será por outro son.

SOSEA.

Ah Señor Amphitrion, Porque matándome está, Sin delito, y sin razon?

AMPHITRIÃO.

Agora que vos eu dou Me chamais Amphitrião, E para me abrirdes não?

BELFERRÃO.

Este moço em que peccou? Porque pena sem razão? Não mais por amor de mi.

AMPHITRIÃO.

Não, que não sou seu Senhor; Eu sou hum encantador. Não o dizeis vós assi, Ladrão, perro, enganador?

SOSEA.

Porque fuy presto á llamar Por su mandado al Patron, Me quiere ahora matar?

AMPHITRIÃO.

Quem vo-lo mandou buscar?

SOSEA.

Si no hay otro Amphitrion, Vuestra merced sin dudar.

AMPHITRIÃO.

Eu te mandei?

SOSEA.

Si Señor, Si otro no.

AMPHITRIÃO.

Outro ha aqui, Por quem tu zombes de mi? Pois só desse encantador Me quero vingar em ti.

SOSEA.

Oh Júpiter, á quien bramo Por su bondad que me vala! Pues porque Sósea me llamo, Yo mismo, y despues mi amo, Me dieron venida mala!

ACTO QUINTO.

SCENA I.

_Jupiter, Belferrão, Sosea e Amphitrião._

JUPITER.

Quem he o tão atrevido, Que aqui ousa de fazer Tão revoltoso arruido Com meus moços, sem temer, Que fui sempre tão temido? Quem aqui faz união, Toma mui grande despejo.

BELFERRÃO.

Oh grande admiração! Vejo eu outro Amphitrião, Ou he sonho isto que vejo?

SOSEA.

No mirais la encantacion, Que aquel hizo á mi Señor? El que sale, Belferron, Es el cierto Amphitrion, Que estotro es encantador.

JUPITER.

Sósea?

SOSEA.

Mi Señor, ya vó.

JUPITER.

Patrão, só por vós espero.

SOSEA.

No os lo dicia yo, Que este era el verdadero, Y esse que allá queda, no?

AMPHITRIÃO.

Bargante, aonde te vás? Fazes teu Senhor sandeu? Pois espera, e levarás.

JUPITER.

Ó lá, tornae por detrás, Não deis no moço, que he meu.

AMPHITRIÃO.

Vosso?

JUPITER.

Meu.

AMPHITRIÃO.

Póde isto haver, Que outrem minhas cousas tome? Vós galante haveis de ser, O que me tomais o nome, Casa, moços e mulher. Eu vos farei conhecer Com quem tendes esse trato.

JUPITER.

Sósea?

SOSEA.

Señor.

JUPITER.

Vae dizer, Que apparelhem de comer, Em quanto este doudo mato.

BELFERRÃO.

Oh Senhor, não seja assim, Haja em vós concêrto algum! E senão, pois aqui vim, Farei que só tome em mim Os golpes de cada hum.

JUPITER.

Patrão, vossa boa estrella Me fara deixar com vida Quem me não merece tella.

AMPHITRIÃO.

Não a tenho eu merecida, Pois que vos deixo com ella.

BELFERRÃO.

O homem que for sisudo, N'huma tão grande questão Ha de tomar por escudo A justiça, e a razão; Que estas armas vencem tudo. E pois essa natureza Muitos homens faz iguais, Dê qualquer de vós signais De quem he, para certeza Da fórma que ambos mostrais.

JUPITER.

Sou contente de mostrar Polos sinaes que vos dou, Que são estes sem faltar.

AMPHITRIÃO.

Que sinaes podeis vós dar, Para que sejais quem sou?

JUPITER.

Estes, que logo vereis Se são vãos, se de raiz. Patrão, vós sêde juiz, Que vós logo enxergareis Qual mais verdade vos diz.

BELFERRÃO.

Eu não sinto onde consista A cura desta doença, Que ha tão pouca differença, Que aquelle em que ponho a vista, Por esse dou a sentença. Mas, Senhor, vós que ordenastes Que o juiz disto fosse eu, Quando se a batalha deu, Dizei, que m'encommendastes Que ficasse a cargo meu?

JUPITER.

Dei-vos cargo, qu'estivesse Toda a Armada a bom recado, E, se mal nos succedesse, Que para os vivos houvesse O refugio apparelhado.

BELFERRÃO.

Ora vós quantos dobrões Esse dia m'entregastes?

AMPHITRIÃO.

Tres mil; e vós os contastes.

BELFERRÃO.

Ambos sois Amphitriões Pelos sinaes que mostrastes.

JUPITER.

Para ser mais conhecida A tenção deste sandeu, Vêde est'outro sinal meu, Que he neste braço a ferida Que me ElRei Terela deu.

BELFERRÃO.

Mostrae vós, Senhor, tambem.

AMPHITRIÃO.

Aqui o podeis olhar.

BELFERRÃO.

Oh cousa para espantar! Que ambos a ferida tem D'hum tamanho, em hum lugar!

SCENA II.

_Jupiter, Amphitrião e Sosea._

SOSEA.

Dice mi Señora Alcmena Que no se ha de así de estar Con un bobo á razonar, Que se le enfria la cena.

JUPITER.

Belferrão, vamos cear.

AMPHITRIÃO.

Belferrão, não me deixeis. Como? tambem me negais?

JUPITER.

Andae, não vos detenhais, Vamos comer, se quereis, Não ouçais hum doudo mais.

AMPHITRIÃO.

Ah maos! assi me ordenais Offensa tão mal olhada? Eu farei, se m'esperais, Com que todos conheçais Os fios da minha espada.

JUPITER.

As portas prestes fechemos, Não entre este doudo cá.

SOSEA.

De fuera se dormirá: Entre tanto que cenemos, Puede pasearse allá.

SCENA III.

AMPHITRIÃO _só_.

Oh ira para não crer, Em que minh'alma se abraza, Que me faz endoudecer, E não me ajuda a romper As paredes desta casa! E porque? Não tenho eu Forças, que tudo destrua? Pois que tanto a salvo seu, Outrem acho que possua A melhor parte do meu; Eu irei hoje buscar Quem me ajude a vir queimar Toda esta casa sem pena, Donde veja arder Alcmena, Com quem a vejo enganar.

SCENA IV.

_Aurelio e Moço._

AURELIO.

No hallo á mis males culpa, Para que merezca pena La causa que me condena.

MOÇO.

Essa está gentil desculpa Para hoje dar a Alcmena! Tee-no mandado chamar, E elle está tão descuidado!

AURELIO.

Moço, queres-me matar? Que desculpa posso eu dar Melhor qu'este meu cuidado?

MOÇO.

E não ha mais que fazer? Com isso a boca me tapa Para mais nada dizer?

AURELIO.

Ora dá-me cá essa capa E vamos ver o que quer: Não trates de mais razão, Pois não ha quem te resista. Que vejo? outra novação!

MOÇO.

Que he?

AURELIO.

Ou me mente a vista, Ou eu vejo Amphitrião.

MOÇO.

Eu ouvi a Feliseo, Quando cá trouxe o recado, Como elle era chegado, E quiz-me dizer que veo Do siso desconcertado.

AURELIO.

Isso quero eu ir saber, Pois que tal cousa se sôa.

SCENA V.

_Aurelio e Amphitrião._

AURELIO.

Senhor, póde-se dizer Que a vinda seja mui boa?

AMPHITRIÃO.

Essa não póde ella ser.

AURELIO.

Porque não?

AMPHITRIÃO.

Porque he roubada Minha honra sem temor, E minha casa tomada, E vossa Prima enganada Por hum grande encantador.

AURELIO.

Isso he certo?

AMPHITRIÃO.

E manifesto: E tudo tee ja por seu Adúltero e deshonesto: Tee-me tomado o meu gesto, E faz-lhe crer que sou eu.

AURELIO.

Contais hum caso d'espanto! E pois não podeis entrar, Defendei-me por em tanto, Que eu hei lá de chegar Para ver quem póde tanto,

SCENA VI.

AMPHITRIÃO _só_.

Se ver deshonra tão clara Me não tivera o sentido Totalmente endoudecido, Que gravemente chorára Ver tão grande amor perdido! E quando vejo a verdade Do nosso amor e amizade Desfeita com tanta mágoa Enchem-se-me os olhos d'ágoa, E a alma de saudade. Assi que quiz minha estrella, Para nunca ser contente, Que agora, estando presente Viva mais saudoso della, Que quando della era ausente. Esta porta vejo abrir Com impeto demasiado, Que poderei presumir, Que vejo Aurelio sahir, Como homem desatinado?

SCENA VII.

_Amphitrião, Aurelio, Belferrão e Sosea._

AURELIO.

Oh estranha novidade! Oh cousa para não crer!

BELFERRÃO.

Venho cego de verdade, Que não puderão soffrer Meus olhos a claridade.

SOSEA.

Oh triste, que vengo ciego Con rayos, y con visiones! Y destas encantaciones, Si nuestra casa arde en fuego, Han se de arder mis colchones.

AURELIO.

Vamos a Amphitrião Contar-lhe cousas tamanhas.

AMPHITRIÃO.

Que vai lá? que cousas vão?

AURELIO.

Maravilhas tão estranhas, Que me treme o coração. Porque aquelle homem, que assi Tantos enganos teceo, Como era cousa do Ceo, Tanto qu'eu appareci, Logo desappareceo. E em desapparecendo Com ruido grande e horrendo, Toda a casa allumiou; E de arte nos inflammou, Que nos vimos acolhendo Do raio que nos cegou. Estes acontecimentos Não são de humana pessoa. Vós ouvis a voz que soa? Escutae, estae attentos; Vejamos o que pregôa.

JUPITER, _de dentro_.

Amphitrião, qu'em teus dias Vês tamanhas estranhezas, Não t'espantem phantasias, Que ás vezes grandes tristezas Parem grandes alegrias. Jupiter sou manifesto Nas obras de admiração, Que por mi causadas são: Quiz-me vestir em teu gesto, Por honrar tua geração. Tua mulher parirá Hum filho de mi gerado, Que Hercules se chamará, O mais valente e esforçado, Que no mundo se achará. Com este, teus successores Se honrarão de serem teus; E dar-lhe-hão os escriptores, Por doze trabalhos seus, Doze milhões de louvores. E dessa illustre fadiga Colherás mui rico fruito: Enfim, a razão me obriga Que tão pouco delle diga, Porque o tempo dirá muito.

* * * * *

FILODEMO,

COMEDIA.

INTERLOCUTORES.

FILODEMO. VILARDO, seu moço. DIONYSA. SOLINA, sua moça. VENADORO. MONTEIRO. DORIANO, amigo de Filodemo. HUM PASTOR. HUM BOBO, filho do pastor. FLORIMENA, pastora. DOM LUSIDARDO, pae de Venadoro. DOLOROSO, amigo de Vilardo. TRES PASTORES.

ARGUMENTO.

Hum Fidalgo Portuguez, que acaso andava nos Reinos de Dinamarca, como por largos amores e maiores serviços, tivesse alcançado o amor de huma filha d'el Rei, foi-lhe necessario fugir com ella em huma galé, por quanto havia dias que a tinha prenhe. E de feito, sendo chegados á costa de Hespanha, onde elle era senhor de grande patrimonio, armou-se-lhe grande tormenta, que sem nenhum remedio, dando a galé á costa, se perdêrão todos miseravelmente, senão a Princeza, que em huma taboa foi á praia: a qual, como chegasse o tempo de seu parto, junto de huma fonte pario duas crianças, macho e femia; e não tardou muito que hum pastor Castelhano, que naquellas partes morava, ouvindo os tenros gritos dos meninos, lhe acudio a tempo que a mãe ja tinha espirado. Crescidas, emfim, as crianças debaixo da humanidade e criação daquelle pastor, o macho que Filodemo se chamou á vontade de quem os baptizára, levado da natural inclinação, deixando o campo, se foi para a cidade, aonde por musico e discreto, valeo muito em casa de D. Lusidardo, irmão de seu Pae, a quem muitos annos servio sem saber o parentesco que entre ambos havia. E como de seu Pae não tivesse herdado nada mais que os altos espiritos, namorou-se de Dionysa, filha de seu Senhor e Tio, que incitada ao que por suas obras e boas partes merecia, ou porque ellas nada engeitão, lhe não queria mal. Aconteceo mais, que Venadoro, filho de D. Lusidardo, mancebo fragueiro, e muito dado ao exercicio da caça, andando hum dia no campo apos hum cervo, se perdeo dos seus; e indo dar em huma fonte, onde estava Florimena, irmãa de Filodemo (que assim lhe pozerão o nome) enchendo huma talha de ágoa, se perdeo de amores por ella, que se não soube dar a conselho, nem partir-se donde ella estava, até que seu Pae o não foi buscar. O qual informado pelo pastor que a criára (que era homem sabio na Arte Magica) de como a achára e como a criára, não teve por mal de casar a Filodemo com Dionysa sua filha, e prima de Filodemo; e a Venadoro seu filho, com Florimena sua sobrinha, irmãa de Filodemo pastor; e tambem pela muita renda que tinha e de seu Pae ficára, de que elles erão verdadeiros herdeiros. Das mais particularidades da Comedia, fara menção o Auto, que he o seguinte.

FILODEMO,

COMEDIA.

ACTO PRIMEIRO.

SCENA I.

_Filodemo e Vilardo._

FILODEMO.

Moço Vilardo?

VILARDO.

Ei-lo vae.

FILODEMO.

Fallae era má, fallae, E sahi cá para a sala. O villão como se cala!

VILARDO.

Pois, Senhor, sahi a meu pae, Que quando dorme não fala.

FILODEMO.

Trazei cá huma cadeira: Ouvis, villão?

VILARDO.

Senhor, sim. (Se m'ella não traz a mim. Vejo-lh'eu ruim maneira.)

FILODEMO.

Acabae, villão ruim. Que moço para servir Quem tee as tristezas minhas! Quem pudesse assi dormir!

VILARDO.

Senhor, nestas manhãzinhas Não ha hi senão cahir: Por demais he trabalhar Qu'este somno se me ausente.

FILODEMO.

Porque?

VILARDO.

Porque ha d'assentar Que se não for com pão quente, Não ha de desaferrar.

FILODEMO.

Ora hi pelo que vos mando, Villão feito de fermento. _Sahe Vilardo._ Triste do que vive amando Sem ter outro mantimento, Qu'estar só phantasiando! Só hua cousa me desculpa Deste cuidado que sigo, Ser de tamanho perigo, Que cuido que a mesma culpa Me fica sendo castigo.

_Vem o moço, e assenta-se na cadeira Filodemo e diz avante_

FILODEMO.

Ora quero praticar Só comigo hum pouco aqui; Que despois que me perdi, Desejo de me tomar Estreita conta de mi. Vae para fóra, Vilardo. Torna cá: vae-me saber Se se quer ja lá erguer O Senhor Dom Lusidardo, E vem-mo logo dizer. _Vai-se o moço._ Ora bem, minha ousadia, Sem azas, pouco segura, Quem vos deo tanta valia, Que subais a phantasia Onde não sobe a ventura? Por ventura eu não nasci No mato, sem mais valer, Que o gado ao pasto trazer? Pois donde me veio a mi Saber-me tão bem perder? Eu, nascido entre pastores, Fui trazido dos currais, E d'entre meus naturais Para casa dos Senhores, Donde vim a valer mais. E agora logo tão cedo Quiz mostrar a condição De rustico e de villão! Dando-me ventura o dedo, Lhe quero tomar a mão! Mas oh! qu'isto não he assi, Nem são villãos meus cuidados, Como eu delles entendi; Mas antes, de sublimados, Os não posso crer de mi. Porque como hei eu de crer Que me faça minha estrella Tão alta pena soffrer, Que somente pola ter Mereço a gloria della? Senão se amor, d'attentado, Porque me não queixe delle, Tee por ventura ordenado Que mereça o meu cuidado, Só por ter cuidado nelle.

SCENA II.

_Vilardo e Filodemo._

VILARDO.

O Senhor Dom Lusidardo Dorme com todo o convento; E elle com o pensamento Quer estar fazendo alardo De castellinhos de vento! Pois tão cedo se vestio, Com seu damno se conforme, Pezar de quem me pario; Que ainda o sol não sahio: Se vem á mão, tambem dorme. Elle quer-se levantar Assi pela manhãzinha! Pois quero-o desenganar: Nem por muito madrugar Amanhece mais asinha.

_Filodemo._

Traze-me a viola cá.

VILARDO.

(Voto a tal que me vou rindo.) Senhor, tambem dormirá.

FILODEMO.

Traze-a, moço.

VILARDO.

Si, virá, Se não estiver dormindo.

FILODEMO.

Ora hi polo que vos mando: Não gracejeis.

VILARDO.

Eis-me vou: Pois, pezar de São Fernando! Por ventura sou eu grou? Sempre hei d'estar vigiando? _Sahe._

FILODEMO.

Ah Senhora, que podeis Ser remedio do que peno, Quão mal ora cuidareis Que viveis e que cabeis N'hum coração tão pequeno! Se vos fosse apresentado Este tormento em que vivo, Crerieis que foi ousado Este vosso, de criado Tornar-se vosso captivo?

SCENA III.

_Filodemo e Vilardo._

VILARDO.

Ora eu creio, se he verdade Qu'estou de todo acordado, Que meu amo he namorado; E a mi dá-me na vontade Que anda hum pouco abalado. E se tal he, eu daria Por conhecer a donzella A ração d'hoje este dia; Porque a desenganaria, Somente por ter dó della. Havia-lhe perguntar: Senhora, de que comeis? Se comeis d'ouvir cantar, De fallar bem, de trovar, Em boa hora casareis. Porém se vós comeis pão, Tende, Senhora, resguardo; Qu'eis-aqui está Vilardo, Qu'he como hum camaleão, Por isso, bus, fazei fardo. E se vós sois das gamenhas, E houverdes d'attentar Por mais que por manducar, Mi cama son duras peñas, Mi dormir siempre es velar. A viola, Senhor, vem Sem primas, nem derradeiras: Mas sabe o que lhe convem? Se quer, Senhor, tanger bem, Ha de haver mister terceiras. E se estas cantigas vossas Não forem para escutar, E quizerdes espirar; Ha mister cordas mais grossas, Porque não possão quebrar.

FILODEMO.

Vae para fóra.

VILARDO.

Ja venho.

FILODEMO.

Qu'eu só desta phantasia Me sostenho e me mantenho.

VILARDO.

Quamanha vista que tenho, Que vejo a estrella do dia! _Sahe._

SCENA IV.

FILODEMO, _cantando_.

Adó sube el pensamiento, Seria una gloria inmensa Si allá fuese quien lo piensa.

_Falla._

Qual espirito divino Me fará a mi sabedor Deste meu mal, se he amor, Se por dita desatino? Se he amor, diga-me qual Póde ser seu fundamento, Ou qual he seu natural, Ou porque empregou tão mal Hum tão alto pensamento. Se he doudice, como em tudo A vida me abraza e queima, Ou quem vio n'hum peito rudo Desatino tão sisudo, Que toma tão doce teima? Ah Senhora Dionysa, Onde a natureza humana Se mostrou tão soberana! O que vós valeis me avisa, Mas o qu'eu peno m' engana.

SCENA V.

_Solina e Filodemo._

SOLINA.

Tomado estais vós agora, Senhor, co'o furto nas mãos.

FILODEMO.

Solina, minha Senhora, Quantos pensamentos vãos Me ouvirieis lançar fóra?

SOLINA.

Oh Senhor, quão bem que sôa O tanger de quando em quando! Bem sei eu huma pessoa, Que haja huma hora, e boa, Que vos está escutando.

FILODEMO.

Por vida vossa, zombais? Quem he? quereis-mo dizer?

SOLINA.

Não o haveis vós de saber, Bofé se me não peitais.

FILODEMO.

Dar-vos-hei quanto tiver, Para taes tempos como estes. Quem tivera voz dos Ceos, Pois escutar me quizestes!

SOLINA.

Assi pareça eu a Deos, Como lhe vós parecestes.

FILODEMO.

A Senhora Dionysa Quer-se ja alevantar?

SOLINA.

Assi me veja eu casar, Como despida em camisa Se ergueo por vos escutar.

FILODEMO.

Em camisa levantada! Tão ditosa he minha estrella? Ou mo dizeis refalsada?

SOLINA.

Pois bem me defendeo ella Que vos não dissesse nada.

FILODEMO.

Se pena de tantos annos Merecer algum favor, Para cura de meus dannos Fartae-me desses engannos, Que não quero mais de Amor.

SOLINA.