Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Part 12

Chapter 123,675 wordsPublic domain

Porque he entendido Lo mas malo de entender, Para lo que puede ser, Porque anda, Señor, perdido De amores por mi muger.

REI.

Santo Deos! que! tal amor Lhe dá doença tão fera! Que remedio achais melhor?

PHYSICO.

Forçado será que muera, Porque no muera mi honor.

REI.

Pois como! a hum só herdeiro Deste Reino não dareis Vossa mulher, pois podeis; Que tudo faz o dinheiro? Pois este não o engeiteis; Dae-lha, porque eu espero De vos dar dinheiro e honra, Quanto eu para elle quero.

PHYSICO.

No tira el mucho dinero La mancha de la deshonra.

REI.

Ora bem pouco defeito! He pequice conhecida, Quando deixa de ser feito; Porque com elle dais vida A quem vos dara proveito.

PHYSICO.

Cuan facilmente aporfia Quien en tal nunca se vió! Del consejo que me dió, Vuestra Alteza que haria Si agora fuese yo?

REI.

A mulher que eu tivesse Dar-lha-hia. Oxalá Que elle a Rainha quizesse!

PHYSICO.

Pues déla, si le parece, Que por ella muerto está.

REI.

Que me dizeis?

PHYSICO.

La verdad.

REI.

Sem dúvida, tal sentistes?

PHYSICO.

Sin duda, sin falsedad. Pues, Señor, ahora tomad Los consejos que me distes.

REI.

Certamente, qu'eu o via Em tudo quanto fallava. Como o vistes? porque via?

PHYSICO.

Nel pulso, que se alterava Si la via, ó si la oia.

REI.

Que maneira ha de haver? Qu'eu certo me maravilho, Possa mais o amor do filho, Do que póde o da mulher. Finalmente hei-lha de dar, Que a ambos conheço o centro. Quero-o ir alevantar, E iremos para dentro Neste caso praticar.

_Diz contra o Principe:_

Levantae-vos, filho, d'hi O melhor que vós puderdes, E vindo-vos para aqui; Porque, emfim, o que quizerdes Tudo havereis de mi.

PAGEM.

Ah Senhores, oulá, ou?

PORTEIRO.

Viestes em conjunção A melhor que póde ser: Haveis aqui de fazer A tosquia a hum rifão.

PAGEM.

Deixae-me, Senhor, dizer: Haveis isto de acabar, Coração, hi bugiar, No esteis preso en cadenas, Que pois o amor vos deo penas, Que vos lanceis a voar.

PORTEIRO.

Por certo que bem comprou.

PAGEM.

Ora sabeis o que vai? Antiocho que casou Com a mulher de seu Pai, E o mesmo Pae o ordenou.

PORTEIRO.

Isso como?

PAGEM.

Não o sei; Porque dizem que a amava, E que só por ella andava Para morrer; e ElRei Deo-a a quem a desejava.

PORTEIRO.

Se o casa por querer bem Com a moça, a quem elle ama, Direi eu que a mim me inflama O amor mais que a ninguem.

PAGEM.

Pois pedi-lhe a nossa dama.

PORTEIRO.

Por São Gil, que ei-los cá vem, Elle pela mão com ella.

_Entra ElRei, e Antiocho com a Rainha pela mão, e diz:_

REI.

Que mais ha hi que esperar? Olhae qu'estranheza vai! O muito amor ordenar, Ir-se o filho namorar D'huma mulher de seu Pai! Querer bem foi sua dor, Negar-lha será crueldade; Assi que ja foi bondade Usar eu de tal amor, E de tal humanidade. Ella deixou de reinar Como fazia primeiro Por se com elle casar; E por amor verdadeiro Tudo se póde deixar. Eu que nella tinha pôsto Todo o bem de meu cuidado, Deixei mais que ella ha deixado; Que mais se deixa no gôsto, Que no poderoso estado. Mas ja que tudo isto vemos, Hajão festas de prazer, As que melhor possão ser; Porqu'em tão grandes extremos, Extremos se hão de fazer. Hajão cantos para ouvir, Jogos, prazeres sem fundo; Porque, se quereis sentir, Deste modo entrou o mundo, E assi ha de sahir.

_Aqui vem os Musicos e cántão, e depois de cantarem, sahem-se todas as figuras, e diz_

MARTIM CHINCHORRO.

Ora, Senhor, tomemos tambem nosso pandeiro, e vamos festejar os noivos; ou vamos consoar com as figuras, porque me parece que esta he a mor festa que póde ser. Mas espere v. m., ouviremos cantar, e na volta das figuras nos acolheremos. Moço, accende esse mólho de cavacos, porque faz escuro, não vamos dar comnosco em algum atoleiro, onde nos fique o ruço e as canastras.

ESTACIO DA FONSECA.

Não, Senhor, mas o meu Pilarte irá com elles com hum par de tições na mão; e perdoem o mao gasalhado. Mas daqui em diante sirvão-se desta pousada; e não tenhão isto por palavras, porque essas e plumas, o vento as leva.

* * * * *

OS AMPHITRIÕES,

COMEDIA.

INTERLOCUTORES.

AMPHITRIÃO. ALCMENA, sua mulher. CALLISTO. FELISEO. SOSEA, moço de Amphitrião. BROMIA, sua criada. BELFERRÃO, Patrão. AURELIO, Primo de Alcmena. HUM MOÇO DE AURELIO. JUPITER. MERCURIO.

OS AMPHITRIÕES,

COMEDIA.

ACTO PRIMEIRO.

SCENA I.

_Entra Alcmena, saudosa do marido, que he na guerra, e Bromia._

ALCMENA.

Ah Senhor Amphitrião, Onde está todo meu bem! Pois meus olhos vos não vem, Fallarei co'o coração, Que dentro n'alma vos tem. Ausentes duas vontades, Qual corre mores perigos, Qual soffre mais crueldades, Se vós entre os inimigos, Se eu entre as saudades? Que a ventura, que vos traz Tão longe de vossa terra, Tantos desconcertos faz, Que se vos levou á guerra, Não me quiz leixar em paz. Bromia, quem com vida ter, Da vida ja desespera, Que lhe poderás dizer?

BROMIA.

Que nunca se vio prazer, Senão quando não se espera. E por tanto não devia De ter triste a phantasia; Porque Vossa Mercê creia, Que o prazer sempre salteia Quem delle mais desconfia. Eu tenho no coração, Do Senhor Amphitrião Venha hoje alguma nova: Não receba alteração, Que a verdadeira affeição Na longa ausencia se prova.

ALCMENA.

Dizei logo a Feliseo Que chegue muito apressado Ao caes, e busque mêo De saber se algum recado Do porto Persico vêo: E mais lhe haveis de dizer, (Isto vos dou por offício) D'alguma nova saber, Em quanto eu vou fazer Aos Deoses o sacrificio.

SCENA II.

BROMIA.

Saudades de minh'ama, Chorinhos e devoções, Sacrificios e orações, Me hão de lançar n'huma cama, Certamente. Nós mulheres de semente Somos sedenho mui tosco: Com qualquer vento que vente, Queremos forçadamente Que os Deoses vivão comnosco. Quero Feliseo chamar, E dizer-lhe aonde ha de ir. Mas elle como me vir, Logo ha de querer rinchar, De travesso. Eu que de zombar não cesso, Por ficar com elle em salvo, Lanço-lhe hum e outro remêsso; Aos seus furto-lhe o alvo; E então elle fica avesso. Porque o melhor destas danças, Com huns vindiços assi, He trazê-los por aqui Ó cheiro das esperanças, Por viver. Ha-os homem de trazer Nos amores assi mornos, Só para ter que fazer; E despois ao remetter Lançar-lhe a capa nos cornos. Feliseo, se estais á mão, Chegae cá, vem como hum gamo: Bem sei que não chamo em vão.

SCENA III.

_Feliseo e Bromia._

FELISEO.

Chamais-me? tambem vos chamo; Porém eu ouço, e vós não: Senhora, que me matais, Se vós ja nunca me ouvis, Ou me ouvis, e vos callais, Dizei: porque me chamais Se me vós a mim fugis?

BROMIA.

Eu vos fujo?

FELISEO.

Fugis, digo, De dar a meus males cabo.

BROMIA.

Sabei que desse perigo Não fujo como de imigo, Fujo como do diabo.

FELISEO.

Dae ao demo essa tenção, Usae antes de cortês, Cahi vós nesta razão.

BROMIA.

Do p'rigo fogem os pés, Do diabo o coração.

FELISEO.

Dizeis-me que nessa briga Do meu coração fugis.

BROMIA.

Ainda qu'eu isso diga...

FELISEO.

Ah minha doce inimiga! Bem sinto que me sentis. Mas para que me chamais?

BROMIA.

Manda-vos minha Senhora Que chegueis daqui ao cais, E algumas novas saibais D' Amphitrião nesta hora.

FELISEO.

Quem as não sabe de si, D'outrem como as sabera?

BROMIA.

Não as sabeis vós de mi.

FELISEO.

Má trama venha por ti, Duna feiticeira má! Porque não me ólhas direito, Cadella, que assi me cortas?

BROMIA.

Porque vos quero dar portas; Que s'eu olhar d'outro geito, Trarei cem mil vidas mortas.

FELISEO.

E pois para que me andais Enganando ha cem mil annos?

BROMIA.

Dou-vos vida com enganos.

FELISEO.

Nesses enganinhos tais Acho crueis desenganos.

BROMIA.

Quant'esses vos quero eu dar: Vós cuidais que estais na sella? Pois podeis-vos descer della; Qu'eu nunca vos pude olhar.

FELISEO.

Jogais comigo á panella? Tendes-me ha tanto captivo, E desenganais-me agora? Tudo isto he o que privo. Assi que he isso, Senhora, Dochelo morto, dochelo vivo? Se me vós desenganais No cabo de tantos annos, Direi, se licença dais, Dais-me vida com enganos, Desenganos, ja chegais. Mas se isso havia de ser, Dizei, má desconhecida, Destêrro de meu viver, Que vos custava dizer Amor, vae buscar tua vida?

BROMIA.

Zombais? Fallais-me coprinhas?

FELISEO.

Rir-vos-heis se vem á mão: Copras não, mas isto são Ansias y pasiones minhas Dos bofes e coração.

BROMIA.

Is-vos fazendo d'huns sengos.....

FELISEO.

Perdóneme Dios si peco.

BROMIA.

Nesses dentinhos framengos Conheço que sois hum pêco De todos quatro avoengos.

FELISEO.

Tudo vos levo em capelo, Ja qu'estais tanto em agraço. Porém, fallando singelo, A furto desse mao zêlo, Quereis-me dar hum abraço?

BROMIA.

Ora digo que não posso Usar comvosco de fero: Tomae-o.

FELISEO.

Ja o não quero, Porque esse abraço vosso, Sabei que he engano mero.

BROMIA.

Oh! vós sois d'huns sensabores... Abraço pedis assim? S'eu remango d'hum chapim...

FELISEO.

Tudo isso são favores: Zombae, vingae-vos de mim.

BROMIA.

Vós de furioso touro As garrochas não sentis.

FELISEO.

Vedes, com isso sé mouro: Quando cuido que sois ouro, Acho-vos toda ceitis.

BROMIA.

Emfim, sanha de villão Vos fez perder hum bom dia.

FELISEO.

Jagora o eu tomaria; Quereis-mo dar?

BROMIA.

Ora não. Cocei-vos eu todavia.

FELISEO.

Pois, Senhora, a quem vos ama Sois tão desarrazoada, Quero tomar outra dama; Que não digão os d'Alfama Que não tenho namorada.

BROMIA.

Deixae-me.

FELISEO.

Vós me deixais.

BROMIA.

Deixae-me.

FELISEO.

Zombais de mi?

BROMIA.

Deixae-me. Pois m'engeitais, Eu me ausentarei daqui Onde me mais não vejais.

FELISEO.

Boa está a zombaria!

BROMIA.

Não são essas minhas manhas.

FELISEO.

Porém is-vos todavia?

BROMIA.

Voyme á las tierras estrañas. Adó ventura me guia.

SCENA IV.

_Feliseo só._

Phantasias de donzellas, Não ha quem como eu as quebre; Porque certo cuidão ellas, Que com palavrinhas bellas Nos vendem gato por lebre. Esta tee lá para si Qu'eu sou por ella finado; E crê que zomba de mi; E eu digo-lhe que, si, Sou por ella esperdiçado. Preza-se d'humas seguras; E eu não quero mais Frandes: Dou-lhe trela ás travessuras, Porque destas coçaduras Se fazem as chagas grandes. Qu'estas, que andão sempre á vela, Estas vos digo eu que coço; Porque de firmes na sella, Crem que falsão a costella, E ficão pelo pescoço. Que quando estas damas tais Me cachão, então recacho. Mas disto agora nó mais. Quero-me ir daqui ao cais Ver se algumas novas acho.

SCENA V.

_Jupiter e Mercurio._

JUPITER.

Oh grande e alto destino! Oh potencia tão profana! Que a setta d'hum menino Faça que meu ser divino Se perca por cousa humana! Que m'aproveitão os ceos, Onde minha essencia mora Com tanto poder, se agora A quem me adora por deos, Sirvo eu como a senhora? Oh quão estranha affeição! Quem em baixa cousa vai pôr A vontade e o coração, Sabe tão pouco d'Amor, Quão pouco Amor de razão. Mas que remedio hei de ter Contra mulher tão terribil, Que se não póde vencer?

MERCURIO.

Alto Senhor, teu poder O difficil faz possibil.

JUPITER.

Tu não vês qu'esta mulher Se preza de virtuosa?

MERCURIO.

Senhor, tudo póde ser; Que para quem muito quer, Sempre a affeição he manhosa. Seu marido está ausente Na guerra, longe daqui; Tu, qu'es Jupiter potente, Tomarás sua fórma em ti; Que o farás mui facilmente. E eu me transformarei Na de Sósea, criado seu; E ao arraial me irei, Onde logo saberei Como se a batalha deu. E assi poderás entrar, Em lugar de seu marido; E para que sejas crido, Poderás tambem contar Quanto eu lá tiver sabido.

JUPITER.

Quem arde em tamanho fogo Tira-lhe a virtude a côr De subtil e sabedor; E quem fóra está do jôgo Enxérga o lanço melhor. Mas tu, que dos sabedores Tanto avante sempre estás, Se deos es dos mercadores, Sê-lo-has dos amadores, Pois tal remedio me dás. Ponha-se logo em effeito; Que não soffre dilação Quem o fogo tee no peito; E tu vae logo direito Aonde anda Amphitrião.

SCENA VI.

_Feliseo e Callisto._

FELISEO.

Adó bueno por aqui, Tão longe do acostumado?

CALLISTO.

Mais longe vou eu de mi, D'ir perto de meu cuidado.

FELISEO.

No andar vos conheci.

CALLISTO.

E vós onde vos lançais, Com vossa contemplação?

FELISEO.

Eu chego daqui ao cais A saber de Amphitrião: Não sei se vou por demais.

CALLISTO.

Porque por demais dizeis?

FELISEO.

Porque nada alli ha certo.

CALLISTO.

Novas lá não as busqueis, Que aqui as tendes mais perto.

FELISEO.

Pois dae-mas ja, se as sabeis.

CALLISTO.

Hum navio he ja chegado Á barra, que vem de lá; Traz de Amphitrião recado, Diz que o deixa embarcado Para se vir para cá. Tee vencido aquelle Rei; E diz, segundo lhe ouvi, Qu'esta noite será aqui.

FELISEO.

Essas novas levarei A Alcmena, que torne em si, Porque ella tee maior guerra Co'os temores de perdello, Qu'elle co'o Rei dessa terra.

CALLISTO.

Onde amor lançar o sello, Nenhuma cousa o desterra. Porqu'inda que o pensamento Vos fique, Senhor, em calma, Por morte ou apartamento; Sempre vos lá ficão n'alma As pégadas do tormento.

FELISEO.

Isso he hum segredo mero, A que o amor nos obriga: Por isso em caso tão fero, Senhor, nunca ninguem diga, Ja lho quiz, e não lho quero. Eu quiz bem a huma mulher, Que vós conhecestes bem, E, com muito lhe querer, Casou-se.

CALLISTO.

Oh! e com quem? Que ainda o não posso crer.

FELISEO.

Com hum Mercador, que veio Agora do Egypto, rico.

CALLISTO.

Isso traz ágoa no bico. Esse homem he parvo, ou feio?

FELISEO.

Pois vêdes? disso me pico. E em pago desta traição, Afóra outros mil descontos Que traz comsigo a affeição, Sempre os signaes destes pontos Trarei no meu coração.

CALLISTO.

Viste-la mais?

FELISEO.

Senhor, vi, Na janellinha da grade; Passei, e disse-lhe assi: Casada sem piedade, Porque não a haveis de mi?

CALLISTO.

Que vos disse?

FELISEO.

Lá no centro Lh'enxerguei pouca alegria; E como quem lhe dohia, Metendo-se para dentro Disse: Ja pasó folia.

CALLISTO.

Ah má sem conhecimento! Quem lhe désse mil chofradas!

FELISEO.

Senhor, como são casadas, Casão-se co'o esquecimento Das cousas que são passadas.

CALLISTO.

Lembranças de vos deixar Picar-vos-hão como tojos.

FELISEO.

Senhor, haveis d'assentar Que onde amor vos quer matar, Siempre allá miran los ojos. Hum motete lhe mandei Hum dia, estando com febre, Só da paixão que tomei.

CALLISTO.

Pois vejamos quem tee lebre.

FELISEO.

Senhor, eu vo-lo direi.

Mote.

Vós por outrem, e eu por vós; Vós contente, e eu penado; Vós casada, eu cansado. Polos santos de minha dona!

CALLISTO.

Senhor, vós só o fizestes?

FELISEO.

Si, que ninguem me ajudou.

CALLISTO.

Se vós só o compuzestes, Crede, que extremos dissestes. Nunca Orlando tal fallou. Senhor, fizestes-lhe pé?

FELISEO.

Senhor, si; e todo hum anno... Vós zombais, se não m'engano?

CALLISTO.

Não, mas dou-vos minha fé Que nunca vi tão bom panno.

FELISEO.

Ora olhe vossa mercê.

Volta.

Olhae em quão fundos vaos Por vossa causa me affógo, Que outro me ganha no jôgo, E eu triste pago os paos. Olhos travessos e maos, Inda eu veja o meu cuidado Por esse vosso trocado.

CALLISTO.

Não mais, qu'isso me degola.

FELISEO.

Senhor, eu haja perdão.

CALLISTO.

Fizestes esse rifão Em algum jôgo de bola? E foi-lhe elle ter á mão?

FELISEO.

Digo-vos que o vio, e lho leo Hum moçozinho d'escola.

CALLISTO.

Está isso assi do ceo. Sabe ella jogar a bola?

FELISEO.

Não.

CALLISTO.

Pois não vos entendeo. Ora eu ja cheguei a ler Petrarca, e crede de mi Que nunca tal cousa vi. Onde mora o bom saber, Logo dá sinal de si. Onde _casada_ puzestes, Dizei, porque não dissestes _La que yo vi por mi mal._

FELISEO.

Renunciava o metal; Qu'em rifõeszinhos como estes, Ha-se-de pôr tal com tal. Que a trova trigo-tremez Ha de ser toda d'hum pano; Que parece muito Ingrez N'hum pelote Portuguez Todo hum quarto Castelhano. Ouvi outra tambem minha, Que fiz a certa tenção, Clara, leve, bonitinha, De feição, que esta trovinha, He trovinha de feição. Como eu hum dia me visse Morto, e a mão na candêa, E ella não me acodisse; Fiz-lhe esta, porque sentisse Que dava os fios á têa. E o propósito he Andar eu hum dia só; E para que houvesse dó De mi e de minha fé, Lamentei-lhe como Jó.

CALLISTO.

Andastes, Senhor, mui bem.

FELISEO.

Ora, Senhor, attentai, E vêde o saibo que tem; Se he para a ver alguem.

CALLISTO.

Ora dizei.

FELISEO.

Ei-la vai.

Trova.

Coração de carne crua, Vê-lo teu amor aqui, Que esmorecido por ti Jaz no meio desta rua?

CALLISTO.

Na rua, Senhor, jazia? E era em tempo de lama?

FELISEO.

Senhor, quem falla a quem ama, De si mesmo se não fia: Haveis de mentir á dama.

CALLISTO.

Volta disso?

FELISEO.

Singular, Senão que he muito sentida; Far-vos-ha, Senhor, chorar.

CALLISTO.

Oh! diga, por sua vida!

FELISEO.

Farei o que me mandar.

Volta.

Porque não has delle mágoa, Ó dura mais que ninguem, Que anda o triste, que não tem Quem lhe dê huma vez d'ágoa? Não lhe negues teu querer, Pois te não custa dinheiro; Que, emfim, por derradeiro A terra te ha de comer.

CALLISTO.

Tal trova nunca se vio. Agorentaste-la ja?

FELISEO.

Senhor, não; ainda está Como a sua mãe pario; E não está muito má.

CALLISTO.

He trova, que tee por seis; Não a posso mais gabar. Mas, pois, tal cousa fazeis, Senhor, não m'ensinareis Donde vem tão bem trovar?

FELISEO.

Não he a cousa tão pequena, Como, Senhor, a fizestes, Essa que agora dissestes. Mas porém vou dar a Alcmena Estas novas que me déstes. Despois, Senhor, nos veremos; Ficae ja roendo esse osso.

CALLISTO.

O roer, Senhor, he vosso.

FELISEO.

Pois eu, por mais que zombemos, Hei de ser vosso e revosso.

CALLISTO.

Oh!.. Escusae-vos d'extremos, Qu'isso, Senhor, me atarraca. Mas nós nos encontraremos, E sôbre isso envidaremos Dous reales mais de saca.

ACTO SEGUNDO.

SCENA I.

_Jupiter e Mercurio transformados, Jupiter na fórma de Amphitrião, Mercurio na de Sosea escravo._

JUPITER.

Mercurio, pois sou mudado Nesta fórma natural, Ólha e nota com cuidado, Se está em mi o pintado Apparente co'o real.

MERCURIO.

Quem tão proprio se transforma. Tenho por opinião, Que na tal transformação Lhe prestou natura a fôrma, Com que fez Amphitrião.

JUPITER.

Pois tu no gesto e na côr Estás Sósea escravo seu.

MERCURIO.

Muito mais faras, Senhor.

JUPITER.

Não o faz senão o Amor, Que nisto póde mais qu'eu.

MERCURIO.

Ja, Senhor, te fiz menção Como deo Amphitrião A ElRei Terela a morte; Que, na guerra igual, a sorte Póde mais que o coração. E despois de ser tomada Toda a Cidade, com gloria D'Amphitrião bem ganhada, Como em sinal de victoria, Esta copa lhe foi dada. Por ella bebia ElRei, Em quanto a vida queria; E eu, porque te cumpria, A seu escravo a furtei, Que n'huma caixa a trazia. Esta poderás levar A Alcmena, por lhe mostrar Verdadeiro, o que he fingido; E dest'arte serás crido, Sem mais outro ardil buscar.

JUPITER.

Pois tudo tens ordenado Por tão nova e subtil arte; Como me vires entrado, Irás dar este recado A Phebo de minha parte: Que faça mais devagar Seu curso neste Hemispherio. Que o que soe acostumar; Qu'esta noite hei de ordenar Hum caso de alto mysterio. E á Esphera mais alta Mandarás que fixa esteja, Porque a noite maior seja: Porque sempre o tempo falta, Onde a alegria he sobeja. E terás tamanho tento, Que como isto se ordenar, Venhas aqui vigiar, Porque meu contentamento Ninguem mo possa estorvar.

MERCURIO.

Seja feito sem debate Tudo como te convem.

JUPITER.

Pois não parece ninguem, Como homem de casa bate, E muda a falla tambem.

MERCURIO, _batendo à porta_.

Ó de la casa, en buena hora, Darmehan de cenar aqui?

BROMIA _dentro_.

Sósea parece que ouvi: Alviçaras, minha Senhora, Que na falla o conheci.

SCENA II.

_Alcmena, Bromia, Jupiter, e Mercurio._

ALCMENA.

Zombais, Bromia, por ventura?

BROMIA.

Senhora, não zombo, não.

ALCMENA.

Vejo eu Amphitrião, Ou a vista me afigura O qu'está no coração?

JUPITER.

Olhos, diante dos quais Desejei mais este dia, Que nenhuma outra alegria, Senhora, nunca creais Que lhe minta a phantasia.

ALCMENA.

Oh presença mais querida Que quantas formou Amor! Isto he verdade, Senhor? Acabe-se aqui a vida, Por não ver prazer maior.

JUPITER.

Pois esta hora de vos ver Alcançar, Senhora, pude; Para mais contente ser, Conformem co'este prazer Novas de vossa saude.

ALCMENA.

Vida foi pezada e crua A saude qu'eu sostinha; Qu'em quanto, Senhor, a tinha, Temer perigo na sua, Me fez descuidar da minha.

MERCURIO.

Y pues, mi Señora Alcmena, Pese al demonio malvado, No dirá á un su criado, Vengais Sósea norabuena?

ALCMENA.

Sejais, Sósea, bem chegado.

BROMIA.

Bem mal cri eu, que pudesse Ver-te, Sósea, hoje aqui.

MERCURIO.

Pues tambien yo no creí Que en mi vida te viese, Segun las muertes que vi.

ALCMENA.

Muito, Senhor, folgarei Com novas do vencimento.

JUPITER.

De tudo quanto passei, Por vos dar contentamento, Em summa vos contarei. Trago, Senhora, a victoria Daquelle Rei tão temido, Com fama clara e notoria. Porém maior foi a gloria De me ver de vós vencido. Sem me terem resistencia, Os Grandes me obedêcerão, Como ElRei morto tiverão: Em sinal de obediencia Esta copa me trouxerão. ElRei por ella bebia: (Ella, e tudo o mais he nosso) Por onde claro se via, Que tudo me obedecia, Pois tinha nome de vosso.

MERCURIO.

Si, mas luego de rondon La fortuna dió la vuelta.

ALCMENA.

Como?

MERCURIO.

Fué gran perdicion, Porque en aquella revuelta, Me hurtaron mi jubon. Pero bien me lo pagaron, Cuando comigo riñeron; Que aunque me despojaron Si uno de seda llevaron, Otro de azotes me dieron.

ALCMENA.

Senhor, não posso gostar De gôsto, que he tão immenso, Senão muito devagar: Faça-me mercê d'entrar, E contar-mo-ha por extenso.

SCENA III.

_Mercurio e Bromia._

MERCURIO.

Yo tambien te contaria, Bromia, si quedas atrás, Que una noche... enojartehas?

BROMIA.

Que?

MERCURIO.

Soñaba, que te tenia... No me atrevo á decir mas.

BROMIA.

Dize.

MERCURIO.

Pardies, no diré. Soñaba...

BROMIA.

Bem: que sonhavas?

MERCURIO.