Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Part 11

Chapter 113,768 wordsPublic domain

Pois oução vossas mercês a volta; que he mais cheia de gavetas, que trombeta de Serenissimo de la Valla.

MOÇO.

A volta, Senhores, he mui funda; e parece-me, Senhores, que nem de mergulho a entenderão. E por isso mandem assoar os engenhos, e metão mais huma sardinha no entendimento; e póde ser que com esta servilha lhe calçará melhor: e todavia palra assi:

Vossos olhos tão daninhos Me tratárão de feição, Que não ha em meu coração Em que atem dous reis de cominhos. Meu bem anda sem focinhos Por vós morto, Pezar de meu avô torto.

MARTIM.

Ora bem: que tee de ver os cominhos com o teu coração?

MOÇO.

Pois, Senhores, coração, bofes, baço e toda a outra mais cabedella, não se podem comer senão com cominhos: e mais, Senhores, minha dama era tendeira; e este he o verdadeiro entendimento.

MARTIM.

E aquella regra que diz, _Meu bem anda sem focinhos_, me dá tu a entender; que ella não dá nada de si.

MOÇO.

Nunca vossas mercês ouvirão dizer: _Meu bem e meu mal lutárão hum dia; meu bem era tal, que meu mal o vencia?_ Pois desta luta foi tamanha a quéda que meu bem deo entre humas pedras, que quebrou os focinhos; e por ficarem tão esfarrapados, que lhe não podião botar pedaço; por conselho dos Physicos lhos cortárão por lhe nelles não saltarem erpes; e daqui ficou: _Meu bem anda sem focinhos_, como diz o texto.

AMBROSIO.

Tu fazes ja melhores argumentos, que moços de estudo por dia de S. Nicolao.

MARTIM.

Senhor, aquillo tudo he bom engenho: este moço he natural para Logico.

MOÇO.

Que, Senhor? Natural para loja! Si, mas não tão fria como vossas mercês.

MORDOMO.

Parece-me, Senhor, que entra a primeira figura. Moço, mete-te aqui por baixo desta mesa, e ouçamos este Representador, que vem mais amarrotado dos encontros, que hum capuz roxo de piloto que sahe em terra, e o tira da arca de cedro.

MARTIM.

Senhor, elle parece que aprende a cirurgião.

AMBROSIO.

Mais parece ourinol capado, que anda de amores com a menina dos olhos verdes.

MORDOMO.

Emfim, parece figura de Auto em verdade.

_Entra o Representador._

He lei de direito, assaz verdadeira, Julgar por si mesmos aquillo que vem; Peloque, se cuidão que zombo de alguem, Eu cuido que zombão da mesma maneira.

E assi a qualquer parece que está mais dobrado, sem nenhum conhecer seu proprio engano, por grande que seja. Ora, Senhores, a mim me esquece o dito todo de ponto em claro: mas não sou de culpar, porque não ha mais que tres dias que mo derão. Mas em breves palavras direi a vossas mercês a summa da obra: ella he toda de rir, do cabo até á ponta. Entrarão logo primeiramente quinze donzellas que vão fugidas de casa de seus paes, e vão com cabazes apanhar azeitona; e traz ellas vem logo oito mundanos, metidos em hum covão, cantando: _Quem os amores tee em Cintra_; e despois de cantarem farão huma dança de espadas; cousa muito para ver: entra mais ElRei Dom Sancho bailando os machatins, e entra logo Catharina Real com huns poucos de parvos n'huma joeira; e semeá-los-ha pela casa, de que nascerá muito mantimento ao riso. E nisto fenecerá o Auto, com musica de chocalho e buzinas, que Cupido vem dar a huma alfeloeira a quem quer bem; e ir-se-hão vossas mercês cada hum para suas pousadas, ou consoarão cá comnosco disso que ahi houver. Parece-me que nenhum diz que não. Ora pois ficareis _in vanum laboraverunt_, porque atégora zombei de vós, por me forrar do êrro da representação, como quem diz, _digo-to, antes que mo digas._

AMBROSIO.

Ora vos digo, Senhores, que se as figuras são todas taes, que acertarião em errar os ditos; aindaque me parece que este o não fez, senão a ser mais galante. Mas se assi he, ella he a melhor invenção que eu vi; porque jagora representações, todas he darem por praguentos; e são tão certas, que he melhor errá-las, que acertá-las.

MORDOMO.

Parece-me que entrão as figuras de siso: vejamos se são tão galantes na prática, como nos vestidos.

* * * * *

_Entra El Rei Seleuco, com a Rainha Estratonica._

REI.

Senhora, desque a ventura Me quiz dar-vos por mulher, Me sinto emmeninecer; Porqu'em vossa formosura Perde a velhice seu ser. Hum homem velho, cansado, Não tee fôrça, nem vigor, Para em si sentir amor: Se não he qu'estou mudado Com ser vosso n'outra côr. Muito grande dita tem A mulher que he formosa.

RAINHA.

Senhor, grande: mas porém Se a tal he virtuosa, Quer-lhe a ventura mor bem.

REI.

Si, mas porém nunca vemos A natureza esmerar Adonde haja que taxar; Que quando ella faz extremos, Em tudo quer-se extremar. Eu fallo como quem sente Em vós está calidade, Pelo que vejo presente; E se me esta mostra mente, Mente-me a mesma verdade. Huma só tristeza tenho Que não tee a meninice, Que no mor contentamento O trabalho da velhice Me embaraça o sentimento.

RAINHA.

Senhor, novidades tais Far-me-hão crer de verdade...

REI.

Novidades lhe chamais! Folgo, Senhora, que achais Na velhice novidades.

RAINHA.

Senhor, dias ha que sento Em o Principe Antiôcho Certo descontentamento: Dera alguma cousa a trôco Por saber seu sentimento. Vejo-lhe amarello o rosto, Ou de triste, ou de doente: Ou elle anda mal disposto, Ou lá tee certo desgôsto Que o não deixa ser contente. Mande, Senhor, vossa Alteza A chamá-lo por alguem, Saberemos que mal tem, Se he doença de tristeza, De que nasce, ou de que vem.

REI.

Certo qu'eu me maravilho Do que vos ouço dizer. Que mal póde nelle haver? Ide dizer a meu filho Que me venha logo ver.

RAINHA.

Se curar não se procura Huma cousa destas tais, Vem despois a crescer mais. Quando ja não se acha cura, Toda a cura he por demais.

_Entra o Principe Antiocho com seu Pagem por nome Leocadio._

PRINCIPE.

Leocadio, se es avisado, E não te falta saber, Saber-me-has dar a entender, Quem ama desesperado, Que fim espera de haver?

PAGEM.

Senhor, não. Mas porém porque razão Lhe avem sabê-lo, ou de que?

PRINCIPE.

Pergunto-te a conclusão; Não me perguntes porque. Porque he minha pena tal, E de tão estranho ser, Que me hei de deixar morrer; E por não cuidar no mal O não ouso de dizer. Que maneira de tormento Tão estranho e evidente, Que nem cuidar se consente! Porque o mesmo pensamento Ha medo do mal que sente.

PAGEM.

Não entendo a Vossa Alteza.

PRINCIPE.

Assi importa á minha dor.

PAGEM.

E porque razão, Senhor?

PRINCIPE.

Para que seja a tristeza Castigo do meu temor. Porque ordena O Amor, que me condena, Que se haja de sentir, E sem dizer nem ouvir. Bem-aventurada a pena Que se póde descobrir! Oh caso grande e medonho! Oh duro tormento fero! Verdade he isto, qu'eu quero? Não he verdade, mas sonho De que acordar não espero. Quero-me chegar a ElRei Meu pae, que ja m'está vendo. Mas onde vou? Não m'entendo. Com que olhos eu olharei Hum pae, a quem tanto offendo? Que novo modo de antolhos! Porque neste atrevimento Devêra meu sentimento Para elle não ter olhos, Nem para ella pensamento.

_Chega aonde está ElRei, e diz:_

REI.

Filho, como andais assi? Que tanto desgôsto tomo De vos ver como vos vi!

PRINCIPE.

Não sei eu tanto de mi, Que possa saber o como. Dias ha ja, Senhor, que ando Mal disposto, sem saber Este mal que possa ser; Que se nelle estou cuidando, Quasi me vejo morrer.

REI.

Pois, filho, será razão Que meus Physicos vos vejão.

PRINCIPE.

Os Physicos, Senhor, não; Que os males qu'em mi estão, São curas que me sobejão.

RAINHA.

Deite-se; que na verdade Hum corpo, deitado e manso, Descansa á sua vontade.

PRINCIPE.

Senhora, esta enfermidade Não se cura com descanso.

RAINHA.

Todavia, bom será Que lhe fação huma cama.

PRINCIPE.

(Hum coxim abastará, Que assi não descansará O repouso de quem ama.)

REI.

Vamos, filho, para dentro, Em quanto a cama se faz: Repousae como capaz; Que a mi me dá cá no centro A pena que assi vos traz.

_Vão-se, e vem huma moça a fazer a cama e diz:_

MOÇA.

Mimos de grandes Senhores, E suas extremidades, Me hão de matar de amores, Porque de meros dulçores Adoecem. Então logo lhes parecem Aos outros, que são mamados; E os que são mais privados, Sôbre elles estremecem. Certo (e assi Deos me ajude!) Que são muito graciosos, Porque de meros viçosos, Não podem com a saude. Mas deixallos, Porque elles darão nos vallos, Donde mais não se erguerão, Inda que lhe dem a mão Os seus privados vassallos.

_Entra hum Porteiro da Cana, e bate primeiro e diz:_

PORTEIRO.

Traz, traz.

MOÇA.

Jesu! Quem'stá ahi?

PORTEIRO.

Ja vós, mana, ereis mamada: Para vos levar furtada Nunca tal ensejo vi. E vós estais descuidada!

MOÇA.

E meus descuidos que fazem?

PORTEIRO.

Vossos descuidos? cadella! Ah minh'alma! Sois tão bella, Qu'esses descuidos me trazem Dous mil cuidados á vela. Pois sou vosso ha tantos annos, Mana, tirae os antolhos, E vereis meus tristes dannos.

MOÇA.

Não tenhais esses enganos.

PORTEIRO.

Nem vós tenhais esses olhos; Que de vossos olhos vem Esta minha pena fera.

MOÇA.

De meus olhos? Assim era.

PORTEIRO.

Moça, que taes olhos tem, Nenhuns olhos ver devêra.

MOÇA.

E porque?

PORTEIRO.

Porque cegais A quantos olhos olhais, Postoque por vós padecem. Olhos, que tão bem parecem, Porque não os castigais?

MOÇA.

Deos dê siso, pois de vós Tirou o que aos outros deu.

PORTEIRO.

Desatae-me lá esses nós. Que mais siso quero eu, Que não ter siso por vós?

MOÇA.

Fallais d'arte; eu vos prometo Que a resposta vem á vela. Isso he ôlho de panella. Quanto ha ja que sois discreto?

PORTEIRO.

Quanto ha ja que vós sois bella?

MOÇA.

Dais-me logo a entender Que eu sou feia, a meu ver.

PORTEIRO.

E isso porque o entendeis?

MOÇA.

Porque? Porque me dizeis Que só de meu parecer Vos procede o que sabeis.

PORTEIRO.

He verdade.

MOÇA.

Pois bem sento Que o vosso saber he vento. Fica a cousa declarada, Meu parecer não ser nada.

PORTEIRO.

Olhae aquelle argumento: Além de bella, avisada! Oh nem tanto, nem tão pouco! Vêde vós o que fallais.

MOÇA.

Cego no saber andais.

PORTEIRO.

No siso, mas não tão louco Como vós, mana, cuidais. Ora dizei, duna má: Que não amais, quem vos ama?

MOÇA.

Ouvistes vós cantar ja, _Velho malo, em minha cama?_ Ja m'entendereis.

PORTEIRO.

Ha, ha. Senhora, estais enganada; Que com huma capa e espada, E com este capuz fóra...

MOÇA.

Ora bem: tirae-o ora, E fazei huma levada.

PORTEIRO.

Não: se m'eu hoje alvoróço, Achar-me-heis d'outra feição.

_Aqui tira o capuz e diz:_

PORTEIRO.

Tenho má disposição? Estas obras são de moço, Se as mostras de velho são.

MOÇA.

Tendes mui gentis meneios.

PORTEIRO.

Não, Senhora; faço extremos.

MOÇA.

Passeae ora, veremos Se tendes tão bons passeios.

PORTEIRO.

Tudo, Senhora, faremos.

MOÇA.

Virae ora a essoutra mão.

PORTEIRO.

Esta disposição vêde-a; Que tenho gentil feição.

MOÇA.

Tendes vós mui boa redea. Soffreis ancas?

PORTEIRO.

Isso não.

MOÇA.

Por certo que tendes graça Em tudo quanto fizerdes. Fazei mais o que souberdes.

PORTEIRO.

Não sei cousa que não faça, Senhora, por me quererdes.

MOÇA.

Tendes vós muito bom ar.

PORTEIRO.

Mais qu'isto faz quem quer bem.

MOÇA.

I-vos asinha, que vem O Principe a se deitar.

PORTEIRO.

Nunca huma pessoa tem Hum'hora para fallar!

_Entra o Principe com o seu Pagem Leocadio e diz:_

PRINCIPE.

Seja a morte apercebida, Porque ja o Amor ordena A dar a meu mal sahida; Porque o fim da minha vida O seja da minha pena. Não tarde, para tomar Vingança de meu querer, Pois não se póde dizer Que não tee ja que esperar, Nem com que satisfazer? Os Physicos vem e vão, Sem saberem minhas mágoas, Nem o pulso me acharão; E se o querem ver nas ágoas, As dos olhos lho dirão. Se com sangrias tambem Procurão ver-me curado; O temor de meu cuidado O mais do sangue me tem Nas veias todo coalhado. Quero-me aqui encostar, Que ja o esprito me cae. Leocadio, vae-me chamar Os Musicos de meu Pae; Folgarei de ouvir cantar.

_Aqui se deita, como que repousa e falla dizendo assi:_

PRINCIPE.

Senhora, qual desatino Me trouxe a tanta tristura? Foi, Senhora, por ventura A fôrça do meu destino, Como vossa formosura? Bem conheço que não posso Ter tão alto pensamento; Mas disto só me contento, Que se paga com ser vosso O mor mal de meu tormento.

_Entrão os Musicos, e diz Alexandre da Fonseca, hum delles:_

ALEXANDRE.

Senhor, de que se acha mal O Principe, ou que mal sente?

PAGEM.

Senhor, sei que está doente; Mas sua doença he tal, Qu'entender se não consente. Os Physicos vem e vão, Huns e outros a meude, Sem o poderem dar são. Quanto mais cura lhe dão, Então tee menos saude. O Pae anda em sacrificios Aos deoses, que lhe dem A saude que convem; Dizendo que por seus vicios O mal a seu filho vem. Eu suspeito qu'isto são Alguns novos amorinhos, Que tera no coração.

ALEXANDRE.

Amores! com quem serão, Que lhe não dem de focinhos?

PORTEIRO.

Senhores, que lhe parece Da doença de Antiôcho?

ALEXANDRE.

Diga-lha quem lha conhece.

PAGEM.

Que toma morrer a trôco De callar o que padece.

PORTEIRO.

Isso he estar emperrado Na doença; que he peor. Tee-no os Physicos curado?

ALEXANDRE.

Oh! que de mal del amor No ha, Señor, sanador.

PORTEIRO.

Fallais como exprimentado; Qu'eu cuido que esta fadiga, Que o faz com que desespere; Y por mas tormento quiere Que se sienta, y no se diga.

ALEXANDRE.

Pois, Senhor meu, isso asselle, Porque a pena, que sabeis, Que eu cuido que está nelle, Dar-lhe-ha penas crueis, Pues no hay quien la consuele.

PORTEIRO.

Folgo, porque m'entendeis.

PAGEM.

Hemo-nos, Senhores, de ir, Porque nos está 'sperando.

PORTEIRO.

Pois eu tambem hei de ir; Que não me posso espedir Donde vejo estar cantando.

PRINCIPE.

Cantae, por amor de mi, Alguma cantiga triste; Que todo meu mal consiste Na tristeza em que me vi.

PORTEIRO.

Mande-lhe cantar hum chiste.

ALEXANDRE.

Chiste não, que he deshonesto, E não tee esses extremos: Outro canto mais modesto; Porém não sei que diremos.

PAGEM.

Gaoleão o dirá presto.

PORTEIRO.

Dá licença V. Alteza Que diga minha tenção?

PRINCIPE.

Dizei: seja em canto-chão.

PORTEIRO.

Pois crede qu'he subtileza. Qu'os Anjos a comerão. Digão esta: _Enforquei minha esperança, E o Amor foi tão madraço, Que lhe cortou o baraço._

ALEXANDRE.

Não me parece essa boa.

PORTEIRO.

Haja eu perdão, Porque não a entenderão.

ALEXANDRE.

Entender!

PORTEIRO.

Bofé qu'he boa: Não lhe cahis na feição?

ALEXANDRE.

Dizei ora outra melhor, Com que nos atarraqueis.

PORTEIRO.

Ora esperae, e ouvireis: Se a esta não dais louvor, Quero que me degolleis.

Cantiga.

Com vossos olhos Gonçalves, Senhora, captivo tendes Este meu coração Mendes.

ALEXANDRE.

Essa parece mui taibo, Porque mostra bom indicio.

PORTEIRO.

Vós cuidareis qu'eu que raivo.

ALEXANDRE.

Todavia tee mao saibo. Ora mal lhe corre o offício.

PRINCIPE.

Tá, não vá mais por diante A zombaria, que he má: Cantae qualquer dellas ja; Qu'esse Porteiro he galante, Ninguem o contentará.

_Aqui cántão, e em acabando, diz o_

PAGEM.

Parece que adormeceo.

PORTEIRO.

Pois será bom que nos vamos.

ALEXANDRE.

Senhor, quer que nos vejamos?

PORTEIRO.

Senhor vir-me-ha do ceo: Releva-me que o façamos.

_Entra a Rainha com huma sua Criada por nome Frolalta, e diz:_

RAINHA.

Frolalta, como ficava Antiôcho em te tu vindo?

FROLALTA.

Ficava-se despedindo Da vida qu'então levava, E assi seus dias cumprindo.

RAINHA.

Oh grave caso d'amor! Desesperada affeição! Oh amor sem redempção, Que alli te fazes maior Onde tens menos razão! No mais alto e fundo pégo Alli tens maior porfia: Razão de ti não se fia. Quem a ti te chamou cego, Mui bem soube o que dizia. Por ventura hia chorando?

FROLALTA.

Chorando hia e chamando Ao Amor, Amor cruel; E em, Senhora, se deitando Lhe cahio este papel.

RAINHA.

Que papel?

FROLALTA.

Este, Senhora.

RAINHA.

Amostra, que quero lê-lo. Agora acabo de crê-lo; Que ao que mostra por fóra, Aqui lhe lançou o sello.

_Aqui lê o papel e diz:_

RAINHA.

Oh estranha pena fera! Desditosa vida chara! Oh quem nunca cá viera, E com seu Pae não casára, Ou em casando morrêra!

FROLALTA.

Aindaque eu pêca são, Senhora, tudo bem vejo. Attente, que na eleição O que lhe pede o desejo Não consente o coração.

RAINHA.

Frolalta, pois qu'es discreta Nada te posso encobrir; Porque, se queres sentir, A huma mulher discreta Tudo se ha de descobrir. O dia qu'entrei aqui, Que a Seleuco recebi, Logo nesse mesmo dia No Principe filho vi Os olhos com que me via. Este principio soffri-lho, Para ver se se mudava; Antes mais se accrescentava: Eu amava-o como filho, E elle d'outr'arte me amava. Agora vejo-o no fim Por se me não declarar. E pois ja que a isso vim, A morte que o levar, Me leve tambem a mim. Porque ja que minha sorte Foi tão crua e desabrida, Que me não quer dar sahida; Sejamos juntos na morte, Pois o não somos na vida. Oh quem me mandou casar, Para ver tal crueldade! Ninguem venda a liberdade, Pois não póde resgatar Onde não tee a vontade. Que não ha mor desvario, Que o forçado casamento Por alcançar alto assento; Que, emfim, todo o senhorio Está no contentamento. Não sei se o vá ver agora, Se será tempo conforme, Ou se imos a deshora.

FROLALTA.

Despois iremos, Senhora, Que agora dizem que dorme.

_Entra o Physico a tomar-lhe o pulso, e tomando-o diz:_

PHYSICO.

Su madrasta oyó nombrar, Y el pulso se le alteró: Esto no entiendo yo, Porque para le alterar El corazon le obligó. Pues que el corazon se altere, Es porque en un momento Algun nuevo vencimiento De aficion terrible le hiere, Que causa tal movimiento. Pues que aficion cabe así Con madrasta? Digo yo, Dos razones hay aqui: La una dice, que sí, La otra dice, que no. Empero yo determino De exprimentar la verdad, Y hacer una habilidad, Que declare es agua, ó vino Esta su enfermedad. Porque toda esta mañana Tengo estudiado su mal, Sin ver causa efectual De su dolencia inhumana, Ni otra de su metal. Llamar quiero este asnejon; Mas aun debe de dormir, Segun que es dormilon. Sancho? ó Sancho?

SANCHO.

Ah Señor.

PHYSICO.

Ea, aun estás dormiendo?

SANCHO.

Estoyme, Señor, vestiendo.

PHYSICO.

Pues vellaco y sin sabor, No me respondes dormiendo? Vestios presto, ladron. Oh qué mozo, y qué ventura!

SANCHO.

(Mas qué amo y qué cabron!) Embíeme acá el ropon, Que no hallo mi vestidura.

PHYSICO.

Que embie el ropon acá? Parece que os desmandais.

SANCHO.

Que vaya, Señor? ha, ha. Que buenos dias hayais.

_Entra o moço embrulhado em huma manta, e diz:_

PHYSICO.

Di como vienes así Con la manta, y para qué?

SANCHO.

Yo, Señor, se lo diré: Por venir presto vestí Lo que mas presto me hallé: Porque viendo que él me llama, Dormiendo yo sin afan, Salté presto de la cama, Que parezco un gavilan, Hermoso como una dama.

PHYSICO.

Mas es tu bovedad tanta, Que vienes desta facion?

SANCHO.

De mi vestido se espanta? De noche sirve de manta, Y de dia de ropon.

PHYSICO.

Embióme ElRey á llamar Otra vez.

SANCHO.

Y á mí?

PHYSICO.

Y á ti!

SANCHO.

Y él qué presta allá sin mí?

PHYSICO.

Qué puedes tu aprovechar?

SANCHO.

Yo se lo diré de aqui: Si por la ventura quiere Para que le dé consejo, Cuando doliente estuviere; Digo, coma, si pudiere, Y beba buen vino anejo; Porque este es el licor Que dá fuerza, y es sabroso; Que segun dicen, Señor, _Vinum loetificat cor Hominis_, y le es provechoso.

PHYSICO.

Ya sabes la medicina, Que Avicena nos refiere.

SANCHO.

Pues, Señor! porque es divina. Pero ElRey qué le quiere, Qué manda, ó qué determina?

PHYSICO.

El Principe está doliente.

SANCHO.

Oh mesquino! Y qué mal ha?

PHYSICO.

Y á ti, necio, que te vá?

SANCHO.

O Señor, que es mi pariente!

PHYSICO.

Gracioso el bovo está. Y pues díme por tu fé: Llorarás si se muriere?

SANCHO.

No, Señor, no lloraré; Empero, Señor, haré La peor cara que pudiere.

PHYSICO.

Ea, bovo, vé corriendo, Y ensilla la mula ayna.

SANCHO.

Véngala ensillar mejor.

PHYSICO.

Oh velhaco, y sin sabor!

SANCHO.

Yo por cierto no lo entiendo. Pero una medicina Le he de pedir, Dios queriendo, (Porque ando atribulado, Y no sé parte de mi Con este nuevo cuidado) Para un sayo esfarrapado, Que me dicen hay allí.

PHYSICO.

Ora ensilla; y nunca viva, Pues sufro tus desatinos.

SANCHO.

Señor, pasion no reciva: _Ya cavalga Calaínos A la sombra de una oliva._

_Aqui sahe bolindo com a almofaça, e acorda o Principe e diz:_

PRINCIPE.

Oh bella vista e humana, Por quem tanto mal sostenho! Oh Princeza soberana! Como? nos braços vos tenho, Ou este sonho m'engana? Pois como, sonho, tambem Me queres vir magoar? E para me atormentar Mostras-me a sombra do bem Para assi mais m'enganar? Assi que, com quanto canso, Ja não posso achar atalho, Pois que o somno quieto e manso, Que os outros tee por descanso, Me vem a mi por trabalho. Pois ha hi tantos enganos Que condemnão minha sorte; Não o tenho ja por forte, Se á volta de tantos danos Viesse tambem a morte.

_Aqui entra ElRei com o Physico, e diz:_

REI.

Andae e vêde se achais O rasto deste segredo, Que me dizem que alcançais; Ainda que tenho medo Que lhe seja por demais.

PHYSICO.

Plega á Dios que aqueste sea Para salud y remedio Desta dolencia tan fea. Yo buscaré todo el medio, Que presto sano se vea.

_Aqui lhe toma o Physico o pulso, e diz:_

PHYSICO.

Aflojen, Señor, sus ais. Como se halla en su penar?

PRINCIPE.

Como me acho perguntais? E como se póde achar Quem sempre se perde mais?

PHYSICO.

(La respuesta abre el camino.) Imagina de contino?

PRINCIPE.

Não tenho outro mantimento, Nem outro contentamento, Senão o em que imagino.

_Aqui entra a Rainha e diz:_

RAINHA.

Como se sente, Senhor? Tee a febre mais pequena?

PRINCIPE.

Responda-lhe minha pena.

PHYSICO.

(Conocido es su dolor. Ora sea en hora buena, Tomada está la tristeza Á las manos.) Qué sentió? (Usaré de subtileza.)

_Diz contra ElRei:_

Cúmpleme que solo yo Platique con Vuestra Alteza.

REI.

Cheguemos-nos para cá.

RAINHA.

Não deve desesperar, Qu'em fim, se bem attentar, Para tudo o tempo dá Tempo para se curar.

PRINCIPE.

Que cura poderá ter Quem tee a cura, Senhora, No impossivel haver?

RAINHA.

Ficae-vos, Senhor, embora, Que vos não sei responder.

_Vai-se a Rainha, e diz ElRei:_

REI.

Neste mal, que não comprendo, Que meio dais de conselho?

PHYSICO.

Señor, nada entiendo dello; Y supuesto que lo entiendo, Yo quisiera no entendello.

REI.

Porque?

PHYSICO.