Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Part 10

Chapter 103,942 wordsPublic domain

Oh Divino saber, quão soberano Conselho he sempre o teu! quão remontado! Oh quanto o mor saber te cede humano, Por mais que de razões vá mais ornado! Ja dos idolos deixa o cego engano O Principe, da virgem namorado; Ja terno pede ao pae quanto ella pede; Ja o pae quanto lhe roga lhe concede.

Ja para ti, ó virgem bella e branda, Com huma singular velocidade, Juntar se via d'huma e d'outra banda De feminil nobreza tenra idade. As naos apparelhar o Rei ja manda; Ja nellas se recolhe a Virgindade; Ja dão para Bretanha ao vento velas. O coração do noivo vai com ellas.

Ja vem a tomar porto onde esperava Ursula alvoroçada em grã maneira; Que para as receber alli se achava, Como senhora não, mas companheira. Quão falsa era a Lei dellas lhes mostrava, A de Christo quão pura e verdadeira. Ja se baptiza huma e outra Dama; Damas Ursula ja do ceo lhes chama.

A Fama, que não sabe repousar, Voou de Reino em Reino, d'ilha em ilha; A gente que concorre não tee par, Por ver a nunca vista maravilha. Outros vem por servir e acompanhar A Virgem de Rei nora, de Rei filha. Movem-se muitos Bispos de Bretanha; Pantalo em vida e morte os acompanha.

Por ti, deixando o Reino, co'a familia E quatro filhas suas, s'embarcou, Juliana, Victoria, Aurea, Babilia; (Hum filho tinha mais que mais levou) Gerasina, Rainha de Sicilia, E com devido amor te acompanhou; Qu'he justo que comtigo vão Rainhas, Quando tu para o Rei dos Reis caminhas.

Ja se partem as bellas peregrinas, As mãos ao claro Empyreo levantadas; Ja rompem, ja, por ondas crystallinas As naos de formosura carregadas. Quando, dizei, ó ágoas Neptuninas, Fostes de tal belleza navegadas? Nunca, despois que a terra descobristes, A tal frota por vós caminho abristes.

Com vento sempre igual, com mar bonança, Sem perigos alguns, sem algum pejo, Ceyla forão tomar, porto de França, Onde pouca demora fazer vejo. O coração da virgem não descança, Saudosa do fim de seu desejo; Manda que levem ferro, soltem linho Que leve por o mar o negro pinho.

O vento nova posse vai tomando Das virgens que lhe são encommendadas: Com tal prosperidade vão voando, Que ja deixão atraz ondas salgadas: Ja nas doces do Rheno estão entrando, Onde tee suas vidas limitadas: Huma cidade vem á lingua da ágoa, Que de vê-las morrer não teve mágoa.

Ah Colonia cruel, que não t'encobres A tão formosos olhos, que seguros As altas tôrres vião que descobres, Lustrosos edificios, fortes muros! Permitte o largo Ceo que fama cobres De ser tão dura mãe de peitos duros? Duros peitos, que a tantos, limpos de êrro Virão abrir sem dor com impio ferro!

Estando neste porto a bella Armada Tomando o necessario mantimento, Para poder seguir sua jornada, E dar terceira vez o treu ao vento; Sendo parte da noite ja passada, A virgem lá no seu retrahimento, Quando estava dormindo toda a frota, A Christo orou assi, branda e devota:

Amor, divino Amor, Amor suave, Amor, que amando vou toda rendida; Com quem não ha na vida pena grave, Sem quem glória real não ha na vida; Amor, que do meu peito tens a chave, Amor, de cujo amor ando ferida, Quando verei, Amor, o que desejo, Para que veja, Amor, o que não vejo?

Amor, que d'amor cheio e de brandura, D'amor enches est'alma saudosa; Amor, sem cujo amor e formosura, Não póde nunca haver cousa formosa; Amor, com cujo amor anda segura Huma vida tão fraca e duvidosa, Quando verei, Amor, o que desejo, Para que veja, Amor, o que não vejo?

Amor, que por amor te dispuzeste A restaurar o mundo errado e triste; Amor, que por amor do ceo desceste; Amor, que por amor á Cruz subiste; Amor, que por amor a vida déste; Amor, que por amor a glória abriste, Quando verei, Amor, o que desejo, Para que veja, Amor, o que não vejo?

Amor, que mais e mais sempre te augmentas No coração que lá comtigo trazes; Amor, que d'amor puro te sustentas No fogo em que tu mesmo arder me fazes; Amor, que sem amor não te contentas, De tudo com amor te satisfazes, Quando verei, Amor, o que desejo, Para que veja, Amor, o que não vejo?

Amor, que com amor me captivaste; (Se livre póde ser quem não captivas) Amor, qu'em taes prisões m'asseguraste As esperanças d'antes fugitivas: Amor, que suspirando m'ensinaste A derramar por ti lagrimas vivas, Quando verei, Amor, o que desejo, Para que veja, Amor, o que não vejo?

Quando verei hum dia em que offereça Por ti ao cruel ferro o peito forte, E cercada de virgens appareça Na tua soberana e eterna Corte; Onde lá cada huma te mereça, Cá passando comigo a propria morte; E todas dando o sangue juntas, todas Celebremos comtigo eternas bodas?

Faze-me ja, Senhor, esta vontade Que tenho de te ver, que sempre tive, Des que me deo lugar a tenra idade, E lume de razão nesta alma vive. Não queiras, meu Amor, que a saudade Sem tal bem a mi só da vida prive; Que se muito se alarga este destêrro, Por ella irei a ti, não por o ferro.

Desata o meu espirito saudoso, Do nó mortal em que se vai detendo, Primeiro que tres vezes pressuroso O sol os doze Signos vá correndo. Espaço he que tomei, meu doce Esposo, Para outro esposo meu ir entretendo: Mas a meu amor crendo, de ti creio Que acabes com a vida o meu receio.

Inda neste fervente e justo rôgo Ursula suspirando procedia, Quando d'hum resplandor como de fogo Divina voz ouvio, que assi dizia: Ó virgem, que soubeste fazer jôgo Do que no mundo tee maior valia, Entende que da volta que fizeres, Aqui quero que seja o que tu queres.

Tanto que tal resposta do Ceo teve, Não quiz do que esperava perder hora: Ja lhe parece larga a noite breve, E que ja tarda muito a bella aurora. Em descobrindo Apollo o carro leve, Do porto de Colonia sahio fóra. Ja Basilêa em breve tempo toma: E a pé d'alli partirão para Roma.

O Pastor summo, Ciriáco santo, As sahe a receber, e as acompanha Com gôzo espritual, com grande espanto De ver em tal idade fé tamanha. Dizer se póde mal, mal cuidar quanto Se goza o Real sangue de Bretanha, Os veneraveis Templos visitando Daquelles que tambem foi imitando.

Na propria noite deste proprio dia Que Roma ver as virgens mereceo, A quem de Pedro a Barca então regía Revelou o que rege a terra e ceo Que martyrio tambem receberia Onde Ursula co'as mais o recebeo: Deixa contente o grão Pontificado, Desejoso de ser martyrizado.

Por mais que todo o Clero soffre mal Mover-se por aquellas Estrangeiras, Movido da Vontade divinal O bom Pastor se vai com as Cordeiras. Hum Arcebispo leva, hum Cardeal: Tres Bispos deixão vagas tres Cadeiras, De Luca, Ravicana e de Ravenna: Mauricio me ficava ja na penna.

Despois de n'ágoa entrar, donde sahírão, Com tão formoso sol tantas estrellas, Ja as ancoras debaixo acima tirão, E de cima ja abaixo soltão vellas. Estas naos lá adiante outras naos vírão, Que fazendo-se vem na volta dellas; Conhecêrão-se logo as duas frotas: Ambas d'hum Reino são, ambas devotas.

Alli, ja Rei erguido d'Inglaterra, Vinha de Ursula bella o bello esposo, Que reinar não queria ja na terra, Do ceo ja namorado e saudoso. Do seu primeiro amor venceo a guerra A fôrça d'outro amor mais poderoso: Amando ja em seu Deos a esposa bella, Para o poder achar, buscava a ella.

A mãe, ja convertida, traz comsigo; O pae, ja Christão feito, fallecêra, Com que soube evitar o grão castigo Que, morrendo Gentio, não soubera. Amor celeste, como aqui não digo O teu sublime obrar? (Ah quem pudera!) Por meio d'huma virgem foste meio Com que gente copiosa a Christo veio.

Vinha mais nesta nova companhia Florencia, irmãa do Rei, da mãe cuidado; Florencia, qu'em belleza florecia, Como flor em jardim bem cultivado. Tambem a frota Bispos dous trazia, Hum Marcello, Clemente outro chamado: O primeiro ja em Grecia bago teve; Do segundo o Bispado não s'escreve.

Outra Virgem viuva alli mais vinha, Que desposada sendo em tenra idade, Antes das bodas enviuvado tinha, E promettida a Christo a castidade. Esta do mesmo Rei era sobrinha, Filha da Imperatriz da grã cidade, Onde por culpa nossa, ou pouca dita, Seu throno agora tee o fero Scita.

Estes, que adverte repetida historia Deixárão só por Deos altos Estados, Com outros, de que he menos a memoria, Forão divinamente amoestados Que todos, para entrar juntos na glória, Ao côro virginal fossem juntados, Com quem na terra Martyres serião, E no ceo para sempre reinarião.

Sería estranho o gôzo que sentírão Aquellas bem nascidas almas santas, Quando juntas alli todas se vírão De partes tão remotas, e de tantas. Sem estorvos, que d'antes o impedírão, As duas, mais que todas, bellas plantas Alli abraços se dão sem algum pejo, Ambas conformes ja n'hum só desejo.

Alli faria o Rei acatamento A quem deixou da Barca o grão govêrno; E elle, conforme a seu merecimento, Responderia com amor paterno. Não faltaria em tal recebimento Prazer exterior, prazer interno; Inda que nos estados differentes, Todos serião huns em ser contentes.

O vento as brancas velas não enchia, Corria o frio Rheno então mais quedo; Antes para Colonia não corria, Porque as virgens não fossem lá tão cedo. Parece que ja claro conhecia (Oh côro virginal, sereno e ledo!) Que lá vos esperava a impia morte. Agora, ó Musa, conta de que sorte.

Aquelle que na fórma de serpente Deixou aos dous primeiros enganados, Invejoso de ver que tanta gente Se convertia á Lei dos Baptizados; No caração entrou manhosamente De dous gentios Principes damnados, Da soberba Romãa Cavaleria, Por encurtar a Fé que s'estendia.

A Fama os assegura com certeza Que a virgem a Colonia ja voltava, Com toda a casta juvenil belleza Que por amor do Ceo peregrinava. Fizerão avisar com grã presteza A hum parente, que Julio se chamava, Soberbo Capitão dos Hunnos feros; Que todos para todas forão Neros.

Eis logo o cego Principe gentio, Com gente innumeravel de seu mando, A praia a tomar vem do mesmo rio Por onde as virgens vinhão navegando. Ja descobrem aquelle, este navio Os qu'estão do mais alto atalaiando: Ás armas veloz corre o bruto povo, Por de novo as tingir no sangue novo.

Vindo a frota a surgir junto do muro, Onde lhe parecia estar segura, (Oh virgens que buscais? lugar seguro Adonde vos espera a sepultura!) Entra com mão armada o povo duro Por esta peregrina formosura: Ja começa a provar os aços fortes; Eis tudo sangue ja, eis tudo mortes.

Ja nu todas as virgens offrecião O delicado collo, o tenro peito: Era para caber quantas cahião, Todo largo lugar lugar estreito. Do puro sangue os rios que corrião, Outro vermelho mar ja tinhão feito. Tu só, Córdula, á morte t'escondeste; Mas despois a buscaste e recebeste.

Ciriáco o primeiro, bem constante, A vida ao ferro offrece sem espanto: O moço Rei Inglez cahio diante Daquelles castos olhos que amou tanto. Espera, brando esposo, hum breve instante; Espera a tua doce esposa, em tanto Que outro Amor outro golpe lhe prepara; E juntos entrareis na Patria chara.

Em qual terra, ó crueis, em qual cidade, Entre quaes gentes mais a furor dadas, Se não usou d'amor e de piedade Com formosas donzellas desarmadas? Como belleza tanta e tal idade Vos deixou arrancar vossas espadas? Ah lobos carniceiros, tigres bravos, Filhos da crueldade, d'ira escravos!

De quantos animaes sustenta a terra Nunca tanta crueza foi usada; Inda que tenhão huns com outros guerra, Nunca do macho a femia he lastimada: Anda a cerva co'o cervo por a serra, A novilha do touro acompanhada, Á leoneza o leão defender preza: Vós sós quebrais as leis da natureza?

Puderão outros olhos por ventura De lagrimas divinas escusar-se, Vendo, cuberta ja de névoa escura, A luz de tantos bellos apagar-se? Vendo a purpurea rosa, a cecem pura Em tão formosas faces descorar-se? As tranças d'ouro vendo, espedaçadas, Por debaixo dos pés andar pizadas?

Na fôrça desta furia accesa e brava O Tyranno cruel a vista ergueo Á virgem, qu'invencivel animava As almas que juntára para o Ceo. Assi ja envolta em sangue como andava, Da sua formosura se venceo; E com doces razões, que Amor ensina, A vencê-la d'amor se determina.

Fingindo se arrepende do passado, (E de fingi-lo se arrepende azinha) Sua vida lhe offrece e seu Estado, Sem ver qu'Estado e vida a perder vinha. O seu amor lhe pede confiado; O seu amor que dado a seu Deos tinha: Pede-lhe o seu amor; antes não seu, Porque ja dado o havia a quem lho deu.

Usa de mil lisonjas, mil enganos, Por conseguir o seu desejo bruto. A flor logra (dizia) de teus anos, Colhe d'essa belleza o doce fruto: Não dês materia nova a novos danos, Não pagues verde á morte o seu tributo: Olha que tens em mi (não são cautelas) Outro Reino, outro esposo, outras donzelas.

Não faças mentirosa a natureza Que dá d'amor em ti grande esperança. Que se póde alcançar d'essa belleza, Se ja piedade della não s'alcança? Aos tigres, aos leões deixa a braveza, E deixa aos meus soldados a vingança. Se por ver-me cruel queres ser crua, Ja te vingas de mi em cousa tua.

Volve esses olhos ja com mais brandura; Esses olhos, d'Amor doce morada: Delles não faça em mi a formosura, O qu'em tantos ja fez a minha espada. Se queres derribar minha ventura, Que delles estar vejo pendurada, Acabarei de ver quão pouca tenho, Pois donde a matar vim a morrer venho.

Como do rôgo meu não te aproveitas, Quando o teu risco a me rogar te obriga? Ou não conheces bem a quem engeitas, Ou m'engeitas por mais que seja e diga. Em que cuidas, Senhora? ou que suspeitas? Mais proprio era chamar-te dura imiga. Mas não consente Amor nome tão duro Em parecer tão brando e tão seguro.

Os raios desses olhos ja serenos Enxuguem desse rosto as puras rosas; O triste suspirar ja sôe menos Nestas concavidades saudosas. Não fação grande mal males pequenos; Que não soffre esperanças vagarosas Quem anda costumado em seus amores A medir por seu gôsto seus favores.

Que gôsto podes ter de maltratar-me, Vendo-me do passado arrependido? Attenta que mais ganhas em ganhar-me, Do que neste destrôço tens perdido. Se queres insistir em desprezar-me, Ver-me-has, sôbre amoroso, enfurecido. Não me declaro mais, porque não quero Que o medo faça o que d'amor espero.

Ah perfido amador! deixa o teu êrro. Não vês quanto enganado e cego andas? Aquella a quem não vence o duro ferro, Como a podem vencer palavras brandas? Manda a sua alma ja deste destêrro, Com essas que a seu doce Esposo mandas. Não a detenhas mais em teus amores, Se dobrar-lhe não queres suas dores.

Vendo o cruel, emfim, que o que dizia, Tomava a bella virgem por affronta, E que quanto d'amor mais se accendia, Ella delle fazia menos conta; No concavo arco que na mão trazia, Huma setta embebeo d'aguda ponta, E o peito lhe passou de banda a banda. Assi rendeo o esprito a virgem branda.

Vae-te, Esprito gentil, desta baixeza; As azas abre ja, ja a luz derrama; Vôa com desusada ligeireza Onde o teu Bem t'espera, onde te chama. Verás baixa do mundo a mór alteza; Verás qu'engana mais a quem mais ama; E lá do teu Amor, cá suspirado, O fructo colherás tão desejado.

Em paz te vae, ó alma pura e bella, Mais bella inda no sangue que verteste; Vae-te alegre a gozar, vae, ja daquella Formosa Região, alta e celeste. Coroada de glória immortal, nella Com Christo lograrás, a quem te déste Com tantas e tão bem nascidas almas, (Formosura do Ceo) onze mil palmas.

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COMEDIAS.

INTERLOCUTORES.

DO PROLOGO.

O MORDOMO, ou DONO DA CASA. MARTIM CHINCHORRO. AMBROSIO, Escudeiro. LANÇAROTE, Moço.

DA COMEDIA.

ELREI SELEUCO. A RAINHA ESTRATONICA. O PRINCIPE ANTIOCHO. LEOCADIO, Pagem do Principe Antiocho. FROLALTA, Criada da Rainha Estratonica. HUM PORTEIRO DA CANA. HUMA MOÇA DA CAMARA. HUM PHYSICO, ou MEDICO. SANCHO, Moço do Physico. ALEXANDRE DA FONSECA, hum dos Musicos.

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ELREI SELEUCO.

COMEDIA.

PROLOGO.

_Diz logo o Mordomo, ou Dono da Casa._

Eis, Senhores, o Autor, por me honrar nesta festival noite, me quiz representar huma Farça; e diz, que por não se encontrar com outras ja feitas, buscou huns novos fundamentos para a quem tiver hum juizo assi arrazoado satisfazer. E diz que quem se della não contentar, querendo outros novos acontecimentos, que se vá aos soalheiros dos Escudeiros da Castanheira, ou de Alhos Vedros e Barreiro, ou converse na Rua Nova em casa do Boticario; e não lhe faltará que conte. Porém diz o Autor que usou nesta obra da maneira de Isopete. Ora quanto á obra, se não parecer bem a todos, o Autor diz que entende della menos que todos os que lha puderem emendar. Todavia, isto he para praguentos: aos quaes diz que responde com hum dito de hum Philosopho, que diz: _Vós outros estudastes para praguejar, e eu para desprezar praguentos?_ Eu com tudo quero saber da Farça, em que ponto vai. Lançarote?

MOÇO.

Senhor.

MORDOMO.

São ja chegadas as figuras?

MOÇO.

Chegadas são ellas quasi ao fim de sua vida.

MORDOMO.

Como assi?

MOÇO.

Porque foi a gente tanta, que não ficou capa com friza, nem talão de çapato, que não sahisse fóra do couce. Ora vierão huns embuçadetes, e quizerão entrar por fôrça; ei-lo arrancamento na mão: derão huma pedrada na cabeça ao Anjo, e rasgárão huma meia calça ao Ermitão; e agora diz o Anjo que não ha de entrar, até lhe não darem huma cabeça nova, nem o Ermitão até lhe não pôrem huma estopada na calça. Este pantufo se perdeo alli; mande-o v. m. Domingo apregoar nos pulpitos; que não quero nada do alheio.

MORDOMO.

Se elle fôra outra peça de mais valia, tu botáras a consciencia pela porta fóra, para o metteres em tua casa.

MOÇO.

Oh! se o elle fôra, mais consciencia sería torná-lo a seu dono, quem o havia mister para si.

MORDOMO.

Ora vem cá: vai daqui a casa de Martim Chinchorro, e dize-lhe que temos cá Auto com grande fogueira; que se venha sua mercê para cá, e que traga comsigo o Senhor Romão d'Alvarenga, para que sôbre o Canto-chão botemos nosso contraponto de zombaria. Ouves, Lançarote? ir-lhe-has abrir a porta do quintal, porque mudemos o vinte aos que cuidão de entrar por fôrça.

_Indo-se o Moço diz:_

Chichelo de Judeo, assi como foste pantufo, que te custava ser huma bolsa com hum par de reales, que são bons para Escudeiro hypocrita; que são pouco, e valem muito?

MORDOMO.

Moço, que estás fazendo que não vás?

MOÇO.

Senhor, estou tardando, e porém estou cuidando que se agora fôra aquelle tempo, em que corrião as moedas dos sambarcos, sempre deste tiraria para humas palmilhas. Mas ja que assi he, diga-me v. m. que farei deste?

MORDOMO.

Oh fideputa bargante! esperae, que est'outro vo-lo dirá.

_Faz que lhe atira com outro pantufo; vai-se o Moço, e diz o Mordomo:_

Não ha mais mao conselho, que ter hum villão destes mimoso, porque logo passão o pé além da mão, e zombão assi da gravidade de seu amo. Mas tornando ao que importa; vossas mercês he necessario que se cheguem huns para os outros, para darem lugar aos outros Senhores que hão de vir; que de outra maneira, se todo o corro se ha de gastar em palanques, será bom mandar fazer outro alvalade; e mais, que me hão de fazer mercê, que se hão de desembuçar, porque eu não sei quem me quer bem, nem quem me quer mal: este só desgôsto tee hum Auto, que he como offício de Alcaide; ou haveis deixar entrar a todos, ou vos hão de ter por villão ruim.

_Entra Martim Chinchorro, fallando com o Escudeiro Ambrosio, e diz:_

MARTIM.

Entre v. m.

AMBROSIO.

Dias ha, Senhor, que ando de quebras com cortezias; e por isso vou diante. Beijo as mãos a v. m. A verdade he esta, passear em casa juncada, fogueira com castanhas, mesa posta com alcatifa e cartas; além disto Auto para esgaravatar os dentes: esta he a vida, de que se ha de fazer consciencia.

MORDOMO.

Senhor, o descanso dizem lá, que se ha de ter em quanto homem puder, porque os trabalhos, sem os chamarem, de seu se vem por seu pé, que seu nome he.

MARTIM.

Ora pois, Senhor, o Auto que tal dizem que he? Porque hum Auto enfadonho traz mais somno comsigo que huma prégação comprida.

MORDOMO.

Senhor, por bom mo vendêrão, e eu o tomei á cala de sua boa fama. E se tal he, eu acho que, por outra parte, não ha tal vida, como ouvir hum villão, que arranca a falla da garganta, mais sem sabor que huma pera-pão, e huma donzella, que vem podre de amor, fallando como Apostolo, mais piedosa que huma lamentação.

MARTIM.

Para estes taes he grande peça rapaz travesso com mólho de junco, porque não andem mais ao coscorrão, mais roucos que huma cigarra, trazendo de si enfadamento.

MOÇO.

O lá Senhoras; pedem as figuras alfinetes para toucarem hum Escudeiro. Ora sus, ha hi quem dê mais? que ainda vos veja todas a mim ás rebatinhas: ora sus, venhão de mano em mano, ou de mana em mana.

MORDOMO.

Moço, falla bem ensinado.

MOÇO.

Senhor, não faz ao caso; que os erros por amores tee privilegio de Moedeiro.

AMBROSIO.

Ó rapaz, não me entendes? Pergunto-te se tardarão muito por entrar.

MOÇO.

Parece-me, Senhor, que antes que amanheça começarão.

AMBROSIO.

Oh que salgado moço! Zombas de mi? Vem cá. Donde es natural?

MOÇO.

Donde quer que me acho.

AMBROSIO.

Pergunto-te onde nasceste.

MOÇO.

Nas mãos das parteiras.

AMBROSIO.

Em que terra?

MOÇO.

Toda a terra he huma; e mais eu nasci em casa assobradada, varrida daquella hora, que não havia palmo de terra nella.

MARTIM.

Bem varrido de vergonha que me tu pareces. Dize: Cujo filho es? He para ver com que disparate respondes.

MOÇO.

A fallar verdade, parece-me a mi, que eu sou filho de hum meu tio.

MARTIM.

Vem cá. De teu tio! E isso como?

MOÇO.

Como? Isto, Senhor, he adivinhação, que vossas mercês não entendem. Meu pae era Clerigo, e os Clerigos sempre chamão aos filhos sobrinhos; e daqui me ficou a mi ser filho de meu tio.

MARTIM.

Ora te digo que es gracioso. Senhor, donde houvestes este?

MORDOMO.

Aqui me veio ás mãos sem piós nem nada; e eu por gracioso o tomei; e mais tee outra cousa, que huma trova fa-la tão bem como vós, ou como eu, ou como o Chiado.

AMBROSIO.

Não! quanté disso nós havemos-lhe de ver fazer alguma cousa, em quanto se vestem as figuras. Aindaque, para que he mais Auto, que vermos a este?

MORDOMO.

Vem cá, moço: dize aquella trova que fizeste á moça Briolanja, por amor de mi!

MOÇO.

Senhor, si, direi; mas aquella trova não he senão para quem a entender.

MARTIM.

Como! Tão escura he ella?

MOÇO.

Senhor, assi a fiz e a escrevi na memoria, porque eu não sei escrever senão com carvão; e porém diz assi:

Por amor de vós, Briolanja, Ando eu morto, Pezar de meu avô torto.

MARTIM.

Oh como he galante! Que descuido tão gracioso! Mas vem cá: que culpa te tee teu avô nos desfavores que te tua dama dá?

MOÇO.

Pois, Senhor, se eu houve de pezar de alguem, não pezarei eu antes dos meus parentes, que dos alheios?

MORDOMO.