Obras Completas de Luis de Camões, Tomo III

Part 1

Chapter 13,623 wordsPublic domain

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Notas de transcrição:

O texto aqui transcrito, é uma cópia integral e inalterada do livro impresso em 1843.

Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos alguns pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a leitura do texto, e que por isso não considerámos necessário assinalá-los. Mantivemos inclusivamente as eventuais incoerências de grafia de algumas palavras, em particular quanto à acentuação.

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CLASSICOS PORTUGUEZES.

TOMO II.

CAMÕES.

II.

PARIZ.--NA OFFICINA TYPOGRAPHICA DE FAIN E THUNOT, Rua Racine, 28, junto ao Odeon.

OBRAS COMPLETAS

DE

LUIS DE CAMÕES,

CORRECTAS E EMENDADAS

PELO CUIDADO E DILIGENCIA

DE

J. V. Barreto Feito e J. G. Monteiro.

TOMO TERCEIRO.

LISBOA.

ACHA-SE TAMBEM EM PARIZ, NA LIVRARIA EUROPEA DE BAUDRY, 3, quai Malaquais, près le pont des Arts.

1843

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RIMAS.

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RIMAS.

REDONDILHAS.

Sôbolos rios que vão Por Babylonia, me achei, Onde sentado chorei As lembranças de Sião, E quanto nella passei. Alli o rio corrente De meus olhos foi manado; E tudo bem comparado, Babylonia ao mal presente, Sião ao tempo passado.

Alli lembranças contentes N'alma se representárão; E minhas cousas ausentes Se fizerão tão presentes, Como se nunca passárão. Alli, despois d'acordado, Co'o rosto banhado em ágoa, Deste sonho imaginado, Vi que todo o bem passado Não he gôsto, mas he mágoa.

E vi que todos os danos Se causavão das mudanças, E as mudanças dos anos; Onde vi quantos enganos Faz o tempo ás esperanças. Alli vi o maior bem Quão pouco espaço que dura; O mal quão depressa vem; E quão triste estado tem Quem se fia da ventura.

Vi aquillo que mais val Qu'então s'entende melhor, Quando mais perdido for: Vi ao bem succeder mal, E ao mal muito peor. E vi com muito trabalho Comprar arrependimento: Vi nenhum contentamento; E vejo-me a mi, qu'espalho Tristes palavras ao vento.

Bem são rios estas ágoas Com que banho este papel: Bem parece ser cruel Variedade de mágoas, E confusão de Babel. Como homem, que por exemplo Dos trances em que se achou, Despois que a guerra deixou, Pelas paredes do templo Suas armas pendurou:

Assi, despois qu'assentei Que tudo o tempo gastava, Da tristeza que tomei, Nos salgueiros pendurei Os orgãos com que cantava. Aquelle instrumento ledo Deixei da vida passada, Dizendo: Musica amada, Deixo-vos neste arvoredo Á memoria consagrada.

Frauta minha, que tangendo Os montes fazieis vir Par'onde estaveis, correndo; E as ágoas, que hião descendo, Tornavão logo a subir; Jamais vos não ouvirão Os tigres, que s'amansavão; E as ovelhas, que pastavão, Das hervas se fartarão, Que por vos ouvir deixavão.

Ja não fareis docemente Em rosas tornar abrolhos Na ribeira florecente; Nem poreis freio á corrente, E mais se for dos meus olhos. Não movereis a espessura, Nem podereis ja trazer Atraz vós a fonte pura; Pois não pudestes mover Desconcertos da ventura.

Ficareis offerecida Á Fama, que sempre vela, Frauta de mi tão querida; Porque mudando-se a vida, Se mudão os gostos della. Acha a tenra mocidade Prazeres accommodados; E logo a maior idade Ja sente por pouquidade Aquelles gostos passados.

Hum gôsto, que hoje s'alcança, Á manhãa ja o não vejo: Assi nos traz a mudança D'esperança em esperança, E de desejo em desejo. Mas em vida tão escassa Qu'esperança será forte? Fraqueza da humana sorte, Que quanto da vida passa Está recitando a morte!

Mas deixar nesta espessura O canto da mocidade: Não cuide a gente futura Que será obra da idade O que he fôrça da ventura. Qu'idade, tempo, e espanto De ver quão ligeiro passe, Nunca em mi puderão tanto, Que, postoque deixo o canto, A causa delle deixasse.

Mas em tristezas e nojos, Em gôsto e contentamento; Por sol, por neve, por vento, _Tendré presente á los ojos Por quien muero tan contento._ Orgãos e frauta deixava, Despôjo meu tão querido, No salgueiro que alli'stava, Que para tropheo ficava De quem me tinha vencido.

Mas lembranças da affeição Que alli captivo me tinha, Me perguntárão então, Qu'era da musica minha, Que eu cantava em Sião? Que foi daquelle cantar, Das gentes tão celebrado? Porque o deixava de usar, Pois sempre ajuda a passar Qualquer trabalho passado?

Canta o caminhante ledo No caminho trabalhoso Por entre o espêsso arvoredo; E de noite o temeroso Cantando refreia o medo. Canta o preso docemente, Os duros grilhões tocando; Canta o segador contente; E o trabalhador, cantando, O trabalho menos sente.

Eu qu'estas cousas senti N'alma de mágoas tão cheia, Como dirá, respondi, Quem alheio está de si Doce canto em terra alheia? Como poderá cantar Quem em chôro banha o peito? Porque, se quem trabalhar Canta por menos cansar, Eu só descansos engeito.

Que não parece razão, Nem sería cousa idonia, Por abrandar a paixão Que cantasse em Babylonia As cantigas de Sião. Que quando a muita graveza De saudade quebrante Esta vital fortaleza, Antes morra de tristeza, Que por abrandá-la cante.

Que se o fino pensamento Só na tristeza consiste, Não tenho medo ao tormento: Que morrer de puro triste, Que maior contentamento? Nem na frauta cantarei O que passo, e passei ja, Nem menos o escreverei; Porque a penna cansará, E eu não descansarei.

Que se vida tão pequena S'accrescenta em terra estranha; E se Amor assi o ordena, Razão he que canse a penna D'escrever pena tamanha. Porém, se para assentar O que sente o coração, A penna ja me cansar, Não canse para voar A memoria em Sião.

Terra bem-aventurada, Se por algum movimento D'alma me fores tirada, Minha penna seja dada A perpétuo esquecimento. A pena deste destêrro, Qu'eu mais desejo esculpida Em pedra, ou em duro ferro, Essa nunca seja ouvida, Em castigo de meu êrro.

E se eu cantar quizer Em Babylonia sujeito, Hierusalem, sem te ver, A voz, quando a mover, Se me congele no peito; A minha lingua se apegue Ás fauces, pois te perdi, S'em quanto viver assi Houver tempo, em que te negue, Ou que m'esqueça de ti.

Mas ó tu, terra de glória. S'eu nunca vi tua essencia, Como me lembras na ausencia? Não me lembras na memoria, Senão na reminiscencia: Que a alma he taboa rasa, Que com a escrita doutrina Celeste tanto imagina, Que vôa da propria casa, E sobe á patria divina.

Não he logo a saudade Das terras onde nasceo A carne, mas he do Ceo, Daquella santa Cidade, Donde est'alma descendeo. E aquella humana figura, Que cá me póde alterar, Não he quem se ha de buscar; He raio da formosura, Que só se deve d'amar.

Que os olhos, e a luz que ateia O fogo que cá sujeita, Não do sol, nem da candeia, He sombra daquella ideia, Qu'em Deos está mais perfeita. E os que cá me captivárão, São poderosos affeitos Qu'os corações tee sujeitos; Sophistas, que m'ensinárão Maos caminhos por direitos.

Destes o mando tyrano M'obriga com desatino A cantar ao som do dano Cantares d'amor profano, Por versos d'amor divino. Mas eu, lustrado co'o santo Raio, na terra de dor, De confusões e d'espanto Como hei de cantar o canto, Que só se deve ao Senhor?

Tanto póde o beneficio Da graça que dá saude, Que ordena que a vida mude: E o qu'eu tomei por vício, Me faz grao para a virtude; E faz qu'este natural Amor, que tanto se préza, Suba da sombra ao real, Da particular belleza Para a belleza geral.

Fique logo pendurada A frauta com que tangi, Ó Hierusalem sagrada, E tome a lyra dourada Para só cantar de ti; Não captivo e ferrolhado Na Babylonia infernal, Mas dos vicios desatado, E cá desta a ti levado, Patria minha natural.

E s'eu mais der a cerviz A mundanos accidentes, Duros, tyrannos e urgentes, Risque-se quanto ja fiz Do grão livro dos viventes. E, tomando ja na mão A lyra santa e capaz D'outra mais alta invenção, Calle-se esta confusão, Cante-se a visão de paz.

Ouça-me o pastor e o rei, Retumbe este accento santo, Mova-se no mundo espanto; Que do que ja mal cantei A palinodia ja canto. A vós só me quero ir, Senhor, e grão Capitão Da alta tôrre de Sião, Á qual não posso subir, Se me vós não dais a mão.

No grão dia singular, Que na lyra em douto som Hierusalem celebrar, Lembrae-vos de castigar Os ruins filhos de Edom. Aquelles que tintos vão No pobre sangue innocente, Soberbos co'o poder vão, Arrazá-los igualmente: Conheção que humanos são.

E aquelle poder tão duro Dos affectos com que venho, Qu'encendem alma e engenho; Que ja m'entrárão o muro Do livre arbitrio que tenho; Estes, que tão furiosos Gritando vem a escalar-me, Maos espiritos damnosos, Que querem como forçosos Do alicerce derribar-me;

Derribae-os, fiquem sós, De fôrças fracos, imbelles; Porque não podemos nós, Nem com elles ir a vós, Nem sem vós tirar-nos delles. Não basta minha fraqueza Para me dar defensão, Se vós, santo Capitão, Nesta minha Fortaleza Não puzerdes guarnição.

E tu, ó carne, qu'encantas, Filha de Babel tão feia, Toda de miseria cheia, Que mil vezes te levantas Contra quem te senhoreia; Beato só póde ser Quem co'a ajuda celeste Contra ti prevalecer, E te vier a fazer O mal que lhe tu fizeste:

Quem com disciplina crua Se fere mais que huma vez; Cuja alma, de vicios nua, Faz nodas na carne sua, Que ja a carne n'alma fez. E beato quem tomar Seus pensamentos recentes, E em nascendo os affogar, Por não virem a parar Em vicios graves e urgentes:

Quem com elles logo der Na pedra do furor santo, E batendo os desfizer Na Pedra, que veio a ser Emfim cabeça do canto: Quem logo, quando imagina Nos vicios da carne má, Os pensamentos declina Áquella Carne divina, Que na Cruz esteve ja.

Quem do vil contentamento Cá deste mundo visibil, Quanto ao homem for possibil, Passar logo entendimento Para o mundo intelligibil; Alli achará alegria Em tudo perfeita, e cheia De tão suave harmonia, Que nem por pouca recreia, Nem por sobeja enfastia.

Alli verá tão profundo Mysterio na summa Alteza, Que, vencida a natureza, Os mores faustos do mundo Julgue por maior baixeza. Ó tu, divino aposento, Minha patria singular, Se só com te imaginar, Tanto sobe o entendimento, Que fara se em ti se achar?

Ditoso quem se partir Para ti, terra excellente, Tão justo e tão penitente, Que despois de a ti subir, Lá descanse eternamente!

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CARTA A HUMA DAMA.

Querendo escrever hum dia O mal, que tanto estimei; Cuidando no que poria, Vi Amor que me dizia: Escreve, qu'eu notarei. E como para se ler Não era historia pequena A que de mi quiz fazer, Das azas tirou a penna Com que me fez escrever.

E, logo como a tirou, Me disse: Aviva os espritos; Que pois em teu favor sou, Esta penna, que te dou, Fara voar teus escritos. E dando-me a padecer Tudo o que quiz que puzesse, Pude emfim delle dizer, Que me deo com qu'escrevesse O que me deo a escrever.

Eu qu'este engano entendi, Disse-lhe: Qu'escreverei? Respondeo, dizendo assi: Altos effeitos de mi. E daquella a quem te dei. E ja que te manifesto Todas minhas estranhezas, Escreve, pois que te prézas, Milagres d'hum claro gesto, E de quem o vio, tristezas.

Ah Senhora, em quem se apura A fé de meu pensamento! Escutae e estae a tento, Que com vossa formosura Iguala Amor meu tormento. E, postoque tão remota Estejais de m'escutar Por me não remediar, Ouvi, que pois Amor nota, Milagres se hão de notar.

Escrevem varios Authores, Que junto da clara fonte Do Ganges, os moradores Vivem do cheiro das flores Que nascem naquelle monte. Se os sentidos podem dar Mantimento ao viver, Não he logo d'espantar, S'estes vivem de cheirar, Que viva eu só de vos ver.

Huma árvore se conhece, Que na geral alegria Ella tanto s'entristece, Que, como he noite, florece, E perde as flores de dia. Eu, qu'em ver-vos sinto o preço Qu'em vossa vista consiste, Em a vendo m'entristeço, Porque sei que não mereço A glória de ver-me triste.

Hum Rei de grande poder Com veneno foi criado, Porque, sendo costumado, Não lhe pudesse empecer, Se despois lhe fosse dado. Eu, que criei de pequena A vista a quanto padece, Desta sorte m'acontece, Que não me faz mal a pena, Senão quando me fallece.

Quem da doença Real De longe enfêrmo se sente, Por segredo natural Fica são vendo somente Hum volatil animal. Do mal, que Amor em mi cria, Quando aquella Phenix vejo, São de todo ficaria; Mas fica-me hydropesia, Que quanto mais, mais desejo.

Da vibora he verdadeiro, Se a consorte vai buscar, Qu'em se querendo juntar, Deixa a peçonha primeiro, Porque lh'impede o gerar. Assi quando m'apresento Á vossa vista inhumana, A peçonha do tormento Deixo á parte, porque dana Tamanho contentamento.

Querendo Amor sustentar-se, Fez huma vontade esquiva D'huma estatua namorar-se: Despois, por manifestar-se, Converteo-a em mulher viva. De quem m'irei eu queixando, Ou quem direi que m'engana Se vou seguindo e buscando Huma imagem, que d'humana Em pedra se vai tornando?

D'huma fonte se sabía, Da qual certo se provava Que quem sôbre ella jurava, Se falsidade dizia, Dos olhos logo cegava. Vós, que minha liberdade, Senhora, tyrannizais, Injustamente mandais, Quando vos fallo verdade, Que vos não possa ver mais.

Da palma s'escreve e canta Ser tão dura e tão forçosa, Que pêzo não a quebranta, Mas antes, de presunçosa, Com elle mais se levanta. Co'o pêzo do mal que dais, A constancia qu'em mi vejo, Não somente ma dobrais, Mas dobra-se meu desejo, Com qu'então vos quero mais.

Se alguem os olhos quizer Ás andorinhas quebrar, Logo a mãe, sem se deter, Huma herva lhe vai buscar Que lhes faz outros nascer. Eu que os olhos tenho attento Nos vossos, qu'estrellas são, Cegão-se os do entendimento, Mas nascem-me os da razão De folgar com meu tormento.

Lá para onde o sol sahe, Descobrimos, navegando, Hum novo rio admirando, Que o lenho que nelle cahe, Em pedra se vai tornando. Não s'espantem disto as gentes; Mais razão será qu'espante Hum coração tão possante, Que com lagrimas ardentes Se converte em diamante.

Póde hum mudo nadador Na linha e cana influir Tão venenoso vigor, Que faz mais não se bulir O braço do pescador. Se começão de beber Deste veneno excellente Meus olhos, sem se deter, Não se sabem mais mover A nada que se apresente.

Isto são claros sinais Do muito qu'em mi podeis: Nem podeis desejar mais; Que se ver-vos desejais, Em mi claro vos vereis. E quereis ver a que fim Em mi tanto bem se pôs? Porque quiz Amor assim, Que por vos verdes a vós, Tambem me visseis a mim.

Dos males que m'ordenais, Qu'inda tenho por pequenos, Sabei, se mos escutais, Que ja não sei dizer mais, Nem vós podeis saber menos. Mas ja que a tanto tormento Não se acha quem resista, Eu, Senhora, me contento De terdes meu soffrimento Por alvo de vossa vista.

Quantos contrarios consente Amor, por mais padecer! Que aquella vista excellente, Que me faz viver contente, Me faça tão triste ser! Mas dou este entendimento Ao mal, que tanto m'offende, Como na vela s'entende, Que se se apaga co'o vento, Co'o mesmo vento se accende.

Exprimentou-se algum'hora D'ave, que chamão Camão, Que se da casa, onde mora, Vê adúltera senhora, Morre de pura paixão. A dor he tão sem medida, Que remedio lhe não val. Mas oh ditoso animal, Que póde perder a vida, Quando vê tamanho mal!

Nos gôstos de vos querer Estava agora enlevado, Se não fôra salteado Das lembranças de temer Ser por outrem desamado. Estas suspeitas tão frias, Com que o pensamento sonha, São assi como as harpias, Que as mais doces iguarias Vão converter em peçonha.

Faz-me este mal infinito Não poder ja mais dizer, Por não vir a corromper Os gostos que tenho escrito, Co'os males qu'hei d'escrever. Não quero que s'apregôe Mal tanto para encobrir, Porque em quanto aqui s'ouvir Nenhuma outra cousa sôe, Que a glória de vos servir.

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Á MESMA.

Dama d'estranho primor, Se vos for Pezada minha firmeza, Olhae não me deis tristeza, Porque a converto em amor. E se cuidais De me matar, quando usais D'esquivança, Irei tomar por vingança Amar-vos cada vez mais.

Porém vosso pensamento, Como isento, Seguirá sua tenção, Crendo qu'em tanta affeição Não haja accrescentamento. Não creais Que desta arte vos façais Invencibil; Que Amor sôbre o impossibil Amostra que póde mais.

Mas ja da tenção que sigo, Me desdigo; Que se ha tanto poder nelle, Tambem vós podeis mais qu'elle Neste mal que usais comigo. Mas se for O vosso poder maior Entre nós, Quem poderá mais que vós, Se vós podeis mais que Amor?

Despois que, Dama, vos vi, Entendi, Que perdêra Amor seu preço; Pois o favor que lh'eu peço, Vos pede elle para si. Nem duvido Que não póde, de sentido, Resistir; Pois em vez de vos ferir, Ficou de vos ver ferido.

Mas pois vossa vista he tal Em meu mal, Que posso de vós querer? Que mal poderei valer, Onde o mesmo Amor não val. Se attentar, Nenhum bem posso esperar: E oxalá Que vos alembrasse ja, Sequer para me matar.

Mas nem com isto creais Que façais Meus serviços mais pequenos; Porqu'eu, quando espero menos, Sabei qu'então quero mais. Nada espero; Mas de mi crede este fero, Qu'em ser vosso, Vos quero tudo o que posso, E não posso quanto quero.

Só por esta phantasia Merecia De meus males algum fruito; E não era certo muito Para o muito que queria. De maneira, Que não he, na derradeira, Grande espanto, Que quem, Dama, vos quer tanto, Que outro tanto de vós queira.

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A HUMAS SUSPEITAS.

Suspeitas, que me quereis? Qu'eu vos quero dar lugar Que de certas me mateis, Se a causa, de que nasceis, Vós quizesseis confessar. Que de não lhe achar desculpa, A grande mágoa passada Me tee a alma tão cansada, Que se me confessa a culpa, Te-la-hei por desculpada.

Ora vêde que perigos Tee cercado o coração, Que no meio da oppressão A seus proprios inimigos Vai pedir a defensão! Que, suspeitas, eu bem sei, Como se claro vos visse, Que he certo o que ja cuidei; Que nunca mal suspeitei, Que certo me não sahisse.

Mas queria esta certeza Daquella que me atormenta; Porque em tamanha estreiteza Ver que disso se contenta, He descanso da tristeza. Porque se esta só verdade Me confessa limpa e nua De cautela e falsidade, Não póde a minha vontade Desconforme ser da sua.

Por segredo namorado He certo estar conhecido Que o mal de ser engeitado Mais atormenta sabido Mil vezes, que suspeitado. Mas eu só, em quem se ordena Novo modo de querella, De medo da dor pequena, Venho a achar na maior pena O refrigerio para ella.

Ja nas iras m'inflammei, Nas vinganças, nos furores, Que ja doudo imaginei; E ja mais doudo jurei De arrancar d'alma os amores. Ja determinei mudar-me Para outra parte com ira; Despois vim a concertar-me Que era bom certificar-me No que mostrava a mentira.

Mas despois ja de cansadas As furias do imaginar, Vinha emfim a rebentar Em lagrimas magoadas, E bem para magoar. E deixando-se vencer Os meus fingidos enganos De tão claros desenganos, Não posso menos fazer, Que contentar-me co'os danos.

E pedir que me tirassem Este mal de suspeitar Que me vejo atormentar, Indaque me confessassem Quanto me póde matar. Olhae bem se me trazeis, Senhora, pôsto no fim; Pois neste estado a que vim, Para que vós confesseis, Se dão os tratos a mim.

Mas para que tudo possa Amor, que tudo encaminha, Tal justiça lhe convinha; Porque da culpa, qu'he vossa, Venha a ser a morte minha. Justiça tão mal olhada Olhae com que côr se doura, Que quero, ao fim da jornada, Que vós sejais confessada, Para qu'eu seja o que moura!

Pois confessae-vos jagora, Indaque tenho temor Que nem nesta última hora Me ha de perdoar Amor Vossos peccados, Senhora. E assi vou desesperado, Porque estes são os costumes D'amor que he mal empregado; Do qual vou ja condemnado Ao inferno de ciumes.

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LABYRINTHO, QUEIXANDO-SE DO MUNDO.[1]

Corre sem vela e sem leme O tempo desordenado, D'hum grande vento levado: O que perigo não teme, He de pouco exprimentado. As redeas trazem na mão Os que redeas não tiverão: Vendo quanto mal fizerão A cobiça e ambição, Disfarçados se acolhêrão.

A nao, que se vai perder, Destrue mil esperanças: Vejo o mao que vem a ter; Vejo perigos correr Quem não cuida que ha mudanças. Os que nunca em sella andárão, Na sella postos se vem: De fazer mal não deixárão; De demonio hábito tem Os que o justo profanárão.

Que poderá vir a ser O mal nunca refreado? Anda, por certo, enganado Aquelle que quer valer, Levando o caminho errado. He para os bons confusão, Ver que os maos prevalecêrão; Que, pôsto se detiverão Com esta simulação, Sempre castigos tiverão:

Não porque governe o leme Em mar envolto e turbado, Que tee seu rumo mudado, Se perece grita e geme Em tempo desordenado. Terem justo galardão, E dor dos que merecêrão, Sempre castigos tiverão Sem nenhuma redempção, Postoque se detiverão.

Na tormenta, se vier, Desespere na bonança, Quem manhas não sabe ter: Sem que lhe valha gemer, Verá falsar a balança. Os que nunca trabalhárão, Tendo o que lhe não convem, Se ao innocente enganárão, Perderão o eterno bem, Se do mal não s'apartárão.

[1] Este Labyrintho, onde ninguem se entende, não parece obra do poeta. Nelle não fazemos emenda alguma, porque a unica judiciosa seria passar-lhe um traço por cima: o que não ousamos fazer por andar em todas as edições.

_Nota dos editores._

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