O vinho do Porto: processo de uma bestialidade ingleza exposição a Thomaz Ribeiro
Part 2
A morte desastrosa do barão de Forrester, em 12 de maio de 1861, é uma das mais notaveis vinganças que o rio Douro tem exercido sobre os detractores dos seus vinhos. A familia Ferreirinha da Regoa, composta de D. Antonia Adelaide, de seu marido Silva Torres, o millionario, digno de o ser pela bizarria das suas generosidades, de sua filha e genro, condes da Azambuja, tinham ido, rio acima, á sua celebrada quinta do Vesuvio, e convidaram o barão de Forrester a passar uma semana em sua companhia. No dia 12, um alegre domingo, sahiram todos do Vesuvio, na intenção de jantarem na Regoa. O Douro tinha engrossado com a chuva de dois dias, e a rapidez da corrente era caudalosa. Aproando ao ponto do _Cachão_, formidavel sorvedouro em que a onda referve e redemoinha vertiginosamente, o barco fez um corcovo, estalou, abriu de golpe e mergulhou no declive da catadupa. O barão soffrêra a pancada do mastro quando se lançava á corrente, nadando. Ainda fez algum esforço por apégar á margem; mas, fatigado de bracejar no têzo da corrente ou aturdido pelo golpe, estrebuchou alguns segundos de agonia e desappareceu. Salvaram-se os outros, não todos, com a protecção de uns barcos que ahi estavam para recolher o despojo de outro naufragio de um transporte de cereaes. Livrou-se Torres, o futuro par do reino, agarrado a um barril de azeite, até que o recolheram a um dos barcos. D. Antonia e o conde de Azambuja aferraram-se ás dragas do barco. A condessa foi salva por um marinheiro. Um juiz de direito, Aragão Mascarenhas, agarrou-se á vára do barco rijamente, qual o temos sempre visto filado á vara da Justiça, em naufragio de trapaças. Mas nem todos sahiram com vida. Um creado de Torres foi logo tragado pela cachoeira; e, abraçada com a vella, já quando se lhe estendia um braço redemptor, afogou-se uma creatura a quem os noticiaristas não deram a minima importancia.
Pois foi uma pêrda insubstituivel. Era a Gertrudes, um thesouro de joias culinarias que a voragem enguliu. Foi esta mulher uma alma transmigrada das refinadas civilisações pagans, a metempsycose de algum genio do lar que presidira ás ucharias da Roma dos Cezares. Foi a cozinheira primacial do Porto, onde residia. Tinha sido chamada por D. Antonia Ferreira para dirigir os jantares dados ao barão de Forrester, no Vesuvio.
Ali acabou. O rôlo de uma onda regeitou-a morta contra um lapêdo carcomido de cavernas sonoras a gottejar o lodo da babugem.
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Devo a esta creatura o gaudio ineffavel de me sentir viver nas palpitações de uma felicidade edenica desde os vinte e tres annos de idade até esta decrepitude verdejante de bucolicos musgos. Mal me lembra que pequeno serviço eu fizera ao marido d'ella, um bravo e envelhecido alferes de veteranos que se reformára em 1835 por impedido de servir, crivado de ferimentos graves em algumas batalhas do cêrco. Agora me recordo: o alferes estava servindo em um dos antigos telegrafos de paineis, no pincaro de qualquer serra muito agreste, e gemia o seu rheumatismo seis mezes e saudades da mulher o resto do anno. Consegui que o deixassem viver com a sua Gertrudes, que o não acompanhára ás solidões dos telegrafos de taboinhas por não prescindir do grande estipendio como directora de cozinha nas lautas Lupercaes politicas, por esse tempo, frequentes no Porto.
Comia-se então muitissimo no Baluarte por excellencia. Ministro ou general que chegasse a fazer ou desfazer revoltas, cabecilha eleitoral que viesse arregimentar as suas hostes, enchendo-lhes a consciencia de liberalismo e carneiro guisado com batatas, era contar com opiparas comezanas em que os cabralistas levavam enorme vantagem na profusão. Os homens de Setembro, os _patulêas_, em 1849, distinguiam-se na frugalidade. Os irmãos Passos alimentavam rusticamente os seus organismos plebeus, de Cincinnatos, endurecidos na educação do toicinho e das feculas de Bouças. Os seus correligionarios andavam ainda na aprendisagem de comer, e ameaçavam a magra meza do orçamento para praticarem. Ainda não tinha surgido de vez o Apicio de todos os paladares, o Rodrigo da Fonseca Magalhães, com as suas raposías, o qual, entendendo com Aristoteles que o homem é um animal essencialmente politico, inaugurou o elasterio membranoso de todos os esôphagos, sob o especioso lemma de homogeneidade de principios, pela fusão de todos em uma só consciencia que vinha a ser nenhuma propriamente dita, ou o relaxamento de todas as consciencias n'um estomago commum de duas ou trez politicas. E assim conseguiu que todos os candidatos á panella do Estado esmoessem o corneo bôlo indigesto das suas _Bernardas_ no largo e fundo estomago da alma, _mentis nostrae stomachum_, como disse S. Pedro Damião, profetisando a physiologia do espirito politico do seculo XIX (OPUSC. 12. c, 38. _mihi._)
Gertrudes não tinha mãos a medir, se vinha ao Porto um ministro de obras publicas que deitasse passeio até á Foz e outro passeio até Leixões, tracejando barras com a badine nos páramos do Azul. Então, a classe argentea, uma casta que se investira no patriciado pelo jús da moeda falsa, da escravatura, do contrabando, e talvez do clyster no vinho do Porto, se esse escandalo coubesse no possivel--os philistinos, uma fidalguia com a raiz da arvore de geração na Noruega, á americana--_the codfich's aristocracy_--senhores de navios e balcões unctuosos de substancias alimenticias adulteradas, andavam á compíta, a vêr qual havia de espiritualisar mais os ventriculos encephalicos do ministro, ingerindo-lhe altas dózes de phosphoro por intermedio dos rodovalhos celebrados nos triclinios dos Cressus e Lucullos das Congostas, Rebolleira e alfurjas circumjacentes. As barras da Foz e Leixões ahi se ostentam uns primores d'arte hydrographica attestando que os ministros segregaram perfeitamente o phosphoro, o rodovalho--comeram o peixe e mais a isca. Os amphitriões, esses representam o anzol do anexim; mas, norteando a outras regiões, revelaram uma phantazia oriental, malabar, nos jogos de Bancos.
PARENTHESIS
O AUCTOR (_á parte_)
No Porto ha um grupo invulneravel de negociantes que preservam incontaminadas as tradições da probidade antiga. São esses os mais expostos ao azar de partirem os braços, se tentarem encravar as engrenagens dissolventes. Não ha fortuna grangeada com honra que ouse atravessar sem mêdo as maltas dos salteadores que sahem ás encruzilhadas da politica, se não topam viandantes incautos nas incruzilhadas do negocio.
Se a estocada dos melindres resvalou no arnez d'esta satisfação dada aos homens de bem, fecha-se o parenthesis.
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--Que ha de novo, madame Brillat-Savarin?
Esqueceu-me prevenir-te, Thomaz Ribeiro, de que eu chamava _madame Brillat-Savarin_ á Gertrudes. Custava muito aos melindres estheticos do meu espirito caprichoso em onomastica chamar-lhe _Gertrudes_, um nome de que resa o Agiologio, é certo, mas não sôa lyricamente a orelhas classicas nem romanticas. Auctorisado com as minhas faculdades poeticamente episcopaes de chrismar, chamára-lhe _Gertruria_. Ella, porém, não comprehendendo a delicadeza do imperfeito anagramma, tomava-o como galhofa. Depois, fiz-lhe entender, que os seus talentos a nivellavam com um auctor de fama universal nas delicias do paladar, e por isso me deixasse dar-lhe a ella, feminisando-o, esse nome glorioso e novo no mais descurado ramo das artes uteis entre os portuguezes, incultos hottentotes quanto á culinaria, nutrindo-se com um _menu fort chiche_, pouco avantajado á cosinha dos epicos Affonsos que não conheceram os alimentos nervosos, e devoravam, para acerar o musculo, javalis inteiros na braza como os esquimós comem os ursos e os kangurus. E Gertrudes consentiu que eu, maridando-a espiritualmente com o immortal regalão da França, lhe chamasse _madame Brillat-Savarin_.
Contava-me ella então os jantares que dirigira, a pedido de quem e para quem, com interessantes pormenores, miudezas, bisbilhotices, ridicularias da vida intima. Dest'arte, estava eu em dia com o evolucionismo politico, com a sociologia, com a ethnographia, com as crizes catemeniaes da CARTA constitucional, com o fomento das obras publicas, especialmente barras de Leixões e Foz. Emfim, eu sabia tudo, sem resalva das abominações procedentes do fogão; e os deuses me são testemunhas de que eu em cento e tantos volumes de analyse de ruins costumes nunca fiz máo uso dos segredos de Gertruria, quanto a uns pasteis de lagostins e mexilhões que ella cosinhava, a pedido de varias familias, para entreterem sempre accêso o fogo da amisade--o fogo sagrado das vestaes, segundo a lei Pápia.
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Agora te vou contar como ella me salvou aos vinte e tres annos.
Em 1849, a invasão subita de uma anemia vampirisou-me o pouco sangue desoxigenado, desfibrinado, e me poz os ossos em decomposição gelatinosa, a ponto de me deixar em uma ressicação óssea; e, se eu ia durando, é porque já me não restava carne em que se aferrasse a garra adunca da dura Parca de então, ou da «sinistra rameira» como ultimamente lhe chamam os vates.
Gertruria, desde que eu fui á cama, visitava-me a miudo no Hotel-Francez, na rua da Fabrica, um velho palacio que tinha ao rés da rua a officina e escriptorio do _Nacional_, redigido pelo professor egresso Antonio Alves Martins, Almeida e Brito, Damazio, Parada Leitão, Nogueira Soares, Evaristo Basto, Lobo Gavião, Eu tinha a meu cargo a secção das frioleiras. O meu chorado amigo bispo de Vizeu exterminára-me do districto sério do jornal, quando descobriu que os meus _artigos-de-fundo_ eram commentarios perpetuos e paraphrases miguelistas ao _Rei-chegou_, escriptas _un peu à la diable_. E, na verdade, Thomaz Ribeiro, eu, áquelle tempo, sentia pelos monarchas absolutos tamanho affecto quanto é o odio que hoje professo á canalha absoluta. Um dos meus collegas do andar-nobre d'aquelle edificio de papel ordinario da Abelheira, Sebastião d'Almeida e Brito, dous annos antes, sendo ministro da Junta Suprema do Porto, quando viu a relé armada, urrando morras aos cabralistas proprietarios, enfardelou a sua bagagem para emigrar para Tuy. Alguns dos outros meus collegas nada enfardelaram, porque pouco mais tinham que estylo, um glossario de phrases redondas e polidas como bolas de strychnina contra o conde de Thomar; alguns cabeçalhos de proclamações ao Povo chamando-lhe rei coroado de espinhos; a tragedia de Jesus, o calvario, a esponja, etc., a proposito de um patriota eximio a quem os caceteiros chamôrros amolgaram duas costellas; varios threnos gemebundos sobre a patria agonisante de Viriato, da Brites d'Aljubarrota, de João Pinto Ribeiro e Fernandes Thomaz; e, afóra isto que é de facil transporte para quem emigra, todos tinham palpitantes anhelos na carta de conselho, nas dragonas de general, na escrivaninha de direito, no baculo prelaticio, etc. Pois todos aproaram e abicaram á terra da promissão: só eu fiquei um perpetuo cultor da secção das frioleiras. Nem sequer já possuo uma e unica distincção que tinha, por que ha muitos annos se dissolveu, sem ser dissoluta, a _Philarmonica_ da Rua das Hortas de que fui socio; de maneira que hade ser muito difficil provar-se perante a posteridadade perplexa, a minha identidade de portuguez do seculo decimo nono por falta de um habito de Christo. Nem um habito de Christo até á data d'esta! Que este suspiro te não chegue á alma como um remorso, ó Thomaz Ribeiro, ex-ministro do reino, ex-claviculario do cofre das Graças régias! Ah! não. Eu sei que me consideras sobejamente afidalgado com as caricias das outras Graças parnasianas, filhas de Jupiter e de Venus, tres tarascas incortiçadas, flatulentas, com hysterismos senis, fistulas e dôres osteócopas, repercussões de antigas lubricidades, em saturnaes de batuques compassados por cithara e arrabil com os lascivos Aonios e Melybeus nos outeiros monasticos, nas academias, e nos natalicios das Marcias e Francelias. Sim: nós cá vamos vivendo, ellas e eu, n'um soccorro mutuo de cataplasmas de linhaça, de rapé e chás de tilia.
Tudo mais acabou. O palacio ardeu; os meus mestres e camaradas do _Nacional_ morreram todos; e este arcaboiço, que resta e conserva o nome que eu tinha então, devem-o á Gertrudes a litteratura nacional e as dezenas de boticas que eu tenho consummido, como um suicida recatado que não quer escandalos.
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Foi assim que ella me salvou ... Mas receio enfastiar-te, meu amigo, sem chegar a sensibilisar-te. O exterminio da Rhetorica foi uma calamidade para os que pretendem commover. A gente, dantes, conhecia umas figuras de eloquencia que puxavam arithmeticamente um certo numero de lagrimas das coisas, _lacrimae rerum_, aos olhos das pessoas. Se a glandula do liquido sentimento não se abria ao toque da metaphora, era seguro fender-se golpeada pela penetrante hyperbole. Hoje em dia já se não chora senão com uma ophtalmia. De mais a mais, os artistas superiores no officio de escrever, alveneis do templo da Memoria, Vitruvios e Possidonios do eterno Pantheon, com pouca argamassa de phrases, ageitavam uns rendilhados nichos de immortalidade para os seus amigos, em quanto eu, cabouqueiro de obra grossa, terei de ser enfadonhamente palavroso para esquadriar uma lousa, brunil-a, gravar-lhe um _vale_ de saudade agradecida, e assentai-a sobre uma campa ... Uma campa! Não a teve a pobre Gertrudes. Lá se desfez na leiva barrenta de qualquer adro desconhecido d'aquellas desoladas charnecas do Douro.
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Assistira, um dia, Gertrudes ao meu jantar e viu que eu me confrangia enjoado pelo espectaculo repulsivo de meia franga recozida e um caldo branco em que boiavam uns olhos amarellos da enxundia do oveiro da ave. Ella cheirou de longe o caldo fumegante, e disse com engulho:
--Captiva! isto nem com fome de cão se podia tragar!
Que o medico me não deixava comer outra coisa,--balbuciei tão extenuado e offegante que me parecia despegar-se o ultimo colchete da existencia n'um esvahir de desmaio.
--Sinto-me morrer ...--murmurei flebilmente.
--E morre decerto!--confirmou ella com sinistra solemnidade--morre, se não mudar de comida. Quer que eu o ponha rijo? Diga á dona da hospedaria que a sua enfermeira e cozinheira sou eu.
Não esperou resposta e sahiu. Pouco depois, voltou muito afreimada, tirou a mantilha de sarja, mudou de calçado para não fazer bulha com os tacões das botinhas, cingiu um lenço na fronte recolhendo os bandós, atou um avental de riscadinho na cintura e foi para a cozinha. Quando entrou com uma caçoula coberta, o perfume vaporado do rebordo da tampa abriu subitamente no meu olfacto uma fonte de vida, uma sensação entre espiritual e nazal, um quasi extasis, como a evidencia da immortalidade do _eu_. Arranjou a meza de leito com o talher, afofou-me as travesseirinhas nas costas angulosas, escadeadas como um pedaço de velho cancêllo desengonçado, a cahir das dobradiças despregadas,--e passou para uma travessa o acepipe fumegante. Eram duas mãos de boi guizadas, loiras, de uma unctuosidade oleosa que punha caricias ferozes nos dentes, e aguçava na abobada palatina as cobiças dantescas do faminto Ugolino e de um professor portuguez de instrucção primaria. Devorei uma das mãos, sopeteando no molho pedaços de pão que engulia inteiros, soffregamente, n'uma intallação.
--Poderei comer a outra mão, snr.ª Gertrudinhas? perguntei esperando em anciosa incerteza a resposta duvidosa.
--Se tem vontade, coma. Que sente lá por dentro?
--Fome, snr.ª Gertrudes, fome!
--Então coma; a natureza que lh'o pede, é por que não lhe faz mal.
E não fez. Fumei um charuto que até áquelle momento me nauzeára. Pedi café e cana de Paraty. Estive quasi a pedir as calças para me levantar.
--Nada de boticadas! intimou ella; e, pegando em dous frascos de pilulas de ferro de Blaud e de Vallet, e de meia garrafa de vinho quinado despejou tudo na primeira vasilha concava que se offereceu á sua indignação.--Fóra com a porcaria!--bradava gesticulando, com a cólera scientifica e a justiça indefectivel de um medico homeopata.
No dia seguinte deu-me de jantar troixas de recheio, bifes de presunto de Melgaço e meio melão. O medico assistente, o João Ferreira, grande clinico, veio á tarde, e poz-se a farejar.--Que lhe cheirava a melão! se eu praticára a loucura de comer melão?!--A Gertrudes acudiu á minha perplexidade:--que fôra ella quem o comêra; que eu, coitadinho, estava a caldos e aza de franga, uma desgraça!
O doutor tomou-me o pulso, e fez um gesto de satisfação tranquillisadora:--que eu estava melhor quanto ao pulso, um pouco rapido, mas regular; auscultou-me a região precordial; já mal percebeu o _ruido de folle_; porém, continuava a fariscar o melão, desconfiado, chegando o seu descompassado nariz absorvente ao meu perfido halito, quando me auscultava as arterias carotidas.
Á noite, visitou-me outro medico, interessado na minha cura duvidosa, como amigo. Era Camara Sinval, lente da Escóla Medico-Cirurgica, um que prégava, não por hypocrisia, mas por paixão desvairada da Arte dos Vieira e Bourdaloue, sermões ultramontanos empavezados de sapiencias academicas com grandes empolas de latim pagão. Nunca me receitava. Para as insomnias mandava-me lêr philosophos e poetas epicos. Disse-me que, na sua clinica, empregava primeiro as epopeas desde a _Iliada_ até á _Henriqueida_; e, em ultimo recurso, os systemas philosophicos desde Platão até Victor Cousin. Que tivera--contava--um doente de insomnia rebelde que resistira singularmente ao 1.º e parte do 2.º Canto dos _Luziadas_; mas, perdidas as esperanças de anesthesia, lhe lêra duas paginas de Kant, e o enfermo ficára sopitado n'um lethargo de Epimenides. Aconselhou-me a Homeopathia, medicina inoffensiva e de vantagem para fantasistas supersticiosos. Apenas lhe achava o defeito de ter entre os seus medicamentos uma _Eufrazia_ e uma _Ignacia_; por que, se tivesse tambem uma _Athanasia_, seriam as trez Parcas com pseudonymos lethaes. Entretanto, achou-me espantosamente melhor. Não acreditava. Queria saber o que eu tinha tomado. Referi-lhe a verdade--as mãos de boi, os bifes de presunto, as troixas, o melão, a Providencia, sobre tudo a Providencia na pessoa de Gertrudes.
--É uma grande clinica a Gertrudes, disse elle; mas, se ella ámanhã lhe der lampreia, congro de caldeirada, timbal de camarões ou sallada de pepino, aconselho-lhe que se abstenha. A morte pela fome e a morte pelo enfartamento andam sempre de braço dado.
--Mas, se a natureza pede ...--atalhei plagiando Gertrudes.
--Nada de pantheismo. A natureza compõe-se de dois elementos em proporções desiguaes: Deus como um, e Diabo como trez. Sou manicheu. Apenas concedo ao Bem a quarta parte de acção na regedoria do universo. O Diabo é quem faz os venenos dos vegetaes e dos mineraes, o frio que gela o sangue e o calor que abraza o cerebro, e a hydrophobia, e o raio e os terramotos, e a cholera asiatica, os miasmas homicidas dos pantanos e cavernas, e, sobre todos os flagellos, o homem que, fornecendo uma pequena parte de si, uma costella, produziu essa pessima coisa--a mulher. Não se fie na natureza, e muito menos na humana, por que essa é a mais corruptivel, e a mais fetida quando apodrece de todo. Por emquanto vá comendo as mãos de vacca; mas fique por ahi que não vá metter os pés pelas mãos.
Isto, com embrechados de latim de Horacio e da Biblia, abalou-me quanto á dieta.
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Conversemos um pouco a respeito d'este medico, meu querido Thomaz Ribeiro. Sinval era geometricamente materialista, uma razão emancipada das intercadencias pathologicas da Fé. E fazia e prégava sermões nas egrejas catholicas. Como n'esta farça da vida é ridiculo o papel dos homens mais intelligentes! Era atheu; por que «se existisse Deus (dizia o precíto) duas das suas muitissimas perfeições seriam a Bondade e a Presciencia. Ora a _maldade_ da creatura contradiz a _bondade_ do creador; e a _liberdade_ do homem, condemnado por causa d'ella, faz repugnancia á _presciencia_ de Deus que teria creado o homem livre para o condemnar como insubordinado. Cacologia!--exclamava elle.
Mas que falta de logica! Se eu, n'um impeto de erudição entupidora, lhe citava o invicto argumento de Voltaire: «Se não existisse Deus, seria preciso invental-o», Sinval respondia-me com Diderot: _C'est ce qu'on a fait_. E quem ficava entupido, a final, era eu, por que as minhas lettras theologicas eram uma lastima. Havia de ser hoje!... Quanto á immortalidade da alma, dizia elle que havia de esclarecer-se depois da morte. Eu não lhe replicava, por tambem me parecer esse expediente o mais acertado.
--Mas desconfio que todas as minhas trez almas são mortaes--acrescentou elle.
--Trez?!
--São trez as almas que o divino Platão me concede no _Timeu_. Dá-me uma alma immortal na cabeça, e duas almas mortaes, uma no peito, e outra na barriga, separadas pelo diaphragma.
E, com effeito, verifiquei depois que Platão, considerado por alguns SS. PP. o precursor do christianismo, dava trez almas a cada pessoa; e, nas minhas especulações physiologicas, encontrei sugeitos com as trez almas, porém todas na barriga.
Lembram-me algumas definições d'este sensualista que sabia o seu Lucrecio de cór. Definia elle a virtude _um producto artificial da politica e da vaidade_. Aqui ha bastante sensatez; mas esta definição estava dada por Mandeville e impugnada por Berkeley, seculo e meio antes de Sinval nascer.
Definição do _homem_: «O homem é um organismo servido por bons e máos instinctos, alguns mais ferozes que os das alimarias, e nenhum tão intelligente como os do castor, das formigas e das abelhas; além d'isso, tem o dom da palavra, se lh'a ensinam, e vai muito além do papagaio em glotica. Ha uma só distincção que extrema o homem de todos os outros animaes ...»
--A alma--interrompi eu perspicazmente.
--Não. A mentira. O homem é o unico animal que mente.
Definição da _vida_: «É uma alternativa de assimilação e desassimilação, de secreção e excreção. _Pensamento_ é o resultado de combinações chimicas.»
--Então, vida organica e vida da consciencia é tudo chimica? E o Amor tambem?
--É, e da mais grosseira e trivial, por ser a unica exercitada na retorta do boticario da aldeia. O amor do homem primitivo e selvagem era uma paixão genesica, typica, servida em todo o reino animal por orgãos identicos, histiologicamente e physiologicamente semelhantes, e a final de contas uma funcção exosmosica de um lado e endosmosica do outro, percebe você? O amor do homem actual e culto é a mesma exuberancia bruta do organismo, modificado por alguns sonetos á fêmea; porém, no fundo da Natureza, está o inalteravel _cliché_.
E eu, melancolicamente, com gestos desolados:
--Com que então, _endosmose_ o amor de Beatriz, de Laura e Leonor!... oh! oh!
E elle sorridente:
--_Sensiblerie_ piegas, amigo meu, as suas interjeições theatraes. Se Beatriz e as outras meninas, em vez de gerarem, por inspiração, sonetos e poemas, tivessem occasião de gerar meninos robustos--com o quê a litteratura de cabotagem teria perdido bastante--você mal poderia explicar-me transcendentalmente o phenomeno psychico do amor do Dante e dos outros e de Beatriz e das outras. Nas regiões selvaticas onde o sensualismo se retoiça desenfreadamente em promiscuidade de homens e mulheres, como classifica você esse estimulo bruto da carne? É talvez o classico Cupido que desembesta do arco flechas de amor aos coiros fuscos dos australezes, hein? Vá perguntar a um cafre kuza se elle sabe o que é _amor_, e pergunte á cafrina se ella entende o que seja _pudor_ ...
--Perdão! o pudor é universal, particularmente nas mulheres sem excepção das raças mais atrazadas. Haja vista ás tangas ...
--Ora muito obrigado pelas suas tangas ...--atalhou Sinval a impulsos de riso.--O celebre viajante Cook, na sua _Primeira viagem_, conta que em Taiti as mulheres, por um refinamento de educação esmerada, quando cumprimentam alguem, exhibem aquella metade do corpo menos usual nas exposições ao ar livre.
--Quão delicadas!