O Vegetarismo e a Moralidade das raças

Chapter 3

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«Mas do mesmo modo que o homem primitivo, colocado em circunstâncias desfavoráveis, teve de trocar a alimentação vegetal pela alimentação animal, do mesmo modo poderá, quando tiver consciência da sua miseria e souber reconhecer como seus todos os sofrimentos dos homens e dos animais, voltar por um esforço de vontade a uma alimentação exclusivamente vegetal. Só por tal preço póde esperar a regeneração. Assim não se deixará desanimar nesta empresa por nenhuma dificuldade de ordem prática. Wagner considera como uma verdade experimental demonstrada que o homem pode amoldar-se a um regime vegetariano em todas as latitudes. Mas não hesita em declarar que no caso em que se reconhecesse a necessidade duma alimentação animal nos climas do norte, as raças superiores deveriam emigrar sistematicamente para regiões mais favorecidas do sol. Desde já considera como instituições de salvação as ligas de vegetarianos, as associações para a protecção dos animais e as associações de temperança que procuram libertar o homem da tirania medonha do álcool. Quando estas associações fracas, desprezadas e hoje um pouco ridículas, tiverem mais inteira consciência do fim sublime que teem em vista e se apresentarem ao público não como modestos apóstolos dum mediocre pensamento utilitário mas como os missionarios da doutrina da regeneração, poderão tornar-se os instrumentos eficazes da redempção do mundo moderno.»

Eis aí o que Wagner pensava do vegetarismo, da alta missão social que lhe está guardada e da influência fundamental que tem na moralidade das raças. E pronunciando o seu nome desnecessário se torne lembrar em que assombrosas faculdades esta doutrina encontrou protecção e impenetrável escudo.

Acrescentemos ainda a essa voz de excepcional poder mais um depoimento. É o de E. Réclus.

O seu talento, o seu saber, os seus infinitos conhecimentos da terra e dos homens as suas virtudes morais, a sua sinceridade, a sua inteireza e a sua coragem que ele sujeitou às mais crueis provações e que de todas sairam vitoriosas, a sua própria experiência do vegetarismo que praticou durante mais de sessenta anos consecutivos e que não o impediu de morrer com mais de oitenta duma vida de trabalho infatigável e de ardente apostolodo, todas estas e muitas outras circunstâncias congêneres lhe dão um lugar privilegiado que convém respeitar, não por sua glória que do nosso humilde respeito não carece, mas por nosso interesse que do seu conselho não póde prescindir.

«Não era químico nem doutor», confessa, «não mencionará nem o azote nem a albumina, nem reproduzirá as fórmulas dos analistas mas contentar-se-á simplesmente dizendo as suas impressões pessoais que de resto coincidem com as de muitos vegetarianos.» Foi virtualmente um vegetariano desde criança. Uma pessoa de familia mandou-o um dia ao açougue buscar um pedaço de carne, e perante os horrores que lá viu, desmaiou. Ouvia que o dono do talho o trouxera a casa sem sentidos. Foi esse o seu baptismo vegetariano. Não o aprendeu nas academias, nos hospitais ou nos laboratórios. Nasceu-lhe no coração.

«Cada um de nós», diz Réclus, «especialmente aquêles que viveram em um canto da província, muito longe das cidades vulgares ordinárias, onde todas as coisas estão metodicamente classificadas e disfarçadas,--cada um de nós tem visto alguma coisa dessas barbaridades cometidas pelos que comem carne contra os animais que êles comem. Não ha necessidade de ir a nenhuma Porcopolis da América do Norte ou a uma _saladera_ de La Plata, para contemplar os horrores dos massacres que constituem a condição primária do nosso alimento quotidiano. Mas estas impressões gastam-se com o tempo; cedem perante a perniciosa influência da nossa educação de todos os dias, que tende a arrastar o indivíduo para a mediocridade, e o despoja de quanto concorra para o tornar uma personalidade original. Pais, mestres, por oficio ou por amizade, doutôres, para não falar desta poderosa individualidade que chamamos _toda a gente_, todos trabalham juntos para endurecerem o carácter da criança com respeito a êste «alimento de quatro pés» que, todavia, ama como nós amamos, sente como nós sentimos, e sob a nossa influência progride ou retrocede como nós... Não é uma digressão mencionar os horrores da guerra em conjunção com o massacre dos gados e os banquetes carnívoros. A dieta dos indivíduos corresponde exactamente aos seus modos. O sangue pede sangue. Nêste ponto, quem rememorar as suas lembranças daquêles que tem conhecido, encontrará que não póde haver dúvida possível quanto ao contraste que existe entre os vegetarianos e os grosseiros comedores de carne--ávidos bebedores de sangue--na amenidade dos seus modos, na gentileza de disposição e regularidade de vida. É certo que estas qualidades não são muito apreciadas daquelas _pessoas superiores_ que, não sendo de fórma alguma melhores que os outros mortais, são sempre mais arrogantes e imaginam que acrescentam a sua importância depreciando os humildes e exaltando os fortes. Para elas, doçura significa fraqueza: os doentes são um tropêço, e seria caridade varrêl-os do caminho. Se não forem mortos, deve-se pelo menos deixar que morram. Mas é justamente esta gente delicada que resiste á doença melhor do que os robustos...

«Seja porém como fôr, apenas digo que para a grande maioria dos vegetarianos a questão não é se os seus biceps e triceps são mais sólidos do que os daquêles que comem carne, nem se o seu organismo está mais apto a resistir aos riscos da vida e às contingências da morte, não é isso o mais importante; para eles o ponto importante é o reconhecimento dos laços de afeição e bôa vontade que unem o homem aos chamados animais inferiores e a ampliação até êsses nossos irmãos do sentimento que já pôz termo ao canibalismo êntre os homens... O cavalo e a vaca, o coelho e o gato, o gamo e a lebre, o feisão e a cotovia, são-nos mais agradáveis como amigos do que como comida. Queremos conservá-los ou como respeitados companheiros de trabalho ou simplesmente como companheiros na alegria da vida e na amizade.»

E, chegado a êste ponto, seja-me permitido prescindir das restantes testemunhas que são ainda dezenas e dezenas dos que deixaram o rasto marcado na história da civilização. Prescindo de depoimentos preciosos, prescindo, por agora, da sanção do vegetarismo pela autoridade de individualidades tão altas como, por exemplo, Leão Tolstoi, para o qual o vegetarismo é o _primeiro passo_, ou como êsse outro proféta de alêm-mar, Henrique David Thoreau que julgava «um benfeitor da sua raça» aquêle que ensinasse os homens a limitarem-se a uma dieta mais inocente e salutar do que aquela miserável de degolar cordeiros». Não ignoro que riquezas de elucidação e de exemplo deixo de usar, nem o faço sem mágoa. O meu desejo e o interesse da causa a que tão sinceramente consagro os meus pobres esforços, seria repetir linha a linha e gravar na memória dos que me escutam esse admirável breviário de Howard Williams que tem por titulo _A Etica da Dieta_ e ao qual fui beber a maior parte de aquilo que aqui reuni e coligi. Mas o que deixo apontado será por ventura o bastante para a demonstração da tése que me propus defender; e a necessidade de concluir este primeiro ponto das minhas considerações não permite que mais me alongue na apresentação dos documentos em que se fundam.

II

Disse que o vegetarismo tem os seus pergaminhos, que possue títulos autênticos de nobreza. Provam-no os documentos que apresentei. A história da civilisação registou-lhe a antiguidade; e as virtudes e os merecimentos dos homens eminentes que o serviram pela palavra e pelo exemplo são garantia da sua excelência.

_Quid inde?_ Com que direitos e por que trâmites se criou essa nobreza e por que razões ha-de persistir em nossos dias?

Consideremos por um instante os momentos em que a defesa e a prática do vegetarismo se mostraram mais calorosas, mais acentuadas nas afirmações e mais disseminadas na acção. Imediatamente se nos revelará o seu carácter e a sua influência na moralidade das raças.

Aparece-nos primeiro o vegetarismo, claramente definido e apregoado como mandamento essencial de bem viver, na escola de Pitágoras, na aurora do helenismo, quando ele começou a ter consciencia dos seus destinos e a meditar lucidamente nas responsabilidades do homem perante a vida universal.

Renova-se seis séculos mais tarde com Plutarco, quando uma pausa nas disputas do mundo sucedendo à amálgama de diferentes raças e diversíssimas aspirações religiosas em uma só e nova civilização permitiu aos homens que interrogassem o seu íntimo e conhecessem o que queriam da terra e o que lhe deviam, que fins e obrigações os encaminhavam e prendiam.

Pouco depois encontramo-lo em Alexandria onde Porfírio e a pléiade de filósofos que naquelas terras meditava a experiência de quasi dez séculos de vida social intensa investigavam as consequências que de aí derivavam para a compreenção d'este pequenino ser que é o homem.

Escurece-se na pulverização do império romano, enquanto o tumulto das guerras e a poeira do desabar de ruinas não consentiam parança em que os problemas morais da nossa vida se traçassem e solvessem. Mas logo a breve trecho eis renascido com Montaigne o vegetarismo em toda a sua pureza e formosura porque se reatava o fio perdido e quebrado da cultura antiga. Acaricia-o em seguida o humanismo do seculo XVIII, até que no seculo XIX lhe abrem de par a par as portas da cidade e porventura lhe dão ingresso no templo os mais venerandos levitas da redenção humana.

Isto é--sempre que as sociedades europeias poderam pelo gráu de cultura que atingiam ouvir a voz da consciência moral e prestar obediência aos seus ditames, o vegetarismo surge e impõe-se como uma lei a que não é permitido esquivar-nos, sob pena de ignominiosa traição do dever e de crueis remorsos. Não é outra a lição da história sôbre esta doutrina, nem outra póde ser a interpretação das vicissitudes por que tem do passado, dos entusiasmos que despertou, e dos ódios que o perseguirem e da irrepressível expansão que em nossos dias o propaga. É um fenômeno da consciência moral, invariavelmente presente onde quer que a consciência moral assista, seu filho e servo. Não é um devaneio filosófico, questão de sistema ou de lógica, é um acto de religião.

Por isso teve e tem inimigos, porque não póde dominar sem offender crenças arreigadas e potestades criadas, sem sobretudo escandalizar esse «poder arbitrário do costume e a violência da luxúria» de que falou Bernardo do Mandeville e que encontram na fé vegetariana como uma acusação dos seus crimes e uma ameaça de abolição contra as quais se revoltam.

Singular coincidência! Os apóstolos do vegetarismo não mereceram em regra as boas graças dos poderes politicos constituídos. São aborrecidos de todos os despotismos. Sendo o vegetarismo uma doutrina de amor, porventura é odiada de toda a opressão e egoismo. O certo é que os discípulos de Pitágoras foram perseguidos; Ovídio foi desterrado e Sêneca foi condenado à morte e os cataros sofreram da igreja católica as mais bárbaras crueldades.

Na verdade, significa uma profunda revolução moral com todas as consequências sociais que necessáriamente importa. Como tal o devem considerar os que o seguirem, armando-se com a coragem indispensável para afrontarem todas as penas e riscos d'uma revolução. Se os nossos tempos não toleram martírios, nem por isso pódem prescindir de tenacidade e firmeza d'animo onde uma grande aspiração se proposer conquistar o seu lugar no mundo.

A tarefa será tanto mais árdua quanto é certo que o vegetarismo se vê enleiado e combatido por tradições terríveis.

Toda a nossa civilização é filha da civilização romana. Dela viemos e na realidade nela nos mantemos; quanto julgamos progresso não é mais do que o natural desenvolvimento das bases em que ela se fundou. A nossa estrutura mental como a nossa estrutura econômica, como, sobretudo os nossos problemas sociais, tudo é a repetição e a ampliação em volume e complexidade do que o romano sentiu, criou e nos legou.

Ora, não nos iludâmos; não há talvez pior inimigo do vegetarismo do que a cultura latina. Compare-se a civilização latina com as civilizações orientais e a superioridade moral destas últimas imediatamente se nos mostra com evidência. A intemperança, a gula e a crueldade foram vícios caraterísticos do mundo romano, que na escala dos valores morais o deixaram inferior, não já à puresa do budismo, que com êsse o confronto é inadmíssivel sôb êste aspecto, mas até mesmo à sobriedade e frugalidade do grego, de cuja civilização descendia em linha recta. Aos banquetes de Luculo correspondiam as atrocidades do circo, tal qual como agora a uma hecatombe de vitelas e aves corresponde a embriaguez das touradas. Por todos os lados corre igualmente a jorros o sangue inocente dos mansos animais e nêles se deleitam o nosso ventre, o paladar e os olhos. Parece que há mais de vinte e cinco séculos a nossa raça vive sôb um anátema irrevogável de crueldade, tanto mais pungente quanto é clara a consciência da maldição que nos atormenta.

Catão, o Censor, diz-nos como orgulhoso do feito que, quando foi cônsul, deixou na Espanha o seu cavalo de guerra para aliviar o tesouro público dêsse encargo. E Plutarco, referindo o facto, acrescenta:--«Se tais coisas são exemplos de grandeza ou de mesquinhez de alma, o leitor que o julgue.»

São exemplos de mesquinhez; sentia-o o historiador tão bem como nós o sentíamos. Mas a enfermidade persiste e até hoje não podemos vencê-la e sob o seu deprimente influxo nos arrastamos. O catonismo tornou-se senão um título pejorativo, pelo menos um estigma de desumanidade. Mas nem por isso condenando-o em palavras, banimos o catonismo dos nossos corações e deixamos de sacrificar á sua desapiedade soberba tanto os homens nossos irmãos como os animais a que as demências da nossa vaidade passaram diploma de inferioridade.

Dobramos o cabo das Tormentas, escravizámos o índio, e ameaçando a terra, o mar e o mundo, tudo calcámos victoriosos e em nossos triunfos nos glorificámos. Se porém me fosse dado escolher entre a sorte do vencedor e a do vencido, diria, com pena de incorrêr em acusação de traição ao amor da pátria, que a todas as nossas glórias, que são muitas, sem embargo, e brilhantes, eu preferiria que como na Índia do seculo XVIII, trez milhões de portuguezes tivessem a coragem, que o índio teve, de preferirem morrer de fome a matar os animais seus companheiros e seus servos e amigos.

Não sei de maior grandeza na história. Não sei de exemplo de mais sublimada moralidade duma raça, de mais grandiosa, perfeita e absoluta imolação ao amor, a este amor que é a essência da vida, a razão de ser da nossa existência, o padrão único por que se póde aferir a grandeza humana, «o comêço de todo o pensamento digno d'este nome» na feliz expressão de Carlyle.

Heroísmo por heroísmo, o d'esses vencidos que maltratámos, foi infinitamente superior às façanhas militares de que tanto nos orgulhamos.

III

Se porêm o vegetarismo fôsse incapaz de captivar os homens de inteligência lúcida e coração recto só pelo seu valor moral absoluto, pelo que representa como signal da mais alta concepção moral das relações do homem com o universo e particularmente com os seres vivos que nos cercam, não poderia deixar de persuadir os mais rebeldes pela sua influência directa, imediata, como mecânica, na dissipação de flagêlo que presentemente é o maior e mais terrível dissolvente da moralidade das raças--o alcoolismo.

Não é êste o ensejo de nos ocuparmos de semelhante calamidade para afastar a qual todo o esfôrço será pouco. Mas ninguém d'olhos abertos e medianamente preocupado com a vida das sociedades e a sua fortuna poderá deixar de reconhecer com J. Reinach que, «se a questão do alcoolismo não é toda a questão social, é a mais terrível e a mais grave das questões sociais.»

O que a êsse respeito se passa em o nosso país, não o sei eu. Suponho que será tremendo, a julgar por aquilo que casualmente encontro a cada passo na vida quotidiana, pelo que vejo nas ruas e em todos os ajuntamentos dos dias de descanso, pelo que se ouve nos tribunais onde quási não há crime de violência contra as pessôas que não seja cometido sob a acção próxima ou remota do álcool, pelo movimento dos hospitais onde sob inumeráveis fórmas essa desgraça vai pedir socorro e o mais das vezes acabar.

Não o sei. As estatísticas do nosso país são menos do que incompletas ou deficientes a tal respeito; são nada. Parece que tememos saber toda a verdade e preferímos afundar-nos em cegueira total e em criminosa indiferença, embora o exemplo dos demais países nos assegure que não é assim que cada um cumpre o que deve à pátria, à humanidade e à consciência.

Mas conheço um pouco e de verdade certa o que se passa imediatamente em volta de mim, no lugar que habito, e isso basta para me aterrar infundindo-me no espírito as mais lugubres preocupações sobre o futuro da nossa raça.

Pelas estatísticas municipais corrigidas por quem por longa experiência conhece o movimento dos impostos, Aveiro com os seus 10:000 habitantes deverá ter consumido em 1911 (numeros redondos):

1.041:000 litros de vinho comum.

7:500 litros de vinhos licorosos.

11:000 litros de agua-ardente.

Isto equivaleria na mais benigna hipótese a uma despeza de 50 contos de reis e a um consumo de álcool puro de 7,5 litros por habitante, pelo menos. Se nos lembrarmos da soma de mulheres e crianças que se acha incluída nos 10:000 habitantes do total da população da cidade, poderemos fazer uma vaga ideia das percentagens extremas que deve atingir o consumo para os consumidores efectivos e tambêm da precipitação de decadência física, moral e econômica que está minando a raça.

Ora eu não posso crêr que Aveiro seja um lugar de maldição no país. Pelo contrário, inclino-me antes a pensar que será uma das terras do país menos desmoralizadas não só neste ponto mas em absoluto. E sendo assim, como tudo leva a crer, poderemos bem imaginar por este minúsculo exemplo em que inferno estamos vivendo, a que penas estamos sujeitando os nossos filhos e o futuro da nossa pátria, que tremendas responsabilidades de ignomínia e de traição não estamos tomando perante a história, porque outra traição mais infame eu não conheço do que aquela que resulta no aviltamento físico e moral dos nossos filhos.

Salvação, se a póde haver, e sem dúvida a haverá porque assim o teem demonstrado os países mais adeantados do que o nosso que conscientes do mal não descansam em lhe acudir com todos os preservativos e remédios que a experiência lhes vai aconselhando, a salvação terá de começar pela propagação do regime vegetariano que em semelhante missão, sem se degradar e antes acrescendo as virtudes, passará d'um dever moral imprescindível a uma utilidade social de primeira grandeza.

«Basta a questão do álcool para que o problema da dieta seja digno da atenção de todos os homens que amem a pátria», escreveu Russel no seu belo livro _Strength and Diet_, hoje um clássico. Se o vegetarismo é o _primeiro passo_, na opinião de Tolstoi, para a disciplina da nossa vontade na obediência religiosa, é simultaneamente a primeira regra para nos salvar da decadência do corpo e do espírito nêsse _embrutecimento_ do álcool como Tardieu lhe chamou, resumindo em uma só palavra as consequências de tal processo de envenenamento dos homens e das raças. Porque _qualis enim esus, talis est potus_; tal comida, tal bebida. Assim o disse ha longos séculos Tertuliano meditando nos trâmites da vida religiosa, buscando os caminhos por que a santidade se alcança; e a sciência dos nossos dias não desmentiu as lucubrações do teologo. Pelo contrário, absolutamente as confirmou.

Hoje, como então, a carne e o vinho são companheiros e cúmplices nessa embriaguez do nosso sangue e da nossa alma que nos conduz aos infernos de todas as demencias e abjecções.

O seu processo na desmoralização das raças é sabido. A atrofia de consciência que é o invariável resultado de todas as intemperanças da gula começará por ser acidental e transitória na sua victima, para em seguida se tornar permanente, constante, ininterrompida por virtude de repetição, e para finalmente se transmitir por hereditariedade a toda a descendência, por isso mesmo que se tornou verdadeiramente constitucional e orgânica.

É n'esta operação de aviltamento da nossa raça que o carnivorismo está colaborando activamente. Combater pelo vegetarismo é combater o alcoolismo na sua maior fortaleza.

Dos resultados que os nossos esforços, poderão ter em uma tal calamidade dizem as lições que os países estrangeiros nos facultam. Um só exemplo invocarei. Há cerca de cincoenta anos a Suécia tinha uma taberna por 100 habitantes e a Noruega uma por 200. Hoje a Suécia tem uma taberna por 5:000 habitantes e a Noruega uma por 9:000. E isto que é gigantesco como capacidade de redenção dum pôvo, não foi a obra do acaso; foi o produto do método, sistema e energia de vontade que todas as terapêuticas aproveitou. Não se é uma nação civilizada e digna por menor preço.

[A] Na verdade, os processos de cosinha carnívora não são outra coisa senão processos de corrupção; o alimento será tanto mais saboroso quanto mais perfeitamente se lhe houver dissipado a exalação fetida primitiva. Qualquer dama de mãos mimosas que trinca com delicia uma costeleta coberta de pão e embalsamada em loiro, em cravo, em salsa, em cebola, pimenta e limão, empalidece de nausea sentindo o cheiro do açougue, considera imundicie um pedaço de carne crúa nos seus vestidos e foge mais depressa da praça do peixe do que da montureira que aduba a horta.

Pelo contrario, na cosinha vegetariana o esmero e a perfeição consistem em conservar inalteravel o sabor proprio de cada alimento. Ninguem jámais teve o capricho de querer cosinhar maçãs para saberem a loiro ou feijões para cheirarem a salsa.

[B] Não acontece isso sómente com as creanças. Na gente do povo, creança tambem pela vitalidade dos instintos primitivos, mostra-se claramente a mesma tendencia. Muitos e muitos que seriam incapazes de roubar de qualquer salgadeira uma grama de toucinho, não resistem á tentação de se aproveitarem do primeiro cacho de uvas que lhes esteja á mão. Os assaltos ás hortas e pomares são frequentes, e de tal forma isso parece estar na ordem natural que grande numero dos homens rudes não lhes associa nem de longe a noção do crime. Longos seculos de corrupção da dieta não conseguiram atrofiar essas tentações d'uma atiguidade biblica, as mesmas que desgraçaram Adão e Eva.

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